O Maniqueísmo do cabo-verdiano, dito, intelectual

sábado, 31 de agosto de 2019


É deveras notável o maniqueísmo do acto elocutório e perlocutório, isto é, da organização mental e da consequente articulação vocal de qualquer projecto argumentativo do nosso nacional, sobretudo daquele que se julga ilustrado, e  que  até faz opinião.
Por norma, a tese a demonstrar do assunto em discussão raramente foge do esquema,  ou é preto ou é branco e ponto final!. É óbvio que me refiro à regra geral e não às excepções que sempre existem.
Não pretendo ser azeda. Longe de mim tal intento!... apenas noto e anoto factos que venho observando.
Então, vamos a dois deles que me parecem significativos para o contexto actual da nossa sociedade.
Por exemplo, os Linguistas da nossa praça ou similares, quando falam da importância do Crioulo nas ilhas e ao quererem demonstrar o seu indesmentível apego ao mesmo, só o conseguem demonstrar, deitando abaixo de seguida o português. Interessante é que a língua que lhes serve entretanto de veículo para transmitir esse mesmo mal-querer, ser exactamente, a língua portuguesa. Fantástico! Mas não deixa de ser bizarro.
As investidas bélicas sobre a Língua segunda, vão desde de tentativas de retirá-la dos seus ambientes naturais, como sejam a Escola e o meio académico no geral, passando pela agressão gratuita da mesma, enquanto veículo linguístico de ensino, indo até ao ponto de afectar negativamente os aprendentes da língua portuguesa.
Tudo isto, tem vindo a acontecer em Cabo Verde, numa suprema incongruência.
E, para agravar a situação, tal cenário, tem gerado entre nós, um séquito de acólitos mal preparados. Ávidos de protagonismo. Ansiosos por palco ou por holofotes, configurando-se ainda mais fundamentalistas do que os ditos “mestres” e que se prestam logo a difundir, a confundir e  a espalhar o mal nas mentes dos mais jovens falantes em fase de escolarização.
Pois bem, o mau resultado está á vista de todos. Basta pensarmos na má preparação escolar que levam os nossos alunos do 12º ano de escolaridade, do insucesso visível quando, na prossecução de estudos superiores, demandam universidades de Língua portuguesa, com destaque para Portugal.
O insucesso académico tem sido, para mal dos nossos pecados, visível para muitos estudantes, com consequentes e por vezes, irreversíveis danos ao projecto de vida.
Voltando ao tema proposto neste escrito, os nossos argumentadores não se limitam a louvar o Crioulo. Não, para o fazer têm de “abater” a língua portuguesa, esquecendo-se até de “quem é filho de quem...” fazem logo fogo cruzado à matriz da língua cabo-verdiana.
Enfim, de incoerência em incoerência, assim falam os nossos “opinion makers” ou, dito em português: os fazedores de opinião sobre uma determinada  matéria.
Outro exemplo, vem de alguns políticos, ou candidatos a tal, os quais, para elogiarem o africanismo – o negro – que nos completa mas que querem transformar num absoluto para o cabo-verdiano, desatam a destratar o outro lado – o branco – ignorando a nossa mestiçagem.
E é assim que se ouve de gente com responsabilidade, e convencida de que não está a ser escutada (nos dias de hoje, num mundo de redes sociais, tudo se sabe num instante e, em todo o lado) a não ser pelos que o rodeiam na ocasião, a desancar na parte europeia contribuidora igualmente para  a construção do nosso ser ontológico e, finalmente, para a nossa identidade também.
Que triste sina, a nossa! Ter de levar com isto !… É caso para se perguntar: “Quo vadis” Cabo Verde com gente com esta (não) preparação e esta forma de (não) pensar a nossa História e a nossa cultura mestiças?
De facto, chega a ser mais do que maniqueísta esta postura. Trata-se se calhar, de uma incapacidade analítica que afecta entre nós, os comentadores e os políticos no geral. Uma incapacidade de discorrer mais demorada e profundamente (falta de dados? Falta de algum estudo e de boa preparação sobre a matéria em análise?) sobre o assunto, sem “saltar” e fazer derivas precipitadas e as mais das vezes, mal fundamentadas que nada acrescentam ao tema em discussão. Muito pelo contrário, criam perturbações e equívocos desnecessários.
Ora bem, percebe-se que não estão aptos a fazer uma análise intrínseca do problema em si (o caso já aqui citado, o da Língua portuguesa). Ao invés, o que fazem é uma comparação imediata com outro (no caso, com o Crioulo) seja porque lhes convém retirar daí proveito imediato, seja porque não reflectiram com seriedade, não só sobre a importância do português na escolarização da criança cabo-verdiana, mas também  sobre o efeito devastador que o abandono da compreensão e da oralidade em língua portuguesa nas escolas, tem tido na escrita, na interpretação de conceitos, na leitura, entre outros efeitos perversos que esta situação vem provocando nos alunos e nos Quadros cabo-verdianos.
Em síntese, e para mal dos nossos pecados, o país já há muito que vem dando mostras evidentes de uma derrapagem calamitosa em termos de poder erigir uma capacidade, uma intelligensia local que contribua para o desenvolvimento das ilhas, quer  do ponto de vista económico, quer social, quer ainda cultural ou, mais ainda, da criação de uma sociedade cidadã e com opinião, demonstradora de conhecimentos e de saber.
Infelizmente, nada disso tem acontecido.
Para nós, torna-se altamente perturbador pensar que a realidade das ilhas vem sendo assim. Mas ainda mais confrangedora, é enunciá-la. (o que me está a acontecer com este escrito).
Mas atenção, esta forma de pensamento dual, do dito intelectual cabo-verdiano, não é só na questão linguística ou, sobre assuntos políticos que ele se apresenta mais visibilidade. Não, isto configura-se nos debates sobre matérias díspares, que ao nosso país respeitam.
Resumindo a questão, falta entre nós um argumentativo ou, um argumentário mais acabado, mais elaborado, menos maniqueísta (preto ou branco) mais “paleta de várias cores,” ao equacionarem-se os dados de determinado problema. Ou seja, problematizar a questão. Abordá-la de vários e diferentes ângulos. Uma sugestão: interroguemo-nos sempre. Coloquemos várias perspectivas. Conscientizemos as nossas dúvidas. Analisemos sem pressas. Problematizemos com mais interrogações e menos certezas, a matéria sobre a qual, no momento, discorremos. Assim, abeirámo-nos da cultura. Ou, no mínimo da ilustração.
Termino este escrito com uma interpretação – referindo-se à cultura – da portentosa escritora portuguesa, Agustina Bessa-Luís: (...)“A cultura é o trajecto a percorrer entre o viver e o conhecer, entre a certeza e a interrogação que a segue de perto(...)” In: «Contemplação Carinhosa da Angústia».





DA CLARIDADE À CLARIVIDÊNCIA

domingo, 25 de agosto de 2019


               6 de Setembro de 2019
O centenário do nascimento de Henrique Teixeira de Sousa (1919). Neste contexto, achámos pertinente relembrá-lo através dos seus escritos, no caso, mais um artigo. Desta feita sobre o Movimento Claridoso.

Por H. Teixeira de Sousa*

Quando, em Outubro de 1931, desembarquei em São Vicente para frequentar o Liceu, fiquei deslumbrado com a cidade do Mindelo, tão diferente da pacata cidade de São Filipe. Os vapores, apitando e fumegando na baía, o rumor dos guindastes e das vagonetas de carvão, o vai-vem dos rebocadores e das lanchas, a azáfama dos trabalhadores enfarruscados com o pó da hulha, marinheiros estrangeiros passeando nas ruas, acompanhados de cicerones poliglotas, residentes ingleses e italianos emprestando um ar cosmopolita à pequena urbe, o golfe, o ténis, o foot-ball, o cricket, os estabelecimentos comerciais alguns bastantes prósperos, o Liceu, a elite ilustrada, o jornal da terra, combativo, mordaz, polémico, todo esse ambiente novo me fascinou, a mim, menino duma ilha agrícola, ilha enconchada nas suas tradições seculares que viriam a ser mais tarde invocadas no meu romance ILHÉU DE CONTENDA. O impacto com a mini-civilização mindelense impressionou a minha ruralidade. A descoberta doutro ritmo de existência, que não o arrastar inglório das enxadas e a resistência inútil do homem do sobrado, inflectiu o meu destino para diversificados horizontes. Lembro-me de que, à noite, quando recolhia ao meu catre de estudante, adormecia a pensar no amanhecer glorioso em que me seria dado de novo participar do quotidiano mindelense.
Todavia, na casa onde me hospedei, escutava a conversa das visitas sobre a crise do Porto Grande. Suspiravam pelos bons velhos tempos, como na morna de Sérgio frusoni «um vez Sãocente era sabe». Ouvi-as, ainda, zurzindo no Governo pelo abandono votado ao mais amplo e abrigado porto da África Ocidental. Não conseguia entender as razões das queixas daquela gente face ao burburinho que me rodeava. Só vim a capacitar-me de que campeava a miséria em São Vicente quando, em 1934, largas centenas de populares, capitaneados por Nhô Ambrósio, desceram dos arredores da cidade, empunhando bandeiras negras, que simbolizavam fome e desolação. Cortejo que findou em assalto aos armazéns de víveres de determinados comerciantes e da Alfândega do Mindelo.
Esta crise portuária já vinha de longe. Em 1891, João Augusto Martins, ilustre médico e escritor cabo-verdiano, chamou a atenção de quem de direito para a decadência incipiente do porto de São Vicente no seu célebre livro «Madeira, Cabo Verde e Guiné». Dizia então o autor que a negligência do Governo face ao equipamento e modernização da Baía do Mindelo punha em risco o futuro desta magnífica escala marítima, dado que Las Palmas e Tenerife haviam já arrancado com força e determinação para a conquista da navegação comercial do Atlântico. Assim, quando, na década de trinta, começou a fazer-se a substituição do carvão pelos combustíveis líquidos, agudizou-se a crise no Porto Grande, por este não haver acompanhado as exigências a época. Os espanhóis fizeram-no nas Canárias. Os franceses fizeram-no em Dakar. Os portugueses não o fizeram em São Vicente. Daí o declínio do movimento portuário, com a consequente baixa de receitas de semelhante origem. As companhias carvoeiras começaram a despedir trabalhadores, tendo-se então instalado um clima de insegurança que São Vicente jamais conhecera. Nesse clima é que foi gerado o levantamento de 1934, de que fui testemunha ocular. Vi embarcar Nhô Ambrósio, deportado para Angola. Acho que não será despropositado sugerir aqui e agora a perpetuação da memória de Nhô Ambrósio da forma como entenderem o povo e o Governo. Celebrizado já foi pelo poeta Gabriel Mariano, que, através de um poema épico, cantou a gesta do Capitão Ambrósio. Mas há qualquer coisa mais que falta. O povo dirá.
A decadência da ilha de São Vicente também atingiu a classe relativamente abastada. Daí que existisse na cidade do Mindelo uma Associação Comercial e Industrial bastante forte, coesa e empenhada na luta pelos direitos e progressos da terra. Daí que houvesse um jornal, cujo temário essencial era a problemática do ancoradouro de São Vicente e o abandono que estava votado o arquipélago, em geral. Daí que reinasse um sentimento depreciativo por quanto fosse português, versus  um grande apreço pela eficiência inglesa, mal-grado o isolamento da colónia britânica. Vestia-se à inglesa, bebia-se à inglesa, fumava-se à inglesa, fava-se inglês (sobretudo quando se engolia dois whiskies ou gins), fazia-se desporto à inglesa. Era muito honroso ser-se convidado para um cocktail no Telégrafo ou Clube dos ingleses. Também, na ilha do Fogo, subir ao sobrado de gente branca era uma distinção concedida a pouquíssimos mulatos. Esse fenómeno, portanto, não me impressionou, na medida em que a ele estava habituado. Na minha ilha, as chamadas famílias tradicionais eram igualmente impermeáveis ao convívio com a chamada gentinha. Esta, todavia, invertia os seus ressentimentos, ao ponto de ambicionar acesso ao ambiente que a repelia. Vidé «Ilhéu de Contenda».
A burguesia mindelense vivia revoltada com a incúria e o desprezo da Mãe-Pátria (entre aspas).Dessa revolta, quanto a mim, teria nascido a ideia de adjacência das ilhas de Cabo Verde, numa ambivalência de sentimentos idêntica àquela acabada de citar, ideia que também foi motivo de quilómetros de prosa no jornal «Notícias de Cabo Verde». Por outro lado, intuiu-se o malefício do regime colonial, em consequência do imobilismo desenvolvimentista do arquipélago. Vá, então, de querer tratamento diferente por parte da Mãe-Pátria. Esse tratamento conseguir-se-ia com o estatuto administrativo de adjacência, tal como existia para os arquipélago dos Açores e da Madeira. A adjacência seria como que a legitimação desse filho bastardo que era o arquipélago de Cabo Verde. Feita a legitimação, também ficaria feita a descolonização, desaparecendo as desigualdades entre os portugueses de cá e de lá. A reivindicação do estatuto de adjacência não significava o desejo de libertação do regime colonial, única via de promoção que, então, se enxergava. Havia, aliás, o exemplo muito próximo das ilhas Canárias, fazendo parte integrante da metrópole espanhola. Assim, raciocinavam e sentiam os defensores de semelhante projecto politico-administrativo.
O sonho de adjacência povoou o cérebro e o coração de algumas gerações. Só veio a morrer em 1962, numa célebre reunião das forças vivas que teve lugar na sede da Associação Comercial e Industrial do Mindelo para dar resposta a uma consulta do então Ministério do Ultramar. Estava-se em plena guerra colonial. Convinha sobremaneira que uma província ultramarina (terminologia da época), como Cabo Verde, soltasse o seu grito de Ipiranga às avessas, aceitando o estatuto de adjacência para desencorajar o empenho do PAIGC e restantes movimentos africanos de libertação. O Engenheiro Humberto Fonseca foi o grande líder dessa histórica reunião. Ao ouvido me disse: – Henrique, vamos evitar um sim a adjacência, caso contrário perdemos o comboio da independência. Evidentemente que se recusou o estatuto das ilhas adjacentes então oferecido de bandeja pelo Governo Central, o mesmo Governo que sistematicamente no-lo recusara.
Regressando à década de trinta, década de acentuação da crise do Porto Grande e de agudização dos conflitos internacionais que estiveram na origem da Segunda Guerra Mundial, direi que foi nessa conjuntura que surgiu o movimento intelectual e literário da Claridade. Foi nesse cadinho de decadência portuária, de miséria e contradições internas e internacionais que um punhado de jovens talentosos concebeu e arrancou com uma revista de artes e letras, de conteúdo totalmente novo. Fez-se luz na literatura cabo-verdiana, afastada até o momento dos valores culturais próprios, salvo restritas excepções. Tanto na poesia como na prosa, se passou a expressar a autenticidade das ilhas, coisa que poetas e prosadores anteriores distorceram ou omitiram através de uma retórica importada. Essa afirmação vigorosa de identidade cultural viria a confrontar-se criticamente com o conceito de adjacência, na medida em que revelava uma realidade distanciada dos valores culturais de Portugal continental. Viria, em certa medida, patentear a existência dum pré-nacionalismo, com todas as implicações que tal acarretava na altura. Daí que a revista não tenha sido bem recebida pelas forças conservadoras. A nova forma de escrever Cabo Verde diferia da forma tradicional, no domínio literário, evidentemente. A retórica balofa foi mondada pelas enxadas dos claridosos, pondo o chão limpo de ervas nocivas. Passou a exibir-se uma cultura mais consentânea com as nossas realidades.
Não é minimamente aceitável o julgamento da Claridade feito na década de sessenta pela juventude progressista da época. Os claridosos não se alienaram da problemática da injustiça social e das carências materiais. Primeiro, porque surgiram em São Vicente na crítica década de trinta; segundo, porque cortaram com figurinos impostos; terceiro, porque deram a conhecer verdadeiramente a humanidade das ilhas. Que mais se lhes poderia exigir? Não vejo que aos «bravos do Mindelo» (parafraseando a História de Portugal) se devesse exigir a consciência política que só após o segundo conflito armado internacional começaria a tomar forma em África. Consciência política, por um lado, impossível de alcançar no regime que então vigorava, cerceados que eram os meios de informação política. O reconhecimento de todo esse passado restritivo, encorajou os responsáveis actuais pelas coisas de cultura a assinalar condignamente o quinquagésimo aniversário do aparecimento da revista Claridade, fazendo cessar tudo quanto determinadas musas cantaram contra os pioneiros da nossa moderna literatura.
Logo no primeiro número da revista se privilegiou o dialecto crioulo de Cabo Verde, tendo-se imprimido, na respectiva portada, versos dum batuque de Santiago. Esta homenagem à nossa língua de leite teria soado a irreverência nativista aos que combatiam o uso do crioulo. Mas o que mais desagradou aos puristas lusófonos foi o português literário dos novelistas, e, não tanto, o dos poetas. Esse português literário dos novelistas foi um dos actos mais audaciosos dos homens da Claridade, numa época em que ainda se estudava a gramática e a estilística portuguesas em profundidade e se acreditava que a utilização do crioulo prejudicava a aprendizagem do idioma de Camões.
Sem dúvida que esse alcunhado «pretoguês» dos claridosos veio desbloquear significativamente a linguagem dos novelistas, especialmente nos textos contendo diálogos. Aproveito, todavia, a oportunidade para advertir contra os exageros. Todos temos de continuar a reflectir sobre esta prestimosa herança dos fundadores da Claridade, dado que semelhante linguagem ou estilo resultou dum propósito e não dum processo espontâneo e natural. Rigorosamente podemos asseverar que não existe esse português nas nossas ilhas. Quando muito, o português das pessoas de fraca instrução poderá aproximar-se daquele, ou vice- versa. Eu apenas sugeri que se evitassem os exageros, para não se cair em artificialismos desnecessários. Desnecessários porquê? Desnecessário porque o nosso português, por mais bem falado ou escrito, é um português algo diferenciado do de Portugal. Desde que falemos ou escrevamos despreocupadamente, somos inconfundivelmente cabo-verdianos, embora usando a língua portuguesa.. A História tornou-a adoptiva, conservando-lhe, todavia, o sabor de leite materno, por mais correcto que ela seja falada ou escrita com todas as exigências do saudoso C ónego Bouças do Seminário-Liceu de São Nicolau. Que no-lo digam os nossos irmãos brasileiros. Que no-lo digam os nossos irmãos de toda a África lusófona.
A revista Claridade surgiu cabo-verdianíssima por dentro e por fora, tanto na temática como na expressão. «Quand même», a primeira vaga de claridosos viria a ser acusada, décadas depois, de evasionista, pasargadista e alienada dos problemas concretos do povo, em termos das respectivas soluções.
A temática do mar, presente noutras literaturas insulares, teve em Eugénio Tavares o seu primeiro grande cultor, logo no dobrar do século. Os pioneiros da moderna literatura cabo-verdiana herdaram essa temática não como figurino literário, mas, sim, como algo fazendo parte da cabo-verdianidade. O mar e a emigração foram e são os factores do complexo cultural do nosso povo. Tais realidades nunca poderiam estar ausentes na poesia e na prosa dos claridosos.
O chamado pasargadismo proveio pura e simplesmente dum desabado poético de Osvaldo Alcântara, num simbolismo de inspiração manuel-bandeirense. Esse desabafo teve, antes, a força duma denúncia do que o comodismo duma renúncia. O resto que então se seguiu, foi mera especulação de cariz radical, própria da rebeldia juvenil. Pasárgada seria o reino da justiça, da abastança, da felicidade inexistentes nas nossas ilhas. Mais nada!
Os claridosos não fixaram os olhos apenas na linha do horizonte e no reino de Pasárgada. Falaram das secas, das fomes, das mortandades cíclicas, do vento leste, das pragas, das doenças, da sede de instrução e da dignificação do povo, dos caminhos insignificantes ziguezagueando por montes e vales, dos pescadores sacrificados, da infância abandonada, das grávidas de pernas inchadas pelas varizes, das rapariguinhas à cata de lenha, do gado a caminho da fonte; falaram das nossas canções, dos nossos contos populares, dos nossos instrumentos musicais, dos nossos folguedos e danças, falaram, em suma, de quanto é genuinamente cabo-verdiano.  Por mór desse discurso, foram considerados escritores da desgraça, em nada contribuindo para o optimismo da juventude. Entenda-se aqui o termo optimismo por alienação. Recordo-me, neste momento, de um programa radiofónico de autoria dum grupo de estudantes do Liceu de São Vicente, cujos textos eram previamente censurados pelo administrador do Concelho, que tinha o cuidado de cortar quanto fosse pessimista e irreverente, segundo seu critério. O programa intitulava-se Juventude em Foco. Funcionou nos finais da década de sessenta e princípios setenta. Os meus filhos mais velhos foram colaboradores desse programa.
Quando, em 1938, cheguei a Lisboa para frequentar a Universidade, não havia ainda arrancado o neo-realismo em Portugal (Portugal continental). Imperava o umbilicalismo presencista, uma literatura toda virada para os escaninhos freudianos duma burguesia em crise, divorciada do homem da rua, do homem do campo, do homem do mar, diferentemente do que ocorria em Cabo Verde desde 1936. O Dr. Baltasar Lopes da Silva presenciou do meu desencanto. Só em 1941, pude penetrar na tertúlia dos pioneiros do neo-realismo português e conhecer outras aberturas, incluindo o universo político. Só nessa altura, cheguei verdadeiramente à Europa. O deslumbramento foi de tal ordem que quase fiz perigar o cumprimento dos meus deveres escolares. Desenrolava-se a Segunda Guerra Mundial. As solicitações políticas e intelectuais eram tantas que me ia afogando num oceano de dispersão. Felizmente me frenei a tempo.
Não vou enumerar as personalidades dessa tertúlia, porque omitir alguém de muito prestígio na época. A esses amigos e camaradas dei a conhecer a jovem literatura cabo-verdiana. Ficaram impressionados com a imagem e o estilo dessa literatura. Nesse tempo, não se punha o problema de emancipação política das colónias portuguesas. Punha-se, sim, o problema genérico e universal da justiça social, das liberdades cívicas e da dignificação do homem. Acreditávamos que a vitória dos Aliados viria a viabilizar todos aqueles ideais. Nessa perspectiva, estabelecíamos analogias entre a humanidade de cá e de lá, e, uma vez feita a grande mudança na Metrópole, semelhante mudança reflectir-se-ia também nas colónias. (Diga-se de passagem, uma perspectiva simplista e imatura). De sorte que uma literatura como a da Claridade, denunciadora das deploráveis realidades de Cabo Verde, nunca poderia deixar de ser saudada com entusiasmo pelos neo-realistas de Lisboa. Estes tinham começado a fazer o mesmo no quadrilátero europeu que habitavam.
A problemática colonial na década de 40, pelo menos em Portugal, sobrepunha-se à problemática do proletariado em geral, encontrando-se em horizonte muito esfumado a autodeterminação dos povos colonizados. Achávamos certo que, por exemplo, um Langston Hughes, poeta negro, cantasse alto e bom som «I am America too», numa atitude reivindicativa face à sociedade branca. Acharíamos também certo, nessa altura, que um poeta cabo-verdiano bradasse «eu também sou Portugal, ponham-me à mesa do banquete nacional, e não me mandem comer para a cozinha». Ora, na década de 30, mesmo na de 40, os claridosos não podiam posicionar-se da mesma forma que a geração de sessenta, em relação à problemática colonial. Isto teria sido um prodígio de antecipação política, ainda mais sensacional do que a precocidade neo-realista do movimento literário em causa.
Diga-se, todavia, em abono da verdade, que os grandes responsáveis pela modernização da literatura cabo-verdiana não chegaram a dar-se conta do salto histórico por eles realizado. Não lhes passou pela cabeça que se estavam a antecipar à afirmação nacionalista da geração de sessenta. Quando se interroga os poucos sobreviventes da arrancada memorável, acerca do «primum movens» de semelhante tomada de rumo, fica-se insatisfeito com a resposta e explicações que dão. Na sede da Associação Portuguesa de Autores, disse Manuel Lopes, a propósito do cinquentenário da Claridade, que nada de extraordinário haviam feito. Que se limitaram a agarrar a realidade cabo-verdiana e pô-la no papel. Esta visão de um dos maiores escritores daquela geração não deve, porém, ser encarada de forma simplista. Semelhante visão confirma a teoria de confluência de factores na eclosão de determinados movimentos, um dos quais literário. Em todos os grandes acontecimentos históricos, políticos, filosóficos, religiosos, científicos, existe quase sempre uma fase premonitória, na génese da qual não se isola um único responsável, mas, sim, toda uma colectividade ou uma èlite, todo um  país ou um grupo de países. No caso da Claridade, revista que nasceu por falta de cinquenta contos de reis para pagar a caução do jornal que então se ambicionava, segundo explicou Baltasar Lopes, houve a confluência dos seguintes factores:
– marcada diferenciação cultural do cabo-verdiano;
– isolamento total das ilhas em relação a uma Pátria distante e indiferente ao destino das respectivas populações;
– sobrevivência dependente da emigração;
– sentimento de solidariedade da camada ilustrada para com as maiores vítimas desse abandono;
– constatação de diferenças de direitos cívicos entre os naturais do arquipélago e os naturais da Metrópole;
– inexistência de uma literatura que falasse das gentes e das coisas da terra;
– finalmente, a chibatada tónica proveniente do Brasil, através da mensagem dos modernos escritores daquele país verdadeiramente irmão.
Não vou analisar cada um dos factores anunciados. Tal ultrapassaria o âmbito dum simples artigo. Não deixarei, todavia, de repetir que a Claridade não nasceu por acaso. A vigorosa cabo-verdianidade dos claridosos e o impacto causado pela, então, pujante literatura brasileira, nomeadamente pela literatura nordestina, fizeram despoletar essa maneira nova de escrever Cabo Verde. As perspectivas políticas viriam mais tarde a confrontar-se com a mensagem da Claridade, esta limitada ao campo estritamente literário. As mesmas perspectivas, com o rodar dos anos, viriam finalmente a descobrir no movimento claridoso, o seu «back ground» cultural, sem o qual nenhuma Pátria se constrói.
Da CLARIDADE caímos na CLARIVIDÊNCIA.
*Publicado a 18 de Outubro de 1993

Escola de Padre e Escola de Rei

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Aproveitando a efeméride do centenário do nascimento do médico, escritor e ensaísta, Henrique Teixeira de Sousa (1919); e porque o assunto contido no texto que ora se (re)publica, não perde actualidade, fomos a um número do Jornal «Terra Nova» do ano 2000 e seleccionámos este texto que nos transporta ao passado da  literacia nas ilhas. 


Por H. Teixeira de Sousa*

A gente jovem de Cabo Verde já não deve saber o que significa a designação escola de rei. A época colonial vai-se esfumando na memória colectiva; quem tinha zero anos de idade já hoje conta com vinte e cinco primaveras, quem fizera dez anos na ocasião de independência nacional, é actualmente um adulto de trinta e cinco anos. A moderna geração possui outras referências, novos valores, os quais não se enquadram nos cânones do passado. Nem por isso, porém, se pode dispensar a retrospecção dos factos e acontecimentos, exercício que é de suma importância para o conhecimento rigoroso do que agora somos.
Daí que desta vez a minha crónica se debruça um pouco sobre o ensino em Cabo Verde, desde os primórdios do respectivo povoamento. É assunto já abordado por alguns estudiosos, por exemplo, António Carreira, mas que não é de mais reabordar, com vista à informação da juventude.
Folheando uma colectânea de Boletins Oficiais de Cabo Verde, de entre 1849 a 1850, volume já bastante danificado pela traça, da minha biblioteca pessoal, deparei com o texto oficial que criava na ilha Brava a Escola de Instrução Superior, Primária e Secundária. E porquê nesta ilha? Por uma de duas razões, ou por causa da salubridade daquela estância, ou porque nela se achava sediado o governo da província. Ou talvez ainda pelas duas razões juntas. Esta escola funcionou durante dez anos. Antecedeu-lhe o Liceu Nacional, sediado na Praia, em 1846, tendo tido uma efémera duração, com certeza neste caso, por motivo da malária que em Santiago fustigava todo o ano a população, mais intensamente nos meses chuvosos. Ainda nos anos 50 e primórdios de 60 o panorama palúdico não era nada famoso, como provaram as prospecções levadas a efeito pela Missão de Estudo e Combate de Endemias, sob chefia do Dr. Manuel Meira. Havia zonas com índices parasitários e esplénico assustadores. Era rara a criança com idade inferior a 12 anos que não exibia esplenomegália (baço aumentado de volume). O insecto vector era (e continua a ser) o anopheles gambiae, mosquito que não encontramos na ilha Brava, onde portanto não existia, nem existe, o paludismo endémico. O curioso é que em Santo Antão encontrámos anopheles gambiae, mas nenhum caso de malária autóctone, situação que se designa por anophelismo sem paludismo. Mas não interessa agora esmiuçar.
As matérias ensinadas nessa escola da Brava, ao longo dos quatro anos de frequência, iam desde a leitura, passando pela escrita, aritmética, geometria, gramática, história portuguesa, doutrina cristã, até ao estudo dos produtos naturais do arquipélago, ou que nele se fabricavam, e que fossem, ou pudessem ser objecto de indústria ou de comércio, ou ainda dignos de terem lugar na economia doméstica. Este último período, com tantas disjuntivas e copulativas, até se parece com a prosa do século dezoito. Adiante. Semelhante atenção dada aos produtos naturais constitui facto de estranhar, numa época em que o ensino era demasiado centralizado em relação ao reino. Os textos falavam em castanheiro, nogueira, pinheiro, etc., omitindo a flora local. Ainda foi assim no meu tempo e no dos meus filhos mais velhos. A história era a do reino da metrópole, sucessivamente. A geografia era a corografia de Portugal continental e das ilhas adjacentes dos Açores e da Madeira.
Recuando um século, em relação à data da criação da Escola da Brava, temos que em 1772, ao surgirem as primeiras escolas oficiais em Portugal (escolas régias, chamadas escolas de rei em Cabo Verde), o Conselho Ultramarino autorizou a abertura de estabelecimentos de ensino semelhantes no nosso arquipélago. Mas esta autorização não teve andamento por falta de verba. A pequeníssima percentagem da população que conseguia aprender a ler e a escrever, ficava a deve-lo aos mestres particulares ou à escola da paróquia. Os mestres-escola e os párocos de freguesia tiveram um papel relevante na alfabetização das gentes do arquipélago. Em 1811 a situação mantinha-se a mesma, isto é, as escolas régias (escolas de rei) achavam-se apenas no papel, facto que mereceu severo reparo por parte da Corte no Rio de Janeiro. Na altura a realeza encontrava-se sediada no Brasil. O orçamento de Cabo Verde não suportava a difusão de escolas, pelo que ainda no ano lectivo de 1837-38 não funcionavam mais do que dez estabelecimentos de ensino em toda a Província. Em 1842 o número de escolas primárias alcançou a cifra de trinta e três.
Convém recuar ainda mais no tempo para ver quão meritória foi a intervenção da Igreja Católica na esfera do ensino. De tal maneira que podemos afirmar que o ponto de partida da literacia em Cabo Verde se situou à sombra da batina eclesiástica.
Em 1546 o rei permitiu que homens pretos e mestiços pudessem entrar em cargos públicos. Estes pretos e mestiços alfabetizados, eram os que iam sendo ensinados nas chamadas escolas de ler e escrever, escolas ministradas pelos clérigos.
Em 1555 começou a ordenação de sacerdotes entre os nativos. Mas a instalação dum Seminário como tal, levaria alguns séculos para se concretizar. A Igreja já não se conformava com a existência de tonsurados suficientes para fazer a cobertura religiosa do arquipélago. Daí que fosse muito importante a criação do Seminário de São Nicolau, pelo qual se bateu denodadamente o bispo D. José Alves Feijó. Finalmente o decreto de 1866 criava o Seminário-Liceu da Ribeira Brava. E porquê Seminário-Liceu e não Seminário tout court? Semelhante gemenismo foi uma estratégia do bispo. Como não tinha dinheiro para sustentar um seminário, propôs a inclusão do ensino laico no dito estabelecimento, ao lado da preparação eclesiástica, em ordem a obter a verba do Estado para o objectivo em vista.
Como a gente sabe, foi desse alfobre que começaram a surgir os primeiros quadros do funcionalismo público, devidamente qualificados, os primeiros poetas e prosadores do Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, os primeiros indícios duma intelligentsia local que haveria de evoluir até à eclosão do movimento cultural da Claridade. Não fora a Igreja católica, o nosso percurso histórico teria sido outro, mais sombrio naturalmente.
*Publicado no “Terra Nova” de Novembro de 2000

Querem datas giras para duvidar da validade do Acordo Ortográfico? Aqui vão algumas

sábado, 10 de agosto de 2019

Por Nuno Pacheco*
Com tão estranhas datas, como é que o AO “entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007”?
Invocando a Lei de Imprensa, quis o ministro dos Negócios Estrangeiros rectificar duas afirmações por mim feitas na crónica “O acordo ortográfico ainda é uma caixinha de surpresas” (25/7/2019): a primeira é que, na verdade, já respondera ao deputado José Carlos Barros (PSD); a segunda é que, no pedido que o deputado lhe endereçara, solicitando acesso aos instrumentos de ratificação do Acordo Ortográfico (AO) depositados no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), este não se tinha identificado como coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. É verdade, tem razão nas duas! A resposta foi enviada (embora nem o deputado soubesse dela, quando lho perguntei) e ele, na verdade, identificara-se “apenas” como deputado. Mas teria feito alguma diferença para a resposta dada? Que os documentos solicitados não poderiam ser mostrados porque (escreveu o ministro) “detêm natureza de documento diplomático e, por isso, constituem documentos de acesso legalmente restrito”? Na verdade, o deputado podia até intitular-se ministro plenipotenciário da Santa Sé, que nada obteria dos cofres sagrados da diplomacia.
Mas sagrados porquê? Terão os instrumentos de ratificação do AO algo secreto, como dados sobre segurança interna, defesa, estratégias a adoptar em casa de invasões ou guerras? Não, teoricamente falam apenas de ortografia. Então porquê tanto segredo? Talvez isto ajude: o deputado enviou o seu pedido, pelos trâmites legais, a 16 de Junho; o ministro, também pela mesma via, despachou a resposta no dia 18 de Julho. Aliás, nem foi bem ele, a resposta vinha assinada pela sua chefe de gabinete e nem foi enviada directamente ao deputado, mas sim à chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto dos Assuntos Parlamentares. Parece que tem de ser assim, lá por São Bento, para tornar as coisas mais rápidas. Demorou, tudo isto, um mês e dois dias. Mas para responder ao PÚBLICO, o ministro já demorou… menos de 24 horas. E nem recorreu a chefes de gabinete, assinou ele próprio o documento. O que justifica tal pressa? Talvez irritação. O kaiser do Acordo Ortográfico, como lhe chamei e repito, já não deve poder aturar os que constantemente lhe pedem que o seu ministério (MNE) seja claro e transparente, para que não o acusem de omitir dados. Mas tem bom remédio, o bem-amado kaiser: exiba os comprovativos. E tente justificar as datas que adiantou ao PÚBLICO, como antes fizera ao deputado. Mas vamos a elas. Para o Acordo Ortográfico entrar em vigor era necessário, de início, o depósito dos “instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa” (no MNE). Em 1990 previa-se que entrasse em vigor em 1994. Não entrou, e isso levou a dois protocolos modificativos, assinados respectivamente em 1998 e 2004, o primeiro dispensando a mirífica data e o segundo reduzindo para três o número de Estados necessários para a validação. Só que cada um destes documentos precisava, como é óbvio, de ser não apenas validado pelos Estados em causa como a prova dessas validações ser depositada oficialmente em Portugal.
Irritado? Tem bom remédio, o ministro: exiba comprovativos. E tente justificar datas que não batem certo
O que escreveu o ministro, “para esclarecimento dos leitores interessados”? Que “Portugal procedeu ao depósito do seu instrumento de ratificação do Acordo Ortográfico a 30 de abril de 1996 e depositou o instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 13 de maio de 2009.” E o primeiro, ratificou-o quando? Ou esqueceu-se?
Cabo Verde, segundo o ministro, “depositou o seu instrumento de ratificação do Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa a 5 de dezembro de 2006 e procedeu ao depósito do instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006.” Não refere a data do depósito de ratificação do próprio AO, que Cabo Verde terá aprovado internamente pelo Decreto-Lei 26/91, de 1 de Abril de 1991. Quando terá sido? Nesse mesmo ano? Muito mais tarde? Era importante saber. Mas em relação a este país ainda há outra coisa, bem mais absurda. No Boletim Oficial da República de Cabo Verde n.º 22, de 30 de Maio de 2005, foram publicados dois decretos, ambos com a data de 30/5, um aprovando o primeiro protocolo (4/2005) e outro o segundo (5/2005), para entrarem ambos em vigor “no dia seguinte ao da sua publicação”, ou seja, a 31 de Maio. Isto faria sentido se três anos e meio mais tarde não surgisse, publicado também no Boletim Oficial da República de Cabo Verde, no n.º 47 de 14 de Dezembro de 2009, um outro decreto, o n.º 10/2009, onde se dizia: “Considerando que o Acordo entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007” e “tendo em conta que, de entre outros aspectos, o protocolo [não diz qual, embora reÆra no preâmbulo ambos, o primeiro e o segundo] já entrou em execução no Brasil (desde Janeiro de 2009), o Conselho de Ministros determinou que em Cabo Verde a entrada em execução do referido Acordo Ortográfico seja em Outubro de 2009.” Pasme-se: em 14 de Dezembro determina-se que uma coisa entre em vigor dois meses e meio antes!
Não é exclusivo de Cabo Verde, esta “viagem no tempo”. Já em Outubro de 2010, o tradutor João Roque Dias reproduzira no Facebook o Aviso n.º 255/2010 do MNE português, que o Governo fizera publicar no Diário da República n.º 182 (de 17 de Setembro de 2010), em que se informava que o Acordo Ortográfico tinha entrado em vigor em Portugal em 13 de Maio de 2009 (data, diziam, do “depósito do respectivo instrumento de ratificação”). Ou seja, como comentou à data João Roque Dias: “um ano, quatro meses e quatro dias antes”. Será isto normal?!
Mas voltando a Cabo Verde. É curioso que, garantindo o ministro que este país “procedeu ao depósito do instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006”, o artigo 3.º do Decreto n.º 10/2009, de 14 de Dezembro de 2009, diga isto: “O Governo de Cabo Verde deve, com a urgência possível, notificar o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Portugal, sobre a aprovação do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e a entrada em execução e em vigor desse mesmo instrumento normativo.” Vejam: em Dezembro, Cabo Verde garantia que “a entrada em execução seja em Outubro” (primeira viagem no tempo); e, depois, dizia que “deve, com a urgência possível”, notificar o ministro de um depósito que este diz ter recebido três anos antes (segunda viagem no tempo, ou um bom capítulo para uma qualquer Guerra das Estrelas).
Mas porquê a data de 12 de Junho de 2006? Fácil. Porque é essa data que o ministro dá para o depósito, por parte do Brasil, do “instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006”. Conclusão: numa miraculosa conjugação de estrelas, Brasil e Cabo Verde entregaram a mesma ratificação no mesmo dia e ao mesmo tempo! Só é pena que Cabo Verde se tenha lembrado, três anos e meio mais tarde, e ainda por cima num decreto publicado, que precisava avisar o MNE português de que ainda lhe faltava fazê-lo…
Resta São Tomé e Príncipe, para completar o quarteto onde assenta o malfadado acordo. O que diz o ministro? “No que diz respeito a São Tomé e Príncipe, este depositou o instrumento de ratificação do Acordo Ortográfico, do Protocolo Modificativo e do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 6 de dezembro de 2006.” Tudo ao mesmo tempo? Vejamos: há, de facto, uma resolução publicada no Diário da República de São Tomé e Príncipe n.º 48, mas de 29 de Dezembro de 2006. Ou seja, posterior à data avançada pelo ministro. Mas essa Resolução, n.º 04/VIII/06, aprovada na Assembleia Nacional em 29 de Junho de 2006, refere-se apenas ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (“cujo texto faz parte integrante da presente Resolução”), omitindo qualquer dos protocolos que o modificaram. E não há registo de nenhuma resolução ou decreto posterior, no diário oficial são-tomense, que se lhes refira.
Finalizando (por agora): se Portugal só ratificou o Segundo Protocolo em 2009, a 13 de Maio (data célebre, não devido à ortografia mas a Fátima); se de São Tomé não se conhece registo de que tal protocolo tenha sido mesmo ratificado; e se Cabo Verde, em Dezembro de 2009, ainda estava a pensar notificar o MNE, “com a urgência possível”, da sua ratificação interna, como é possível afirmar (como se lê em notas, avisos e decretos) que o AO “entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007”? Não era altura de tais documentos serem mostrados a uma alta instituição, independente e idónea (talvez a Presidência da República ou a provedora de Justiça), para deslindar, seriamente, esta monumental trapalhada?
*Jornalista. (nuno.pacheco@publico.pt)
Público de 09.Ago.2019

O acordo ortográfico ainda é uma caixinha de surpresas

domingo, 28 de julho de 2019


Por Nuno Pacheco*
Há um antigo filme de animação da Disney, que talvez conheçam, onde um trio composto por Pato Donald, Zé Carioca (olá, Brasil!) e Panchito (viva, México!) viaja pela América Latina à descoberta dos usos, costumes e diferenças da metade sul do continente americano. Ao filme, o sétimo assinado por Walt Disney, foi dado o título The Three Caballeros, título este que no Brasil foi mudado para Você já Foi à Bahia? e em Portugal para A Caixinha de Surpresas. O mais curioso é que o filme é datado de 1945, ano em que terminaria a Segunda Guerra Mundial e em que Portugal e Brasil assinavam o seu primeiro acordo ortográfico, que por razões já muito faladas viria a ser denunciado pelo Brasil em 1955, dando origem à novela que conhecemos.
Pois bem: como nas animações da Disney, também o Brasil (onde estás, Zé Carioca, que tanta falta fazes?) parece propenso a ser, nesta matéria, uma caixinha de surpresas. Primeiro foi o jovem Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência de Jair Bolsonaro, que a 6 de Abril publicou no Twitter um textinho a dizer que o Brasil devia livrar-se da tomada de três pinos, das urnas electrónicas e do acordo ortográfico. Depois, foi a vez do deputado Jaziel Pereira de Sousa, do Partido da República (centro-direita), com imediata adesão da deputada Paula Belmonte, do Partido Cidadania (antigo PPS e PCB), requerer a “realização de audiência pública a fim de discutir a revogação do acordo ortográfico da língua portuguesa”. Esteve marcada, mas foi depois adiada para 13 de Agosto.
Agora, no morno e simpático ambiente cabo-verdiano do Mindelo, onde se realizou em 19 de Julho a XXIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), este nosso pequeno mundo ouviu o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, tecer encómios ao acordo ortográfico, “reiterando a importância atribuída pelo Brasil” ao dito e afirmando esta coisa extraordinária: “Entendemos que alguns Estados-membros que ainda não ratificaram este importante ato unificador poderão apresentar novos questionamentos quanto à própria evolução natural do instrumento. A reabertura do acordo nos deixaria, contudo, sem qualquer marco legal para a gestão do idioma português. Por isso defendemos, uma vez mais, a tese de que se faz necessária a ratificação do acordo ortográfico por todos os membros da CPLP, para depois cuidarmos da sua eventual retificação.” Onde é que já ouvimos isto, o “assinem que depois logo que vê”? A duas notáveis figuras da nossa ortofolia: Malaca Casteleiro, um dos inventores da coisa; e Augusto Santos Silva, lídimo defensor da causa e reconhecido Kaiser do acordo ortográfico.
Será que não foram cumpridas todas as regras deste jogo? Será que ainda teremos outras surpresas na caixinha até agora fechada a sete chaves?
É como se fôssemos comprar um automóvel com riscos na tinta, vidros rachados e buracos no motor e nos dissessem, candidamente: “Compre, compre, que nós depois o arranjaremos.” Comprariam? Só se fossem parvos. Portanto, uma coisa que tem erros e incongruências está a ser impingida aos que ainda inteligentemente não engoliram a Ipatranha com a promessa de que, se assinarem, se responderá (na langue de bois diplomática) aos “novos questionamentos quanto à própria evolução natural do instrumento.” Ou seja: ao disparate puro que se sabe.
Curiosamente, porém, no extenso (e bastante maçador) comunicado final da dita reunião, este fervor acordista só tem eco num parágrafo. Aquele em que, já no capítulo das congratulações, diz o seguinte: “[Os ministros presentes] Saudaram os esforços do conselho científico do IILP para a ativação do Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa (COLP), cuja primeira reunião deverá ocorrer em outubro de 2019, na cidade do Porto.” Mais uma sigla? É verdade, mais uma. Já não bastava o inenarrável IILP, agora teremos um COLP. Que, pelo nome, há-de ter conselheiros, como é bom de ver. Um conselho de ortografia! E logo reunido no Porto, a cidade natal do nosso bem-amado Kaiser do acordo ortográfico! Há-de ser um mimo, verão.
Esta é uma das surpresas que nos reservavam. A outra veio do Brasil, com uma posição que não se sabe se corresponde a um retrocesso no ímpeto revogador, ou se é apenas passageiro patoá diplomático para animar reuniões em que a moleza de espírito esvazia tudo o resto. Mas a terceira surpresa é um pouco mais irritante. O bem-amado Kaiser não teve tempo para responder (tão ocupado que andará) a um requerimento do coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, em que este requeria acesso aos instrumentos de ratificação do AO depositados à guarda do MNE, o seu ministério. Em 30 dias (prazo legal para o governo responder a requerimentos deste tipo), a resposta foi o silêncio. Terá o bem-amado Kaiser algo a esconder? É que se não tem, e se adora assim tanto a sua “dama” ortográfica, mostre-os. Ficávamos todos mais descansados por saber que, nesta tristíssima aventura, que nos conduziu a uma aberração sem nome, ao menos tinham sido cumpridas todas as regras do jogo. Ou será que não foram? Ou será que afinal ainda teremos outras surpresas na caixinha até agora fechada a sete chaves?
*Público de 25.Jul.2019


O livro é na escola: leitura e escrita no reino digital

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Por António Carlos Cortez*
A reboque de um recente programa da RTP, o Prós e Contras, em que o tema em destaque era a educação face a um novo paradigma pedagógico assente nos multimédia, creio ser oportuno deixar aqui alguns princípios dos quais a escola actual não poderá abdicar se quiser resistir contra aquilo a que, noutras ocasiões, tenho designado por “ditadura do banal”. Havendo alguns projectos de ensino cuja novidade pode fascinar quem se deixe iludir pelas propostas sempre moderníssimas neste reino de boas intenções que é a educação, confesso não partilhar do espanto e desse fascínio. Quando me falam de salas de aula onde há computadores pergunto-me sempre onde ficam os livros.
São muitas as razões que levam a que directores de escola e corpo docente acreditem que permitindo o acesso aos suportes informáticos (do iPhone ao tablet e outros de inúmera forma e feitio) as aprendizagens se consolidam. O primeiro argumento que usam é a esgotada crença de que, desse modo, os mais jovens ficam como que implicados e motivados para os conteúdos em presença. Não estou seguro de que assim seja. Se, num primeiro momento, a novidade do uso dos multimédia pode dar a impressão de que, na aula, serão novas e profundas as aprendizagens, a verdade é que as lições de Heidegger, ou de São Basílio de Cesareia, continuam vivas e actuais. No contacto com o texto é que o aluno pode descobrir universos de linguagem insuspeitados. Nada se pode comparar, em concentração e exigência, à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às “luzes impuras” da língua técnica. E, para que a História nos auxilie, recorde-se que os totalitarismos trazem sempre consigo o império da técnica, o léxico do empreendedorismo.
Queimar os livros ou, como hoje, querer reduzi-los a mera curiosidade de museu, isso mostra os caminhos sem retorno de regimes que, a pretexto da inovação, apagam a memória e a espessura cultural de que o humano tem de ser feito.
Byung-Chul Han, num livro essencial sobre este assunto (No Enxame — Reflexões sobre o digital, Relógio d’Água, 2016), considera, e bem, que nesta “sociedade do cansaço” que é a nossa, a circulação rápida das informações acelera, para além do capital, o modo como o sujeito pós-moderno (um projecto, mais que um sujeito, diga-se) se deixa penetrar por uma massa não filtrada de informações (as stormshits). Não raro esse dilúvio informativo é responsável pelas IFS (Information Fatigue Syndrom). Paralisia da capacidade analítica, ansiedade, incapacidade de assumir compromissos, foi David Lewis quem, em 1996, provou que esta doença psíquica deriva numa incapacidade de pensar. “O excesso de informação conduz à atrofia do pensamento”, dizia Byung-Chul Han.
Ora, uma escola que se transforme num lugar onde o pensamento é substituído pelo permanente fluxo de ícones é uma escola que despreza o seu passado e ignora a importância da palavra. Isto é: da linguagem. E não é disso mesmo que os professores hoje se queixam? Seja em que grau de ensino for, não estamos perante crianças e jovens, alunos do 1.º, do 2.º ou do 3.º ciclos, e do secundário, ou até mesmo na universidade, incapazes de seleccionar informação, de relacionar conceitos e factos? Não é evidente para quem lecciona que, desde há uns bons 15 a 20 anos a esta parte, os mais jovens carecem de um vocabulário alargado? Não é verdade que os textos expositivo-argumentativos, insertos no Exame Nacional de Português, põem a nu as fragilidades dos nossos jovens no que respeita ao saber histórico-cultural e à redacção de um discurso lógico? Os exemplos que elencam, na maior parte dos casos, não são simplesmente casos pessoais, redundando ora na superficialidade, ora no tom opinativo? Sem hábitos de leitura de textos de teor crítico-ensaístico, sem capacidades de inferência, sem o domínio dos mecanismos de coesão e coerência, e sem domínio referencial, não vemos o modo como falam e escrevem na escola e na universidade? Não é tudo isto verdade? Ainda mal. É precisamente por isto que o computador em sala de aula deve ser usado com parcimónia e bom senso.
Nada se pode comparar à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às ‘luzes impuras’ da língua técnica
O paradigma de uma sociedade transparente, em que o privado tem de ser mostrado pois só assim se julga estarmos a fazer democracia, esse é um modelo erradíssimo quando aplicado à pedagogia e à vida social no seu todo. “O aumento da informação não é suficiente para esclarecer o mundo”, diz o filósofo sul-coreano, acrescentando: “A fadiga da informação é também responsável por sintomas que são característicos da depressão. A depressão é [...] uma afecção narcísica. É uma relação excessiva e patologicamente investida do indivíduo consigo próprio [...]. A percepção do sujeito narcísico-depressivo capta apenas o eco de si próprio [...]. O mundo surge-lhe como reduzido a variantes da sua pessoa.” (p. 75).
Pois não é justamente esse naufrágio em si próprio que vemos acontecer a muitos dos nossos alunos, os quais não viveram na escola senão a mesma ideologia da estupidificação que vivem, em regra, no seu quotidiano? Que utopia existe na escola? Que ideal educativo? Que programa cultural pode elevar o nosso ensino a mais que a famigerada finalidade oca dos exames? As redes sociais, do Twitter ao Facebook, agudizam essa visão de mundo dependente de uma falácia perigosíssima para a educação: aceitar que a escola, para ser sedutora, deve reproduzir a sociedade digital que a rodeia. As massas de dados com que os alunos e professores, reféns desta ideologia do psico-poder, terão de lidar eclipsará o conhecimento (capacidade de análise), e pode mesmo minar a Democracia. Transformadas as instituições em lugares onde ao spectare latino (”spectare” é olhar para trás, pressupondo uma compreensão do tempo, da durée e da lentidão na leitura e na escrita) se sobrepõe o espectáculo, que escola é a nossa? A relação pedagógica deve estar ancorada naquele respeito (respectare) que eleva o aluno a um patamar de sujeito construtor de conhecimento. Quando a escola aposta no sujeito transformado em projecto cai-se na escola-espectáculo: digresssiva, ululante, sem um horizonte a que apontar e de que a civitas e não o sucesso deveria ser o farol. A escola, como outras instituições, sem respeito, decai e “Uma sociedade sem respeito desemboca numa sociedade do escândalo” (Han, 2016:13).
É por isso que o livro e a leitura e a escrita não podem ser postos de parte. As formas electrónicas devem estar ao serviço do livro impresso e da redacção. Ler implica anotar e sublinhar; exige tempo. Escrever é o fruto de um silêncio contemplativo (à letra: “Construção do tempo”) e é disso que a escola necessita: de tempo para ler e comentar por escrito; pensar a linguagem literária e transferir o saber literário para um discurso científico. Nessa aliança, a criança e o jovem não necessitam do computador em sala de aula, meio da excitação permanente dos sentidos, mas inimigo do Belo e da Consolação pelo Belo a que Steiner se tem referido. A perenidade do livro permanecerá, não duvido. O livro e a leitura da sintaxe e semântica de um dado idioma, é isso mesmo que pode impedir que o Mal da Banalidade vença a guerra da educação — nunca uma escola pensada para o imediato vingou. A leitura lenta e expressiva de um poema de Camões, a leitura comentada de um ensaio sobre a filosofia ou os belíssimos escritos sobre ciência e humanidades em Hegel ou Oppenheimer, em Einstein ou em Bento de Jesus Caraça, mesmo a análise de uma equação, não exige tudo isso ponderação e silêncio? Uma sala de aula com mil e um ecrãs... isso é convidar à indigência. A coacção do Google Glass elimina o respeito: essa distância sedutora que o aluno sente quando está perante o professor que ama os livros e não os ridiculariza em nome de qualquer espectáculo.
* Poeta, crítico literário e professor
(Público de 24.Jul,2019)


O Drama africano dos Meninos – Soldados

terça-feira, 16 de julho de 2019



Terminei recentemente a leitura do romance «Alá Não É Obrigado»* do escritor marfinense Ahmadou Kourouma.

Num resumo muito breve direi que a narrativa tem como protagonista um menino-soldado de “10/12 anos” de idade, Birahima, assim se apresentava ele. É que a mãe lhe dizia que ele tinha dez anos, mas a tia com quem ficou após a morte da mãe, acrescentava-lhe mais dois anos à vida.

É através do olhar arguto e perspicaz desta criança narradora portadora de uma linguagem madura e já sarcástica, incomum na sua idade -  criança que não teve tempo, nem direito de saber o que era a infância -  que o leitor vai percorrendo a história das guerras tribais violentas e dos não menos violentos golpes de estados em três países da costa ocidental deste Continente tão massacrado pelos seus. Ora em nome próprio, ora sob disfarçados e perigosos nacionalismos a roçar o que de mais ignóbil possui o sentimento tribal.

Ora bem, Birahima, o nosso narrador, sai da aldeia à procura da tia que supostamente estaria na Libéria. A longa caminhada, revela-se cheia de ciladas, para as quais, ele tudo faz para sobreviver e assim conseguir lograr o objectivo pretendido.
Segue por intermináveis regiões, acompanhando um grande “mago,” de nome Yacoube que de certa forma o protege. Tal como Birahima, embora em versão adulta, Yacoube também quer é sobreviver às balas. Deseja agradar os senhores da guerra; obter sustento; fugir aos esquartejamentos, aos fuzilamentos e  às mortes violentas que eram o dia-a-dia dos territórios percorridos por estas duas personagens.

O mago ou, o grande feiticeiro Yacoube, nos serviços que presta a diferentes chefes, vaticina-lhes quase sempre sucessos nos campos de combate, com glórias futuras e promessas de que será  - de acordo com o chefe  para quem trabalha na ocasião - o comandante máximo do país ou, mesmo da zona, quando se trata de extensa região rica e aurífera. Regra geral, o vaticínio saía mal. Ameaçados de morte, os dois companheiros, Yacoube e Birahima fugiam “a sete pés,” a cada logro descoberto.

Neste percurso de andarilho e bem errante, Birahima vive peripécias infernais em três países, a saber: Costa do Marfim, Serra Leoa e Libéria. Serve a vários senhores, quase todos eles comandantes das guerras intestinas. Pertence como soldado a muitos chefes tribais; participa em combates, como menino-soldado em diferentes exércitos, ao lado de crianças como ele, também meninos-soldados que matam e morrem por causas que eles desconhecem.

 No fundo, só assim ele conseguiria sobreviver (a razão de ser de tudo por que passou) para se encontrar finalmente com a tia, a única pessoa que poderia cuidar dele, menino órfão... Enfim, veremos se tal sucede...

Neste romance, o leitor é confrontado lado a lado com a ficção e com a história real da década de 90, a última do século XX, dos três países mencionados em que a violência, as intrigas, as perseguições, as feitiçarias, tudo isso intrincado numa rede fortíssima de ambições desmedidas dos dirigentes no poder e, daqueles que os combatem  e que querem apoderar-se-lhes do assento.

 Lemos no livro,  nomes reais  -  pois que eles estão no cerne dos conflitos - nomes como  Capitão Taylor, Príncipe Jonhson, Samuel Doe, para além de outros líderes da história recente de África, promotores  igualmente de muitos horrores, no espaço da narrativa onde circulam. Ora com chefes poderosos, ora como derrotados e massacrados pelos rivais.

A última parte do livro transforma-se numa autêntica crónica histórica.
A linguagem e o tom da narrativa estão conformados em humor, em ironia e em sarcasmo.
Há aparentemente, na voz do narrador, uma certa displicência humorística na arte de contar a sua história, e nota-se-lhe alguma frieza cautelosa, estudada, mas crente, na sua relação com Alá.

 Afinal, considera ele  que  “Alá não é obrigado” a socorrer a tudo o que lhe sucede de errado na vida, enquanto menino-soldado e, muito menos, responder aos apelos constantes invocados nas orações e/ou nas bruxarias dos comandantes de uma guerra ou, de várias guerras, muito más e sem fim à vista.

E nisto reside o encanto da narrativa, a sua linguagem ricamente irónica. 

Sem dúvida que o autor escolheu assim, a via menos penosa, menos “real” mais evasiva, para falar de violência e para colocar o leitor perante o drama.
Assim realizado, a leitura do livro «Alá Não É Obrigado» é empolgante até ao desenlace do enredo.

 Sobre «Alá Não É Obrigado» podemos falar em romance pícaro. Sem dúvida que isso cabe também na obra. O ardiloso, a astúcia, a velhacaria e mesmo a vilania, estão bem presentes em cada linha do livro e em moldes demasiados reais.

Para finalizar, transcrevo um trecho da apreciação crítica feita ao livro, pelo “Le Nouvel Observateur:” Uma fábula política, a um tempo divertida e feroz, destinada a figurar entre os grandes clássicos da literatura africana.”

*«Alá Não É Obrigado» edições ASA literatura.
 Porto, Portugal 2003.