segunda-feira, 22 de maio de 2017
José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (34):  A colonização das Pequenas Antilhas pelos caboverdeanos


Com o Almirante Cristóvão Colombo e outros portugueses, os espanhóis foram os primeiros a chegar e a colonizar a América Central e do Sul.  Começaram pela ilha de Haiti.  Chegaram a Haiti no final de 1492, foram muito bem recebidos e, em 1496, fixaram-se na ilha, a que deram o nome de São Domingos.  Depois foram para Puerto Rico, em 1508, Jamaica en 1509 e Cuba em 1511.  Quando se esgotou o ouro em Cuba começaram a ir buscá-lo ao México.  Além das grandes, os espanhóis tomaram possessão de quase todas as pequenas Antilhas, mas, combatidos pelos índios caraibas não conseguiram manter-se e concentraram os seus recursos nas maiores riquezas do México e Perú.  Ficou assim na América Central, entre os portugueses no Brasil e os espanhóis no Perú e no México, um grande território de ilhas e litorais desocupados, que passou a ser disputado pelas potências europeias, que estavam fora do Tratado de Tordesilhas.  Eram a Holanda, o Reino Unido e a França.  A estas se juntaram duas ou três mais pequenas, a Dinamarca e o ducado da Curlândia, na Letónia, assim como os irlandeses, que se fixaram sobretudo na ilha de Montserrat.  A Suécia esteve por pouco tempo na ilha de São Bartolomeu concedida pela França.  Não sendo signatárias dos tratados de Alcáçovas e Tordesilhas, pelos quais o Papa fixou um meridiano para dividir o comércio do globo terrestre entre a Espanha e Portugal, os outros países europeus não podiam enviar as suas marinhas e exércitos, nem fazer comércio e ocupar territórios fora da Europa.  Mandaram-nos sem as suas bandeiras nacionais.  Grupos privados ingleses e holandeses também armaram navios para fazerem comércio nas Caraíbas e fornecerem escravos de África.  Assim apareceram os piratas a infestar as Antilhas e atacar Cabo Verde bem defendido pelos seus escravos de armas.

Sem falar das guerras espanholas no Peru e no México, os ingleses fizeram o genocídio dos Índios da América do Norte, quando a colonizaram.  Apesar de terem prestado muitos e grandes serviços aos Estados Unidos, como, por exemplo, durante a segunda guerra mundial, quando tomaram conta dos códigos secretos das comunicações do exército, utilizando uma das suas línguas, a língua navajo, incompreensível e muito difícil de descodificar pelos japoneses, é triste verificar, que no seu discurso de investidura, o Presidente Barak Obama não disse uma única palavra sobre os seus fiéis cidadãos índios americanos.  Porém, os portugueses fizeram, uniram e expandiram o Brasil com exércitos de índios brasileiros.  Quando Salvador Correia de Sá foi a Luanda com um pequeno exército para expulsar o numeroso exército de ocupação dos holandeses, começou por pôr os seus homens em fila indiana, cercando a cidade a uma distância superior ao alcance das armas inimigas.  Durante esta primeira batalha, os holandeses identificaram os soldados índios tupiniquins a combater ao lado dos portugueses e logo decidiram cessar fogo e negociar a evacuação de Angola.  Foi o que já tinha acontecido, durante a guerra do Brasil Holandês, quando Maurício de Nassau preferiu negociar a continuar os combates mortíferos contra índios brasileiros. 

No Brasil Holandês, os caboverdeanos donos das plantações e trapiches de Pernambuco pediram seis meses para vender as suas propriedades, mas as autoridades portuguesas, provavelmente inspiradas por plantadores, que procuravam ficar com tudo a baixo preço, só concederam três meses.  Nessas condições, os caboverdeanos decidiram fazer o que já tinham feito, quando tinham vindo de Cabo Verde para o Brasil.  Embarcaram tudo, nos navios da Companhia das Índias Ocidentais, sem esquecer paus de cana para plantar e foram para a Guiana e para as Antilhas prontos para plantar canaviais e fazer açúcar. 

As Antilhas formam três cordilheiras de ilhas grandes e pequenas à volta da placa das Caraíbas, que se encontra entalada entre os continentes sul-americano e norte-americano, os quais se aproximam um do outro, comprimindo a pequena placa das Caraíbas, que está em vias de desaparecer por subducção por debaixo dos dois continentes.  Há duas cadeias de ilhas de Oeste para Leste, ao Norte (Cuba, Haiti, Puerto Rico, até Barbuda e Antiga e de Leste para Oeste, a Sul ao longo da Costa Selvagem da América do Sul (Trinidad e Tobago, Antilhas venezuelanas, depois das quais as ilhas ABC holandesas Coração, Bonaire e Aruba). Estas duas cadeias são arcos de grandes círculos do globo e, a Oriente uma cadeia de pequenas ilhas forma uma curva para completar a cordilheira das Antilhas em U aberto para ocidente, onde se encontra a cordilheira imersa da América Central, com o Panamá e outros pequenos países até ao México.  A cadeia oriental de Norte para Sul desenha o círculo de intersecção do globo com uma falha inclinada para oeste, que trouxe à superfície ilhas planas sedimentares e volcânicas.  Dentro do U, ou seja na placa das Caraíbas, ainda se encontra, ao sul de Cuba e prolongando Haiti outra cadeia com as Ilhas Jamaica e Cayman formadas pelo conjunto de pregas resultante da compressão da placa das Caraíbas. 

Há, pelo menos, dezassete vulcões activos nas Pequenas Antilhas.  A última erupção, na ilha de Monserrat, onde não havia informações sobre actividade vulcânica e se julgava que o vulcão estava inactivo, começou em Julho de 1995 e o vulcão descarregou lava de maneira contínuada até 1998.  Destruiu metade da ilha, incluindo a capital.  Dois terços da população abandonaram a ilha.


As ilhas de língua castelhana grandes e pequenas não nos interessam, porque, por obra e graça da santa Inquisição espanhola, o crioulo não chegou lá, como explicaremos.  Além das Antilhas, fala-se crioulo em algumas outras ilhas, que estão fora da cordilheira das Antilhas.  

Fig.    Mapa das Antilhas e do Mar dos Caraíbas
 (http://geology.com/world/caribbean-satellite-image.shtml)


A primeira é Barbados, uma pequena ilha plana.  Trata-se de um monte submarino coberto de calcários coralíferos com pregas e falhas, que faz parte e é a única ilha da cumeada submarina de Barbados a distância relativamente curta do arco das Antilhas.  A ilha foi levantada acima do nível do mar em consequência dos movimentos tectónicos relativos das placas oceânica e caraíba.    

As numerosas ilhas do arquipélago das Bahamas, 18 grandes e 700 pequenas, entre Cuba, Haiti e a Florida são recifes coralinos na plataforma das Bahamas, que é independente da plataforma do continente americano do Norte (Christian Juberthie and Thomas M. Iliffe, >1991 , Bahama Islands, Erro! A referência de hiperlink não é válida.) e separada desta por canais profundos.  A plataforma das Bahamas tem mais de 6000 m de espessura de depósitos calcários recifais, cuja massa provocou subsidência ou afundamento à medida que se sedimentavam.

Há ainda a ilha, melhor dito as ilhas Bermudas, que são as partes emersas de um recife coralino instalado no topo de um monte submarino (http://www.unesco.org/csi/pub/papers/smith.htm).  Trata-se de um sistema de dunas ou eolianitos calcários, que se formou quando o nível do mar era alto, durante os períodos interglaciais do Quaternário.  O monte submarino encontrava-se na dorsal médio-oceânica, quando apareceu, há 45 milhões de anos.   

Como já vimos, os holandeses interessaram-se especialmente pela Guiana, a chamada Costa Selvagem, ao Norte do Brasil, que se prolonga para a Venezuela e a Colômbia, onde ocuparam as ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Coração ao Norte da Venezuela).  Na Guiana logo se confrontaram com a concorrência dos ingleses.  Houve quatro guerras anglo-holandesas com numerosas batalhas navais:  três no período de 1652 a 1674 e a quarta de 1780 a 1810 ligada à guerra de independência dos Estados Unidos.  Dos caboverdeanos judeus vindos do Brasil com os holandeses a maioria ficou na Guiana com eles, mas os ingleses levaram cerca de mil para Jamaica, onde eles ensinaram a plantar cana e fazer açúcar na sua lingua crioula.  Uns trezentos foram para Barbados, uma pequena ilha com falta de terras e, dali, dezenas foram para Antiga e Montserrat, levando a sua língua, para ensinar a plantar cana doce e fazer açúcar.  Além destes navios holandeses com destino marcado para a Guiana, vieram do Brasil outros carregados de caboverdeanos, que procuravam outras ilhas para se instalarem.  O governador da Martinica não estava interessado, mas Charles Houël, que governou a Guadalupe entre 1643 e 1664 e já tinha tentado introduzir a cana e o açúcar, quando tinha chegado à ilha, logo concedeu terras e recebeu na Baía dos Flamengos, em 1654 perto de três centenas de “judeus holandeses”.  Devem ter chegado outros mais tarde, porque o Governador escreveu, em 1664:  «Eram cerca de 1.200, entre os quais, não chegava a haver 50 holandeses naturais» (ou seja brancos), «todos os outros sendo mestiços ou escravos negros», que «tinham querido ir com» os seus patrões.  Para quererem ir com os seus patrões, só se podia tratar dos caboverdeanos judeus refugiados do Brasil holandês com todos os seus bens e trabalhadores.  Logo puseram mãos à obra.  Quando o açúcar começou a ser vendido para exportação, o governador da Martinica depressa mudou de ideias. Os primeiros caboverdeanos martiniqueses encontraram refúgio na parte nordeste da ilha, que ainda se chama hoje Petit-Brésil (Pequeno Brasil).  Pouco depois apareceram franceses a plantar cana e instalar trapiches, mas com dificuldades de abastecimento de mão de obra.  Finalmente o rei Luís XIV tomou conta de tudo nas duas ilhas e fez empréstimos de capital aos bancos portugueses de Amesterdão  

Além da Guadalupe e Martinica, a França ainda está associada, nas Pequenas Antilhas, à ilha de São Bartolomeu e metade da ilha de São Martinho.  Ambas estão perto da Guadalupe.  O açúcar e o crioulo chegaram lá vindos da Guadalupe.  Da Guadalupe e da Martinica também devem ter ido para Haiti, ou São Domingos.

Nas grandes Antilhas espanholas o açúcar foi trazido das Canárias.  Os caboverdeanos judeus obviamente não iam residir nas ilhas controladas pela Inquisição e os capitães portugueses e caboverdeanos das marinhas mercantes de Coração, Santo Eustáquio e outras ilhas tinham sempre consigo documentos de identificação provando que não eram baptizados de pé, nem cristãos novos.  Esta observação esclarece o grande enigma indecifrável da crioulística:  “a escassez de hoje em crioulos de base espanhola constitui, na verdade, um enigma maior da crioulística” (McWhorter, 1995, citado por Angela Bartens, Universidade de Helsínquia, 30.7.2001, Assunto: Mar-Molinero, Clare, 2000, The Politics of Language in the Spanish-Speaking World: From Colonisation to Globalisation, Routledge, xiii+242pp. Paperback ISBN 0-415-15655-6, Hardcover ISBN 0-415-15654-8, Angela.Bartens@helsinki.fi).  Na verdade tratava-se dum enigma da Inquisição, muito fácil de esclarecer e não tinha nada a ver com a pobre crioulística, mas sim com os grandes feitos daquela instituição em “defesa da fé”.

A maior parte das Pequenas Antilhas foram colónias francesas e inglesas, mudando frequentemente de mãos.  Algumas, como São Vicente e Grenadinas mudaram mais do que uma vez dum país para o outro.  São Cristóvão (Saint Kitts) foi dividida entre a França e a Inglaterra, logo no início.

O crioulo das ilhas ABC, papiamento manteve o léxico português.  Nas outras ilhas, perdeu o contacto com o português e, na maioria das ilhas, relexificou-se ora em inglês, ora em francês.  Os crioulistas ingleses pensam que o crioulo das Antilhas é uma única língua derivada do inglês, com as suas variedades dialectais mutuamente compreensíveis.  Da mesma maneira pensam os crioulistas franceses.  Porém, antilheses cultos anglófonos e francófonos sabem que a sua língua e dialectos pertencem à família do crioulo caboverdeano e foram ensinados pelos caboverdeanos.

Resta-nos ainda investigar, ilha por ilha, como chegaram concretamente o crioulo e o açúcar.  Interessa saber que, antes do açúcar, muitas ilhas já cultivavam algodão, café ou tabaco e anil.  Essas culturas pararam, sendo substituídas pelo açúcar, porque, na América do Norte, mais perto da Europa, grandes plantações forneciam algodão, café e tabaco mais baratosao mercado europeu, ao passo que o açúcar das Antilhas ficava mais perto da Europa do que o do Brasil, que concorrenciou.  Entre os colonos ingleses havia Loyalists, ou seja refugiados depois da independência americana.  Entre os colonos franceses havia refugiados protestantes, que ficaram conhecidos por Huguenots e havia também, depois da expulsão dos judeus pelos jesuitas, aristocratas amigos do Rei de França.
  



País ou Ilha, Capital
Início coloniza-ção
Chegada Açúcar
Povoa-mento
Línguas faladas hoje
Outras informa-ções
Bermudas, Hamilton
1614, Virginia company;       1684 Coroa
Não houve plantações.
Recente-mente caboverde-anos com açoreanos
Inglês da Bermuda = Krio descrioulizado
Floresta de cedros: caixotes e navios
Bahamas, Nassau
1648, Ingleses da Bermuda fixam-se Ilha Eleuthera;    1718, Coroa
Plantações de algodão pelos loyalists
Refúgio de escravos fujões
Dialecto krio, 75%;  Haiciano, 25%

Turks & Caicos, Cockburn Town
1680
1799, inglesas
Algodão pelos loyalists, sal 

Dialecto krio pare- cido Bahamas

Cayman, George Town
1661, 1670, 1730 col. permanente
Paraíso fiscal, sem plantações
Governadas pela Jamaica
Cioulo de Cayman
Não há vestígios de índios.
Jamaica, Kingston
1655, inglesa
Ingleses expulsa-ram espanhóis, mas deixaram ficar portugueses.
1675 com os caboverdeanos
1675, cerca de 950 cabover-deanos trazidos da Guyana 
Crioulo relexificado em inglês
Neta de Colon casou-se com um português da casa de Bragança.  Vieram cristãos novos portugueses.
Haiti, Port-au-Prince
1697, um terço francês, dois ter-ços espanhol, Tra-tado de Ryswick
1700, Produção de açúcar subs-tituíndo tabaco, por famílias de Montserrat e amigos do rei.
Irlandeses de Montserrat
1685, primeiro engenho;
1720, Produção iguala Jamaica
Crioulo Haiciano = crioulo de Mont-serrat relexificado em francês.
Crioulo C. V. --> crioulo bajane Barbados --> crioulo de Monserrat --> crioulo Haiciano
British Virgin, Road Town (Tortola)
1672-80;
1950, Autonomia resultante dum movimento dirigido por Isaac Fonseca e Carlton de Castro
Plantações de algodão e açú-car declinaram depois da aboli-ção;  depois da autonomia, paraíso fiscal.
Plantadores de Anguila chegam com escravos e gado, fazem plantações e são ajudados por mercadores de Liverpool.
Crioulo relexifi-cado em inglês, também falado em Saba, Sint Martijn, Santo Eustáquio.
1834, abolição escrava-tura; 
1853, revolta dos antigos escravos, incêndio da capital e fuga dos plantadores para Haiti.
Danish Virgin, Christiansted (St. Croix)
1660, 1671, St. Thomas;        1718, St. John;    1733, St. Croix;    1917, vendidas aos USA 
1680, pequenas plantações, 47, tabaco e açúcar;
1733, revolta em St. John, nas mãos dos escra-vos durante um ano.
St. Croix, com o seu açúcar foi a ilha mais rica. 
1688,  recen-seamento, 45 % declarou nacionalidade holandesa: grande parte eram portugues-ses caboverdea-nos do Brasil holandês e da Guiana.
Inglês,
Crioulo caboverdeano
Navios negreiros da Dinamarca traziam 1.000 escravos por ano, comprados nos mercados africanos.
Abolição 1848, trinta anos depois revolta dos antigos escravos que queimaram a cidade de Frederiksted, na ilha de St. Croix.
US Virgin, Charlotte Amalie (St. Thomas)
1917, compradas à Dinamarca
A comunidade judaica de St. Thomas, que nasceu no início do século XVIII é uma das mais antigas da América e a esnoga de Charlotte Amalie vem a seguir à de Coração, entre as que têm sido usadas continuamente.  É de rito sefardim caboverdeano.
Crioulo da ilha St. Croix é um pouco diferente do que se fala nas outras duas ilhas.  Descrioulização mais adiantada em St. Croix.

Sint Eustatius, Oranienstad
1636 
1655, Portugueses judeus de Coração
1722, Portugueses de Amesterdão;  1781, mais de metade dos cidadãos livres eram portugueses.
Fim do século XVII com portu-gueses judeus de nacionalidade holandesa.
No cemitério judaico os túmulos mais antigos datam de 1742.
Almirante inglês destruiu sinago-ga roubou todos os bens dos portugueses e deu- lhes 24 horas para se irem embora, sem bagagens.
Holandês,        Papiamento,
Crioulo Inglês das Ilhas Vigens
Oranjestad era um porto sem direitos alfandegá-rios, que se tornou muito activo e veio a fornecer armas e munições aos americanos durante a guerra da independência.  O governador teve de render-se a um almirante inglês, que expulsou os holandeses e franceses.
Os portugueses judeus refugiaram-se nas Ilhas Virgens, perdendo tudo.
Anguila, The Valley
1650, ingleses de St. Kitts, depois ingleses e crioulos vindos de Nevis, Barbados, Antigua
Ingleses e criou-los trouxeram escravos, depó- sito de Nevis forneceu mais  mão de obra.
Vieram prova-velmente de Barbados, St. Kitts, Nevis e Antigua muitos descendentes de caboverdeanos.
Crioulo de Anguil-la, que pertence à família dos dialec-tos caboverdea-nos relexificados em inglês nas Antilhas
Anguila é actualmente um paraíso fiscal.  Economia: turismo, bebidas alcoóli-cas e sumos de fruta, vá- rias indústrias electro-mecânicas em associação com multinacionais.  
Sint Maarten, Philipsburg
1618, 1631, 1648
Plantações algodão, tabaco, açúcar

8,3% Crioulo ingl. das I. Virgens
1,5% Papiamento

Antigua,      Saint John
1632
1674, vindo de Barbados
Plantações de açúcar irmãos Codrington
Crioulo inglês da Antigua

Barbuda, Codrington
(1628), 1666
1684, irmãos Codrington

Crioulo inglês, ou bajane

S. Christophe = Saint Kitts, Basseterre
1623, colonos ingleses;       1624, colonos franceses
partilham a ilha.
1640, açúcar substituiu taba-co e acabou em 2005.

Inglês;
Crioulo de Saint Kitts não é muito falado nem mencionado em documentos oficiais.
1607,Jamestown, Virgínia, primeira colónia inglesa na América

Nevis, Charles-town
1628, família Pin-heiro de Barbados e outros atingiram um quarto da po-pulação da capital; perto de 200 plantadores.
1650, Cana doce em Nevis dava 50% mais açúcar do que St. Kitts.
6000 a 7000 escravos por ano vindos de África passaram, pelo depósito de Nevis.
Inglês
Crioulo de Nevis é mais falado do que em Saint Kitts.

Montserrat, Plymouth so-terrada duran-rante erupção 1995
1628, colónia fundada com colonos Irlandeses de Barbados
Plantações de algodão e açúcar, depois de 1660, com caboverdeanos vindos da Guiana.
Depois da erupção, 8000 pessoas abandonaram a ilha, onde só ficaram 5000.
Inglês,
Crioulo não é mencionado
Capital provisória: Brades
Capital em construção:  Little Bay
Metade sul da ilha evacuada, durante erupção 1995-7
Saba, The Bottom
1530-40, famílias holandesas enviadas de Santo Eustáquio, ilha mais próxima.
Plantações de anil e açúcar , proprietários em Santo Eustáquio
Famílias holan-desas, inglesas e escocesas e descendentes de escravos
Holandês e inglês, Crioulo da Ilhas Virgens

Saint Barthéle-my = St. Barth,  Gustavia
1648, 1659,
1665-6, Ordem de Malta
1784–1878, porto franco sueco
Cacau e culturas alimentares
Primeiros habitantes vinham de Saint Kitts
Francês
Crioulo falado a barlavento e francês antigo na outra metade
Hoje há centenas de portugueses trabalhando na indústria de turismo.
Guadeloupe, Pointe-à-Pitre
1635, franceses vindos de St. Kitts
XVII, mais açú-car do que todas as inglesas
Caboverdeanos do Brasil à pro-cura de terras
Francês, Caboverdeano relexificado

Dominica,    Roseau
1690, franceses
1763, ingleses
1690, madei-reiros
1727, cana e café
Guadelupeanos no Norte
Martiniqueses no Sul
Inglês
Crioulo francês da Dominica, Kweyol
Kokoy, descen-dentes imigrantes Montserr. e Antig.

Martinique, Fort-de-France
1635, 150 france-ses de S. Kitts, depois maioria de Huguenotes perse-guidos pelo rei; 1688, quase todos fugiram para terri-tórios ingleses; 
1670, Cabover-deanos chama-dos depois do sucesso na Gua-dalupe.  Benjamim da Costa planta cacau e  cana doce e instala um engenho.
Franceses, caboverdeanos e escravos
Francês, Crioulo martiniquês ou caboverdeano relexificado
Nas colónias francesas os jesuítas só conseguiram expulsar os judeus depois da morte de Colbert, 1685.  A expulsão dos portuguees judeus não foi rigorosamente aplicada.  Vieram portugueses judeus de França (Bordéus).
Saint Lucia,    Castries
1660 franceses,
1660 a 1814 mudou de mãos sete vezes, doze vezes neutra, colonos franceses iam ficando
1814 ingleses definitivamente
Plantações de cana
Hoje petróleo, bananas e cerveja de malte
Franceses da Martinica
Crioulo francês de Saint Lucia

Barbados,       Bridgetown
Visitada durante as voltas de África
1518, colonos esp.
1625, colonos ingl.
1536-1625, frequentada pelos portugueses
1627, tabaco, algodão, anil
1640, cana de açúcar
1627, judeus caboverdeanos, cerca de 300,
1654, sinagoga Nidhe Israel
Crioulo relexificado em inglês ou bajane, que é também o nome do país e dos habitantes em crioulo
Portugueses preparavam-se para estabelecer uma base de escala em Barbados, entre Açores e Brasil, mas desistiram.
Saint Vincent,  & Grenadines, Kingstown
1627, franceses da Martinica
1754, ingleses
1779, franceses aliados com caraíbas pretos
1796, ingleses deportam 5000 caraibas pretos.
Plantações de café, tabaco, anil, milho e açúcar
Caraíbas pretos documentados por Colombo (garifuna, pl. garinagu), finalmente deportados para Belize
Crioulo relexifica-do em francês, em vias de relexi-ficação em inglês

Grenada, Saint George’s
1649 a 1763, colónia francesa;  1763 – 1974 colónia inglesa
Cana de açúcar, anil
Noz moscada, cravinho, cacau
1649, povoada por 203 martiniqueses
Crioulo da Grenada relexifi-cado em francês e  inglês

Tobago, Scarborough
1654, Curlândia;  1762, Ingleses
1672-4 Planta-ções inglesas: algodão, açúcar;
1798, novas  plantações de açúcar
1672
Crioulo vindo de outra ilha inglesa
Curlandeses, Holandeses, Ingleses, Franceses, Espanhóis e Suecos ten-tam estabelecer-se, a ilha mudou de mãos 33 vezes.
Trinidad, Port of Spain
1797, Franceses Martiniqueses
1889, colónia inglesa
1797
XIX, Oil, industry
1797, martini-queses descen-dentes de cabo-verdeanos
Crioulo martini-quês ou crioulo caboverdeano relexificado em francês

Guyane Française, Cayenne
1503, 1643
1636
1636 cabover-deanos vindos do Brasil holandês, ficaram primeiro na ilha de Caiena, depois foram para Torarica e Savana dos Judeus.  
Fins XIX, portugueses madeirenses
Crioulo caboverdeano relexificado

Suriname, Paramaribo
1667
1636
Bauxite, turismo
Surinamês, Saramaca, Ndyuka ou Aucano

Guyana, Georgetown
Início XVII;  1831, Guyana inglesa; os holandeses chegaram primeiro: Esse-quibo, 1616, Ber- bice,1627, Demerara, 1752
1636
Hoje, Au, Al bauxite, arroz, açúcar
Creolo relexificado, inglês, hindi

Bonaire, Kralendijk
1636
Madeira corante, milho, sal,
sem  açúcar
Clima seco não convinha para açúcar. Administração comum com Coração
Povoada por judeus caboverdeanos
Papiamento falado é muito parecido dumas ilhas para as outras, papiamento escrito é muito diferente.  
A ortografia  é diferente em cada ilha e até muda dum grupo de pessoas para outro.
A lingua oficial neerlandesa é língua materna de menos de 10% da população.
Coração, Willemstad
1634, 1651,portugueses da Holanda com João de Yllan e do Brasil com Isaak da Costa
Armação de navios.
Comunidade portuguesa mui-to numerosa foi povoar Tucacas, Venezuela, Vir-gens, S. Mart., S. Eustáquio.
Aruba, Oranje-stad
1636 holandeses
Clima seco, sem açúcar.
Belize, Belmopan
1683, explorado-res de madeira,            1786, 1798
O açúcar ainda é a principal produção agrícola.
Crioulos trazidos da Jamaica e Bermuda, pelos lenhadores.
Kriol de Belize falado original- mente pelos escravos;  espa-nhol da cozinha;  Menonitas (Igreja Anabaptista) russos  da Ucrânia, falando alemão dialectal.
Garinagu (pl. Garifuna): precolombianos pretos falando arawak na ilha de São Vincente, que, com os franceses combateram os ingleses, que os desterraram para a ilha grenadina de Baliceaux, depois para Belize, em número de 5000.






























































































































































































































































































































































































































































































No quadro seguinte, as ilhas e territórios continentais estão indicados por ordem geográfica começando ao Norte com as Bermudas e acabando a Sudeste com Aruba e Belize.

Este mapa foi elaborado utilizando informações colhidas na Wikipedia e na Internete, depois de corrigidas e interpretadas.  Como já dissemos, as ilhas e países vão por ordem geográfica começando ao Norte pela Bermuda e pelas Bahamas, para descrever o arco das Antilhas para Leste e para Sul, dar a volta para Oeste e terminar na costa de Venezuela, ilhas ABC e, mais ao norte, em Belize, antiga Honduras Britânica vizinha de Guatemala e México.  O mapa mostra claramente, que o açúcar e o crioulo chegaram com os caboverdeanos judeus directamente à Guyana, Jamaica, Barbados, Guadalupe e Martinica e, destas, foram para as outras ilhas e territórios, com novas gerações de caboverdeanos judeus já nascidos e treinados nas Caraíbas, como os chamados “mulatos livres” da Martinica.  

Há algumas ilhas, que não tiveram plantações de cana doce por terem clima semi-árido (ilhas ABC, Bermudas) e outras onde não estiveram caboverdeanos, mas falam crioulo.  Nestas últimas, que se encontram mais perto dos Estados Unidos e que receberam refugiados loyalists, depois da independência dos Estados Unidos, o crioulo é da subfamília do krio da Serra Leoa. 

A evolução das línguas crioulas nas Antilhas e outros países das Caraíbas pode ser resumida como se segue.


(1)    Krio da Serra Leoa


América do Norte e Central
Krio Americano ou afro-american creole English
Bermuda
Krio descrioulizado
Bahamas
Krio das Bahamas
Turks & Caicos
Belize
Krio ou crioulo (?) de Belize


(2)    Crioulo Caboverdeano




Fases: Língua Original
País ou Ilha        de Destino
Nova Língua ou Dialecto
Ilhas ABC
Primeira Fase:  Crioulo Caboverdeano vindo de Pernambuco, Brasil Holandês
Curação
Papiamento, dialecto do crioulo CV
Bonaire
Aruba
Guiana
Guyana
Crioulo CV relexificado em inglês
Suriname
Surinamês = Crioulo CV relex. em holandês
Saramaca, CV sem relexificação (fujões)
Ndyuka ou Aukan, idem
Guyane française
Crioulo CV relexificado em francês
Antilhas
Jamaica
Crioulo Jamaicano = Crioulo CV relex. em inglês
Barbados
Bajane, crioulo CV relexificado em inglês
Guadalupe
Crioulo CV relex. em francês, Guadelupeano
Martinica
Crioulo CV relexificado em francês, Martiniquês
Segunda Fase:  Papiamento, Crioulo da Guadelupe
Santo Eustáquio
Dial. Papiamento
Dial. Papiamento, Crioulo da Guadelupe
Saint Barthélemy
Dialecto crioulo da Guadelupe
Ilhas Virgens
Segunda Fase:  Crioulo Cabo-verdeano da Guiana
Danish Virgin Islands
Crioulo CV relexificado em inglês;  relexificação e/ou descrioulização mais adiantada em Saint Croix
Saba
Segunda Fase:  Crioulo das Ilhas Virgens, léxico Inglês
Saba
Crioulo das Ilhas Virgens com léxico inglês
Antilhas colónias francesas
Terceira Fase:  Crioulo da Martinica e Guadalupe
Dominica
Crioulo CV relexificado em francês e alternadamente ou depois em inglês 
Saint Lucia
S. Vincent et Grenadines
Grenada
Trinidad
Antilhas, colónias inglesas
Terceira Fase:  Crioulo da Jamaica
Cayman
Dialecto crioulo jamaicano, léxico inglês

Terceira Fase:  Crioulo de St. Kitts
Anguilla
Dialecto crioulo da Angulla, léxico inglês
Pequenas Antilhas Inglesas
Terceira Fase:  Bajane de Barbados
Antigua
Dialectos do crioulo Bajane, léxico inglês
Barbuda
Saint Kitts
Nevis
Montserrat
Ilhas Virgens Inglesas
Terceira Fase:  Crioulo de Saint Vincent
Tobago
Crioulo de Tobago, léxico inglês
Terceira Fase:  crioulo de Monserrat (e da Martinica?)
Haiti
Crioulo Haiciano, ou Ayisyen
Belize
Terceira Fase: Crioulo da Jamaica, Krio das Bermudas
Belize
Kriol
Pequenas Antilhas Inglesas
Quarta Fase:  descrioulização

Montserrat
Mais de metade da população (60 %) foi para o Reino Unido depois de erupção
Saint Kitts
Falta de interesse pelo crioulo (?), colónia inglesa mais antiga
Bermuda
Proximidade dos USA já descrioulizados pelos professores das escolas primárias




























































































Neste mapa, a primeira fase é a chegada do crioulo caboverdeano vindo do Brasil, a sua utilização, em vários territórios, e a sua evolução, nesses territórios, dando origem aos primeiros dialectos e línguas crioulas das Caraíbas, como o papiamento.  A segunda fase representa a passagem desses primeiros dialectos e línguas a outras ilhas distantes, sem relexificação.  A terceira fase compreende relexificações em francês e inglês, geralmente uma a seguir à outra, às vezes em mais do que uma alternância.  A quarta fase é a descrioulização.  Este mapa toma em consideração a história da deslocação dos falantes com a tecnologia do açucar, que não pode esclarecer todos os problemas, sem o estudo comparativo das línguas e dialectos, como por exemplo, em Belize, onde chegaram dois crioulos originais ao mesmo tempo ou, em Haiti, onde o açúcar e o crioulo parece terem chegado de Montserrat, mas também pode ter havido influência do martiniquês.  Resta a fazer o estudo comparativo das línguas crioulas das Caraíbas, para confirmação e aprofundamento destes conhecimentos e rigorosa classificação.  

Em comparação com a francesa e a inglesa, a relexificação em neerlandês foi muito limitada e só se verificou na Guiana e nas Ilhas Virgens Dinamarquesas, que foram compradas pelos Estados Unidos da América.  No Surinamês cerca de 16% do léxico é de origem neerlandesa, ao passo que no saramacano há menos de 5% de palavras de origem neerlandesa.  Nos vales dos rios Berbice e Essequibo apareceram no século XVII duas línguas crioulas relexificadas em Neerlandês e mutuamente compreensíveis chamadas respectivamente crioulo holandês e skepi.  Um crioulo relexificado no dialecto da Zelândia foi levado pelos refugiados holandeses de Santo Eustáquio para as Ilhas Virgens Dinamarquesas.  Outro crioulo relexificado em neerlandês chegou a Nova Jersey com colonos holandeses vindos das Caraíbas.  Todos estes crioulos extinguiram-se, o mais tardar, no fim do século XX.  

No primeiro mapa não damos informações exaustivas sobre a actual economia dos países e ilhas das Caraíbas, só alguns exemplos.  A primeira observação é que, nesses países, como, em Cabo Verde o turismo é muito importante.  Muitos têm também (Haiti, por exemplo) uma forte emigração.  Mas estão todos à frente de Cabo Verde, com muitas multinacionais instaladas a trabalhar e muitas pequenas indústrias electro-mecânicas e outras de produtos de consumo local e exportação.  Alguns têm petróleo suviciente até entrarmos na era da energia solar.  Também têm paraísos fiscais e entraram na globalização, para onde Cabo Verde precisa de voltar directamente, sem dar a volta à África, afim de lá chegar mais depressa. 

Parece que Cabo Verde não teria nada a perder, se estivesse associado, como já esteve, a esses seus descendentes e a essas suas antigas colónias da América, antes pelo contrário.  Já lá está o Brasil com o seu braço forte e mão amiga, em Haiti. 

Cabo Verde também teria muito a ganhar, se os seus políticos comparassem os índices do seu desenvolvimento económico aos destes países, em vez de os compararem aos de África e da “região”, para depois se gabarem e apresentarem o atraso como se fosse progresso e brilhante desempenho político dos dirigentes do PAICV.

Apresentámos aqui cerca de trinta e cinco dialectos e línguas da família do crioulo caboverdeano, na América.  Em África e à volta de África, temos mais uns sete ou oito, sem contar os que ainda que se falam da Libéria até aos Camarões, subfamília do krio.  Na Ásia, subsistem sete.  O total é de cerca de cinquenta.  Acrescentando os que se extinguiram, na Ásia o número total ultrapassará certamente sessenta, sem contar a maioria dos dialectos da subfamília mal conhecida do krio, dos quais só contámos três na América Central e outros três em África.  Os léxicos das línguas desta família derivam do português, inglês e francês, com contribuições mínimas de outros variadíssimos acrolectos, onde se destacam o holandês, o castelhano, o tagalá e o cebuano.  A família do crioulo caboverdeano tem mais de cinquenta línguas e dialectos, que ainda se falam e mais de vinte que se extinguiram.  Menos de dez estariam em vias de se extinguirem. 

A família do crioulo caboverdeano ficará com umas quarenta línguas e dialectos e Cabo Verde deve preparar-se para fazer face às suas responsabilidades de país da língua mãe, promovendo uma academia internacional das línguas crioulas e o estudo das línguas filhas, que deviam aproximar-se, em vez de se afastarem, como está a acontecer em Cabo Verde, quando nem a Guiné foi consultada, muito menos associada aos projectos desenvolvidos depois de independência pelos linguistas marxistas-leninistas do PAICV.

Em Cabo Verde, o desastrado culto marxista-leninista da personalidade de Amílcar Cabral começou com a sua ridícula nomeação para pai da nação e logo todos se esquecerem que tinha dado a sua vida para reconstruir a unidade dos povos da Guiné e de Cabo Verde.  Essa unidade falhou na política da “luta”, mas precisa de ser realizada ou restabelecida pelo trabalho e desenvolvimento em comum.


Não vamos aqui avaliar o número de falantes de línguas crioulas nas Antilhas e Caraíbas.  Basta dizer que se aproxima de vinte milhões, mais precisamente 17.800.000 segundo os números fornecidos por Sublet.com (2017, Caribbean Information, https://www.sublet.com/information/caribbean.asp).  Na África Ocidental há cem milhões de pessoas que utilizam línguas crioulas para se entenderem, mas, em Cabo Verde, os inventores do ALUPEC esqueceram-se que as línguas faladas sem literatura escrita estão no continente vizinho, não estão no arquipélago.  Cabo Verde não chamou ninguém para aprender a escrever crioulo e não pode isolar-se no meio do oceano, tem de se abrir à cooperação em todos os azimutes.   

Uma janela para o mundo (*)

segunda-feira, 15 de maio de 2017


Jorge Tolentino

Celebra-se hoje mais um aniversário do 25 de Abril, dia importante para Portugal e para nós também. A conquista maior que o 25 de Abril simboliza é a Liberdade. E é auspicioso que num dia como este possamos falar de leitura. Leitura é antes de mais liberdade para ler.
Para ler tudo e de tudo o que nos aprouver, mas também liberdade para escrever e publicar o que nos apeteça. 25 de Abril foi igualmente o fim da censura.
Também aqui em Cabo Verde se sofreu duramente nas mãos da censura.
Os casos são muitos. Recordo um exemplo apenas: Baltasar Lopes foi proibido de publicar aqui nas ilhas o seu conto “A Caderneta”. Conseguiu publicá-lo com a Vértice, de Coimbra, em 1949. Dizia ele que a censura em Cabo Verde era “mais papista que o Papa naqueles anos de salazarismo fascistóide”. (1)
É de 1986 o exemplar autografado de “A Caderneta” que trago aqui
comigo. (2)
O que vos quero dizer hoje é mais um depoimento na primeira pessoa e exclusivamente desde o ângulo de leitor.
Sempre, desde muito novo, encontrei na leitura, de facto, uma janela para o mundo. Por ela cheguei e continuo a chegar a lugares distantes, a aprender com os sentimentos, as angústias, os sofrimentos, as alegrias de outros, a desfrutar do encontro sempre renovado com o conhecimento, a satisfação de aprender com cada texto que é lido, a grata sensação de estar num caminho que não me cansa e do qual não me canso. Na verdade, no silêncio do espaço de leitura vêm até mim, por essa tal janela, todas as sensações do mundo. Diz Pessoa que “a melhor forma
de viajar é sentir”.
É bom reconhecer que, neste nosso arquipélago, o mundo sempre esteve cá dentro, sempre soubemos dele e sempre o sentimos. A leitura sempre foi uma das nossas janelas.
Com os veleiros, na linguagem barbosiana, os vapores, os paquetes...
Com eles vinha sempre uma peça para leitura, quando não livros ao
menos uma revista ou um jornal já desbotado. Era muita a sede de ler.
E é, de facto, emblemático o exemplo da geração da Claridade. Há vários depoimentos e registos. Mas recordemos a seguinte passagem de uma carta de Jorge Barbosa a Manuel Lopes, de 21 de Outubro de 1933: “remete-me os últimos números das Nouvelles Littéraires e a Presença, depois do nº 38” e ainda “alguns livros interessantes, tudo empacotado e ao cuidado de qualquer capitão conhecido.” E “se não tens Presença pede-a ao (Jaime) igueiredo”. (3)
Naturalmente que existe um vinculo entre a leitura e a evolução do ensino em Cabo Verde. Não apenas porque nas escolas, nos seminários, nos liceus se foi aprendendo a ter os instrumentos necessários para ler, mas sobretudo porque se foi afirmando uma atitude favorável à leitura enquanto ponte para o conhecimento ou uma janela para outros mundos.
Talvez porque o nosso “meio pequeno” (a expressão é de Manuel Lopes) fosse ainda mais apertado do que é hoje, a leitura e o conhecimento gozavam de uma valorização social muito mais forte. Havia, vincada, a ideia da “pessoa culta”. Não necessariamente por virtude de um título académico, mas pelas provas que dava de conhecimento, de sabedoria, de autoridade adquiridos nesses outros mundos a que se chega através da leitura.
Muitas figuras ilustres da nossa Cultura, da nossa História não tiveram a
sorte de ir ao ensino universitário (eram outros tempos, outras dificuldades, outras regras também) mas foram pessoas sabedoras, marcaram o seu tempo. Souberam desfrutar de outras janelas para o mundo. Alguém ignora, por exemplo, o lugar de Jaime Figueiredo? Ele
escrevia de forma límpida, soberba.
Cabo Verde continua a ser um meio pequeno, é certo, mas é hoje um meio mais complexo; crescemos de forma acelerada em algumas áreas, outras foram sendo descuradas. Objectivamente. A leitura é um desses domínios em que estamos mal. Não somos ainda uma sociedade amiga da leitura. Não há coerência entre o que dizemos e o que efectivamente tem sido feito pela leitura. Oxalá esta iniciativa presidencial tenha o efeito de fogo no rastilho.
Parece-me, entretanto, importante que estejamos atentos a alguns perigos ou emboscadas.
Um Plano Nacional de Leitura, ou como quer que se chame, é um instrumento apenas, por importante que seja. Em Cabo Verde, temos, por via de regra, uma percepção mágica das leis, das medidas, dos planos: esperamos que por si resolvam os problemas, já pelo simples facto de serem adoptados.
Há uma pluralidade de factores que têm de conjugar-se para que o nível
e a qualidade da leitura cresçam entre nós. O Plano será certamente parte de uma luta que se anuncia longa e da qual não nos podemos eximir. Nenhum de nós. Temos todos de poder contribuir para uma estratégia nacional de sedução para a leitura. Ponto é que saibamos dessacralizar o livro e outros materiais de leitura e fazê-los chegar aos leitores. Quebrar a ideia de que ler é chato, penoso, punitivo. Sempre achei magnifico o sistema das bibliotecas itinerantes. Mas lá onde existam bibliotecas “clássicas” é preciso que sejam espaços onde apeteça estar, com espólios renovados e formas de funcionamento que favoreçam os leitores. Não podem ser meras repartições. Julgo que falta descentralizar as sessões de apresentação de livros, assim como falta levar os autores para junto dos leitores, nos locais mais distantes, de forma mais sistemática. Está nos planos da Academia Cabo-Verdiana de Letras contribuir nesse sentido. Faltam, na nossa Comunicação Social, programas de promoção da leitura.
O segundo alerta tem que ver com o facto de sermos uma sociedade de
baixo sentido crítico. Fazemos muito barulho, mas não vamos ao essencial das questões. Todos opinam sobre tudo, sempre com invariável sapiência. Mas afogamos em pouca água; falta-nos serenidade. Falta-nos leitura e reflexão. Sem leitura jamais teremos cidadãos bem formados, com sentido crítico e estético, com autonomia no exercício pleno da sua própria esfera de liberdade e decisão.
Em terceiro lugar, é importante não estabelecer um nexo automático entre a habilitação académica e a apetência e o gosto pela leitura. Somos hoje uma sociedade com muita gente formada, é certo, mas que lê pouco.
Gente para quem a leitura não constitui prioridade nem para si nem para
as suas famílias. Nos seus orçamentos domésticos não há um item “aquisição de livros” ou algo parecido.
E reside aqui um risco enorme de reprodução de padrões. Como reside também o risco de normalização de certas formas de analfabetismo, quando não mesmo de valorização social das mesmas. O risco de nivelar por baixo.

Julgo que há ainda um outro embuste a evitar. Já ouvi pessoas a defender que nunca se leu tanto em Cabo Verde como se lê agora. Será?
Aliás, esta própria iniciativa presidencial de incentivo à leitura é prova de que algo não está bem.
Pessoalmente, prefiro dizer que hoje em dia dispomos de um dinamismo sem precedentes em termos editoriais, há cada vez mais livro editados,
mas é preciso apurar se esse fulgor editorial se traduz em mais leitores e em mais leitura. Não creio.
É só ver quem são as pessoas que vão aos lançamentos de novas obras: sempre as mesmas caras. Mais ainda, é só ver o ritmo de venda dos livros: vendem-se aos pingos.
Pessoalmente, acordei e cresci para a leitura num tempo diferente do de hoje. Antes de mais, o ambiente mágico das estórias ao anoitecer. Da minha Avó ouvimos estórias maravilhosas que nos faziam sonhar, sentir
medo também, mas sempre imaginar, viajar por mundos desconhecidos.
Falo de mim, dos meus irmãos e primos, dos amigos da vizinhança.
Nesse contexto de oralidade a imaginação corria solta.

Depois vieram os livros aos quadradinhos que liamos avidamente em regime de comunhão. Juntávamos tostões para os adquirir e depois eram conservados numa caixa de papelão à guarda de um dos meus primos. Era um outro espaço de imaginação e viagem.
Nesse tempo, os livros não nos eram nem distantes nem estranhos. Com o passar dos anos, o seu significado foi-se avolumando. Alguns foram lidos à socapa, outros com indicação.
Lembro-me que comprei o meu primeiro livro “à sério” nas férias da 4ª classe. Fiz a 4ª classe na ilha do Sal, com a conhecida Professora Dona Olga Figueiredo, e regressei logo a seguir ao Mindelo. Enquanto aguardava pelo inicio das aulas do Ciclo Preparatório, tive um trabalho, assim uma espécie de ajudante de secretaria. Foi quando aprendi a escrever à máquina e aprendi algum linguajar administrativo. Quando recebi o primeiro salário de sempre na minha vida, entreguei-o à minha mãe e, após receber dela o que me coube, fui a correr à já então veneranda “Papelaria de Toi Pumbinha” e comprei o livro que já havia identificado na montra: “Contra Mar e Vento”, de Teixeira de Sousa. O título tinha-me atraído. E a capa bonita também. Li-o com gosto. Outros livros vieram a seguir. Aprendi a ser um leitor para a vida. Leio sempre. Hoje em dia, leio imenso material em suporte electrónico, incluindo livros, mas o livro em papel tem o seu lugar - que é dele.

Tive a sorte de receber livros por empréstimo de gente como António Aurélio Gonçalves. Das mãos dele recebi um exemplar da 1ª edição, de 1951, de “O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca. Guardo-o ciosamente.
No Liceu, tive professores magníficos. A Professora Alice (Alcy) Matos era especialmente preocupada com a Leitura. Organizava concursos de estímulo à leitura e a própria turma ajudava a decidir quem era merecedor dos prémios. Assim, nesse contexto, ganhei o exemplar de “Chuva Braba”, edição de 1965, com dedicatória, que trago aqui comigo. Da Professora de Inglês, Dona Isménia Heenan, tive uma oferta que devorei. Uma antologia da novela universal. Está velhinha mas ainda a conservo e trago-a aqui comigo. (4) Foi o meu primeiro contacto com Chamisso e o seu “Pedro Schlemihl, o Homem sem sombra”. Gostei muito dessa viagem pelo, digamos, absurdo.
Espaço relevantes de contacto com a palavra foram, sem dúvida, os Grupos de Jogral. Ainda recentemente, referi-me, incidentalmente embora, a essa experiência num texto-depoimento para a edição especial do Jornal Artiletra dedicada a Corsino Fortes.Isso ainda no Liceu Ludgero Lima, em S. Vicente.
Já no curso complementar, aqui no Liceu Domingos Ramos, a
Professora Ondina Ferreira quis sempre ter em nós leitores competentes e com espirito aberto. Tanto nos levou aos autores cabo-verdianos, incluindo Daniel Filipe de “A Invenção do Amor”, como nos levou lá para fora com Eça de Queirós, com Torga, com Sofia, com Carlos de Oliveira, com António Gedeão, com Mourão-Ferreira e até gente como Heinrich Böll e o conto “O Cómico” que está na sua deliciosa colectânea “Os Hóspedes Inesperados”.
Cada um dos dois liceus existentes no país tinha a sua biblioteca. Isto é um dado importante, sobretudo se pensarmos no que (não) existe nos liceus de agora. Ainda tenho o meu cartão de Leitor da Biblioteca do Ludgero Lima. Aliás, trago-o aqui comigo. Lembro-me do carinho que a Professora Bernardette Fortes dedicava a esse espaço.
Nesse tempo liamos tudo, de jornais a revistas, tudo o que aparecesse. Mesmo livros passavam de mão em mão. Lia-se e devolvia-se e passava para outro.
Aqui na Praia, pontos importantes eram a livraria do Instituto do Livro e a pequena livraria que havia na Galeria da Casa Serbam. Por eles chegavam escritores marcantes. E assim a alegria, o prazer!, de sair pelo mundo levados por Jorge Amado, Érico Veríssimo, Lins do Rego, Steinbeck, Hemingway, Kafka, Eugénio de Andrade, Cardoso Pires, Jorge de Sena, Abelaira, Luandino Vieira, Pepetela, Nicolau Gogol, Tolstoi, Dostoievski e tantos, tantos outros.
A condição de “estudante-trabalhador” dava-me algum desafogo para os livros.
Devo referir que foi no ambiente do Jornal “Voz di Povo”, onde eu era jovem repórter, que conheci Arménio Vieira, então exigente Re-Writer.
Tomei a peito as observações dele e não tardou ele isentou os meus textos de passar pela revisão. Foi por essa altura que ele publicou o livro “Poemas”, tendo-me oferecido um exemplar com uma bela dedicatória. Ainda não havia o ritual das sessões de apresentação de livros. Mas havia concursos literários e os chamados jogos florais.
Um momento marcante para a vida cultural neste país foi sem dúvida a primeira Feira do Livro português, assim se chamava na altura, isso em
1981. Como escrevi num texto de homenagem a Manuel Duarte, quem foi o primeiro presidente do Instituto Cabo-Verdiano do Livro, a feira “significou um verdadeiro frenesim cultural nesta cidade e um momento alto nos registos do Parque 5 de Julho”. (5)
Nunca tínhamos visto tantos livros e a preços tão baixos. Foi uma autêntica festa do livro. É preciso manter viva esta ideia da festa em torno do livro.
Do lado português, o parceiro amigo e entusiasta, era o Escritor António Alçada Baptista, Presidente do Instituto Português do Livro. Regressou a Lisboa com uma lista de “bafejados pela sorte” a quem regularmente fazia chegar livros recentes e o Jornal de Letras. Até hoje tenho especial carinho por esse jornal.
Mais ou menos por essa altura publiquei um texto com o título “Elogio da leitura” que, aliás, vem republicado no meu livro de 2005. (6)
Naturalmente que o ambiente universitário em Coimbra aprofundou em mim o gosto pela descoberta e pela procura do conhecimento, mas não vou alongar-me sobre este ponto.
Continuo a acreditar firmemente na importância da leitura. Como o momento em que reacendemos a magia inaugurada lá longe na infância.
O momento em que partimos em viagem da qual retornamos sempre mais ricos. Momento sempre de descoberta, mesmo quando lemos de novo o mesmo livro. Há sempre algo que aprendemos ou aprendemos melhor. Momento que é sempre de prazer: o prazer da leitura.
É de elementar justiça que outros possam ser ajudados a chegar ao prazer da leitura.

NOTAS
(*) Intervenção proferida enquanto orador no Colóquio “A Leitura como janela para o mundo”, no âmbito da Semana da Leitura com a divisa “Ler Mais, Saber Mais”, uma iniciativa presidencial de incentivo à leitura, Palácio da Presidência da República, na Praia, de 23 a 30 de Abril de 2017.
(1) Baltasar Lopes, Depoimento in Claridade, edição fac-similada organizada por Manuel Ferreira, por ocasião do cinquentenário da fundação da revista, ALAC e Instituto Cabo-Verdiano do Livro, Lisboa, 1986, p. XV.
(2) Baltasar Lopes, A Caderneta / Le Carnet, edição bilingue, Instituto Cabo-Verdiano do Livro e Centre Culturel Français, Mindelo, 1986.
(3) Manuel Ferreira, Prefácio à obra referida na nota 1, p. XXVII
(4) 5 Obras Primas da Novela Universal, Antologias Universais, Portugália Editora, Lisboa, 1965.
(5) “Na homenagem a Manuel Duarte”, in Jorge Tolentino, Cidadania e Liberdade – Palavras que escrevi, Spleen Edições e instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2005.

(6) Obra referida na nota 5.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
Palavras proferidas durante a inauguração da Biblioteca António Mascarenhas Monteiro
- Pela viúva, Maria Odette Pinheiro
António Mascarenhas Monteiro era Tony para os amigos e para todos os que lhe eram chegados, de modo que me referirei a ele deste modo.
Cheguei à vida do Tony quando o sol já descia para o poente. Mas não cheguei tarde. Cheguei no tempo de Deus, para que ele tivesse uma nova alvorada na sua vida.
As prendas que ele recebeu enquanto presidente e os livros que doou ao Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais foram respectivamente recebidas e adquiridos muito antes de eu estar presente na sua vida, quando ele ainda a compartilhava com a Tuna, cujo nome merece também ser aqui lembrado.
Eu só aceitei falar nesta cerimónia por o Tony ter aberto completamente a sua vida a mim, em toda a sua extensão, a ter partilhado em todos os seus pormenores e insistido em envolver-me em todos os seus aspectos, incluindo a colocação dos livros, a que eu superintendi; e a fase inicial da colocação das prendas, tendo eu própria renunciado a continuar no processo para não ter de me afastar da sua cabeceira, o que para mim era muito mais importante.
As prendas, ele as havia doado, pouco depois de sair da Presidência, à Câmara Municipal de Santa Catarina, que nada fez para preparar um lugar condigno a fim de as receber e expor convenientemente. Assim, passados tantos anos e vendo aproximar-se o fim da vida, o meu marido escreveu a essa Câmara anulando a doação, já que em tanto tempo nada havia sido feito.
Escolheu, então, o Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais para uma nova doação. Hoje ele estaria imensamente satisfeito porque finalmente as peças que ele quis partilhar com o povo de Cabo Verde encontraram guarida e foram expostas ao público com a honra e a dignidade que merecem; e por saber que serão cuidadas e estimadas pelo Instituto, não só no presente mas por gerações futuras.
Os livros, companheiros de todas as horas, amigos dilectos que contribuíram para a sua formação jurídica e lhe deram horas intermináveis de prazer e conhecimento, foi com grande interesse que ele desejou que ficassem salvaguardados sob a custódia de quem os pode apreciar, cuidar e facultar a outros que deles possam beneficiar e retirar conhecimento.  
Não vou elogiar publicamente o meu marido, pois não ficaria bem e seria contra os nossos princípios. Ele detestava elogios públicos em boca própria ou de familiares chegados. Descreveu-se a mim como um homem contido, quando começámos a corresponder-nos; e o homem sóbrio, reservado, não gostando de estar debaixo dos holofotes, mas interveniente quando necessário e quanto bastasse, realmente preferia a simplicidade e a reserva à exibição e à exuberância.
Se ele tivesse optado por escrever o seu próprio epitáfio, do mesmo modo que planeou em detalhe muita coisa respeitante à sua partida, teria sido algo assim: “Aqui jaz um homem que honrou a Deus, serviu a Nação, amou a Família e foi amigo dos seus Amigos”. Esse foi o Tony Mascarenhas que todos estimámos, e que eu amei profundamente.
Muito obrigada por hoje o homenagearem, e por atribuírem o seu nome à Biblioteca do Instituto. Que a sua memória perdure por muito tempo para inspirar outros a seguir as suas pisadas.

Praia, 9 de Maio de 2017

MEMÓRIAS, SONHOS E PREMONIÇÕES

sábado, 8 de abril de 2017
Cada um de nós carrega memórias pessoais, umas mais remotas, outras mais recentes, umas mais gratificantes, outras mais sombrias, mas todas entrecruzando-se e formando uma mesma unidade complexa, que passa a integrar o consciente e o subconsciente. Algumas das memórias que transportamos têm tenazes que nos aprisionam, e de algumas não nos conseguimos desenvencilhar.

Enquanto dormimos e sonhamos, a nossa mente recupera sensações de experiências vividas, e assim se liberta de pressões ou traumas, ou realiza processos de catarse.

Num sonho recente, surge aos meus olhos um cenário de África, a profunda, a invadir os meus sentidos, cenário em que me sinto incluso como actor e ao mesmo tempo como observador lateral. Há uma estrada larga de terra vermelha, espécie de terreiro, frente a uma povoação indígena com cubatas dispersas, em meio a sinais ténues de terra lavrada. De repente, uma ventania fustiga tudo em redor e o espaço é flamejado por um fenómeno luminoso. Acto-contínuo, surge uma força militar, vinda do nada e desfilando ao longo do terreiro. À frente vai uma fanfarra em que predominam tambores, muitos tambores.

Sinto que faço parte integrante daquela força, mas circunstancialmente estou diferido da sua existência. O que me impressiona é a vigorosa e dramática sonoridade dos tambores, como se isso fosse a peça essencial daquele cenário. Todo o dia seguinte o som dos tambores em rompida marcha marcial retiniu-se no meu espírito.

Durante o sonho, o ruído não me perturbava, pelo contrário, desejava-o como algo de impetuoso e sublime, transmitindo-me numa fina nostalgia. É algo de paradoxal porque é como querer regressar ao passado para o rejeitar ou para eliminar o que ele possa ter tido de trágico. E sem dúvida que verdadeiramente mau foi a perda em combate de homens sob o meu comando: Angola, alferes comandante de pelotão, perda de 1 cabo e 1 soldado; Moçambique, capitão comandante de companhia, perda de 2 furriéis, 2 cabos e 8 soldados.

Mas o mais perturbante do meu relato vem a seguir. Naquela formação em marcha, na primeira fileira e do lado direito, em que me encontro como observador excluso da realidade observada, marcha o cabo morto em Angola. Chamava-se Aníbal Esteves Macedo, e já lá vão 51 anos desde que, numa madrugada de Junho de 1966, tombou ferido de morte.

Por que razão o sonho me permite identificar apenas o cabo, ao passo que tudo o resto é uma formação compacta de militares em marcha, sem mais outra individualização fisionómica?

Vejo o cabo, quero correr para mandar suster a marcha por alguma razão que aparentemente não tem nada a ver com ele mas que certamente tem tudo a ver. No sonho, o que sinto é tremendamente ambíguo: atracção pela grandiosidade daquela vivência a que pertenci de parte inteira, e ao mesmo tempo desejo secreto de apagar o que há ali de irreversivelmente trágico. Apagar a morte do cabo que repentinamente parece emergir da eternidade para me vir interpelar? Certamente. A verdade é que quero interferir com o andamento da força militar, invadir-lhe o espaço, diluí-la na memória, e, no entanto, sentir necessidade de com ela prosseguir e atravessar o tempo e o silêncio, imune a qualquer conjectura ou julgamento.

E aqui é que talvez resida a explicação do sonho. Aqueles dois rapazes tombados em Angola, que eram da minha idade, ali ficaram enterrados, no pequeno cemitério duma povoação indígena, que certamente estará lá intacto mas sem manutenção. Naquele tempo, não havia trasladação dos corpos dos militares falecidos, a não ser que as famílias custeassem as despesas. Mais tarde, por evolução da logística e por necessidade de preservar o moral das tropas, além do respeito e consideração para com as famílias, os corpos dos militares mortos passaram a ser-lhes enviados em urna de chumbo. Foi o que aconteceu com os de Moçambique.

Ora, o sonho talvez tenha sido uma acidental revelação do meu subconsciente, lá onde paira e pairará sempre a recordação de companheiros mortos na flor da idade, cujos restos mortais não foram devolvidos às suas famílias.

A coincidência é que passados poucos dias, recebo um mail de um antigo camarada militar contendo uma notícia
(link http://ultramar.terraweb.biz/Memoriais_concelhos_Angola_VilaGagoCoutinho.htm) sobre o estado de abandono das campas dos nossos militares que foram enterrados em Lumbala N’Guimbo, antigamente chamado Gago Coutinho, Angola. Mostra fotografias de algumas dessas campas e, entre elas, a do cabo que me apareceu no sonho – Aníbal Esteves Macedo.
O meu sonho foi uma premonição?


Tomar, Abril de 2017

Adriano Miranda Lima

quarta-feira, 5 de abril de 2017
José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (5):  A nova linguística soviética e como foi que Estálhine esclareceu os camaradas desorientados, que misturavam política e ideologia com a linguística, na Universidade de Baku.  Estálhine parece ter aprendido com os seus erros, depois do gulague e do respectivo holocausto, tornou-se promotor da liberdade de opinião na ciência.


A experiência relativamente recente da União Soviética (URSS) mostrou-nos que, quando os cientistas e investigadores misturam a política com a ciência, esta última afunda-se.  O académico ucraniano Trofim Denisovich Lysenko (1998-1996) tornou-se célebre por ter defendido uma genética proletária, oposta à genética burguesa americana.  Para ele, os genes eram conceitos burgueses.  Desta maneira, por falta de genes, a genética soviética perdeu a sua razão de ser e definhou.  T. D. Lysenko, o membro da academia, que prejudicou a genética, desviando-a do campo da ciência para o campo da política, como escreveu o Doutor Almerindo Lessa (1960, Seroantropolgia das Ilhas de Cabo Verde, Mesa-redonda Sobre o Homem Caboverdeano, Mindelo, 21 a 24 de Julho de 1956, Junta de Investigação do Ultramar, Estudos, Ensaios e Documentos Nº 32, 159 p.), era bem conhecido em Cabo Verde e a sua genética sem genes foi discutida durante a mesa-redonda do Mindelo sobre o homem caboverdeano, em 1956, à qual participaram 23 investigadores caboverdeanos, 1 indo-português e 6 portugueses.

Disparates deste quilate surgiram também, na linguística soviética.  Após o golpe de estado do partido bolchevique, que ficou conhecido por grande revolução socialista de Outubro, um professor da Universidade de São-Petersburgo, Nicholas Yakovlevich Marr (1864-1934), decano do Departamento das Línguas Orientais, que era filho de pai escocês, e tinha nascido de mãe georgiana, na Transcaucásia, aderiu ao marxismo-leninismo, que estava oficialmente na moda, e quis interpretar a linguística à luz dessa doutrina política. Tratava-se dum profissional de mérito reconhecido, que, só depois da revolução, se tornou marxista-leninista.  Aderiu ao partido bolchevique, provavelmente a toda a pressa para defender a sua cátedra e não ser saneado, e depois tentou ser consequente, estudando o marxismo-leninismo, inspirando-se deste na sua actividade profissional, a que tentou dar um cunho original e criador, como todos os verdadeiros cientistas.  Estas tentativas levaram-no a misturar a política com a ciência, a sua obra científica ficou esterilizada pela política e deixou de ter interesse.

A partir daí, teve uma carreira brilhante e tornou-se o mandarim da linguística soviética com a sua “nova doutrina linguística”, segundo a qual a noção de protolíngua era fictícia e as línguas nacionais se tinham formado pela convergência de numerosos dialectos tribais, uma origem “sociolinguística” antes da letra (Manuel Monteiro da Veiga, 1995, p. 19, O crioulo de Cabo Verde-Introdução à gramática do Crioulo, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, Praia, 490 p.  Ver Subsídio 9.).  A linguística comparada era “burguesa” ao passo que a sua “nova doutrina linguística” era marxista e proletária, porque, segundo ele, as línguas tinham evoluído, com as lutas de classe, como parte integrante da superstrutura ideológica.  Recebeu o prémio Lênine em Janeiro de 1934, ano em que morreu e teve funerais oficiais (René L'Hermitte, 1984, Science et perversion idéologique: Marr, marrisme, marristes, une page de l'histoire de la linguistique soviétique, Institut d’Etudes Slaves, Paris, 104 p.).

A linguística soviética foi dominada pela nova linguística de classe até que Marr e os seus discípulos da Universidade de Baku, Azerbaijão fossem criticados pessoalmente pelo primeiro tsar (= imperador) da URSS, Yosif Visarionovitch Djugachvili, conhecido pela sua alcunha Estálhine e caucasiano como N. Y. Marr (Joseph Staline, 1950, A propos du marxisme en linguistique, in Derniers Ecrits 1950-53, Editions Sociales, Paris, p. 11 – 59).

Estáline negou que a língua fosse uma superestrutura (institucional e cultural) acima da base social, que definiu como “regime económico da sociedade a uma dada etapa do seu desenvolvimento”.  Lembrou que quando o regime económico se modifica, aparece a superstrutura que corresponde ao novo regime, mas que isso não acontece com a língua.  Exemplificou com a língua russa, que se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a sociedade russa tinha atravessado três regimes económicos diferentes, feudalismo, capitalismo e socialismo, assim designava ele o capitalismo de estado, com as respectivas superstruturas diferentes.  Sublinhou que a língua é radicalmente diferente da superestrutura.

A seguir vamos resumir os principais esclarecimentos feitos por Estálhine, no seu estilo pesado e repetitivo, como respostas a questionários e a cartas de linguistas e membros do seu partido único.  Começa por lembrar, que não sendo linguista, não poderia dar inteira satisfacção aos seus camaradas mais competentes do que ele em linguística, mas que podia falar com conhecimento de causa das relações entre o marxismo e as ciências sociais.  Era um autodidata, que mostrou, nos seus últimos escritos, ter espírito prático, aberto às realidades e pouco dogmático.

(1)    Contrariamente à superestrutura a língua “não é obra duma classe qualquer, mas de toda a sociedade, de todas as classes da sociedade, (…) é criada como língua do povo inteiro, única para toda a sociedade”.  É uma ferramenta de comunicação entre os homens e o seu papel “não consiste em servir uma classe em detrimento das outras, mas serve indiferentemente toda a sociedade, todas as classes da sociedade.”

Acrescenta, mais adiante, que a língua “serviu de igual modo os membros da sociedade, independentemente das suas condições sociais” e que

(2)    a língua “está directamente ligada à actividade produtiva do homem”, por outras palavras ao trabalho.

Foi como língua de trabalho que os caboverdeanos ensinaram a sua língua materna, primeiro na Ásia e na África, a seguir, no Brasil e depois nas Guianas e Antilhas, aos escravos que lá encontraram e aos que iam chegando numerosos de África.

Entre as outras opiniões e comentários de Estálhine para esclarecer os “camaradas desorientados”, interessa citar ainda mais dois.

(3)    “Não se pode compreender as leis do desenvolvimento duma língua, sem estudá-la em relação estreita com a história da sociedade, com a história do povo ao qual pertence a língua estudada, seu criador e falante.”

Infelizmente a longa e rica história do povo caboverdeano está insuficientemente conhecida e estudada dentro do Arquipélago e ainda menos conhecida e estudada está a história da nação caboverdeana espalhada pelo mundo, no império português e como ramo da diáspora da nação portuguesa portuguesa, porque a história oficial portuguesa, tem escondido e ignorado, até hoje, páginas e capítulos importantíssimos da história de Portugal e seu império.  Voltaremos a discutir mais demoradamente este assunto em subsídios que se seguem.  Ainda vamos a tempo de eliminar esta grande lacuna e desenvolver o estudo da história das diásporas caboverdeanas nas nossas universidades.

Infelizmente os crioulistas do século XX gastaram os seus preciosos recursos para tentar compreender a formação das línguas crioulas com a ajuda da sociologia, quando deviam ter estudado a história dos seus falantes.  Acumularam milhares de páginas de trabalho inútil.  Já não vamos a tempo de recuperar todos os esforços desperdiçados, esta lacuna e desorientação dos crioulistas deu como resultado, durante um século de abnegado trabalho intelectual, inúmeros disparates, meio século antes e meio século depois de Estálhine se ter debruçado sobre a glotologia ou linguística.

Estáline criticou mais do que a perversão ideológica da linguística.  Criticou também as escolas sectárias que se tinham formado nas universidades a partir dessa perversão e do culto dogmático prestado ao mandarim e suas teorias sem fundamento científico.

(4)    “Está universalmente reconhecido que não pode haver ciência a desenvolver-se e prosperar, sem uma luta de opiniões, sem liberdade de crítica”, escreveu ele.  Foi por isso, que Estálhine criticou a escola da nova linguística de classe, que se tinha tornado um grupo fechado à crítica, mas aberto aos privilégios burocráticos e mercantis, onde só progrediam e subiam na hierarquia os adeptos incondicionais do mandarim desorientado.

Parece que os marxistas-leninistas caboverdeanos foram melhores discípulos de Trotsky do que de Estálhine, cujas obras aparentemente desconheciam, durante o exílio político, fora do país.  Com a leitura dos comentários de Estálhine à nova linguística soviética poderiam ter evitado misturar a investigação científica com a política, como infelizmente fizeram, cobrindo carências de informação, estudo e investigação com conceitos políticos, nomeadamente a “resistência dos escravos sublimada”.

Porém, mais vale tarde do que nunca, ficam neste subsídio registadas as ideias mais importantes, que Estálhine, marxista-leninista convicto, exprimiu sobre a linguística, em geral e sobre a nova linguística soviética, em particular.

Nos próximos subsídios tentaremos compreender e discutir mais detalhadamente as teorias da nova linguística caboverdeana baseada na sublimação da resistência dos escravos.

Antes de terminar, queríamos ainda confirmar que o tsar autodidata da URSS não deixava de ter espírito prático, aberto às realidades e pouco dogmático e até parece que aprendia da sua própria experiência, praticando a auto-crítica!...

No apocalipse terrestre da URSS, as vítimas contam-se aos milhões, entre elas muitos cientistas, como o grande economista russo Nikolai Dmitriyevich Kondratiev, nascido na aldeia de Galuevskaya, província de Kostroma, ao Norte de Moscovo, aos 4 de Março de 1892 e fuzilado aos 17 de Setembro de 1938, em Suzdal, perto de Moscovo.  Era filho de camponeses da nacionalidade komi.  Foi preso em Julho de 1928, depois de ter visitado a Universidade de Minnesota e outras universidades americanas.  Depois de ter cumprido a pena foi novamente julgado, condenado a dez anos de prisão incomunicável e logo fuzilado antes de ter começado a cumprir a nova sentença.  Tinha 46 anos, escreveu os seus últimos livros na prisão e correspondia-se com sua esposa e sua filha Elena.  Não foi enviado para a Sibéria e a proximidade de Moscovo da prisão, onde estava, indica que Estálhine queria ler o que ele ia escrevendo e que a ordem para ser fuzilado veio directamente do secretariado do comité central do PCUS.  Antes de ser preso, Kondratiev trabalhou no ministério da agricultura soviético e foi um dos promotores da nova política económica (NEP, em russo) adoptada por Lênine.  Tinha proposto um plano quinquenal para a agricultura.  Pensava que se devia começar por desenvolver o sector agrícola, seguindo-se a indústria.  Estálhine decidiu que a industrialização forçada, tirando recursos financeiros à agricultura, era o caminho mais rápido para chegar ao “socialismo” num só país.  Kondratiev elaborou a teoria dos grandes ciclos económicos, que tomaram o seu nome (ciclos de Kondratiev ou ciclos K), para explicar o desenvolvimento económico e as crises cíclicas do capitalismo, ciclos de 60+/-15 anos, aos quais o capitalismo de estado da URSS não podia subtrair-se.  Stálhine mandou fuzilar Kondratiev, que tinha ousado pôr em causa o mito da construção do socialismo a desembocar no comunismo.




Fig. O economista Nikolai Kondratiev com sua filha


Dois anos depois, foi assassinado, no México, Lev Davidovich Bronstein, mais conhecido pela sua alcunha Trotsky, que nasceu aos 7 de Novembro de 1879, na aldeia de Bereslavka, Ucrânia, no seio duma família de agricultores abastados e morreu a 21 de Agosto de 1940, na cidade de México, um dia depois de ter sido agredido pelo assassino (https://en.wikipedia.org/wiki/Leon_Trotsky).  O KGB tinha organizado três grupos independentes de assassinos e um célebre pintor mexicano do partido comunista também tinha tentado assassiná-lo.  Com os seus capangas do Partido Comunista Mexicano metralhou a residência descarregando as munições todas.  Com Trotsky, Estálhine queria enterrar a teoria de que não era possível estabelecer o socialismo num único país, mas só ajudou a criar o mito do seu camarada, que tinha fundado o Exército Vermelho, militarizado o trabalho (Ver Subsídio 6.) e a quem se pode reconhecer um olhar de psicopata, mesmo em fotografias tiradas há dezenas de anos. 

Os ciclos Kondratiev fizeram implodir a URSS.  Em 26 de Dezembro de 1991, a URSS dissolveu-se.


Depois de ter mandado assassinar um brilhante economista russo e muitos outros homens e mulheres de ciência, durante grande parte da sua vida, foi nos seus últimos dias, que o primeiro tsar soviético escreveu o que citámos mais acima:  “Está universalmente reconhecido que não pode haver ciência a desenvolver-se e prosperar, sem uma luta de opiniões, sem liberdade de crítica”.  Como interpretar esta sua frase?  Aprendeu dos seus erros?  Desculpava-se?  Estava arrependido?  Todos os seus assassinatos seriam, para ele, ossos do ofício dum político?  Mesmo com espírito prático e aberto às realidades e pouco dogmático, não passava dum típico marxista-leninista convicto e realizado…