MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 4

domingo, 4 de junho de 2017
Segunda Reunião.
Possibilidades de uma civilização tropical nas ilhas. Criação artística. Indolência.' Língua crioula. Cultura da terra. Biogeografia das fomes. Discussão.

A 2ª Reunião, tal como a primeira, foi precedida de uma dissertação feita pelo Dr. Almerindo Lessa no sentido de estabelecer as balizas conceptuais às questões que iam ser postas:
Almerindo Lessa: Recentemente, foram publicados na minha província já sabem que a minha província é a Europa dois livros que são fundamentais para o conhecimento da Cultura Ocidental e das diferentes culturas do Mundo. O primeiro[1], que foi editado conjuntamente pelos governos de cinco nações da Fraa, da Inglaterra e dos três países do Benelux , constitui o chamado manifesto do Pacto de Bruxelas e é a primeira tentativa de uma didáctica da cultura europeia acima dos planos nacionais. O segundo[2], que foi publicado pela UNESCO, é também um manifesto assinado por um grupo de intelectuais, entre eles dois brasileiros Sérgio Buarque de Holanda e M. Castro Leal , e constitui uma tentativa para encontrar na diversidade das culturas dos povos brancos e dos povos de cor uma unidade e uma base de confronto. Será à luz das doutrinas desses dois livros que esta noite irei r a V. Ex.as alguns problemas concretos acerca da cultura e dos homens de Cabo Verde.
Eu creio que o observador que daqui a umas largas dezenas de anos procure informar-se sobre o movimento das ideias no Ocidente -de encontrar que o Pensamento da Europa neste meio século, nomeadamente nesta viragem da II Grande Guerra, se marca por dois diacticos fundamentais. O primeiro é o esforço da Cultura Europeia, o esforço da Cultura Ocidental para encontrar dentro da pluralidade das culturas nacionais uma unidade de síntese; o segundo é a tentativa para compreender as culturas dos chamados homens de cor. O primeiro é um ensaio para encontrar o que haja de unitário nas culturas dos diferentes países da Europa, para encontrar, para lá das geografias que separam as diferentes nações, para lá das suas histórias, das suas guerras, das suas diversidades aquilo que cada um desses povos trouxe, em cada uma das suas fases, para a criação das Ciências, das Artes e das Letras. A cultura da Europa, que é necessário definir, porque dela nos havemos de ajudar para julgar as dos homens de cor, caracteriza-se, a meu ver, pela contribuição que todos os seus povos lhe deram independentemente dos princípios e dos fins. Eu creio que a Cultura da Europa é feita, ao mesmo tempo, de Cristianismo e de crises religiosas; é feita, ao mesmo tempo, de Ciência experimental e de Democracia política; é feita, ao mesmo tempo, de Indústria e de Poesia. Eu creio, meus senhores, que o que faz a força moral da Cultura Europeia é o conceito que nós temos de Homem, os conceitos que nós temos sobre a Dignidade, a Liberdade e ainda sobre os limites morais do Progresso. Talvez eu possa dizer, numa boutade, que nós, Europeus, nos sentimos dominados por uma herança; aquela que  Bernard Schaw disse, de uma maneira alegórica, que nos foi deixada pelos oito construtores do Mundo: por Pitágoras, por Ptolomeu, por Platão, por Aristóteles, por Copérnico, por Galileu, por Newton e por Einstein.
O segundo diacrítico com que deparará o observador que procure encontrar as linhas de força da Cultura Ocidental será a tentativa feita para compreender as culturas dos chamados homens de cor. Discutiram-se na nossa última reunião as atitudes que os povos negros de cor sirvam-nos esses para exemplo têm tido
quando são abordados pelos povos brancos ocidentais naquela classificação dos sociologistas americanos e brasileiros: aceitação, adaptação, reacção. Na realidade, desde que o homem branco encontrou os homens de cor, a atitude geral foi essa. Aqueles povos não tiveram outras possibilidades (a não ser em parte, os que nos encontraram a nós, Portugueses) que ou esconderem e deixarem murchar as raízes das suas próprias culturas ou reagirem. Como nós, porém, dispúnhamos de uma Técnica superior, a reacção foi sempre para eles um desastre. Hoje, porém, pelo menos no campo da Cultura, nota-se uma nítida evolução. Nós hoje, nós, os responsáveis e os que aderimos
à responsabilidade de fazer uma cultura em plano europeu, entendemos que muito mais importante do que impor um determinado figurino é procurar se naquelas zonas onde a cultura foi dada agora como incapaz ou onde o solo cultural está considerado como improdutivo desde sempre não será melhor proporcionar os meios técnicos para que povos que tiveram já uma elevada cultura como o Hindu ou o
Chin
ês ou povos que possivelmente não souberam revelar nenhuma, como alguns da África Negra encontrem a possibilidade e os meios de darem seiva às suas próprias raízes.
É com estas ideias, meus senhores, que eu me atrevo hoje a pôr um certo número de problemas sobre a Cultura e os homens de Cabo Verde. Hoje sou eu quem faz perguntas.
Vejamos a primeira: «Existe uma cultura cabo-verdiana? O clima, as fomes, o desemprego, a falta de transportes, a crise comercial do caro, etc., podem explicar quaisquer suspensões verificadas na sua aristocratização ou será possível determinarem-se outras causas?»
Antes de mais nada, temos de assentar no que seja Civilização. Eu proponho, para não cairmos num terreno cheio de confusões, que aceitem comigo aquela que se convencionou chamar a «definição científica» de Civilização: que se«o conjunto das manifestões de ordem cultural ou espiritual de um dado povo ou de uma dada época, qualquer que seja o nível técnico e o grau de progresso ou de riqueza desse povo ou dessa época». Poremos assim de parte o plano restrito em que o sentido de Civilização
aparece ligado ao de progresso técnico; bem como a ideia de que o estado de Civilização seja insepavel do estado de progresso técnico. Até porque, como demonstrou Henri George num livro Progresso e Pobreza , há povos, como o Hindu, que, embora vocacionados para uma Cultura, parece não serem dotados do sentido de progresso técnico. Assim, eu admito a possibilidade duma civilizão cabo-verdiana. Fica apenas em discussão o seu grau e que forças têm sido capazes de impedir um seu maior desenvolvimento.
Outra afirmação que quero fazer. Como disse na primeira Mesa, eu considero que o mestiço destas ilhas é capaz de realizar uma actividade cultural e por ela contribuir, até, para a crião de um modo de Civilização. Que é que o pode então influir, contrariar ou auxiliar nesse sentido?
Eu, por mim, não nego a influência do clima no desenvolvimento das colectividades humanas. Ellsworth Huntington[3] chamou a tal influência, que trabalhou largamente, a hipótese climática da Civilização. Já aludi a ela. Nós sabemos que com as crises de clima podem vir crises de doenças. Nós sabemos que a amease é capaz de derrotar um exército há exemplos; nós
sab
emos que a malária é capaz de derrotar um povo há exemplos. Mas eu penso também que a inteligência que é a capacidade que o homem tem de se adaptar a circunstâncias novas é capaz de modificar o problema. Eu aceito, aceitei já no outro dia, que antes de o homem ter alcaado as técnicas actuais de conforto, de produção e de conservação dos alimentos teve melhor probabilidade de subsistir e de fundar a sua cidade nas zonas temperadas e frias do que nas zonas quentes. Foi baseado nas observações da História que Gil Fillan[4] concebeu a sua teoria da deslocação das civilizões no sentido do frio. Mas hoje a Técnica permitiu já vencer as barreiras do frio e do calor. O problema está perfeitamente equacionado. Em 1949 e 1950 eu percorri Angola e Moçambique em todos os sentidos, mas já não conheci a África dos pioneiros. Encontrei médicos que viviam no interior, a mil e a dois mil quilómetros da costa, com comodidades e confortos que no tempo de Roberto Ivens, de Livingstone e de Serpa Pinto nem sequer havia em Lisboa. Das razões ecomicas nada penso dizer. Seguramente que as crises comerciais, o desemprego, as fomes, a falta de transportes e a falta de depósitos, quer em matérias-primas quer em dinheiro, devem criar situações que episòdicamente podem dificultar o desenvolvimento da cultura. Se não soubesse da existência de crises graves (numa delas sei eu que as ilhas perderam 16 % da população), se não soubesse isso, duas páginas extraordinárias da literatura cabo-verdiana, das que mais foram direitas à minha sensibilidade e aos meus anseios O Faminto e a Mamai Terra de Baltasar Lopes , dar-me-iam uma posição para julgar a importância que aqui assume o problema das fomes[5]. Mas eu quero insistir que o mundo que se interessa por Cabo Verde não está bem informado. (ver o quadro I).
A segunda pergunta tem um sentido mais restrito: «Sendo a sensualidade uma das razões da criação arstica, como explicar que falte em Cabo Verde uma arte original ou ela se encontre limitada à poesia e ao bailado? Ou -existe mesmo uma arte regional em estado de hibernação?
Ao buscar esclarecimentos para esta pergunta limito-me a repor um problema coisa interessante! posto pela primeira vez por Gobineau, o primeiro teórico do racismo, que em 1854 reconhecia que «os negros e os povos de raça pura possuem no mais alto grau a faculdade sensual sem a qual nenhuma arte é posvel». A partir de então tem-se estabelecido grande discussão entre os críticos da Arte, sobretudo da Escultura e do Desenho, sobre as raízes que a Arte Negra possa ter tido no florescimento das Artes Europeias. Problema levantado por Kurt Wolff, Hermann Bahr, Pablo Picasso, Andre Salmon e por dois outros franceses Jean Cocteau e Guillaume Apollinaire um dos maiores espíritos críticos contemporâneos. Como sabem, uma das equações levantadas por Daniel Kahnweiler é que a Arte Negra está na origem do Cubismo.
O terceiro problema cabe à pergunta que faço sobre se «a indolência cabo- verdiana é fruto do clima e do tipo de alimentação, ou consequência de uma doença da vontade»? Proponho-me dar como exemplo desta última circunstância o que foi observado nos escolares da bacia do Sado. V. Ex.as sabem, evidentemente, em que estou a pensar. Estou a pensar nas raízes afras.
O conceito de que o cabo-verdiano é um homem indolente é muito antigo. Eu encontrei que, em 1776, o governador José Maria Cardoso já se queixava para o Reino que os povos destas ilhas eram indolentes e pela indolência não estavam interessados em aproveitar os progressos da Agricultura. Como estamos numa mesa-redonda, dispostos a estudar cientificamente, sem quaisquer susceptibilidades esterilizantes, os problemas que possam influir no desenvolvimento do homem cabo-verdiano, espero que me permitam mais esta pergunta e que eu próprio pense que na realidade o cabo-verdiano é, pelo menos socialmente, um ser indolente. De outra forma eu não saberia explicar a existência de tantas coisas desconformes que aqui vejo: uma cidade que parece ter sido bombardeada; ausência de um mínimo de conforto hoteleiro; indiferença perante a agonia e a morte pública dos animais (o que é estranho num povo de tão elevada sensibilidade poética); esquecimento das suas próprias criações culturais; persistência de uma cozinha regional contrária aos mais elementares princípios de economia local, et cetera.
O quarto tema que proponho para a discussão desta noite diz respeito ao idioma: «A língua crioula é um idioma de poupança e de adaptação regional, com a riqueza fonética e a plasticidade de verdadeiro idioma, ou é apenas «falar útil», bom como instrumento de comunicação, mas incapaz para outras realizações intelectuais?», Conheço, a este propósito, duas posições: uma de repugnância, que é a de Gilberto Freire, e outra de rasgada aceitação, que é a de Baltasar Lopes. Como uma dessas autoridades está presente, eu quero ouvi-la. Pelo meu lado, preparei-me já para compreender o crioulo através dos estudos e das referências não só do vosso reitor, mas também de um Osório de Oliveira, de um Julião Quintinha e de um Augusto Casimiro.
Outra questão: «As formas elementares». como eu julgo que são, «de cultura da terra são conseqncia de um «fatalismo», da falta de meios materiais ou da impreparação técnica dos agricultores; outro problema sobre o qual eu gostaria de ouvir o meu amigo Júlio Monteiro.
Por fim, desejaria perguntar se «existe um complexo de inferioridade respeitante às doenças do negro?». Alguém me falou nisso, e tinha posição oficial para o fazer. E eu receio que em verdade assim seja.
Não que eu admita a existência, em larga escala, de doenças exclusivamente tropicais e sobretudo naquele sentido pejorativo contra o qual já se levantou há mais de quarenta anos o meu saudoso amigo Afrânio Peixoto. De resto, como ainda há pouco, num relatório oficial ao Congresso Internacional de Sangue, reunido em Paris, eu e o meu colaborador Carlos de Oliveira tivemos ocasião de afirmar, o sentido com que devem ser entendidas as chamadas «doenças exóticas» evoluiu muito. Hoje quase não há geografias sanitárias autónomas. Se, em estrita definão, entendermos por doeas tropicais aquelas que só existam na área planetária limitada pelos trópicos, pode dizer-se que, com excepção da doença do sono, não há doenças tropicais. O homem moderno torna cosmopolita toda a Patologia. O quadro II, que resume a morbilidade de 1946 a 1955 para o conjunto de todas as ilhas, reflecte a existência da mais variada nosologia. E, no meu entender, nas grandes sobrecargas das casas I, III, IX e XII deve concorrer o estado de fome crónica que domina a maior parte da populão. No entanto, disseram-me que em certas regiões de África, como Cabo Verde, a população mais evoluída sente-se psicologicamente diminuída por ser portadora de doenças que percentualmente predominam nos indivíduos de raça negra. Eu nada posso opinar, mas confesso que me tem sido difícil estudar as publicações ou os relatórios médicos locais. Muitas rubricas são manifestamente incorrectas. E outras não teriam sido omitidas?




[1] La civilisation Européene Occidental et l’Ecole. Edições E. N. Paris, 1955
[2] L’Originalité des Cultures. Son rôle dans la Compréhension Internationale. Edições UNESCO. Paris, 1953
[3] E. Huntington – Civilización y Clima. Madrid, 1942 (trad. esp.).
[4] G. Fillan – The Coldward Course of Progress. London, 1920.
[5] Segundo dados fornecidos pelo Dr. Júlio Monteiro

MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 3

sexta-feira, 2 de junho de 2017
Teixeira de Sousa: Não desejo sair daqui sem dizer algumas palavras sobre os assuntos que foram discutidos. Quero, pela minha parte, valorizar as intervenções dos Drs. Aníbal Lopes da Silva e Daniel Tavares. Porque, quando o Sr. Dr. Almerindo Lessa principiou a expor o problema das constelações antinicas correlacionadas com as várias aptidões, não só dos povos como dos indivíduos, surgiu ao meu espírito um critério completamente diferente para a explicão do homem. Indubitàvelmente que aqui a Antropologia física está absolutamente em desacordo com a Antropologia cultural. O carácter fixo das constelações antigénicas briga francamente com o carácter evolucionista da civilização dos povos, o carácter histórico da civilização dos povos. E eu estou convencido de que esses próprios seroantropologistas não acreditam que os fenómenos político-sociais estejam tão intimamente correlacionados com as várias constituições antigénicas encontradas, como também não devem estar absolutamente convencidos (de resto, o Sr. Dr. Almerindo Lessa também não está inteiramente convencido) que haja uma relação tão estreita entre uma coisa e outra. Indubitàvelmente que para a explicação do homem temos de ir para a Antropologia cultural, à evolução das civilizações, à sequência das técnicas que os vários povos conseguiram dominar através dos tempos. Se me permitem, passo a ler-vos uma pequena passagem de um trabalho que publiquei em 1953 e que citei mais tarde num outro publicado no Boletim de Cabo Verde a propósito da superioridade e inferioridade das raças humanas. A minha posição mantém- se ainda a mesma no que respeita a este problema. Eu dizia que, se as raças humanas apresentam actualmente níveis diferentes de civilização, isto será devido a ritmos desiguais no processamento da técnica, e nunca a aptidões mentais mais ou menos boas para a aquisição da mesma técnica. Esta surgiu das relações do homem com a natureza, na progreso dos meios de subsistência e progredindo e evoluindo até à etapa em que nos encontramos. A técnica, evidentemente, só ao homem pertence e é evidentemente o que o distingue, fundamentalmente, dos outros animais. O negro, tido como inferior, refractário à Civilização, é um conceito erróneo: desde que possua uma técnica, por rudimentar que ela seja, é susceptível de progressos. Entretanto, vários factores concorreram e concorrem para o devir desigual dos diversos grupos humanos. As condições do meio geográfico, tais· como a temperatura, riqueza ou pobreza do solo, a abundância ou escassez das chuvas, a continentalidade ou proximidade dos mares, teriam influenciado grandemente a luta do homem com a Natureza, região por região. A tais factores se foram juntando, a pouco e pouco, as relações sociais e todas as consequências destas no domínio do Pensamento, da Arte, da Religião, et cetera.
Mais adiante cito uma experiência, puramente biológica, feita com a mosca Drosophila, que evidentemente não se pode reproduzir no homem, dadas as diferenças cromossómicas diferenças quantitativas , mas donde se pode concluir que os cromossomas do homem permitem centenas de triliões de indivíduos com associações desiguais de caracteres, de onde o não se poder falar de raças puras. Admite-se, em princípio, que a cada genótipo corresponde determinado fenótipo e tal correspondência assegura a fixidez da espécie. A Genética veio, portanto, entrar em franco atrito com o transformismo, sobretudo lamarquiano influência do meio. Duas teorias totalmente divergentes: a da influência do meio, modificadora das espécies, e a da hereditariedade, individualizadora das espécies através das gerações. As experiências de Muller, das quais se obtiveram as primeiras mutações pela acção do rádio e dos raios X, tiveram, entretanto, o condão de arrancar os biologistas de campos diametralmente opostos, levando a pensar que entre o genótipo e o fenótipo existiria uma margem de independência, tanto maior quanto mais eficaz resultasse a influência do meio na modificação somática do indivíduo (eu estou, evidentemente, na explicação biológica). Lyssenko, o mago da Genética aplicada, conseguiu com a sua técnica de vernalização, fazer germinar o trigo mais cedo do que o costume, sendo oportuníssimo notar que este carácter adquirido se tornou hereditário: é a transmissão hereditária dos caracteres adquiridos ...
Almerindo Lessa: Desculpe-me uma interrupção.
Teixeira de Sousa: Que é uma heresia?
Almerindo Lessa: Não, é que Lyssenko caiu em «depuração científica».
Teixeira de Sousa: (já respondo) …transmissão hereditária que é uma ponte de ligação entre o lamarquismo e a Genética. Muller, transportando o problema para a espécie homem, ousou a hipótese de que os genótipos humanos socialmente determinados teriam consequentemente modificado os próprios genótipos. Marcel Prenant afirma que, entre os diversos fenótipos que podem dar o mesmo genótipo humano, a margem é maior ainda no
domínio psíquico do que no mundo físico e conclui que quanto mais o homem evolui e quanto mais ele toma consciência de si mais os traços da hereditariedade animal se apagam.
Se, por um lado, certos aspectos da Biologia, ou certas explicações puramente biológicas, podem dar por resultado o conceito de imutabilidade na evolução dos povos ou dos indivíduos, por outro lado, eu acredito que o próprio genótipo possa até certo ponto ser influenciado pelo meio, e é nesse campo que trabalhou Lyssenko, cuja teoria, rejeitada não há muitos anos, foi novamente reabilitada (o que talvez o Sr. Dr. Almerindo Lessa não saiba), por experiências de outros investigadores da Genética. Penso que a explicação do homem, do seu complexo psicomental, não pode por forma alguma basear-se num ou noutro aspecto da Biologia pura. Quanto à mestiçagem e à troca ou sequência de aptidões através da História, inclusive com a imigração dos povos, as conquistas, a dispersão dos núcleos de Civilização pelo mundo, eu tenho a impressão de que os antropossociologistas americanos conseguiram dar uma explicação satisfatória a respeito do assunto. Numa conferência feita há dois anos no Porto, sobre Cabo Verde e a sua gente, fiz uma referência sobre a transculturação, problema que não deve ser realmente esquecido quando pretendemos explicar o fenómeno da mestiçagem ou encontro das várias civilizações ou dos vários povos.
Os antropossociologistas norte e sul-americanos van Boas, Lescowicz, Gilberto Freire, Artur Ramos consideram que em todos os casos de contacto prolongado entre civilizações heterogéneas se verifica um dos três seguintes resultados: primeiro, a aceitação, quando a nova Civilização é aceite e a herança cultural mais antiga se perde ou cai no ocaso ou esquecimento; segundo, a adaptação, quando, após reconciliação dos conflitos, surge uma combinação harmoniosa, como que um autêntico mosaico de culturas; terceiro, finalmente, a reacção, quando as culturas originais se rebelam em incorporar os valores estranhos recíprocos. Através da milenária história da Humanidade registam-se numerosos exemplos de transculturação em todas as suas modalidades, mercê dos movimentos demográficos que as conquistas e expansões económicas ocasionaram. De tal sorte que impossível é hoje falarmos de culturas puras, visto não haver povo algum que não tenha sofrido a influência de civilizações estranhas. Fenómeno, por consequência, presente em quase todos os continentes, quando muito mais ou menos dramático, aqui e além. Digo dramático porque, seja qual for a resultante das forças em contacto, indubitàvelmente numa primeira fase instala-se uma desorganização, a que se segue depois um período de reorganização que culmina ou não na estabilidade social e psicológica. Felizes os grupos humanos que atingem esse equilíbrio estável e bem hajam os povos que facilitam essa mesma estabilidade. Relanceando a vista pelos períodos mais recentes da História, quer-me parecer que nenhum povo sofreu mais do que o povo africano as consequências do contacto com culturas heterogéneas, portadoras da triste mensagem da escravidão, que tanto viria a desorganizar as estruturas psicossociais do continente africano. Durante perto de quatro séculos foi aquele continente teatro de uma das maiores ambições humanas de que reza a História. Dessa fase de tamanha desumanidade em que se ocuparam tanto tempo alguns países civilizados resta-nos a nós, os Portugueses, a consolação de não só não termos sido os piores, como de havermos sido os primeiros a decretar a abolição da escravatura dos nossos domínios. O negro não sofreu apenas no seu continente: foi também arrastado para outras paragens onde o cativeiro lhe foi mais penoso ainda, desenraizado do seu habitat e dos seus padrões culturais. Vergou o dorso nas plantações de algodão e do tabaco dos estados meridionais da América do Norte, suou e verteu lágrimas nas plantações de cana das Américas, Central e do Sul, sofreu os prejuízos da discriminação racial, perdendo a sua personalidade em contacto com os grupos dominantes que tão-pouco o aceitaram no seu seio. Se nós, os Portugueses, também tínhamos de participar nos acontecimentos da época, todavia as coisas nunca se passaram entre nós como em outras latitudes. Na nossa História de Colonização, quer em África, quer na América ou na Oceânia, predominou a adaptação, embora alguns casos se tenham registado de reacção. Estes conceitos de transculturação podem explicar muita coisa que os biologistas puros procuram em vão discernir e elucidar.
Ainda sob o ponto de vista da possível influência do meio sobre o genótipo, eu fiz muito recentemente em Marselha uma intervenção em que afirmei que até certo ponto a alimentação deveria influir (eu punha uma hipótese, e não fazia uma afirmação) sobre o próprio genótipo. E apontei alguns exemplos, aqui de Cabo Verde, de degenerescências observadas no reino animal e no reino vegetal, como, por exemplo, o facto, de observação corrente, de certas espécies, como as melancias importadas da Europa, que ao fim de algumas gerações se tornam muito mais pequenas, ou as vacas importadas dos Estados Unidos, que chegaram aqui a dar 16 e 17 litros de leite e que ao fim de algumas gerações, logo a partir da segunda, sofreram uma inferiorização por via da má qualidade do pasto. Responderam-me que isso nada tinha que ver com o genótipo, que era apenas uma modificação do fenótipo e até um veterinário que trabalha em Madagáscar me fez o reparo de que também lá observara um facto semelhante nos porcos da Europa, que ao fim de algumas gerações diminuíram de estatura e baixaram o seu rendimento económico, mas que esses mesmos porcos, retransplantados para o meio primitivo, readquiriam ao fim de algumas gerações os mesmos fenótipos anteriores. Não pude deixar de concordar até certo ponto, mas tive a felicidade de nesse mesmo dia ler um trabalho de uma cientista portuguesa, a mulher do nosso colega Valadares, que trabalha no Instituto de Nutrição, dirigido em Paris pelo Prof. Jacob, onde expõe que, dando uma sobrecarga de aminoácidos e de vitaminas à mosca Drosophila, conseguiu mutações que consistiam na aquisição de manchas e nervuras especiais nas asas e que se transmitiram depois a várias gerações em moscas não postas já nas condições da primeira mosca, mas sim nas condições habituais. Outro argumento que apresentei foi o das degenerescências que se observam nos filhos dos alcoólicos e que são também de natureza nutricional, em virtude de ser o álcool um antialimento que impede a absorção ou a eficácia de certas vitaminas e de certos aminoácidos.
De forma que, de todos estes argumentos, se não se conclui a inutilidade total da Biologia na explicação do Homem, alcança-se, porém, uma posição talvez mais prudente. Ela pode contribuir para a explicação do Homem no seu todo psicossomático, mas a explicação, por enquanto, mais perfeita é sem dúvida dada pela Antropologia cultural.
Almerindo Lessa: Vou responder ao meu amigo Teixeira de Sousa. Antes de mais nada, eu não sou um «biologista puro». A prova é que me esforcei ao longo desta exposição em falar constantemente em documentos de aspecto cultural que me ajudassem a compreender o Homem, e em especial o que estava em discussão, que era o Homem cabo-verdiano. Nenhum estudioso da Antropologia pode desinteressar-se dos aspectos culturais dos povos.
Há, no entanto, dois ou três princípios sobre os quais temos de assentar, porque são princípios irremovíveis. Não há nenhum homem de ciência moderna, ligado ao estudo das raças, que aceite a Antropologia cultural como base nuclear de trabalho. E não há, por uma razão simples: porque a Antropologia cultural baseia-se em conhecimentos que não são hereditários, que não são, portanto, passados de geração em geração por um processo que os torne necessàriamente reconhecíveis na geração seguinte. Isso conduz a um campo de variabilidade tal que não permite uma sistemática de estudo.
Assim, se a Antropologia cultural é essencial para conhecer o Homem, não pode servir para avaliar uma raça neste sentido de medição biológica em que estamos a trabalhar.
Há aí um problema importante a tratar: o que é uma constituição bioquímica e se essa constituição é influenciável, em que medida, de que forma e até que grau. Eu, no estado actual dos meus conhecimentos, posso admitir que a Antropologia cultural seja essencial para compreender o Homem num determinado momento social, isto é, fixado no tempo, mas não que sirva para avaliar as suas origens, para avaliar as suas raízes genéticas e para as marcar em comparação com outras: porque, se tais caracteres não forem transmissíveis, podem acabar na geração seguinte e aquele conceito, aquele esquema de definição que se deu para aquela raça, acabou. Se nós arrumarmos este problema poderemos ir para o resto da discussão. Evidentemente que a constituição bioquímica em si mesma é influenciável, até dentro do campo que eu tenho estado a tratar.
O organismo é cego, diz o meu amigo Ruffié, e talvez tenha razão. O organismo é cego. As nossas reacções, aquilo que nós chamamos «defesa», como a elaboração de um anticorpo contra uma doença microbiana, tanto pode terminar num acto de cura como num acto mortal, se essa resposta for desregrada. Não há documentos que demonstrem de uma forma irrefutável ser possível influenciar a nossa constituição cromossómica[1]
Além disso, é preciso não deduzir com facilidade para o homem aquilo que se pode conceber no animal. Esta foi a campanha de uma vida inteira de René Leriche e ouvi numerosas vezes a Oscar Ivanissevich que na Medicina moderna havia homem de menos e cobaio demais. E é verdade. A maior parte desses trabalhos não correspondem nas suas condições experimentais. Para este caso, os trabalhos mais importantes foram os de Mitchourine e de Lyssenko, apresentados por este último no Congresso Russo de Agronomia[2] e neles se afirmava (e aí se criou o cisma genético russo) que o homem podia influenciar, de fora para dentro, a sua herança. O problema foi de tal maneira espantoso que durante cinco anos os principais laboratórios de Genética da Europa e da América trabalharam activamente no seu contrôle. Foi demonstrado que ou não havia uma base científica incontestada ou se tratava de uma confusão entre cromogenes e plasmogenes. Na apresentação daquele relatório, então largamente discutido, foi até pedida a proibição de em qualquer Universidade russa se ensinar genética mendeliana (contra o que, lá mesmo, alguns professores se levantaram, em nome da independência científica e da liberdade de pensamento; mas foram demitidos, ao que parece), o que, a meu ver, o tornou grandemente suspeito, apesar dos sólidos trabalhos apresentados. Quando um homem de ciência toma uma atitude destas deixou de ser um homem de ciência, qualquer que seja o seu campo de trabalho e o país a Abissínia ou a Bessarábia onde se manifeste.
Mas, à parte isto, ficam os problemas concretos onde podemos discutir os dois. É evidente que aparecem mutações, até no homem: são as mutações selvagens, que entram a seguir a funcionar como características de fenótipos. É o que se verifica em certas doenças, que ficam hereditárias. Também podem ser geradas pelas radiações atómicas mas até hoje sempre se manifestaram patológicas ou mortais. Também se conhecem mutações não patológicas «à vista», como o nascimento de um filho NN de pais MM X MM, mas são tão raras que não têm significação nem, por exemplo, aceitação jurídica para fins médico-legais. É evidente que tanto os fenótipos como os genótipos.são muitos. Contam-se por milhares no campo dos grupos sanguíneos. A constituição bioquímica é o que podemos chamar uma fatalidade. Um indivíduo nasce com ela e com ela morre. O que eu creio que é imprescindível fazer-se é raciocinar por etapas: ou raciocinar no campo da Biologia ou raciocinar no campo da Cultura. Ponderar sobre as duas ao mesmo tempo é impossível. É necessário o argumento cultural para compreender um certo número de problemas. Eu serei o último homem a negar-se a aceitar um aspecto de estudo cultural sobre o Homem ou os outros homens. De modo que a nossa única discordância e essa é irremovível, pois são dois pontos de partida é aceitarmos se é possível criar ou não, voluntàriamente e a nosso gosto, uma «mutação útil». Por mim, não creio. Há ainda uma coisa contra a qual também queria reagir: aqueles apóstrofes com que se lamenta das violações que o povo negro tem sofrido através da História dos seus contactos com os povos brancos. As violências morais fazem parte de todas as Histórias e de todos os povos. Eu não conheço povo negro que tenha sofrido tanto como os povos da Europa, há anos atrás. Não há nenhuma história africana que possa registar urna violação tão forte e tão intensa (até porque o nível de sensibilidade intelectual era mais elevado) como a que sofreram certos povos brancos. Isso são fatalidades históricas. De modo que, em resumo: eu reconheço inteiramente a importância dos trabalhos culturais em Antropologia, mas não servem, a meu ver, para um estudo de Biologia comparada, porque os seus dados não têm um ar permanente, porque não dependem de um processo cromossómico, porque são influenciáveis de fora para dentro: sofrem a influência da perístase. Registam fenómenos que de um momento para o outro podem desaparecer e que um novo observador já não encontrará numa fase seguinte de estudo. Ao passo que, se não houver um cataclismo atómico, nem houver (como está agora a verificar-se em Cabo Verde com a importação de genes de S. Tomé) um apport de novas raízes, as raízes genéticas ficam sempre fundamentais e as suas características podem ser reencontradas por qualquer observador daqui a um século, ao passo que as actuais características culturais já não existirão. É esta a única objecção séria que eu oponho à importância dos valores culturais na Antropologia das raças. Por isso até os separei na organização da nossa Agenda.

Fim da 1ª Reunião



[1] Deve ter-se presente que a reunião não era de técnicos de Biologia e decorria em 1956.
[2] T Lyssenko – La Situation dans la Science Biologique. Mouscou, 1949 (edição em francês)