A DERIVA DO MpD, FIGURAS DO ESTADO E O DIA DO MUNICÍPIO

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Recebi, por e-mail, um texto (autor devidamente identificado) há já algum tempo, não muito, uma vez que dizia respeito a uma data referenciada – aniversário da fundação do MpD (14.03.1990) – um pequeno texto, que, galgando a onda do anglicismo que hoje vagueia pelo mundo, se designa por “post”, que a seguir reproduzo, com a devida vénia, por com ele concordar, embora ache que o autor tenha sido algo comedido na sua apreciação:
OS DOIS EMEPÊDÊS...
O partido honrado e de princípios, que se chama Movimento para a Democracia, fez ontem 29 anos de vida e, hoje, é um estado de espírito, uma chama que vive na mente de milhares de cabo-verdianos (e que, seguramente, pese o seu estado vegetativo, não vai morrer).
O partido que está no poder – que, curiosamente, ostenta o mesmo nome – tem apenas cinco/seis anos de existência. São dois partidos diferentes, mas partilhando o mesmo nome.
O primeiro, é um partido de militantes e de causas; o segundo, uma coletividade de tecnocratas, uma espécie de Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada...”
Sem discordar do autor, na sua apreciação global penso que ao considerar o actual MpD “uma colectividade de tecnocratas” terá usado um misericordioso eufemismo ou terá sido extremamente generoso. Tecnocratas?! Quem nos dera!... Desde quando? Por respeito e consideração, e até estima, por algumas pessoas da direcção do MpD e do seu grupo parlamentar escuso-me de definir o tipo de colectividade em que se tornou essa sociedade (empresa) política.
O que não há dúvida é que deixou de ter uma linha condutora e uma doutrina orientadora associadas às suas raízes identitárias. A submissão a pessoas, doutrinas e ideologias que nada têm que ver com os princípios fundadores do MpD descaracteriza o partido conduzindo a uma de três conclusões: amnésia selectiva, ausência de ideias ou completa falta de carácter. Só assim se justifica a obediência a uma ideologia e a apologia ou defesa de um regime que muitos males causaram ao povo cabo-verdiano e que foram repudiadas de forma veemente nas legislativas do dia 13 de Janeiro de 1991 e do dia 17 de Dezembro de 1995 – cada uma das datas com uma maioria qualificada – por eleitores que sabiam e tinham bem presente o que fora a tenebrosa ditadura do PAIGC/CV (vide “O Partido Único em Cabo Verde – Um Assalto à Esperança” de Humberto Cardoso – Edição Pedro Cardoso).
Aceito que os novos eleitores – menores de 40 anos que terão crescido na democracia e em liberdade, graças ao MpD (os menos informados nem o sabem)não terão tido consciência da verdadeira dimensão do que é (ou fora) a ausência desses valores fundamentais. É certo que para esta situação também contribuíram, e têm contribuído, alguns trovadores que no seu entusiasmo lírico terão conjugado “Independência” com “Liberdade” como se de um casamento lógico se tratasse, sem se darem conta que a realidade, desde os seus primeiros momentos, apontava para a absoluta inexistência desse binómio. A Independência não se fez acompanhar nem da liberdade, nem da democracia, mas sim de uma pura ditadura, e dura para a brandura deste povo.
A recente polémica sobre figuras do Estado trouxe ao de cima, mais uma vez, a verdadeira natureza do actual MpD sobre um assunto que não é, nem de perto nem de longe, virgem, e sobre o qual o partido se manteve sempre quedo e mudo apesar de ter sido veiculado por várias vezes e por diversas pessoas, nas redes sociais e na comunicação social.
O comunicado do secretariado do MpD acerca de figuras do Estado ao invés de apelar ao reforço da necessidade do cumprimento da Constituição fez tábua rasa do primado da Lei - o que é grave! – ao ignorar a denúncia do seu incumprimento e esqueceu-se – amnésia selectiva? – de que o assunto já fora levantado em 2006 por um ilustre deputado do próprio MpD num artigo de opinião intitulado “Com que direito fotos de Amílcar Cabral nas repartições do Estado?
O inoportuno comunicado, respondendo prontamente à “voz do dono”, além de descabido e lamentável, é intimidatório ao pretender censurar a liberdade de expressão no seio do MpD com intenção nítida de cercear um debate sério que ainda não se fez e do qual a democracia e a verdade histórica clamam.
Absolutamente obcecado e pressuroso na defesa acrítica e na legitimação do relato “épico” e “nacionalista” dos “homens de Conacry” que procuram credibilidade na figura de Amílcar Cabral, esquece o MpD que em democracia, em Estado de direito democrático, não há intocáveis ou “vacas sagradas”. Estas as vacas sagradas normalmente associadas ao ‘culto de personalidade’ são figuras de regimes autoritários do tipo de Kim Il Sung da Coreia do Norte, de Hugo Chavez da Venezuela ou mesmo de Pereira/Pires dos nossos primeiros 15 anos de País Independente, citando apenas alguns. Em democracia ninguém está acima da Lei ou fora dela, sendo o respeito escrupuloso pela Constituição e o cumprimento rigoroso das Leis da República a regra de ouro. E não é preciso nenhum doutoramento de Harvard ou de Oxford para distinguir entre figuras do Estado e figuras da História. Basta saber ler e escrever português – coisa de que hoje poucos se interessam – e ter meia dúzia de neurónios.
E é nesta esteira, a de submissão a determinadas pessoas e doutrinas que certas narrativas consideradas heróicas e nacionalistas sem uma análise consistente da sua sustentabilidade, substantiva e adjectiva, nem a aferição da sua dimensão e estatuto que embarcámos no “19 de Maio” como o dia do Município da nossa capital. Uma escaramuça entre magalas e um grupo de rapazes e raparigas na esplanada da Praça Alexandre de Albuquerque transformou-se num acto heróico merecedor de um feriado municipal. Ou terá sido considerado uma resistência organizada contra as Forças Armadas portuguesas que escancararam as portas da independência ao PAIGC? Porquê então municipal e não nacional se se trata de um acto heróico, de um dia marcante da nossa gloriosa História? As datas municipais têm uma lógica bem diferente das datas nacionais – em conteúdo, contexto e simbolismo.
Não é preciso ter dois dedos de testa para saber que, no fatídico dia 19 de Maio, se houvesse intenção expressa (ordenada) de matar, não sobraria ninguém. Eram militares vindos da Guiné com experiência operacional munidos de espingardas metralhadoras. Bastaria um, um só, para fazer os estragos que vimos, infelizmente, assistindo nos “tiroteios” nos EUA e noutros países. Não quer isto dizer que o incidente não tenha sido grave. Foi gravíssimo e muito violento, apesar de não ter havido vítimas mortais. Foi um acto condenável, de efeitos lastimáveis, mas circunscritos e controlados, entre jovens exaltados.
E o mais curioso, é que parece que a própria Câmara já tinha chegado, e bem, a essas conclusões ao adoptar o 29 de Abril – data da elevação da Vila de Santa Maria à categoria de Cidade da Praia em 1858 por Sá da Bandeira – como o dia do Município.
Então, porquê manter o “19 de Maio”? Submissão à narrativa do PAIGC/CV? Porque engendrou a Câmara uma reunião justificativa para concluir salomonicamente de forma ardilosa ou covarde – conforme as perspectivas: cumprimento do “pacto” ou medo da desconstrução da narrativa – para a manutenção das duas datas? Não, o 19 de Maio só pode ser “feriado” numa lógica marxista de fixação de datas históricas ou numa visão estreita da História. A sua dimensão, natureza e estatuto não enobrecem nem dignificam Praia, mas quiçá, apenas e tão-somente, alguns protagonistas do evento que dele têm beneficiado. Por este andar não se estranharia muito se Ribeira Bote reivindicasse o seu “estatuto” de primeira “zona libertada” de Cabo Verde e S. Vicente tivesse também o seu 2º “Dia do Município”.
Praia merece mais. Muito mais! De algo digno e honroso que diga directamente respeito a todos os seus munícipes. E o simbolismo da data da sua elevação, por reconhecido mérito, à categoria de cidade no século XIX é suficiente porque é pertença de todos os seus munícipes e é, para ela, até agora, bem mais significativa do que qualquer outra data. E a manutenção concomitante do “19 de Maio” configura-se abstrusa e redutora.
A.Ferreira
                                                                                                                            

Salvé! 5 de Maio!

domingo, 5 de maio de 2019



Dia da Língua portuguesa e da Cultura dos países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Dirijo-me a ti, minha amada Língua em jeito de homenagem, num desabafo curto e breve, a um tempo afectivo e instrumental.

Afectivo porque me criei contigo e através de ti compreendi os outros e o mundo diferente. Também foste a minha Língua maternal primeira. Minha mãe ninou-me, embalou-me com canções que tu moldaste.

Instrumental, porque contigo aprendi as primeiras letras, os primeiros números, os livros que me acompanharam a vida toda. Os conhecimentos, os conceitos e as ideias que conceptualizei foram todas, quase todas adquiridas graças a ti.

 Por meio de ti cheguei a outras culturas, a outros escritores, a poetas, filósofos, pensadores e artistas vários.

Contigo alarguei o meu horizonte, consolidei as fundamentações das minhas convicções e do meu estar no mundo.

Afinal,  também sou o que sou - mesmo na minha dimensão crioula que tu criaste - muito  graças a ti!

Mil vezes obrigada! Minha bela Língua! Por tudo que me deste e como uma boa mãe, sem nada pedir em troca.



A Língua portuguesa em grande e actual expansão

quarta-feira, 1 de maio de 2019

 Enquanto na China se aprende a Língua portuguesa...Cabo Verde tenta paulatinamente banir o seu uso quotidiano e a sua oralidade...
Uma tristeza oceânica atinge-me ao pensar no que acima escrevi!
Pois bem, ao ver – em programas televisivos, ao ler textos estatísticos - o crescente interesse dos chineses em aprender a nossa língua; fico extasiada e feliz. Mas logo de seguida, sou assaltada por uma espécie de mal-estar ao pensar no malefício que auto-infligimos, ao desprezar nas escolas, este veículo linguístico, o mais importante para a devida escolarização e cultura das nossas crianças e adolescentes.
Centrando um pouco no interesse da Língua portuguesa na China, gostaria de acentuar que não é numa parte qualquer da China que mais se revela este crescente interesse, mas sim, em zonas, regiões ou províncias das mais desenvolvidas daquele grande mundo. Em Xangai,  (em escolas primárias, liceus e em mestrados da Universidade de Relações Internacionais) em Pequim, idem. São nessas zonas e em outras similares, onde existem de facto, uma demanda crescente do ensino e da frequências às aulas da Língua portuguesa.
Quanto a nós, aqui nas ilhas, continuamos deliberadamente, ou não, a perder esta incomensurável riqueza de que somos também donos: a Língua portuguesa uma das mais antigas línguas latinas e de todo, das mais belas  e cultas, em grande expansão no mundo global. Estamos a perdê-la sem parar para pensar no mal profundo que se está a provocar nos estudos, no desenvolvimento técnico, científico do País.
Diria que nos comanda um sentimento maligno de auto-destruição linguística.
Os resultados catastróficos, estão à vista: alunos cada vez mais mal preparados, por professores que não sabem falar e nem redigir em português e ainda por cima, muito pouco cultos no geral.
Ninguém faz alguma coisa para inverter o hediondo crime lesa-língua, que se está a cometer nestas ilhas ? Neste país que merecia melhor sorte nas escolas?
E  não bastando tudo isto, teimosamente, continuamos a enviar alunos, alguns, com rótulo de “bons alunos” a formar em Universidades de Língua portuguesa. Infelizmente, a maioria dos nossos alunos não sabe nem escrever e muito menos falar, expressar-se  na Língua comum. São –regra geral- mal sucedidos, porque não compreendem o que os professores lhes dizem nas aulas e não compreendem também os conceitos  explicados nos livros.
Quando assim sucede, é o fracasso da formação pretendida. Eles e elas, tentam esconder a sua frustração, o seu desvio de um programa de futuro, de vida, entrando e engrossando a considerável emigração clandestina. Assim vai, com excepções é certo, o perfil dos estudantes que enviamos para os Politécnicos e para as Universidades portuguesas.
Ora bem, Estamos a querer comemorar, celebrar os 40 anos de ensino superior nacional. Sim, seria de louvar, teria razão de ser se a evolução fosse comparativa e gradualmente (com o passar do tempo) positiva. Mas para mal, e para o agravamento dos nossos pecados, a formação nacional universitária tem vindo a ficar muito aquém daquilo que é expectável num patamar académico superior.
Vamos a um pequeno jogo: suspendamos uns segundos no tempo, e pensemos por instantes, num “setemanista” ou, num aluno do 1º- e 2º- anos do curso complementar do passado dos liceus cabo-verdianos, e num formado actual e intitulado "licenciado" “mestre” ou “doutor” das universidades cabo-verdianas. Façamos uma "sabatina" imaginária.  Não tenho a menor dúvida sobre qual deles recairia a vitória. É muito confrangedor, mas é a pura e a dura realidade. Haverá excepções. Repare-se: excepções, apenas isso!...exagero? caricatura?...antes fosse.
Minha gente: a nossa aposta presente e futura deve ser nas escolas, com a língua veicular do ensino em plenitude, porque é através da Língua comum, a portuguesa, que os conceitos vêm escritos e descritos em manuais de Leitura, em manuais de aprendizagem científica, técnica e filosófica. Sejamos minimamente pragmáticos e objectivos!
Quando ouço, na comunicação social, professores a falarem em crioulo porque não sabem expressar-se em português, e para piorar a situação, através de uma linguagem pouco elaborada, paupérrima, e nada abonatória em termos do saber e da cultura de um docente; digo para os meus botões: “o País retrocedeu! O País está a retroceder...”



António Pedro no traçado de “Atlântida” e de “Claridade"? - A poesia cabo-verdiana nos finais da 2ª década do séc.XX -

sexta-feira, 12 de abril de 2019



O título acima, poderá fazer pensar em algo mais do que aquilo que realmente pretende  transmitir o texto que se segue.
Antes de mais, esclarecer o leitor que este escrito foi-me sugerido pela leitura do artigo de Manuel Brito-Semedo, “Porto Memória,” evocativo dos “90 anos de Diário de António Pedro”  (1902-1966)  e publicado no Jornal «Expresso das Ilhas»  de 10 de Abril do ano em curso.
Afinal, António Pedro participou ou não, teve ou não influência, na efervescência do modernismo literário que então se vivia nas Ilhas? .... Parece que sim, mas ao que disso restou, permitiu-nos aquilatar que as suas ideias literárias, o seu surrealismo, a forma como encarava e praticava exercícios poéticos - fundados na escrita automática, herdada da escola francesa, mais tarde  transposta para a poesia portuguesa nos anos vinte do século passado - não terão sido tão bem aceites, para a estruturação da modernidade poética das ilhas,  projectada pelos seus pares cabo-verdianos.
Historicamente, Praia e Mindelo foram os palcos da configuração, dessa profunda alteração dos cânones literários islenhos. À primeira urbe, coube a modelação do projecto (que disso não passou)  «Atlântida» sob condução de Jaime Figueiredo e à segunda cidade, caberia o palco do programa de «Claridade» com os autores Baltazar Lopes da Silva, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, entre outros fundadores entusiastas.
 Pois bem, Brito-Semedo, no artigo aqui já  aludido, e citando Félix Monteiro, expressou bem a forma como o “Diário” de António Pedro, publicado em 1929, pela Imprensa Nacional, foi recebido em Mindelo. “...rasgado simbolicamente em auto-de-fé, por um grupo...remetendo ao autor, pelo correio, os despojos da sua intolerância.”
António Pedro da Costa, nasceu na cidade da Praia em 1902, filho de pai português e de mãe inglesa. A família Costa era conhecida e abastada em Santiago.
De acordo com Manuel Ferreira, António Pedro, criança ainda foi para Portugal, onde fez os seus estudos, chegando a frequentar a Faculdade de Letras de Lisboa. Activista cultural, homem de teatro, foi também Locutor da B.B. C.
Aos 19 anos de idade, volta à Praia, sua cidade natal, numa espécie de redescoberta da ilha de Santiago.
 Seguindo-lhe os passos, ei-lo de novo, em 1929, de visita à ilha de Santiago.  Nessa altura, António Pedro frequenta a roda de amigos cultos que se reúne em  tertúlias na Praça Alexandre Albuquerque, na cidade da Praia, os então jovens poetas e críticos, nomeadamente, Jaime de Figueiredo, Jorge Barbosa, José Osório de Oliveira, (este último, metropolitano, na terminologia da época) entre outros. E quase todos possuídos por um desejo comum: o da renovação estilística e temática da Literatura cabo-verdiana. O que acabaria por finalmente acontecer, mais tarde, com a movimentação literária dos autores em torno da revista «Claridade» em 1936.
Terá sido naquele ano (1929) que António Pedro deu a conhecer o seu modernismo poético (surrealismo) aos seus conterrâneos na Praia.
 De acordo com Manuel Ferreira: “...com o seu livro «Diário» se colocou no ponto de transição entre uma poesia de rotinice europeia... e a verdadeira poesia cabo-verdiana.” In  Reino de Caliban, 1974. Vol. I.
Com efeito, os  poemas de António Pedro, «Morna», «Paisagem»,  «Batuque» «Chuva» entre outros, distinguem-se pelo toque do surrealismo poético, que ele praticou de forma explícita, por um certo automatismo de escrita, um alheamento e afastamento emocionalmente conscientes dos objectos temáticos, sobre os quais, o poeta discorreu. Assim aconteceu  nos poemas acima mencionados. De se concluir, que terá sido na Praia, em Santiago, que António Pedro se inspirou e/ou terá escrito os seus mais emblemáticos versos.
Apesar disso, os mesmos poemas, não foram reconhecidos positivamente na temática das ilhas, preocupados e comprometidos como estavam os seus outros poetas e prosadores de então, com o realismo dos dramas vividos no Arquipélago, nomeadamente, os provocados pela seca e pela estiagem constantes. Numa palavra, o surrealismo não teria lugar à época, na poesia das ilhas.
Embora o texto aqui citado de Brito-Semedo, diga que Manuel Ferreira fez discípulo de António Pedro e numa certa linha, o poeta claridoso, Pedro Corsino de Azevedo. De facto, a construção do conhecido poema “Galinha Branca” pode sugerir isso...
Aqui chegados conviria fazer - ainda que de forma breve - uma retrospectiva das origens do Movimento Surrealista, nomeadamente na poesia e na pintura. Comummente aceite o seu surgimento em França, nos finais da primeira década do século XX (1916). A chamada “escrita automática ou, a exploração do inconsciente,” integrou poetas como André Breton e Louis Aragon, como os mais famosos, sem esquecer o seu fundador, o poeta romeno, Tristan Tzara, prontamente acolhido pelo grupo surrealista de Paris, a partir de 1919.
Assim, encontrámos na escrita dos seus cultores, para além da exploração do inconsciente, o aproveitamento do sonho e do sono hipnótico, imediatamente transpostos e representados sob forma poética, como “coincidências dos fenómenos do acaso.”
Igualmente, o chamado: “Humor negro” foi um dos temas explorados pelos surrealistas, na exacta dimensão de  um subversor da linguagem
Em Portugal, este movimento torna-se também conhecido e abraçado por alguns poetas, embora as polémicas em torno do seu interesse, do seu estilo e do seu conteúdo, fossem  também constantes.
O Surrealismo português, prolonga-se no tempo, quer na poesia e quer ainda na pintura. Percorre o século XX revestido de um “ar marginal,” o que não desgosta – aparentemente - os seus cultores e apreciadores. Distinguiremos: Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, José Augusto França, Herbert Hélder, entre outros notáveis surrealistas portugueses.
Torna-se interessante verificar que António Pedro está registado como um dos surrealistas portugueses mais significativos do primeiro momento em que a chamada “escrita automática” se introduziu em Portugal.
E mais interessante se torna o facto para nós, quando a temática poética de António Pedro se revela transfigurada e recriada também das “coisas” das ilhas cabo-verdianas.
Num texto sobre o Surrealismo português, da autoria de Maria da Natividade Pires, ela afirma a determinada altura o seguinte:
            “Uma obra de António Pedro, “Apenas uma Narrativa”, publicada em 1947, será considerada o primeiro conjunto de textos surrealista-automático produzido em Portugal. António Pedro, já em 1936, aderira ao grupo surrealista inglês e publicara em Lisboa o “Manifesto do Dimensionismo.”
E para finalizar este escrito, reiterar que foi de todo oportuna esta evocação - por ocasião dos 90 anos (1929-2019) da publicação da livro  Diário” de António Pedro, obra de temática cabo-verdiana, formalmente de confecção surrealista - feita por Manuel Brito-Semedo, no texto recentemente publicado no «Expresso das Ilhas».







PALMAREJO – UMA FLORESTA DE BETÃO –

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Recentemente e numa manhã, ainda bem cedo, fui bruscamente sobressaltada, com o barulho ensurdecedor de uma serra mecânica, camarária, julguei eu, a desbastar, ou pior, a mutilar  a árvore mais frondosa da vizinhança e que já lá estava desde que vim para cá morar.  Duas décadas, para mais, já são passadas. Uma certa tristeza invadiu-me...
Porquê? Porque estava a ”incomodar” sua excelência o betão...
Faço-me entender, é que perto da minha moradia e defronte da árvore, está a ser edificado na encosta, um grotesco e monstruoso edifício, no local, que no plano urbanístico da zona, deviam ser plantadas árvores.
Pois bem, isto faz pensar: implantam casas lá onde deviam plantar árvores, e não se contentando com tal  feito, ainda por cima cortam uma árvore de sombra benfazeja, de efeitos naturalmente benéficos, e de onde a deviam deixar sossegada. No caso em foco, até existe um muro a separar a construção da árvore mutilada sob disfarce de poda, que é coisa outra!
Árvores, plantas, minha gente! fazem falta!
A nossa urbanização do Palmarejo de dia para dia mais parece uma floresta de betão sem qualquer ordenamento. Uma  autêntica “passarelle” de cimento armado, diga-se em abono da verdade,  de muito mau gosto e de grande falta de consideração pelos  moradores que pagam as suas contribuições.
 Não há um espaço verde! Um só que seja público!... E lá onde era para sê-lo, ao invés, surgem prédios, qual deles agora, o mais camafeu!
A impressão que o morador do Palmarejo tem é que as construções surgem do dia para a noite, em  inestéticas e  feias armações, quais cogumelos, altíssimos, com vários andares, desordenados, a ocupar tudo, a tapar qualquer expectativa, ou desejo de vista para o mar. Aparentemente, sem qualquer respeito pelo plano de construção e de ordenamento urbano, de uma zona  residencial  como esta, que seja dita, melhor sorte merecia.
Atenção: não estou e nem podia estar contra a construção de casas, mas que tudo fosse erguido no cumprimento dos planos e normas urbanísticos  existentes e não ao sabor de directivas avulsas sem qualquer respeito pela lei e pelo munícipe, visando talvez alguns pouco transparentes interesses imediatos?
Infelizmente, o resultado de tudo isto é que o ar do Palmarejo  está a tornar-se irrespirável, imprestável; não há circulação de ar, de vento;  o calor a aumentar de dia para dia; o micro clima da zona a alterar-se para pior (tal o aperto e a asfixia derivados das construções!). Sem espaços, sem “pulmões verdes.” sem qualquer ajardinamento.
Todos sabemos que o asfalto aumenta a temperatura, consequentemente, o calor é maior. Isto para além de impedir a infiltração das águas pluviais. Para que haja equilíbrio, torna-se necessário a plantação de árvores, e a criação de mais espaços, para a circulação do ar; ao contrário, o que vem sucedendo, são prédios e mais prédios  uns em cima dos outros.
Para a nossa pouca sorte, assim vai a actual urbanização do Palmarejo.
Pois bem, fica-se também com a impressão de que não há autoridade neste campo de acção. As construções já estão a chegar  à beira-mar. Já faltou mais para se instalarem sobre as arribas, dentro do mar...
E assim vamos nós...
Tudo isto somado, revela um completo desrespeito pelo Plano Urbanístico do Palmarejo, não tenho dúvidas.
A comunidade vivente do Palmarejo, os seus moradores revoltados, criticam em voz baixa, mas “à boca cheia” e aguardam por nova e diferente autoridade local, que tenha melhor visão nesta matéria e seja respeitadora da lei e dos munícipes.
Haja esperança por uma renovada, entendida e transparente ordem em matéria de ocupação do solo do Palmarejo, num futuro próximo!
Se até lá ainda sobrar algum palmo de solo...
Apetece-me oferecer – a quem necessita urgentemente de saber cuidar de zonas residenciais – um livrinho de leitura maravilhosa e com o modesto título de: «O Homem que Plantava Árvores» de Jean Giono, e que mostra como é enriquecedora a harmonia que deve haver entre as árvores, as plantas, as casas e os espaços, para o bem-estar dos seus habitantes e da natureza envolvente.


«CERTEZA» e o sentir o mundo da II Grande Guerra E as ilhas por transformar...

sexta-feira, 29 de março de 2019

Antes de mais felicitar a oportuna e feliz iniciativa do Jornal «Expresso das Ilhas» nesta reedição completa dos números de «Certeza – Folha da Academia».
Relembrar que foram três números. Dois em 1944 e um em 1945.
O texto que se segue foi uma intervenção feita nas celebrações dos 75 anos do Movimento «Certeza» e a convite do Jornal aqui referido.

 É interessante reler os textos dos organizadores e dos autores  pertencentes a esta corrente literária. Isto, por várias razões, entre as quais distinguiria três :

Uma dessas razões, e a primeira, tem a ver com a juventude dos seus fundadores, 18 e 20 anos de idade, sendo ainda alunos liceais, a cultura que demonstram - estruturada e madura - aliada à sede, e à a vontade de aumentar a dimensão da “redescoberta social e psicológica” das ilhas,  iniciada por «Claridade», em 1936. No dizer de Manuel Ferreira.
São eles, entre fundadores e organizadores: Nuno Miranda, Arnaldo França, Guilherme Rocheteau, José Spencer, Silvestre Faria, Filinto Meneses,  Orlanda Amarílis e Tomaz Martins. Sendo Director Eduíno Brito Silva e Editor; Joaquim Ribeiro.
Tudo isto aconteceu em Mindelo, em 1944/45. Mindelo a cidade portuária  com o seu Liceu; com as suas tertúlias, para os de Certeza, tertúlias da Academia «Cultivar»; com os mais velhos, os  da «Claridade» em plena pujança criativa; com as informações que constantemente  chegavam à ilha-cidade, através do Porto Grande aberto ao mundo e aqui entramos já no segundo motivo ou razão de interesse do Movimento «Certeza», a influência da II Grande Guerra Mundial nas preocupações e na escrita dos seus autores. Justificada por Arnaldo França  da seguinte forma, nas suas preciosas «Notas sobre poesia e Ficção cabo-verdianas» de 1962 – Separata do Boletim Cabo Verde.
Diz o Dr. França a determinada altura, e passo a citar: “ ...o aparecimento da revista em 1944 é significativo. Nessa altura desenhava-se  já no horizonte o triunfo das forças aliadas no campo da guerra europeia, e  mais pressentidos que conscientemente esperados, desenhavam-se os fecundos tempos em que ainda vivemos.” Fim de citação.
Ora bem, a influência do conflito mundial terá sido tema presente e marcante na produção dos jovens  «Certeza». E para ilustrar a forma como os seus poetas o viviam não resisto a transcrever excertos do poema “Testamento para o Dia Claro” de Arnaldo França em que a própria terminologia reflecte esse tempo bélico  vivido um pouco por todo o mundo, e em Mindelo também, nos idos anos da década de 40 do século passado - um tempo horrendo - mas sempre na esperança do “Dia Claro”....
Cito: “Quando no fundo da noite vier o eco da última palavra submissa / E a pátina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro // Quando o fumo do último ovo de cianeto / se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos / E a chama da vela da esperança / se acender em sol de madrugada do novo dia...
E continua: (...) “ Quando só restar na franja da memória // lapidada pelo buril dos tempos ácidos. (...) Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida // A colher uma a uma as pétalas dispersas / da grinalda dos sonhos interditos.”
Claro, que como texto poético que é o «O testamento para o Dia claro» é plurissignificativo e suporta várias análises e diferentes desmontagens.
Ainda um outro motivo de interesse dos jovens membros do movimento «Certeza», é a preocupação da procura do saber e de actualização literária, daí que uma das correntes influenciadoras dos seus poetas, dos seus ensaístas e prosadores, foi ou, tenha sido o Neo-Realismo português. O Neo-realismo, que somos sobre isso elucidados, pois  Manuel Ferreira a prestar serviço militar em São Vicente, à época e  que à «Certeza» se juntou, lhes terá dado a conhecer obras e autores desse movimento, tais foram Mário Dionísio, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Fernando  Namora, entre outros, então notáveis neo-realistas portugueses.
Pois bem, é também o próprio Manuel Ferreira ( «No Reino de Caliban», vol. I 1974) que destaca –na opinião dele -  como  único poeta saído do movimento, Arnaldo França. Este, por sua vez, e nas “Notas” já aqui já citadas, e escritas em 1962  diz que o movimento apenas produziu um romancista: Nuno Miranda e que não produziu poeta. Não se fala aqui dos  nomes de António Nunes e nem de Teixeira de Sousa pois que eles foram de uma adesão, é certo, mas   à distância e posteriores, não foram presenciais - embora ideologicamente muito próximos do ideário de «Certeza». Não é por acaso, que no nº. 2 de «Certeza» venha na primeira página, os emblemáticos versos do “Poema de Amanhã” de António Nunes.
Faço-vos aqui um desabafo, uma espécie de confidência intramuros, numa espécie de à parte:
Uma das coisas que sempre me encantou no homem intelectual que foi Arnaldo França,  é  aquilo a que chamarei, para comodidade de expressão: uma modéstia culta, ao falar ou ao escrever sobre si, sobre a produção escrita do seu tempo por exemplo, sobre a  sua participação,  no movimento «Certeza». Creio que ele pertence ao grupo de pessoas de espírito e de mente profundamente cultos e civicamente instruídos que não se deslumbra e por isso  diz as coisas com toda a naturalidade,  com simplicidade, sem necessidade de se pôr em ”bicos de pés” Um encanto! Que infelizmente, hoje está a  rarear ou, mesmo a desaparecer entre a classe dos literatos, pois encontramo-los entre nós, os que se gabam, se citam excessivamente, e se auto-projectam à primeira redacção bem feita. Enfim...  desculpem-me este à parte, que vou fechar não sem antes dizer que o exemplo de probidade e de humildade intelectual de dr. França deviam ser bem seguidos.
Continuando, Nuno Miranda e Arnaldo França – foram de facto, quem melhor consubstanciou - porque o projectaram, e o vivenciaram -  o ideário dos jovens oriundos da academia «Cultivar» e apresentados publicamente na Folha «Certeza». ambos na poesia, e um no Conto e no Romance. Em matéria de análise cultural, literária também se deve destacar o nome de Guilherme  Rocheteau.
Gostaria de distinguir o contista e romancista que é Nuno Miranda e que reflectiu de forma explicita e alongada, no seu romance: «Cais de Pedra» esse ideário “certeziano”. Obra, creio eu que tardiamente publicada. O meu exemplar é de 1989,  publicado pelo antigo Instituto cabo-verdiano do Livro.
Ora bem, dizia eu que o autor  reconstruiu, através dos ambientes mindelenses e dos diálogos das personagens, do seu «Cais de Pedra»  os anos da década de 40. Trata-se de uma ficção em que as personagens  mais intervenientes são «Torna-viagem». Abro aqui um pequeno parêntesis, para dizer que na minha opinião, é na ficção de Nuno Miranda que apareceu pela primeira vez, o «Torna-viagem» como protagonista  da narrativa. Mais tarde, Teixeira de Sousa, retoma esse perfil de personagem no seu romance «Xaguate».  Fecho o parêntesis.            
Para exemplificar, em «Cais de Pedra», o protagonista Guilherme  veio da Argentina, onde fora um emigrante, bem sucedido,  Eduardo  regressa dos Estado Unidos, também bem-sucedido. As falas deles deixam transparecer  o alter-ego, aliás são vários os alter-egos do autor e de alguns referentes reais recortados dentro do Movimento «Certeza». Outras  personagens do romance, regressam também de Portugal, da Europa, todas elas carregadas de teorias desenvolvimentistas e de ideias novas, modernas, ideias que o leitor se apercebe, saídas afinal do programa de «Certeza» e sobre as quais, discutem a sua realização, efectivação em São Vicente, em Santo Antão, nas outras ilhas... Enfim, um romance de personagens em diálogo permanente, que deixam perceber que  as boas ideias, para terem credibilidade islenha, teriam de vir fora e da parte do mundo considerada,  desenvolvida,  industrializada e civilizada... Assim questionam e interagem as personagens do romance, «Cais de Pedra» de Nuno Miranda, cujo conteúdo, terá sido modelado e transfigurado no ideário de «Certeza» que hoje aqui homenageamos..
E  isto aconteceu há 75 anos! Bem hajam os seus fundadores! Bem haja a sua memória!

O Equívoco de Pidgiguiti E a figura de António Carreira

domingo, 24 de março de 2019



Pigikintá…Pinginkinti…Pigingotá…  raio de nome difícil! Ehn!!  -  Que nos idos e agitados tempos dos primórdios da independência  -  nem os então “irmãos” (1974-1980) cabo-verdianos o sabiam pronunciar e muito menos escrevê-lo com alguma aproximação correcta! Por muito que quisessem descrever o conflito laboral que se passou em 1959 na cidade de Bissau, como sendo iniciativa do PAIGC.
Lembro-me então como nos ríamos às gargalhadas quando ouvíamos os políticos locais, com ares sérios e solenes,  falarem ou discursarem (por ocasião do 3 de Agosto) ora de “pindgikiti,” ora de “pindgiguitá” e ora ainda de “pindgigotá”…
 Sim, tão revolucionários e tão conhecedores da gloriosa luta de independência da Guiné e de Cabo Verde, a qual, ufanamente  exibiam à época!  Mas quando chegava a Pidgiguiti, aí, para além de não saberem pronunciar correctamente o nome do cais, acrescentavam  fantásticas e fabulosas histórias, então contadas, na rádio, nos jornais e na voz dos “melhores filhos” leiam-se:  os combatentes vindos do mato e os revolucionários surgidos nas cidades.
Isto, passava-se aqui nas ilhas, após o Movimento dos Capitães de Abril em Portugal..
Na mesma linha, na Guiné, e naqueles tempos - da malfadada unidade Guiné-Cabo Verde, sob a égide do Paigc - na rádio em Bissau, escutavam-se programas e entrevistas com descrições por vezes empolgadas, sobre o triste episódio.
Tudo isto também, porque os combatentes do PAIGC, vindos da Guiné profunda e, particularmente aqueles ligados à antiga  Rádio Libertação, haviam trazido na sua bagagem, uma fita contendo uma espécie de teatro radiofónico que antes passariam na referida Rádio em Conackry.
Ora bem, mal chegados a Bissau em 1974, toca de difundi-lo na rádio Bissau por várias vezes.
Obviamente que houve figuras protagonistas e secundárias)  completamente diabolizadas nessas  -  umas, reais, outras, bem efabuladas  -  narrações radiofónicas, sobre a revolta dos marinheiros em Bissau, há 60 anos ( a 3 de Agosto de 1959) algumas delas, militares e policiais com intervenção directa nos acontecimentos, mas houve também gente, injustamente incluída.
E de entre as figuras injustamente arroladas, e várias vezes citadas no folhetim radiofónico, destaca-se a do  nosso insigne estudioso  etnógrafo, historiador, António Barbosa Carreira (1905-1988).
 Pois é, foi uma das figuras mais diabolizadas nesse imbróglio foi precisamente António Carreira.
Apenas relembrar que em 1959 -Guiné Portuguesa - aí nesse local, o porto, o cais de Pidgiguiti, em Bissau - se terá passado um conflito laboral, sangrento e violento entre marinheiros maioritariamente da etnia mandjaca, ao serviço da Casa Gouveia, e a autoridade militar e policial, vigente em Bissau.
Ora bem, o conflito ,(reivindicação dos marinheiros ao serviço daquela casa comercial) mais tarde, após a independência, ganhou novos e inventados contornos nas reconstituições feitas pelos jornalistas e demais escribas e depoentes ao serviço da nova causa; ao conectá-lo como sendo emanação directa do PAIGC.
Recordo com um rasgado sorriso, a entrevista que ouvi na rádio, desse meu patrício vulcânico (vulcânico mesmo!) nos idos anos de 1974, a tentar explicar ao Jornalista, que ele, Carreira nada tivera com o caso. A determinada altura da entrevista, perdendo um pouco a paciência com as perguntas, um pouco repetitivas que o Jornalista lhe fazia sobre um assunto que pertencera à esfera militar e policial de Bissau, o nosso Historiador;  para pôr termo à irritante, e falsa acusação que queriam sobre ele fazer pender, e a maneira como o Jornalista queria conduzir a entrevista, como se de réu se tratasse, Carreira soltou uma expressão mais forte e a aparentar um “palavrão,” pois que ele não tinha paciência alguma com questões que  considerava idiotas e deu fim à entrevista. Espírito frontal, directo e sem falsos rodeios, assim expressava ele a sua quase sempre, assertiva opinião.
De facto, a entrevista acabou por ser de certa forma, hilariante.
 Creio que, após isso, todos, ou quase todos, mesmo aqueles que injustamente o incriminaram se aperceberam do grande erro cometido. Só que essa gente não conhece a tão bem-vinda e esperada expressão: Pedir desculpas... Sim, comete-se um erro tão grosseiro! e não há um pedido de desculpa ??...
Agora, e um  pouco mais seriamente, convém situar  António Carreira na Guiné portuguesa, onde fez a sua carreira de Administrador de Concelho ou de Circunscrição, no interior daquele país, então denominada Província Ultramarina. Terá chegado uma altura, deduzo, que querendo ir viver para Bissau, ou para a escolarização dos filhos possivelmente, ou mesmo, por cansaço do mato, ou razões outras, deixou a administração civil, tendo passado a ser Sub-Gerente da Casa Gouveia, empresa comercial de muito peso na então Guiné. Sobretudo na comercialização do arroz.
 Mais tarde, A. Carreira, foi arquivista e investigador do então denominado Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, onde fez um meritório trabalho de inventariação, catalogação e de arrumação com metodologia e muito trabalho do vasto acervo escrito aí então existente. Deixou esse precioso legado que eu vi com lágrimas nos olhos, a ser posto na rua (literalmente) em meados de 1975. Possivelmente por mãos e mentes que não sabiam ou, não avaliaram o valor daquilo que estavam a retirar das prateleiras e colocado no chão (sem cuidado) do passeio em frente à porta do aludido Centro, na altura transformado em outro serviço.
Pois bem, continuando, A. Carreira, imagino eu, que terá sido também desses tempos, enquanto ele foi responsável do Centro de Estudos em Bissau - possivelmente um tempo de estudo e de reflexão - a elaboração do seu projecto, mais tarde obras de referência sobre algumas das muitas etnias guineenses, sobre o trânsito esclavagista da chamada costa da Guiné, as migrações e, a formação da sociedade cabo-verdiana. Tudo isto versado em livros, que se tornaram de consulta fundamental para as teses e para trabalhos académicos.
António Carreira, como quadro da Administração Civil da Guiné Portuguesa,  Carreira pôde frequentar a antiga Escola Colonial em Lisboa, mais tarde, nos finais dos anos 50, tornado Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas.
 Fundamentalmente  autodidacta, estudioso empenhado, prosseguiu A. Carreira, ele próprio, a sua formação enquanto etnógrafo e historiador. Simplesmente espantoso!
Carreira também foi orientador de teses de muitos formandos e académicos, mestrados e doutoramentos, daqueles que buscavam na História das antigas colónias portuguesas, temas para os seus trabalhos de fim de curso. 
Nos anos 70, do séc. XX, A. Carreira encontra-se em Portugal, onde, a convite de Adriano Moreira, dá aulas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas, antigo ISCPU.
 Para nós uma enorme admiração! Não é? Mas nestas ilhas havia gente assim, no antigamente da vida... Abro aqui um pequeno parêntesis para estabelecer uma comparação, embora desfasada em tempo, e lembrar  casos similares; de Guilherme Ernesto, de Guilherme Dantas, de  Eugénio Tavares, de Januário Leite, de José Lopes e de tantos e tantos outros que deixaram um legado escrito de incontestável valor para a Literatura e para a História de Cabo Verde e que não possuíam qualquer diploma de estudos superiores!  Eles é que assentaram e fundaram  a sua vasta cultura –através de leituras e de estudos  aturados – nas palavras de Arnaldo França, nas suas «Notas sobre poesia e ficção cabo-verdiana» 1962: “... um aceno de simpatia aqueles que sem um liceu, sem jornais literários, sem rádio, sem cinema, sem viagens à metrópole, deram em seu tempo, uma nota de dignidade e de elevação espiritual à apagada tristeza reinante na pequenez dos agregados urbanos das ilhas.”  Fim de transcrição. Eles criaram o seu próprio saber e o seu invulgar engenho para o difundir e o perpetuar. Fecho o parêntese.
E retomo A. Carreira mais actual, autor de obra importante na historiografia cabo-verdiana, área na qual deixou um vasto legado escrito em  artigos, ensaios e livros. A sua obra mais conhecida e citada é: «Cabo Verde – Formação e Extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878).» 
Nasceu em São Filipe, ilha do Fogo em 1905. Filho de António Carreira e Isaura Barbosa. Casou com Cármen de Medina Carreira, natural da ilha Brava.  Faleceu em Lisboa, Portugal, em 1988. Os restos mortais foram trasladados para a sua ilha natal em 1995.
E com estes apontamentos, termino o escrito, não sem antes deixar ao leitor uma, diria, extensa e ilustrativa biografia de António Barbosa Carreira.
P. S. – As notas que se seguem foram transcritas do “blog” de Jorge Sousa Brito. 
“...Encontra-se sepultado no Fogo. (...). Reformou-se em 1954. Mais tarde, já como investigador de reconhecido mérito, estabeleceu-se em Portugal. Foi, póstumamente, em 5 de Julho de 1994, feito Oficial da Ordem do Vulcão pela República de Cabo Verde. Homem com uma grande curiosidade intelectual, na primeira fase das suas investigações debruçou-se exclusivamente sobre a actual Guiné-Bissau cujas tribos começou por estudar (fazendo uma pesquisa de campo) tendo deixado colaboração dispersa pela imprensa da então colónia. Colaborou também em várias revistas de caracter cultural como Revista do Centro de Estudos de Cabo Verde - Série de Ciências Humanas, Raízes, Ponto & Vírgula, Boletim Cultural da Guiné, Garcia de Orta, Revista Geográfica, Revista Ultramar, Revista do Centro de Estudo Demográfico do Instituto Nacional de Estatistica, Revista de História Económica e Social, Cadernos de Antropologia, etc. Publicou os seguintes trabalhos, na maioria, de carácter etnológico: Mandingas, ed. Cosmos, Lisboa, S/D, 39 p.; Costumes Mandingas, ed. Cosmos, Lisboa, 1936, 28 p.; Vida, Religião e Morte dos Mandingas, id., id., 1938, 46 p.; Mandingas da Guiné Portuguesa, id., id., 1947, 324 p.; Vida Social dos Manjacas, id., id., 1947, 184 p.; Subsídios para o estudo da língua Manjaca, id., 1947, 175 p., co-autor; Mutilações Corporais e Pinturas Cutâneas Rituais dos Negros da Guiné Portuguesa, Bissau, 1950; Movimento Natural da População não Civilizada da Circunscrição Administrativa de Cacheu; Censo geral da População não Civilizada de 1950; O fundamento dos etnónimos na Guiné Portuguesa, (Garcia de Horta, vol. 10, nº 2, 1962); Duas cartas topográficas de Graça Falcão (1894-1897) e a expansão do islamismo no rio Farim, (Garcia de Horta, vol. 11, nº 2, 1963), editado também em Separatas. Agrupamento de Estudos de Cartografia Antiga, nº 6, 24 p.; Contribuição para o estudo das mutilações genitais na Guiné Portuguesa. Do arrancamento da pele dos cadáveres e da necrofagia na Guiné Portuguesa, Lisboa, 1963, in: Estudos sobre a Etnologia do Ultramar Português, Junta de Investigações do Ultramar, Série Estudos, Ensaios e Documentos, nº 102, vol. 3; Antroponímia da Guiné Portuguesa, co-autor com Fernando Quintino, 2 vols, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1º vol. Memória no 49, 1964, 432 p. e 2º vol., nº 52, 1966, 187 p. Depois, voltou a sua atenção para a sua terra natal e seguiram-se então os trabalhos de carácter históricos: Panaria cabo-verdiano guineense, Imprensa Portuguesa, Porto, 1969, 175 p. (2ª ed. do Instituto Caboverdeano do Livro, 1983, 226 p. + 72 extra-textos); As companhias pombalinas de navegação comércio e tráfico de escravos entre a costa africana e o nordeste brasileiro, Imprensa Nacional, Porto, 1969, 565 p.; Cabo Verde-Formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878), Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, Imprensa Portuguesa, Porto, 1972, 580 p. (2ª ed. do Instituto de Promoção Cultural, Praia, 2001, c/ o patrocínio do Banco de Cabo Verde); Cabo Verde - Classes sociais . Estrutura familiar . Migrações, Lisboa, 1977, Edições Ulmeiro, 88 p.; Migrações, nas ilhas de Cabo Verde, Lisboa, 1977, Univ. Nova de Lisboa, (2ª ed. do Instituto Caboverdeano do Livro, 1983, 322 p.) traduzido para o inglês por Christopher Fyje com o título "The people of the Cape Verde Islands - Explotation and Emigration", Connecticut, 1982, (printed in Hong Kong), 224 p.; Notas sobre o tráfico português de escravos, Lisboa, 1978, Univ. Nova de Lisboa, 82 p.; O tráfico português de escravos na Costa Oriental Africana nos começos do século XIX. (Estudo de um caso), Lisboa, 1979, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, série Estudos de Antropologia Cultural e Social, nº 12, 135 p.; O tráfico de escravos nos Rios de Guiné e Ilhas de Cabo Verde (1810-1850), Lisboa, 1981, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 55 p.; Estudos de Economia Caboverdeana, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1982, 344 p.; O crioulo de Cabo Verde - Surto e expansão, edição do autor, Lisboa, 1982, 94 p.; Documentos para a História das ilhas de Cabo Verde e "Rios de Guiné", edição fac-similada, Lisboa, 1983, 306 p.; Cabo Verde. (Aspectos sociais. Secas e fomes do século XX), Lisboa, 1984, Ulmeiro, 208 p. (edição revista e aumentada de Cabo Verde - Classes sociais... de 1977); Os portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900), Lisboa, 1984, ed. do autor, 206 p.; Descrições oitocentistas das ilhas de Cabo Verde, 1987, Mem Martins, Portugal, 276 p.; etc.
• O que se conta desta pessoa. Era conhecido pela familia por Antoninho de Mintinha. Mintinha era a avó Clementina.”
 Fim de transcrição