Mesa Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano - uma revisitação

domingo, 28 de maio de 2017

- Nótula Explicativa -

É um tema velho, de mais de 60 anos, que o Coral-Vermelho se propõe, no essencial, (re)publicar.
A Mesa Redonda Sobre o Homem Cabo-verdiano teve lugar nas noites de 21 e 24 de Julho de 1956 no Grémio do Mindelo, em S. Vicente e foi realizada no âmbito de um trabalho de Antropologia levado a cabo pelo Doutor Almerindo Lessa (Porto, 1909 – 1997) aquando da sua estada em S. Vicente para a instalação do Centro de Sangue no Hospital da ilha enquanto chefiava uma Missão de Seroantropologia promovida pela Agência-Geral do Ultramar.
O Doutor Almerindo Lessa além de médico hematologista era também Antropólogo, investigador, professor, de entre outras especializações ligadas às suas actividades científicas e profissionais.
No decurso dos estudos que vinha fazendo no domínio da Antropologia promoveu, em S. Vicente, duas reuniões – uma espécie de “inquérito” dirigido aos nossos intelectuais – justificando-se quando a determinado passo da sua apresentação nos diz: “Na verdade cheguei há apenas dois meses e durante eles nem saí de S. Vicente. As minhas impressões têm fragilidades, eu sei. Mas posso em parte justificar-me, pois também nestes dois meses não vivi dentro de palácios ou de hotéis, nem sequer houve entre mim e o povo aquela espécie de fronteira social que é um automóvel. Assim eu pude ver muita gente. No Hospital conversei com centenas de homens, de mulheres e de crianças de todas as ilhas; os mais pequenos ócios, passeios nos botequins mais humildes; nas idas e vindas para a Craquinha (onde uma gentileza particular me acolheu)…”, depois conclui: “Como disse, contactei durante dois meses com o povo miúdo desta cidade; cabe agora a vez de provocar e ouvir a sua aristocracia”.
Assim, reuniu à volta de uma Mesa uma trintena de personalidades, na sua grande maioria, naturais de Cabo Verde. Apenas quatro o não eram.
Após esse trabalho, publicou, em parceria com Jacques Ruffié, um livro – Seroantropologia das Ilhas de Cabo Verde editado pela Junta de Investigações do Ultramar – Estudos, Ensaios e Documentos, Nº 32, 1957. No seu prefácio destaca: “Assim, pode admitir-se que nenhum humano chegou a Cabo Verde antes dos portugueses, ou, se chegou, não pôde subsistir e desapareceu sem deixar vestígios, e que o verdadeiro povoamento do Arquipélago só começou connosco. Só quando foi possível transportar para lá a cultura do milho e a criação da cabra pôde começar a ocupação; só quando lá se criou um novo tipo de homem pôde dar-se início àquela sociedade para cuja compreensão pensamos contribuir com este trabalho.” (fim da transcrição). Aliás, esta sua posição é partilhada, como ele próprio o diz, com o nosso poeta Jorge Barbosa quando no «Caderno de Um Ilhéu» escreve:
«Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nús
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação».

Trata-se, – o livro – de um estudo interessante se tivermos em conta os circunstancialismos do tempo em que foi realizado e o «estado da arte» das ciências ditas “sociais”. Não o vamos reproduzir… Apenas dele extrair aquilo que constituiu matéria da Mesa-Redonda que se efectivou através de duas reuniões, como atrás já tivemos oportunidade de informar.
De referir que a primeira reunião foi precedida de uma palestra em que, de entre muitas outras coisas, o Dr. Almerindo Lessa define os contornos das suas metas quando afirma: “… proponho-me abordar em duas pequenas introduções dois grandes problemas: o primeiro será definir o conceito actual de Antropologia e o segundo, analisar alguns aspectos que considero como capazes de permitirem uma análise da sociedade cabo-verdiana.” Destas duas introduções a que ele se refere, não iremos transcrever a da primeira reunião por constituir uma palestra com abordagem técnica sem, a nosso ver, influência efectiva na compreensão das questões levantadas na Mesa Redonda. Contudo, não deixamos de verificar que continha algumas curiosidades das quais aqui registamos as seguintes: “Dentro desta multiplicidade de estudos, nós podemos alcançar uma posição e um ponto de síntese. Não é possível mais falar de raças brancas e raças negras; não vamos já continuar na ingenuidade de falar de uma raça portuguesa ou de uma raça francesa. A única coisa que hoje nos é permitido dizer é que existem três grandes agrupamentos humanos: os negróides, os caucasóides e os mongolóides, cada um deles definido pela percentagem maior ou menor de certas constituições bioquímicas. A Ciência hoje não nos permite ir mais longe.”;  “a criação do mestiço favorece o património genético do homem e deve ser considerada um método positivo na dinâmica das populações”; “…em 1955, o Congresso Mundial das Populações, reunido em Londres, declarou ser urgente, com o fim de defender o património genético da espécie, promover casamentos em massa entre pessoas naturais de lugares afastados de mais de 10.000 quilómetros.”;  “Eu próprio que sou um céptico das coisas que não percebo bem, comecei por considerar, por exemplo, o livro de K. Schaer, sobre as correlações entre os grupos sanguíneos e a escrita, como uma obra insubsistente, mas o meu amigo Delfim Santos que é professor de Pedagogia na Universidade de Lisboa, diz que esses trabalhos são sérios.“; “ … há trabalhos italianos, estabelecendo correspondências entre a fonética e os grupos sanguíneos”; isto, entre muitas outras, se nos situarmos no tempo em que o debate decorreu. (1956).
Com esta (re)publicação não pretende o «coral-vermelho» levar aos seus leitores da actual geração o estudo antropológico – seguramente já ultrapassado, em muitos aspectos, à luz dos actuais conhecimentos – mas sim dar a conhecer as preocupações daqueles que nos precederam e as respectivas abordagens no plano das ideias.  A sua erudição, a sua cultura e o seu saber revelados no à-vontade dos seus pronunciamentos: seguros, fiáveis e despretensiosos.
Tratando-se de trabalho de muitas páginas, irá o «coral-vermelho», seguindo aquilo que já aconteceu com o «Boletim Cabo Verde» há seis décadas, trazer ao conhecimento do leitor toda a Mesa-Redonda, também fraccionada, desta feita, eventualmente em 8 a 10 episódios.

Um registo final, constante do livro, que não nos parece despiciendo: «Os textos não foram revistos pelos participantes; por isso mantêm a espontaneidade e os riscos de um estilo oral

Intervenção por ocasião da Semana do Poeta, ilha do Sal, 22-24 de Maio de 2017.

quinta-feira, 25 de maio de 2017


(...) Entrando agora na parte que me coube (por livre opção) falarei um pouco sobre “humanidade e simplicidade,” na poesia de Jorge Barbosa.
Para isso, e para melhor situar o assunto, permitam-me que vos leia um texto do poeta, escrito em 1956, e que constituiu a intervenção que ele teve na célebre «Mesa Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano» organizada pela Agência-Geral do Ultramar, sob coordenação do Prof. Almerindo Lessa e realizada na cidade do Mindelo.
Jorge Barbosa, respondia a uma das questões propostas por Almerindo Lessa e que era a seguinte: “A indolência cabo-verdiana é fruto do clima e do tipo da alimentação, ou consequência de uma doença de vontade?” Era a questão “provocatória” lançada à Mesa, aos participantes. Coube a Jorge Barbosa a seguinte resposta:
Eu preferi escrever uns apontamentos sobre o que quero dizer. As minhas considerações são consequência da minha experiência, talvez longa e muito sentida, da vida cabo-verdiana. Serão uma opinião muito pessoal.
Indolência cabo-verdiana.
Eis não um problema, mas apenas um caso, variadíssimas vezes trazido à baila das discussões.
Mas existe a apregoada indolência cabo-verdiana?
Na verdade, confesso-o, parece, algumas vezes parece, que essa indolência existe, a avaliar de certos flagrantes de abandono físico e de poupança nos movimentos e nos esforços, que aqui e ali surpreendemos na +população – melhor, em alguns indivíduos da população.
Permita-se-ma, antes de mais, uma rápida digressão, na qual procurarei, sem alargar pormenores e sem entrar nos domínios da Economia Política, dizer o pouco que sei ou que entendo do trabalho como auto-obrigatoriedade, como estímulo e até como sacerdócio e finalidade:
a)   O trabalho, primeiramente, é uma obrigatoriedade que a nós mesmos nos impomos: implica com a nossa sobrevivência; neste caso é luta quotidiana e surge como que em consequência de um anátema bíblico; lá estão as clássicas frases «ganharás o pão com o suor do teu rosto», «comerás o pão que o diabo amassou», etc.
b)   O trabalho resulta duma ambição: com ele procuramos a melhoria da nossa situação económica e financeira, e, assim, é um meio de para adquirirmos, mesmo além das nossas necessidades elementares, o com que possamos tornar a vida para nós o mais confortável possível; é ambição ainda, e sobretudo, quando tem em mira a acumulação de riquezas;
c)   O trabalho é sacerdócio; lembro agora a acção missionária dos que, de há séculos, com sacrifício ou não da própria vida, teimaram e teimam – e quantas vezes o conseguem! – levar aos corações mais distantes a palavra confortadora de Cristo; lembro os homens verdadeiramente abnegados, os homens de ciência e quantos outros que altruisticamente dedicam os seus esforços, as suas vigílias, a sua inteligência, ao bem da humanidade.
Em qualquer dos casos vemos que o trabalho necessita de estímulo. A defesa, pois, da nossa sobrevivência, a ambição, o progresso e o bem do homem são estímulos do trabalho.
Mas, principalmente, o grande, o insistente estímulo do trabalho é a sua justa retribuição pecuniária.
Posto isto, vejamos o caso do simples homem trabalhador destas ilhas. Vejamos o homem da terra, tão cheia, por vezes, de surpresas e desesperanças, o carregador, o pedreiro, etc.; vejamos o homem dos nossos mares, o marinheiro dos nossos frágeis veleiros, o pescador, o catraeiro do Porto Grande, etc. Qual o seu estímulo pecuniário em relação ao esforço que despendem? Não vale a pena estimar a média de tão escassos proventos. Qual a certeza do seu futuro? Um seguro social para a velhice? Um retiro para quando chegar a invalidez? Onde estão eles?
Que estímulo pode ter o homem pobre da nossa terra para o seu trabalho? O único será o da sobrevivência. Mas este quantas vezes não fica anulado por um germe de silenciosa revolta que reside no fundo das almas?
Deste modo, e se, de facto, existisse a apregoada indolência cabo-verdiana, poderíamos talvez explicá-la simplesmente com a falta de estímulo, quase total, que afecta como uma fatalidade (corrigível, entretanto) a vida das mais humildes classes trabalhadoras do arquipélago.
Mas continuo perguntando: existe verdadeiramente a tão falada indolência cabo-verdiana?
E o esforço e a canseira daqueles nossos marinheiros e pescadores, daqueles nossos homens de enxada? E a actividade dos homens das nossas marinhas?
E essa labuta do dia a dia das mulheres do povo, percorrendo longos e duros caminhos, num vaivém porfiado, com cargas pesadas à cabeça (produtos agrícolas, lenha, bosta até, este dejecto animal que é também combustível nos lares desamparados)?
E o trabalho das crianças? As crianças pobres também carregam, também trabalham, mais do que brincam. Só por si já é trabalho esforçado o percurso diário da infância rural cabo-verdiana por quilómetros multiplicados de chão áspero e abrasante, a caminho e no regresso da escola, com o estômago vazio.
Mas existe a falada indolência cabo-verdiana? Não haverá mais do que tudo a ausência do estímulo do trabalho?
Insisto neste ponto do meu apontamento.
Vejam o exemplo das carregadeiras do cais de S. Vicente, quando transportam sacos de farinha. Sacos de farinha também é um exemplo. A retribuição deste trabalho normalmente é por volume transportado. Poucos tostões, muito poucos, por cada um. E elas lá vão, num formigueiro humano, veloz e impressionante, levando o carregamento para os armazéns da Alfândega para os dos comerciantes. E voltam, sempre correndo, para levarem mais e mais sacos à cabeça. O estímulo da actividade que desenvolvem tão exaustivamente não será retribuição pecuniária em si, bem irrisória, mas a +possibilidade de multiplicarem os poucos tostões que recebem por cada percurso. Mesmo assim, no fim do dia fatigante, quanto teria recebido cada uma das carregadeiras?
Mas haverá a falada indolência cabo-verdiana?
E esses milhares dos nossos emigrantes espalhados pelos mares e pelos recantos da terra? O que fazem lá fora? Vida aprazível de turista, com itinerário da Cook na algibeira e Kodak a tiracolo? Não. Procurem-nos, mesmo que for na imaginação. Neste momento talvez se encontrem ao leme de algum cargueiro, enfrentando os temporais do Gulf Stream, ou lá bem no fundo do navio, suportando o calor infernal das fornalhas. Talvez se encontrem nos campos da Califórnia lavrando a terra fértil dos estrangeiros, quer faça sol (o sol daqueles lados menos violento do que o nosso) quer seja Inverno (mas o frio por ali é mais castigador que a brisa penetrante do Alto da Cruz de Renda da ilha do Fogo). Talvez se possam ver no porto de Buenos Aires ao serviço pesado da estiva. Talvez nos deparemos com eles, aqui e ali pelo mundo, lutando pela existência, contentes também, gozadores da vida e do amor nos momentos de folga.
Mas haverá a falada indolência cabo-verdiana?
Meus amigos, se toparem com algum cabo-verdiano estirado à sombra de qualquer árvore frondosa, em largada soneca, não o acordem; se o virem na praia, deitado no fundo de um bote, como se tratasse de simples rede de repouso, deixem-no em paz; se passarem por um grupo entretido em biscada barulhenta, não incomodem ninguém. São momentos de todos nós em todas as latitudes.
Se determinado trabalho que se está executando, construção, sementeira, transporte, não dá rendimento, se o pessoal actua com certa moleza, antes de se pensar na preguiça não será demais um exame de consciência no qual o factor salário entre em apreciação.
Mas existe a falada indolência cabo-verdiana?
E esses milhares de insignificantes lavradores, sem posse para o recrutamento dos jornaleiros, trabalhando sozinhos, auxiliados apenas pela família, pelo amanho da nesga de terra que possuem, nas regas, na guarda das hortas, de dia e de noite, sem contar com o carregamento dos minguados produtos que eles mesmos têm que fazer para o mercado distante?
Antes de se falar na apregoada indolência cabo-verdiana, é melhor encarar primeiro a presença de uma passividade resistente, talvez instintiva, surgindo em contraposição a insuficiência dos salários.
Meus senhores, a indolência cabo-verdiana…
Eu não creio nela.

Ora bem, se bem escutaram então, terão verificado no texto acabado de ler, para além da justificação telúrica e humana da condição do ilhéu, de uma terra em que as negaças da “mãe-natura” são ou eram uma constante; das diversas formas de trabalho, da iniquidade da justa retribuição trabalho/salário, vem nele, (no texto), dizia eu – apresentada a galeria dos seus heróis, das suas musas. No fundo, os seus sujeitos poéticos preferidos, por ele cooptados e abordados numa envolvente em que ressalta a tremenda e a natural humanidade que transborda nos versos deste poeta. E a impressão com que também se fica após escutar o texto, é a de que o poeta “transcreveu”, transmudou em prosa o que havia escrito em versos no poema, «Irmão» da colectânea «Ambiente», (que será apresentado na próxima sessão), pois em “Irmão” já estavam impressos todos os seus mais caros sujeitos poéticos. 
E é assim que  convivemos ao longo da sua vasta e distinta poética, construída ao longo do tempo, com estes sujeitos protagonistas / heróis e musas constantes e predilectos,  que contradizem a tal “indolência cabo-verdiana”: os marinheiros, os pescadores, os catraeiros, as carregadeiras de cais, as carregadeiras de peixe, as meretrizes,  os lavradores, os homens da enxada, os pedreiros, os varredores, as mulheres do povo, carregadas de varizes, as crianças pobres das ilhas, o emigrante cabo-verdiano desafortunado, entre outros sujeitos, e que os versos do poeta trata de forma compassiva, afectuosa e profundamente solidária. São eles a motivação, a inspiração primeira, de Jorge Barbosa.
E isto é uma ocorrência reiterada, recorrente mesmo, nos poemas de Jorge Barbosa. De tal forma, que faz unanimidade crítica, na apreciação de diversos estudiosos que se debruçaram sobre a sua obra. E eles (os tais anónimos e humildes sujeitos poéticos já referidos) não teriam voz, nem presença, na mensagem literária cabo-verdiana, se Jorge Barbosa – entre outros – não os tivesse trazido ao conhecimento dos que eventualmente lhes poderiam melhorar, alterar-lhes a existência; se não lhes tivesse dado uma voz, a sua voz...
O poema “Pão” – reparem na alegoria sinestésica e abrangente do título: pão é disso bem exemplar. A lição sem pretensão que se colhe dos seus versos, a fraternidade cristã, social, são indesmentíveis na sua mensagem. Passo a ler.
Pão
de algum dia
para todos
.
r
Não apenas
o que é já
oferta de Deus
nas searas que ondulam
ao vento a bailar
e vem depois
lento escorrendo
farinado e alvo
dos moinhos
e cresce nos fornos
nocturnos dos padeiros
enchendo as alvoradas
com o seu aroma
flutuante e ácido
de levedura e sal.
Não mais
o pão redormido
dos jornaleiros
nem o pão dos pedintes
restos que ficam
das mesas lautas.
Pão

sem mais
programas de governo
sem mais
promessas oratórias
sem mais
festas de caridade
sem mais
quermesses e tômbolas
sem mais
bodos aos pobres
formados em fila

sem mais
humilhações.

Pão

     com outro significado
     nos dicionários
       e nas leis das nações
       pão
       que seja também
               lar
 hospital
 escola
 liberdade
 justiça
 trabalho
 para todos.

Pão

sem mais greves
sem mais ódios
sem mais lutas
sem mais prisões.

Pão de algum dia!


é esta a voz solidária do poeta, irmanadamente sentida, com os espoliados da vida.
Um outro poema bem esclarecedor dessa permanente disponibilidade de porta-voz dos que a não possuem, está claramente vertida nos seus “Poemas autobiográficos”. Ei-lo:
Sou Jorge, não destemido,
mui diferente do Santo
Cavaleiro de meu nome.
Tenho medo das trovoadas
e do sangue derramado.
Se fantasmas nunca vi,
não quero vê-los também.
Não gosto de me deitar
num quarto à noute às escuras.
Mesmo assim que me dessem
o cavalo de São Jorge,
e sua espada, e veriam!
Sabê-la-ia empunhar
na mão direita bem firme!
Com ela comandaria
inumeráveis legiões
de pobres e de espoliados
para irmos combater
os tiranos que há ainda.
Nos rumos da minha vida
sempre existiu uma espada
de inesperadas audácias
mas todas imaginárias.
Espada de pau da infância,
de D. Quixote mais tarde.
Eu na verdade vos digo:
Não passo de um D. Quixote
disfarçado por aí,
sem a coragem de o ser.

Não sou o Jorge infalível
que aparece nas famílias
da nobreza lusitana.
Nunca tive, que o soubesse,
parentes em tempos idos
com fama e feitos históricos
seus retratos alinhados
ao longo das galerias
nos palácios senhoriais.
Nem tive navegadores,
nem celebrados guerreiros,
nem titulares, nem bispos,
nem favoritas de reis,
nem amantes de rainhas,
nem grandes damas, nem um
menestrel ao menos tive
entre os meus antepassados,
o que tem sido, confesso-o,
importante contratempo
no curso da minha vida.

Outro distintivo bem visível na obra barbosiana, é a sua admirável e bem reconhecida simplicidade. Ah! a simplicidade deste poeta! Que enorme virtude! Com efeito, ela surge com muita frequência ao longo do “corpus poético,” do autor. O leitor apercebe-se – em quase permanência – notas espelhadas em verso, aqui e acolá dessa simplicidade nada artificiosa ou de pose, mas antes muito natural.
Aliás, o poeta declara-a sob forma de um desejo no poema: «Simplicidade» inserto no «Caderno de um Ilhéu» do qual apenas vou ler os versos mais ilustrativos (...) Eu queria ser simples naturalmente / sem saber que existia a simplicidade // (...)Seria sem gramática / a minha poesia / feita toda de cor / ao som do violão / com palavras aprendidas na fala do povo (...).
No dizer de uma das suas mais fidedignas biógrafas, a Professora Elsa Rodrigues dos Santos: “A linguagem é marcada por uma expressão oral, coloquial, que advém de uma simplicidade confessada por várias vezes, pelo poeta”. Fim de citação.
Não corro risco algum em afirmar que  nos poemas de Jorge Barbosa, se verifica uma pluralidade de  vozes e de tom; ora líricos, ora irónicos, sarcásticos, em que se encontra  também, ora implícitos, ora explícitos o tom de denúncia indignada com as atribulações e as privações da terra e da sua gente; que afinal,  consubstanciaram a práxis do poeta, a qual soa sempre fraterna, eivada de uma forte e solidária humanidade, mansamente terna para com aqueles a quem ele considera deserdados de sorte e de fortuna.
Uma outra nota curiosa da vida deste poeta: os poemas que ele escrevia em tom de protesto, de contestação e de denúncia que só viriam a ser publicados postumamente. Ele deixou-os, grande parte, à guarda do filho mais velho. 
Jorge Barbosa guardava-os com muita prudência e não menos cautela evitando, deste modo, ser incomodado, na sua vida familiar e na de funcionário público, pela censura e pelo ambiente de repressão que ao tempo se vivia no espaço português. Ele tinha a nítida consciência do momento e da sociedade envolventes. Mesmo assim, um grupo restrito de familiares e de amigos teve acesso, em primeira mão, dos poemas por ele prudentemente guardados.  Sei que para a Praia, ele enviava-os, umas vezes, ao cuidado do irmão, Raúl Barbosa, outras vezes, para Jaime Figueiredo, sempre, com a recomendação de que logo que os tivessem lido os passassem para Arnaldo França; e também para Gabriel Mariano, enquanto este último esteve a viver na Praia (como magistrado, até 1966).
Foi assim que circularam secretamente, os tais poemas em que o poeta tecia duras críticas ao estado de abandono e de miséria do Arquipélago.
É bom ter-se em conta e não esquecer que Jorge Barbosa deixou-nos um grande legado em quantidade, (mais de três centenas de poemas) e de inquestionável qualidade poética.
Se a memória me não trai, Baltazar Lopes da Silva, o portentoso poeta Osvaldo Alcântara, após ter lido: «Caderno de um Ilhéu» teria exclamado (cito): “Com a poesia de Jorge Barbosa, tornámo-nos humildemente, cada dia, mais humanos” (Fim de citação).
Que elogio! E vindo de quem veio, ganha ainda maior amplitude semântica.
Pois bem, a vasta obra poética de Jorge Barbosa, constituída para além dos três importantes Cadernos de poesia, – «Arquipélago», «Ambiente» e «Caderno de um Ilhéu», reeditados em boa hora, pela Livraria Pedro Cardoso – , escreveu ainda: «Expectativa» curiosamente organizada em 10 cantos, possivelmente sugeridos pelos «Lusíadas” de Camões e um pouco à semelhança do grande vate português, nos versos de «Expectativa»  narra a saga afrontada, a odisseia,  silenciosa e trágica das ilhas secas e a do Homem cabo-verdiano. Deixou também em legado poético, não publicados em vida, muitos deles: «O Romanceiro dos Pescadores», «Memorial de São Tomé» «Outros Poemas» e «Poemas Dispersos».  Além disso, escreveu dois Contos: «Conversa Interrompida» e «5 Vidas num Escritório» que foram publicados primeiro no Boletim Cabo Verde (Maio e Julho de 1952) e depois na «Antologia da Ficção Cabo-verdiana Contemporânea» numa selecção de Baltazar Lopes da Silva – Edições Henriquinas do Achamento de Cabo Verde, 1960.
Para que conste, do mesmo modo, o poeta Jorge Barbosa compôs algumas letras, versos em crioulo, para mornas, aliás, musicadas na época por músicos então conhecidos aqui nas ilhas.
Uma nota curiosa sobre o nosso homenageado, embora certamente do conhecimento dos presentes nesta sala. Ele viveu e trabalhou muitos anos, sempre com família, nesta ilha. Aqui nasceram o filho primogénito, também poeta Jorge Pedro Barbosa, e o filho mais novo, Jorge Eduardo Barbosa. Claro, que Jorge Barbosa como funcionário público aduaneiro, estava sujeito a transferências. Daí ter estado, igualmente na Brava, Mindelo e Fogo, e não sei se na Boa Vista, também, entre outros portos do Arquipélago. Mas onde passou de facto, mais anos de actividade, foi na ilha do Sal. Onde também terá produzido mais de metade dos seus melhores poemas. Teremos assim, de considerar a ilha do Sal como sendo o “habitat” certamente, mais preponderante, da sua criação poética.
Jorge Barbosa tem um período que eu considero fertilíssimo em inspiração e em produção poética, que vai de 1956 a 1966, e em que ele se encontra a trabalhar e a viver no Sal. Há um poema dele de cariz religioso, sob forma de prece, aliás o título é nisso sugestivo: “Creio” que está inserto no «Caderno de um Ilhéu» e a versos tais, diz o seguinte: (...) “Creio / na Virgem Maria, /Nossa Senhora das Dores / de mão posta sobre o peito/ padroeira da pequena ilha / onde fui baptizado” (...). 
Terá ele sido aqui baptizado?...

De qualquer forma, existe, é real, e está patente em vários poemas de Jorge Barbosa, a sua vivência, a sua ligação muito próxima, muito intensa com a ilha do Sal. E o que acabo de dizer, vem reflectido nos muitos poemas dedicados à ilha do Sal.  
Para terminar, esta minha inacabada intervenção, o tempo assim o determina, trarei à colação o que escreveu Milan Kundera, escritor checo, muito conhecido, no seu excelente ensaio, «A Arte do Romance». Disse ele que o escritor (o poeta). “(...) inscreve-se na Carta espiritual do seu tempo, da sua nação e na história das ideias (...)” Fim de citação. E isto adequa-se bem ao perfil do nosso Poeta. O imenso poeta Jorge Barbosa está inscrito na “Carta espiritual,” poética das suas ilhas e na da história literária de matriz social e humana que se debruçou sobre o quotidiano isleno, as suas provações e sobre a emigração da comunidade cabo-verdiana.
Os seus poemas impregnaram-se da psique da sua gente, do cheiro do mar, do atlântico, e do húmus da sua terra, tudo isso expresso em inspirados versos que não traem, antes afirmam, a profunda humanidade e simplicidade de Jorge Barbosa.







segunda-feira, 22 de maio de 2017
José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (34):  A colonização das Pequenas Antilhas pelos caboverdeanos


Com o Almirante Cristóvão Colombo e outros portugueses, os espanhóis foram os primeiros a chegar e a colonizar a América Central e do Sul.  Começaram pela ilha de Haiti.  Chegaram a Haiti no final de 1492, foram muito bem recebidos e, em 1496, fixaram-se na ilha, a que deram o nome de São Domingos.  Depois foram para Puerto Rico, em 1508, Jamaica en 1509 e Cuba em 1511.  Quando se esgotou o ouro em Cuba começaram a ir buscá-lo ao México.  Além das grandes, os espanhóis tomaram possessão de quase todas as pequenas Antilhas, mas, combatidos pelos índios caraibas não conseguiram manter-se e concentraram os seus recursos nas maiores riquezas do México e Perú.  Ficou assim na América Central, entre os portugueses no Brasil e os espanhóis no Perú e no México, um grande território de ilhas e litorais desocupados, que passou a ser disputado pelas potências europeias, que estavam fora do Tratado de Tordesilhas.  Eram a Holanda, o Reino Unido e a França.  A estas se juntaram duas ou três mais pequenas, a Dinamarca e o ducado da Curlândia, na Letónia, assim como os irlandeses, que se fixaram sobretudo na ilha de Montserrat.  A Suécia esteve por pouco tempo na ilha de São Bartolomeu concedida pela França.  Não sendo signatárias dos tratados de Alcáçovas e Tordesilhas, pelos quais o Papa fixou um meridiano para dividir o comércio do globo terrestre entre a Espanha e Portugal, os outros países europeus não podiam enviar as suas marinhas e exércitos, nem fazer comércio e ocupar territórios fora da Europa.  Mandaram-nos sem as suas bandeiras nacionais.  Grupos privados ingleses e holandeses também armaram navios para fazerem comércio nas Caraíbas e fornecerem escravos de África.  Assim apareceram os piratas a infestar as Antilhas e atacar Cabo Verde bem defendido pelos seus escravos de armas.

Sem falar das guerras espanholas no Peru e no México, os ingleses fizeram o genocídio dos Índios da América do Norte, quando a colonizaram.  Apesar de terem prestado muitos e grandes serviços aos Estados Unidos, como, por exemplo, durante a segunda guerra mundial, quando tomaram conta dos códigos secretos das comunicações do exército, utilizando uma das suas línguas, a língua navajo, incompreensível e muito difícil de descodificar pelos japoneses, é triste verificar, que no seu discurso de investidura, o Presidente Barak Obama não disse uma única palavra sobre os seus fiéis cidadãos índios americanos.  Porém, os portugueses fizeram, uniram e expandiram o Brasil com exércitos de índios brasileiros.  Quando Salvador Correia de Sá foi a Luanda com um pequeno exército para expulsar o numeroso exército de ocupação dos holandeses, começou por pôr os seus homens em fila indiana, cercando a cidade a uma distância superior ao alcance das armas inimigas.  Durante esta primeira batalha, os holandeses identificaram os soldados índios tupiniquins a combater ao lado dos portugueses e logo decidiram cessar fogo e negociar a evacuação de Angola.  Foi o que já tinha acontecido, durante a guerra do Brasil Holandês, quando Maurício de Nassau preferiu negociar a continuar os combates mortíferos contra índios brasileiros. 

No Brasil Holandês, os caboverdeanos donos das plantações e trapiches de Pernambuco pediram seis meses para vender as suas propriedades, mas as autoridades portuguesas, provavelmente inspiradas por plantadores, que procuravam ficar com tudo a baixo preço, só concederam três meses.  Nessas condições, os caboverdeanos decidiram fazer o que já tinham feito, quando tinham vindo de Cabo Verde para o Brasil.  Embarcaram tudo, nos navios da Companhia das Índias Ocidentais, sem esquecer paus de cana para plantar e foram para a Guiana e para as Antilhas prontos para plantar canaviais e fazer açúcar. 

As Antilhas formam três cordilheiras de ilhas grandes e pequenas à volta da placa das Caraíbas, que se encontra entalada entre os continentes sul-americano e norte-americano, os quais se aproximam um do outro, comprimindo a pequena placa das Caraíbas, que está em vias de desaparecer por subducção por debaixo dos dois continentes.  Há duas cadeias de ilhas de Oeste para Leste, ao Norte (Cuba, Haiti, Puerto Rico, até Barbuda e Antiga e de Leste para Oeste, a Sul ao longo da Costa Selvagem da América do Sul (Trinidad e Tobago, Antilhas venezuelanas, depois das quais as ilhas ABC holandesas Coração, Bonaire e Aruba). Estas duas cadeias são arcos de grandes círculos do globo e, a Oriente uma cadeia de pequenas ilhas forma uma curva para completar a cordilheira das Antilhas em U aberto para ocidente, onde se encontra a cordilheira imersa da América Central, com o Panamá e outros pequenos países até ao México.  A cadeia oriental de Norte para Sul desenha o círculo de intersecção do globo com uma falha inclinada para oeste, que trouxe à superfície ilhas planas sedimentares e volcânicas.  Dentro do U, ou seja na placa das Caraíbas, ainda se encontra, ao sul de Cuba e prolongando Haiti outra cadeia com as Ilhas Jamaica e Cayman formadas pelo conjunto de pregas resultante da compressão da placa das Caraíbas. 

Há, pelo menos, dezassete vulcões activos nas Pequenas Antilhas.  A última erupção, na ilha de Monserrat, onde não havia informações sobre actividade vulcânica e se julgava que o vulcão estava inactivo, começou em Julho de 1995 e o vulcão descarregou lava de maneira contínuada até 1998.  Destruiu metade da ilha, incluindo a capital.  Dois terços da população abandonaram a ilha.


As ilhas de língua castelhana grandes e pequenas não nos interessam, porque, por obra e graça da santa Inquisição espanhola, o crioulo não chegou lá, como explicaremos.  Além das Antilhas, fala-se crioulo em algumas outras ilhas, que estão fora da cordilheira das Antilhas.  

Fig.    Mapa das Antilhas e do Mar dos Caraíbas
 (http://geology.com/world/caribbean-satellite-image.shtml)


A primeira é Barbados, uma pequena ilha plana.  Trata-se de um monte submarino coberto de calcários coralíferos com pregas e falhas, que faz parte e é a única ilha da cumeada submarina de Barbados a distância relativamente curta do arco das Antilhas.  A ilha foi levantada acima do nível do mar em consequência dos movimentos tectónicos relativos das placas oceânica e caraíba.    

As numerosas ilhas do arquipélago das Bahamas, 18 grandes e 700 pequenas, entre Cuba, Haiti e a Florida são recifes coralinos na plataforma das Bahamas, que é independente da plataforma do continente americano do Norte (Christian Juberthie and Thomas M. Iliffe, >1991 , Bahama Islands, Erro! A referência de hiperlink não é válida.) e separada desta por canais profundos.  A plataforma das Bahamas tem mais de 6000 m de espessura de depósitos calcários recifais, cuja massa provocou subsidência ou afundamento à medida que se sedimentavam.

Há ainda a ilha, melhor dito as ilhas Bermudas, que são as partes emersas de um recife coralino instalado no topo de um monte submarino (http://www.unesco.org/csi/pub/papers/smith.htm).  Trata-se de um sistema de dunas ou eolianitos calcários, que se formou quando o nível do mar era alto, durante os períodos interglaciais do Quaternário.  O monte submarino encontrava-se na dorsal médio-oceânica, quando apareceu, há 45 milhões de anos.   

Como já vimos, os holandeses interessaram-se especialmente pela Guiana, a chamada Costa Selvagem, ao Norte do Brasil, que se prolonga para a Venezuela e a Colômbia, onde ocuparam as ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Coração ao Norte da Venezuela).  Na Guiana logo se confrontaram com a concorrência dos ingleses.  Houve quatro guerras anglo-holandesas com numerosas batalhas navais:  três no período de 1652 a 1674 e a quarta de 1780 a 1810 ligada à guerra de independência dos Estados Unidos.  Dos caboverdeanos judeus vindos do Brasil com os holandeses a maioria ficou na Guiana com eles, mas os ingleses levaram cerca de mil para Jamaica, onde eles ensinaram a plantar cana e fazer açúcar na sua lingua crioula.  Uns trezentos foram para Barbados, uma pequena ilha com falta de terras e, dali, dezenas foram para Antiga e Montserrat, levando a sua língua, para ensinar a plantar cana doce e fazer açúcar.  Além destes navios holandeses com destino marcado para a Guiana, vieram do Brasil outros carregados de caboverdeanos, que procuravam outras ilhas para se instalarem.  O governador da Martinica não estava interessado, mas Charles Houël, que governou a Guadalupe entre 1643 e 1664 e já tinha tentado introduzir a cana e o açúcar, quando tinha chegado à ilha, logo concedeu terras e recebeu na Baía dos Flamengos, em 1654 perto de três centenas de “judeus holandeses”.  Devem ter chegado outros mais tarde, porque o Governador escreveu, em 1664:  «Eram cerca de 1.200, entre os quais, não chegava a haver 50 holandeses naturais» (ou seja brancos), «todos os outros sendo mestiços ou escravos negros», que «tinham querido ir com» os seus patrões.  Para quererem ir com os seus patrões, só se podia tratar dos caboverdeanos judeus refugiados do Brasil holandês com todos os seus bens e trabalhadores.  Logo puseram mãos à obra.  Quando o açúcar começou a ser vendido para exportação, o governador da Martinica depressa mudou de ideias. Os primeiros caboverdeanos martiniqueses encontraram refúgio na parte nordeste da ilha, que ainda se chama hoje Petit-Brésil (Pequeno Brasil).  Pouco depois apareceram franceses a plantar cana e instalar trapiches, mas com dificuldades de abastecimento de mão de obra.  Finalmente o rei Luís XIV tomou conta de tudo nas duas ilhas e fez empréstimos de capital aos bancos portugueses de Amesterdão  

Além da Guadalupe e Martinica, a França ainda está associada, nas Pequenas Antilhas, à ilha de São Bartolomeu e metade da ilha de São Martinho.  Ambas estão perto da Guadalupe.  O açúcar e o crioulo chegaram lá vindos da Guadalupe.  Da Guadalupe e da Martinica também devem ter ido para Haiti, ou São Domingos.

Nas grandes Antilhas espanholas o açúcar foi trazido das Canárias.  Os caboverdeanos judeus obviamente não iam residir nas ilhas controladas pela Inquisição e os capitães portugueses e caboverdeanos das marinhas mercantes de Coração, Santo Eustáquio e outras ilhas tinham sempre consigo documentos de identificação provando que não eram baptizados de pé, nem cristãos novos.  Esta observação esclarece o grande enigma indecifrável da crioulística:  “a escassez de hoje em crioulos de base espanhola constitui, na verdade, um enigma maior da crioulística” (McWhorter, 1995, citado por Angela Bartens, Universidade de Helsínquia, 30.7.2001, Assunto: Mar-Molinero, Clare, 2000, The Politics of Language in the Spanish-Speaking World: From Colonisation to Globalisation, Routledge, xiii+242pp. Paperback ISBN 0-415-15655-6, Hardcover ISBN 0-415-15654-8, Angela.Bartens@helsinki.fi).  Na verdade tratava-se dum enigma da Inquisição, muito fácil de esclarecer e não tinha nada a ver com a pobre crioulística, mas sim com os grandes feitos daquela instituição em “defesa da fé”.

A maior parte das Pequenas Antilhas foram colónias francesas e inglesas, mudando frequentemente de mãos.  Algumas, como São Vicente e Grenadinas mudaram mais do que uma vez dum país para o outro.  São Cristóvão (Saint Kitts) foi dividida entre a França e a Inglaterra, logo no início.

O crioulo das ilhas ABC, papiamento manteve o léxico português.  Nas outras ilhas, perdeu o contacto com o português e, na maioria das ilhas, relexificou-se ora em inglês, ora em francês.  Os crioulistas ingleses pensam que o crioulo das Antilhas é uma única língua derivada do inglês, com as suas variedades dialectais mutuamente compreensíveis.  Da mesma maneira pensam os crioulistas franceses.  Porém, antilheses cultos anglófonos e francófonos sabem que a sua língua e dialectos pertencem à família do crioulo caboverdeano e foram ensinados pelos caboverdeanos.

Resta-nos ainda investigar, ilha por ilha, como chegaram concretamente o crioulo e o açúcar.  Interessa saber que, antes do açúcar, muitas ilhas já cultivavam algodão, café ou tabaco e anil.  Essas culturas pararam, sendo substituídas pelo açúcar, porque, na América do Norte, mais perto da Europa, grandes plantações forneciam algodão, café e tabaco mais baratosao mercado europeu, ao passo que o açúcar das Antilhas ficava mais perto da Europa do que o do Brasil, que concorrenciou.  Entre os colonos ingleses havia Loyalists, ou seja refugiados depois da independência americana.  Entre os colonos franceses havia refugiados protestantes, que ficaram conhecidos por Huguenots e havia também, depois da expulsão dos judeus pelos jesuitas, aristocratas amigos do Rei de França.
  



País ou Ilha, Capital
Início coloniza-ção
Chegada Açúcar
Povoa-mento
Línguas faladas hoje
Outras informa-ções
Bermudas, Hamilton
1614, Virginia company;       1684 Coroa
Não houve plantações.
Recente-mente caboverde-anos com açoreanos
Inglês da Bermuda = Krio descrioulizado
Floresta de cedros: caixotes e navios
Bahamas, Nassau
1648, Ingleses da Bermuda fixam-se Ilha Eleuthera;    1718, Coroa
Plantações de algodão pelos loyalists
Refúgio de escravos fujões
Dialecto krio, 75%;  Haiciano, 25%

Turks & Caicos, Cockburn Town
1680
1799, inglesas
Algodão pelos loyalists, sal 

Dialecto krio pare- cido Bahamas

Cayman, George Town
1661, 1670, 1730 col. permanente
Paraíso fiscal, sem plantações
Governadas pela Jamaica
Cioulo de Cayman
Não há vestígios de índios.
Jamaica, Kingston
1655, inglesa
Ingleses expulsa-ram espanhóis, mas deixaram ficar portugueses.
1675 com os caboverdeanos
1675, cerca de 950 cabover-deanos trazidos da Guyana 
Crioulo relexificado em inglês
Neta de Colon casou-se com um português da casa de Bragança.  Vieram cristãos novos portugueses.
Haiti, Port-au-Prince
1697, um terço francês, dois ter-ços espanhol, Tra-tado de Ryswick
1700, Produção de açúcar subs-tituíndo tabaco, por famílias de Montserrat e amigos do rei.
Irlandeses de Montserrat
1685, primeiro engenho;
1720, Produção iguala Jamaica
Crioulo Haiciano = crioulo de Mont-serrat relexificado em francês.
Crioulo C. V. --> crioulo bajane Barbados --> crioulo de Monserrat --> crioulo Haiciano
British Virgin, Road Town (Tortola)
1672-80;
1950, Autonomia resultante dum movimento dirigido por Isaac Fonseca e Carlton de Castro
Plantações de algodão e açú-car declinaram depois da aboli-ção;  depois da autonomia, paraíso fiscal.
Plantadores de Anguila chegam com escravos e gado, fazem plantações e são ajudados por mercadores de Liverpool.
Crioulo relexifi-cado em inglês, também falado em Saba, Sint Martijn, Santo Eustáquio.
1834, abolição escrava-tura; 
1853, revolta dos antigos escravos, incêndio da capital e fuga dos plantadores para Haiti.
Danish Virgin, Christiansted (St. Croix)
1660, 1671, St. Thomas;        1718, St. John;    1733, St. Croix;    1917, vendidas aos USA 
1680, pequenas plantações, 47, tabaco e açúcar;
1733, revolta em St. John, nas mãos dos escra-vos durante um ano.
St. Croix, com o seu açúcar foi a ilha mais rica. 
1688,  recen-seamento, 45 % declarou nacionalidade holandesa: grande parte eram portugues-ses caboverdea-nos do Brasil holandês e da Guiana.
Inglês,
Crioulo caboverdeano
Navios negreiros da Dinamarca traziam 1.000 escravos por ano, comprados nos mercados africanos.
Abolição 1848, trinta anos depois revolta dos antigos escravos que queimaram a cidade de Frederiksted, na ilha de St. Croix.
US Virgin, Charlotte Amalie (St. Thomas)
1917, compradas à Dinamarca
A comunidade judaica de St. Thomas, que nasceu no início do século XVIII é uma das mais antigas da América e a esnoga de Charlotte Amalie vem a seguir à de Coração, entre as que têm sido usadas continuamente.  É de rito sefardim caboverdeano.
Crioulo da ilha St. Croix é um pouco diferente do que se fala nas outras duas ilhas.  Descrioulização mais adiantada em St. Croix.

Sint Eustatius, Oranienstad
1636 
1655, Portugueses judeus de Coração
1722, Portugueses de Amesterdão;  1781, mais de metade dos cidadãos livres eram portugueses.
Fim do século XVII com portu-gueses judeus de nacionalidade holandesa.
No cemitério judaico os túmulos mais antigos datam de 1742.
Almirante inglês destruiu sinago-ga roubou todos os bens dos portugueses e deu- lhes 24 horas para se irem embora, sem bagagens.
Holandês,        Papiamento,
Crioulo Inglês das Ilhas Vigens
Oranjestad era um porto sem direitos alfandegá-rios, que se tornou muito activo e veio a fornecer armas e munições aos americanos durante a guerra da independência.  O governador teve de render-se a um almirante inglês, que expulsou os holandeses e franceses.
Os portugueses judeus refugiaram-se nas Ilhas Virgens, perdendo tudo.
Anguila, The Valley
1650, ingleses de St. Kitts, depois ingleses e crioulos vindos de Nevis, Barbados, Antigua
Ingleses e criou-los trouxeram escravos, depó- sito de Nevis forneceu mais  mão de obra.
Vieram prova-velmente de Barbados, St. Kitts, Nevis e Antigua muitos descendentes de caboverdeanos.
Crioulo de Anguil-la, que pertence à família dos dialec-tos caboverdea-nos relexificados em inglês nas Antilhas
Anguila é actualmente um paraíso fiscal.  Economia: turismo, bebidas alcoóli-cas e sumos de fruta, vá- rias indústrias electro-mecânicas em associação com multinacionais.  
Sint Maarten, Philipsburg
1618, 1631, 1648
Plantações algodão, tabaco, açúcar

8,3% Crioulo ingl. das I. Virgens
1,5% Papiamento

Antigua,      Saint John
1632
1674, vindo de Barbados
Plantações de açúcar irmãos Codrington
Crioulo inglês da Antigua

Barbuda, Codrington
(1628), 1666
1684, irmãos Codrington

Crioulo inglês, ou bajane

S. Christophe = Saint Kitts, Basseterre
1623, colonos ingleses;       1624, colonos franceses
partilham a ilha.
1640, açúcar substituiu taba-co e acabou em 2005.

Inglês;
Crioulo de Saint Kitts não é muito falado nem mencionado em documentos oficiais.
1607,Jamestown, Virgínia, primeira colónia inglesa na América

Nevis, Charles-town
1628, família Pin-heiro de Barbados e outros atingiram um quarto da po-pulação da capital; perto de 200 plantadores.
1650, Cana doce em Nevis dava 50% mais açúcar do que St. Kitts.
6000 a 7000 escravos por ano vindos de África passaram, pelo depósito de Nevis.
Inglês
Crioulo de Nevis é mais falado do que em Saint Kitts.

Montserrat, Plymouth so-terrada duran-rante erupção 1995
1628, colónia fundada com colonos Irlandeses de Barbados
Plantações de algodão e açúcar, depois de 1660, com caboverdeanos vindos da Guiana.
Depois da erupção, 8000 pessoas abandonaram a ilha, onde só ficaram 5000.
Inglês,
Crioulo não é mencionado
Capital provisória: Brades
Capital em construção:  Little Bay
Metade sul da ilha evacuada, durante erupção 1995-7
Saba, The Bottom
1530-40, famílias holandesas enviadas de Santo Eustáquio, ilha mais próxima.
Plantações de anil e açúcar , proprietários em Santo Eustáquio
Famílias holan-desas, inglesas e escocesas e descendentes de escravos
Holandês e inglês, Crioulo da Ilhas Virgens

Saint Barthéle-my = St. Barth,  Gustavia
1648, 1659,
1665-6, Ordem de Malta
1784–1878, porto franco sueco
Cacau e culturas alimentares
Primeiros habitantes vinham de Saint Kitts
Francês
Crioulo falado a barlavento e francês antigo na outra metade
Hoje há centenas de portugueses trabalhando na indústria de turismo.
Guadeloupe, Pointe-à-Pitre
1635, franceses vindos de St. Kitts
XVII, mais açú-car do que todas as inglesas
Caboverdeanos do Brasil à pro-cura de terras
Francês, Caboverdeano relexificado

Dominica,    Roseau
1690, franceses
1763, ingleses
1690, madei-reiros
1727, cana e café
Guadelupeanos no Norte
Martiniqueses no Sul
Inglês
Crioulo francês da Dominica, Kweyol
Kokoy, descen-dentes imigrantes Montserr. e Antig.

Martinique, Fort-de-France
1635, 150 france-ses de S. Kitts, depois maioria de Huguenotes perse-guidos pelo rei; 1688, quase todos fugiram para terri-tórios ingleses; 
1670, Cabover-deanos chama-dos depois do sucesso na Gua-dalupe.  Benjamim da Costa planta cacau e  cana doce e instala um engenho.
Franceses, caboverdeanos e escravos
Francês, Crioulo martiniquês ou caboverdeano relexificado
Nas colónias francesas os jesuítas só conseguiram expulsar os judeus depois da morte de Colbert, 1685.  A expulsão dos portuguees judeus não foi rigorosamente aplicada.  Vieram portugueses judeus de França (Bordéus).
Saint Lucia,    Castries
1660 franceses,
1660 a 1814 mudou de mãos sete vezes, doze vezes neutra, colonos franceses iam ficando
1814 ingleses definitivamente
Plantações de cana
Hoje petróleo, bananas e cerveja de malte
Franceses da Martinica
Crioulo francês de Saint Lucia

Barbados,       Bridgetown
Visitada durante as voltas de África
1518, colonos esp.
1625, colonos ingl.
1536-1625, frequentada pelos portugueses
1627, tabaco, algodão, anil
1640, cana de açúcar
1627, judeus caboverdeanos, cerca de 300,
1654, sinagoga Nidhe Israel
Crioulo relexificado em inglês ou bajane, que é também o nome do país e dos habitantes em crioulo
Portugueses preparavam-se para estabelecer uma base de escala em Barbados, entre Açores e Brasil, mas desistiram.
Saint Vincent,  & Grenadines, Kingstown
1627, franceses da Martinica
1754, ingleses
1779, franceses aliados com caraíbas pretos
1796, ingleses deportam 5000 caraibas pretos.
Plantações de café, tabaco, anil, milho e açúcar
Caraíbas pretos documentados por Colombo (garifuna, pl. garinagu), finalmente deportados para Belize
Crioulo relexifica-do em francês, em vias de relexi-ficação em inglês

Grenada, Saint George’s
1649 a 1763, colónia francesa;  1763 – 1974 colónia inglesa
Cana de açúcar, anil
Noz moscada, cravinho, cacau
1649, povoada por 203 martiniqueses
Crioulo da Grenada relexifi-cado em francês e  inglês

Tobago, Scarborough
1654, Curlândia;  1762, Ingleses
1672-4 Planta-ções inglesas: algodão, açúcar;
1798, novas  plantações de açúcar
1672
Crioulo vindo de outra ilha inglesa
Curlandeses, Holandeses, Ingleses, Franceses, Espanhóis e Suecos ten-tam estabelecer-se, a ilha mudou de mãos 33 vezes.
Trinidad, Port of Spain
1797, Franceses Martiniqueses
1889, colónia inglesa
1797
XIX, Oil, industry
1797, martini-queses descen-dentes de cabo-verdeanos
Crioulo martini-quês ou crioulo caboverdeano relexificado em francês

Guyane Française, Cayenne
1503, 1643
1636
1636 cabover-deanos vindos do Brasil holandês, ficaram primeiro na ilha de Caiena, depois foram para Torarica e Savana dos Judeus.  
Fins XIX, portugueses madeirenses
Crioulo caboverdeano relexificado

Suriname, Paramaribo
1667
1636
Bauxite, turismo
Surinamês, Saramaca, Ndyuka ou Aucano

Guyana, Georgetown
Início XVII;  1831, Guyana inglesa; os holandeses chegaram primeiro: Esse-quibo, 1616, Ber- bice,1627, Demerara, 1752
1636
Hoje, Au, Al bauxite, arroz, açúcar
Creolo relexificado, inglês, hindi

Bonaire, Kralendijk
1636
Madeira corante, milho, sal,
sem  açúcar
Clima seco não convinha para açúcar. Administração comum com Coração
Povoada por judeus caboverdeanos
Papiamento falado é muito parecido dumas ilhas para as outras, papiamento escrito é muito diferente.  
A ortografia  é diferente em cada ilha e até muda dum grupo de pessoas para outro.
A lingua oficial neerlandesa é língua materna de menos de 10% da população.
Coração, Willemstad
1634, 1651,portugueses da Holanda com João de Yllan e do Brasil com Isaak da Costa
Armação de navios.
Comunidade portuguesa mui-to numerosa foi povoar Tucacas, Venezuela, Vir-gens, S. Mart., S. Eustáquio.
Aruba, Oranje-stad
1636 holandeses
Clima seco, sem açúcar.
Belize, Belmopan
1683, explorado-res de madeira,            1786, 1798
O açúcar ainda é a principal produção agrícola.
Crioulos trazidos da Jamaica e Bermuda, pelos lenhadores.
Kriol de Belize falado original- mente pelos escravos;  espa-nhol da cozinha;  Menonitas (Igreja Anabaptista) russos  da Ucrânia, falando alemão dialectal.
Garinagu (pl. Garifuna): precolombianos pretos falando arawak na ilha de São Vincente, que, com os franceses combateram os ingleses, que os desterraram para a ilha grenadina de Baliceaux, depois para Belize, em número de 5000.






























































































































































































































































































































































































































































































No quadro seguinte, as ilhas e territórios continentais estão indicados por ordem geográfica começando ao Norte com as Bermudas e acabando a Sudeste com Aruba e Belize.

Este mapa foi elaborado utilizando informações colhidas na Wikipedia e na Internete, depois de corrigidas e interpretadas.  Como já dissemos, as ilhas e países vão por ordem geográfica começando ao Norte pela Bermuda e pelas Bahamas, para descrever o arco das Antilhas para Leste e para Sul, dar a volta para Oeste e terminar na costa de Venezuela, ilhas ABC e, mais ao norte, em Belize, antiga Honduras Britânica vizinha de Guatemala e México.  O mapa mostra claramente, que o açúcar e o crioulo chegaram com os caboverdeanos judeus directamente à Guyana, Jamaica, Barbados, Guadalupe e Martinica e, destas, foram para as outras ilhas e territórios, com novas gerações de caboverdeanos judeus já nascidos e treinados nas Caraíbas, como os chamados “mulatos livres” da Martinica.  

Há algumas ilhas, que não tiveram plantações de cana doce por terem clima semi-árido (ilhas ABC, Bermudas) e outras onde não estiveram caboverdeanos, mas falam crioulo.  Nestas últimas, que se encontram mais perto dos Estados Unidos e que receberam refugiados loyalists, depois da independência dos Estados Unidos, o crioulo é da subfamília do krio da Serra Leoa. 

A evolução das línguas crioulas nas Antilhas e outros países das Caraíbas pode ser resumida como se segue.


(1)    Krio da Serra Leoa


América do Norte e Central
Krio Americano ou afro-american creole English
Bermuda
Krio descrioulizado
Bahamas
Krio das Bahamas
Turks & Caicos
Belize
Krio ou crioulo (?) de Belize


(2)    Crioulo Caboverdeano




Fases: Língua Original
País ou Ilha        de Destino
Nova Língua ou Dialecto
Ilhas ABC
Primeira Fase:  Crioulo Caboverdeano vindo de Pernambuco, Brasil Holandês
Curação
Papiamento, dialecto do crioulo CV
Bonaire
Aruba
Guiana
Guyana
Crioulo CV relexificado em inglês
Suriname
Surinamês = Crioulo CV relex. em holandês
Saramaca, CV sem relexificação (fujões)
Ndyuka ou Aukan, idem
Guyane française
Crioulo CV relexificado em francês
Antilhas
Jamaica
Crioulo Jamaicano = Crioulo CV relex. em inglês
Barbados
Bajane, crioulo CV relexificado em inglês
Guadalupe
Crioulo CV relex. em francês, Guadelupeano
Martinica
Crioulo CV relexificado em francês, Martiniquês
Segunda Fase:  Papiamento, Crioulo da Guadelupe
Santo Eustáquio
Dial. Papiamento
Dial. Papiamento, Crioulo da Guadelupe
Saint Barthélemy
Dialecto crioulo da Guadelupe
Ilhas Virgens
Segunda Fase:  Crioulo Cabo-verdeano da Guiana
Danish Virgin Islands
Crioulo CV relexificado em inglês;  relexificação e/ou descrioulização mais adiantada em Saint Croix
Saba
Segunda Fase:  Crioulo das Ilhas Virgens, léxico Inglês
Saba
Crioulo das Ilhas Virgens com léxico inglês
Antilhas colónias francesas
Terceira Fase:  Crioulo da Martinica e Guadalupe
Dominica
Crioulo CV relexificado em francês e alternadamente ou depois em inglês 
Saint Lucia
S. Vincent et Grenadines
Grenada
Trinidad
Antilhas, colónias inglesas
Terceira Fase:  Crioulo da Jamaica
Cayman
Dialecto crioulo jamaicano, léxico inglês

Terceira Fase:  Crioulo de St. Kitts
Anguilla
Dialecto crioulo da Angulla, léxico inglês
Pequenas Antilhas Inglesas
Terceira Fase:  Bajane de Barbados
Antigua
Dialectos do crioulo Bajane, léxico inglês
Barbuda
Saint Kitts
Nevis
Montserrat
Ilhas Virgens Inglesas
Terceira Fase:  Crioulo de Saint Vincent
Tobago
Crioulo de Tobago, léxico inglês
Terceira Fase:  crioulo de Monserrat (e da Martinica?)
Haiti
Crioulo Haiciano, ou Ayisyen
Belize
Terceira Fase: Crioulo da Jamaica, Krio das Bermudas
Belize
Kriol
Pequenas Antilhas Inglesas
Quarta Fase:  descrioulização

Montserrat
Mais de metade da população (60 %) foi para o Reino Unido depois de erupção
Saint Kitts
Falta de interesse pelo crioulo (?), colónia inglesa mais antiga
Bermuda
Proximidade dos USA já descrioulizados pelos professores das escolas primárias




























































































Neste mapa, a primeira fase é a chegada do crioulo caboverdeano vindo do Brasil, a sua utilização, em vários territórios, e a sua evolução, nesses territórios, dando origem aos primeiros dialectos e línguas crioulas das Caraíbas, como o papiamento.  A segunda fase representa a passagem desses primeiros dialectos e línguas a outras ilhas distantes, sem relexificação.  A terceira fase compreende relexificações em francês e inglês, geralmente uma a seguir à outra, às vezes em mais do que uma alternância.  A quarta fase é a descrioulização.  Este mapa toma em consideração a história da deslocação dos falantes com a tecnologia do açucar, que não pode esclarecer todos os problemas, sem o estudo comparativo das línguas e dialectos, como por exemplo, em Belize, onde chegaram dois crioulos originais ao mesmo tempo ou, em Haiti, onde o açúcar e o crioulo parece terem chegado de Montserrat, mas também pode ter havido influência do martiniquês.  Resta a fazer o estudo comparativo das línguas crioulas das Caraíbas, para confirmação e aprofundamento destes conhecimentos e rigorosa classificação.  

Em comparação com a francesa e a inglesa, a relexificação em neerlandês foi muito limitada e só se verificou na Guiana e nas Ilhas Virgens Dinamarquesas, que foram compradas pelos Estados Unidos da América.  No Surinamês cerca de 16% do léxico é de origem neerlandesa, ao passo que no saramacano há menos de 5% de palavras de origem neerlandesa.  Nos vales dos rios Berbice e Essequibo apareceram no século XVII duas línguas crioulas relexificadas em Neerlandês e mutuamente compreensíveis chamadas respectivamente crioulo holandês e skepi.  Um crioulo relexificado no dialecto da Zelândia foi levado pelos refugiados holandeses de Santo Eustáquio para as Ilhas Virgens Dinamarquesas.  Outro crioulo relexificado em neerlandês chegou a Nova Jersey com colonos holandeses vindos das Caraíbas.  Todos estes crioulos extinguiram-se, o mais tardar, no fim do século XX.  

No primeiro mapa não damos informações exaustivas sobre a actual economia dos países e ilhas das Caraíbas, só alguns exemplos.  A primeira observação é que, nesses países, como, em Cabo Verde o turismo é muito importante.  Muitos têm também (Haiti, por exemplo) uma forte emigração.  Mas estão todos à frente de Cabo Verde, com muitas multinacionais instaladas a trabalhar e muitas pequenas indústrias electro-mecânicas e outras de produtos de consumo local e exportação.  Alguns têm petróleo suviciente até entrarmos na era da energia solar.  Também têm paraísos fiscais e entraram na globalização, para onde Cabo Verde precisa de voltar directamente, sem dar a volta à África, afim de lá chegar mais depressa. 

Parece que Cabo Verde não teria nada a perder, se estivesse associado, como já esteve, a esses seus descendentes e a essas suas antigas colónias da América, antes pelo contrário.  Já lá está o Brasil com o seu braço forte e mão amiga, em Haiti. 

Cabo Verde também teria muito a ganhar, se os seus políticos comparassem os índices do seu desenvolvimento económico aos destes países, em vez de os compararem aos de África e da “região”, para depois se gabarem e apresentarem o atraso como se fosse progresso e brilhante desempenho político dos dirigentes do PAICV.

Apresentámos aqui cerca de trinta e cinco dialectos e línguas da família do crioulo caboverdeano, na América.  Em África e à volta de África, temos mais uns sete ou oito, sem contar os que ainda que se falam da Libéria até aos Camarões, subfamília do krio.  Na Ásia, subsistem sete.  O total é de cerca de cinquenta.  Acrescentando os que se extinguiram, na Ásia o número total ultrapassará certamente sessenta, sem contar a maioria dos dialectos da subfamília mal conhecida do krio, dos quais só contámos três na América Central e outros três em África.  Os léxicos das línguas desta família derivam do português, inglês e francês, com contribuições mínimas de outros variadíssimos acrolectos, onde se destacam o holandês, o castelhano, o tagalá e o cebuano.  A família do crioulo caboverdeano tem mais de cinquenta línguas e dialectos, que ainda se falam e mais de vinte que se extinguiram.  Menos de dez estariam em vias de se extinguirem. 

A família do crioulo caboverdeano ficará com umas quarenta línguas e dialectos e Cabo Verde deve preparar-se para fazer face às suas responsabilidades de país da língua mãe, promovendo uma academia internacional das línguas crioulas e o estudo das línguas filhas, que deviam aproximar-se, em vez de se afastarem, como está a acontecer em Cabo Verde, quando nem a Guiné foi consultada, muito menos associada aos projectos desenvolvidos depois de independência pelos linguistas marxistas-leninistas do PAICV.

Em Cabo Verde, o desastrado culto marxista-leninista da personalidade de Amílcar Cabral começou com a sua ridícula nomeação para pai da nação e logo todos se esquecerem que tinha dado a sua vida para reconstruir a unidade dos povos da Guiné e de Cabo Verde.  Essa unidade falhou na política da “luta”, mas precisa de ser realizada ou restabelecida pelo trabalho e desenvolvimento em comum.


Não vamos aqui avaliar o número de falantes de línguas crioulas nas Antilhas e Caraíbas.  Basta dizer que se aproxima de vinte milhões, mais precisamente 17.800.000 segundo os números fornecidos por Sublet.com (2017, Caribbean Information, https://www.sublet.com/information/caribbean.asp).  Na África Ocidental há cem milhões de pessoas que utilizam línguas crioulas para se entenderem, mas, em Cabo Verde, os inventores do ALUPEC esqueceram-se que as línguas faladas sem literatura escrita estão no continente vizinho, não estão no arquipélago.  Cabo Verde não chamou ninguém para aprender a escrever crioulo e não pode isolar-se no meio do oceano, tem de se abrir à cooperação em todos os azimutes.