MEMÓRIAS, SONHOS E PREMONIÇÕES

sábado, 8 de abril de 2017
Cada um de nós carrega memórias pessoais, umas mais remotas, outras mais recentes, umas mais gratificantes, outras mais sombrias, mas todas entrecruzando-se e formando uma mesma unidade complexa, que passa a integrar o consciente e o subconsciente. Algumas das memórias que transportamos têm tenazes que nos aprisionam, e de algumas não nos conseguimos desenvencilhar.

Enquanto dormimos e sonhamos, a nossa mente recupera sensações de experiências vividas, e assim se liberta de pressões ou traumas, ou realiza processos de catarse.

Num sonho recente, surge aos meus olhos um cenário de África, a profunda, a invadir os meus sentidos, cenário em que me sinto incluso como actor e ao mesmo tempo como observador lateral. Há uma estrada larga de terra vermelha, espécie de terreiro, frente a uma povoação indígena com cubatas dispersas, em meio a sinais ténues de terra lavrada. De repente, uma ventania fustiga tudo em redor e o espaço é flamejado por um fenómeno luminoso. Acto-contínuo, surge uma força militar, vinda do nada e desfilando ao longo do terreiro. À frente vai uma fanfarra em que predominam tambores, muitos tambores.

Sinto que faço parte integrante daquela força, mas circunstancialmente estou diferido da sua existência. O que me impressiona é a vigorosa e dramática sonoridade dos tambores, como se isso fosse a peça essencial daquele cenário. Todo o dia seguinte o som dos tambores em rompida marcha marcial retiniu-se no meu espírito.

Durante o sonho, o ruído não me perturbava, pelo contrário, desejava-o como algo de impetuoso e sublime, transmitindo-me numa fina nostalgia. É algo de paradoxal porque é como querer regressar ao passado para o rejeitar ou para eliminar o que ele possa ter tido de trágico. E sem dúvida que verdadeiramente mau foi a perda em combate de homens sob o meu comando: Angola, alferes comandante de pelotão, perda de 1 cabo e 1 soldado; Moçambique, capitão comandante de companhia, perda de 2 furriéis, 2 cabos e 8 soldados.

Mas o mais perturbante do meu relato vem a seguir. Naquela formação em marcha, na primeira fileira e do lado direito, em que me encontro como observador excluso da realidade observada, marcha o cabo morto em Angola. Chamava-se Aníbal Esteves Macedo, e já lá vão 51 anos desde que, numa madrugada de Junho de 1966, tombou ferido de morte.

Por que razão o sonho me permite identificar apenas o cabo, ao passo que tudo o resto é uma formação compacta de militares em marcha, sem mais outra individualização fisionómica?

Vejo o cabo, quero correr para mandar suster a marcha por alguma razão que aparentemente não tem nada a ver com ele mas que certamente tem tudo a ver. No sonho, o que sinto é tremendamente ambíguo: atracção pela grandiosidade daquela vivência a que pertenci de parte inteira, e ao mesmo tempo desejo secreto de apagar o que há ali de irreversivelmente trágico. Apagar a morte do cabo que repentinamente parece emergir da eternidade para me vir interpelar? Certamente. A verdade é que quero interferir com o andamento da força militar, invadir-lhe o espaço, diluí-la na memória, e, no entanto, sentir necessidade de com ela prosseguir e atravessar o tempo e o silêncio, imune a qualquer conjectura ou julgamento.

E aqui é que talvez resida a explicação do sonho. Aqueles dois rapazes tombados em Angola, que eram da minha idade, ali ficaram enterrados, no pequeno cemitério duma povoação indígena, que certamente estará lá intacto mas sem manutenção. Naquele tempo, não havia trasladação dos corpos dos militares falecidos, a não ser que as famílias custeassem as despesas. Mais tarde, por evolução da logística e por necessidade de preservar o moral das tropas, além do respeito e consideração para com as famílias, os corpos dos militares mortos passaram a ser-lhes enviados em urna de chumbo. Foi o que aconteceu com os de Moçambique.

Ora, o sonho talvez tenha sido uma acidental revelação do meu subconsciente, lá onde paira e pairará sempre a recordação de companheiros mortos na flor da idade, cujos restos mortais não foram devolvidos às suas famílias.

A coincidência é que passados poucos dias, recebo um mail de um antigo camarada militar contendo uma notícia
(link http://ultramar.terraweb.biz/Memoriais_concelhos_Angola_VilaGagoCoutinho.htm) sobre o estado de abandono das campas dos nossos militares que foram enterrados em Lumbala N’Guimbo, antigamente chamado Gago Coutinho, Angola. Mostra fotografias de algumas dessas campas e, entre elas, a do cabo que me apareceu no sonho – Aníbal Esteves Macedo.
O meu sonho foi uma premonição?


Tomar, Abril de 2017

Adriano Miranda Lima

quarta-feira, 5 de abril de 2017
José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (5):  A nova linguística soviética e como foi que Estálhine esclareceu os camaradas desorientados, que misturavam política e ideologia com a linguística, na Universidade de Baku.  Estálhine parece ter aprendido com os seus erros, depois do gulague e do respectivo holocausto, tornou-se promotor da liberdade de opinião na ciência.


A experiência relativamente recente da União Soviética (URSS) mostrou-nos que, quando os cientistas e investigadores misturam a política com a ciência, esta última afunda-se.  O académico ucraniano Trofim Denisovich Lysenko (1998-1996) tornou-se célebre por ter defendido uma genética proletária, oposta à genética burguesa americana.  Para ele, os genes eram conceitos burgueses.  Desta maneira, por falta de genes, a genética soviética perdeu a sua razão de ser e definhou.  T. D. Lysenko, o membro da academia, que prejudicou a genética, desviando-a do campo da ciência para o campo da política, como escreveu o Doutor Almerindo Lessa (1960, Seroantropolgia das Ilhas de Cabo Verde, Mesa-redonda Sobre o Homem Caboverdeano, Mindelo, 21 a 24 de Julho de 1956, Junta de Investigação do Ultramar, Estudos, Ensaios e Documentos Nº 32, 159 p.), era bem conhecido em Cabo Verde e a sua genética sem genes foi discutida durante a mesa-redonda do Mindelo sobre o homem caboverdeano, em 1956, à qual participaram 23 investigadores caboverdeanos, 1 indo-português e 6 portugueses.

Disparates deste quilate surgiram também, na linguística soviética.  Após o golpe de estado do partido bolchevique, que ficou conhecido por grande revolução socialista de Outubro, um professor da Universidade de São-Petersburgo, Nicholas Yakovlevich Marr (1864-1934), decano do Departamento das Línguas Orientais, que era filho de pai escocês, e tinha nascido de mãe georgiana, na Transcaucásia, aderiu ao marxismo-leninismo, que estava oficialmente na moda, e quis interpretar a linguística à luz dessa doutrina política. Tratava-se dum profissional de mérito reconhecido, que, só depois da revolução, se tornou marxista-leninista.  Aderiu ao partido bolchevique, provavelmente a toda a pressa para defender a sua cátedra e não ser saneado, e depois tentou ser consequente, estudando o marxismo-leninismo, inspirando-se deste na sua actividade profissional, a que tentou dar um cunho original e criador, como todos os verdadeiros cientistas.  Estas tentativas levaram-no a misturar a política com a ciência, a sua obra científica ficou esterilizada pela política e deixou de ter interesse.

A partir daí, teve uma carreira brilhante e tornou-se o mandarim da linguística soviética com a sua “nova doutrina linguística”, segundo a qual a noção de protolíngua era fictícia e as línguas nacionais se tinham formado pela convergência de numerosos dialectos tribais, uma origem “sociolinguística” antes da letra (Manuel Monteiro da Veiga, 1995, p. 19, O crioulo de Cabo Verde-Introdução à gramática do Crioulo, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, Praia, 490 p.  Ver Subsídio 9.).  A linguística comparada era “burguesa” ao passo que a sua “nova doutrina linguística” era marxista e proletária, porque, segundo ele, as línguas tinham evoluído, com as lutas de classe, como parte integrante da superstrutura ideológica.  Recebeu o prémio Lênine em Janeiro de 1934, ano em que morreu e teve funerais oficiais (René L'Hermitte, 1984, Science et perversion idéologique: Marr, marrisme, marristes, une page de l'histoire de la linguistique soviétique, Institut d’Etudes Slaves, Paris, 104 p.).

A linguística soviética foi dominada pela nova linguística de classe até que Marr e os seus discípulos da Universidade de Baku, Azerbaijão fossem criticados pessoalmente pelo primeiro tsar (= imperador) da URSS, Yosif Visarionovitch Djugachvili, conhecido pela sua alcunha Estálhine e caucasiano como N. Y. Marr (Joseph Staline, 1950, A propos du marxisme en linguistique, in Derniers Ecrits 1950-53, Editions Sociales, Paris, p. 11 – 59).

Estáline negou que a língua fosse uma superestrutura (institucional e cultural) acima da base social, que definiu como “regime económico da sociedade a uma dada etapa do seu desenvolvimento”.  Lembrou que quando o regime económico se modifica, aparece a superstrutura que corresponde ao novo regime, mas que isso não acontece com a língua.  Exemplificou com a língua russa, que se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a sociedade russa tinha atravessado três regimes económicos diferentes, feudalismo, capitalismo e socialismo, assim designava ele o capitalismo de estado, com as respectivas superstruturas diferentes.  Sublinhou que a língua é radicalmente diferente da superestrutura.

A seguir vamos resumir os principais esclarecimentos feitos por Estálhine, no seu estilo pesado e repetitivo, como respostas a questionários e a cartas de linguistas e membros do seu partido único.  Começa por lembrar, que não sendo linguista, não poderia dar inteira satisfacção aos seus camaradas mais competentes do que ele em linguística, mas que podia falar com conhecimento de causa das relações entre o marxismo e as ciências sociais.  Era um autodidata, que mostrou, nos seus últimos escritos, ter espírito prático, aberto às realidades e pouco dogmático.

(1)    Contrariamente à superestrutura a língua “não é obra duma classe qualquer, mas de toda a sociedade, de todas as classes da sociedade, (…) é criada como língua do povo inteiro, única para toda a sociedade”.  É uma ferramenta de comunicação entre os homens e o seu papel “não consiste em servir uma classe em detrimento das outras, mas serve indiferentemente toda a sociedade, todas as classes da sociedade.”

Acrescenta, mais adiante, que a língua “serviu de igual modo os membros da sociedade, independentemente das suas condições sociais” e que

(2)    a língua “está directamente ligada à actividade produtiva do homem”, por outras palavras ao trabalho.

Foi como língua de trabalho que os caboverdeanos ensinaram a sua língua materna, primeiro na Ásia e na África, a seguir, no Brasil e depois nas Guianas e Antilhas, aos escravos que lá encontraram e aos que iam chegando numerosos de África.

Entre as outras opiniões e comentários de Estálhine para esclarecer os “camaradas desorientados”, interessa citar ainda mais dois.

(3)    “Não se pode compreender as leis do desenvolvimento duma língua, sem estudá-la em relação estreita com a história da sociedade, com a história do povo ao qual pertence a língua estudada, seu criador e falante.”

Infelizmente a longa e rica história do povo caboverdeano está insuficientemente conhecida e estudada dentro do Arquipélago e ainda menos conhecida e estudada está a história da nação caboverdeana espalhada pelo mundo, no império português e como ramo da diáspora da nação portuguesa portuguesa, porque a história oficial portuguesa, tem escondido e ignorado, até hoje, páginas e capítulos importantíssimos da história de Portugal e seu império.  Voltaremos a discutir mais demoradamente este assunto em subsídios que se seguem.  Ainda vamos a tempo de eliminar esta grande lacuna e desenvolver o estudo da história das diásporas caboverdeanas nas nossas universidades.

Infelizmente os crioulistas do século XX gastaram os seus preciosos recursos para tentar compreender a formação das línguas crioulas com a ajuda da sociologia, quando deviam ter estudado a história dos seus falantes.  Acumularam milhares de páginas de trabalho inútil.  Já não vamos a tempo de recuperar todos os esforços desperdiçados, esta lacuna e desorientação dos crioulistas deu como resultado, durante um século de abnegado trabalho intelectual, inúmeros disparates, meio século antes e meio século depois de Estálhine se ter debruçado sobre a glotologia ou linguística.

Estáline criticou mais do que a perversão ideológica da linguística.  Criticou também as escolas sectárias que se tinham formado nas universidades a partir dessa perversão e do culto dogmático prestado ao mandarim e suas teorias sem fundamento científico.

(4)    “Está universalmente reconhecido que não pode haver ciência a desenvolver-se e prosperar, sem uma luta de opiniões, sem liberdade de crítica”, escreveu ele.  Foi por isso, que Estálhine criticou a escola da nova linguística de classe, que se tinha tornado um grupo fechado à crítica, mas aberto aos privilégios burocráticos e mercantis, onde só progrediam e subiam na hierarquia os adeptos incondicionais do mandarim desorientado.

Parece que os marxistas-leninistas caboverdeanos foram melhores discípulos de Trotsky do que de Estálhine, cujas obras aparentemente desconheciam, durante o exílio político, fora do país.  Com a leitura dos comentários de Estálhine à nova linguística soviética poderiam ter evitado misturar a investigação científica com a política, como infelizmente fizeram, cobrindo carências de informação, estudo e investigação com conceitos políticos, nomeadamente a “resistência dos escravos sublimada”.

Porém, mais vale tarde do que nunca, ficam neste subsídio registadas as ideias mais importantes, que Estálhine, marxista-leninista convicto, exprimiu sobre a linguística, em geral e sobre a nova linguística soviética, em particular.

Nos próximos subsídios tentaremos compreender e discutir mais detalhadamente as teorias da nova linguística caboverdeana baseada na sublimação da resistência dos escravos.

Antes de terminar, queríamos ainda confirmar que o tsar autodidata da URSS não deixava de ter espírito prático, aberto às realidades e pouco dogmático e até parece que aprendia da sua própria experiência, praticando a auto-crítica!...

No apocalipse terrestre da URSS, as vítimas contam-se aos milhões, entre elas muitos cientistas, como o grande economista russo Nikolai Dmitriyevich Kondratiev, nascido na aldeia de Galuevskaya, província de Kostroma, ao Norte de Moscovo, aos 4 de Março de 1892 e fuzilado aos 17 de Setembro de 1938, em Suzdal, perto de Moscovo.  Era filho de camponeses da nacionalidade komi.  Foi preso em Julho de 1928, depois de ter visitado a Universidade de Minnesota e outras universidades americanas.  Depois de ter cumprido a pena foi novamente julgado, condenado a dez anos de prisão incomunicável e logo fuzilado antes de ter começado a cumprir a nova sentença.  Tinha 46 anos, escreveu os seus últimos livros na prisão e correspondia-se com sua esposa e sua filha Elena.  Não foi enviado para a Sibéria e a proximidade de Moscovo da prisão, onde estava, indica que Estálhine queria ler o que ele ia escrevendo e que a ordem para ser fuzilado veio directamente do secretariado do comité central do PCUS.  Antes de ser preso, Kondratiev trabalhou no ministério da agricultura soviético e foi um dos promotores da nova política económica (NEP, em russo) adoptada por Lênine.  Tinha proposto um plano quinquenal para a agricultura.  Pensava que se devia começar por desenvolver o sector agrícola, seguindo-se a indústria.  Estálhine decidiu que a industrialização forçada, tirando recursos financeiros à agricultura, era o caminho mais rápido para chegar ao “socialismo” num só país.  Kondratiev elaborou a teoria dos grandes ciclos económicos, que tomaram o seu nome (ciclos de Kondratiev ou ciclos K), para explicar o desenvolvimento económico e as crises cíclicas do capitalismo, ciclos de 60+/-15 anos, aos quais o capitalismo de estado da URSS não podia subtrair-se.  Stálhine mandou fuzilar Kondratiev, que tinha ousado pôr em causa o mito da construção do socialismo a desembocar no comunismo.




Fig. O economista Nikolai Kondratiev com sua filha


Dois anos depois, foi assassinado, no México, Lev Davidovich Bronstein, mais conhecido pela sua alcunha Trotsky, que nasceu aos 7 de Novembro de 1879, na aldeia de Bereslavka, Ucrânia, no seio duma família de agricultores abastados e morreu a 21 de Agosto de 1940, na cidade de México, um dia depois de ter sido agredido pelo assassino (https://en.wikipedia.org/wiki/Leon_Trotsky).  O KGB tinha organizado três grupos independentes de assassinos e um célebre pintor mexicano do partido comunista também tinha tentado assassiná-lo.  Com os seus capangas do Partido Comunista Mexicano metralhou a residência descarregando as munições todas.  Com Trotsky, Estálhine queria enterrar a teoria de que não era possível estabelecer o socialismo num único país, mas só ajudou a criar o mito do seu camarada, que tinha fundado o Exército Vermelho, militarizado o trabalho (Ver Subsídio 6.) e a quem se pode reconhecer um olhar de psicopata, mesmo em fotografias tiradas há dezenas de anos. 

Os ciclos Kondratiev fizeram implodir a URSS.  Em 26 de Dezembro de 1991, a URSS dissolveu-se.


Depois de ter mandado assassinar um brilhante economista russo e muitos outros homens e mulheres de ciência, durante grande parte da sua vida, foi nos seus últimos dias, que o primeiro tsar soviético escreveu o que citámos mais acima:  “Está universalmente reconhecido que não pode haver ciência a desenvolver-se e prosperar, sem uma luta de opiniões, sem liberdade de crítica”.  Como interpretar esta sua frase?  Aprendeu dos seus erros?  Desculpava-se?  Estava arrependido?  Todos os seus assassinatos seriam, para ele, ossos do ofício dum político?  Mesmo com espírito prático e aberto às realidades e pouco dogmático, não passava dum típico marxista-leninista convicto e realizado…

Uma Feira de Vaidades?...

terça-feira, 28 de março de 2017


Costumo dizer, meio a sério, meio a brincar, que determinadas pessoas, não ligam o “desconfiómetro” quando se apanham em situação de exagerado auto-elogio...

Ora bem, acontece aqui, bem perto de nós e de entre os chamados literatos, poetas, prosadores e artistas de vária índole, alguns que se levam demasiado a sério, de tal forma, que chegam a ser hilariantes, para não utilizar o vocábulo que me está debaixo da língua: ridículos!
Faço-me entender, este fenómeno só não transmite alguma pena, por ser de natureza caricatural e provocar risos.
De facto, a mim só me lembram  anedotas. Logo,  torna-se risível ouvir e narrar tais fenómenos.
Mas situarei o leitor. Fui apanhada ultimamente no meio de uma troca (embora só tenha recebido de um lado) epistolar, via “e-mails” de determinado artista, protestando veementemente contra um júri que não premiou o seu trabalho.  Logo ele! (no seu próprio entender) o maior entre os concorrentes, e por conseguinte,  merecedor sem hesitação do dito prémio em disputa.
Não se contentando com as  auto-elogiosas referências, toca de enviar a todos, textos em que, críticos e  outra gente, o consideram o supra-sumo da arte nacional.

Enfim, independentemente da qualidade da obra, que até é capaz de ser boa - estou a falar de algo que ainda não conheço - venho tomando conhecimento através dos textos da correspondência referida, os quais, de per si, são  reveladores de um exacerbado egotismo e  da feira de vaidades que por aí vai entre alguns dos  nossos ditos intelectuais.

De qualquer forma, tenho me rido e divertido, pois nunca imaginei que existisse entre escritores e poetas nacionais, gente tão auto-convencida!

Mas atenção: este não é caso único. Há mais aqui nas ilhas bem similares...

Que diferença, para exemplificar, de um Jorge Barbosa! Um gigante em poesia e ao mesmo tempo, tão humilde e correcto na postura perante a vida, perante a sua obra e perante ele próprio! Que diferença de um Osvaldo Alcântara, de um actual, Arménio Vieira,  tão sabedores, tão filósofos e da poesia, os maiores entre os maiores! Eles não fizeram estes papéis tristes, de “novo-rico” deslumbrado consigo próprio e a querer que toda  gente o saiba!
Apetece dizer como questionou uma saudosa amiga, na variante do crioulo (assim deve ser lida a frase) da Boa Vista:  “...Êl ca ta scunfiá!? ( Numa tradução aproximada: “Ele(a) não desconfia de si próprio?”) isto é, quando se auto-elogia - da forma como o faz -  não liga o desconfiómetro? o qual, e à cautela, deve andar sempre connosco?
Verdadeiramente lamentável e que infelizmente, desacredita quem assim procede só o diminui do ponto de vista, artístico e humano.

Minha gente, algum pudor e alguma sensatez nunca fizeram mal!

Já diz o velho ditado: “Elogio em boca própria é vitupério!”

Para finalizar, volto a repetir (na variante da Boa Vista): “...ÊL ca ta scunfiá!!?”

É inoportuna! É insensata! É afrontosa! E o regabofe continua…

sábado, 25 de março de 2017
Quando há um ano votámos mudança, e anunciamos a Primavera Política, na cabeça de todos e de cada um estava gravada “alternativa” e não apenas “alternância”. Esta, num bom e escorreito português, significaria que apenas as “moscas” é que teriam de mudar. E não era isto que nós seguramente queríamos. A alternativa é mais abrangente, porque traz subjacente a alternância uma vez que com as mesmas pessoas ou com as mesmas leis não haverá lugar a alternativa. Esta – a alternativa – significa, tão-somente, mudança de políticas e não apenas de pessoas. Por isso, pensávamos na mudança de paradigmas, na dinamização da economia, na busca de novas fórmulas de governação, na inovação e criatividade na maneira de fazer política, na seriedade e honestidade dos governantes e, obviamente, na sua competência e capacidade de trabalho. 

Em suma, pensávamos em reformas estruturais e no dinamismo dos governantes para rapidamente as realizar em benefício dos cabo-verdianos e do País. As nossas esperanças respaldavam-se nas promessas de campanha e na crença na seriedade dos seus protagonistas.

Depois da vergonha passada com os TACV, do sobre-endividamento do País, do nível de desemprego, da anémica taxa de crescimento da nossa economia, do amiguismo e nepotismo que grassava na nossa administração pública e nas demais instituições do Estado não era difícil fazer passar as promessas. Tanto é, sabe-se, que é muito fácil acreditar naquilo que se deseja e se aspira.

Passado um ano, sejamos claros e honestos: A situação em nada, ou em muito pouco, mudou. E em alguns casos, sequer as tais “moscas” de que nos referimos atrás.

Um quinto do mandato está cumprido, aliás, passado. Pode ser pouco para fazer coisas, mas é suficiente para se ter uma projecção. E a que temos neste momento não é animadora porque nem tão pouco acendeu uma fagulha para alimentar a esperança.

O País tem sido surpreendido por escândalos atrás de escândalos. Alguns pequenos, protagonizados por alguns dirigentes de topo da nossa administração, materializados em passeatas reflectindo alguns regabofes à custa do erário, outros por membros de governo com afirmações insensatas, descabidas e ligeiras, outros ainda, de dimensão nacional sob forma de decisões (ou ausência delas) do Governo.

Não nos vamos, para já, ater às heranças deixadas pelo anterior Governo – TACV (dez milhões de contos), flop das Barragens (centenas de milhares de contos), derrapagens das obras públicas (largos milhões de contos), Casa-Para-Todos (cerca de 22 milhões de contos), sobreendividamento (130% do PIB), Desalojados da Chã das Caldeiras, Fastferry, etc. etc – que o actual Governo conhecia e prometeu corrigir e resolver, quiçá, ainda que parcialmente, através do então prometido “Programa de Emergência”.

Mas também não vamos falar das passeatas indecorosas umas, inócuas e sem sentido outras, dos dirigentes da nossa administração, latu sensu (governantes, empresas públicas e instituições autónomas, inclusive). Nem tão pouco do enorme escândalo financeiro que representa o Novo Banco de Cabo Verde (1,8 milhões de contos para os contribuintes). Sobre este assunto muita água ainda vai correr debaixo da ponte e muita lágrima por cima, se houver seriedade e responsabilização efectiva.

E também não vamos falar do actual marasmo absoluto em que se encontra a nossa economia tão acarinhada e apaparicada há pouco mais de um ano, pelo actual Ministro das Finanças quando se encontrava na oposição.

Decididamente, não vamos falar [agora] de nenhum desses assuntos que envolvem o nosso ambiente socio-económico e financeiro e que constituem fortes constrangimentos ao desenvolvimento da nossa economia – não que não mereçam uma reflexão séria e imputação de responsabilidades – porque são já factos consumados de graves consequências que se prolongam pelas gerações vindouras que terão de tirar daí, depois de uma profunda reflexão, as suas ilações em relação àqueles cuja arrogância, insensatez, ganância e alguma incompetência nos atiraram para este fosso.

Vamos falar muito brevemente da construção da sede do Banco de Cabo Verde (BCV) num ambiente de grandes dificuldades para o País, como atrás referimos e que o escândalo financeiro do NBCV tem relegado para um plano secundário.

O BCV, em nossa opinião, – de quem havia de ser? – foi insensato, inoportuno e muito pouco solidário ao repescar um projecto há já cinco anos cirurgicamente (politicamente) “abandonado”... E o Governo agiu muito mal, ao tornar-se cúmplice, com o seu aval, caindo numa “armadilha” deixada pelo anterior Governo e agora subtilmente estendida.

A construção, agora e já, da sede do BCV sugere uma afronta e suscita um fortíssimo apelo ao nosso direito à indignação, independentemente da origem do dinheiro que, dada a natureza da instituição, é sempre garantida pelo Estado em caso de qualquer percalço ou eventual colapso da estrutura de onde vem. Atente-se bem ao trajecto que os fundos do INPS – também dos trabalhadores – tem tido!...

Gastar – não é o mesmo que utilizar – mais de dois milhões de contos (sem contar as normais e habituais derrapagens) numa infra-estrutura que nenhuma falta fará, por longos anos, quanto à sua funcionalidade, configura uma impiedosa megalomania porque bole insultuosamente com a pobreza e a miséria de uma significativa faixa da população de um País que luta com carências básicas várias.

O BCV é do Estado de Cabo Verde. Não pode nunca ser visto como uma entidade estranha. É dos contribuintes, qualquer que seja o ângulo em que seja visto. É por isso é que se exige o aval do Governo. Não se compreende esta, aparentemente, absurda e ofensiva ostentação de riqueza digna do mais primário terceiro-mundismo num momento em que o País vive tempos difíceis. É que nem sequer de marketing se trata porque não é um banco comercial.

E o que consta, a ser verdade, é grave, muito grave mesmo: é que o actual edifício da sede tem suficiente espaço para acomodar todo o pessoal do BCV. E que não seria preciso nenhum Siza Vieira ou Souto de Moura para encontrar soluções arquitectónicas adequadas ao seu seguro e confortável funcionamento nos quatro pisos desocupados que existem actualmente. E que tudo isto não passaria, eventualmente, de escassas – uma ou duas – centenas de milhares de contos.

E não se fale de “dignidade”!... Dignidade têm as instituições se os seus membros souberem honrá-las. E isto só pode acontecer com profissionais competentes e sérios dotados de uma formação sólida e específica, como p.e. recomenda e exige o BCE (Banco Central Europeu) da administração e dos dirigentes de topo bancários e que devia ser preocupação, e prioridade, também do nosso Banco Central.

Dignidade dos prédios não passa de uma metáfora que diz respeito à categoria da instituição e ao seu desempenho. O edifício, em si, é belo, é majestoso, é monumental, é imponente ou é espectaculoso, de entre outros adjectivos. Nada mais! E tem muito mais que ver com a imagem física do que com a dignidade propriamente dita. Até pode estar vazio como acontece com muitos palácios. Quantos edifícios existirão em Portugal mais “dignos” do que a majestosa e imponente sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD)? Todavia, ainda há bem pouco tempo, a “dignidade” da CGD estava nas ruas de amargura. Não é o edifício que faz a instituição…

Estamos a tempo de recuar e repensar da oportunidade de construção de um edifício público que, básica e aparentemente, sugere ostentação e alguma megalomania. Caricaturando: Se o problema é criar uma imagem de marca, porque não financiar um bom Hospital?

A nossa elite intelectual e a nossa classe política emergente mostram sofrer da síndrome de egotismo agudo que vem assumindo carácter epidémico com nítidos e evidentes pródromos no governo e nas instituições autónomas e independentes.

Não nos interessa absolutamente nada ter um Governo de 10, 15 ou 20 membros. Nem nos interessa o seu nível etário[i] que deve ser observado mais no seu equilíbrio do que na sua média. Os custos de um governo não se medem nem pelo número nem pela idade dos seus membros, mas pela sua eficácia e eficiência na governação, parâmetros que reflectem em si próprios o grau de optimização do já estafado e sempre presente binómio custo-benefício, isto é, número de membros de governo-resultados de governação.

Nada está perdido. Um ano é apenas 20% do mandato. Ainda é tempo de corrigir rumos, de navegar com bússola e compasso e com motores de propulsão a jacto; de deixar de velejar ao sabor dos ventos como – perdoem-nos a franqueza – parece, vem acontecendo.

Este governo é duplamente meu! É meu, porque é de todos os cabo-verdianos; mas é também meu porque votei nele. E por isto, assiste-me moral, e acrescido direito para o criticar.

A. Ferreira




[i] O melhor governo que Cabo Verde já teve – o de 1991/1996 – o único verdadeiramente reformador, reconhecido pela população que lhe renovou o mandato com uma expressiva votação conferindo-lhe uma maioria qualificada, era comparativamente mais jovem que o actual…
AF
quinta-feira, 23 de março de 2017
José Carlos Mucangana

Subsídios para a caboverdeanidade (4):  Qual foi a origem das línguas crioulas das Américas, do Oceano Índico e mais além da Taprobana?


A palavra crioulo passou a designar não só o “dialecto português” falado em Cabo Verde, como também os “dialectos” coloniais, que apareceram e se desenvolveram nas colónias europeias.  Assistiu-se ao aparecimento e desenvolvimento destas línguas, com as plantações de cana e a produção dos engenhos de açúcar nas Caraíbas e nas Antilhas e mais tarde nas Mascarenhas.  Mas, porque é que foram designadas crioulos?  Não seria a palavra portuguesa e o nome da língua caboverdeana e dos seus primeiros falantes, os crioulos caboverdeanos quinhentistas da primeira geração, mais tarde ensinada pelos seus descendentes nessas colónias europeias, como já o tinham feito na Grande Guiné?

Os poderes coloniais cedo passaram a considerar estas línguas, como os seus crioulos, os crioulos ingleses, franceses, holandeses e até espanhóis, ou seja da língua veicular do estado espanhol multinacional e multilinguístico, que é o castelhano.  Parece que não está provado que os falares castelhanos raros de pequenas comunidades de origem africana isoladas em países das Américas do Sul e Central sejam crioulos de neoformação e só um deles foi comparado com o crioulo santomense, provando-se que derivou do dialecto angolar do último.  Nenhum foi comparado com o crioulo caboverdeano  Mais adiante havemos de esclarecer o grande mistério, que irrita os crioulistas e sociolinguístas, porque não conseguem explicá-lo nem pela liguística, nem pela sociologia:  Porque é que há grandes países francófonos e anglófonos das Grandes Antilhas, falando crioulo, como Haiti e Jamaica, e isso não acontece nas Grandes Antilhas, que foram colónias espanholas, como Cuba, Porto Rico, Santo Domingo, onde plantações de cana de açúcar não faltavam?

Para já, limitamo-nos a notar que os colonos de origem europeia eram donos dos escravos e os respectivos linguistas, até hoje, parece que continuam a pretender ser donos das línguas ensinadas aos escravos pelos caboverdeanos portugueses.  Os crioulos ainda continuam a ser classificados como ingleses, franceses, holandeses, etc. (Peter Austin et al., 1996, O Atlas das Línguas, Editorial Estampa, Lisboa, 224 p.).  Por culpa dos crioulistas e das suas variadíssimas teorias e conjecturas erradas sobre a origem e formação das línguas crioulas, que tiveram voga durante o século XX, parece que os escravos até perderam o direito de terem e falarem as suas próprias línguas forras.  Na crioulística parece que, essas línguas também se tornaram propriedade dos respectivos patrões dos escravos até muito depois da abolição da escravatura:  vã cobiça, tinham comprado os corpos, ou “peças” de escravos e queriam também ser patrões das almas dos escravos...

Mestre Baltazar Lopes da Silva (1984, O Dialecto Crioulo de Cabo Verde, Lisboa, Imprensa Nacional–Casa da Moeda, 391 p.) estudou e discutiu aturadamente, entre as páginas 19 e 24 do seu livro, e etimologia das palavras francesa créole, castelhana criollo, alemã Kreole e italiana crioglio pela consulta de vários dicionários etimológicos dessas línguas.  Abstraindo das divagações de alguns autores, que ignoram o português e só se referem ao castelhano e ao francês, a origem comum é a palavra crioulo portuguesa.

Para a palavra inglesa creole, consultámos The Concise Oxford Dictionary of Current English (1952, fourth edition, 1540 p.), que faz derivar a palavra do castelhano criollo, por sua vez derivado, sem explicar como, do castelhano criado e criar, ao passo que Collin’s English Dictionary, duma edição eletrónica recente, cita as palavras francesa e castelhana como vias de chegada ao inglês e faz tudo derivar do português crioulo, que segundo este dicionário significaria escravo nascido na casa do dono, quando, como vimos, o significado desse termo português é muito mais rico e complexo.  Também se sabe que numerosas palavras portuguesas, como risco, parcel, monção e casta, não precisaram de ser desviadas pelos caminhos escusos do castelhano e do francês, para passar do português para o inglês.  Porque é que isso teria acontecido à palavra crioulo?

Quanto à palavra neerlandesa creool, consultámos o dicionário etimológico desta língua ou dialecto do baixo alemão (P. A. F. van Veen, Nicoline van der Sijs, 1989, Etymologisch Woordenboek, Van Dale Lexicografie, Utrecht / Antwerpen):  a palavra creool derivaria do português crioulo, que deu também criollo em castelhano e créole em francês.  A sua raiz é o latim creare

Os autores europeus contemporâneos têm a tendência de fazer viajar as palavras portuguesas de comboio pela Europa fora, de Portugal para Espanha, dali para França e depois para os outros países da Europa, esquecendo-se ou ignorando que o português era e é a língua do Brasil, onde se encontravam também os holandeses da Nova Holanda ou Brasil Holandês, com a sua capital no Recife, entre 1630 e 1654,

Pode se tirar a conclusão de que a origem comum é a palavra portuguesa crioulo.  A filologia e a etimologia indicam portanto, que o basilecto comum da grande maioria das línguas e dialectos crioulos da América foi a língua crioula caboverdeana de neoformação.  Não foi nenhum sabir (mistura de línguas) do Mediterrâneo, por onde os portugueses não navegavam pouco mais além do que Ceuta, talvez só até Honaine, porto de Tilemecene, onde adquiriam roupas e tecidos, para vender na África Ocidental, nem foi nenhum esperanto criado em Portugal para ensinar aos intérpretes ou línguas, numa escola de que não há vestígios históricos, nem arqueológicos.

Em Portugal só havia intérpretes de hebraico ou caldaico, berbere ou mouro e árabe, para os outros milhentos idiomas das Áfricas e das Índias, os intérpretes eram admitidos localmente.  Foi o que fez Diogo Cão, quando navegando para sul chegou ao Zaire, subiu 150 km o Rio Poderoso até às primeiras cataractas, sem língua, só por gestos.  Levou quatro congueses para aprenderem português em Lisboa, trazendo-os poucos anos depois e um deles voltou a Portugal como embaixador d’El-rei do Congo (Garcia de Resende, 1545, Crónica de Dom João II).  Outros línguas ou intérpretes, talvez a maioria, eram escravos.  Rodrigo Alvarez fez um contracto com Sancho de Muñon de Sevilha, em 10 de Outubro de 1475 sobre o empréstimo do escravo Pedro Muça para levá-lo na sua caravela à Guiné como língua (p. 212-213, Instituto de Investigação Científica e Tropical, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1993, Setembro, Portugaliae Monumenta Africana, Vol. I, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 497 p.).  Fernão de Ávila, escravo foi enviado, por língua, ao Benim e aos Rios, servir, por três anos com o feitor (Carta de Manuel de Góis a El-Rei,  Fragmentos e cartas para El-Rei, Doc. 37, Maço 1, datada de São Jorge da Mina, 12.1.1510, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1993, Portugaliae Monumenta Africana, Vol. V, p. 629).  A 18 de Agosto de 1477, João Garrido, língua e escravo de Gonçalo Toscano, recebeu carta de alforria, por serviços prestados e a prestar na Guiné de donde era natural (p. 224-225, Instituto de Investigação Científica e Tropical, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, Dezembro, Portugaliae Monumenta Africana, Vol. II, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 605 p.).  Este escravo tornou-se assim um funcionário da administração ultramarina portuguesa.  Ao longo dos anos e dos séculos, os línguas ou intérpretes passaram a ser funcionários portugueses, como foi, por exemplo, o pai de Joaquim Alberto Chissano, em Moçambique, no século passado.

A língua crioula caboverdeana, tal como o latim, está na origem duma família linguística diversificada, não só em África e à volta de África, mas também nas Américas e na Ásia.  Para o crioulo da Jamaica temos o testemunho dum linguista da Universidade de Winsconsin, que estudou a etimologia de trinta palavras dessa língua relexificada em inglês e sobejamente descrioulizada.  As trinta são de origem portuguesa certa ou provável e teriam lá chegado desviadas pelos caminhos escusos duma misteriosa caçanjaria de base portuguesa, que também as teria levado para muitas outras línguas da América, África e Ásia (F. G. Kassidy, 1992, The Portuguese element in Jamaican creole, Actas do Colóquio sobre crioulo de base lexical portuguesa organizado em Lisboa por Ernesto d’Andrade e Alain Kihm, Edições Colibri, p. 67 - 72).  Lembra-nos o autor, que, pelo menos um grupo de plantadores portugueses, ou mais especificamente caboverdeanos da Guiana, se estabeleceu na Jamaica em 1675 com os seus 950 trabalhadores caboverdeanos da diáspora.  Lembra-nos também que os ingleses aprenderam a cultivar cana com os portugueses, que eram caboverdeanos da diáspora.  Depois, a situação ainda se teria complicado quando, segundo ele, teria surgido uma nova caçanjaria inglesa na Jamaica, falada por caboverdeanos...  Este Autor multiplica as hipóteses inúteis, disparatadas e não comprováveis.  Não teria sido mais simples os escravos caboverdeanos vindos do Brasil para a Guiana, que, além de plantar cana, também sabiam fazer trapiches e fabricar açúcar nos engenhos, a ensinarem aos poucos escravos, que já lá estavam e aos muitos que vieram depois para a Jamaica, a fazer tudo isso, na sua língua, com a qual sempre comunicaram com os seus patrões caboverdeanos, sem se distinguirem mutuamente pela taxa de melanina dérmica, nem pelo estatuto social?

Pedimos paciência aos leitores, que ficarem admirados e com dúvidas a este respeito e não quiserem acreditar e aos lusófonos unilingues, que se deixarem tentar pelo demónio da inveja, porque a língua portuguesa ainda não criou a sua família linguística, ao passo que o crioulo caboverdeano, tal como o santomense, já têm as suas famílias linguísticas, sendo a caboverdeana uma grande família de dezenas de línguas e dialectos, em vários continentes, ilhas e oceanos.

Nos próximos subsídios, será apresentada toda a documentação histórica, que prova abundantemente, que foram os caboverdeanos dos primeiros a chegar, os primeiros a plantar cana, a montar e a fazer produzir engenhos e que foram eles, que iam ensinando, na sua língua de trabalho, a plantar cana e fazer funcionar engenhos, aos trabalhadores forros e escravos, que encontraram nessas ilhas, e aos novos escravos africanos, que vinham desembarcando para trabalhar nas plantações de cana e nos engenhos de açúcar, cada vez mais numerosos.  “Uma indústria de alta intensidade de mão de obra e a necessidade de recuperar rapidamente os custos do investimento inicial” e de satisfazer a procura do mercado global “causou influxos massivos e rápidos de trabalho escravo.”  Durante esta fase, a importação de escravos para Suriname, num período de vinte anos, aumentou dezassete vezes (Jack Arends, 1995, Demographic factos in the formation of Sranan, in Jack Arends ed., The early stages of creolization, Amsterdam, John Benjamin ‘s, p. 233-85) e a Jamaica deparou-se com um aumento de noventa vezes da sua população de origem não europeia em menos de trinta anos (Silvia Kouwenberg, 2009, Brebice Dutch, in Suzanne Marie Michaelis et al. Ed., The Survey of Pidgin and Creole Languages, Vol. 1, Oxford Univ. Press, p. 278-84), ao passo que, em Haiti, a população não europeia, que tinha aumentado vinte vezes num primeiro período de quarenta anos cresceu duzentas vezes, em pouco mais do que um século (John V. Singler 2006, Children and Creole genesis, J. of Pdgin and Creole Languages, 21, p 157-73).  Durante períodos similares, a população de origem europeia poucas vezes só duplicou ou triplicou” (Dereck Bickerton, 2014, More than Nature needs, Language, Mind and Evolution, Cambridge, MA,Harvard Univ. Press).
Ao ensinarem a sua língua, os caboverdeanos não eram só guiados pelo amor da sua língua materna e pela fraternidade com os outros trabalhadores escravos, eram também impelidos pelos imperativos da produção e do desenvolvimento económico.  A tecnologia mais avançada daqueles séculos, que precederam a revolução industrial estava associada à língua caboverdeana, foi ensinada e desenvolvida na língua caboverdeana.

Quanto aos crioulos classificados pelo superstracto ou como “dialectos” das línguas dominantes da expansão europeia no mundo, à volta do continente africano, no estado actual dos nossos conhecimentos, só podemos tomar em consideração, no Atlântico, os dois crioulos diferentes de léxico português, o de Cabo Verde, que foi o primeiro a ser inventado pelas crianças da primeira geração, em Santiago e o santomense, o segundo a ser inventado pela primeira geração de crioulos de São Tomé.  As outras línguas ou dialectos crioulos da África Ocidental, nomeadamente os chamados pidgin-english do Ghana (cerca de 5 milhões de locutores), Nigéria (língua materna de 10 milhões, falada por mais de 75 milhões de nigerianos e camaroneses) e os crioulos das outras ilhas do Atlântico, como o da ilha de Santa Helena, o fla danbon ou fa dambu da ilha de Ano Bom, o da ilha do Príncipe, e o fernandino da ilha Bioko ou Ilha de Fernão do Pó ou Ilha Formosa, pertencem às famílias linguísticas destas duas línguas crioulas de neoformação.  São de léxico etimologicamente português ou relexificadas em inglês directamente ou indirectamente por intermédio da língua krio da Serra Leoa, ela própria crioulo caboverdeano relexificado em inglês. 

O krio também originou a sua própria família linguística de que faz parte, por exemplo, a língua da etnia gullah da Carolina do Sul e da Geórgia (Joseph A. Opala, 1985?, The Gullah:  Rice, Slavery and the Sierra Leone - American  Connection, Fourah Bay College, University of Sierra Leone, www).  Não foi só com a etnia Gullah que o krio chegou aos Estados Unidos.  Os colaboradores dos mercadores negreiros ingleses, para angariar mão de obra cativa na Costa da Malagueta, Costa do Marfim, Costa do Ouro e Costa dos Escravos e transportá-la para a América, falavam krio, que ensinaram na costa ocidental de África e esta língua da famíla caboverdeana foi também levada para os Estados Unidos da América, acabando ali descrioulizada.  O Professor William Alexander Stewart (1970-1977) tornou-se a mais alta autoridade do idioma gullah e depois dedicou-se ao estudo do inglês vernacular afro-americano.  Cedo avisou os professores das escolas primárias americanas de que as dificuldades de aprendizagem de inglês, que tinham as crianças de pais afro-americanos, estavam ligadas a dialectos em vias de descrioulização da família do krio, que ainda falavam em casa.  Para facilitar a tarefa dos professores primários, orientou-os para o estudo desse crioulo americano chamado inglês vernacular afro-americano, contribuindo decisivamente para o desaparecimento natural do crioulo americano, ou melhor dos seus vestígios, o espectro de dialectos, variantes e falares da descrioulização (post creole continuum) do krio.

No Oceano Índico, mais precisamente nos arquipélagos das Mascarenhas e do Almirante, o crioulo “francês” poderia estar ligado à cultura do café introduzida entre 1715 e 1730 e ter sido inventado pelas crianças da ilha Bourbon ou Reunião e levado, por elas, depois de crescidas, para as outras ilhas do Arquipélago das Mascarenhas e para o Arquipélago do Almirante.  Porém, na ilha Maurícia, os holandeses introduziram a cana de açúcar, em 1639 e os engenhos começaram a produzir açúcar em 1696, antes de ter chegado o café às Mascarenhas.  Nas colónias holandesas, quem dominava a tecnologia e detinha os segredos (= know-how) da fabricação do açúcar de cana era, como veremos mais adiante, a nação ou diáspora caboverdeana e portuguesa das ilhas ABC (Aruba, Bonaire e Curação) e da Guiana, cuja língua de trabalho era o idioma caboverdeano.  Quem detinha o capital eram os portugueses e caboverdeanos da sinagoga portuguesa de Amesterdão.  Tudo indica que os caboverdeanos já estavam a trabalhar no Arquipélago das Mascarenhas antes de lá chegarem o café e os escravos de Madagascar e de Moçambique.  Parece não ter havido condições favoráveis para a formação dum crioulo pela primeira geração de crianças dos trabalhadores das plantações de café da ilha de Bourbon, que eram quase todos malgaxes provenientes de Fort Dauphin ou Toamasina, com a sua única língua nacional da família austronésia (Pier M. Larson, 2007, Enslaved Malagasy and “Le Travail de la Parole” in pre-revolutionary Mascarenes, J. of African History, 48, p.457-79, Cambridge Univ. Press).  O crioulo da ilha de Bourbon, ou da Reunião verosimilmente veio da ilha de França ou Maurícia com a indústria açucareira.  Com efeito, durante a ocupação inglesa, depois da derrota de Napoleão Bonaparte, na Europa, as plantações de café da ilha de Bourbon foram destruídas por um ciclone e substituídas por plantações de cana de açúcar e o açúcar de cana é, ainda hoje, a principal riqueza da ilha da Reunião ou de Bourbon.

Mestre Francisco Adolfo Coelho (1880, 82, 86, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, reedição da Academia Nacional de Cultura Portuguesa em Estudos Linguísticos, Crioulos, 1967, Lisboa, p. 1 - 234) tinha antecipadamente posto em dúvida a teoria da origem do crioulo mauriciano, quando lá chegaram os primeiros colonos franceses vindos da Bretanha:  em mauriciano diz-se amarrer, em vez de attacher e como em português amarrar, diz-se também espérer, em vez de attendre e como em português esperar e diz-se ainda larguer, em vez de lâcher e como em português largar.  O mesmo acontece nas línguas crioulas das Pequenas Antilhas, que derivaram do crioulo caboverdeano relexificado em francês, nas ilhas de Guadalupe e Martinica.

Na maioria das Pequenas Antilhas, mesmo aquelas, que como a Grenada, onde a língua dominante deixou de ser o francês e passou a ser o inglês, depois das guerras napoleónicas, falam-se dialectos crioulos relexificados em francês mutuamente compreensíveis.  As moças cantam e bailam, para se despedirem dos rapazes, na alvorada e encerrar as farras, uma “coladeira” cuja letra está parcialmente reproduzida no texto
da caixa.

Oh, oh, oh, larguez moin,
jour à caille ouvert, larguez moin!
Jour à caille ouvert, larguez moin,
Pou moin aller vouer mama moin.
Oh, oh oh, larguez moin!...

(Oh, oh, oh, larga-me,
o dia começa a despontar na rua, larga-me!
O dia começa a despontar na rua, deixa-me,
vou ver a minha mãe.
Oh, oh, oh, deixa-me!...)

A reprodução foi feita em ortografia etimológica francesa arbitrária.  A tradução portuguesa entre parênteses foi revista pela Professora Arlette Lorne Rocha, martiniquesa dos quatro costados, natural de Dacar.

Em crioulo das Pequenas Antilhas, utilizam o verbo larguer, com o significado de lâcher em francês e largar ou deixar em português.  Pode ainda observar-se neste texto, que a palavra rua parece derivar do castelhano relexificado em francês e que o verbo ver parece ter ficado a meio caminho da relexificação em francês.  Esta canção é muito popular na Guadalupe, Martinica e outras pequenas Antilhas, que foram colónias francesas e falam actualmente línguas e dialectos crioulos com léxico maioritariamente francês.

Ainda no Índico, para o Ceilão Português ou Taprobana (1505-1658), os portugueses levaram populações de origem africana, que ainda são hoje minorias estabelecidas, tanto na costa ocidental, como na costa oriental da ilha, designadas actualmente por burghers portugueses, nas cidades e cafrinhas nas aldeias.  Foi antes de estar organizado o comércio de escravos em Angola e Moçambique, tratava-se de marinheiros e soldados caboverdeanos e de escravos de armas treinados em Cabo Verde e falando crioulo.  Com os holandeses foram da Guiana para Ceilão e para a Indonésia soldados caboverdeanos da grande diáspora da nação portuguesa.

Foram certamente os primeiros soldados caboverdeanos chegados a Ceilão em 1507, que ensinaram a sua língua materna, como fizeram, nas Américas, os trabalhadores caboverdeanos especializados nas tecnologias da cana doce.  Os caboverdeanos, os cristãos católicos das Índias, Ceilão e Malaca e os macaístas não têm dificuldade em se entenderem, falando uns com os outros as suas próprias línguas e dialectos (Associação das Universidades da Língua Portuguesa, 2010, Interpenetração da Língua e Culturas de / em Língua Portuguesa, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Instituto Internacional de Língua Portuguesa, Lisboa, 251 p.), como acontece também quando marinheiros caboverdeanos visitam esses países, fazendo-se perfeitamente compreender na sua língua caboverdeana (Arsénio Pina, 2013, Comunicação Verbal).

Sebastião Rodolpho Dalgado (1900, Dialecto Indo-Português de Ceilão, Imprensa Nacional de Lisboa, 259 p.) utiliza o termo de “crioulo de Ceilão”, para designar este “dialecto indo-português” com um “carácter um tanto indefinido ou flutuante”, fazendo lembrar o sistema crioulo da Guiana (Dereck Bickerton, 1975, Dynamics of a Creole System, Cambridge of a University Press, 224 p.).  Depois de ler os textos de crioulo de Ceilão apresentados por Monsenhor Dalgado e tendo já lido textos de papiá cristão de Malaca (António da Silva Rego, 1942, Dialecto Português de Malaca, republicado em 1998 com outros textos do mesmo autor pela Comissão Nacional para as comemorações dos descobrimentos portugueses, Lisboa, 302 p.) e falado com macaístas na sua língua materna, Daniel dos Santos Nunes (11.6.2014, Comunicação Verbal) não hesita em afirmar que todos são dialectos do crioulo caboverdeano, facilmente compreensíveis por um caboverdeano.  Parece assim que não houve crioulos de neoformação nem na Índia, nem em Ceilão, nem em Malaca, nem na Indonésia, nem na China.  Trata-se de dialectos do crioulo caboverdeano.  Só muito poucos como, em Goa, teriam sido dialectos portugueses. 

O próprio dialecto de Damão é um dialecto caboverdeano mais influenciado pelo adstracto guzarate e mais descrioulizado do que o dialecto caboverdeano de Ceilão (Arsénio Pina, 2013, Comunicação Verbal). 

Um crioulo de léxico inglês nasceu em Hauai no século XX e foi aí que Derek Bickerton (2008, “Bastard” Tongues, a trailblazing linguist finds clues to our common humanity in the worl’s lowliest languages, Nova Iorque, 270 p.) esclareceu a origem das línguas crioulas e confirmou as hipóteses do Mestre Francisco Adolfo Coelho (1880, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2ª Série, Nº 3, p. 129-196), que indica como seu percursor.

Crioulos “espanhóis” praticamente não existem na América, onde estão em vias de extinção algumas variedades de “espanhol boçal” herdadas dos antigos escravos de origem africana:  seriam dialectos do castelhano, ou de alguma língua africana.  Quem ensinou a plantar cana e a fazer açúcar nas colónias espanholas furam os canários.   É muito improvável que para lá tenham ido trabalhadores caboverdeanos ou santomenses.

 

Nas Filipinas, em vários portos e cidades do litoral, fala-se uma língua chamada español chabacano ou espanhol vulgar, ordinário, grosseiro, que seria um crioulo de base castelhana, segundo os linguistas que o estudaram.  Para John M. Lipski (1988, Philippine creole Spanish: reassessing the Portuguese elemento, Zeitschrift für romanische Philologie, 104, p. 25-451986, The Portuguese element in Philippine creole Spanish : a critical reassessment, Philippine Journal of Linguistics,p. 1-17) a estrutura desta língua é a de uma língua crioula, mas duvida que seja da família dum crioulo de léxico português como o caboverdeano ou línguas derivadas na Ásia, como o crioulo de Malaca e o de Java.  Só novos documentos escritos em chabacano do século XVI poderiam dissipar a sua dúvida.  Tratando-se de uma língua falada por uma grande maioria de analfabetos, parece uma dúvida linguística difícil de dissipar, sem sair da linguística e sem considerar a história dos falantes de chabacano e seus antepassados.  Ao sudoeste da ilha de Mindanao, o chabacano é ainda falado por cerca de 200.000 pessoas e é uma das línguas oficiais da cidade de Zamboanga, onde é designado por chavacano.  Na ilha de Luzon, baía de Manila havia ainda três variedades ou dialectos de chabacano mutuamente compreensíveis pelos respectivos falantes e pelos falantes da ilha de Mindanao.  Um dos dialectos da baia de Manila, extinguiu-se na cidade de Manila, outro é ainda falado por poucas pessoas de Cavite, a antiga capital das Filipinas e o outro é falado pela maioria dos habitantes da cidade de Ternate, muito próxima.  Os linguistas e filólogos filipinos imaginaram que o chabacano teria nascido no estaleiro naval de Cavite (Astillero de la Ribera), onde foram construídos quase todos os galeões, uma centena, que iam e voltavam para Acapulco, Nova Espanha, duas vezes por ano, durante duzentos e cinquenta anos.  Nesse estaleiro, os filipinos, como cerca de um século mais tarde, durante a construção das muralhas e fortaleza de Zamboanga, aprenderam a falar primeiro una algarabia de castellano e acabaram por falar castelhano correctamente com a escolarização, do qual se esqueceram, quando deixou de ser ensinado, em meados do século XX.  Em Cavite havia duas línguas em presença, tagalá e castelhano e os trabalhadores filipinos tinham as suas famílias perto, na cidade ou no campo.  O mesmo aconteceu em Zamboanga, os trabalhadores não ficaram fechados no estaleiro da fortaleza nem num compondo, como os mineiros sul-africanos.  Porém, para a fortaleza vieram soldados de Ternate, que eram dos melhores, que tinha o governador espanhol de Cavite.  Mandou-os combater os moros do sul e reprimir rebeliões até que, no século XIX, passaram a combater pela independência, nas planícies e nas montanhas da ilha de Luzon contra os espanhóis (Major Basílio Ramos) e, depois, contra os americanos (Julián Ramos).  Os antepassados desses ternatenhos filipinos vieram da fortaleza portuguesa de Ternate, nas Molucas, por onde passaram São Francisco Xavier, como missionário, que pregava e catequisava em crioulo, e Luís de Camões, como soldado, que náo falava crioulo.  Do forte de São João Baptista de Ternate, os portugueses retiraram-se para o Forte dos Reis Magos de Tindore, na ilha vizinha, expulsos pelo sultão da ilha de Ternate.  Antes de ser abandonada, em proveito dos holandeses, Ternate tinha sido reconquistada, em 1606, por uma armada enviada das Filipinas pelo governador D. Pedro da Cunha.  

Como acabámos de verificar, mais acima nas Filipinas, não houve condições para surgir um crioulo de neoformação, tudo foi obra do crioulo de Cabo Verde.  Chegados a Cavite com suas famílias, os militares das Molucas, mais escuros do que os filipinos, logo declararam que eram homens forros.  Foram conhecidos por mardicas, do holandês mardijker, que significa forro.  Os mardijker da Indonésia holandesa eram descendentes dos escravos caboverdeanos, que os holandeses tinham trazido com carta de alforria das suas colónias das Caraíbas para Java.  Falavam o crioulo caboverdeano, iam às igrejas protestantes, onde os sacerdotes holandeses tinham traduzido a Bíblia em crioulo, mas continuavam a praticar a sua religião em casa e vestiam-se à portuguesa.  Ao fim de poucas gerações em exogamia, só pela língua materna, que falavam, se distinguiam bem dos javaneses e malaios.

 

Para ficarem perto da fortaleza da capital, o governador mandou instalar os ternatenhos e suas famílias nas proximidades, num lugar a que eles deram o nome de Ternate, ilha e vulcão de donde vinham.  Dali passaram, levando a sua língua para Cavite e para as guarnições do sul de Mindanao.  Durante a sua presença, nas Filipinas, o crioulo caboverdeano conviveu primeiro com o adstracto dominante castelhano, sendo relexificado. Em Luzón conviveu com o tagalá, em Mindanao com o cebuano e finalmente, até hoje, com o inglês e a língua nacional, que é o tagalá.  Os linguistas têm estudado os efeitos dessas línguas no chabacano, que foi comparado com o macaísta, mas até hoje ninguém se lembrou de o comparar com crioulo caboverdeano, nem mesmo com o papeamento cristão de Malaca.  Tem 80% de léxico castelhano, 20% de léxico filipino e uma dúzia de palavras portuguesas, sem contar todas as palavras castelhanas muito parecidas com as portuguesas, que deviam ser subtraídas dos 80% de léxico castelhano, para formar um grupo separado de origem portuguesa.  Dos três dialectos chabacanos, foi no ternatenho que se encontraram mais palavras portuguesas, o que não é de admirar, porque é da família directa do crioulo caboverdeano, veio de um forte português e porque os dois ou três outros (zamboangano, cavitenho e ermitenho extinto de Manila) derivaram dele (John M. Lipski, Chabacano/Spanish and the liguistric Philippino identity, 33 p., http://www.personal.psu.edu/jml34/ chabacano.pdfMarivic Lesho & Eeva Sippola, 2014, The Ohio State University – Aarhus University, Folk perceptions of variation among the Chabacano creoles, 46 p., Revista de Crioulos de Base Lexical Portuguesa e Espanhola, ISSN 1646-7000, Vol. 5 , 2014, http://www.acblpe.com/ files/1.%20Folk%20perceptions %20of%20variation%20among%20the%20Chabacano% 20creoles.pdf).

 

Foi assim, que o castelhano deixou de se falar nas Filipinas, mas continuou a falar-se uma língua crioula, que os portugueses levaram para Ternate e, mais tarde, os holandeses trouxeram das Caraíbas e, finalmente, os espanhóis foram buscar à Indonésia Oriental, com os seus falantes.  Em Manila, já não se fala chabacano, em Cavite corre perigo de se extinguir, em Ternate ainda se fala e em Zamboanga, está a recuperar a sua vitalidade de língua da família caboverdeana, com o seu léxico castelhano e português e, com os seus 200.000 falantes.  Não corre perigo de se extinguir e é mesmo o mais bem colocado para fazer perdurar, na Ásia, a família das línguas caboverdeanas (Mauro Fernández, Universidad de A Coruña, 2001 ¿Por qué el chabacano?, Estudios de Sociolingüística, 2:2, 2001, pp. i-xii, http://www. sociolinguistica. uvigo.es/ descarga _gratis.asp%3Fid%3 D48).  Graças aos dialectos caboverdeanos das Filipinas, ainda há vestígios de castelhano nas Filipinas.


De Java, onde foi chamado portugis e papiá tugu do nome da aldeia, nos arrabaldes de Djakarta, onde residiam os mardijkers, o crioulo caboverdiano vindo da Guiana e das ilhas ABC também foi parar à cidade do Cabo com os descendentes dos mardjikers conhecidos por malaios portugueses.  O Professor D. C. Hesseling, linguista holandês afirma que, durante o século XVIII, quase toda a população do Cabo, incluindo os hotentotes e os escravos, era bilingue, falando holandês e crioulo, a que chamavam malaio-português.  Segundo ele, foi do contacto do holandês com este crioulo, que nasceu o “dialecto holandês” Afrikaans, que mais tarde veio a ser uma das línguas nacionais da África do Sul (Marius-Fraçois Valkhoff, 1963, Algumas Reflexões sobre os Dialectos Crioulos, Texto da conferência promovida pelo Centro de Cultura de São Tomé e Príncipe a 15 de Julho de 1963 revisto pelo Autor, Separata do Bol. Mensal da Sociedade de Língua Portuguesa, Lisboa, 1968, p. 49 -60).  A língua nacional Afrikaans precisa de ser comparada com o crioulo caboverdeano, pelos glotólogos caboverdeanos, se é que ainda não o foi, as relações entre a República de Cabo Verde e a República da África do Sul têm sido excelentes desde a independência.  Não será a primeira língua nacional o resultado da relexificação, em benefício da língua dominante holandesa, e concomitante descrioulização da segunda língua nacional?  Esta primeira não pertenceria á família linguística da segunda língua nacional, o crioulo caboverdeano?  Hoje, os holandeses compreendem a língua nacional Afrikaans, sem dificuldade.  Porém, talvez não seja tão fácil para eles compreenderem Afrikaans falado pelos chamados Cape coloured da Província do Cabo ocidental da África do Sul.  Talvez não cheguem a compreender o Afrikaans falado pelos hotentotes da Namíbia.  Provavelmente caboverdeanos da Holanda e falantes de papeamento das ilhas ABC, compreendê-los-iam sem dificuldades.  O Afrikaans da África do Sul, tal como a língua falada pelos descendentes de africanos nos Estados Unidos da América, é um espectro de dialectos, variantes e falares da descrioulização (post creole continuum).  Na América, está em vias de desaparecer, ou já desapareceu.  Na República da África do Sul, tornou-se uma língua de cultura e uma língua nacional, por obra dos seus falantes com fraca taxa de melanina dérmica, cabelos loiros e olhos azuis.

Mais acima foram citadas as informações do linguista holandês, Professor D. C. Hesseling, segundo as quais os hotentotes do Cabo falavam afrikaans, no século XVIII.  Mas os hotentotes da Namíbia ainda o falam hoje.  Sabe-se que grande parte de naufrágios de navios portugueses vindos da Índia ocorriam, depois do Cabo ao longo da costa da Namíbia maltratadas por tempestades e serras de água.  Esses navios transportavam portugueses de regresso a Lisboa e soldados caboverdeanos de regresso ao Arquipélago. (Quirino da Fonseca, 1926, Os Portugueses no Mar, Memórias Históricas e Arqueológicas das Naus de Portugal, Vol. I, Ementa Histórica das Naus de Portugal, 798 p.)  Os náufragos que conseguiam chegar vivos à praia, com falta de recursos, nem sempre podiam seguir, por terra, para Moçambique.  Uma vez construíram barcos com a madeira do navio naufragado e rumaram a Norte, para Angola.  Frequentemente, dividiam-se em dois grupos:  um grupo com famílias de portugueses reinóis procurando, a pé, alcançar Moçambique e aguardar a carreira da Índia.  Outro grupo de escravos de armas, que ficavam e procuravam subsistir na Namíbia.  Assim deve ter chegado o crioulo caboverdeano à Namíbia, esses “hotentotes” da Namíbia, falando Afrikaans, são certamente descendentes de náufragos caboverdeanos, que voltavam do serviço militar na Ásia, ou faziam parte da tripulação e guarnição das naus de regresso ao Reino.  

Outro idioma crioulo que costuma ser erradamente classificado como espanhol (Peter Austin et al., 1996, O Atlas das Línguas, Editorial Estampa, Lisboa, 224 p.) é o papeamento, que todos sabemos ser crioulo de Cabo Verde, com algum léxico neerlandês e castelhanismos.  Os portugueses e caboverdeanos judeus foram para a Guiana e para as ilhas ABC, vizinhas da costa da Venezuela, cultivar cana e produzir açúcar, quando os holandeses abandonaram o Brasil.  De Cabo Verde, tinham levado a língua materna e língua de trabalho comum a todos, patrões, trabalhadores cativos e trabalhadores forros, assim como os seus costumes religiosos e sociais.  Apesar de terem liberdade de opinião, pensamento e religião tanto nas ilhas ABC, como na Guiana, continuaram a cobrir de areia o chão das sinagogas, como nos sobrados de Cabo Verde, onde a camada de areia se destinava a amortecer o barulho dos passos das muitas pessoas, que se reuniam aos sábados, nas sinagogas clandestinas (Edmond S.Malka, 1997, Fiéis Portugueses, Judeus na Península Ibérica, Edições Acrópole, Alfragide-Damaia, 168 p.) camufladas em mosteiros, na ilha do Fogo, e eles próprios em monges e frades.  Foi assim, disfarçados de pobres frades vindos do Brasil, que, mais tarde, se apresentariam ao governadores franceses da Martinica e da Guadalupe, pedindo autorização e concessão de terras para plantar cana (Arlette Lorne Rocha, 2012, comunicação verbal).

O outro crioulo classificado “espanhol” é o palenqueiro, língua levada, em meados do século XVII, para o palenque, ou quilombo de San Basilio, nas montanhas da província de Bolívar, capital Cartagena de las Indias, Colômbia, por escravos originários de São Tomé, que ali se fortificaram e defenderam até que El-rei de Espanha reconhecesse a sua liberdade, numa carta de alforria e tratado de paz.  O padre Alonso de Sandoval (1627, De Instauranda Ethyopum Salute, Sevilla, Empresa Nacional de Publicaciones, Bogotá, 1956, p. 94), que estava em Cartagena, falava crioulo santomense aprendido no Golfo da Guiné e, nesta língua, desempenhava os seus deveres religiosos junto dos escravos que iam chegando.  Ele afirmou que quase todos o compreendiam.

Sabemos, pues, a ciencia cierta, que muchos de los esclavos llegados a Cartagena de Indias hablaban este lenguaje criollo a base portuguesa y que los esclavos que formaron el palenque de San Basilio, desde 1608 y durante los años subsiguientes, se establecían allí hablando y conservando su lenguaje criollo con todo su sabor portugués.  Con el pasar de los años y bajo la influencia del castellano que se hablaba en la costa colombiana, el lenguaje criollo de base portuguesa que era la lengua ‘oficial’ del pueblo del palenque de San Basilio, iba poco a poco relexificándose y restruturándose hacia los patrones del castellano.” (Wiiliam W. Megenney, University of California, Riverside, 1983, La Influencia del Portugués en el Palenquero Colombiano, Thesaurus, Centro Virtual Cervantes, Th. XXXVIII, No. 3, p. 548-563).

No palenqueiro ficaram palavras do quimbundo, sinal de que os escravos chegados à Colômbia falavam o dialecto angolar ou forro do crioulo santomense.  Teriam sido prisioneiros da guerra do mato em São Tomé, ou, talvez, forros enganados pelos mercadores de escravos, que os teriam embarcado, dizendo-lhes que os levavam de volta a África.

Lembremos ainda que, graças aos revolucionários sandinistas, nasceu uma algaravia e depois um crioulo de sinais na Nicarágua.  Depois de deposto o regime totalitário da família Somoza, o novo governo abriu, pela primeira vez naquele país, uma escola para crianças surdas de nascença.  Os primeiros alunos dessa escola foram adolescentes e adultos, que ignoraram o castelhano de sinais que os professores tentavam ensinar-lhes e acabaram por comunicar no Lenguaje de Señas Nicaraguense (LSN), um pidgin ou língua simplificada de sinais, ou algaravia de sinais.  Depois vieram crianças pequenas ou crioulos, que inventaram rapidamente o Idioma de Señas Nicaraguense (ISN), uma língua complexa com as suas próprias regras gramaticais, um crioulo de sinais ou gestos (Judy Kegle, University of South Maine, citada por Derek Bickerton, 2008, Wikipedia, Psycholinguistics / Pidgins, Creoles and Home Sign).

Voltando ao crioulo de Damão, também ali conhecido por língua da casa, ou português badrapor (http://discover-daman.com/eu-falo-portugues/), reproduzimos a seguir um texto desse dialecto damanense do crioulo caboverdeano.

Fábula de Esopo, um escravo grego de origem africana, contada no dialecto damanense da língua crioula caboverdeana de neoformação:  A Velha e o Galo

Antú vi.  Eu tem contan pór-óss um chistoz histór.  Mim mãe tim fallan quando tinh piquinin.

Tinh naquell temp um velh morteng.  Éll tinh doi creád mulher e bastante bazrúc (*).  Esse doi mulher, um tinh nõm Gitrud e ôt Anall. Bem cêd aquell velh tinh fazen cordá sú criád quando tinh cantan gáll.  Análl já falou pú Gitrud:  Ess nóss don munt rabjent;  qui cêd já tem fazen launtá;  num tem dixan durmi mesmo tud nôt.  Gitrud já respondeu:  Bai Anall, bam nós fazê un cóiz;  vóss turcê gargant de gall e falla pú velh:  Gall tinh gemen gemen, já isticou canell.  Qi há fazê Bai?  Anall já fazeu qui lai Bai Gitrud tinh fallan.  Velh já ficou munt mortificad.

Mas ósstem saben, éll qui coiz já fez?  Éll num tinh durmin e tá fazen cordá mê-nôt.  Qui disgrass!

Amb já ficou arrependent munt, mas qui á fazê?  Tard arrependid infern tem chê.

(*)  Bazaruco é o nome duma moeda que circulou em Damão.  Aqui significa dinheiro, riqueza.

António Francisco Moniz, 1923, Notícias e Documentos para a História de Damão, Antiga Província do Norte, Volume Primeiro, Bastorá, Tip. Rangel, 327 p.

Quem tiver dificuldade em reconhecer o damanense como dialecto caboverdeano pode ainda referir-se às fotografias na Internet de damanenses, que falam este dialecto.  Em Damão, os caboverdeanos parece que mantiveram os critérios antigos dos colonos portugueses de meados do século XV para escolherem as escravas nos mercados e as suas noivas.  As damanenses descendentes dos caboverdeanos, que foram defender a fortaleza e fortes de Damão são belíssimas.

O número de falantes de crioulo damanense é geralmente avaliado em 2.000 a 4.000, segundo as fontes, mas a Associação Luso-Indiana Damanense (Portuguese-Indian Association of Daman) avalia esse número em mais de 10.000 pessoas.  Os falantes de damanense seguem a religião católica.  A língua caboverdeana, em Damão e Diu, com poucos falantes está ameaçada de extinção.  Como na ilha das Flores, em Tugu, Java com a morte do último falante, o mardica Joseph Quiko, em 1978 (Wikipedia, Mardijker Creole) e, em Cochim, recentemente (Hugo Canelas Cardoso, 30.10.2010, The Death of an Indian born language, http://www. openthemagazine.com/article/art-culture/the-death-of-an-indian-born-language), com a morte do último falante William Rozario, a 20 de Agosto de 2010, aos 87 anos de idade, poderia acontecer, que deixe de ser falada e se mantenha, talvez, nas orações e cerimónias da religião católica.  Porém, os damanenses são muito activos na defesa da sua cultura.  Além disso, o crioulo não nasceu na Índia do casamento entre o português e várias línguas indianas, foi levado para a Índia pelos marinheiros e soldados caboverdeanos e evoluiu em contacto com várias línguas indianas, como, neste caso, o malaialamo, para dar muitos dialectos, entre os quais este crioulo de Cochim, que deixou de ser falado recentemente.  Além de Korlai, nos arrebaldes de Bombaím, onde o crioulo é falado por cerca de 1.000 pessoas, na Índia, praticamente só subsistem os dialectos de Damão e Diu (Hugo C. Cardoso, 2009, The Indo-Portuguese language of Diu, Utreque, LOT Publications,351 p.), este último só com poucas centenas de falantes.

Os descendentes dos escravos de armas da fortaleza de Diu estão integrados na sociedade indiana e são muito activos na vida social da ilha Diu, como se pode ver na fotografia seguinte.



Fig. 2.  Durante a Festa de Diu apresentaram-se estes descendentes dos escravos de armas caboverdeanos da guarnição da fortaleza de Diu (http://www.daman.nic.in/Festa-De-DIU.aspx#).