«CERTEZA» e o sentir o mundo da II Grande Guerra E as ilhas por transformar...

sexta-feira, 29 de março de 2019

Antes de mais felicitar a oportuna e feliz iniciativa do Jornal «Expresso das Ilhas» nesta reedição completa dos números de «Certeza – Folha da Academia».
Relembrar que foram três números. Dois em 1944 e um em 1945.
O texto que se segue foi uma intervenção feita nas celebrações dos 75 anos do Movimento «Certeza» e a convite do Jornal aqui referido.

 É interessante reler os textos dos organizadores e dos autores  pertencentes a esta corrente literária. Isto, por várias razões, entre as quais distinguiria três :

Uma dessas razões, e a primeira, tem a ver com a juventude dos seus fundadores, 18 e 20 anos de idade, sendo ainda alunos liceais, a cultura que demonstram - estruturada e madura - aliada à sede, e à a vontade de aumentar a dimensão da “redescoberta social e psicológica” das ilhas,  iniciada por «Claridade», em 1936. No dizer de Manuel Ferreira.
São eles, entre fundadores e organizadores: Nuno Miranda, Arnaldo França, Guilherme Rocheteau, José Spencer, Silvestre Faria, Filinto Meneses,  Orlanda Amarílis e Tomaz Martins. Sendo Director Eduíno Brito Silva e Editor; Joaquim Ribeiro.
Tudo isto aconteceu em Mindelo, em 1944/45. Mindelo a cidade portuária  com o seu Liceu; com as suas tertúlias, para os de Certeza, tertúlias da Academia «Cultivar»; com os mais velhos, os  da «Claridade» em plena pujança criativa; com as informações que constantemente  chegavam à ilha-cidade, através do Porto Grande aberto ao mundo e aqui entramos já no segundo motivo ou razão de interesse do Movimento «Certeza», a influência da II Grande Guerra Mundial nas preocupações e na escrita dos seus autores. Justificada por Arnaldo França  da seguinte forma, nas suas preciosas «Notas sobre poesia e Ficção cabo-verdianas» de 1962 – Separata do Boletim Cabo Verde.
Diz o Dr. França a determinada altura, e passo a citar: “ ...o aparecimento da revista em 1944 é significativo. Nessa altura desenhava-se  já no horizonte o triunfo das forças aliadas no campo da guerra europeia, e  mais pressentidos que conscientemente esperados, desenhavam-se os fecundos tempos em que ainda vivemos.” Fim de citação.
Ora bem, a influência do conflito mundial terá sido tema presente e marcante na produção dos jovens  «Certeza». E para ilustrar a forma como os seus poetas o viviam não resisto a transcrever excertos do poema “Testamento para o Dia Claro” de Arnaldo França em que a própria terminologia reflecte esse tempo bélico  vivido um pouco por todo o mundo, e em Mindelo também, nos idos anos da década de 40 do século passado - um tempo horrendo - mas sempre na esperança do “Dia Claro”....
Cito: “Quando no fundo da noite vier o eco da última palavra submissa / E a pátina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro // Quando o fumo do último ovo de cianeto / se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos / E a chama da vela da esperança / se acender em sol de madrugada do novo dia...
E continua: (...) “ Quando só restar na franja da memória // lapidada pelo buril dos tempos ácidos. (...) Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida // A colher uma a uma as pétalas dispersas / da grinalda dos sonhos interditos.”
Claro, que como texto poético que é o «O testamento para o Dia claro» é plurissignificativo e suporta várias análises e diferentes desmontagens.
Ainda um outro motivo de interesse dos jovens membros do movimento «Certeza», é a preocupação da procura do saber e de actualização literária, daí que uma das correntes influenciadoras dos seus poetas, dos seus ensaístas e prosadores, foi ou, tenha sido o Neo-Realismo português. O Neo-realismo, que somos sobre isso elucidados, pois  Manuel Ferreira a prestar serviço militar em São Vicente, à época e  que à «Certeza» se juntou, lhes terá dado a conhecer obras e autores desse movimento, tais foram Mário Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando  Namora, entre outros, então notáveis neo-realistas portugueses.
Pois bem, é também o próprio Manuel Ferreira ( «No Reino de Caliban», vol. I 1974) que destaca –na opinião dele -  como  único poeta saído do movimento, Arnaldo França. Este, por sua vez, e nas “Notas” já aqui já citadas, e escritas em 1962  diz que o movimento apenas produziu um romancista: Nuno Miranda e que não produziu poeta. Não se fala aqui dos  nomes de António Nunes e nem de Teixeira de Sousa pois que eles foram de uma adesão, é certo, mas   à distância e posteriores, não foram presenciais - embora ideologicamente muito próximos do ideário de «Certeza». Não é por acaso, que no nº. 2 de «Certeza» venha na primeira página, os emblemáticos versos do “Poema de Amanhã” de António Nunes.
Faço-vos aqui um desabafo, uma espécie de confidência intramuros, numa espécie de à parte:
Uma das coisas que sempre me encantou no homem intelectual que foi Arnaldo França,  é  aquilo a que chamarei, para comodidade de expressão: uma modéstia culta, ao falar ou ao escrever sobre si, sobre a produção escrita do seu tempo por exemplo, sobre a  sua participação,  no movimento «Certeza». Creio que ele pertence ao grupo de pessoas de espírito e de mente profundamente cultos e civicamente instruídos que não se deslumbra e por isso  diz as coisas com toda a naturalidade,  com simplicidade, sem necessidade de se pôr em ”bicos de pés” Um encanto! Que infelizmente, hoje está a  rarear ou, mesmo a desaparecer entre a classe dos literatos, pois encontramo-los entre nós, os que se gabam, se citam excessivamente, e se auto-projectam à primeira redacção bem feita. Enfim...  desculpem-me este à parte, que vou fechar não sem antes dizer que o exemplo de probidade e de humildade intelectual de dr. França deviam ser bem seguidos.
Continuando, Nuno Miranda e Arnaldo França – foram de facto, quem melhor consubstanciou - porque o projectaram, e o vivenciaram -  o ideário dos jovens oriundos da academia «Cultivar» e apresentados publicamente na Folha «Certeza». ambos na poesia, e um no Conto e no Romance. Em matéria de análise cultural, literária também se deve destacar o nome de Guilherme  Rocheteau.
Gostaria de distinguir o contista e romancista que é Nuno Miranda e que reflectiu de forma explicita e alongada, no seu romance: «Cais de Pedra» esse ideário “certeziano”. Obra, creio eu que tardiamente publicada. O meu exemplar é de 1989,  publicado pelo antigo Instituto cabo-verdiano do Livro.
Ora bem, dizia eu que o autor  reconstruiu, através dos ambientes mindelenses e dos diálogos das personagens, do seu «Cais de Pedra»  os anos da década de 40. Trata-se de uma ficção em que as personagens  mais intervenientes são «Torna-viagem». Abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que na minha opinião, é na ficção de Nuno Miranda que apareceu pela primeira vez, o «Torna-viagem» como protagonista  da narrativa. Mais tarde, Teixeira de Sousa, retoma esse perfil de personagem no seu romance «Xaguate».  Fecho o parêntesis.            
Para exemplificar, em «Cais de Pedra», o protagonista Guilherme  veio da Argentina, onde fora um emigrante, bem sucedido,  Eduardo  regressa dos Estado Unidos, também bem-sucedido. As falas deles deixam transparecer  o alter-ego, aliás são vários os alter-egos do autor e de alguns referentes reais recortados dentro do Movimento «Certeza». Outras  personagens do romance, regressam também de Portugal, da Europa, todas elas carregadas de teorias desenvolvimentistas e de ideias novas, modernas, ideias que o leitor se apercebe, saídas afinal do programa de «Certeza» e sobre as quais, discutem a sua realização, efectivação em São Vicente, em Santo Antão, nas outras ilhas... Enfim, um romance de personagens em diálogo permanente, que deixam perceber que  as boas ideias, para terem credibilidade islenha, teriam de vir fora e da parte do mundo considerada,  desenvolvida,  industrializada e civilizada... Assim questionam e interagem as personagens do romance, «Cais de Pedra» de Nuno Miranda, cujo conteúdo, terá sido modelado e transfigurado no ideário de «Certeza» que hoje aqui homenageamos..
E  isto aconteceu há 75 anos! Bem hajam os seus fundadores! Bem haja a sua memória!

O Equívoco de Pidgiguiti E a figura de António Carreira

domingo, 24 de março de 2019



Pigikintá…Pinginkinti…Pigingotá…  raio de nome difícil! Ehn!!  -  Que nos idos e agitados tempos dos primórdios da independência  -  nem os então “irmãos” (1974-1980) cabo-verdianos o sabiam pronunciar e muito menos escrevê-lo com alguma aproximação correcta! Por muito que quisessem descrever o conflito laboral que se passou em 1959 na cidade de Bissau, como sendo iniciativa do PAIGC.
Lembro-me então como nos ríamos às gargalhadas quando ouvíamos os políticos locais, com ares sérios e solenes,  falarem ou discursarem (por ocasião do 3 de Agosto) ora de “pindgikiti,” ora de “pindgiguitá” e ora ainda de “pindgigotá”…
 Sim, tão revolucionários e tão conhecedores da gloriosa luta de independência da Guiné e de Cabo Verde, a qual, ufanamente  exibiam à época!  Mas quando chegava a Pidgiguiti, aí, para além de não saberem pronunciar correctamente o nome do cais, acrescentavam  fantásticas e fabulosas histórias, então contadas, na rádio, nos jornais e na voz dos “melhores filhos” leiam-se:  os combatentes vindos do mato e os revolucionários surgidos nas cidades.
Isto, passava-se aqui nas ilhas, após o Movimento dos Capitães de Abril em Portugal..
Na mesma linha, na Guiné, e naqueles tempos - da malfadada unidade Guiné-Cabo Verde, sob a égide do Paigc - na rádio em Bissau, escutavam-se programas e entrevistas com descrições por vezes empolgadas, sobre o triste episódio.
Tudo isto também, porque os combatentes do PAIGC, vindos da Guiné profunda e, particularmente aqueles ligados à antiga  Rádio Libertação, haviam trazido na sua bagagem, uma fita contendo uma espécie de teatro radiofónico que antes passariam na referida Rádio em Conackry.
Ora bem, mal chegados a Bissau em 1974, toca de difundi-lo na rádio Bissau por várias vezes.
Obviamente que houve figuras protagonistas e secundárias)  completamente diabolizadas nessas  -  umas, reais, outras, bem efabuladas  -  narrações radiofónicas, sobre a revolta dos marinheiros em Bissau, há 60 anos ( a 3 de Agosto de 1959) algumas delas, militares e policiais com intervenção directa nos acontecimentos, mas houve também gente, injustamente incluída.
E de entre as figuras injustamente arroladas, e várias vezes citadas no folhetim radiofónico, destaca-se a do  nosso insigne estudioso  etnógrafo, historiador, António Barbosa Carreira (1905-1988).
 Pois é, foi uma das figuras mais diabolizadas nesse imbróglio foi precisamente António Carreira.
Apenas relembrar que em 1959 -Guiné Portuguesa - aí nesse local, o porto, o cais de Pidgiguiti, em Bissau - se terá passado um conflito laboral, sangrento e violento entre marinheiros maioritariamente da etnia mandjaca, ao serviço da Casa Gouveia, e a autoridade militar e policial, vigente em Bissau.
Ora bem, o conflito ,(reivindicação dos marinheiros ao serviço daquela casa comercial) mais tarde, após a independência, ganhou novos e inventados contornos nas reconstituições feitas pelos jornalistas e demais escribas e depoentes ao serviço da nova causa; ao conectá-lo como sendo emanação directa do PAIGC.
Recordo com um rasgado sorriso, a entrevista que ouvi na rádio, desse meu patrício vulcânico (vulcânico mesmo!) nos idos anos de 1974, a tentar explicar ao Jornalista, que ele, Carreira nada tivera com o caso. A determinada altura da entrevista, perdendo um pouco a paciência com as perguntas, um pouco repetitivas que o Jornalista lhe fazia sobre um assunto que pertencera à esfera militar e policial de Bissau, o nosso Historiador;  para pôr termo à irritante, e falsa acusação que queriam sobre ele fazer pender, e a maneira como o Jornalista queria conduzir a entrevista, como se de réu se tratasse, Carreira soltou uma expressão mais forte e a aparentar um “palavrão,” pois que ele não tinha paciência alguma com questões que  considerava idiotas e deu fim à entrevista. Espírito frontal, directo e sem falsos rodeios, assim expressava ele a sua quase sempre, assertiva opinião.
De facto, a entrevista acabou por ser de certa forma, hilariante.
 Creio que, após isso, todos, ou quase todos, mesmo aqueles que injustamente o incriminaram se aperceberam do grande erro cometido. Só que essa gente não conhece a tão bem-vinda e esperada expressão: Pedir desculpas... Sim, comete-se um erro tão grosseiro! e não há um pedido de desculpa ??...
Agora, e um  pouco mais seriamente, convém situar  António Carreira na Guiné portuguesa, onde fez a sua carreira de Administrador de Concelho ou de Circunscrição, no interior daquele país, então denominada Província Ultramarina. Terá chegado uma altura, deduzo, que querendo ir viver para Bissau, ou para a escolarização dos filhos possivelmente, ou mesmo, por cansaço do mato, ou razões outras, deixou a administração civil, tendo passado a ser Sub-Gerente da Casa Gouveia, empresa comercial de muito peso na então Guiné. Sobretudo na comercialização do arroz.
 Mais tarde, A. Carreira, foi arquivista e investigador do então denominado Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, onde fez um meritório trabalho de inventariação, catalogação e de arrumação com metodologia e muito trabalho do vasto acervo escrito aí então existente. Deixou esse precioso legado que eu vi com lágrimas nos olhos, a ser posto na rua (literalmente) em meados de 1975. Possivelmente por mãos e mentes que não sabiam ou, não avaliaram o valor daquilo que estavam a retirar das prateleiras e colocado no chão (sem cuidado) do passeio em frente à porta do aludido Centro, na altura transformado em outro serviço.
Pois bem, continuando, A. Carreira, imagino eu, que terá sido também desses tempos, enquanto ele foi responsável do Centro de Estudos em Bissau - possivelmente um tempo de estudo e de reflexão - a elaboração do seu projecto, mais tarde obras de referência sobre algumas das muitas etnias guineenses, sobre o trânsito esclavagista da chamada costa da Guiné, as migrações e, a formação da sociedade cabo-verdiana. Tudo isto versado em livros, que se tornaram de consulta fundamental para as teses e para trabalhos académicos.
António Carreira, como quadro da Administração Civil da Guiné Portuguesa,  Carreira pôde frequentar a antiga Escola Colonial em Lisboa, mais tarde, nos finais dos anos 50, tornado Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas.
 Fundamentalmente  autodidacta, estudioso empenhado, prosseguiu A. Carreira, ele próprio, a sua formação enquanto etnógrafo e historiador. Simplesmente espantoso!
Carreira também foi orientador de teses de muitos formandos e académicos, mestrados e doutoramentos, daqueles que buscavam na História das antigas colónias portuguesas, temas para os seus trabalhos de fim de curso. 
Nos anos 70, do séc. XX, A. Carreira encontra-se em Portugal, onde, a convite de Adriano Moreira, dá aulas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas, antigo ISCPU.
 Para nós uma enorme admiração! Não é? Mas nestas ilhas havia gente assim, no antigamente da vida... Abro aqui um pequeno parêntesis para estabelecer uma comparação, embora desfasada em tempo, e lembrar  casos similares; de Guilherme Ernesto, de Guilherme Dantas, de  Eugénio Tavares, de Januário Leite, de José Lopes e de tantos e tantos outros que deixaram um legado escrito de incontestável valor para a Literatura e para a História de Cabo Verde e que não possuíam qualquer diploma de estudos superiores!  Eles é que assentaram e fundaram  a sua vasta cultura –através de leituras e de estudos  aturados – nas palavras de Arnaldo França, nas suas «Notas sobre poesia e ficção cabo-verdiana» 1962: “... um aceno de simpatia aqueles que sem um liceu, sem jornais literários, sem rádio, sem cinema, sem viagens à metrópole, deram em seu tempo, uma nota de dignidade e de elevação espiritual à apagada tristeza reinante na pequenez dos agregados urbanos das ilhas.”  Fim de transcrição. Eles criaram o seu próprio saber e o seu invulgar engenho para o difundir e o perpetuar. Fecho o parêntese.
E retomo A. Carreira mais actual, autor de obra importante na historiografia cabo-verdiana, área na qual deixou um vasto legado escrito em  artigos, ensaios e livros. A sua obra mais conhecida e citada é: «Cabo Verde – Formação e Extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878).» 
Nasceu em São Filipe, ilha do Fogo em 1905. Filho de António Carreira e Isaura Barbosa. Casou com Cármen de Medina Carreira, natural da ilha Brava.  Faleceu em Lisboa, Portugal, em 1988. Os restos mortais foram trasladados para a sua ilha natal em 1995.
E com estes apontamentos, termino o escrito, não sem antes deixar ao leitor uma, diria, extensa e ilustrativa biografia de António Barbosa Carreira.
P. S. – As notas que se seguem foram transcritas do “blog” de Jorge Sousa Brito. 
“...Encontra-se sepultado no Fogo. (...). Reformou-se em 1954. Mais tarde, já como investigador de reconhecido mérito, estabeleceu-se em Portugal. Foi, póstumamente, em 5 de Julho de 1994, feito Oficial da Ordem do Vulcão pela República de Cabo Verde. Homem com uma grande curiosidade intelectual, na primeira fase das suas investigações debruçou-se exclusivamente sobre a actual Guiné-Bissau cujas tribos começou por estudar (fazendo uma pesquisa de campo) tendo deixado colaboração dispersa pela imprensa da então colónia. Colaborou também em várias revistas de caracter cultural como Revista do Centro de Estudos de Cabo Verde - Série de Ciências Humanas, Raízes, Ponto & Vírgula, Boletim Cultural da Guiné, Garcia de Orta, Revista Geográfica, Revista Ultramar, Revista do Centro de Estudo Demográfico do Instituto Nacional de Estatistica, Revista de História Económica e Social, Cadernos de Antropologia, etc. Publicou os seguintes trabalhos, na maioria, de carácter etnológico: Mandingas, ed. Cosmos, Lisboa, S/D, 39 p.; Costumes Mandingas, ed. Cosmos, Lisboa, 1936, 28 p.; Vida, Religião e Morte dos Mandingas, id., id., 1938, 46 p.; Mandingas da Guiné Portuguesa, id., id., 1947, 324 p.; Vida Social dos Manjacas, id., id., 1947, 184 p.; Subsídios para o estudo da língua Manjaca, id., 1947, 175 p., co-autor; Mutilações Corporais e Pinturas Cutâneas Rituais dos Negros da Guiné Portuguesa, Bissau, 1950; Movimento Natural da População não Civilizada da Circunscrição Administrativa de Cacheu; Censo geral da População não Civilizada de 1950; O fundamento dos etnónimos na Guiné Portuguesa, (Garcia de Horta, vol. 10, nº 2, 1962); Duas cartas topográficas de Graça Falcão (1894-1897) e a expansão do islamismo no rio Farim, (Garcia de Horta, vol. 11, nº 2, 1963), editado também em Separatas. Agrupamento de Estudos de Cartografia Antiga, nº 6, 24 p.; Contribuição para o estudo das mutilações genitais na Guiné Portuguesa. Do arrancamento da pele dos cadáveres e da necrofagia na Guiné Portuguesa, Lisboa, 1963, in: Estudos sobre a Etnologia do Ultramar Português, Junta de Investigações do Ultramar, Série Estudos, Ensaios e Documentos, nº 102, vol. 3; Antroponímia da Guiné Portuguesa, co-autor com Fernando Quintino, 2 vols, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1º vol. Memória no 49, 1964, 432 p. e 2º vol., nº 52, 1966, 187 p. Depois, voltou a sua atenção para a sua terra natal e seguiram-se então os trabalhos de carácter históricos: Panaria cabo-verdiano guineense, Imprensa Portuguesa, Porto, 1969, 175 p. (2ª ed. do Instituto Caboverdeano do Livro, 1983, 226 p. + 72 extra-textos); As companhias pombalinas de navegação comércio e tráfico de escravos entre a costa africana e o nordeste brasileiro, Imprensa Nacional, Porto, 1969, 565 p.; Cabo Verde-Formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878), Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, Imprensa Portuguesa, Porto, 1972, 580 p. (2ª ed. do Instituto de Promoção Cultural, Praia, 2001, c/ o patrocínio do Banco de Cabo Verde); Cabo Verde - Classes sociais . Estrutura familiar . Migrações, Lisboa, 1977, Edições Ulmeiro, 88 p.; Migrações, nas ilhas de Cabo Verde, Lisboa, 1977, Univ. Nova de Lisboa, (2ª ed. do Instituto Caboverdeano do Livro, 1983, 322 p.) traduzido para o inglês por Christopher Fyje com o título "The people of the Cape Verde Islands - Explotation and Emigration", Connecticut, 1982, (printed in Hong Kong), 224 p.; Notas sobre o tráfico português de escravos, Lisboa, 1978, Univ. Nova de Lisboa, 82 p.; O tráfico português de escravos na Costa Oriental Africana nos começos do século XIX. (Estudo de um caso), Lisboa, 1979, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, série Estudos de Antropologia Cultural e Social, nº 12, 135 p.; O tráfico de escravos nos Rios de Guiné e Ilhas de Cabo Verde (1810-1850), Lisboa, 1981, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 55 p.; Estudos de Economia Caboverdeana, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1982, 344 p.; O crioulo de Cabo Verde - Surto e expansão, edição do autor, Lisboa, 1982, 94 p.; Documentos para a História das ilhas de Cabo Verde e "Rios de Guiné", edição fac-similada, Lisboa, 1983, 306 p.; Cabo Verde. (Aspectos sociais. Secas e fomes do século XX), Lisboa, 1984, Ulmeiro, 208 p. (edição revista e aumentada de Cabo Verde - Classes sociais... de 1977); Os portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900), Lisboa, 1984, ed. do autor, 206 p.; Descrições oitocentistas das ilhas de Cabo Verde, 1987, Mem Martins, Portugal, 276 p.; etc.
• O que se conta desta pessoa. Era conhecido pela familia por Antoninho de Mintinha. Mintinha era a avó Clementina.”
 Fim de transcrição


quinta-feira, 21 de março de 2019

Dada a ocasião – a celebração dos 75 anos do movimento “CERTEZA” – tomei a liberdade de aqui transcrever com a devida vénia à autora, a Jornalista Otília Leitão e publicada por Joaquim Saial no blog. «Praia de Bote», uma entrevista, uma conversa, com um dos organizadores - Nuno Miranda - daquele movimento literário, surgido em Mindelo,  em 1944.
N. B. A entrevista foi feita em 2013. Embora  já com algum tempo, o seu conteúdo, ilustra de forma interessante e viva, o poeta, romancista e crítico literário, Nuno Miranda, nascido em Mindelo em 1924.

Otília Leitão (Jornalista)

Sobre a secretária do seu escritório, onde se resume uma vida, Nuno de Miranda, um cabo-verdiano sobrevivente da revista “Certeza” de que foi co-fundador (1944) e editor do movimento “Claridade” (1936), mostra-me um livro pronto a editar, “Fogo e Alimento” (notas ensaístas), enquanto burila as palavras de um novo romance que começa em Bragança, uma cidade transmontana de que gosta muito e, inevitavelmente, como aliás toda a obra, vai perpassar Cabo Verde.



O escritor, natural de S. Vicente, e que viveu um dos períodos mais agitados da política portuguesa como chefe do protocolo e do gabinete de imprensa do Conselho da Revolução (1976 /79), segue o fio da História, numa conversa que, pela sua sabedoria e lucidez, esmaga os sinais da cronologia do tempo sobre a matéria humana - nasceu em 1924.

Deixa transparecer uma frescura romântica quando, esboçando um sorriso, me aponta na estante: “esta pedrinha (com uma flor em estanho gravada) pertencia ao espólio do antigo jornal “O Século” que comprei à jovem que o vendia e por ela me apaixonei”. Ela é hoje Natércia Miranda, uma distinta médica de saúde pública e que tem também obra escrita na sua área profissional.

Na sua casa, num local calmo da cidade de Lisboa apenas perturbado quando em dias de euforia do futebol no Estádio do Benfica, ali perto, o poeta aceita o desafio de me levar ao imaginário do seu mundo, pela palavra. É português de nacionalidade, a mesma que o arquipélago cabo-verdiano possuía na sua época colonial mas, Nuno Álvares de Miranda, que conviveu numa elite do regime do Estado Novo e prosseguiu na Democracia, é uma evidência de que um ser humano tem múltiplas pertenças.

E é na simbiose de vivências que o poeta revela em toda a sua obra e na sua postura actual a transparência da alma cabo-verdiana, ou seja, a raiz ao espaço telúrico onde está enterrado o seu umbigo. Desde logo, quando se lê “Cais de Ver Partir”, Lisboa, Orion, 1960, o livro que um seu amigo, Alfredo Margarido, levou à editora de Orlando Gonçalves, dono do jornal “Notícias da Amadora” - e o apresentou já publicado, de surpresa. Com esta obra, Nuno Miranda  ganhou o prémio literário Camilo Pessanha em 1961.



Deste livro e, por me parecer profundo e significativo, transcrevo: “Os homens estão cansados/ das suas graves amarras/ são estáticos barqueiros, no seus mares decifrados. Os homens estão cativos/ sem qualquer explicação/ tensos de riba da onda/ vinda rolar do mais longe. Os homens estão ancorados/ em sua nave incorpórea/ o rio ao largo a lembrar/ falas de amor e segredo”.


 
Voltou a ganhar o mesmo prémio, em 1964, com “Cancioneiro da Ilha”, Braga, Ed. Pax, em paralelo com José Hermano Saraiva, o famoso professor que já então se notabilizava em História, distinguido com o prémio “João de Barros” pelo livro “Formação do Espaço Português” (Boletim Geral do Ultramar, Fevereiro de 1964).

Nuno de Miranda foi condecorado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, pelos “serviços culturais” prestados e também pelo Instituto brasileiro de Antropologia da Amazónia. Foi também distinguido pela Academia Brasileira de Letras, pela sua participação na “Palavra de Poeta- África”, um projecto que englobou a faceta “Palavra de Poeta-Portugal” e “Palavra de Poeta-Brasil”.

Considera-se “um conservador” para quem escrever um romance em crioulo é “uma aberração”, pois “apenas será lido a nível interno”, diz. As suas obras são em português, língua que a sua mãe, professora, cultivava com exigência e rigor, proibindo que falasse o crioulo em casa, mas “não na rua”, sorri.

Além da ficção “Cais de Pedra” (1989) e do primeiro romance “Caminho Longe” (1974), o autor possui ainda outras obras, quer em prosa, quer em poesia, sempre incluindo elementos da cabo-verdianidade: “Gente da Ilha”, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1961; “Poema”, in Sul, Florianópolis, 1954; “Recado”, in Cabo Verde, Praia, 1958; “Um poema do Cais de Ver Partir”, in Cabo Verde, 1959; “Crepuscular” in Garcia de Orta, Lisboa, 1961; “O Chá”, in Cabo Verde, 1962.

Ao longo da sua carreira, em cargos destacados do funcionalismo público - talvez o cabo-verdiano que mais alto tenha subido durante o regime do Estado Novo - o poeta sempre escreveu artigos na imprensa portuguesa e brasileira onde enaltecia a cultura cabo-verdiana. Tal se pode apreciar em “A propósito do Pilão”, S. Paulo, 1941, e “A propósito da Hospitalidade cabo-verdiana”, 1961.

Destaca-se um curioso artigo “sobre educação e desenvolvimento em Cabo Verde” (1961) onde o autor dava conta do número de alunos que frequentavam a universidade em Lisboa (34) e criticava o “marcante predomínio pelas profissões ditas clássicas” (Direito e Letras). “Será esta a propensão, aconselhada para o caso de Cabo Verde”, (...) na hora em que se conjugam esforços de realizações que nos dizem serem adequadas para subtrair a nossa terra e o nosso povo aos círculos tradicionais que trazem a marca do flagelo?”, instava, ao mesmo tempo que concluía: “tudo indica que não e o bom senso preconiza o desvio da referida propensão”.

Não contive uma gargalhada quando, desfiando a memória, Nuno de Miranda “me transportou” ao Cais do Sodré lisboeta onde, nos anos 50, vindo de Cabo Verde, foi comprar seis lagostas para oferecer à pessoa que o haveria de encaminhar (Castro Fernandes, administrador do BNU), à sua chegada à então Metrópole, com vista a prosseguir os estudos universitários e arranjar emprego: “trouxe de Cabo Verde esta lembrança do meu tio António, o médico, seu amigo...”, recorda, rindo-se do próprio episódio.

Instalado na capital portuguesa, aqui se licenciou em Letras pela Universidade Clássica de Lisboa, áreas de Filosofia e História, além de cursos de Visualização Artística, na ARCO e de Animação Cultural, em França.

Foi numa das manhãs em que habitualmente passava pelo Palácio Foz, na baixa pombalina, local onde à época se tomava café e lia os jornais, que Nuno de Miranda se apercebeu da importância da sua poesia, através de um homem, que mais tarde soube ser o jornalista e crítico literário Luís Forjaz Trigueiros, que lhe terá perguntado: “Conhece Nuno de Miranda? É que desde 1945 que procuro saber dele, pois Maria Barroso (mulher do ex-presidente Mário Soares, naquela época declamadora) diz poemas dele!”. “Fiquei surpreendido ao saber que sou o primeiro poeta cabo-verdiano a ser declamado e disse: Sou eu!”.

E foi nesse deambular pelos centros de tertúlia da cidade que conheceu personalidades com relevância em diversas áreas do saber. E foi através do professor Almeida Lessa que chega ao professor Adriano Moreira e este o admitiu na Junta de Investigação Científica do Ultramar onde esteve entre 1958 a 1973.

Na sua sala de estar, de onde se avistam verdes campos de ténis, e onde passa grande parte do dia, pela melhor acessibilidade à musica e à televisão, são visíveis as fotos de família do casal. Dos seus ancestrais, lá está a sua mãe, Maria Amélia (em honra da Rainha D. Amélia), neta do seu bisavó originário de Loulé, Algarve.

Foi dela que herdou uma cultura pela qual sempre se sentiu fascinado. “Um dia, lá em S. Vicente, o Eduíno Brito Silva, chamou-me, aos gritos, para ver umas coisas que tinham chegado de barco... Fiquei deslumbrado quando ele me pôs a ouvir as fadistas Amália Rodrigues e Fernanda Baptista. “Decidi que queria viver em Lisboa...”, mas tinha apenas o sexto ano e para prosseguir os estudos universitários era preciso o sétimo ano, recorda o escritor, cuja força anímica o fez completar o grau necessário, em apenas quatro meses. E, quando pensava estar pronto para viajar para Lisboa, a família colocou-o no Banco Nacional Ultramarino, no Mindelo, em Cabo Verde.

Do seu pai, João Baptista, que veio para Lisboa aos nove anos para estudar e mais tarde foi para a Guiné, Nuno de Miranda guarda a herança crioula. “Vivíamos bem em Cabo Verde, mas o sonho era Lisboa e isso só foi conseguido, um tempo depois, mediante uma troca com outro funcionário”.

Com uma vida muito preenchida ao longo da história, ingressou na Direcção Geral de Comunicação Social como consultor em 1966, na qual, três anos depois, foi Chefe de Secção de Realizações Artísticas, lugar de grande satisfação por se relacionar com a arte através de congressos e exposições que organizava.

Em 1984 foi a Mindelo e Praia para apresentar a 1ª exposição de Gravura Portuguesa Contemporânea, em que pela primeira vez Cabo Verde pôde ver trabalhos de Júlio Pomar, António Quadros, Maria Keil, Nikias Skapinakis, Júlio Resende, Grechem Wohlwill, Sá Nogueira, Maria Velez, entre outros. Para assinalar o doutoramento Honoris Causa do então ex-presidente senegalês Léopold Sédar Senghor, na Universidade de Évora, organizou a exposição de Literatura afro-lusa.

Nuno de Miranda organizou colóquios com estudantes cabo-verdianos e lê-se no Boletim de Cabo Verde de Março de 1960 que “aproveitando a passagem por Lisboa a caminho de Angola do Dr. Júlio Monteiro, para assumir o cargo de Intendente Administrativo, Nuno Miranda fez reunir a 23 de Fevereiro desse ano, num dos anexos do centro de Estudos Políticos e Sociais (...) estudantes universitários e mais elementos da colónia cabo-verdiana, para serem informados de alguns aspectos da vida actual do Arquipélago”.

Jornalista na televisão e Emissora nacional, foi demitido de redactor do Telejornal (1973) tendo a PIDE (polícia política do regime de Salazar) posto um carimbo no despacho de demissão: “inconveniente o seu ingresso nos quadros”.

O poeta soube do “25 de Abril”, revolução que derrubou o regime ditatorial em 1974, quando vinha da sua casa em Cascais para o Palácio Foz, percurso que estranhou nessa manhã estar deserto. À sua chegada, num carro Mercedes, foi surpreendido com gritos chamando-lhe “fascista!”. Lá dentro foi informado pelo director de que tinha havido um golpe de estado.

Depois da designada “revolução dos cravos”, - pelos milhares de cravos vermelhos que circulavam de mão em mão, símbolo da liberdade - Nuno de Miranda foi chamado, em 1976, para o Conselho da Revolução, a convite de Almeida Santos para trabalhar com o capitão Sousa e Castro, que era na altura chefe dos serviços de extinção da PIDE, e em comissão de serviço, foi Chefe do Gabinete de Imprensa e do Protocolo até 1979. Reformou-se do Palácio Foz, de que era quadro da Direcção Geral de Comunicação Social, no início dos anos 90.

Nuno de Miranda nunca faltou ao trabalho e, de 1984 a 1989, obteve cada ano, como funcionário público, a qualificação de “Muito Bom”. Hoje continua apaixonado pela escrita.

No final de uma conversa pela tarde dentro, na Sexta-feira Santa, aceitando um chá preparado pela sua mulher, fiquei a saber que a filha Joana e o genro do casal, estavam a aprender crioulo. Achei curioso e exclamei: uma herança do pai, provavelmente! Fixei, nesse momento, o poeta e li-lhe aquiescência no brilho do seu olhar!

E então? Não se inferem consequências??...

sexta-feira, 15 de março de 2019


Vem isto a propósito do recente incidente – de muito mau gosto, diga-se de passagem – entre o Parlamento cabo-verdiano e a CEDEAO, por causa da deslocalização súbita, e quase sobre a hora, de eventos parlamentares dos Estados membros da organização regional aqui referida, previamente acordados para a ilha do Sal e ... “sens mobile apparent” “transferidos” para Dakar.
Ora bem, o Presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde considerou, e bem, a atitude da CEDEAO como hostil, altamente deselegante e incorrecta para com Cabo Verde.
Toda a razão, senhor Presidente! Não podíamos estar mais de acordo. Mas, pensamos que é tempo de retirarmos consequências dessa boa caracterização comportamental que fez da CEDEAO, tanto mais que não se trata de um caso virgem e isolado de tratamento indigno e desrespeitoso.
O Senhor Presidente da Casa parlamentar cabo-verdiana é um político muito experimentado e bastante sagaz, temos a certeza,  que fez a hermenêutica (política) da mensagem da CEDEAO e sabe que as suas contundentes e oportunas  palavras – que se confundem com as de uma Nação profundamente indignada e ofendida – não terão qualquer eco, nem qualquer consequência que não seja a satisfação de expressar os nossos sentimentos.
Sem querermos adiantar quaisquer conclusões – suas, do Governo ou do nosso Parlamento –perguntamos:
Será que nos querem dizer que não nos querem no clube? Será que eles nos estão a solicitar que nos retiremos de motu próprio como Estado membro porque não somos desejados?
Se sim, porque continuamos a fazer de desentendidos? A esbracejar e a perorar como pedintes e a espera de mais ultrajes e humilhações para tomar uma decisão? Quais as vantagens de pertencer a um conclave que de desenvolvimento económico como aponta a própria sigla, nada tem? Que apenas se limita a gerir, e muito mal, conflitos na região, por vezes com  parcialidade óbvia de acordo com esconsos interesses.  Então, digam-nos: o que faz Cabo Verde no meio disso?
Estas ilhas atlânticas merecem melhor sorte do que pertencer à C_ E_D_E_A_O...
Já é mais do que tempo de colocar um ponto final a semelhante patrono.

A Falácia das notícias falsas. Desculpem, da desinformação.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Foi publicado no “Jornal de Letras” nº 1259 (de 2 a 15 de Janeiro de 2019) um Caderno intitulado “Fake News - A Verdade da Mentira” com uma série de artigos de especialistas da área da comunicação. Desses artigos escolhemos um, que, com a devida vénia, a seguir transcrevemos, cuja abordagem nos parece interessante por “refutar” a existência das chamadas “notícias falsas”.

Por DORA SANTOS SILVA*

No dia 22 de Novembro de 2018, o Diário de Notícias relatava a “volta ao mundo” de uma fotografia verdadeira que se tinha tornado uma mentira. Era verdadeira, porque mostrava uma mulher sem-abrigo a dormir com uma criança na rua pedonal de Sainte Catherine, em Bordéus. A mentira começou, porém, no momento em que pessoas de todo o mundo se apropriaram daquela fotografia e lhe deram um novo contexto nas suas redes sociais, consoante a mensagem que queriam partilhar: irlandeses usaram-na para denunciar a situação dos sem-abrigo daquele país; ingleses aproveitaram-na como mote para disseminar ideias xenófobas. Notícias falsas? Não.
A descontextualização de imagens não surgiu em ambiente digital e muito menos com as redes sociais. Está na publicidade, na educação, no quotidiano, nas relações sociais e também no jornalismo. Surpreendemo-nos com a própria surpresa de turistas que chegam a Portugal e não vêem as velhinhas de preto adornadas com bigode a passear na Avenida da Liberdade. Associamos o continente africano somente a violência e a crianças em sofrimento, porque foram essas as imagens que percorremos nos livros de História do ensino secundário. Vemos, vezes sem conta, os mesmos planos de enquadramento nos noticiários televisivos para representar a época natalícia ou uma fotografia que facilmente se vê ser dos Alpes Suíços para anunciar um nevão na Serra da Estrela. Notícias falsas? Não.
Esta é a própria essência da imagem enquanto representação do mundo ou enquanto cultura de simulacros e simulações, como diria Jean Baudrillard. O problema começa quando a imagem constrói uma realidade muito diferente da que existe, contribuindo para a percepção de um mundo ficcional. Notícia falsa? Não.
Tal como as imagens, a informação que os media veiculam também constrói um mundo que pode ser mais ou menos aproximado da realidade (basta confirmar a diferença entre o alinhamento editorial de um meio de comunicação social dito sensacionalista ou de outro dito de referência). E, por isso mesmo, por esta responsabilidade tão grande de construir o mundo percepcionado pela população, os jornalistas encetaram um compromisso há pouco mais de 200 anos com o próprio mundo: guiarem-se pela verdade, pela transparência e pela objectividade (na medida do possível). E esse elo de confiança – a sua representação – foi apelidado de notícia. Notícia falsa? Um paradoxo.
Qualquer pessoa pode usar imagens, vídeos e palavras para representar um mundo que não existe, na ficção, na publicidade, na imaginação… O problema começa quando essa representação ganha o apelido que por várias gerações esteve ligado a confiança, transparência e verdade: o apelido de notícia. É por isso um paradoxo a utilização da própria expressão “notícia falsa”, cuja disseminação só aumenta a percepção errada de que as notícias podem ser falsas e de que o jornalismo quebrou a confiança com os seus utilizadores.
A Comissão Europeia insiste, e muito bem, no uso do termo “desinformação” (misinformation no original) para designar qualquer informação falsa ou incorrecta disseminada com ou sem intenção. É um termo muito mais apropriado ao que se passa, ao mesmo tempo que protege o legado da palavra “notícia”. E, se pensarmos bem, não foi com notícias falsas que Trump ou Bolsonaro foram eleitos; não foi com notícias falsas que as campanhas de comunicação negras mais célebres arruinaram uma marca ou personalidade. Foi, sim, com desinformação.
As mentiras mais eficazes baseiam-se, de certa forma, numa potencial verdade. Investigadores da Universidade de Yale concluíram num estudo publicado em 2018 que basta uma exposição a uma “notícia falsa”, ou, melhor, à desinformação para criar uma verdade “ilusória”. O ingrediente é ter um certo grau de plausibilidade e verdade ou a capacidade de legitimar as nossas crenças, preconceitos e histórias de vilões e heróis com as quais crescemos.
A fotografia da mulher sem-abrigo a dormir na rua de Bordéus não é falsa – nem “deepfake”. Mas a sua reapropriação com diversas intenções – boas ou más – é, sim, um caso de desinformação. As imagens escolhidas para representar diversas realidades nos manuais de ensino não são falsas; poderão sim, ser fruto da própria ignorância de quem as escolheu. Os planos de enquadramento utilizados vezes sem conta pelos jornalistas para representar uma realidade não são “notícias falsas”, mas acabam por ser um caso de desinformação na maioria das vezes sem repercussões negativas (embora o seu uso exagerado e aleatório também contribua para meter os jornalistas nesta parada).
Os diversos casos de desinformação grave (infelizmente, muitos) da responsabilidade dos jornalistas são fruto de pressões, incompetência e má formação, mas não podem ser equiparados aos milhares de bots que actuam nas redes sociais com intenções precisas ou dos humanos que nos vendem “gato por lebre”. São igualmente graves, claro – ainda mais, porque quebram a confiança que neles depositamos -, mas devem ser resolvidos noutra arena.
O poder de moldar a forma como vemos o mundo ou, pelo menos, de criar a vertigem diária do sentimento “isto pode ser assim” ou “eu podia ser assim” era usado desde sempre por poucos; hoje por qualquer um com boas ou más intenções, com falsidades ou factos alternativos, com verdade ou pós-verdade. Mas, por enquanto, tirem as “notícias” desta equação.

*In Jornal de Letras – Professora do departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, com especialização em media digitais.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações
Por Nuno Pacheco*
Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar. Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por “BBB” (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto. Sobre a Bíblia há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.” O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos. Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado: “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259): “Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração grecoromana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.” É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade? Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente...” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (...) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.” É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim...” Infelizmente não é.
*Jornalista. In “Público” de 14.02.2019

A Ofensiva dos “Melhores Filhos” e a Cumplicidade dos “Filhos Pródigos” e “Adoptivos”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019



O respeito pela dignidade, pela diferença, pelas instituições e pelo primado da lei são indicadores essenciais para uma primeira abordagem sobre a saúde de uma democracia.
Hoje proliferam as chamadas “fake news” (notícias falsas). Alguns estudiosos sobre este assunto dizem que não existem “fake news” e que as situações a que dão esse nome deviam ser designadas por “misinformation” (desinformação), o que é bem diferente.
Há quase três décadas que o período de 13 a 20 de Janeiro é marcado no nosso calendário político recorrentemente por uma narrativa histórica efabulada e hiperbolizada que de forma calculada, estudada, visa efeitos bem definidos, ao fugir deliberadamente da verdade dos factos e se situar no domínio, não das “fake news” mas das “misinformations”, da manipulação da informação, com a intenção expressa de reescrever uma suposta História “gloriosa” do nosso País, curiosamente, vivida e ocorrida na Guiné- Bissau, como se de acerca de um corpo expedicionário, devidamente mandatado, se tratasse.
Amílcar Cabral (AC), o centro nevrálgico de toda a narrativa, a trave mestra de toda a trama, o instrumento necessário e indispensável para a credibilização da narrativa, é, bizarramente elevado ao estatuto de fundador de uma nação – a nossa – que já existia uns séculos antes do seu nascimento. Ele que, por razões tácticas, estratégicas ou outras, nunca se considerou cabo-verdiano, não obstante ter usufruído durante toda a sua vida académica de uma bolsa de estudo destinada aos “naturais da Província de Cabo Verde”, pelos vistos “indevidamente”. (Vide Daniel dos Santos in Amílcar Cabral – Um Outro Olhar).
Considerar AC o fundador da nacionalidade cabo-verdiana seria (ou é), de uma certa forma, como se alguém tivesse a ideia patética e estapafúrdia de considerar Ben Gurion o fundador da nacionalidade judaica. O mesmo não acontece com a Guiné-Bissau em que, por via da luta para a independência se deu início a um processo liderado por AC de formação de uma única Nação através da unificação das quase três dezenas de nações (Vide Ruth Benedict – Padrões de Cultura) existentes no território, aliás, um dos parâmetros conducentes a considerar a “luta da Independência”, sobretudo em África, também um acto de cultura.
E nesta obsessão de fazer de Amílcar Cabral o fundador da nacionalidade e para dar alguma consistência a este desiderato, chega-se a forjar a sua própria naturalidade, como se esta – a naturalidade – fosse algo que se outorga ou se herda.
Abrindo um pequeno parêntese clarificador, convém aqui referir que Amílcar Cabral, natural de Bafatá - Guiné, viveu apenas dez anos em Cabo Verde: três (2 + 1) anos na Praia, terra da mãe – Iva Pinhel Évora – e sete no Mindelo, para onde a mãe se mudara para o acompanhar nos seus sete anos do Liceu Gil Eanes. Depois de terminar o curso em Portugal, na viagem para a Guiné com escala na Praia, sequer saiu do barco para se encontrar com familiares e eventuais amigos, tendo preferido ficar a bordo onde recebeu a visita do Dr. Arnaldo França, seu antigo condiscípulo do liceu.
Fechando o parêntese e retomando o assunto, a gravidade da questão não reside apenas na exaltação da figura de AC que é apenas um meio, mas na investida de impor a sociedade cabo-verdiana uma História que não é a sua e ao Estado uma ideologia (que a Constituição proíbe), com recomendações várias de a alargar e perenizar através das nossas escolas e de todo o sistema educativo. Não tem faltado incursões pelas Escolas e produções literárias de cariz paigcista panegíricas.
Este ano de 2019 foi particularmente prenhe de ofensivas feitas pelo PAIGC cabo-verdiano de consolidação da sua estratégia de fagocitar o “novo” MpD e dominar todo o aparelho do Estado impondo a sua idiossincrasia política, a sua ideologia.
A ofensiva paigciana chegou ao desplante de assumir, em alguns casos, a paternidade do 13 de Janeiro – data da nossa autodeterminação, isto é, da conquista da nossa liberdade e da nossa democracia – considerando-o uma ocorrência menor, e subordinando-o à “nossa” independência sob a égide de um Partido que não foi só autoritário e repressivo como foi manifestamente hostil à uma importante parte da nação cabo-verdiana – a emigração – que tratou de a ampliar com a criação de uma verdadeira diáspora política.
O 13 de Janeiro, ao contrário, é uma data de liberdade e de democracia de todos os cabo-verdianos – dentro e fora do País – e não apenas de alguns, de uma parte, de um Partido restrito a um pequeno território.
Mas tudo vem sendo possível graças ao “Pacto da Cidade Velha” que impôs o silêncio sobre a Ditadura do Partido Único ao mesmo tempo que facilita e promove a reelaboração – reconfigurando-a – de uma História com base nela.
Nesta movimentação não faltou a cumplicidade de importantes figuras do Estado e da sociedade política que tendo sido outrora maltratadas e escorraçadas do seio dos “melhores filhos” para eles regressam hoje quais “filhos pródigos” na ânsia de recuperar um lugar na História reconfigurada e reescrita na qual vêm participando activamente.
A vontade de agradar e de se subordinar é tanta que hoje, de entre outras coisas, determinados actos particulares e partidários da esfera do PAIGC ou de inspiração paigciana foram trasvestidos, com pompa e circunstância, em cerimónias e celebrações de Estado.
Encontram-se ainda em várias Repartições e, ao que se diz, até no Palácio, retratos de Amílcar Cabral. E a verdade é que ele não consta em nenhuma linha ou página da nossa Constituição. Em suma: Ele não é figura do Estado, o que não quer dizer que não seja da História…
Por este andar, com a manipulação, a formatação e a subordinação do Sistema Educativo bem como um certo desleixo ou desconhecimento de alguma comunicação social, não tarda muito que tenhamos uma espécie de “União Nacional” como metáfora de partido único a comandar os nossos destinos.
O que se está a passar na nossa sociedade política é simplesmente inqualificável. Mas que ninguém tenha dúvidas: Conseguido o objectivo o “Pacto” será desfeito.