O livro é na escola: leitura e escrita no reino digital

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Por António Carlos Cortez*
A reboque de um recente programa da RTP, o Prós e Contras, em que o tema em destaque era a educação face a um novo paradigma pedagógico assente nos multimédia, creio ser oportuno deixar aqui alguns princípios dos quais a escola actual não poderá abdicar se quiser resistir contra aquilo a que, noutras ocasiões, tenho designado por “ditadura do banal”. Havendo alguns projectos de ensino cuja novidade pode fascinar quem se deixe iludir pelas propostas sempre moderníssimas neste reino de boas intenções que é a educação, confesso não partilhar do espanto e desse fascínio. Quando me falam de salas de aula onde há computadores pergunto-me sempre onde ficam os livros.
São muitas as razões que levam a que directores de escola e corpo docente acreditem que permitindo o acesso aos suportes informáticos (do iPhone ao tablet e outros de inúmera forma e feitio) as aprendizagens se consolidam. O primeiro argumento que usam é a esgotada crença de que, desse modo, os mais jovens ficam como que implicados e motivados para os conteúdos em presença. Não estou seguro de que assim seja. Se, num primeiro momento, a novidade do uso dos multimédia pode dar a impressão de que, na aula, serão novas e profundas as aprendizagens, a verdade é que as lições de Heidegger, ou de São Basílio de Cesareia, continuam vivas e actuais. No contacto com o texto é que o aluno pode descobrir universos de linguagem insuspeitados. Nada se pode comparar, em concentração e exigência, à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às “luzes impuras” da língua técnica. E, para que a História nos auxilie, recorde-se que os totalitarismos trazem sempre consigo o império da técnica, o léxico do empreendedorismo.
Queimar os livros ou, como hoje, querer reduzi-los a mera curiosidade de museu, isso mostra os caminhos sem retorno de regimes que, a pretexto da inovação, apagam a memória e a espessura cultural de que o humano tem de ser feito.
Byung-Chul Han, num livro essencial sobre este assunto (No Enxame — Reflexões sobre o digital, Relógio d’Água, 2016), considera, e bem, que nesta “sociedade do cansaço” que é a nossa, a circulação rápida das informações acelera, para além do capital, o modo como o sujeito pós-moderno (um projecto, mais que um sujeito, diga-se) se deixa penetrar por uma massa não filtrada de informações (as stormshits). Não raro esse dilúvio informativo é responsável pelas IFS (Information Fatigue Syndrom). Paralisia da capacidade analítica, ansiedade, incapacidade de assumir compromissos, foi David Lewis quem, em 1996, provou que esta doença psíquica deriva numa incapacidade de pensar. “O excesso de informação conduz à atrofia do pensamento”, dizia Byung-Chul Han.
Ora, uma escola que se transforme num lugar onde o pensamento é substituído pelo permanente fluxo de ícones é uma escola que despreza o seu passado e ignora a importância da palavra. Isto é: da linguagem. E não é disso mesmo que os professores hoje se queixam? Seja em que grau de ensino for, não estamos perante crianças e jovens, alunos do 1.º, do 2.º ou do 3.º ciclos, e do secundário, ou até mesmo na universidade, incapazes de seleccionar informação, de relacionar conceitos e factos? Não é evidente para quem lecciona que, desde há uns bons 15 a 20 anos a esta parte, os mais jovens carecem de um vocabulário alargado? Não é verdade que os textos expositivo-argumentativos, insertos no Exame Nacional de Português, põem a nu as fragilidades dos nossos jovens no que respeita ao saber histórico-cultural e à redacção de um discurso lógico? Os exemplos que elencam, na maior parte dos casos, não são simplesmente casos pessoais, redundando ora na superficialidade, ora no tom opinativo? Sem hábitos de leitura de textos de teor crítico-ensaístico, sem capacidades de inferência, sem o domínio dos mecanismos de coesão e coerência, e sem domínio referencial, não vemos o modo como falam e escrevem na escola e na universidade? Não é tudo isto verdade? Ainda mal. É precisamente por isto que o computador em sala de aula deve ser usado com parcimónia e bom senso.
Nada se pode comparar à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às ‘luzes impuras’ da língua técnica
O paradigma de uma sociedade transparente, em que o privado tem de ser mostrado pois só assim se julga estarmos a fazer democracia, esse é um modelo erradíssimo quando aplicado à pedagogia e à vida social no seu todo. “O aumento da informação não é suficiente para esclarecer o mundo”, diz o filósofo sul-coreano, acrescentando: “A fadiga da informação é também responsável por sintomas que são característicos da depressão. A depressão é [...] uma afecção narcísica. É uma relação excessiva e patologicamente investida do indivíduo consigo próprio [...]. A percepção do sujeito narcísico-depressivo capta apenas o eco de si próprio [...]. O mundo surge-lhe como reduzido a variantes da sua pessoa.” (p. 75).
Pois não é justamente esse naufrágio em si próprio que vemos acontecer a muitos dos nossos alunos, os quais não viveram na escola senão a mesma ideologia da estupidificação que vivem, em regra, no seu quotidiano? Que utopia existe na escola? Que ideal educativo? Que programa cultural pode elevar o nosso ensino a mais que a famigerada finalidade oca dos exames? As redes sociais, do Twitter ao Facebook, agudizam essa visão de mundo dependente de uma falácia perigosíssima para a educação: aceitar que a escola, para ser sedutora, deve reproduzir a sociedade digital que a rodeia. As massas de dados com que os alunos e professores, reféns desta ideologia do psico-poder, terão de lidar eclipsará o conhecimento (capacidade de análise), e pode mesmo minar a Democracia. Transformadas as instituições em lugares onde ao spectare latino (”spectare” é olhar para trás, pressupondo uma compreensão do tempo, da durée e da lentidão na leitura e na escrita) se sobrepõe o espectáculo, que escola é a nossa? A relação pedagógica deve estar ancorada naquele respeito (respectare) que eleva o aluno a um patamar de sujeito construtor de conhecimento. Quando a escola aposta no sujeito transformado em projecto cai-se na escola-espectáculo: digresssiva, ululante, sem um horizonte a que apontar e de que a civitas e não o sucesso deveria ser o farol. A escola, como outras instituições, sem respeito, decai e “Uma sociedade sem respeito desemboca numa sociedade do escândalo” (Han, 2016:13).
É por isso que o livro e a leitura e a escrita não podem ser postos de parte. As formas electrónicas devem estar ao serviço do livro impresso e da redacção. Ler implica anotar e sublinhar; exige tempo. Escrever é o fruto de um silêncio contemplativo (à letra: “Construção do tempo”) e é disso que a escola necessita: de tempo para ler e comentar por escrito; pensar a linguagem literária e transferir o saber literário para um discurso científico. Nessa aliança, a criança e o jovem não necessitam do computador em sala de aula, meio da excitação permanente dos sentidos, mas inimigo do Belo e da Consolação pelo Belo a que Steiner se tem referido. A perenidade do livro permanecerá, não duvido. O livro e a leitura da sintaxe e semântica de um dado idioma, é isso mesmo que pode impedir que o Mal da Banalidade vença a guerra da educação — nunca uma escola pensada para o imediato vingou. A leitura lenta e expressiva de um poema de Camões, a leitura comentada de um ensaio sobre a filosofia ou os belíssimos escritos sobre ciência e humanidades em Hegel ou Oppenheimer, em Einstein ou em Bento de Jesus Caraça, mesmo a análise de uma equação, não exige tudo isso ponderação e silêncio? Uma sala de aula com mil e um ecrãs... isso é convidar à indigência. A coacção do Google Glass elimina o respeito: essa distância sedutora que o aluno sente quando está perante o professor que ama os livros e não os ridiculariza em nome de qualquer espectáculo.
* Poeta, crítico literário e professor
(Público de 24.Jul,2019)


O Drama africano dos Meninos – Soldados

terça-feira, 16 de julho de 2019



Terminei recentemente a leitura do romance «Alá Não É Obrigado»* do escritor marfinense Ahmadou Kourouma.

Num resumo muito breve direi que a narrativa tem como protagonista um menino-soldado de “10/12 anos” de idade, Birahima, assim se apresentava ele. É que a mãe lhe dizia que ele tinha dez anos, mas a tia com quem ficou após a morte da mãe, acrescentava-lhe mais dois anos à vida.

É através do olhar arguto e perspicaz desta criança narradora portadora de uma linguagem madura e já sarcástica, incomum na sua idade -  criança que não teve tempo, nem direito de saber o que era a infância -  que o leitor vai percorrendo a história das guerras tribais violentas e dos não menos violentos golpes de estados em três países da costa ocidental deste Continente tão massacrado pelos seus. Ora em nome próprio, ora sob disfarçados e perigosos nacionalismos a roçar o que de mais ignóbil possui o sentimento tribal.

Ora bem, Birahima, o nosso narrador, sai da aldeia à procura da tia que supostamente estaria na Libéria. A longa caminhada, revela-se cheia de ciladas, para as quais, ele tudo faz para sobreviver e assim conseguir lograr o objectivo pretendido.
Segue por intermináveis regiões, acompanhando um grande “mago,” de nome Yacoube que de certa forma o protege. Tal como Birahima, embora em versão adulta, Yacoube também quer é sobreviver às balas. Deseja agradar os senhores da guerra; obter sustento; fugir aos esquartejamentos, aos fuzilamentos e  às mortes violentas que eram o dia-a-dia dos territórios percorridos por estas duas personagens.

O mago ou, o grande feiticeiro Yacoube, nos serviços que presta a diferentes chefes, vaticina-lhes quase sempre sucessos nos campos de combate, com glórias futuras e promessas de que será  - de acordo com o chefe  para quem trabalha na ocasião - o comandante máximo do país ou, mesmo da zona, quando se trata de extensa região rica e aurífera. Regra geral, o vaticínio saía mal. Ameaçados de morte, os dois companheiros, Yacoube e Birahima fugiam “a sete pés,” a cada logro descoberto.

Neste percurso de andarilho e bem errante, Birahima vive peripécias infernais em três países, a saber: Costa do Marfim, Serra Leoa e Libéria. Serve a vários senhores, quase todos eles comandantes das guerras intestinas. Pertence como soldado a muitos chefes tribais; participa em combates, como menino-soldado em diferentes exércitos, ao lado de crianças como ele, também meninos-soldados que matam e morrem por causas que eles desconhecem.

 No fundo, só assim ele conseguiria sobreviver (a razão de ser de tudo por que passou) para se encontrar finalmente com a tia, a única pessoa que poderia cuidar dele, menino órfão... Enfim, veremos se tal sucede...

Neste romance, o leitor é confrontado lado a lado com a ficção e com a história real da década de 90, a última do século XX, dos três países mencionados em que a violência, as intrigas, as perseguições, as feitiçarias, tudo isso intrincado numa rede fortíssima de ambições desmedidas dos dirigentes no poder e, daqueles que os combatem  e que querem apoderar-se-lhes do assento.

 Lemos no livro,  nomes reais  -  pois que eles estão no cerne dos conflitos - nomes como  Capitão Taylor, Príncipe Jonhson, Samuel Doe, para além de outros líderes da história recente de África, promotores  igualmente de muitos horrores, no espaço da narrativa onde circulam. Ora com chefes poderosos, ora como derrotados e massacrados pelos rivais.

A última parte do livro transforma-se numa autêntica crónica histórica.
A linguagem e o tom da narrativa estão conformados em humor, em ironia e em sarcasmo.
Há aparentemente, na voz do narrador, uma certa displicência humorística na arte de contar a sua história, e nota-se-lhe alguma frieza cautelosa, estudada, mas crente, na sua relação com Alá.

 Afinal, considera ele  que  “Alá não é obrigado” a socorrer a tudo o que lhe sucede de errado na vida, enquanto menino-soldado e, muito menos, responder aos apelos constantes invocados nas orações e/ou nas bruxarias dos comandantes de uma guerra ou, de várias guerras, muito más e sem fim à vista.

E nisto reside o encanto da narrativa, a sua linguagem ricamente irónica. 

Sem dúvida que o autor escolheu assim, a via menos penosa, menos “real” mais evasiva, para falar de violência e para colocar o leitor perante o drama.
Assim realizado, a leitura do livro «Alá Não É Obrigado» é empolgante até ao desenlace do enredo.

 Sobre «Alá Não É Obrigado» podemos falar em romance pícaro. Sem dúvida que isso cabe também na obra. O ardiloso, a astúcia, a velhacaria e mesmo a vilania, estão bem presentes em cada linha do livro e em moldes demasiados reais.

Para finalizar, transcrevo um trecho da apreciação crítica feita ao livro, pelo “Le Nouvel Observateur:” Uma fábula política, a um tempo divertida e feroz, destinada a figurar entre os grandes clássicos da literatura africana.”

*«Alá Não É Obrigado» edições ASA literatura.
 Porto, Portugal 2003.

Capitães, navios, viagens e naufrágios na escrita de Teixeira de Sousa - Cem anos sobre o seu nascimento -

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Estamos no ano da comemoração do centenário do nascimento do médico, escritor e ensaísta Teixeira de Sousa (1919-2019).
Abro aqui um parêntese para uma nota pessoal e dizer que Teixeira de Sousa é um dos meus escritores de eleição, no que toca à escrita literária cabo-verdiana. Volta e meia, apanho-me a revisitar alguns dos seus ensaios, romances e contos. Creio ter   lido a quase totalidade dos seus escritos ficcionistas e os seus artigos, publicados em jornais e revistas. Isto apenas para dizer que sou leitora aficionada da obra de Teixeira de Sousa. Fecho o parêntesis.

Nesta linha de interesse, igualmente tenho-me debruçado em  análises, sobre alguns romances e contos de T. de Sousa,  em textos dispersos, não só neste «Blog», mas também  em outras publicações e em intervenções públicas.
E já agora uma pequena nota/aviso: o leitor interessado encontrará no Boletim Cabo Verde (1949-1964) e no Jornal Terra-Nova, um acervo significativo de textos ensaísticos de Teixeira de Sousa.

Portanto, é bem provável que me repita nesta evocação em termos de apreciação deste grande escritor de formação ainda Claridoso (1936) e em transição para a geração da «Certeza» (1941).

Sobre o modelo de escrita literária de Teixeira de Sousa, torna-se importante sublinhar também, a influência do movimento  literário português denominado neo-realismo que estava no auge, precisamente, aquando da estada - estudos universitários de medicina 1938-1945 de Henrique Teixeira de Sousa em Lisboa -  e que são de recorte muito acentuado na sua obra, com especial destaque para os Contos (leia-se a colectânea: «Contra Mar e Vento»).

É que concomitantemente à sua vida de bom estudante universitário, Teixeira de Sousa participou também - durante a permanência em Lisboa - em tertúlias literárias, em que pontuavam nomes grandes do movimento, tais como  Fernando Namora, Cardoso Pires, João Cochofel, Mário Dionísio, entre outros famosos escritores da altura.
Convém dizer que muito  do que  aqui vai registado foi antes confirmado pelo próprio escritor que ao ensaísta francês Michel Laban, o autor concedeu uma  grande entrevista, inserta no volume I de «Encontro com Escritores» editado pela Fundação Eng. António de Almeida, Porto,1992. 

Médico de profissão, o Dr. Henrique Teixeira de Sousa viu a luz do mundo, a 6 de Setembro de 1919, no pequeno povoado de São Domingos, na Freguesia de São Lourenço na ilha do Fogo.

Os progenitores do nosso escritor para que os filhos fizessem a Instrução Primária,  a família transpôs-se para a cidade de São Filipe, sede de Concelho e da ilha e onde se sediava a Escola.

A propósito da sua fase de aluno do ensino primário,  na cidade de São Filipe, Teixeira de Sousa relembra com carinho a figura da sua professora, a foguense Irene Vasconcelos Barbosa, num dos muitos artigos escritos para o Jornal «Terra Nova».

Igualmente a figura de professora é evocada e transfigurada em personagem de alguns Contos do autor, com destaque para o Conto «Dragão e Eu» quando, e já com saudades, o protagonista termina o 2º Grau da Instrução Primária:

“ A escola! Não me queria convencer de que tudo tinha acabado. Não mais as lições em classe e as brincadeiras de roda da palmeira. Não mais os livros de leitura com trechos bonitos que eu lia em voz alta. «Marília e Gonçalves passeavam numa tarde, à beira do rio, quando Marília se descuidou e caiu à água. Gonçalves atirou-se ao rio, salvando Marília de correr afogada.»
Era um mundo de coisas belas (...) A professora falava com brandura e ensinava sem bater.”  (In: Contra Mar e Vento, pág. 46 da 3ª edição – Europa-América, 1998).

Para este texto homenagem do centenário do nascimento de Henrique Teixeira de Sousa, escolhi os sub-temas elencados no título.

Afinal, o escritor foguense nunca escondeu a admiração que tinha por tudo que se relacionasse com a vida a bordo de navios. Pelo contrário, sempre a enunciou e afirmou-a de várias maneiras, nas muitas  entrevistas que deu e mesmo em alguns dos seus textos a propósito. Finalmente, retratou-a e recriou-a com enorme projecção na ficção que ele gerou.
Com efeito, ele  habituara-se desde tenra idade a escutar o assunto em  casa. O pai do escritor, João Sousa, natural da ilha Brava, era capitão de longo curso e mais tarde, dono de alguns barcos que fizeram também a aventurosa ligação marítima - Fogo/Brava/ Estado Unidos da América.

Ora bem, a profissão paterna, impregnou no autor um entranhado amor às coisas    marítimas - a vida a bordo, a terminologia náutica, as viagens sobre as quais o escritor frequentemente referia. 

Aliás, segundo ele, crescera a ouvir histórias de embarcadiços, de baleias,  (nestas últimas, incluídas as histórias que lhe foram contadas sobre o trisavô, trancador de baleias de apelido Sousa, oriundo da ilha da Madeira e que  casou e se fixou na Brava); de “americanos” torna-viagem; de mar bravio; de longas calmarias; de naufrágios; de movimento de passageiros e de carga; de contrabandos; de veleiros e de escunas.

De tal forma interiorizou estas vivências que a sua primeira obra publicada  uma colectânea de Contos  intitulou-a: «Contra Mar e Vento» e dedicou-a ao pai: À memória do Capitão John, meu Pai – capitão que foi de veleiro e sabia protestar contra mar e vento, e contra quem de direito for e pertencer possa.” As últimas palavras usadas nesta dedicatória foram parafraseadas propositadamente da linguagem que então se usava nos requerimentos relativos a despachos aduaneiros de barcos e a assuntos marítimos. (Veja-se a propósito, a entrevista de T. de Sousa a Michel Laban – Encontros com Escritores  já aqui referida).

É nesta mesma colectânea de contos que nos é dado conhecer, através do Conto homónimo do título, «Contra Mar e Vento», as peripécias, as vicissitudes de uma viagem nos anos 30, 40 do século passado, que teve como ponto de partida New Bedford nos Estados Unidos da América e como  destino, as ilhas do Fogo e da Brava.  O fulcro da narrativa centra-se nessa viagem que não chegou “a bom porto” antes pelo contrário, um pavoroso incêndio deflagrado na casa das máquinas e o consequente naufrágio do navio, impediram os seus passageiros e respectivas cargas de aportarem em São Filipe na véspera do Natal como previsto.

“Ema Helena” o palhabote “com praça na ilha do Fogo” fez uma tormentosa viagem de Providence  para a ilha do Fogo. O seu capitão “Fortunato” autêntico lobo do mar, conhecia bem os caprichos do “Gulf-Stream(...) O mar do Golfo não devia estar para brincadeiras. Já se sentia a sua má-criação. Os vagalhões cresciam e o vento uivava nas enxárcias como cães em noites. Ema Helena corria a quinze milhas à hora. A barquinha assim marcava. Se o tempo se mantivesse igual até às ilhas, daí a vinte e três dias largariam o ferro em S. Filipe. Noite de natal. Príncipe de Ximento mais os homens da Companhia Braçal cantando bêbados pelas ruas da vila. Missa do Galo na igreja matriz e a canja de galinha quentinha em casa. Eugénia bem vestida e perfumada. Arturinho falando bom português aprendido no liceu. «Esta bicicleta é minha. Foi meu pai que ma trouxe da América.»”  Assim sonhava acordado o “Capitão Fortunato”  Mas os azares durante  a viagem, devido aos ventos contrários, às ondas medonhas do mar, não permitiram a almejada chegada ao destino.

Não foi por acaso que Teixeira de Sousa fazia apelo com alguma insistência para que historiadores, investigadores e até mesmo curiosos da matéria, se debruçassem e escrevessem sobre a história trágico-marítima cabo-verdiana, que está por contar. Principalmente aquela que foi a aventura de veleiros e de escunas de Cabo Verde, em demanda  dos portos da costa leste, a atlântica, dos Estados Unidos.

E mais, não incorrerei em erro ao dizer que quase toda a ficção de T. de Sousa está entranhada de mar, de barcos e de viagens, enquanto portas de saída e de entrada das ilhas.

E já agora, ainda sobre o mesmo assunto, convido o leitor a acompanhar-me nesta breve incursão nos romances de Teixeira de Sousa.

Vamos, em curto itinerário, percorrer alguns romances deste autor em que os temas acabados de referir emergem de forma muito evidente. Entremos em «Ilhéu de Contenda».  A figura de mulher/fundadora de família e que veio do  mar ou, através do mar, tão bem simbolizada na figura de “Nha Mariquinha” ela que olhava para uma pintura figurativa de um navio, e que volta e meia exclamava: “La barca! Es la barca de mi destino!” numa ambiguidade de mente envelhecida pelo tempo que tanto podia significar o barco que a trouxera de longe, dos confins do Chile e a impediu de voltar à terra natal; como o barco que lhe levou o marido que nunca mais tornou à casa, à ilha. Mais tarde, e já à beira da morte, “Nha Mariquinha”  exclamou: “..Fué la barca... fué la barca... Fué la barca de mi destino!” Afinal, lançando as culpas à causadora principal da sorte e das desditas que ela havia sofrido.

Esta personagem – Nha Mariquinha  oriunda de um país da América do Sul, viera para a ilha do Fogo trazida pelo marido, também ele, “ capitão de baleia, o célebre José Cláudio”, no dizer do narrador.

Interessante é que é neste romance que o autor  também nos conta da tragédia do mar na vida dos ilhéus.

A dada altura na narrativa, há o diálogo entre o protagonista Eusébio da Veiga e o clínico da ilha, Dr. Vicente em que aquele explica ao médico:  “...contava a minha mãe que Nha Mariquinha era uma linda mulher quando nova. Alta, elegante, muito trigueira, de olhos negros, cabeleira farta, também negra como azeviche. Ela enviuvou pouco depois de cá chegar. O marido desapareceu no mar. E tem graça, aliás, não tem graça nenhuma, aconteceu a mesma coisa à Soila, a rapariga que a velha criou. O marido também desapareceu numa viagem para a América. Respondeu o Dr. Vicente: “ Senhor Eusébio, há muita tragédia oculta nesta nossas ilhas. Muita tragédia que o mundo ignora. E o pior é que aceitamos tudo. (...) ..o mar que nos cerca e por vezes nos engole, o isolamento (...)”.

Neste trecho do romance,  o autor  já aprofunda um pouco, a épica marítima, cabo-verdiana que mais não é do que as vicissitudes marítimas na vida dos marinheiros e dos emigrantes ilhéus de outrora.

Continuando o itinerário pelos romances, atemo-nos um pouco no romance de sugestivo título: «Capitão de Mar e Terra». Este é talvez, do conjunto dos romances, aquele que mais explicitamente e pormenorizadamente enfatizou a vida do mar, as viagens, com destaque na figura do protagonista Alfredo Araújo, capitão de mar e terra. Portador de um autêntico sociolecto náutico, uma linguagem específica e sócio-profissional, vai percorrendo a narrativa  em contacto com os diversos grupos de personagens que constituíam a sociedade e as forças vivas de Mindelo de então. Como já mencionei, o título  do livro  é significativo, pois que  nos remete ao seu enredo, em que as referências aos capitães, às marés, às máquinas dos navios, aos cordames e velames, são uma constante ao longo dos seus capítulos. Eis, a seguir, um curto trecho:

[Comandava, Alfredo Araújo em plena viagem] “(...) atenção à proa, atenção à popa, atenção a bombordo, atenção a estibordo – respondeu cada um dos vigilantes separadamente. (...)Atenção ao farol. Atenção ao farol. (...)  – a advertência foi ecoando até à vigia da proa. (...) O mar é  assim mesmo, tem situações difíceis que ocorrem até na pequena cabotagem. Só está preparado para todas as eventualidades, quem aprendeu, praticou e criou calos de riba de água. E a isso tudo, infelizmente se dá pouco valor. (...)   Mantém o rumo.  Mantém o rumo.”

Disputando com «Capitão de Mar e Terra»  em  referências aos capitães, às marés, às máquinas dos barcos, às travessias do Atlântico, aos temporais marítimos, temos em quase igual textura, o romance: «Oh! Mar de túrbidas vagas» em que quase toda a história se passa a bordo do lugre Santa Luzia em viagem de Providence, EUA, para Cabo Verde. Mas também a narrativa traz a vida familiar e as curtas estadas do Capitão Hilário, em terra, junto da família.

É curioso verificar que Teixeira de Sousa dedica o livro ao irmão, Orlando Teixeira de Sousa, evocando possivelmente a cumplicidade fraterna, não só nas viagens que fizeram ainda crianças, com pai capitão João Sousa,  mas também, das muitas conversas havidas a esse propósito, em ambiente doméstico.

Ora bem, ficámos  também a saber que o autor “bebeu” na figura do pai,  a criação do protagonista deste último  romance, publicado em vida, (2005) – «Òh Mar de túrbidas vagas»  embora transfigurada em personagem. Era o “Capitão Hilário” um homem tranquilo, experiente e conhecedor das “manhas” dos ventos e das marés da travessia. Dito deste modo, pode parecer demasiado linear, por se tratar de escrita literária, mas socorro-me das palavras de Teixeira de Sousa sobre esta matéria que lhe serviu de inspiração romanesca. Palavras por ele proferidas na grande entrevista já aqui aludida.

Com efeito, o escritor Teixeira de Sousa terá contado nos seus livros, à maneira de bom romancista, uma parte significativa da história trágico-marítima  dos nossos homens do mar e dos putativos emigrantes à procura do “eldorado”.

Bem gostaria de mais acrescentar, pois que o historial ficcionista muito rico de Teixeira de Sousa, assim o exigia mas o texto já vai longo.

Para terminar, dizer que Henrique Teixeira de Sousa faleceu em Oeiras, Portugal a  3 de Março de 2006, aos 86 anos de idade, vítima de atropelamento.

Com ele, simbolicamente, foi sepultado o último Claridoso.


Dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar

segunda-feira, 8 de julho de 2019
O texto abaixo transcrito é sobre o polémico Acordo Ortográfico e da autoria do Jornalista e estudioso de questões sobre a  Língua comum, Nuno Pacheco, a quem peço permissão para publicar no «Coral Vermelho» esta interessante e oportuna abordagem sobre o A. O.  

Nuno Pacheco*

Chegado do Reino Unido, onde esteve em visita oficial, Donald Trump escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o “Prince of Whales”. Ora isto deu a Stephen Colbert mais uma oportunidade, e já são tantas, de ironizar com o desprezo a que Trump vota a língua em que fala e escreve. E pôs-se a imitar o canto das baleias, pois “Prince of Whales” seria príncipe das baleias, e na verdade Trump esteve com o “Prince of Wales”, o príncipe de Gales. Ora “Whales” e “Wales” soam da mesma maneira, mas a letrinha que as distingue na escrita faz toda a diferença. É como “acto” e “ato”, não é verdade?
Voltando a Trump: não são apenas erros de escrita os que ele repete, sem o mínimo pudor. Ainda há dias o vimos anunciar mais sanções contra o regime do “ayatollah Khomeini” (que morreu em 1979), em vez de se referir ao “ayatollah Khamenei”, actual líder supremo do Irão. Um erro histórico. Mas isso importa?
Importa, claro. E é aqui que se levantam umas vozes a dizer que tanto faz, que toda a gente sabe que ele queria dizer Khamenei e se enganou, que Trump sabe escrever “Wales” mas lhe escorregou o dedo para as baleias, etc. E quem diz Trump diz o senhor Gervásio, ou o menino Tonecas, ou a senhora dona Miquelina, porque isso de errar é muito relativo. Pois. Repitam isso a quem vai a conduzir um camião pesado ou a um cirurgião de bisturi em punho. Errar não é uma escolha, para a esmagadora maioria das pessoas e das profissões. Diz-se que errar é humano, e é verdade, mas também é humano procurar evitar o erro. Porque, em certos casos, o erro paga-se muito caro. Até em práticas sem danos letais, como o futebol ou o atletismo.
Há dez anos, num curioso texto intitulado “Abordagem histórico-sociológica do debate em torno do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em 2009 por Rita Marquilhas, da Universidade de Lisboa, concluía-se o seguinte: “A inclusão de secções dentro do texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em que se prevê flexibilidade na escolha entre a antiga solução portuguesa e a antiga solução brasileira, que foi no fundo uma demonstração de pragmatismo por parte dos negociadores do documento, introduz por arrastamento uma modificação no conceito de erro ortográfico. O erro deixa de ser, naqueles casos particulares, um desvio em relação à matriz inflexível constituída por regras de sentido único, para passar a ser, somente, a inobservância de uma escolha. Fica-se mais perto, portanto, de uma desmistificação das virtudes inerentes às ortografias. Dada a história de intolerância a que elas têm estado ligadas, isto parece ser uma boa notícia em termos de renovação de mentalidades.”
As variantes da língua devem ser fixadas em cada país (não de forma transnacional), como parte de um património comum
Resumamos, portanto: as ortografias são intolerantes, por serem inflexíveis; o erro constitui uma estigmatização desnecessária de quem nele persiste; e transformá-lo em “inobservância de uma escolha” foi uma saída inteligente para que o erro deixe de existir e de envergonhar. Isto, para certas criaturas, é um triunfo. Já não se pode dizer: o senhor errou. Porque o senhor apenas se decidiu pela “inobservância de uma escolha”. Parabéns, Trump, pelas suas baleias.
Tendo em conta este raciocínio, que acabaria com a maldita regra que diz “não se consentem graÆas duplas ou facultativas” (reforma ortográfica de 1945), dir-se-ia que agora cada um pode escrever como quer. Vejamos o que aconteceria se certas palavras usadas nos recentes exames de Português e de
Matemática do 12.º ano, como “aspeto”, “correção”, “objeto”, “correta”, “vetor”, “reta”, “semirreta”, “diretor”, “bissetriz”, surgissem escritas como aspecto, correcção, objecto, correcta, vector, recta, semi-recta, director, bissectriz. Vinha logo alguém dizer que não senhor, isto agora não se escreve assim. Portanto, a ideia de que a ortografia deixou de ser uma coisa impositiva e mais dada a “inobservâncias” nas escolhas só vale para palavras admitidas pelo dito “acordo ortográfico”. Aos que não o seguem, é posto o carimbo (nada discriminatório!) de “fulano escreve de acordo com a antiga ortografia”. Como se vê, a “desmistificação das virtudes inerentes às ortografias” não só não existe como é usada em sentido contrário, para impor grafias idiotas ou inadmissíveis no português europeu.
Não admira, por isso, que todos os dias surjam aberrações como “impato” por impacto, “fato” por facto ou “autosustentável” por auto-sustentável (estas pérolas, na SIC e na CMTV, foram registadas recentemente, com imagem, pelos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico). Por isso, quando nos vêm falar nos dez anos que as criancinhas já levam de aprendizagem desta intragável caldeirada, invocando-os como razão para manter o “acordo” como está, só me vem à memória uma antiga canção de Paulo de Carvalho (10 anos). E a resposta só pode ser, alterando-lhe ligeiramente o refrão: dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar. E cada minuto a mais, além de escusado, pesa. É, pois, mais que tempo de acabar com isto e repor a racionalidade perdida: a diversidade da língua portuguesa deve ser reconhecida, fixando as suas riquíssimas variantes em cada país (e não de forma transnacional), como parte de um património comum. É esse o acordo do futuro, não a mistela que nos impuseram.

*Jornalista. Escreve à quinta-feira

Público de 04.Jul.2019


A DERIVA DO MpD, FIGURAS DO ESTADO E O DIA DO MUNICÍPIO

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Recebi, por e-mail, um texto (autor devidamente identificado) há já algum tempo, não muito, uma vez que dizia respeito a uma data referenciada – aniversário da fundação do MpD (14.03.1990) – um pequeno texto, que, galgando a onda do anglicismo que hoje vagueia pelo mundo, se designa por “post”, que a seguir reproduzo, com a devida vénia, por com ele concordar, embora ache que o autor tenha sido algo comedido na sua apreciação:
OS DOIS EMEPÊDÊS...
O partido honrado e de princípios, que se chama Movimento para a Democracia, fez ontem 29 anos de vida e, hoje, é um estado de espírito, uma chama que vive na mente de milhares de cabo-verdianos (e que, seguramente, pese o seu estado vegetativo, não vai morrer).
O partido que está no poder – que, curiosamente, ostenta o mesmo nome – tem apenas cinco/seis anos de existência. São dois partidos diferentes, mas partilhando o mesmo nome.
O primeiro, é um partido de militantes e de causas; o segundo, uma coletividade de tecnocratas, uma espécie de Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada...”
Sem discordar do autor, na sua apreciação global penso que ao considerar o actual MpD “uma colectividade de tecnocratas” terá usado um misericordioso eufemismo ou terá sido extremamente generoso. Tecnocratas?! Quem nos dera!... Desde quando? Por respeito e consideração, e até estima, por algumas pessoas da direcção do MpD e do seu grupo parlamentar escuso-me de definir o tipo de colectividade em que se tornou essa sociedade (empresa) política.
O que não há dúvida é que deixou de ter uma linha condutora e uma doutrina orientadora associadas às suas raízes identitárias. A submissão a pessoas, doutrinas e ideologias que nada têm que ver com os princípios fundadores do MpD descaracteriza o partido conduzindo a uma de três conclusões: amnésia selectiva, ausência de ideias ou completa falta de carácter. Só assim se justifica a obediência a uma ideologia e a apologia ou defesa de um regime que muitos males causaram ao povo cabo-verdiano e que foram repudiadas de forma veemente nas legislativas do dia 13 de Janeiro de 1991 e do dia 17 de Dezembro de 1995 – cada uma das datas com uma maioria qualificada – por eleitores que sabiam e tinham bem presente o que fora a tenebrosa ditadura do PAIGC/CV (vide “O Partido Único em Cabo Verde – Um Assalto à Esperança” de Humberto Cardoso – Edição Pedro Cardoso).
Aceito que os novos eleitores – menores de 40 anos que terão crescido na democracia e em liberdade, graças ao MpD (os menos informados nem o sabem)não terão tido consciência da verdadeira dimensão do que é (ou fora) a ausência desses valores fundamentais. É certo que para esta situação também contribuíram, e têm contribuído, alguns trovadores que no seu entusiasmo lírico terão conjugado “Independência” com “Liberdade” como se de um casamento lógico se tratasse, sem se darem conta que a realidade, desde os seus primeiros momentos, apontava para a absoluta inexistência desse binómio. A Independência não se fez acompanhar nem da liberdade, nem da democracia, mas sim de uma pura ditadura, e dura para a brandura deste povo.
A recente polémica sobre figuras do Estado trouxe ao de cima, mais uma vez, a verdadeira natureza do actual MpD sobre um assunto que não é, nem de perto nem de longe, virgem, e sobre o qual o partido se manteve sempre quedo e mudo apesar de ter sido veiculado por várias vezes e por diversas pessoas, nas redes sociais e na comunicação social.
O comunicado do secretariado do MpD acerca de figuras do Estado ao invés de apelar ao reforço da necessidade do cumprimento da Constituição fez tábua rasa do primado da Lei - o que é grave! – ao ignorar a denúncia do seu incumprimento e esqueceu-se – amnésia selectiva? – de que o assunto já fora levantado em 2006 por um ilustre deputado do próprio MpD num artigo de opinião intitulado “Com que direito fotos de Amílcar Cabral nas repartições do Estado?
O inoportuno comunicado, respondendo prontamente à “voz do dono”, além de descabido e lamentável, é intimidatório ao pretender censurar a liberdade de expressão no seio do MpD com intenção nítida de cercear um debate sério que ainda não se fez e do qual a democracia e a verdade histórica clamam.
Absolutamente obcecado e pressuroso na defesa acrítica e na legitimação do relato “épico” e “nacionalista” dos “homens de Conacry” que procuram credibilidade na figura de Amílcar Cabral, esquece o MpD que em democracia, em Estado de direito democrático, não há intocáveis ou “vacas sagradas”. Estas as vacas sagradas normalmente associadas ao ‘culto de personalidade’ são figuras de regimes autoritários do tipo de Kim Il Sung da Coreia do Norte, de Hugo Chavez da Venezuela ou mesmo de Pereira/Pires dos nossos primeiros 15 anos de País Independente, citando apenas alguns. Em democracia ninguém está acima da Lei ou fora dela, sendo o respeito escrupuloso pela Constituição e o cumprimento rigoroso das Leis da República a regra de ouro. E não é preciso nenhum doutoramento de Harvard ou de Oxford para distinguir entre figuras do Estado e figuras da História. Basta saber ler e escrever português – coisa de que hoje poucos se interessam – e ter meia dúzia de neurónios.
E é nesta esteira, a de submissão a determinadas pessoas e doutrinas que certas narrativas consideradas heróicas e nacionalistas sem uma análise consistente da sua sustentabilidade, substantiva e adjectiva, nem a aferição da sua dimensão e estatuto que embarcámos no “19 de Maio” como o dia do Município da nossa capital. Uma escaramuça entre magalas e um grupo de rapazes e raparigas na esplanada da Praça Alexandre de Albuquerque transformou-se num acto heróico merecedor de um feriado municipal. Ou terá sido considerado uma resistência organizada contra as Forças Armadas portuguesas que escancararam as portas da independência ao PAIGC? Porquê então municipal e não nacional se se trata de um acto heróico, de um dia marcante da nossa gloriosa História? As datas municipais têm uma lógica bem diferente das datas nacionais – em conteúdo, contexto e simbolismo.
Não é preciso ter dois dedos de testa para saber que, no fatídico dia 19 de Maio, se houvesse intenção expressa (ordenada) de matar, não sobraria ninguém. Eram militares vindos da Guiné com experiência operacional munidos de espingardas metralhadoras. Bastaria um, um só, para fazer os estragos que vimos, infelizmente, assistindo nos “tiroteios” nos EUA e noutros países. Não quer isto dizer que o incidente não tenha sido grave. Foi gravíssimo e muito violento, apesar de não ter havido vítimas mortais. Foi um acto condenável, de efeitos lastimáveis, mas circunscritos e controlados, entre jovens exaltados.
E o mais curioso, é que parece que a própria Câmara já tinha chegado, e bem, a essas conclusões ao adoptar o 29 de Abril – data da elevação da Vila de Santa Maria à categoria de Cidade da Praia em 1858 por Sá da Bandeira – como o dia do Município.
Então, porquê manter o “19 de Maio”? Submissão à narrativa do PAIGC/CV? Porque engendrou a Câmara uma reunião justificativa para concluir salomonicamente de forma ardilosa ou covarde – conforme as perspectivas: cumprimento do “pacto” ou medo da desconstrução da narrativa – para a manutenção das duas datas? Não, o 19 de Maio só pode ser “feriado” numa lógica marxista de fixação de datas históricas ou numa visão estreita da História. A sua dimensão, natureza e estatuto não enobrecem nem dignificam Praia, mas quiçá, apenas e tão-somente, alguns protagonistas do evento que dele têm beneficiado. Por este andar não se estranharia muito se Ribeira Bote reivindicasse o seu “estatuto” de primeira “zona libertada” de Cabo Verde e S. Vicente tivesse também o seu 2º “Dia do Município”.
Praia merece mais. Muito mais! De algo digno e honroso que diga directamente respeito a todos os seus munícipes. E o simbolismo da data da sua elevação, por reconhecido mérito, à categoria de cidade no século XIX é suficiente porque é pertença de todos os seus munícipes e é, para ela, até agora, bem mais significativa do que qualquer outra data. E a manutenção concomitante do “19 de Maio” configura-se abstrusa e redutora.
A.Ferreira
                                                                                                                            

Salvé! 5 de Maio!

domingo, 5 de maio de 2019



Dia da Língua portuguesa e da Cultura dos países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Dirijo-me a ti, minha amada Língua em jeito de homenagem, num desabafo curto e breve, a um tempo afectivo e instrumental.

Afectivo porque me criei contigo e através de ti compreendi os outros e o mundo diferente. Também foste a minha Língua maternal primeira. Minha mãe ninou-me, embalou-me com canções que tu moldaste.

Instrumental, porque contigo aprendi as primeiras letras, os primeiros números, os livros que me acompanharam a vida toda. Os conhecimentos, os conceitos e as ideias que conceptualizei foram todas, quase todas adquiridas graças a ti.

 Por meio de ti cheguei a outras culturas, a outros escritores, a poetas, filósofos, pensadores e artistas vários.

Contigo alarguei o meu horizonte, consolidei as fundamentações das minhas convicções e do meu estar no mundo.

Afinal,  também sou o que sou - mesmo na minha dimensão crioula que tu criaste - muito  graças a ti!

Mil vezes obrigada! Minha bela Língua! Por tudo que me deste e como uma boa mãe, sem nada pedir em troca.



A Língua portuguesa em grande e actual expansão

quarta-feira, 1 de maio de 2019

 Enquanto na China se aprende a Língua portuguesa...Cabo Verde tenta paulatinamente banir o seu uso quotidiano e a sua oralidade...
Uma tristeza oceânica atinge-me ao pensar no que acima escrevi!
Pois bem, ao ver – em programas televisivos, ao ler textos estatísticos - o crescente interesse dos chineses em aprender a nossa língua; fico extasiada e feliz. Mas logo de seguida, sou assaltada por uma espécie de mal-estar ao pensar no malefício que auto-infligimos, ao desprezar nas escolas, este veículo linguístico, o mais importante para a devida escolarização e cultura das nossas crianças e adolescentes.
Centrando um pouco no interesse da Língua portuguesa na China, gostaria de acentuar que não é numa parte qualquer da China que mais se revela este crescente interesse, mas sim, em zonas, regiões ou províncias das mais desenvolvidas daquele grande mundo. Em Xangai,  (em escolas primárias, liceus e em mestrados da Universidade de Relações Internacionais) em Pequim, idem. São nessas zonas e em outras similares, onde existem de facto, uma demanda crescente do ensino e da frequências às aulas da Língua portuguesa.
Quanto a nós, aqui nas ilhas, continuamos deliberadamente, ou não, a perder esta incomensurável riqueza de que somos também donos: a Língua portuguesa uma das mais antigas línguas latinas e de todo, das mais belas  e cultas, em grande expansão no mundo global. Estamos a perdê-la sem parar para pensar no mal profundo que se está a provocar nos estudos, no desenvolvimento técnico, científico do País.
Diria que nos comanda um sentimento maligno de auto-destruição linguística.
Os resultados catastróficos, estão à vista: alunos cada vez mais mal preparados, por professores que não sabem falar e nem redigir em português e ainda por cima, muito pouco cultos no geral.
Ninguém faz alguma coisa para inverter o hediondo crime lesa-língua, que se está a cometer nestas ilhas ? Neste país que merecia melhor sorte nas escolas?
E  não bastando tudo isto, teimosamente, continuamos a enviar alunos, alguns, com rótulo de “bons alunos” a formar em Universidades de Língua portuguesa. Infelizmente, a maioria dos nossos alunos não sabe nem escrever e muito menos falar, expressar-se  na Língua comum. São –regra geral- mal sucedidos, porque não compreendem o que os professores lhes dizem nas aulas e não compreendem também os conceitos  explicados nos livros.
Quando assim sucede, é o fracasso da formação pretendida. Eles e elas, tentam esconder a sua frustração, o seu desvio de um programa de futuro, de vida, entrando e engrossando a considerável emigração clandestina. Assim vai, com excepções é certo, o perfil dos estudantes que enviamos para os Politécnicos e para as Universidades portuguesas.
Ora bem, Estamos a querer comemorar, celebrar os 40 anos de ensino superior nacional. Sim, seria de louvar, teria razão de ser se a evolução fosse comparativa e gradualmente (com o passar do tempo) positiva. Mas para mal, e para o agravamento dos nossos pecados, a formação nacional universitária tem vindo a ficar muito aquém daquilo que é expectável num patamar académico superior.
Vamos a um pequeno jogo: suspendamos uns segundos no tempo, e pensemos por instantes, num “setemanista” ou, num aluno do 1º- e 2º- anos do curso complementar do passado dos liceus cabo-verdianos, e num formado actual e intitulado "licenciado" “mestre” ou “doutor” das universidades cabo-verdianas. Façamos uma "sabatina" imaginária.  Não tenho a menor dúvida sobre qual deles recairia a vitória. É muito confrangedor, mas é a pura e a dura realidade. Haverá excepções. Repare-se: excepções, apenas isso!...exagero? caricatura?...antes fosse.
Minha gente: a nossa aposta presente e futura deve ser nas escolas, com a língua veicular do ensino em plenitude, porque é através da Língua comum, a portuguesa, que os conceitos vêm escritos e descritos em manuais de Leitura, em manuais de aprendizagem científica, técnica e filosófica. Sejamos minimamente pragmáticos e objectivos!
Quando ouço, na comunicação social, professores a falarem em crioulo porque não sabem expressar-se em português, e para piorar a situação, através de uma linguagem pouco elaborada, paupérrima, e nada abonatória em termos do saber e da cultura de um docente; digo para os meus botões: “o País retrocedeu! O País está a retroceder...”