Escola de Padre e Escola de Rei

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Aproveitando a efeméride do centenário do nascimento do médico, escritor e ensaísta, Henrique Teixeira de Sousa (1919); e porque o assunto contido no texto que ora se (re)publica, não perde actualidade, fomos a um número do Jornal «Terra Nova» do ano 2000 e seleccionámos este texto que nos transporta ao passado da  literacia nas ilhas. 


Por H. Teixeira de Sousa*

A gente jovem de Cabo Verde já não deve saber o que significa a designação escola de rei. A época colonial vai-se esfumando na memória colectiva; quem tinha zero anos de idade já hoje conta com vinte e cinco primaveras, quem fizera dez anos na ocasião de independência nacional, é actualmente um adulto de trinta e cinco anos. A moderna geração possui outras referências, novos valores, os quais não se enquadram nos cânones do passado. Nem por isso, porém, se pode dispensar a retrospecção dos factos e acontecimentos, exercício que é de suma importância para o conhecimento rigoroso do que agora somos.
Daí que desta vez a minha crónica se debruça um pouco sobre o ensino em Cabo Verde, desde os primórdios do respectivo povoamento. É assunto já abordado por alguns estudiosos, por exemplo, António Carreira, mas que não é de mais reabordar, com vista à informação da juventude.
Folheando uma colectânea de Boletins Oficiais de Cabo Verde, de entre 1849 a 1850, volume já bastante danificado pela traça, da minha biblioteca pessoal, deparei com o texto oficial que criava na ilha Brava a Escola de Instrução Superior, Primária e Secundária. E porquê nesta ilha? Por uma de duas razões, ou por causa da salubridade daquela estância, ou porque nela se achava sediado o governo da província. Ou talvez ainda pelas duas razões juntas. Esta escola funcionou durante dez anos. Antecedeu-lhe o Liceu Nacional, sediado na Praia, em 1846, tendo tido uma efémera duração, com certeza neste caso, por motivo da malária que em Santiago fustigava todo o ano a população, mais intensamente nos meses chuvosos. Ainda nos anos 50 e primórdios de 60 o panorama palúdico não era nada famoso, como provaram as prospecções levadas a efeito pela Missão de Estudo e Combate de Endemias, sob chefia do Dr. Manuel Meira. Havia zonas com índices parasitários e esplénico assustadores. Era rara a criança com idade inferior a 12 anos que não exibia esplenomegália (baço aumentado de volume). O insecto vector era (e continua a ser) o anopheles gambiae, mosquito que não encontramos na ilha Brava, onde portanto não existia, nem existe, o paludismo endémico. O curioso é que em Santo Antão encontrámos anopheles gambiae, mas nenhum caso de malária autóctone, situação que se designa por anophelismo sem paludismo. Mas não interessa agora esmiuçar.
As matérias ensinadas nessa escola da Brava, ao longo dos quatro anos de frequência, iam desde a leitura, passando pela escrita, aritmética, geometria, gramática, história portuguesa, doutrina cristã, até ao estudo dos produtos naturais do arquipélago, ou que nele se fabricavam, e que fossem, ou pudessem ser objecto de indústria ou de comércio, ou ainda dignos de terem lugar na economia doméstica. Este último período, com tantas disjuntivas e copulativas, até se parece com a prosa do século dezoito. Adiante. Semelhante atenção dada aos produtos naturais constitui facto de estranhar, numa época em que o ensino era demasiado centralizado em relação ao reino. Os textos falavam em castanheiro, nogueira, pinheiro, etc., omitindo a flora local. Ainda foi assim no meu tempo e no dos meus filhos mais velhos. A história era a do reino da metrópole, sucessivamente. A geografia era a corografia de Portugal continental e das ilhas adjacentes dos Açores e da Madeira.
Recuando um século, em relação à data da criação da Escola da Brava, temos que em 1772, ao surgirem as primeiras escolas oficiais em Portugal (escolas régias, chamadas escolas de rei em Cabo Verde), o Conselho Ultramarino autorizou a abertura de estabelecimentos de ensino semelhantes no nosso arquipélago. Mas esta autorização não teve andamento por falta de verba. A pequeníssima percentagem da população que conseguia aprender a ler e a escrever, ficava a deve-lo aos mestres particulares ou à escola da paróquia. Os mestres-escola e os párocos de freguesia tiveram um papel relevante na alfabetização das gentes do arquipélago. Em 1811 a situação mantinha-se a mesma, isto é, as escolas régias (escolas de rei) achavam-se apenas no papel, facto que mereceu severo reparo por parte da Corte no Rio de Janeiro. Na altura a realeza encontrava-se sediada no Brasil. O orçamento de Cabo Verde não suportava a difusão de escolas, pelo que ainda no ano lectivo de 1837-38 não funcionavam mais do que dez estabelecimentos de ensino em toda a Província. Em 1842 o número de escolas primárias alcançou a cifra de trinta e três.
Convém recuar ainda mais no tempo para ver quão meritória foi a intervenção da Igreja Católica na esfera do ensino. De tal maneira que podemos afirmar que o ponto de partida da literacia em Cabo Verde se situou à sombra da batina eclesiástica.
Em 1546 o rei permitiu que homens pretos e mestiços pudessem entrar em cargos públicos. Estes pretos e mestiços alfabetizados, eram os que iam sendo ensinados nas chamadas escolas de ler e escrever, escolas ministradas pelos clérigos.
Em 1555 começou a ordenação de sacerdotes entre os nativos. Mas a instalação dum Seminário como tal, levaria alguns séculos para se concretizar. A Igreja já não se conformava com a existência de tonsurados suficientes para fazer a cobertura religiosa do arquipélago. Daí que fosse muito importante a criação do Seminário de São Nicolau, pelo qual se bateu denodadamente o bispo D. José Alves Feijó. Finalmente o decreto de 1866 criava o Seminário-Liceu da Ribeira Brava. E porquê Seminário-Liceu e não Seminário tout court? Semelhante gemenismo foi uma estratégia do bispo. Como não tinha dinheiro para sustentar um seminário, propôs a inclusão do ensino laico no dito estabelecimento, ao lado da preparação eclesiástica, em ordem a obter a verba do Estado para o objectivo em vista.
Como a gente sabe, foi desse alfobre que começaram a surgir os primeiros quadros do funcionalismo público, devidamente qualificados, os primeiros poetas e prosadores do Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, os primeiros indícios duma intelligentsia local que haveria de evoluir até à eclosão do movimento cultural da Claridade. Não fora a Igreja católica, o nosso percurso histórico teria sido outro, mais sombrio naturalmente.
*Publicado no “Terra Nova” de Novembro de 2000

Querem datas giras para duvidar da validade do Acordo Ortográfico? Aqui vão algumas

sábado, 10 de agosto de 2019

Por Nuno Pacheco*
Com tão estranhas datas, como é que o AO “entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007”?
Invocando a Lei de Imprensa, quis o ministro dos Negócios Estrangeiros rectificar duas afirmações por mim feitas na crónica “O acordo ortográfico ainda é uma caixinha de surpresas” (25/7/2019): a primeira é que, na verdade, já respondera ao deputado José Carlos Barros (PSD); a segunda é que, no pedido que o deputado lhe endereçara, solicitando acesso aos instrumentos de ratificação do Acordo Ortográfico (AO) depositados no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), este não se tinha identificado como coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. É verdade, tem razão nas duas! A resposta foi enviada (embora nem o deputado soubesse dela, quando lho perguntei) e ele, na verdade, identificara-se “apenas” como deputado. Mas teria feito alguma diferença para a resposta dada? Que os documentos solicitados não poderiam ser mostrados porque (escreveu o ministro) “detêm natureza de documento diplomático e, por isso, constituem documentos de acesso legalmente restrito”? Na verdade, o deputado podia até intitular-se ministro plenipotenciário da Santa Sé, que nada obteria dos cofres sagrados da diplomacia.
Mas sagrados porquê? Terão os instrumentos de ratificação do AO algo secreto, como dados sobre segurança interna, defesa, estratégias a adoptar em casa de invasões ou guerras? Não, teoricamente falam apenas de ortografia. Então porquê tanto segredo? Talvez isto ajude: o deputado enviou o seu pedido, pelos trâmites legais, a 16 de Junho; o ministro, também pela mesma via, despachou a resposta no dia 18 de Julho. Aliás, nem foi bem ele, a resposta vinha assinada pela sua chefe de gabinete e nem foi enviada directamente ao deputado, mas sim à chefe de gabinete do secretário de Estado Adjunto dos Assuntos Parlamentares. Parece que tem de ser assim, lá por São Bento, para tornar as coisas mais rápidas. Demorou, tudo isto, um mês e dois dias. Mas para responder ao PÚBLICO, o ministro já demorou… menos de 24 horas. E nem recorreu a chefes de gabinete, assinou ele próprio o documento. O que justifica tal pressa? Talvez irritação. O kaiser do Acordo Ortográfico, como lhe chamei e repito, já não deve poder aturar os que constantemente lhe pedem que o seu ministério (MNE) seja claro e transparente, para que não o acusem de omitir dados. Mas tem bom remédio, o bem-amado kaiser: exiba os comprovativos. E tente justificar as datas que adiantou ao PÚBLICO, como antes fizera ao deputado. Mas vamos a elas. Para o Acordo Ortográfico entrar em vigor era necessário, de início, o depósito dos “instrumentos de ratificação de todos os Estados junto do Governo da República Portuguesa” (no MNE). Em 1990 previa-se que entrasse em vigor em 1994. Não entrou, e isso levou a dois protocolos modificativos, assinados respectivamente em 1998 e 2004, o primeiro dispensando a mirífica data e o segundo reduzindo para três o número de Estados necessários para a validação. Só que cada um destes documentos precisava, como é óbvio, de ser não apenas validado pelos Estados em causa como a prova dessas validações ser depositada oficialmente em Portugal.
Irritado? Tem bom remédio, o ministro: exiba comprovativos. E tente justificar datas que não batem certo
O que escreveu o ministro, “para esclarecimento dos leitores interessados”? Que “Portugal procedeu ao depósito do seu instrumento de ratificação do Acordo Ortográfico a 30 de abril de 1996 e depositou o instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 13 de maio de 2009.” E o primeiro, ratificou-o quando? Ou esqueceu-se?
Cabo Verde, segundo o ministro, “depositou o seu instrumento de ratificação do Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa a 5 de dezembro de 2006 e procedeu ao depósito do instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006.” Não refere a data do depósito de ratificação do próprio AO, que Cabo Verde terá aprovado internamente pelo Decreto-Lei 26/91, de 1 de Abril de 1991. Quando terá sido? Nesse mesmo ano? Muito mais tarde? Era importante saber. Mas em relação a este país ainda há outra coisa, bem mais absurda. No Boletim Oficial da República de Cabo Verde n.º 22, de 30 de Maio de 2005, foram publicados dois decretos, ambos com a data de 30/5, um aprovando o primeiro protocolo (4/2005) e outro o segundo (5/2005), para entrarem ambos em vigor “no dia seguinte ao da sua publicação”, ou seja, a 31 de Maio. Isto faria sentido se três anos e meio mais tarde não surgisse, publicado também no Boletim Oficial da República de Cabo Verde, no n.º 47 de 14 de Dezembro de 2009, um outro decreto, o n.º 10/2009, onde se dizia: “Considerando que o Acordo entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007” e “tendo em conta que, de entre outros aspectos, o protocolo [não diz qual, embora reÆra no preâmbulo ambos, o primeiro e o segundo] já entrou em execução no Brasil (desde Janeiro de 2009), o Conselho de Ministros determinou que em Cabo Verde a entrada em execução do referido Acordo Ortográfico seja em Outubro de 2009.” Pasme-se: em 14 de Dezembro determina-se que uma coisa entre em vigor dois meses e meio antes!
Não é exclusivo de Cabo Verde, esta “viagem no tempo”. Já em Outubro de 2010, o tradutor João Roque Dias reproduzira no Facebook o Aviso n.º 255/2010 do MNE português, que o Governo fizera publicar no Diário da República n.º 182 (de 17 de Setembro de 2010), em que se informava que o Acordo Ortográfico tinha entrado em vigor em Portugal em 13 de Maio de 2009 (data, diziam, do “depósito do respectivo instrumento de ratificação”). Ou seja, como comentou à data João Roque Dias: “um ano, quatro meses e quatro dias antes”. Será isto normal?!
Mas voltando a Cabo Verde. É curioso que, garantindo o ministro que este país “procedeu ao depósito do instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006”, o artigo 3.º do Decreto n.º 10/2009, de 14 de Dezembro de 2009, diga isto: “O Governo de Cabo Verde deve, com a urgência possível, notificar o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Portugal, sobre a aprovação do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa e a entrada em execução e em vigor desse mesmo instrumento normativo.” Vejam: em Dezembro, Cabo Verde garantia que “a entrada em execução seja em Outubro” (primeira viagem no tempo); e, depois, dizia que “deve, com a urgência possível”, notificar o ministro de um depósito que este diz ter recebido três anos antes (segunda viagem no tempo, ou um bom capítulo para uma qualquer Guerra das Estrelas).
Mas porquê a data de 12 de Junho de 2006? Fácil. Porque é essa data que o ministro dá para o depósito, por parte do Brasil, do “instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 12 de junho de 2006”. Conclusão: numa miraculosa conjugação de estrelas, Brasil e Cabo Verde entregaram a mesma ratificação no mesmo dia e ao mesmo tempo! Só é pena que Cabo Verde se tenha lembrado, três anos e meio mais tarde, e ainda por cima num decreto publicado, que precisava avisar o MNE português de que ainda lhe faltava fazê-lo…
Resta São Tomé e Príncipe, para completar o quarteto onde assenta o malfadado acordo. O que diz o ministro? “No que diz respeito a São Tomé e Príncipe, este depositou o instrumento de ratificação do Acordo Ortográfico, do Protocolo Modificativo e do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo a 6 de dezembro de 2006.” Tudo ao mesmo tempo? Vejamos: há, de facto, uma resolução publicada no Diário da República de São Tomé e Príncipe n.º 48, mas de 29 de Dezembro de 2006. Ou seja, posterior à data avançada pelo ministro. Mas essa Resolução, n.º 04/VIII/06, aprovada na Assembleia Nacional em 29 de Junho de 2006, refere-se apenas ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (“cujo texto faz parte integrante da presente Resolução”), omitindo qualquer dos protocolos que o modificaram. E não há registo de nenhuma resolução ou decreto posterior, no diário oficial são-tomense, que se lhes refira.
Finalizando (por agora): se Portugal só ratificou o Segundo Protocolo em 2009, a 13 de Maio (data célebre, não devido à ortografia mas a Fátima); se de São Tomé não se conhece registo de que tal protocolo tenha sido mesmo ratificado; e se Cabo Verde, em Dezembro de 2009, ainda estava a pensar notificar o MNE, “com a urgência possível”, da sua ratificação interna, como é possível afirmar (como se lê em notas, avisos e decretos) que o AO “entrou em vigor, a nível internacional, em 1 de Janeiro de 2007”? Não era altura de tais documentos serem mostrados a uma alta instituição, independente e idónea (talvez a Presidência da República ou a provedora de Justiça), para deslindar, seriamente, esta monumental trapalhada?
*Jornalista. (nuno.pacheco@publico.pt)
Público de 09.Ago.2019

O acordo ortográfico ainda é uma caixinha de surpresas

domingo, 28 de julho de 2019


Por Nuno Pacheco*
Há um antigo filme de animação da Disney, que talvez conheçam, onde um trio composto por Pato Donald, Zé Carioca (olá, Brasil!) e Panchito (viva, México!) viaja pela América Latina à descoberta dos usos, costumes e diferenças da metade sul do continente americano. Ao filme, o sétimo assinado por Walt Disney, foi dado o título The Three Caballeros, título este que no Brasil foi mudado para Você já Foi à Bahia? e em Portugal para A Caixinha de Surpresas. O mais curioso é que o filme é datado de 1945, ano em que terminaria a Segunda Guerra Mundial e em que Portugal e Brasil assinavam o seu primeiro acordo ortográfico, que por razões já muito faladas viria a ser denunciado pelo Brasil em 1955, dando origem à novela que conhecemos.
Pois bem: como nas animações da Disney, também o Brasil (onde estás, Zé Carioca, que tanta falta fazes?) parece propenso a ser, nesta matéria, uma caixinha de surpresas. Primeiro foi o jovem Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência de Jair Bolsonaro, que a 6 de Abril publicou no Twitter um textinho a dizer que o Brasil devia livrar-se da tomada de três pinos, das urnas electrónicas e do acordo ortográfico. Depois, foi a vez do deputado Jaziel Pereira de Sousa, do Partido da República (centro-direita), com imediata adesão da deputada Paula Belmonte, do Partido Cidadania (antigo PPS e PCB), requerer a “realização de audiência pública a fim de discutir a revogação do acordo ortográfico da língua portuguesa”. Esteve marcada, mas foi depois adiada para 13 de Agosto.
Agora, no morno e simpático ambiente cabo-verdiano do Mindelo, onde se realizou em 19 de Julho a XXIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), este nosso pequeno mundo ouviu o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, tecer encómios ao acordo ortográfico, “reiterando a importância atribuída pelo Brasil” ao dito e afirmando esta coisa extraordinária: “Entendemos que alguns Estados-membros que ainda não ratificaram este importante ato unificador poderão apresentar novos questionamentos quanto à própria evolução natural do instrumento. A reabertura do acordo nos deixaria, contudo, sem qualquer marco legal para a gestão do idioma português. Por isso defendemos, uma vez mais, a tese de que se faz necessária a ratificação do acordo ortográfico por todos os membros da CPLP, para depois cuidarmos da sua eventual retificação.” Onde é que já ouvimos isto, o “assinem que depois logo que vê”? A duas notáveis figuras da nossa ortofolia: Malaca Casteleiro, um dos inventores da coisa; e Augusto Santos Silva, lídimo defensor da causa e reconhecido Kaiser do acordo ortográfico.
Será que não foram cumpridas todas as regras deste jogo? Será que ainda teremos outras surpresas na caixinha até agora fechada a sete chaves?
É como se fôssemos comprar um automóvel com riscos na tinta, vidros rachados e buracos no motor e nos dissessem, candidamente: “Compre, compre, que nós depois o arranjaremos.” Comprariam? Só se fossem parvos. Portanto, uma coisa que tem erros e incongruências está a ser impingida aos que ainda inteligentemente não engoliram a Ipatranha com a promessa de que, se assinarem, se responderá (na langue de bois diplomática) aos “novos questionamentos quanto à própria evolução natural do instrumento.” Ou seja: ao disparate puro que se sabe.
Curiosamente, porém, no extenso (e bastante maçador) comunicado final da dita reunião, este fervor acordista só tem eco num parágrafo. Aquele em que, já no capítulo das congratulações, diz o seguinte: “[Os ministros presentes] Saudaram os esforços do conselho científico do IILP para a ativação do Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa (COLP), cuja primeira reunião deverá ocorrer em outubro de 2019, na cidade do Porto.” Mais uma sigla? É verdade, mais uma. Já não bastava o inenarrável IILP, agora teremos um COLP. Que, pelo nome, há-de ter conselheiros, como é bom de ver. Um conselho de ortografia! E logo reunido no Porto, a cidade natal do nosso bem-amado Kaiser do acordo ortográfico! Há-de ser um mimo, verão.
Esta é uma das surpresas que nos reservavam. A outra veio do Brasil, com uma posição que não se sabe se corresponde a um retrocesso no ímpeto revogador, ou se é apenas passageiro patoá diplomático para animar reuniões em que a moleza de espírito esvazia tudo o resto. Mas a terceira surpresa é um pouco mais irritante. O bem-amado Kaiser não teve tempo para responder (tão ocupado que andará) a um requerimento do coordenador e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, em que este requeria acesso aos instrumentos de ratificação do AO depositados à guarda do MNE, o seu ministério. Em 30 dias (prazo legal para o governo responder a requerimentos deste tipo), a resposta foi o silêncio. Terá o bem-amado Kaiser algo a esconder? É que se não tem, e se adora assim tanto a sua “dama” ortográfica, mostre-os. Ficávamos todos mais descansados por saber que, nesta tristíssima aventura, que nos conduziu a uma aberração sem nome, ao menos tinham sido cumpridas todas as regras do jogo. Ou será que não foram? Ou será que afinal ainda teremos outras surpresas na caixinha até agora fechada a sete chaves?
*Público de 25.Jul.2019


O livro é na escola: leitura e escrita no reino digital

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Por António Carlos Cortez*
A reboque de um recente programa da RTP, o Prós e Contras, em que o tema em destaque era a educação face a um novo paradigma pedagógico assente nos multimédia, creio ser oportuno deixar aqui alguns princípios dos quais a escola actual não poderá abdicar se quiser resistir contra aquilo a que, noutras ocasiões, tenho designado por “ditadura do banal”. Havendo alguns projectos de ensino cuja novidade pode fascinar quem se deixe iludir pelas propostas sempre moderníssimas neste reino de boas intenções que é a educação, confesso não partilhar do espanto e desse fascínio. Quando me falam de salas de aula onde há computadores pergunto-me sempre onde ficam os livros.
São muitas as razões que levam a que directores de escola e corpo docente acreditem que permitindo o acesso aos suportes informáticos (do iPhone ao tablet e outros de inúmera forma e feitio) as aprendizagens se consolidam. O primeiro argumento que usam é a esgotada crença de que, desse modo, os mais jovens ficam como que implicados e motivados para os conteúdos em presença. Não estou seguro de que assim seja. Se, num primeiro momento, a novidade do uso dos multimédia pode dar a impressão de que, na aula, serão novas e profundas as aprendizagens, a verdade é que as lições de Heidegger, ou de São Basílio de Cesareia, continuam vivas e actuais. No contacto com o texto é que o aluno pode descobrir universos de linguagem insuspeitados. Nada se pode comparar, em concentração e exigência, à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às “luzes impuras” da língua técnica. E, para que a História nos auxilie, recorde-se que os totalitarismos trazem sempre consigo o império da técnica, o léxico do empreendedorismo.
Queimar os livros ou, como hoje, querer reduzi-los a mera curiosidade de museu, isso mostra os caminhos sem retorno de regimes que, a pretexto da inovação, apagam a memória e a espessura cultural de que o humano tem de ser feito.
Byung-Chul Han, num livro essencial sobre este assunto (No Enxame — Reflexões sobre o digital, Relógio d’Água, 2016), considera, e bem, que nesta “sociedade do cansaço” que é a nossa, a circulação rápida das informações acelera, para além do capital, o modo como o sujeito pós-moderno (um projecto, mais que um sujeito, diga-se) se deixa penetrar por uma massa não filtrada de informações (as stormshits). Não raro esse dilúvio informativo é responsável pelas IFS (Information Fatigue Syndrom). Paralisia da capacidade analítica, ansiedade, incapacidade de assumir compromissos, foi David Lewis quem, em 1996, provou que esta doença psíquica deriva numa incapacidade de pensar. “O excesso de informação conduz à atrofia do pensamento”, dizia Byung-Chul Han.
Ora, uma escola que se transforme num lugar onde o pensamento é substituído pelo permanente fluxo de ícones é uma escola que despreza o seu passado e ignora a importância da palavra. Isto é: da linguagem. E não é disso mesmo que os professores hoje se queixam? Seja em que grau de ensino for, não estamos perante crianças e jovens, alunos do 1.º, do 2.º ou do 3.º ciclos, e do secundário, ou até mesmo na universidade, incapazes de seleccionar informação, de relacionar conceitos e factos? Não é evidente para quem lecciona que, desde há uns bons 15 a 20 anos a esta parte, os mais jovens carecem de um vocabulário alargado? Não é verdade que os textos expositivo-argumentativos, insertos no Exame Nacional de Português, põem a nu as fragilidades dos nossos jovens no que respeita ao saber histórico-cultural e à redacção de um discurso lógico? Os exemplos que elencam, na maior parte dos casos, não são simplesmente casos pessoais, redundando ora na superficialidade, ora no tom opinativo? Sem hábitos de leitura de textos de teor crítico-ensaístico, sem capacidades de inferência, sem o domínio dos mecanismos de coesão e coerência, e sem domínio referencial, não vemos o modo como falam e escrevem na escola e na universidade? Não é tudo isto verdade? Ainda mal. É precisamente por isto que o computador em sala de aula deve ser usado com parcimónia e bom senso.
Nada se pode comparar à leitura e ao convívio com a língua de tradição, essa que se opõe às ‘luzes impuras’ da língua técnica
O paradigma de uma sociedade transparente, em que o privado tem de ser mostrado pois só assim se julga estarmos a fazer democracia, esse é um modelo erradíssimo quando aplicado à pedagogia e à vida social no seu todo. “O aumento da informação não é suficiente para esclarecer o mundo”, diz o filósofo sul-coreano, acrescentando: “A fadiga da informação é também responsável por sintomas que são característicos da depressão. A depressão é [...] uma afecção narcísica. É uma relação excessiva e patologicamente investida do indivíduo consigo próprio [...]. A percepção do sujeito narcísico-depressivo capta apenas o eco de si próprio [...]. O mundo surge-lhe como reduzido a variantes da sua pessoa.” (p. 75).
Pois não é justamente esse naufrágio em si próprio que vemos acontecer a muitos dos nossos alunos, os quais não viveram na escola senão a mesma ideologia da estupidificação que vivem, em regra, no seu quotidiano? Que utopia existe na escola? Que ideal educativo? Que programa cultural pode elevar o nosso ensino a mais que a famigerada finalidade oca dos exames? As redes sociais, do Twitter ao Facebook, agudizam essa visão de mundo dependente de uma falácia perigosíssima para a educação: aceitar que a escola, para ser sedutora, deve reproduzir a sociedade digital que a rodeia. As massas de dados com que os alunos e professores, reféns desta ideologia do psico-poder, terão de lidar eclipsará o conhecimento (capacidade de análise), e pode mesmo minar a Democracia. Transformadas as instituições em lugares onde ao spectare latino (”spectare” é olhar para trás, pressupondo uma compreensão do tempo, da durée e da lentidão na leitura e na escrita) se sobrepõe o espectáculo, que escola é a nossa? A relação pedagógica deve estar ancorada naquele respeito (respectare) que eleva o aluno a um patamar de sujeito construtor de conhecimento. Quando a escola aposta no sujeito transformado em projecto cai-se na escola-espectáculo: digresssiva, ululante, sem um horizonte a que apontar e de que a civitas e não o sucesso deveria ser o farol. A escola, como outras instituições, sem respeito, decai e “Uma sociedade sem respeito desemboca numa sociedade do escândalo” (Han, 2016:13).
É por isso que o livro e a leitura e a escrita não podem ser postos de parte. As formas electrónicas devem estar ao serviço do livro impresso e da redacção. Ler implica anotar e sublinhar; exige tempo. Escrever é o fruto de um silêncio contemplativo (à letra: “Construção do tempo”) e é disso que a escola necessita: de tempo para ler e comentar por escrito; pensar a linguagem literária e transferir o saber literário para um discurso científico. Nessa aliança, a criança e o jovem não necessitam do computador em sala de aula, meio da excitação permanente dos sentidos, mas inimigo do Belo e da Consolação pelo Belo a que Steiner se tem referido. A perenidade do livro permanecerá, não duvido. O livro e a leitura da sintaxe e semântica de um dado idioma, é isso mesmo que pode impedir que o Mal da Banalidade vença a guerra da educação — nunca uma escola pensada para o imediato vingou. A leitura lenta e expressiva de um poema de Camões, a leitura comentada de um ensaio sobre a filosofia ou os belíssimos escritos sobre ciência e humanidades em Hegel ou Oppenheimer, em Einstein ou em Bento de Jesus Caraça, mesmo a análise de uma equação, não exige tudo isso ponderação e silêncio? Uma sala de aula com mil e um ecrãs... isso é convidar à indigência. A coacção do Google Glass elimina o respeito: essa distância sedutora que o aluno sente quando está perante o professor que ama os livros e não os ridiculariza em nome de qualquer espectáculo.
* Poeta, crítico literário e professor
(Público de 24.Jul,2019)


O Drama africano dos Meninos – Soldados

terça-feira, 16 de julho de 2019



Terminei recentemente a leitura do romance «Alá Não É Obrigado»* do escritor marfinense Ahmadou Kourouma.

Num resumo muito breve direi que a narrativa tem como protagonista um menino-soldado de “10/12 anos” de idade, Birahima, assim se apresentava ele. É que a mãe lhe dizia que ele tinha dez anos, mas a tia com quem ficou após a morte da mãe, acrescentava-lhe mais dois anos à vida.

É através do olhar arguto e perspicaz desta criança narradora portadora de uma linguagem madura e já sarcástica, incomum na sua idade -  criança que não teve tempo, nem direito de saber o que era a infância -  que o leitor vai percorrendo a história das guerras tribais violentas e dos não menos violentos golpes de estados em três países da costa ocidental deste Continente tão massacrado pelos seus. Ora em nome próprio, ora sob disfarçados e perigosos nacionalismos a roçar o que de mais ignóbil possui o sentimento tribal.

Ora bem, Birahima, o nosso narrador, sai da aldeia à procura da tia que supostamente estaria na Libéria. A longa caminhada, revela-se cheia de ciladas, para as quais, ele tudo faz para sobreviver e assim conseguir lograr o objectivo pretendido.
Segue por intermináveis regiões, acompanhando um grande “mago,” de nome Yacoube que de certa forma o protege. Tal como Birahima, embora em versão adulta, Yacoube também quer é sobreviver às balas. Deseja agradar os senhores da guerra; obter sustento; fugir aos esquartejamentos, aos fuzilamentos e  às mortes violentas que eram o dia-a-dia dos territórios percorridos por estas duas personagens.

O mago ou, o grande feiticeiro Yacoube, nos serviços que presta a diferentes chefes, vaticina-lhes quase sempre sucessos nos campos de combate, com glórias futuras e promessas de que será  - de acordo com o chefe  para quem trabalha na ocasião - o comandante máximo do país ou, mesmo da zona, quando se trata de extensa região rica e aurífera. Regra geral, o vaticínio saía mal. Ameaçados de morte, os dois companheiros, Yacoube e Birahima fugiam “a sete pés,” a cada logro descoberto.

Neste percurso de andarilho e bem errante, Birahima vive peripécias infernais em três países, a saber: Costa do Marfim, Serra Leoa e Libéria. Serve a vários senhores, quase todos eles comandantes das guerras intestinas. Pertence como soldado a muitos chefes tribais; participa em combates, como menino-soldado em diferentes exércitos, ao lado de crianças como ele, também meninos-soldados que matam e morrem por causas que eles desconhecem.

 No fundo, só assim ele conseguiria sobreviver (a razão de ser de tudo por que passou) para se encontrar finalmente com a tia, a única pessoa que poderia cuidar dele, menino órfão... Enfim, veremos se tal sucede...

Neste romance, o leitor é confrontado lado a lado com a ficção e com a história real da década de 90, a última do século XX, dos três países mencionados em que a violência, as intrigas, as perseguições, as feitiçarias, tudo isso intrincado numa rede fortíssima de ambições desmedidas dos dirigentes no poder e, daqueles que os combatem  e que querem apoderar-se-lhes do assento.

 Lemos no livro,  nomes reais  -  pois que eles estão no cerne dos conflitos - nomes como  Capitão Taylor, Príncipe Jonhson, Samuel Doe, para além de outros líderes da história recente de África, promotores  igualmente de muitos horrores, no espaço da narrativa onde circulam. Ora com chefes poderosos, ora como derrotados e massacrados pelos rivais.

A última parte do livro transforma-se numa autêntica crónica histórica.
A linguagem e o tom da narrativa estão conformados em humor, em ironia e em sarcasmo.
Há aparentemente, na voz do narrador, uma certa displicência humorística na arte de contar a sua história, e nota-se-lhe alguma frieza cautelosa, estudada, mas crente, na sua relação com Alá.

 Afinal, considera ele  que  “Alá não é obrigado” a socorrer a tudo o que lhe sucede de errado na vida, enquanto menino-soldado e, muito menos, responder aos apelos constantes invocados nas orações e/ou nas bruxarias dos comandantes de uma guerra ou, de várias guerras, muito más e sem fim à vista.

E nisto reside o encanto da narrativa, a sua linguagem ricamente irónica. 

Sem dúvida que o autor escolheu assim, a via menos penosa, menos “real” mais evasiva, para falar de violência e para colocar o leitor perante o drama.
Assim realizado, a leitura do livro «Alá Não É Obrigado» é empolgante até ao desenlace do enredo.

 Sobre «Alá Não É Obrigado» podemos falar em romance pícaro. Sem dúvida que isso cabe também na obra. O ardiloso, a astúcia, a velhacaria e mesmo a vilania, estão bem presentes em cada linha do livro e em moldes demasiados reais.

Para finalizar, transcrevo um trecho da apreciação crítica feita ao livro, pelo “Le Nouvel Observateur:” Uma fábula política, a um tempo divertida e feroz, destinada a figurar entre os grandes clássicos da literatura africana.”

*«Alá Não É Obrigado» edições ASA literatura.
 Porto, Portugal 2003.

Capitães, navios, viagens e naufrágios na escrita de Teixeira de Sousa - Cem anos sobre o seu nascimento -

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Estamos no ano da comemoração do centenário do nascimento do médico, escritor e ensaísta Teixeira de Sousa (1919-2019).
Abro aqui um parêntese para uma nota pessoal e dizer que Teixeira de Sousa é um dos meus escritores de eleição, no que toca à escrita literária cabo-verdiana. Volta e meia, apanho-me a revisitar alguns dos seus ensaios, romances e contos. Creio ter   lido a quase totalidade dos seus escritos ficcionistas e os seus artigos, publicados em jornais e revistas. Isto apenas para dizer que sou leitora aficionada da obra de Teixeira de Sousa. Fecho o parêntesis.

Nesta linha de interesse, igualmente tenho-me debruçado em  análises, sobre alguns romances e contos de T. de Sousa,  em textos dispersos, não só neste «Blog», mas também  em outras publicações e em intervenções públicas.
E já agora uma pequena nota/aviso: o leitor interessado encontrará no Boletim Cabo Verde (1949-1964) e no Jornal Terra-Nova, um acervo significativo de textos ensaísticos de Teixeira de Sousa.

Portanto, é bem provável que me repita nesta evocação em termos de apreciação deste grande escritor de formação ainda Claridoso (1936) e em transição para a geração da «Certeza» (1941).

Sobre o modelo de escrita literária de Teixeira de Sousa, torna-se importante sublinhar também, a influência do movimento  literário português denominado neo-realismo que estava no auge, precisamente, aquando da estada - estudos universitários de medicina 1938-1945 de Henrique Teixeira de Sousa em Lisboa -  e que são de recorte muito acentuado na sua obra, com especial destaque para os Contos (leia-se a colectânea: «Contra Mar e Vento»).

É que concomitantemente à sua vida de bom estudante universitário, Teixeira de Sousa participou também - durante a permanência em Lisboa - em tertúlias literárias, em que pontuavam nomes grandes do movimento, tais como  Fernando Namora, Cardoso Pires, João Cochofel, Mário Dionísio, entre outros famosos escritores da altura.
Convém dizer que muito  do que  aqui vai registado foi antes confirmado pelo próprio escritor que ao ensaísta francês Michel Laban, o autor concedeu uma  grande entrevista, inserta no volume I de «Encontro com Escritores» editado pela Fundação Eng. António de Almeida, Porto,1992. 

Médico de profissão, o Dr. Henrique Teixeira de Sousa viu a luz do mundo, a 6 de Setembro de 1919, no pequeno povoado de São Domingos, na Freguesia de São Lourenço na ilha do Fogo.

Os progenitores do nosso escritor para que os filhos fizessem a Instrução Primária,  a família transpôs-se para a cidade de São Filipe, sede de Concelho e da ilha e onde se sediava a Escola.

A propósito da sua fase de aluno do ensino primário,  na cidade de São Filipe, Teixeira de Sousa relembra com carinho a figura da sua professora, a foguense Irene Vasconcelos Barbosa, num dos muitos artigos escritos para o Jornal «Terra Nova».

Igualmente a figura de professora é evocada e transfigurada em personagem de alguns Contos do autor, com destaque para o Conto «Dragão e Eu» quando, e já com saudades, o protagonista termina o 2º Grau da Instrução Primária:

“ A escola! Não me queria convencer de que tudo tinha acabado. Não mais as lições em classe e as brincadeiras de roda da palmeira. Não mais os livros de leitura com trechos bonitos que eu lia em voz alta. «Marília e Gonçalves passeavam numa tarde, à beira do rio, quando Marília se descuidou e caiu à água. Gonçalves atirou-se ao rio, salvando Marília de correr afogada.»
Era um mundo de coisas belas (...) A professora falava com brandura e ensinava sem bater.”  (In: Contra Mar e Vento, pág. 46 da 3ª edição – Europa-América, 1998).

Para este texto homenagem do centenário do nascimento de Henrique Teixeira de Sousa, escolhi os sub-temas elencados no título.

Afinal, o escritor foguense nunca escondeu a admiração que tinha por tudo que se relacionasse com a vida a bordo de navios. Pelo contrário, sempre a enunciou e afirmou-a de várias maneiras, nas muitas  entrevistas que deu e mesmo em alguns dos seus textos a propósito. Finalmente, retratou-a e recriou-a com enorme projecção na ficção que ele gerou.
Com efeito, ele  habituara-se desde tenra idade a escutar o assunto em  casa. O pai do escritor, João Sousa, natural da ilha Brava, era capitão de longo curso e mais tarde, dono de alguns barcos que fizeram também a aventurosa ligação marítima - Fogo/Brava/ Estado Unidos da América.

Ora bem, a profissão paterna, impregnou no autor um entranhado amor às coisas    marítimas - a vida a bordo, a terminologia náutica, as viagens sobre as quais o escritor frequentemente referia. 

Aliás, segundo ele, crescera a ouvir histórias de embarcadiços, de baleias,  (nestas últimas, incluídas as histórias que lhe foram contadas sobre o trisavô, trancador de baleias de apelido Sousa, oriundo da ilha da Madeira e que  casou e se fixou na Brava); de “americanos” torna-viagem; de mar bravio; de longas calmarias; de naufrágios; de movimento de passageiros e de carga; de contrabandos; de veleiros e de escunas.

De tal forma interiorizou estas vivências que a sua primeira obra publicada  uma colectânea de Contos  intitulou-a: «Contra Mar e Vento» e dedicou-a ao pai: À memória do Capitão John, meu Pai – capitão que foi de veleiro e sabia protestar contra mar e vento, e contra quem de direito for e pertencer possa.” As últimas palavras usadas nesta dedicatória foram parafraseadas propositadamente da linguagem que então se usava nos requerimentos relativos a despachos aduaneiros de barcos e a assuntos marítimos. (Veja-se a propósito, a entrevista de T. de Sousa a Michel Laban – Encontros com Escritores  já aqui referida).

É nesta mesma colectânea de contos que nos é dado conhecer, através do Conto homónimo do título, «Contra Mar e Vento», as peripécias, as vicissitudes de uma viagem nos anos 30, 40 do século passado, que teve como ponto de partida New Bedford nos Estados Unidos da América e como  destino, as ilhas do Fogo e da Brava.  O fulcro da narrativa centra-se nessa viagem que não chegou “a bom porto” antes pelo contrário, um pavoroso incêndio deflagrado na casa das máquinas e o consequente naufrágio do navio, impediram os seus passageiros e respectivas cargas de aportarem em São Filipe na véspera do Natal como previsto.

“Ema Helena” o palhabote “com praça na ilha do Fogo” fez uma tormentosa viagem de Providence  para a ilha do Fogo. O seu capitão “Fortunato” autêntico lobo do mar, conhecia bem os caprichos do “Gulf-Stream(...) O mar do Golfo não devia estar para brincadeiras. Já se sentia a sua má-criação. Os vagalhões cresciam e o vento uivava nas enxárcias como cães em noites. Ema Helena corria a quinze milhas à hora. A barquinha assim marcava. Se o tempo se mantivesse igual até às ilhas, daí a vinte e três dias largariam o ferro em S. Filipe. Noite de natal. Príncipe de Ximento mais os homens da Companhia Braçal cantando bêbados pelas ruas da vila. Missa do Galo na igreja matriz e a canja de galinha quentinha em casa. Eugénia bem vestida e perfumada. Arturinho falando bom português aprendido no liceu. «Esta bicicleta é minha. Foi meu pai que ma trouxe da América.»”  Assim sonhava acordado o “Capitão Fortunato”  Mas os azares durante  a viagem, devido aos ventos contrários, às ondas medonhas do mar, não permitiram a almejada chegada ao destino.

Não foi por acaso que Teixeira de Sousa fazia apelo com alguma insistência para que historiadores, investigadores e até mesmo curiosos da matéria, se debruçassem e escrevessem sobre a história trágico-marítima cabo-verdiana, que está por contar. Principalmente aquela que foi a aventura de veleiros e de escunas de Cabo Verde, em demanda  dos portos da costa leste, a atlântica, dos Estados Unidos.

E mais, não incorrerei em erro ao dizer que quase toda a ficção de T. de Sousa está entranhada de mar, de barcos e de viagens, enquanto portas de saída e de entrada das ilhas.

E já agora, ainda sobre o mesmo assunto, convido o leitor a acompanhar-me nesta breve incursão nos romances de Teixeira de Sousa.

Vamos, em curto itinerário, percorrer alguns romances deste autor em que os temas acabados de referir emergem de forma muito evidente. Entremos em «Ilhéu de Contenda».  A figura de mulher/fundadora de família e que veio do  mar ou, através do mar, tão bem simbolizada na figura de “Nha Mariquinha” ela que olhava para uma pintura figurativa de um navio, e que volta e meia exclamava: “La barca! Es la barca de mi destino!” numa ambiguidade de mente envelhecida pelo tempo que tanto podia significar o barco que a trouxera de longe, dos confins do Chile e a impediu de voltar à terra natal; como o barco que lhe levou o marido que nunca mais tornou à casa, à ilha. Mais tarde, e já à beira da morte, “Nha Mariquinha”  exclamou: “..Fué la barca... fué la barca... Fué la barca de mi destino!” Afinal, lançando as culpas à causadora principal da sorte e das desditas que ela havia sofrido.

Esta personagem – Nha Mariquinha  oriunda de um país da América do Sul, viera para a ilha do Fogo trazida pelo marido, também ele, “ capitão de baleia, o célebre José Cláudio”, no dizer do narrador.

Interessante é que é neste romance que o autor  também nos conta da tragédia do mar na vida dos ilhéus.

A dada altura na narrativa, há o diálogo entre o protagonista Eusébio da Veiga e o clínico da ilha, Dr. Vicente em que aquele explica ao médico:  “...contava a minha mãe que Nha Mariquinha era uma linda mulher quando nova. Alta, elegante, muito trigueira, de olhos negros, cabeleira farta, também negra como azeviche. Ela enviuvou pouco depois de cá chegar. O marido desapareceu no mar. E tem graça, aliás, não tem graça nenhuma, aconteceu a mesma coisa à Soila, a rapariga que a velha criou. O marido também desapareceu numa viagem para a América. Respondeu o Dr. Vicente: “ Senhor Eusébio, há muita tragédia oculta nesta nossas ilhas. Muita tragédia que o mundo ignora. E o pior é que aceitamos tudo. (...) ..o mar que nos cerca e por vezes nos engole, o isolamento (...)”.

Neste trecho do romance,  o autor  já aprofunda um pouco, a épica marítima, cabo-verdiana que mais não é do que as vicissitudes marítimas na vida dos marinheiros e dos emigrantes ilhéus de outrora.

Continuando o itinerário pelos romances, atemo-nos um pouco no romance de sugestivo título: «Capitão de Mar e Terra». Este é talvez, do conjunto dos romances, aquele que mais explicitamente e pormenorizadamente enfatizou a vida do mar, as viagens, com destaque na figura do protagonista Alfredo Araújo, capitão de mar e terra. Portador de um autêntico sociolecto náutico, uma linguagem específica e sócio-profissional, vai percorrendo a narrativa  em contacto com os diversos grupos de personagens que constituíam a sociedade e as forças vivas de Mindelo de então. Como já mencionei, o título  do livro  é significativo, pois que  nos remete ao seu enredo, em que as referências aos capitães, às marés, às máquinas dos navios, aos cordames e velames, são uma constante ao longo dos seus capítulos. Eis, a seguir, um curto trecho:

[Comandava, Alfredo Araújo em plena viagem] “(...) atenção à proa, atenção à popa, atenção a bombordo, atenção a estibordo – respondeu cada um dos vigilantes separadamente. (...)Atenção ao farol. Atenção ao farol. (...)  – a advertência foi ecoando até à vigia da proa. (...) O mar é  assim mesmo, tem situações difíceis que ocorrem até na pequena cabotagem. Só está preparado para todas as eventualidades, quem aprendeu, praticou e criou calos de riba de água. E a isso tudo, infelizmente se dá pouco valor. (...)   Mantém o rumo.  Mantém o rumo.”

Disputando com «Capitão de Mar e Terra»  em  referências aos capitães, às marés, às máquinas dos barcos, às travessias do Atlântico, aos temporais marítimos, temos em quase igual textura, o romance: «Oh! Mar de túrbidas vagas» em que quase toda a história se passa a bordo do lugre Santa Luzia em viagem de Providence, EUA, para Cabo Verde. Mas também a narrativa traz a vida familiar e as curtas estadas do Capitão Hilário, em terra, junto da família.

É curioso verificar que Teixeira de Sousa dedica o livro ao irmão, Orlando Teixeira de Sousa, evocando possivelmente a cumplicidade fraterna, não só nas viagens que fizeram ainda crianças, com pai capitão João Sousa,  mas também, das muitas conversas havidas a esse propósito, em ambiente doméstico.

Ora bem, ficámos  também a saber que o autor “bebeu” na figura do pai,  a criação do protagonista deste último  romance, publicado em vida, (2005) – «Òh Mar de túrbidas vagas»  embora transfigurada em personagem. Era o “Capitão Hilário” um homem tranquilo, experiente e conhecedor das “manhas” dos ventos e das marés da travessia. Dito deste modo, pode parecer demasiado linear, por se tratar de escrita literária, mas socorro-me das palavras de Teixeira de Sousa sobre esta matéria que lhe serviu de inspiração romanesca. Palavras por ele proferidas na grande entrevista já aqui aludida.

Com efeito, o escritor Teixeira de Sousa terá contado nos seus livros, à maneira de bom romancista, uma parte significativa da história trágico-marítima  dos nossos homens do mar e dos putativos emigrantes à procura do “eldorado”.

Bem gostaria de mais acrescentar, pois que o historial ficcionista muito rico de Teixeira de Sousa, assim o exigia mas o texto já vai longo.

Para terminar, dizer que Henrique Teixeira de Sousa faleceu em Oeiras, Portugal a  3 de Março de 2006, aos 86 anos de idade, vítima de atropelamento.

Com ele, simbolicamente, foi sepultado o último Claridoso.


Dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar

segunda-feira, 8 de julho de 2019
O texto abaixo transcrito é sobre o polémico Acordo Ortográfico e da autoria do Jornalista e estudioso de questões sobre a  Língua comum, Nuno Pacheco, a quem peço permissão para publicar no «Coral Vermelho» esta interessante e oportuna abordagem sobre o A. O.  

Nuno Pacheco*

Chegado do Reino Unido, onde esteve em visita oficial, Donald Trump escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o “Prince of Whales”. Ora isto deu a Stephen Colbert mais uma oportunidade, e já são tantas, de ironizar com o desprezo a que Trump vota a língua em que fala e escreve. E pôs-se a imitar o canto das baleias, pois “Prince of Whales” seria príncipe das baleias, e na verdade Trump esteve com o “Prince of Wales”, o príncipe de Gales. Ora “Whales” e “Wales” soam da mesma maneira, mas a letrinha que as distingue na escrita faz toda a diferença. É como “acto” e “ato”, não é verdade?
Voltando a Trump: não são apenas erros de escrita os que ele repete, sem o mínimo pudor. Ainda há dias o vimos anunciar mais sanções contra o regime do “ayatollah Khomeini” (que morreu em 1979), em vez de se referir ao “ayatollah Khamenei”, actual líder supremo do Irão. Um erro histórico. Mas isso importa?
Importa, claro. E é aqui que se levantam umas vozes a dizer que tanto faz, que toda a gente sabe que ele queria dizer Khamenei e se enganou, que Trump sabe escrever “Wales” mas lhe escorregou o dedo para as baleias, etc. E quem diz Trump diz o senhor Gervásio, ou o menino Tonecas, ou a senhora dona Miquelina, porque isso de errar é muito relativo. Pois. Repitam isso a quem vai a conduzir um camião pesado ou a um cirurgião de bisturi em punho. Errar não é uma escolha, para a esmagadora maioria das pessoas e das profissões. Diz-se que errar é humano, e é verdade, mas também é humano procurar evitar o erro. Porque, em certos casos, o erro paga-se muito caro. Até em práticas sem danos letais, como o futebol ou o atletismo.
Há dez anos, num curioso texto intitulado “Abordagem histórico-sociológica do debate em torno do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em 2009 por Rita Marquilhas, da Universidade de Lisboa, concluía-se o seguinte: “A inclusão de secções dentro do texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em que se prevê flexibilidade na escolha entre a antiga solução portuguesa e a antiga solução brasileira, que foi no fundo uma demonstração de pragmatismo por parte dos negociadores do documento, introduz por arrastamento uma modificação no conceito de erro ortográfico. O erro deixa de ser, naqueles casos particulares, um desvio em relação à matriz inflexível constituída por regras de sentido único, para passar a ser, somente, a inobservância de uma escolha. Fica-se mais perto, portanto, de uma desmistificação das virtudes inerentes às ortografias. Dada a história de intolerância a que elas têm estado ligadas, isto parece ser uma boa notícia em termos de renovação de mentalidades.”
As variantes da língua devem ser fixadas em cada país (não de forma transnacional), como parte de um património comum
Resumamos, portanto: as ortografias são intolerantes, por serem inflexíveis; o erro constitui uma estigmatização desnecessária de quem nele persiste; e transformá-lo em “inobservância de uma escolha” foi uma saída inteligente para que o erro deixe de existir e de envergonhar. Isto, para certas criaturas, é um triunfo. Já não se pode dizer: o senhor errou. Porque o senhor apenas se decidiu pela “inobservância de uma escolha”. Parabéns, Trump, pelas suas baleias.
Tendo em conta este raciocínio, que acabaria com a maldita regra que diz “não se consentem graÆas duplas ou facultativas” (reforma ortográfica de 1945), dir-se-ia que agora cada um pode escrever como quer. Vejamos o que aconteceria se certas palavras usadas nos recentes exames de Português e de
Matemática do 12.º ano, como “aspeto”, “correção”, “objeto”, “correta”, “vetor”, “reta”, “semirreta”, “diretor”, “bissetriz”, surgissem escritas como aspecto, correcção, objecto, correcta, vector, recta, semi-recta, director, bissectriz. Vinha logo alguém dizer que não senhor, isto agora não se escreve assim. Portanto, a ideia de que a ortografia deixou de ser uma coisa impositiva e mais dada a “inobservâncias” nas escolhas só vale para palavras admitidas pelo dito “acordo ortográfico”. Aos que não o seguem, é posto o carimbo (nada discriminatório!) de “fulano escreve de acordo com a antiga ortografia”. Como se vê, a “desmistificação das virtudes inerentes às ortografias” não só não existe como é usada em sentido contrário, para impor grafias idiotas ou inadmissíveis no português europeu.
Não admira, por isso, que todos os dias surjam aberrações como “impato” por impacto, “fato” por facto ou “autosustentável” por auto-sustentável (estas pérolas, na SIC e na CMTV, foram registadas recentemente, com imagem, pelos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico). Por isso, quando nos vêm falar nos dez anos que as criancinhas já levam de aprendizagem desta intragável caldeirada, invocando-os como razão para manter o “acordo” como está, só me vem à memória uma antiga canção de Paulo de Carvalho (10 anos). E a resposta só pode ser, alterando-lhe ligeiramente o refrão: dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar. E cada minuto a mais, além de escusado, pesa. É, pois, mais que tempo de acabar com isto e repor a racionalidade perdida: a diversidade da língua portuguesa deve ser reconhecida, fixando as suas riquíssimas variantes em cada país (e não de forma transnacional), como parte de um património comum. É esse o acordo do futuro, não a mistela que nos impuseram.

*Jornalista. Escreve à quinta-feira

Público de 04.Jul.2019