AINDA "MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO"

sábado, 17 de junho de 2017

Após a “Mesa-Redonda Sobre o Homem Cabo-verdiano”, o Dr. Almerindo Lessa, seu promotor, publicou já em Lisboa, e à guisa de conclusões, 3 artigos no “Diário Popular” a que intitulou “Na Hora di Bai  Meditação Biológica Sobre o Homem de Cabo Verde” que também aqui se publicam com vista a complementar o trabalho.

 NA HORA DI BAI
Primeira meditação biológica
 sobre o homem de cabo verde
Em 1953 foram publicados dois livros fundamentais para a compreensão da cultura ocidental e a interpretação das culturas dos homens de cor. O primeiro editado, conjuntamente, pelos governos de cinco países: da França, da Inglaterra, e das três nações da Benelux, é o chamado «manifesto de Bruxelas» e constitui, além de um ideário, a primeira tentativa séria para uma pedagogia da Europa, numa didáctica supranacional. O segundo, publicado pela U. N. E. S.C. O. intitula-se «A originalidade das culturas» e é subscrito, entre outros, por dois brasileiros − Sérgio Buarque de Hollanda e Castro Leal −, é um ensaio sobre a diversidade e o valor daquelas que neste momento afloram ou refloram em territórios que se consideravam culturalmente esgotados ou improdutivos. É à luz das doutrinas desses dois livros que me proponho meditar sobre a cultura e o homem de Cabo Verde.
A história do arquipélago começa naquela manhã de Maio de 1460, precisamente dia um, em que Diogo Gomes e António da Noli, ao regressarem de Zara para Lisboa, viram, dois dias e uma noite depois, algumas ilhas desconhecidas e numa, delas − que chamaram de Santiago − lançaram ferro e desceram. Vinte e quatro meses depois todas estavam descobertas, e logo por ordem do Infante começou o seu povoamento, com brancos da metrópole e escravos da Guiné; assim se iniciou a mais antiga colónia tropical do Mundo, e começaram os portugueses a criar uma raça nova.
Os observadores futuros da cultura europeia hão-de encontrar que os dois pontos de apoio fundamentais para se poder compreender a política deste século, e sobretudo, destes últimos vinte anos, são uma tentativa para enfeixar os valores comuns da civilização europeia, unindo por cima das fronteiras e dos corpos nacionais, que são intangíveis, os valores necessários à sua grandeza e até à sua simples sobrevivência; e uma tentativa de compreensão dos valores culturais dos homens de cor. Nesta síntese, nesta dualidade, está o dilema da Europa, como na sua falsa apologia está a falência internacional de uma das maiores nações dos nossos dias, daquela cujo povo parece apostado em não querer compreender as diferenças que separam a escravidão da criação e o colonialismo de exploração do colonialismo ideológico.
O manifesto de Bruxelas, é uma apologia, dirigida, sobretudo, aos professores, para que ajudem a unificar os bens comuns da Europa − a situação geográfica, a maturidade política, as fontes económicas ou a vida cultural − que fizeram nascer, apesar dos conflitos de ideias e de interesses, os laços que unem a estrutura física e moral do seu Ocidente, e que são feitos das contribuições que cada país trouxe, em cada uma das suas épocas de criação, para o movimento geral das Ciências, das Artes, e das Letras. Porque o nosso Humanismo é feito tanto pelo Cristianismo como pelas crises de pensamento religioso, tanto pela ciência experimental como pela democracia politica, tanto pela indústria como pela poesia. A nossa força moral vem do nosso sentido de homem, e do que temos da sua liberdade, da sua dignidade e dos limites morais do progresso. Se quiserem que eu diga, por uma forma alegórica, aquilo mesmo que quero dizer, direi que sentimos as responsabilidades que cabem aos descendentes dos homens que construíram o Mundo.
Em plena maturidade o homem ocidental da Europa procura, agora, compreender os valores e as disponibilidades culturais dos povos de cor. E o homem português, que além de ocidental tem a responsabilidade de ter criado um desses tipos de homem – que são os mulatos - não pode faltar a esta chamada.
A conferência da U. N. E. S. C. O. procurou analisar a filosofia comum existente na diversidade das culturas e os aspectos espirituais, morais e religiosos que se podem verificar não só nas grandes correntes hindu e chinesa, mas até naqueles povos negros que, até há pouco, se considerou selvagens ou não evoluídos. Diligenciou, sobretudo, analisar aquelas «constantes», como sejam a pátria, a família, a religião ou a cordialidade, que as possam identificar. Quase sempre esses povos tinham sido colocados na obscura alternativa de lutarem para preservar essas fontes culturais, ou de se resignarem, a aceitar os valores estrangeiros. Será o mais nobre documento da história nacional terem os portugueses procurado sempre, desde o seu primeiro contacto e consoante as leis de cada século, respeitar essas raízes.
São bem conhecidas aquelas três frases de culturação: aceitação, adaptação, criação, que segundo a nomenclatura dos sociologistas norte-americanos e brasileiros, se aplicam à história das relações dos povos de cor escura com os povos de cor branca. E assim pode ter sucedido. Mas a revolução que está a apurar-se − e cujas raízes podem ver, os que saibam olhar, nos primeiros despachos dos nossos reis −, a evolução que está a correr, significa o senso geral de que o futuro e o progresso dos homens de cor serão melhor servidos se em vez de lhes impormos os figurinos culturais dos povos brancos, dermos a uns, como o hindu e o chinês, os meios de reconstruirem em condições novos valores comparáveis àqueles que foram os seus padrões de outrora, e a outros − como os da Africa negra − a possibilidade de criarem ou desenvolverem as suas raízes culturais. Simplesmente uma certa política internacional, uma certa demagogia, a confusão que certas «élites» fazem entre raças superiores e inferiores ou entre colonialismo de interesses e colonialismo de ideias, tem prejudicado − com fogo e com ódios − essa evolução natural. A nossa posição tem que ser firme, mas cautelosa, sem permitir que falsos sentimentalismos permitam que povos de cor estraguem, por imaturidade ou deficiência política, aquilo que nós próprios neles queremos proteger. Se os ajudarmos o seu futuro sempre se dirigirá para nós. E é dentro de um assim amplo espírito de compreensão e de respeito que me proponho fazer uma meditação pública sobre o homem cabo-verdiano.
Haverá manifestações que permitam admitir a sua existência? Mais até: a existência de uma cultura, digamos mesmo, de uma civilização cabo-verdiana? Discuti isto com os meus amigos de S. Vicente e nem sempre estivemos de acordo. A alguns meses de distância, sinto um inefável gozo espiritual em recordar que não poucas vezes eles se mostraram mais arreigados do que eu próprio às nossas raízes ocidentais. E Deus sabe como eu sou europeu!
Entendo por civilização o conjunto das manifestações de ordem cultural e espiritual de um povo e de uma época, qualquer que seja o seu grau de progresso ou a sua riqueza. É uma definição científica, que permite afastar o critério restrito de civilização como o significado de um progresso técnico; bem como a ideia de que tal estado seja inseparável de tal progresso. Até porque, como bem demonstrou Henry George no seu estudo sobre «Progresso e Pobreza» pode haver povos cultos genesicamente destituídos do sentido de progresso. Como é o caso dos nossos vizinhos de Goa.
Assim, eu admito a existência de uma civilização cabo-verdiana − com o seu comércio, a sua poesia, o seu bailado, o seu idioma e até, coisa que escapou a Gilberto Freire, as suas artes regionais. Fica apenas em discussão o seu grau, que forças têm impedido o seu desenvolvimento e que culpa têm nessa «indolência». ou nessa suspensão o meio geográfico e o homem.
ALMERINDO LESSA
   - Diário Popular -

MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 9

quarta-feira, 14 de junho de 2017
Se existe um complexo de inferioridade respeitante às doenças de negro? Que se sabe a respeito da tristeosa?

Presidente: Passemos à discussão do último tema: «Se existe um complexo de inferioridade respeitante às doenças de negro? Que se sabe a respeito da tristeosa?»
Alguém deseja discutir este texto? O problema da tristeosa já foi esclarecido na primeira reunião.
            Baltasar Lopes: Eu creio que o assunto ficou esclarecido na última reunião. A não ser que se entenda esse complexo pelo medo físico perante a malária.
            Presidente: Penso que o Sr. Dr. Almerindo Lessa quer referir-se ao facto de nós, os médicos cabo-verdianos, procuramos ocultar certas doenças das chamadas tropicais. Isso não é verdade, Sr. Doutor. Pelo contrário, todos nós as temos procurado. O que tem acontecido com frequência é a negação dessas doenças por médicos metropolitanos recém-chegados à província, como no caso dos expedicionários, que nelas só acreditaram, muitas vezes, depois de dolorosa experiência pessoal. O que algumas vezes sucedeu é que a certos colegas foi-lhes quase proibido pôr os diagnósticos certos de determinadas doenças. Isso é de facto lamentável, não sei de quem é a culpa, mas isso já acabou.
            Santa Rita Vieira: Eu queria esclarecer que se impõe uma condição: é a confirmação laboratorial.
            João Morais: Também quero esclarecer que oficialmente nem sempre se pode escrever certo; ou porque tais doenças ainda não estão sistematizadas; ou porque falta o contrôle laboratorial. Muitas vezes abusa-se do diagnóstico de paludismo para classificar uma doença febril cuja causa não está esclarecida.
            Santa Rita Vieira: Acontece então que, como se tem que pôr um diagnóstico, se vai sobrecarregar outra rubrica.
            Presidente: Mas não é para ocultar as doenças de negro, que era o ponto posto à discussão pelo Sr. Dr. Almerindo Lessa.
            Teixeira de Sousa: Eu quero apenas dizer uma palavra. Doenças de negro, porquê? Se são tropicais, não atingem só o negro. Atingem os amarelos e até os brancos das regiões tropicais. Doenças tropicais, sim. Agora doenças de negro, não.
            Daniel Tavares: Quando eu era estudante do Instituto de Medicina Tropical, o Prof. Silva Teles falou comigo, sabendo que era de Santo Antão, porque, no Congresso de Higiene de Londres, os delegados ingleses haviam chamado a atenção da delegação portuguesa chefiada por Ricardo Jorge, sobre o estado de abandono em que se encontrava a lepra em Cabo Verde, e em especial em Santo Antão. Pelo que pensaram mandar uma missão cadastrá-la, mas foi adiada sucessivamente, até que veio para aqui o Dr. Santana, que eu conhecia de Lisboa, do Hospital de Santa Marta e do Instituto de Medicina Tropical. Mas, como não sabia andar a cavalo, e, portanto, não podia fazer o cadastro dos leprosos daquela ilha, resolveu abandonar a lepra e estudar o índice palustre de S. Vicente. Um dia disse-me: «Colega, há aqui qualquer doença que se parece clinicamente com o paludismo, mas que não é paludismo. É preciso identificar essa doença. Que será?» Respondi: «Não há paludismo aqui em S. Vicente?» «Não, não há. Não encontrei um único anófeles e já tirei sangue a dez crianças do morro e não verifiquei nenhum caso». «Há, indiscutivelmente» disse-lhe eu. «Quando vim de Lisboa tinha o hábito de identificar com o microscópio todos os doentes e encontrei principalmente o Vivax, mas também o Malariae e até muitos casos de Praecox.
            Presidente: Sim?
            Daniel Tavares: Sim. Ele fez-me uma careta, foi para Santiago e quando voltou teve a pouca sorte, ou a muita sorte de chegar um dia depois de o barco ter partido. Ficou à espera do barco seguinte. No outro dia encontrou-me a caminho do Hospital. «O colega disse-me que aqui havia paludismo? Agradecia-lhe que me mandasse um caso ou me deixasse ver umas lâminas, mesmo lá no consultório». Nesse mesmo dia mandei-lhe um doente que morava no Monte Sossego e pouco depois o Dr. Santana voltava com o próprio microscópio para dizer: «Colega nunca vi em parte nenhuma, nem mesmo em S. Tomé nem em Angola um caso de infestação tão intensa como esta. Veja quantos anéis de Praecox, por todos os lados. Este homem não escapa. Trouxe apenas para o colega ver. Imagine se eu tenho ido ontem!»
            Mandei-lhe naqueles dias dezenas de casos, todos positivos. «E não haverá casos de infecção de fungos da pele?» Em grande quantidade, respondi. Têm o nome de xerbosa. E mandei-lhe novos casos. De modo que se ele tem seguido um dia antes dizia que não havia paludismo em S. Vicente.
            Esteve aqui um outro médico que soube – se é que soube – de alguém (dos americanos de retorno) tuberculoso e logo escreveu no seu relatório que a emigração para a América era indesejável, já que todos voltavam tuberculosos e introduziam a doença em Cabo Verde. E este Dr. Santana cometeu a imprudência de fixar esse facto, inteiramente falso, no seu relatório. Pelo contrário, esses homens não só não vêm tuberculosos como auxiliam com os seus dólares a luta contra a doença. De modo que muitas vezes os relatórios são muito apressados. Diz o Dr. Almerindo Lessa que dois meses são insuficientes para poder apreciar Cabo Verde. Bom! São, na realidade. Pois há poucos dias ouvi o Dr. Júlio Monteiro referir uma obra que corre por aí, publicada sobre Cabo Verde, de um homem que nunca esteve aqui. Só de passagem umas horas…
            Júlio Monteiro: A bordo de um barco.
            Manuel Meira: Eu creio que o ponto inicial posto pelo Dr. Almerindo Lessa foi um pouco esquecido. Isto é: houve um desvio no decorrer destas conversas. Eu não creio – tenho alguma experiência de Cabo Verde; já vim aqui várias vezes desde 1946 – , eu não creio que haja na realidade qualquer complexo de inferioridade referente às doenças de negro, isto é, aquele ponto que se refere à ocultação de doenças propriamente de negro. Não existe patologia propriamente africana. O Dr. Almerindo Lessa, mesmo de começo, especificou bem o ponto. Pô-lo bem a claro e declarou que não reconhecia uma patologia exclusivamente tropical, com a excepção feita, e muito bem, da hipnose, da doença de sono. De forma que me parece que não há da parte dos nossos colegas aqui residentes ou naturais de Cabo Verde qualquer complexo para ocultar doenças do nativo. Porque essas doenças não existem; pelo menos doenças que possam parecer vergonhosas. Fugindo já da designação específica da expressão.
            No decorrer desta Mesa houve referências a várias doenças correntes em S. Vicente, por exemplo, o paludismo, e ouvi uma referência do Dr. Daniel Tavares sobre um assunto que eu, extemporaneamente1, peço licença para tentar esclarecer, se é que o poderei fazer. Refiro-me àquela alusão feita por V. Ex.ª sobre o mal esclarecido problema do paludismo em Santo Antão.
            Na realidade, a sua alusão foi felicíssima, porque todos nós podemos ver, desde há muitos anos, que nas estatísticas não aparece nenhuma rubrica a respeito do paludismo em Santo Antão. Não aparecem casos diagnosticados nos últimos anos, embora as publicações oficiais antigas refiram surtos epidémicos, por exemplo, na Ribeira Grande. Ora eu conheço também um pouco de Santo Antão. Fiz lá uma missão que durou três meses, sobretudo na parte norte da ilha, e fiquei convencido que ela era um dos exemplos, bastante raros, de anofelismo sem sezonismo. Muito interessante para nós. Quer dizer: por toda a parte se encontravam anófeles e em nenhuma parte se encontravam doentes. Ora eu pude, mercê dos conhecimentos actuais, levantar o véu, ou pelo menos, a ponta do véu, deste mistério.
Existe em realidade em Santo Antão, (refiro-me a parte norte) anofelismo intensíssimo. Simplesmente, o anófeles não é transmissor de malária. Trata-se de uma espécie que, pelas suas condições de vida, pela sua biologia, não propaga a doença. Primeiro, porque potencialmente não é capaz de a transmitir; em segundo lugar, porque, pelos seus hábitos não pica o homem; não o pica pelo intensamente. É capaz de o fazer, por exemplo, em cativeiro, mas tem uma preferência alimentar notavelmente zoófila. Trata-se da espécie Pretoriensis, que foi descoberta também posteriormente na Boa Vista e em Santiago e finalmente aqui em São Vicente. É um anofelismo que nós permitimos que sobreviva aqui, actualmente, em vários pontos. Em S. Nicolau existe uma situação semelhante, apenas diferente porque de quando em quando surgem as tais «carneiradas» de paludismo, mas onde intervém, quase com certeza, o A. Gambiae, que é o grande responsável pela distribuição do paludismo no arquipélago. Isto são divagações, mas eu entendi que devia prestar estes esclarecimentos. E já agora, com referência a uma pergunta do Sr. Dr. Júlio Monteiro, se o Sr. Dr. Almerindo Lessa teria feito quaisquer estudos psicossomáticos (ele respondeu negativamente), eu queria informá-los de que uma das missões realizadas pelo Instituo de Medicina Tropical que trabalhou em S. Nicolau em 1954, chefiada pelo Sr. Dr. Lopes Barbosa, fez esses estudos e creio que muito brevemente serão publicados nos anais do Instituto.
            Presidente: Queria fazer uma pergunta ao Sr. Dr. Daniel Tavares. Há pouco ouvi-lhe dizer que tinha encontrado as três espécies de plasmódios: o Vivaz, o Malariae e o Praecox. Ora eu e o Dr. Manuel Meira vimos muitos milhares de lâminas e não encontrámos nenhuma com Malariae. Foi aqui mesmo em S. Vicente que o Sr. Doutor o encontrou?
            Daniel Tavares: Aqui mesmo em S. Vicente.
            Manuel Meira: O Malariae já foi encontrado em Cabo Verde e eu já o encontrei em S. Nicolau. Nunca em S. Vicente, mas em S. Nicolau sim. Um único caso, é certo, que foi confirmado pelo professor Cambournac.
            Presidente: Parece-me que todos os problemas foram focados. Agora não sei se o  Dr. Dr. Almerindo Lessa quer dizer alguma coisa.
            Almerindo Lessa: Meus senhores: como era fatal, eu corri o risco; nem outra circunstância podia acontecer. É possível que eu saia daqui, como temia, julgado mais ignorante do que realmente eu penso que sou. Mas creio que cheguei onde pretendia. Provoquei uma discussão, obriguei talvez os senhores a falarem mais do que aquilo que quereriam. Disse-lhes, de entrada, quais eram as razões que me levavam a propor-lhes estas pequenas questões e não outras. Tentei fazer um inquérito, já não digo do tipo Gallup, mas um pequeno inquérito para uso pessoal, para que eu não fosse informar tão mal de Cabo Verde como outros têm feito. Foi uma autodefesa. De uma maneira geral, vejo que todos se interessaram pelos problemas e todos procuraram afincadamente responder pela negativa à maior parte das perguntas que eu tinha feito e que não passavam de perguntas. A maior divergência foi, sem dúvida, a respeito da existência de uma civilização cabo-verdiana, e que a meu ver, residiu sobretudo no diferente conteúdo que cada um pôs dentro da palavra civilização. No entanto, eu concluo, pela discussão estabelecida, que existe pelo menos uma tentativa de civilização regional, que falta talvez compreender no seu sentido final; civilização no sentido Ocidental, no sentido Africano ou, porventura, no sentido que hoje damos à nossa civilização: euro-africana. A dificuldade está no impedimento essencial de todos os problemas desta natureza, mas eu creio que fiquei a perceber quais eram as próprias perplexidades de V. Ex.as.
                É claro que o mais debatido – não podia deixar de ser – tão forte e tão duro que até um poeta me respondeu em prosa (!) foi o problema da indolência cabo-verdiana. Não me espanta que tenham ficado sentidos. Do fundo da discussão eu concluo que, à parte a existência ou existência de uma atitude ou de uma não-atitude que se pode chamar indolência (aquela indolência que na verdade registam todos os observadores que até hoje se debruçaram sobre os problemas de Cabo Verde), existe um estado de frustração resultante da perda de fé administrativa, e há, pelo menos, falta de espírito de colectividade.
            Do problema da língua crioula já eu esperava que a resposta fosse essa e no que às formas elementares de cultura da terra ouvi mais uma vez aquilo que o Sr. Dr. Júlio Monteiro já me tinha confessado.
            No que respeita ao problema de doenças de negro e do complexo de inferioridade que o seu aparecimento pode levantar nos cabo-verdianos, o problema fora-me posto a mim, pessoalmente, por uma alta personalidade médica. Limitei-me a repeti-lo neste inquérito. Expliquei qual era o meu ponto de vista, referi qual era a minha posição e a dificuldade que eu tenho em me servir dos dados publicados. Pus o problema em relação às doenças dos negros e não dos amarelos, visto que tinha de referenciar-me a uma percentagem maior ou menor de raiz antropológica, e que seguramente não é, neste caso, a raiz amarela. Evidentemente que o problema é geral e eu próprio comecei por dizer que não creio na existência isolada de doenças tropicais.
            Chegado ao fim desta que foi a nossa segunda reunião, eu creio que posso tirar uma conclusão principal. É que vale a pena sempre provocar para uma Mesa Redonda homens assim cheios de boa vontade para discutir problemas comuns. Havia neste caso, um homem que estava em má posição, na circunstância atrevida de vir discutir problemas que essencialmente são de V. Ex.as. Era eu. Mas espero que não levem isso a mal. Eu tenho por mim que respeitei os homens de Cabo Verde, sem deixar de respeitar-me a mim próprio.
1 Dr. Manuel Meira não pudera, por motivo de doença, comparecer à I Reunião. A sua intervenção visou ainda informar a Mesa sobre as contribuições seroantropológicas já obtidas ou em vias de realização pela Missão Permanente do Estudo e Combate de Endemias.

In CABO VERDE – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 104 – Maio de 1958

MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 8

terça-feira, 13 de junho de 2017
As formas elementares de cultura da terra são consequências de um fatalismo, da falta de meios materiais ou da impreparação técnica dos agricultores?

Presidente: Parece-me que podemos agora passar à discussão da outra alínea: «As formas elementares de cultura da terra são consequências de um fatalismo, da falta de meios materiais ou da impreparação técnica dos agricultores
Júlio Monteiro: Nós possuímos culturas a que chamarei de sustentação, por exemplo, o milho, e culturas a que se poderá dar o nome de culturas de riqueza, por exemplo, o café. Embora ambas produzam riqueza, a nossa cultura básica é o milho.
            Nada há mais fácil de cultivar. Abrem-se buracos na terra na altura das chuvas, metem-se uns grãos e tapam-se até com o próprio pé. Tempos depois ajeita-se a terra; se as águas são boas haverá outras ervas daninhas a retirar, e algum tempo depois cortam-se as flores, se for caso disso, e faz-se a colheita.
            Porque cultivamos o milho, e não qualquer outro produto?
            Eu suponho que é um acto de ciência empírica profunda por parte do povo. Chove em Cabo Verde nos meses de Agosto, Setembro, Outubro (se chover) e Novembro. Em Dezembro e Janeiro colhe-se o milho. Não há mais chuvas no arquipélago. Não creio que seja possível arranjar outro produto que em tão pouco tempo e com tão pouco trabalho possa dar-nos o suficiente para nós nos alimentarmos durante o resto do ano. O que sucede em Cabo Verde sucedeu na América do Norte. Por isso é que La Blache chamava ao milho o viático das civilizações: ia à frente o pioneiro, atirava uns grãos à terra e pouco tempo depois tinha uma espiga leitosa que ia comendo e que ia reproduzindo.
            É claro que este sistema de o milho ser o nosso alimento básico tem inconvenientes, mas eu não conheço nenhum outro produto capaz de produzir o milagre que eu já vi em Santiago: lançar um grão à terra e quatro meses depois obter desse grão 700 ou 800 grãos! É claro que, sendo uma cultura tão fácil de fazer e sendo as propriedades em Cabo Verde pequenas propriedades, não é possível, nem creio mesmo que seja necessária, uma forma diferente de cultura. Não se podem empregar máquinas, não há possibilidades.
            Baltasar Lopes: Até nem seria recomendável por causa da erosão.
            Júlio Monteiro: E tudo indica que seja essa a forma mais lucrativa da cultura do milho, que nós não podemos, pois, chamar elementar no sentido de pouco produtiva.
            Outro tanto não sucede, porém, com as culturas ricas, como o café, que é cultivado, de um modo geral, pelo menos em Sotavento, por forma imprópria. Há cafeeiros velhos cuja substituição se impõe, mas que não se faz. E não se faz porquê? Aqui surge um dos elementos de explicação indicados pelo Sr. Dr. Almerindo Lessa: a falta de meios materiais. Um pé de café leva cerca de cinco anos a produzir e durante esses cinco anos o agricultor não pode prescindir dessa produção, para obter mais algum dinheiro, para pagar os impostos e melhorar as suas condições de vida. Claro que o poderia fazer e o interesse do Governo era que o fizesse, porque melhoraria a produção e, consequentemente, aumentaria a sua riqueza. No Brasil o Senador Chateaubriand está liderando uma campanha para a substituição obrigatória dos cafeeiros velhos. Mas é claro que lá as condições financeiras do agricultor são diferentes.
            Quer dizer: enquanto que para o milho não considero elementar o nosso sistema de produção, considero-o para outros produtos mais ricos. A situação mantém-se porque para o agricultor não existem meios proteccionistas. Já contei há várias pessoas uma história que parece anedota. Um amigo proprietário em Santa Catarina, que tem a mania de estar sempre doente, pediu-me que lhe comprasse vinte frascos de Urodonal. Fui à farmácia e disseram-me que só havia dezasseis frascos. Informei-o e ele mandou-me então o seguinte telegrama: Compre-os todos antes que a SAGA1 os requisite. Achei graça e perguntei-lhe porquê. Respondeu-me: «Senhor Doutor, eu só conheço o Governo nas seguintes ocasiões: quando me manda fazer o manifesto agrícola; quando me obriga a pagar a contribuição e quando me requisita o milho para vender à SAGA». Ora um homem nesta disposição está sujeito a toda a espécie de infelicidades, não espera uma assistência social ou agrícola. Nós precisamos daquilo a que se poderá chamar o crédito agrícola democrático. Já então modificaríamos as formas de cultura e haveria razão para esperar uma melhoria das condições de vida locais.
            Impreparação técnica dos agricultores? Nunca tivemos escolas elementares de agricultura; tivemos só escolas de ensinar a ler. O agricultor tem os conhecimentos elementares empíricos, que passaram de geração em geração. Convinha efectivamente tê-los melhor. Mas convinha que simultaneamente se lhe dessem as possibilidades de pôr em prática esses conhecimentos. É claro que me dirão: mas então é o Governo que há-de vir, como bom pai, fornecer esses elementos? Se a instrução – refiro-me à instrução no seu sentido mais geral –  compete ao Governo, também os organismos de crédito destinados a acudir e a melhorar situações de carácter geral, como os de uma Agricultura, têm sido em toda a parte organizados e criados pelo Governo. Portanto, não é pedir de mais que se crie um crédito agrícola, que se criem escolas de Agricultura, que se nos proporcione a possibilidade de não deixar ir para o mar nenhuma gota de água que cai e de trazer à superfície toda a água que temos no subsolo. É esse o nosso problema!
            O Sr. Doutor falou em fatalismo e diz que lhe parece que esse fatalismo é gerado de fora para dentro. A fragmentação de Cabo Verde em ilhas é o nosso pior mal. A isso podemos chamar, de facto, um fatalismo. Mas fatalismo geográfico.
            Impede-nos uma infinidade de coisas e, inclusivamente, a de fazermos uma agricultura mais progressiva e mais racional. A génese desse fatalismo não está em nós, está no nosso condicionalismo geográfico. Fatalista não é o cabo-verdiano. Quem conhece qualquer das ilhas agrícolas, como Santiago ou S. Nicolau, vê que mal caem as primeiras chuvas toda a gente se precipita no trabalho e não fica um palmo de terra por cultivar. E quando sucede algumas vezes ficarem terras por cultivar, como em Santo Antão, depois da crise de 42, é, justamente, por falta de braços porque os homens morreram na crise, e por falta de socorro; porque eles não tiveram milho para as sementeiras, porque ninguém os ajudou.
            Baltasar Lopes: Principalmente para uma operação mais custosa que é a monda.
            Júlio Monteiro: Hoje a situação é um pouco diferente. A SAGA abona sementes, a SAGA abona mantimentos. Não faz como faziam os agiotas que emprestavam milho ou dinheiro para receberem depois o dobro.
            Baltasar Lopes: Isso até deu lugar a um instituto jurídico. Em S. Nicolau era chamado «o prazo».
            Júlio Monteiro: Eu suponho não haver fatalismo numa população como a de Cabo verde que se lança ao cultivo da terra sabendo mesmo que esse cultivo é precário, que pode faltar a chuva de Outubro e sabendo mesmo que tudo quanto semeia pode redundar em palha. Não se pode falar, portanto, em fatalismo se não for no seu sentido geográfico. Esse sim, esse existe. Condiciona-nos muitas possibilidades, inclusive as da Agricultura.
            Presidente: Alguém mais deseja falar sobre este ponto?
            Daniel Tavares: Realmente várias pessoas decididas e dispostas a gastar dinheiro tentaram a Agricultura, mas ao cabo de um, dois anos, desistiram porque a falta de chuvas inutilizou todo o seu esforço. Um amigo meu meteu de uma vez 100 contos numa empresa (o que para Cabo Verde é já uma quantia importante) e recolheu da primeira vez aproximadamente um décimo, no segundo ano não tirou nada, no terceiro desistiu. Falta de chuvas! Condições climáticas!
            Além disso, e isto pode explicar a tal indolência, se formos ver o que se passa em Santo Antão, região muito montanhosa, de declives, observamos que o homem faz uma parede de dois a três metros de altura para conseguir apenas um pequeno terraço de meio metro de largura. Depois verifica que, ao cabo do trabalho que fez, gastou 100 para obter o valor de 10. Chega a ser espantoso como é que o cabo-verdiano trabalho tanto para nada. O trabalho é gigantesco! Além disso, não temos condições de trabalho.
            Vou dar um exemplo pessoal: Pretendi cultivar café numa herdade de meus pais e fiz uma boa cultura. Depois, como os terrenos estivessem esgotados pela erosão, quis em certa altura adubá-los. Como? Importar adubos de fora? Mas eu sabia que na Brava havia grandes quantidades de guano, que os franceses vinham buscar antigamente. Com esforço, com trabalho, com muita canseira consegui comprar 4 toneladas que mandei para a minha terra. Aquilo devia ser aplicado em determinado período.
            Pois bem: 4 meses depois ainda lá estava. Foi necessário dividi-lo em pequenos lotes de 20 quilos, que foram depois transportados à cabeça de mulheres, pagando cinco escudos por cada pequena carga. Enfim, aquilo custou-me tanto que desisti. Impossibilidade! Não há estradas. Não há um metro de estrada na minha terra. Não temos condições de trabalho. A nossa indolência é mais aparente do que real. Só agora é que se esboçou a primeira estrada em Santo Antão. Está esboçada! Se será feita ou não…
            Júlio Monteiro: Assinou-se hoje o contrato para a sua construção.
            Daniel Tavares: Ah, sim?
            Baltasar Lopes: Portanto já não vai continuar a discutir-se a estrada…
            Daniel Tavares: Temos falta de meios materiais. Temos falta de preparação técnica.
1 A SAGA, abreviatura que designa o Serviço de Aquisição de Géneros Alimentícios, foi criada pelo Decreto nº 31880, de 8 de Fevereiro de 1942. Pela sua acção o abastecimento de géneros de primeira necessidade deixou de estar à mercê do comércio importador, que com ele enriquecia nas ocasiões de crise, e passou a ser um serviço público como qualquer outro. Os lucros auferidos são aplicados na constituição de um fundo de reserva para épocas de crise e em subsídios de interesse geral.


In CABO VERDE – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 103 – Abril de 1958

MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 7

segunda-feira, 12 de junho de 2017
A língua crioula é um idioma de poupança e de adaptação regional, com a riqueza fonética e a plasticidade de um verdadeiro idioma ou é apenas um «falar útil», bom como instrumento de comunicação, mas incapaz para outras realizações intelectuais?

Presidente: A língua crioula é um idioma de poupança e de adaptação regional, com a riqueza fonética e a plasticidade de um verdadeiro idioma ou é apenas um «falar útil», bom como instrumento de comunicação, mas incapaz para outras realizações intelectuais? Eis o problema agora em discussão.
Baltasar Lopes: Bom. Eu suponho o seguinte: originariamente, o núcleo primitivo da formação do crioulo devia ter um carácter exclusivamente profissional, portanto com este carácter de falar útil. Modernamente, não. O crioulo oferece hoje principalmente aquilo que Deschanel chamava formação, isto é, não estagnou. Apresenta uma capacidade de enriquecimento em vários domínios, em todos os domínios em que uma língua se pode enriquecer. Por exemplo, num dos aspectos: o fonético. Foi Maurice Ramon quem apontou que muita gente supõe que uma língua se enriquece pela sua sintaxe, pelo vocabulário, quando, pelo contrário, a maior tendência de aristocratização de uma língua é a fonética; e então nisto Cabo Verde é uma terra ideal para um dialectólogo e para um romanista. Como todas as línguas, temos na nossa um fundo fonético tradicional, fundo que depois é reconstruído. É claro que hoje – e não é só hoje, a situação vem de há muito – há um contacto bastante assíduo com a cultura europeia veiculada, ou por europeus ou – e isto é o mais importante – por indivíduos naturais das ilhas, indivíduos ilustrados ou pelo menos alfabetizados. De modo que se nota a influência constante da língua mãe. E isto compreende-se porque o crioulo está numa situação diferente da que estiveram o português e, ou qualquer língua românica com o latim. Quando certas línguas se formaram, o latim já não era uma realidade viva, ao passo que nós notamos um dialecto, um idioma, que evolui sob os olhos da língua matriz, sob uma influência constante da tal língua matriz. Há este tal princípio de aristocratização que se nota por toda a parte.
Uma palavra de fundo tradicional é transformada imediatamente na boca do povo por influência das pessoas ilustradas e assume uma fisionomia fonética muito mais fácil do que o português. Para isso contribuíram vários factores que não posso referir aqui (alotropismos, formas divergentes). É rara a palavra que não assuma aqui duas fisionomias fonéticas: a fisionomia tradicional e uma fisionomia muito próxima do português. É claro que a tradicional caracteriza-se principalmente por dois fenómenos fundamentais, um deles decorrente do outro: o primeiro é a atenuação das vogais átonas, donde o encontro violento de consoantes; é então o mecanismo de assimilação que tem na ilha de Santo Antão o seu paraíso. O foneticista que vá à ilha de Santo Antão, e que se interesse pelos fenómenos de assimilação, encontrará lá elementos em abundância, vitalidade na fonética, vitalidade no léxico. Muita gente também supõe que o crioulo tem um léxico na sua maioria de origem africana. Engana-se. Eu suponho poder falar particularmente sobre isso porque me dei a um trabalho de Topsius que parece, ao fim e ao cabo, que vai ser publicado: e nesse trabalho entro no léxico.
A certa altura dei-me ao trabalho de verificar a percentagem de termos que eu tinha a certeza de não serem de origem portuguesa. Percentagem mínima: 3%, se tanto. E no conjunto do léxico é a mesma coisa. É claro que quem não conheça o crioulo desnorteia-se perante as formas fonéticas.
Todos os dias estamos a enriquecer o léxico. Todos nós que ensinamos português no liceu verificamos que o crioulo já oferece aos alunos imensas possibilidades expressionais. Eu já ouvi à saída de exercícios de matemática e até de filosofia os alunos a discutirem sobre o exercício em crioulo.
Júlio Monteiro: Eu já ouvi falarem sobre a «mística dos cruzados».
Baltasar Lopes: É uma língua viva; viva e com grandes possibilidades. Porque está adquirindo cada dia novos recursos expressionais. E claro, há que atender ao seguinte: o crioulo trabalha sobre um sistema irremediavelmente estabelecido: o sistema morfológico. Creio que o primeiro que estabeleceu este ponto de vista foi Tarracher e mais tarde Menier, que disseram: o que serve para definir uma língua e a sua filiação noutra é a estrutura morfológica, mais do que a fonética e mais do que o léxico e mais do que a sintaxe. Reduziu o sistema morfológico do português. Reduziu, simplificando. E não fez descoberta alguma porque isto é uma fatalidade que acompanha todas as línguas quando evoluem em domínios novos: começam sistematicamente a simplificar o seu sistema morfológico que depois compensam com processos periplásticos. E o crioulo apresenta esta coisa curiosa: a sua vitalidade dá-lhe a possibilidade de responder positivamente a um problema posto em 1936 pelo Osório de Oliveira e por mim: «será o crioulo uma língua?» É claro, não é uma língua de civilização, é uma língua regional, com todas as características, todas as possibilidades.
Se os brasileiros que aí há bastante tempo intentaram a tese da língua brasileira, em vez de terem a expressão idiomática que têm, muito aproximada do português, apesar das peculiaridades de fala brasileira, tivessem a simplificação que nós temos, a diferenciação que nós temos, podiam perfeitamente fazer uma língua. E note-se que era uma curiosíssima experiência, porque seria uma língua românica criada nos tempos modernos a par do português. Quanto às possibilidades de expressão literária, suponho que essas são pequenas.
Eu não li, mas alguém me disse que numa certa altura se fez uma espécie de competição para saber quais eram as melhores traduções das endeixas da «Bárbara Escrava», e que entre as melhores foram consideradas uma do galego (o que não admira, porque, como disse Lapa, são dois povos que andam a falar às escondidas a mesma língua) e outra do Eugénio Tavares, de facto uma esplêndida tradução. Como é esplêndida a sua tradução da «Enjeitadinha», de João de Deus.
Tem possibilidades. Como Sr. Doutor sabe, é mais fácil o começo de uma expressão literária em verso, em poesia, do que em prosa. No entanto, também em prosa há um bom ensaio de prosificação do crioulo, de Pedro Cardoso, e eu lembro-me – não sei se você se lembra ó Henrique! – ainda você era estudante, por volta de 1939, que me mostrou uns papéis do Virgílio Barbosa falando até das efemérides locais e de motivos de política local. Uma maravilha! O crioulo servindo, mas nitidamente, para isso.
É uma língua viva, não é um simples falar – não se compara, ao que eu posso deduzir dos textos que pude conhecer, por exemplo, com o crioulo de São Tomé; não se compara com outros falares, como os falares da Guiana. É uma língua suficiente. Tem mais vitalidade do que o crioulo de Macau.
Deve ser a criação românica neo-europeia de origem portuguesa mais viva e com mais futuro, mais futuro literário. É claro que esse futuro está condicionado por outros factores, por outras subjacências. Mas que em si, intrinsecamente, tem condições, tem futuro, tem. Serve de língua franca.
Suponho que quando se refere a ele como falar útil alude a ser um instrumento de comunicação. De facto, desempenha essa função de língua franca.  O crioulo que se fala na Guiné é parecidíssimo com o de Santiago e está cheio de termos de vocabulário principalmente mandinga. Serve de instrumento geral de comunicação, não só na Guiné, mas até com o indígena da Guiné francesa. Exerce lá esta função. Saiu do seu habitat, não está, como cá, submetido a um mecanismo de aristocratização, de nobilização, de enriquecimento, mas conserva sempre a fidelidade das suas raízes, principalmente no sistema gramatical, morfológico.
Almerindo Lessa: Queria dizer ao Sr. Dr. Baltasar Lopes a razão que me levou a pôr esta questão. Eu já conhecia algumas das crónicas radiofónicas em que contestou um ou outro pormenor da crítica de Gilberto Freire a propósito do crioulo e tinha lido na Claridade o seu magnifico trabalho sobre «Uma experiência românica nos trópicos». Mas eu queria provocá-lo, porque o meu juízo também fora provocado por uma opinião inserta num estudo acerca dos termos médicos do crioulo cabo-verdiano: «a terminologia dos filhos de Cabo Verde mostra-se mais pobre do que o léxico similar plebeu das ilhas adjacentes».
Baltasar Lopes: Isso é que não é verdade. Pode dizer que isso não é verdade. É como o caso de tristeosa. O vocabulário básico do crioulo não é menos rico do que o falar básico de qualquer outro indivíduo da metrópole. Pelo contrário. E a explicação talvez resida no contacto que houve antigamente entre o clérigo e o iletrado. Talvez por razões eclesiásticas. O teor de vida das ilhas era um pouco diferente, se bem que ainda hoje exista esse contacto. Qualquer de nós é bilingue. Eu falo o crioulo de S. Nicolau como qualquer rústico. Além disso, aparecem termos cultos na boca do povo.
Há bastante tempo, fui a S. Nicolau. Desembarquei no Tarrafal e foi meu companheiro de viagem um rapaz chamado Cesário, lá do Cabeçalinho. A certa altura chegámos a um ponto chamado «os Galegos». O lugar é um bocado escuro, um bocado soterrado, e sabe qual é o nome que ele deu aquele ermo? «neste clipse», neste eclipse. Está a ver a imaginação topológica, a riqueza, a fertilidade de transposição metafórica.
Além disso, ainda lá se emprega o termo no sentido de situação difícil. Disseram-me também que em Santo Antão, para designar uma situação difícil, em que o indivíduo está como o burro de Buridan, se diz «cis e caris»; entre Cila Caríbdis!
O vocabulário é talvez, pelo contrário, a nossa maior riqueza. Para a linguagem coloquial, para a linguagem de todos os dias, o crioulo tem tudo.
Augusto Miranda: Há uma diferença. É que o português é mais poderoso, mais enérgico e de maior influência sobre o espírito sóbrio do crioulo.
Baltasar Lopes: É curioso. Isso faz-me lembrar aquela explicação de Gilberto Freyre, embora sem fundamento, sobre a sínfise prosodial, brasileira: o dá-me e o mi-dá; o brasileiro mais doce e o português mais duro, mais zangado. São sobrevivências culturais.


In CABO VERDE – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 102 – Março de 1958

MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO - 6

quinta-feira, 8 de junho de 2017
A indolência cabo-verdiana é fruto do clima e do tipo de alimentação, ou consequência de uma doença de vontade?

Presidente: Abordado este, parece-me que podemos passar ao terceiro tema: «A indolência cabo-verdiana é fruto do clima e do tipo de alimentação, ou consequência de uma doença de vontade?»
Jorge Barbosa: Eu preferi escrever uns apontamentos sobre o que quero dizer. As minhas considerações são consequência da minha experiência, talvez longa e muito sentida, da vida cabo-verdiana. Serão uma opinião muito pessoal.
Indolência cabo-verdiana.
Eis não um problema, mas apenas um caso, variadíssimas vezes trazido à baila das discussões.
Mas existe a apregoada indolência cabo-verdiana?
Na verdade, confesso-o, parece, algumas vezes parece, que essa indolência existe, a avaliar de certos flagrantes de abandono físico e de poupança nos movimentos e nos esforços, que aqui e ali surpreendemos na +população – melhor, em alguns indivíduos da população.
Permita-se-ma, antes de mais, uma rápida digressão, na qual procurarei, sem alargar pormenores e sem entrar nos domínios da Economia Política, dizer o pouco que sei ou que entendo do trabalho como auto-obrigatoriedade, como estímulo e até como sacerdócio e finalidade:
a)    O trabalho, primeiramente, é uma obrigatoriedade que a nós mesmos nos impomos: implica com a nossa sobrevivência; neste caso é luta quotidiana e surge como que em consequência de um anátema bíblico; lá estão as clássicas frases «ganharás o pão com o suor do teu rosto», «comerás o pão que o diabo amassou», etc.
b)    O trabalho resulta duma ambição: com ele procuramos a melhoria da nossa situação económica e financeira, e, assim, é um meio de para adquirirmos, mesmo além das nossas necessidades elementares, o com que possamos tornar a vida para nós o mais confortável possível; é ambição ainda, e sobretudo, quando tem em mira a acumulação de riquezas;
c)    O trabalho é sacerdócio; lembro agora a acção missionária dos que, de há séculos, com sacrifício ou não da própria vida, teimaram e teimam – e quantas vezes o conseguem! – levar aos corações mais distantes a palavra confortadora de Cristo; lembro os homens verdadeiramente abnegados, os homens de ciência e quantos outros que altruisticamente dedicam os seus esforços, as suas vigílias, a sua inteligência, ao bem da humanidade.
Em qualquer dos casos vemos que o trabalho necessita de estímulo. A defesa, pois, da nossa sobrevivência, a ambição, o progresso e o bem do homem são estímulos do trabalho.
Mas, principalmente, o grande, o insistente estímulo do trabalho é a sua justa retribuição pecuniária.
Posto isto, vejamos o caso do simples homem trabalhador destas ilhas. Vejamos o homem da terra, tão cheia, por vezes, de surpresas e desesperanças, o carregador, o pedreiro, etc.; vejamos o homem dos nossos mares, o marinheiro dos nossos frágeis veleiros, o pescador, o catraeiro do Porto Grande, etc. Qual o seu estímulo pecuniário em relação ao esforço que despendem? Não vale a pena estimar a média de tão escassos proventos. Qual a certeza do seu futuro? Um seguro social para a velhice? Um retiro para quando chegar a invalidez? Onde estão eles?
Que estímulo pode ter o homem pobre da nossa terra para o seu trabalho? O único será o da sobrevivência. Mas este quantas vezes não fica anulado por um germe de silenciosa revolta que reside no fundo das almas?
Deste modo, e se, de facto, existisse a apregoada indolência cabo-verdiana, poderíamos talvez explicá-la simplesmente com a falta de estímulo, quase total, que afecta como uma fatalidade (corrigível entretanto) a vida das mais humildes classes trabalhadoras do arquipélago.
Mas continuo perguntando: existe verdadeiramente a tão falada indolência cabo-verdiana?
E o esforço e a canseira daqueles nossos marinheiros e pescadores, daqueles nossos homens de enxada? E a actividade dos homens das nossas marinhas?
E essa labuta do dia a dia das mulheres do povo, percorrendo longos e duros caminhos, num vaivém porfiado, com cargas pesadas à cabeça (produtos agrícolas, lenha, bosta até, este dejecto animal que é também combustível nos lares desamparados)?
E o trabalho das crianças? As crianças pobres também carregam, também trabalham, mais do que brincam. Só por si já é trabalho esforçado o percurso diário da infância rural cabo-verdiana por quilómetros multiplicados de chão áspero e abrasante, a caminho e no regresso da escola, com o estômago vazio.
Mas existe a falada indolência cabo-verdiana? Não haverá mais do que tudo a ausência do estímulo do trabalho?
Insisto neste ponto do meu apontamento.
Vejam o exemplo das carregadeiras do cais de S. Vicente, quando transportam sacos de farinha. Sacos de farinha também é um exemplo. A retribuição deste trabalho normalmente é por volume transportado. Poucos tostões, muito poucos, por cada um. E elas lá vão, num formigueiro humano, veloz e impressionante, levando o carregamento para os armazéns da Alfândega para os dos comerciantes. E voltam, sempre correndo, para levarem mais e mais sacos à cabeça. O estímulo da actividade que desenvolvem tão exaustivamente não será retribuição pecuniária em si, bem irrisória, mas a +possibilidade de multiplicarem os poucos tostões que recebem por cada percurso. Mesmo assim, no fim do dia fatigante, quanto teria recebido cada uma das carregadeiras?
Mas haverá a falada indolência cabo-verdiana?
E esses milhares dos nossos emigrantes espalhados pelos mares e pelos recantos da terra? O que fazem lá fora? Vida aprazível de turista, com itinerário da Cook na algibeira e Kodak a tiracolo? Não. Procurem-nos, mesmo que for na imaginação. Neste momento talvez se encontrem ao leme de algum cargueiro, enfrentando os temporais do Gulf Stream, ou lá bem no fundo do navio, suportando o calor infernal das fornalhas. Talvez se encontrem nos campos da Califórnia lavrando a terra fértil dos estrangeiros, quer faça sol (o sol daqueles lados menos violento do que o nosso) quer seja Inverno (mas o frio por ali é mais castigador que a brisa penetrante do Alto da Cruz de Renda da ilha do Fogo). Talvez se possam ver no porto de Buenos Aires ao serviço pesado da estiva. Talvez nos deparemos com eles, aqui e ali pelo mundo, lutando pela existência, contentes também, gozadores da vida e do amor nos momentos de folga.
Mas haverá a falada indolência cabo-verdiana?
Meus amigos, se toparem com algum cabo-verdiano estirado à sombra de qualquer árvore frondosa, em largada soneca, não o acordem; se o virem na praia, deitado no fundo de um bote, como se tratasse de simples rede de repouso, deixem-no em paz; se passarem por um grupo entretido em biscada barulhenta, não incomodem ninguém. São momentos de todos nós em todas as latitudes.
Se determinado trabalho que se está executando, construção, sementeira, transporte, não dá rendimento, se o pessoal actua com certa moleza, antes de se pensar na preguiça não será demais um exame de consciência no qual o factor salário entre em apreciação.
Mas existe a falada indolência cabo-verdiana?
E esses milhares de insignificantes lavradores, sem posse para o recrutamento dos jornaleiros, trabalhando sozinhos, auxiliados apenas pela família, pelo amanho da nesga de terra que possuem, nas regas, na guarda das hortas, de dia e de noite, sem contar com o carregamento dos minguados produtos que eles mesmos têm que fazer para o mercado distante?
Antes de se falar na apregoada indolência cabo-verdiana, é melhor encarar primeiro a presença de uma passividade resistente, talvez instintiva, surgindo em contraposição a insuficiência dos salários.
Meus senhores, a indolência cabo-verdiana…
Eu não creio nela.
Augusto Miranda: Alguns metropolitanos me têm dito que a apregoada indolência cabo-verdiana é uma lenda e que, por exemplo, em Santiago os trabalhadores trabalham dez vezes mais do que deviam. Eu li em tempos, numa obra sobre O Futuro da raça branca, que o italiano e o irlandês na Europa têm pouca produção, mas vão para a América e passado pouco tempo são tão activos e laboriosos como os americanos, porque a alimentação é outra. Em Santo Antão, e aqui, dizem, e também na Itália: «o saco vazio não se põe em pé».
Baltasar Lopes: Eu concordo com o que disse o Jorge Barbosa e o Sr. Miranda. Suponho que o problema da indolência, inaptidão individual do cabo-verdiano para o trabalho é um problema que hoje seriamente ninguém põe ou, melhor, que ninguém discute. Conheço muito bem esses fados: o fado do estímulo, o fado do salário. Agora o Sr. Dr. Almerindo Lessa põe o problema em termos talvez mais concretos da indolência colectiva, e parece-me que é essa indolência que nós precisamos de considerar.
Júlio Monteiro: O Sr. Dr. Almerindo Lessa para demonstrar a sua afirmação…
Almerindo Lessa: A minha pergunta.
Júlio Monteiro: … a sua pergunta sobre a indolência, citou vários pontos relativos todos à ilha de S. Vicente. Disse verdades que nos custam, mas que são verdades. Isto demonstra, a meu ver, talvez uma falta de vontade administrativa permanente. Mas quem desembarcasse aqui há pouco mais de cem anos, nesta cidade onde há todas as carências, o que é que encontraria? Absolutamente ninguém. Vida, só a das cabras!
Foi com o elemento propriamente cabo-verdiano, miscegenizado, preparado em outra ilhas, que desta terra onde não havia coisa alguma se fez esta cidade: se calcetaram as ruas, se construíram as casas, se lavrou muita terra para o interior, se trabalhou neste porto. Quer dizer: a existência da própria cidade é o desmentido mais formal da indolência do cabo-verdiano. Agora continuamos a ter faltas. Outras necessidades de carácter local que demonstram lentidão, talvez uma falta de vontade permanente no plano superior. Mas a cidade em si, esta obra que nós construímos e que existe, destrói por completo a lenda da tal indolência. Agora sejamos realistas. Nós todos temos razão de sobra para dizer que a nossa produção em trabalho manual ou em trabalho intelectual é inferior àquilo que poderíamos fazer. Se a gente comparar o cabo-verdiano com o madeirense, por exemplo (e digo o madeirense por ser um ilhéu como nós e um ilhéu cuja formação se fez em grande parte como a nossa) não podemos deixar de reconhecer que o madeirense é activo, é empreendedor, é ambicioso, enquanto o cabo-verdiano é mais lento, não tem ambições por aí além e produz menos. Se entendermos as coisas nestes termos de comparação, quer dizer, se tomarmos por ponto de partida e confronto dois povos ilhéus, o cabo-verdiano e o madeirense, não podemos deixar de reconhecer que eles trabalham mais do que nós. Agora, os termos de comparação para serem exactos, deveriam referir-se a duas posições geográficas iguais: povos do mesmo sangue, da mesma raça e colocados no mesmo local. Ora a verdade é que a Madeira, com o clima completamente diferente do de Cabo Verde, tem condições climáticas e económicas diferentes. O povo madeirense está, neste ponto de vista, mais beneficiado. Mas a verdade é que quando o madeirense e o cabo-verdiano saem do seu habitat e se colocam num habitat estranho nós assimilamos esse ambiente e produzimos tanto e tão bom ou melhor do que eles. Portanto a nossa indolência só se poderá aceitar como lentidão na execução de qualquer trabalho, e proveniente de factores climáticos e económicos e ainda daqueles factores sociais que Jorge Barbosa citou.
Baltasar Lopes: Eu talvez substituísse essa expressão por frustração, frustração secular.
Júlio Monteiro: Está bem. Pode ser.
Baltasar Lopes: a nossa falta de um sentido colectivo de actividade resulta de uma frustração secular. Esperanças perdidas nas realizações prementes, elementares. Parece que o mais simples é o mais difícil de conseguir. O cabo-verdiano está farto de ouvir falar de coisas que se não realizam. A certa altura o cabo-verdiano, a meu ver, põe o problema de Montaigne: «À quoi bon!» Para quê? Para quê trabalhar, para quê pensar, para quê? Porque afinal de contas, não se encontra realização. Quer dizer: uma frustração secular e, como causa ou consequência dessa frustração, o nosso fraco espírito associativo, que talvez se explique também pela carência de condições individuais. Não há assistência à iniciativa individual e esta falta frustra-nos.
Teixeira de Sousa: Eu peço licença para acrescentar alguma coisa a este problema. Eu queria perguntar ao Sr. Dr. Almerindo Lessa qual o sentido em que se pode tomar a frase «o exemplo dos escolares da bacia do Sado» dentro do conceito da indolência e dos factores que condicionam essa indolência. Parece-me que o Sr. Dr. Almerindo Lessa liga nesta expressão o factor racial pelo facto de nessa zona de Portugal se encontrar diluído sangue negro. E vamos cair assim no mesmo problema de há bocado da sensualidade ligada à raça africana.
Almerindo Lessa: Evidentemente que, para mim, que me limitei a ser eco e intérprete de uma dúvida ou de uma impressão que os cabo-verdianos deixam sistematicamente à maior parte dos estrangeiros, se eu para tal situação – que pus como hipótese de estudo – tivesse uma explicação biológica ligada à raiz de onde eu próprio provenho, não teria de pôr a pergunta assim. Pois que então essa indolência, a existir, teria a mesma origem que a do homem do Alentejo ou do Minho.
Para eu pôr esta pergunta deste modo teria que admitir outra raiz. Quando eu comecei a encontrar sistematicamente uma referência sobre a indolência dos homens de Cabo Verde recordei-me de uma experiência de leitura colhida por mim nos escolares da bacia do Sado. Em 1937, ao preparar uma tese para um Congresso Internacional de Medicina Escolar e ao estudar os resultados académicos de meia dúzia de anos seguidos, cujo acesso me fora permitido, encontrei como referência quase permanente dos professores dos liceus que ficavam ao Sul do Sado que os estudantes eram mais inactivos, mais preguiçosos e com menor comportamento escolar do que aqueles que viviam acima do Sado, e, como é próprio do espírito humano, eu procurei tentar compreender porquê. Não era fácil encontrar uma explicação (falta de alimentação, maus tratamentos em casa, desfasamento entre a idade mental e o nível das aulas) porque o fenómeno era anual, sistemático e de todas as classes. E como em todos os livros que estudam o homem negro vêm referências psicomentais semelhantes, abstraindo mesmo das condições de casa e alimentação; sabendo eu, da existência de uma raiz negra na bacia do Sado, onde nos séculos XVI e XVII alguns povos chegaram a perder 90% dos fogos e onde a falta de braços e de outra qualquer energia promoveram uma importação de escravos que foram posteriormente libertados e diluídos na população – era admissível, como hipótese de trabalho, que aquela mancha de mau rendimento escolar pudesse ter como explicação a persistência de uma raiz afra. Essa hipótese foi muito criticada, mas foi lembrando-me dela que, ao estabelecer esta pergunta, eu acrescentei, de coração aberto, que, por mim, à falta de outra, eu teria uma explicação de circunstância.
Teixeira de Sousa: A propósito da indolência eu queria apresentar dois exemplos e serei muito breve. Suponho que só a geografia humana poderá explicar todos estes problemas. E a geografia humana inclui várias ciências subsidiárias, uma delas a própria Biologia. Mas vamos aos dois exemplos.
É conhecido, e vários autores a isso tem referido, o destino dos duros ingleses que colonizaram na América os estados da Nova Inglaterra e as ilhas Bahamas. Enquanto aqueles que se fixaram nos estados da América do Norte conseguiram de facto criar ali mais uma civilização esplendorosa e rica, os ingleses da mesma cepa que colonizaram as ilhas Bahamas fracassaram. Pode-se mesmo dizer que esses ingleses que se fixaram no mar das Caraíbas, por exemplo em Jamaica, transformaram-se em menos de cem anos, por tal forma que foram chamados «pobres trastes humanos». Tornaram-se indolentes e carregaram-se de todos os vícios. Choveram as explicações. Diziam uns que por causa do clima tórrido, morno; outros por causa da alimentação pobre; outros ainda explicaram isso pelo alcoolismo (um autor, cujo nome não recordo, chegou a dizer que um domingo em Jamaica matava mais gente do que todas as doenças ali reinantes – porque aos domingos se embebedavam.); outros ainda explicaram essa quebra de energia pela organização económico-social, em franca decadência pela derrocada da cana do açúcar.
Outro exemplo, fruto da minha experiência, foi o que eu pude observar na nossa longínqua ilha de Timor. Quando ali cheguei fiquei chocado com o aspecto apático, miserável, da população da cidade de Díli e de quase todo o litoral. Era só eu e a minha mulher. Pois foi preciso meter em casa quatro serviçais para poder comer e ter a casa arranjada. Porque um só se ocupava da cozinha, outro limpava a casa e servia à mesa, outro apenas acarretava água e o quarto apenas ia buscar lenha. E cheguei à conclusão de que com menos não me safava. Depois conheci a montanha e contactei com outros povos mais vigorosos, mais enérgicos, fisicamente mais compostos. E foi na montanha que pude ver coisas interessantes do folclore de Timor, porque em Díli nem sequer tinha ouvido uma gargalhada. Foi na montanha que ouvi o coro das cabeças cortadas e a dança guerreira, que é ao mesmo tempo de uma violência e de uma poesia enormes. Passado pouco tempo eu tinha a chave da explicação do comportamento do timorense do litoral e daquele que vive a mais de 800 metros de altitude. Era o clima, sim, pela sua acção indirecta (no litoral há muita malária, muita parasitose intestinal, muita bouba e outras doenças próprias de uma ilha que fica a 8 milhas do Equador, mas que praticamente eram inexistentes na montanha). No litoral o regime alimentar era mais pobre do que o da montanha, apesar de ser precisamente na zona litoral que os terrenos são mais férteis e onde é possível duas culturas de cereais por ano, mas a população cultiva apenas um pedaço exíguo de terreno, porque não tem energia para cultivar mais. Portanto, passa fome porque as doenças que carrega não lhe permitem executar o labor da agricultura, e na montanha, com terrenos mais acidentados, mais sujeitos à erosão, o regime alimentar é superior. O autóctone da montanha cultiva em larga escala porque é mais saudável. Simultaneamente, penso que a indolência cabo-verdiana não é fatalismo racial; podemos mesmo dizer que não se trata de um fatalismo climático, porque este pode ser vencido pelo homem e só quando não é vencido é que produz a indolência e outras fatalidades.

In CABO VERDE – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 101 – Fevereiro de 1958