sábado, 29 de fevereiro de 2020

O texto que se segue é o Editorial do Jornal Expresso das Ilhas de 26 de Fevereiro de 2020, de autoria de Humberto Cardoso. Por se tratar de um assunto actual e de grande interesse para o falante nacional aqui se publica também.

  Derivas linguísticas

Por altura da celebração do dia internacional da língua materna que acontece anual­mente a 21 de Fevereiro mais uma vez vozes se fizeram ou­vir a clamar pela “oficializa­ção” do crioulo. De entre es­sas vozes soou mais alto a do Ministro de Cultura que no seu discurso disse que “consa­grar a oficialização da língua cabo-verdiana como língua oficial em paridade com o português é o desígnio máxi­mo do povo cabo-verdiano”. O Presidente da República na sua mensagem instou a que se acelerem os mecanismos e se apurem os instrumentos para se cumprir a Constituição. Todos os anos repetem-se os apelos à oficialização, pede-se revisão constitucional urgen­te e deixa-se entender que há “opositores de oficialização” a enfrentar. Fica-se por saber é por que vias o Estado e o go­verno têm promovido as con­dições para uma oficialização em paridade com o português como comanda a Constitui­ção. Pressionar todos anos para se rever a Constituição não é promover condições. É procurar impor “facto consu­mado” para além de passar a culpa da inacção ou de falta de acção consequente para ou­tros.
A verdade é que a partir da revisão da Constituição em 1999 com a introdução do ar­tigo 9º sob a epígrafe “línguas oficiais” passou-se a referen­ciar o crioulo como tal. Reco­nhecendo existir dificuldades no seu uso na plenitude nas funções do Estado por razões que, entre outras, advêm de não se ter uma forma estan­dardizada de escrita, ficou es­tabelecido no nº2 do mesmo artigo 9º que o Estado deveria tomar medidas para as ultra­passar. Já no nº3 consagrou­-se logo o direito de todos de conhecer e de usar as duas lín­guas. Por isso é que ninguém se sente impedido ou inibido de usar o crioulo no país. O PR faz declarações em criou­lo, debate-se no parlamento em crioulo, pode-se depor nos tribunais em crioulo e a admi­nistração pública não deixa de responder se a solicitação vem em crioulo. Também não se pode falar de estigma so­cial derivado do uso da língua, quando pessoas de todos os extractos sociais e em todas as ilhas falam variantes do criou­lo nas mais variadas circuns­tâncias.
Por tudo isso é evidente que não faz sentido estar a apon­tar pessoas como opositores da oficialização do crioulo. Em relação ao que a Constituição estabelece há consenso geral. O problema surge quando não se cumpre a parte de “promo­ver as condições” e se faz fuga em frente não só com propos­tas de alterações constitucio­nais mas também forçando a sua adopção como língua de ensino. A justificação pela sua introdução urgente nas escolas em nome da quali­dade do ensino, da melhoria do sistema de educação e dos processos de aprendizagem não convence e isso já é no­tório na forte preferência de muitos pais e alunos pela es­cola portuguesa e outras esco­las privadas. Aliás, aconteceu algo similar noutras paragens nomeadamente em Madagás­car, Haiti e Curaçau onde as elites moveram os filhos para escolas francesas e holande­sas logo que se impôs a língua malgaxe o crioulo haitiano e o papiamentu nas escolas pú­blicas. Insistir nessa via natu­ralmente que cria “opositores” em todos aqueles que aflitos e sentindo-se impotentes vêm todos os dias a degradação do ensino e aprendizagem do português e seu impacto na qualidade do ensino ministra­do no país às novas gerações.
Em Cabo Verde o crioulo ainda oficialmente não é lín­gua de ensino, mas na prática o seu uso em todos os níveis de ensino, do básico à universi­dade, à discrição do professor, já afecta negativamente todo o processo de aprendizagem. Contraposto ao português em termos identitários gera resis­tências que impedem que as horas dedicadas ao português nas escolas se traduzam num domínio da língua que seja considerado satisfatório. De alguma forma ter-se-á falhado em passar às novas gerações o papel que as duas línguas tive­ram na sedimentação de uma identidade cabo-verdiana como se pode ver, por exem­plo, no papel do português na criação de uma literatura genuinamente cabo-verdiana e do crioulo na expressão da morna. O uso das duas línguas por todos os extractos sociais também indicia que não há uma relação antagonística, nem há necessidade de exclu­são de uma para afirmação da outra.
De facto não se é mais cabo­-verdiano falando só o criou­lo e hostilizando o português. Para todos devia ser evidente que o português não é amea­ça para o crioulo. Diferente do que se passa no Brasil e cada vez mais em outros países de língua oficial portuguesa, em Cabo Verde o português não é língua materna, possivelmen­te nunca foi e certamente que no futuro não será. Há quem queira ver no crioulo cabo­-verdiano o resultado de algu­ma espécie de resistência cul­tural. O mais provável é que seja um produto peculiar do isolamento e da precariedade destas ilhas. De outra forma não se compreenderia por que em países como o Brasil, os Estados Unidos e outros países os “afrodescendentes” não tenham criado uma qual­quer língua de resistência e pelo contrário acabaram por adoptar a língua do coloniza­dor como língua materna. E o facto não o terem feito não os impede de, por exemplo, fazer do samba um fenómeno cul­tural genuíno e expressão viva de uma cultura brasileira úni­ca também toda ela expressa em português.
Semanas atrás o VPM e Mi­nistro das Finanças no parla­mento constatou que não há competência linguística em francês e inglês que seria ne­cessária para que Cabo Verde pudesse investir numa rela­ção proveitosa com a África. A essas insuficiências acres­centa-se a cada dia que passa a manifesta dificuldade dos cabo-verdianos em fazer uso do português. Tanto no país como no estrangeiro essas di­ficuldades estão a prejudicar em particular os jovens no prosseguimento dos estudos e na procura de emprego. Pe­rante uma situação dessas o país devia já estar num esta­do de alarme e especialmente proactivo e enérgico na iden­tificação da raiz deste pro­blema que ameaça confinar e limitar as suas possibilidades de desenvolvimento. Infeliz­mente o que se vê na utiliza­ção do sistema educativo e da comunicação social pública e nos discursos de políticos é o contrário. Nota-se uma con­vergência em fazer do crioulo uma questão identitária, em procurar engajar os jovens numa luta contra a sua supos­ta desvalorização ao mesmo tempo que se faz um alerta para a existência de oposito­res, nas entrelinhas mentes colonizadas. Enquanto no Ruanda de Kagame se adop­ta o inglês como língua oficial para aumentar as chances de desenvolvimento do país aqui celebra-se a vitória do paro­quialismo mais crasso.
Humberto Cardoso

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

No rescaldo do Carnaval
- Algumas incoerências bizarras -
...Sei que me vão “cair em cima” por afirmar o seguinte:
Sempre achei de uma grande falta de respeito a uma etnia, a uma comunidade humana, por sinal, nossa vizinha, o facto de existir um grupo carnavalesco denominado “Os Mandingas”. Na mesma linha, mas um pouco mais suave e irónico, a existência da um grupo carnavalesco denominado: “Vindos de África.”
Sim, se existem defensores entre nós, quase fundamentalistas de que apenas somos africanos, esquecendo esses ditos fundamentalistas rácicos, o lado europeu que conjuntamente com o negro, nos deu a  nossa bela mestiçagem; “Vindos” de África,  assim apresentado em desfile carnavalesco, até parece um grupo exogéneo, “Vindos de...” algo exótico, vindo de fora e, passível de ser gozado, no timbre e no espírito folião do Entrudo.
Faço-me entender: o Carnaval é exactamente um período, uma época de libertinagem (permitem-me a expressão no seu sentido literal) em que se pode parodiar, gozar e troçar de situações, de pessoas e de factos que  normalmente - o gozo - é interditado socialmente em festas que não sejam as presididas pelo Rei Momo.
Ora bem, assim sendo, analiso o facto de se parodiar os Mandingas, ou os Vindos de África nesta acepção. É Carnaval, vamos lá parodiá-los... Carnaval é brincadeira, picardia, gozo e caricatura. É Carnaval, ninguém leva a mal...
 Também sei que os  grupos não estão para aí virados, nessa de fazer alguma meta-semântica ou, pensar no significado mais aprofundado historicamente dos seus mascarados...
Mas sejamos minimamente coerentes, uma vez que também quem faz isso, quem organiza e toma parte nestes grupos carnavalescos, até acredito que defenda valores positivos para o Continente africano.
Para melhor contextualizar o tema a que me propus, não posso esquecer e trago-a à colação, a admiração do escritor angolano, Agualusa quando assistiu a um Carnaval no Mindelo e terá exclamado ao ver o Grupo “Os Mandingas”...”Eh! pretos mascarados de pretos!”... Que estranho!
Imaginem um grupo de europeus mascarados de...”brancos”?... ou um desfile de Carnaval num país africano com um grupo “Vindos de África?
É certo que também me podem contrapor com as figuras que entrem  normalmente no Carnaval e que são por nós tidas por bonitas e mágicas como as fadas, as princesas, entre outras figuras renovadas nessa época. Mas essas são mitológicas. São figuras do nosso imaginário. Mas os Mandingas são reais, de carne, osso e  de sentimentos. E não devem gostar de se verem  parodiados...
Ou então, é o nosso ser mestiço que brinca com à-vontade com os dois lados...no caso, e até agora, apenas com o lado africano, pois desconheço que já tenha aparecido, entre nós, um Grupo folião, carnavalesco, denominado: “Vindos de Europa”. Se sim. Sou capaz de rever e de alterar este texto.


APRESENTAÇÃO DO LIVRO “FORÇAS EXPEDICIONÁRIAS A CABO VERDE NA II GUERRA MUNDIAL”

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O livro “Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial”, da autoria de Adriano Miranda Lima, vai ser apresentado no próximo dia 6 de Fevereiro, pelas 18H00, no Centro Cultural do Mindelo. A apresentação caberá à Drª Ana Cordeiro e o autor será representado pelo seu primo José Carlos Soulé.
     
      Já quase se perde na memória do povo das ilhas que, entre 1941 e 1945, durante a II Guerra Mundial, forças militares de 5. 820 homens, destacadas pela então Metrópole, desembarcaram em Cabo Verde e distribuíram-se por S. Vicente (3.015),  Sal (2.100) e S. Antão (705), onde prepararam posições defensivas contra um eventual invasor. Tudo aconteceu porque Portugal, embora neutro no conflito, foi pressionado pela Inglaterra e pelos EUA a reforçar a defesa das suas ilhas atlânticas (Açores, Cabo Verde e Madeira) para evitar que a Alemanha as ocupasse e tirasse proveito do seu potencial estratégico.

     É de tudo um pouco que fala o livro. Da actividade militar e seus envolventes e vicissitudes de ordem operacional e logística, mas também do alvoroço que a presença das tropas representou para a rotina e a pacatez das ilhas. A narrativa debruça-se sobre a interacção dinâmica das forças militares com as circunstâncias concretas que as envolveram no quadro da sua missão, e abre espaço, e bastante, para pôr em evidência as múltiplas situações em que os militares interagiram com as populações e a sociedade civil.

      Daí que haja muitas histórias para contar, e algumas de grata memória para as populações, como a acção médica e o apoio sanitário que as tropas disponibilizaram para os civis, em que se destaca sobremaneira a figura grandiosa do capitão médico José Baptista de Sousa, cuja imagem ainda perdura na memória do povo de S. Vicente. Para não falar também das sobras de rancho que mataram a fome a muitas pessoas carentes, iniciativa em que se destacou o comandante de companhia capitão Fernando Marques e Oliveira.

      Relevo merece igualmente o pano de fundo social em que se desenrolou a missão das Forças Expedicionárias. As nossas ilhas foram à época assoladas por uma seca prolongada que, agravada pelo descaso ou pela inoperância do governo central, vitimou 24.463 criaturas, sobretudo aquelas que dependiam exclusivamente da agricultura para a sua sobrevivência. Do lado das Forças Expedicionárias reveste significado estatístico a circunstância da morte de 68 militares, trágica ironia porque as mortes não resultaram de acções violentas ligadas à actividade militar mas de doenças infecciosas que poderiam ter sido debeladas caso a penicilina estivesse já disponível em território nacional. Nesta particularidade, o quadro de carências era comum à população civil e à militar.

      Portanto, nas 250 páginas do livro a historiografia cruza-se com a sociologia e conta histórias reais de homens fardados e de vidas humanas.


Adriano Miranda Lima


Ressuscitou como morreu: como fraude. E ainda há quem lhe chame vocabulário

Por Nuno Pacheco*
Esteve catorze dias morto e ressuscitou milagrosamente em quatro horas. Bastou um texto (a crónica anterior a esta) para acordar as hostes do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), que se apressaram a devolver à vida o chamado Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (dito VOC), instrumento oficial do Acordo Ortográfico de 1990 (AO). Seria hipócrita desejar-lhe bom regresso, dada a sua absoluta inutilidade, mas a ressurreição permite voltar a um tema antigo: o VOC ressuscitou como morreu, como fraude. Acusação grave? Não. Grave é que haja quem acredite na sua utilidade e, pior, quem assim o mantenha.
Vamos por partes. O Acordo Ortográfico previa um Vocabulário Ortográfico Comum que deveria conter os vocábulos de todos os países envolvidos. Era a “unificação” tão apregoada pelos seus arautos. Porém, em vez disso, o IILP pôs-se a coligir “vocabulários nacionais”: Brasil, Portugal, Cabo Verde, Moçambique (que não ratificou o AO, note-se) e Timor-Leste. Falta Angola, Guiné-Bissau (que não ratificaram) e São Tomé e Príncipe (que ratificou). A par destes, há o Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, soma de todos.
O problema é que são todos praticamente iguais, construídos a partir de uma única base. O que até podia ser assumido, mas não é. Cada vocabulário nacional surge com nomes diferentes, coordenadores diferentes e edições diferentes. Um logro absoluto. Sem querer maçar os leitores, aqui ficam as 100 primeiras palavras e as últimas 50 palavras dos vocabulários nacionais. Que são as mesmíssimas em todos eles, sem qualquer variação. À frente da cada uma, vão, abreviadas, as respectivas classificações ali descritas: adjectivo (a), advérbio (ad) substantivo masculino (m) e feminino (f), verbo (v), nome próprio (np), interjeição (int): “a (determinante), a (preposição), aabora (f), aacheniano (m), aacheniano (a), aal (m), aal (f), aalclim (m), aalcuabe (m), aaleniano (a), aaleniano (m), aaleniense (a), aaleniense (m), aaleniense (f), aalénio (m), aalênio (a), aalense (a), aalense (m), aaná (a), aaná (m), aaná (f), aaquenense (a), aaqueniano (a), aaqueniano (m), aaquênio (a), aaquênio (m), aardvark (m), aardwolf (m), aariano (a), aariano (m), aarita (f), aarite (f), aarónico (a), aarónida (a), aarónida (m), aarónida (f), aaronita (m), aaronita (a), aaronita (f), aaru (m), aasto (m), ãatá (f), aavora (f), aba (m), aba (f), ababá (m), ababá (f), ababá (a), ababadado (a), ababadar (v), ababaia (f), ababalhado (a), ababalhar (v), ababalho (m), ababalidade (f), ababaloalô (m), ababangai (m), ababé (m), ababelação (f), ababelado (a), ababelador (a), ababelante (a), ababelar (v), ababelável (a), ababil (m), ababone (f), ababoni (m), ababosação (f), ababosado (a), ababosador (a), ababosamento (m), ababosante (a), ababosar (v), ababosável (a), ababroar (v), ababuá (a), ababuí (m), abacá (m), abacado (m), abacaí (m), abaçaí (m), abacalhoadamente (ad), abacalhoado (a), abacalhoar (v), abacamartado (a), abaçanado (a), abaçanar (v), abacanto (m), Abação de São Tomé (np), Abação e Gémeos (np), abacar (a), abacar (m), abacar (f), abacaro (a), Abaças (nome próprio), abacatada (f), abacataia (f), abacatal (m), abacate (a) e abacate (m).”
Grave é que haja quem acredite na utilidade deste vocabulário e, pior, quem assim o mantenha.
E, a fechar, todas estas: “zuraco (m), zuranti (m), zuraque (m), zurazo (a), zurazo (m), zurbada (f), zurca (f), zureta (m), zureta (f), zureta (a), Zurique (nome próprio), zuriquenha (f), zuriquenho (a), zuriquenho (m), zuriquense (m), zuriquense (f), zuriquense (a), zurpa (f), zurpilhado (a), zurpilhar (v), zurra (f), zurrada (f), zurrado (a), zurrador (a), zurrador (m), Zurral (np), Zurrão (np), zurrapa (f), zurrar (v), zurraria (f), zurre – interjeição, zurreira (f), Zurrigueira (np), zurro (m), zuruó (a), zurvada (f), zurvanada (f), zurza (f), zurzidela (f), zurzido (a), zurzidor (a), zurzidor (m), zurzidora (f), zurzidura (f), zurzir (v), zus – interjeição, zus-catatrus (m), zus-catatrus (int), zuzara (f) e Zuzarte (np).”
No do Brasil, e apenas neste, o primeiro “aalénio” surge (naturalmente) como “aalênio”, e esta é a única diferença; mas nos restantes países o segundo manteve-se “aalênio”; já em “aaquênio” é a variante brasileira que surge em todos os vocabulários nacionais, quando deveria ser grafada “aaquénio”, ao menos em Portugal. Outras bizarrias: para encher, constam dos vocabulários todas as entradas que integram a Toponímia (que está, aliás, num ficheiro à parte no sítio do VOC), o que dá entradas como estas: “Abação e Gémeos”, “Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde” (novas freguesias, resultantes da fusão de 2013) e “Zona Industrial do Porto Alto da Estrada Nacional Cento e Dezoito” (há, pasme-se!, 85 zonas industriais assim descritas, pelo nome completo, iguais em todos os vocabulários, apesar de serem sediadas em Portugal — mesmo no de Timor-Leste, que até há um ano tinha apenas uma fábrica!). Quem diz zonas industriais, diz aeroportos ou aldeamentos. Tudo serve para encher. Por exemplo, se procuramos por “ônibus” (que surge como “ônibus” no do Brasil e “ónibus” nos restantes), a informação nas fontes do vocabulário do Brasil é esta: “Corpus Brasileiro: alta”. Mas se um português ou um timorense forem procurar “ónibus” nos seus vocabulários, a informação nas “fontes” é: “Corpus Moçambicano: baixa”. Tem isto o mínimo nexo?
Para a semana há mais. 

*Jornalista – Público de 30. Jan.2020                                                
                                               

O lítio e os nossos litígios paroquiais

sábado, 23 de novembro de 2019



     Por estes dias, muito se tem falado nas reservas de lítio que o país pretende explorar, sabendo-se da sua abundância no território nacional. Considerado o petróleo do futuro, o interesse pelo lítio despertou quando começou a incrementar-se o seu uso nas baterias dos automóveis eléctricos. De facto, Portugal possui a sexta maior reserva mundial deste metal e a maior da Europa Ocidental. Conforme noticiado na imprensa, as seis principais reservas localizam-se na serra de Arga (dividida pelos concelhos de Caminha, Ponte de Lima e Viana do Castelo), em Covas do Barroso (Boticas), Barca d'Alva (Figueira de Castelo Rodrigo), Guarda, Mangualde e Segura (Idanha-a-Nova). 
      Há quem esteja seguro da importância estratégica que o lítio vai revestir nos tempos mais próximos, com um impacto no xadrez geopolítico à semelhança do que aconteceu e ainda acontece com o petróleo, e então imagina-se um mundo doravante mais dependente do lítio do que daquele combustível fóssil, o que certamente revalorizará o continente sul-americano, onde se localizam as maiores reservas planetárias, nomeadamente no Chile e na Bolívia, que poderão assim vir a equiparar-se aos países árabes maiores produtores de petróleo. Ligando as pontas, pergunta-se se é por mero acaso que aqueles dois países passam neste momento por uma instabilidade política.
      Quando, há alguns anos, tomei conhecimento do que seria uma boa notícia para os portugueses, pensei com os meus botões: − até que enfim acontece algo de bom, algo promissor que poderá romper com o ciclo de restrições que nos aprisiona e inibe a soltura do corpo e da alma. Porém, a inocência deste pensamento singelo não escondia a suspeição de que tudo poderá não vir a revelar-se fácil e escorreito na concretização do objectivo visado. É que a nossa memória colectiva regista várias oportunidades históricas que se perderam por causa de uma insuficiente agregação e cimentação de valores colectivos. Com efeito, foi com a epopeia dos descobrimentos e o comércio rendoso das especiarias da Índia, foi com o ouro do Brasil, foi com as potencialidades que as antigas colónias ofereciam, e foi, em certa medida, com os enormes recursos recebidos da CEE/UE no decurso da nossa adesão a essa comunidade. Apesar de auspiciosas, Portugal não conseguiu cavalgar devidamente essas oportunidades, continuando o mesmo país rural, pobre e atrasado, e em permanente ciclotimia. Ainda assim, a nossa inclusão na comunidade europeia representa uma oportunidade ainda não prescrita de virar definitivamente a página, se bem que inquieta que o enorme caudal de recursos comunitários destinados a Portugal não se tenha traduzido ainda em tabelas salariais mais condignas e mais próximas das da média da União Europeia.
      Sucede que desde que o governo colocou na sua agenda a exploração do lítio não tardaram a vir à cena várias associações ambientalistas, câmaras municipais, juntas de freguesia e grupos de cidadãos a protestar contra essa intenção, indiferentes às explicações sobre a importância daquele recurso para a transição energética. No âmbito dos ambientalistas, a QUERCUS exigiu a suspensão imediata do processo, argumentando que a extracção mineira pode comprometer as metas assumidas por Portugal relativamente à descarbonização da economia. Quanto à associação ZERO, ela recusa qualquer exploração em zonas protegidas, entendendo que no resto do território a análise deve ser feita caso a caso. Além disso, exige uma Avaliação Ambiental Estratégica sobre o impacto desta exploração na globalidade do país. Em resposta, o Governo deixou claro que naturalmente será feito um estudo de impacto ambiental para uma avaliação objectiva antes de tomar uma decisão concreta sobre cada caso. No entanto, tanto o Governo como a generalidade do mundo científico fazem questão de sublinhar que a exploração do lítio é uma alternativa ao petróleo, cuja pegada de carbono tem a dimensão que se conhece e ameaça o equilíbrio ecológico do planeta.
      No programa Prós e Contras do passado dia 11 do corrente, o lítio foi o tema tratado, tendo sido confrontadas opiniões as mais diversas, estando presente o secretário de Estado adjunto da Energia, João Galamba, que exprimiu e explicitou a posição do Governo. A moderadora do programa, Fátima Campos Ferreira, soube estar à altura da sua função, mostrando uma rigorosa equidistância relativamente às diferentes intervenções. No fim, fiquei com a convicção de que estamos longe de um consenso sobre a exploração deste recurso, muito devido à prevalência de uma visão paroquial sobre o interesse colectivo. Admite-se, contudo, que os contestatários não estarão contra o lítio se os eventuais efeitos poluentes da sua exploração se produzirem noutro quintal que não os seus.
      Em 13 do corrente, o mesmo secretário de estado foi entrevistado na SIC pelo jornalista de economia José Gomes Ferreira sobre a questão do lítio. O jornalista, como sempre astucioso e matreiro nas suas perguntas, algumas delas pertinentes, pareceu, no entanto, encarar o governante como alguém impregnado de uma peste a necessitar de erradicação antes que contamine a comunidade. Pouco se preocupou com o cabal esclarecimento público, mais apostado em apanhar em falso o entrevistado.
      Desta forma, é de recear que a exploração do lítio venha a naufragar no tumulto das nossas divergências congénitas, perdendo-se mais uma oportunidade histórica. É o mesmo que acontece com as reformas estruturais geralmente reconhecidas como indispensáveis à sustentabilidade das contas públicas e que governos sucessivos não têm conseguido implementar, pela dificuldade de obter consenso em torno de matérias essenciais. O entendimento genérico é que haja reformas, sim, desde que não interfiram com os interesses da minha autarquia, da minha corporação e dos meus negócios, ou com as minhas convicções ambientalistas ou outras.
      Recentemente, passei os olhos pela História de Portugal de Oliveira Martins, que traça do Infante D.Henrique o retrato moral e psicológico de um “homem duro para as afeições, desapiedado e esquivo”, e no entanto reconhecendo-lhe os atributos de audácia temerária e persistência tenaz com que levou a cabo a gesta dos Descobrimentos. O Infante não olhava a meios para atingir os seus fins e fez ouvidos moucos aos que se opuseram aos seus projectos então considerados dispendiosos e arrojados, mas a verdade é que com a sua acção Portugal se inscreveu na História Universal com letras graúdas. Será que se tem de concluir que só estamos fadados a grandes cometimentos com a liderança de poderes absolutos e totalitários? Que a democracia contém o ónus de algo incontrolável que nos estorva e estrangula pela simples dificuldade em interpretar correctamente a essência dos seus preceitos?
      Precisamos do lítio, de reformas administrativas profundas e, acima de tudo, de bom senso, de contenção de excessos de estado de alma e de convergência efectiva e assumida em torno dos objectivos comuns, em detrimento do egotismo, do individualismo e do paroquialismo que estreitam a nossa margem de sucesso na luta contra a adversidade. Só assim se criam condições reais para que possamos beneficiar, como é desejo de todos, de melhores salários, melhores pensões de reforma, melhor saúde, melhor habitação e melhor ensino. A democracia tem de ser encarada como potenciadora dos valores que enriquecem o homem e a sociedade e promovem e alicerçam a construção do futuro. Não podemos é continuar na mesma senda, divididos, confusos e estagnados em impasses colectivos.  

Tomar, Novembro de 2019
Adriano Miranda Lima

Racismo? Xenofobia? Ignorância?...

terça-feira, 19 de novembro de 2019



Ultimamente tenho ouvido, assistido e partilhado cenas hilariantes algumas, surreais outras, e confrangedoras quase todas, ocorridas à chegada de nacionais nos aeroportos do país.
Tudo isso se tem passado nos nossos aeroportos, com a polícia de fronteira, à chegada de passageiros, sobretudo de cabo-verdianos que trabalham no estrangeiro e que vêm de visita à  terra. Diga-se em abono da verdade, que de uma maneira geral, essa mesma polícia acolhe-nos com uma sobranceria tal, que nos leva a questionar porque será? É como se estivessem a fazer um frete e nós fôssemos os culpados. Isto tudo depois de longas, desorganizadas, demoradas e penosas filas, para o carimbar dos passaportes. E para quem vem estafado e desgastado de viagem, por vezes longa, e que só almeja chegar à casa ou ao hotel para descansar, convenhamos que não é propriamente a melhor recepção. E isso tem sido bastante notório recorrentemente, nos  tempos recentes, melhor dito, ultimamente.
 A propósito disto tudo, a par de muitas histórias das quais tenho conhecimento, não resisto contar esta que se passou com uma das minhas sobrinhas, filha do meu irmão, que veio este ano de férias com os filhos a quem queria mostrar a terra natal, a sua ilha, o Sal. Chegados  à fronteira, o atendimento da agente policial não foi de modos, teimava categoricamente com a minha sobrinha que ela não poderia ser cabo-verdiana, porque era, cito: “branca, loira e de olhos azuis”. Imaginem o argumento? Nem sequer a agente teve o bom senso e o discernimento mínimo de verificar a gratuidade da sua atitude agressiva e antipática, incompatível com as funções que exerce de anfitrião – admitindo que ela não fosse cabo-verdiana – de um país que tem no turismo uma das suas grandes fontes de receita. A elegância e a simpatia não significam menor firmeza nem menor rigor no cumprimento das suas funções.
Mas vamos por partes, a minha sobrinha é cabo-verdiana dos quatro costados como sói dizer-se, a mãe é de São Nicolau e o pai do Fogo. A sua ascendência (avós e bisavós) remontam às ilhas de São Nicolau, Santo Antão, Fogo e São Vicente. Por sinal, tenho organizada a nossa àrvore genealógica.
Mas que vem a ser isso? Um acto de racismo? De xenofobia? Ou de puro desconhecimento do fenótipo diverso do mestiço?
Os tipos cabo-verdianos, e graças à nossa bela mestiçagem, podem variar do negro ao branco, passando pelo mulato, pelo mestiço de tez mais clara, ou mais escura, de olhos claros, ou não, de cabelos lisos ou crespos, já que a cor do cabelo pode ser artificial. Todos estes tipos, acontecem entre nós. As misturas dão tudo isso. Ou a senhora Agente não aprendeu isso?
Bem a troca de palavras chegou a tal ponto com a recusa da agente em considerar cabo-verdiana a minha sobrinha, que a determinada altura esta se desfez em lágrimas, porque se sentiu vexada e humilhada frente aos filhos, ao ser alvo de um acto de racismo e de discriminação totalmente gratuito.
 Terá sido pouca sorte ter sido atendida por uma desconhecedora do fenótipo cabo-verdiano? Ou são procedimentos ditados pela falta de informação/formação profissional?  É que para quem trabalha na polícia e, sobretudo, na fronteira o conhecimento do fenótipo cabo-verdiano é básico e elementar. Isto é, o aspecto visível, resultante da combinação entre os nossos traços hereditários e as condições do meio ambiente em que vivemos... E nesta conformidade o cabo-verdiano é portador de uma fenotopologia diversa. De Santo Antão à Brava passámos por todos os tipos.  Sempre tivemos e continuamos a ter, diversos tipos, as autoridades - por dever de ofício - deviam ser as primeiras a reconhecê-los.
Portanto, definir o cabo-verdiano, de forma definitiva e acabada pelo seu aspecto é um risco que só deve ser corrido com muita cautela e prudência para não ferir gratuitamente susceptibilidades.
Vou ainda contar de forma muito breve uma história que se passou com uma antiga aluna minha e boa amiga, natural da Praia; passada no aeroporto da Praia. Havia saído da sua cidade, um mês antes para férias nos Estado Unidos; regressada ao país foi também atendida por uma agente. Esta ter-lhe-ia questionado se ela era cabo-verdiana, ao que a minha jovem amiga retorquiu com humor para disfarçar a ira que queria tomar conta dela: “Senhora Agente, sou cabo-verdiana desde 1460... e acrescentou-me ela com graça: “...resta saber se ela percebeu o que eu quis dizer”. Como nota, adito que essa minha antiga aluna e amiga é uma mestiça de tez clara e cabelos lisos…
Comigo tem-se passado também algo estranho, saio e entro com frequência no aeroporto da Praia e ultimamente, invariavelmente, de cada vez que entro, apresentado o passaporte cabo-verdiano, sou perguntada há quanto tempo vivo na Praia. E a minha resposta tem sido: “há cinquenta anos e a senhora agente se calhar nem era nascida...”
Brincadeira, humor e indignação à parte, vamos instruir seriamente os nossos agentes que o cabo-verdiano é mestiço, e como tal pode-se encontrar um largo espectro de fenótipos, com diferentes tonalidades de tez, cabelos e cor de olhos. Assim feito, evitam-se situações que não só possam ferir susceptilidades na abordagem ao ser cabo-verdiano ou não, mas também configurar atitudes racistas, xenófobas ou de desconhecimento da sua própria História e da sua cultura.
Posso afirmar - da minha experiência  -  que nunca antes havia acontecido com tamanha frequência como agora, essas cenas na fronteira aeroportuária. De tal modo frequentes, que chego a questionar se será uma orientação recebida? um figurino a seguir? Não, não creio...
Ninguém está a pedir que os agentes tenham sempre um sorriso rasgado no atendimento de cada passageiro.  Não. Não se trata disso. O que  solicitamos encarecidamente, é que haja atendimento profissional - cortês, correcto, demonstrando conhecimentos  -  e não esta triste e inútil demonstração de falta de conhecimentos elementares.  
Será que a leitura do nosso documento de identificação de viagem – o passaporte – não diz nada ???...
Ora bem, há que encarar isso com espírito pedagógico. Isto é, precisamos de fornecer aos nossos agentes policiais, atendentes nos postos fronteiriços dos aeroportos nacionais, formação e informação sobre as origens e o cruzamento de raças que originaram o cabo-verdiano, mestiço na sua fenotopologia e mestiço na sua cultura. Esses são os nossos traços naturais.
Queremos e desejamos ter sempre a máxima consideração para com a nossa polícia fronteiriça para que ela possa com segurança  – possuidora de  informação e de conhecimento    desempenhar eficazmente, a nobre missão de que está imbuída.


A fealdade de certa paisagem urbana nas nossas ilhas

sábado, 9 de novembro de 2019





  Há tempos, li o comentário de um conterrâneo que era de veemente severidade sobre a realidade da paisagem urbana do Mindelo da actualidade. Entre outros mimos, disse que a cidade parece uma grande favela, o que não é exagero se incluirmos na apreciação certas zonas periféricas. Mas também já li desabafos diferentes mas não menos depreciativos, como dizer-se que em certas zonas a cidade se assemelha a bairros pobres de comunidades do Médio Oriente ou do Corno de África, quer pela tipologia das habitações, que nada tem a ver com a arquitectura que mais nos caracteriza, quer pela ausência de qualquer ideia de ordenamento. Com particular singularidade, outra apreciação comparava os arredores do Mindelo a uma cidade bombardeada.

      Os que de fora nos visitam têm idêntica opinião. Por exemplo, um amigo meu português, que amiúde vai de férias às nossas ilhas, por gostar da nossa gente, regressou há dias da Boavista e confessou-me que não compreende por que em Cabo Verde cada um constrói a seu bel-prazer, sem regra e sem respeito por uma ideia de integração num conjunto.

      O que tudo isto tem de verdade no Mindelo, será porventura ainda mais gravoso noutras cidades, como a Praia. Com efeito, estamos perante falhas clamorosas ao nível da arquitectura paisagística, no Mindelo como em outras cidades cabo-verdianas que cresceram à margem de regras que são imperativas numa cidade que se preze. A arquitectura das cidades, por princípio, deve integrar as artes criativas, as ciências naturais e as ciências sociais, e da sua conjugação resultam soluções que sempre têm de se coadunar com a história, a cultura e a traça dominante herdada do passado. Nada disto se verifica na nossa terra e a pergunta que se põe é se tudo se deve à impreparação ou incompetência dos arquitectos. Direi que não porque os nossos arquitectos têm a ciência necessária para conceber qualquer tipo de projecto.

      O que sucede na nossa terra é que não há nem nunca houve rei nem roque nesta matéria, desde a independência, sobretudo a partir de 1990. Cada um faz o que lhe apetece e sempre em obediência ao seu gosto ou interesse pessoal, marimbando para o colectivo. Por isso, razão tem a pessoa que considera Mindelo uma vasta favela e não uma cidade que devia primar por um mínimo de bom gosto, decência e funcionalidade. E, cereja amarga em cima do bolo azedo, é essa ausência de acabamento exterior em grande parte das construções, pelo que resulta da amálgama de casas sem estética uma paisagem feia, sem graça, incaracterística, além do grave problema de se inscreverem em ruas mal traçadas, desconexas, anquilosadas, sem espaço sequer, em inúmeros casos, para fins utilitários e públicos, como acesso a ambulâncias, viaturas de bombeiros, etc.

      Então, se não é uma questão de falta de arquitectos capazes, o mal só pode ser atribuível a corrupção ou demissão de responsabilidades ao nível das autarquias. A começar, pois, pelas autoridades, que não agem ou hesitam em agir de acordo com as suas competências e responsabilidades, ou que, mais grave ainda, não estabelecem baias intransponíveis entre o interesse público e o privado, dando azo a situações de duvidosa legitimidade, ou mesmo de flagrante transgressão, isto para ser mais eufemístico do que assertivo nas minhas palavras.
    
      Depois, não é difícil imaginar que a demissão, apatia ou inacção de quem governa tem um efeito de autêntica permissão e aval aos desmandos das empresas construtoras e dos próprios cidadãos. Assim, direi que o mal se entrelaça de tal forma que não se sabe onde começa e onde acaba, nem quando vai ter fim ou se é mesmo possível pôr-lhe um fim. O que está em causa pode ser mais propriamente aquele tipo de transgressão que é fruto de favoritismo, cedência, lassidão, desleixo, hábitos paroquialmente enraizados nos meios em que quase toda a gente se conhece. Poderá, por enquanto, não assumir a escala das situações mais gravosas nas suas repercussões sociais, em que a criminalidade se aloja dissimuladamente; mas, silenciosamente, sub-repticiamente, a fenomenologia dos comportamentos deletérios vai-se instalando e ganhando proporções crescentes, produzindo os seus efeitos melífluos. É como certo tipo de cancros.

      No fundo, o mal está na comunidade como um todo, na sua mentalidade de conformismo e permissividade, que é sintomática de uma insuficiente consciência cívica e identitária. A simples constatação da proliferação desses inúmeros caixotes de maior ou menor tamanho em detrimento da bonita traça colonial de muitas construções que herdámos, diz-nos de uma realidade que não podemos ignorar e temos de lastimar e condenar. Aos poucos, se não houver contenção e travão aos desmandos, as nossas cidades vão-se assemelhando a muitas grandes favelas de qualquer outra cidade africana sem história e sem passado digno de registo.

      Contudo, penso que aos nossos arquitectos cabe uma particular e intransmissível responsabilidade. Pela sua formação académica, deviam ser os primeiros a agir em defesa do nosso legado patrimonial, em vez de caucionarem, activa ou passivamente, as transgressões sucessivas que nos conduziram à situação que várias fotografias do Mindelo e outras cidades vêm reportando.

      É preciso ver que a oferta turística das nossas ilhas tem muito a ver com a singularidade arquitectónica das suas urbes. Podem ser pequenas e pobres, mas se se lhes tira a alma, tudo se perde. Será um erro imperdoável importar o que de pior existe lá fora, mais ainda se forem imitações grosseiras e em desconexão com a nossa realidade cultural.


Adriano Miranda Lima