Recado aberto, urgente e amigo para a Escola Secundária da melhor aluna 2017/2018 de Cabo Verde

segunda-feira, 17 de setembro de 2018



Transmitida na RTC, (televisão nacional) a conversa entre a aluna do 12º- Ano que obteve a média de 19,5 valores e uma Jornalista (para o que se segue convém referir que a Jornalista reportou em português, o conteúdo da entrevista).
A aluna teve Bolsa de Mérito, naturalmente. Até aqui tudo bem. As minhas felicitações.
A Bolsa de Mérito é dada para medicina a ser feita em Portugal. Òptimo!
Agora a parte a um tempo hilariante e revoltante, a nossa menina, não se expressa em Língua portuguesa. Foi significativa a amostragem que disso ficou registado no programa televisivo em que ela foi entrevistada. Expressou-se apenas em crioulo.
Fiquei preocupada com o que vi e ouvi e coloquei a mim própria as seguintes questões:
 1 – Como é possível que a melhor aluna do ensino secundário de Cabo Verde, chegue ao final dos 12 anos de estudos, com a média de 19,5 valores e não saiba expressar-se em Língua portuguesa? (pelo menos foi isso que ficou demonstrado na entrevista da RTC,  num dos Jornais da noite de Domingo, do mês em curso). Simplesmente constrangedor!
2 – Como é possível que os responsáveis da Educação de Cabo Verde, cientes e mais do que sabidos sobre aquilo que se passa com o ensino nas escolas aqui nas ilhas, seleccionem e enviem alunos para Portugal, para cursos como medicina e outros, sabendo que eles não se expressam na língua de ensino que doravante irão enfrentar?
Assim feito, não será condená-los “ab initio” ao fracasso, à frustração, à emigração clandestina,  logo no 1º-  Ano dos estudos universitários?
3 – Será que esta candidata a médica e mais ainda, melhor aluna de Cabo Verde no ano-lectivo transacto, estará apta a escutar e a descodificar o que dirão nas aulas teóricas e práticas, os  seus professores da Faculdade de Medicina?
4 - Dito isto, não estou a culpá-la. Ela é a menos culpada de todos. É a nossa Língua oficial e de ensino, a Língua portuguesa que devia ter sido estudada e falada na escola, pelos seus professores e por ela, aqui em Cabo Verde.  
A culpa está na escola, está nos professores que ela teve e que a não expuseram  suficientemente à língua portuguesa, a qual, até sinal contrário, continua a ser a língua veicular do ensino em Cabo Verde. (consultem senhores professores, a Lei de Bases do Ensino).
Chegados a este ponto, peço-vos senhores professores que me expliquem como é que a vossa aluna, recentemente saída da escola onde ensinais, vai dialogar com os colegas? Tirar dúvidas com os professores? Será em Crioulo? Sim, como é que ela estudará em livros mais complexos conceptual e cientificamente, se não foi exposta à língua que se pratica – oral e escrita - na Faculdade de medicina portuguesa, que irá frequentar?
Deixo aqui manifesta a minha indignação veemente! Não há direito! Estar já a condenar ao fracasso, (infelizmente já vem sendo recorrente em Portugal com alunos universitários oriundos de Cabo Verde) uma jovem cheia de sonhos e de expectativas, na realização dos seus estudos universitários.
Outrossim, isto é chocante pois que daquilo se trata, diz respeito à nossa Língua também. A Língua portuguesa. Ausente e esquecida  na escola cabo-verdiana.
Pois bem, a nossa escola precisa ser denunciada publicamente. O que se está a passar e na minha opinião,  é um verdadeiro crime sem aspas, que o ensino nacional está a cometer actualmente com os nossos jovens que atingem o 12-º ano do ensino secundário, sem serem capazes de se expressarem minimamente, em Língua portuguesa, a língua segunda e oficial deste país  - e isto para não falar também dos fracos conhecimentos das cadeiras científicas com que muitos terminam o ensino secundário -  e que querem prosseguir no exterior os estudos universitários,  sobretudo em Portugal, país para o qual ganha bolsa e/ou vaga, de uma maneira geral, o aluno com melhor média atingida no 12º Ano.
Reitero o que aqui escrevi em tempos, sabemos todos que as notas estão altamente inflaccionadas, que os professores mal ensinam - excepções hão-de existir, estou certa. Mau seria se assim não fosse... -  Logo, a equação bom aluno/melhor média das notas, nem sempre corresponde à realidade do que se passa nas escolas secundárias do País. Uma verdadeira falácia!
Na hora actual, e ao ponto a que a falta de qualidade de ensino, entre nós chegou tudo isso é um autêntico logro! Uma fraude cometida  pela escola pública cabo-verdiana aos alunos.
Para terminar, desejo que a jovem que obteve a Bolsa de Mérito de Cabo Verde e que para Portugal se dirige, aprenda rapidamente e fale com à-vontade  - lendo, ouvindo, escutando rádio vendo tv; conversando com jovens portugueses, com colegas lusófonos; indo ao teatro, entre outras formas de contacto e de aprendizagem de uma  língua viva, de que ela vai necessitar com premência. Só assim conseguirá resultados positivos nos seus estudos de medicina.
  Boa sorte!

Em memória de um professor - uma singela homenagem –

segunda-feira, 3 de setembro de 2018


Falar de professor culto entre nós actualmente, soará ao mesmo que evocar uma “espécie em extinção,” uma “avis rara” aqui nas ilhas. A nossa outrora prestigiada classe sócio-laboral, anda hoje – no geral - mal afamada entre nós.
Ultimamente – reconheço - tenho dito muito mal dos meus actuais colegas de profissão no activo,  salvaguardando sempre as raríssimas excepções, que felizmente ainda restam. Mas de facto tenho sido  muito crítica e por alguns razões em que nelas distingo: a falta de leitura, de estudo porfiado, a ausência de cultura, ausência do saber científico e pedagógico que revelam quando se expressam publicamente e, sobretudo, o não dominarem a língua veicular do próprio ensino que é a Língua portuguesa.  Tudo isso somado e acumulado, tem resultado num enorme e calamitoso prejuízo para os alunos.
Sim, reconheço que tenho “batido” com alguma frequência nesta tecla lamentável para a classe docente no activo, em Cabo Verde. Mas que fazer? Infelizmente a realidade tem sido este quadro nada animador da escola pública cabo-verdiana.
Abro aqui um pequeno parêntese para lembrar o seguinte, antigamente o professor era entre nós considerado e com toda a naturalidade, um agente de cultura. Hoje, quem assim o denominará em sã consciência?... Fecho o parêntese.
Ora, bem ao contrário, o professor a quem dedico este escrito, era exactamente a antítese daquilo que foi referido nos parágrafos acima.
 Esta minha singela homenagem é dirigida à memória de Carlos Alberto Mendes Fonseca, que foi professor do Liceu da Praia. Aposentado e recentemente falecido.
Beto, assim o chamávamos carinhosamente, familiares e amigos mais chegados, pertencia ao tipo de professor sabedor e erudito na disciplina que ministrou ao longo da vida, no caso, Geografia.
Fazem unanimidade os testemunhos de antigos alunos, sobre a forma como o professor lhes explicava os conceitos geográficos de cada ponto programático da disciplina.
Contou-me uma colega e também familiar do Beto que este era muito cuidadoso nas revisões que fazia e que uma ocasião lhe pedira para rever (o português) de  um texto sobre matéria histórica que ela escrevera. Quando vai reaver o seu trabalho, ela encontrou o Beto com vários dicionários abertos, entre eles o de Latim, pois assim melhor corrigiria o escrito. Assim era este professor, cuidadoso e estudioso.
 Bom comunicador nas aulas, Beto Fonseca era tido pelos seus alunos, como rigoroso e assertivo nas suas explicações, e alguém que procurava aprofundar os conceitos explicados indo até ao étimo latino ou grego  de onde provinham os vocábulos que enformavam o conceito que ele queria transmitir à turma.
Dizia-me a minha filha, sua antiga aluna e recordando o querido professor de Geografia, dizia ela que de entre muitas outras definições e conceitos geográficos que aprendera nas aulas de Geogrfia, uma delas -recorda com graça - foi a de pronunciar Florida, sem  articular de forma esdrúxula, o nome daquele estado norte-americano, pois aprendera com o professor de que antes de os ingleses tomarem conta dos Estados Unidos, já os espanhóis haviam-no baptizado como “Florida” e não “Flórida”. Pequenas coisas embora, no entanto  reveladoras do cuidado e da minúcia histórica, geográfica  que ele punha nas suas explicações.
Comigo, sua prima, amiga e colega, tínhamos ele e eu, implicitamente (um não dito, mas sabido por ambos) uma espécie de fraterna competição e/ou desafio semântico, quando nos encontrávamos (com muito menos frequência do que aquela por nós certamente desejada) que era qual de nós se expressava  melhor, indo  ao termo mais correcto e à variante mais culta das palavras que no contexto da nossa conversa surgiam. Um jogo divertido e antigo que fazia parte de uma espécie de rememorar, um tempo antigo da nossa  convivência ainda adolescentes.
  Normalmente o Beto levava-me os pontos...
Aliás, quando com ele dialogava, sabia eu que ele estava sempre certo quanto à precisão contextual de cada vocábulo ou semantema trazido à conversa.
 Os amigos, os familiares dele ressaltam as qualidades de um ser sem artificialismos, naturalmente muito correcto, gentil, estóico e sempre calmo nas suas explanações e nos diálogos entre amigos.
  Luís Fonseca, escreveu um texto na rede social,  com o título:“Na despedida de um amigo...” Com efeito, amizade de longa data, Luís Fonseca guarda dele esta memória que é também nossa e que aqui tomo a liberdade de a transcrever:
“ ...um dos seus traços mais marcantes era a enorme bondade do seu ser, a sua calma e atenção para com as pessoas, uma capacidade fora de comum de suportar situações difíceis, a sua profunda afeição para com os amigos.”
 Na mesma linha, e bem achadas para rematar este escrito sobre Beto Fonseca, foram as palavras do nosso amigo e colega, Óscar Ribeiro. Palavras emblematicamente simples e criteriosamente definidoras do perfil de Carlos Alberto Mendes Fonseca: “...dedicação, trabalho, seriedade e honestidade, levas contigo...”
Até sempre, querido Primo! Lá iremos ter todos. Apenas uma questão de vez.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ontem, 15 de Agosto, a Cidade da Praia celebrou a sua santa padroeira, Nossa Senhora da  Graça.  O texto que se segue foi escrito há 68 anos pelo então Pároco da Praia, Francisco de Deus Duarte e nele o autor nos dá conta da fundação da Freguesia em louvor da santa.

A FUNDAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA DA CIDADE DA PRAIA
Pelo Padre Francisco de Deus Duarte
No dia 3 de Maio de 1460, as caravelas de Diogo Gomes e António da Noli, os descobridores de Cabo Verde, lançaram ferro, pela primeira vez, no pequeno porto da freguesia de Nossa Senhora da Luz desta ilha de Santiago.
Faço esta afirmação, sem receio de errar, porque os nossos antigos cronistas afirmam que os primeiros navegadores fundearam nesta ilha, num pequeno porto onde encontraram uma praia de areia branca. Se se der uma volta à ilha, se se percorrer as suas costas, não se encontra outro porto com baía de areia branca. Foi, pois, sem dúvida, na linda baía de Nossa Senhora da Luz, que os navegadores chegaram, pela primeira vez.
A caravela de António da Noli, mais veleira do que a de Diogo Gomes, avistou, primeiro, o ponto mais elevado da ilha, e os marinheiros, doidos de alegria, todos à uma, no tombadilho, gritaram: Um pico, capitão! Um pico, capitão!
Fica, assim, restabelecida a verdade dos factos. O pico chama-se «de António», em honra ao descobridor António da Noli, e não «de Antónia», como erradamente dizem os compêndios primários. O próprio vàdio, ainda hoje, sempre que se refere ao pico, diz: piqui’Intoni. Os navegadores, descobertas as ilhas de Santiago, Fogo, Brava e Maio, regressaram à Metrópole, a dar a boa nova ao grande Infante, ao Sonhador de Sagres. Dois anos depois, em 1462, e segundo outros, em 1464, voltaram a Cabo Verde e descobriram as outras ilhas. O grande Infante, como recompensa dos bons serviços prestados por António da Noli, nomeou-o primeiro donatário e capitão-mor desta ilha de Santiago, e foi ele fundador do berço da população caboverdeana. O seu túmulo jaz na actual igreja matriz da freguesia de Santíssimo Nome de Jesus, na capela-mór, do lado da epístola.
De início fundaram-se duas capitanias-móres: a do Sul, no sítio da Ribeira Grande da freguesia do Santíssimo Nome de Jesus, e a do Norte, no sítio denominado Alcatraz, freguesia de Nossa Senhora da Luz. A capitania do Sul progrediu muito civil, religiosa, militar, comercial e industrialmente sendo o seu porto muito frequentado. A capitania do Norte caiu em decadência, e os seus habitantes, em 1520, emigraram para o porto de Santa Maria, que era ao tempo, uma pequena aldeia de pescadores.
A nascente povoação progrediu tão rapidamente que 35 anos depois, isto é, em 1555, se edificou, no sítio onde, hoje, se constrói um parque infantil, uma igreja coberta de colmo, sob a invocação de Nossa Senhora da Graça, ficando assim fundada a freguesia, que foi provida de pároco.
Volvidos anos, artistas vindos da Metrópole, construíram por ordem superior, no mesmo sítio, uma igreja de pedra e cal, com dois corpos, coberta de telha, igreja que prestou serviços, durante muitos anos, mais de dois séculos, porque só em 1895 é que o ilustre Governador Serpa Pinto, sendo Director das Obras Públicas o General Torres, mandou construir a actual igreja, que serve de matriz à freguesia de Nossa Senhora da Graça da cidade da Praia. A bela e rica igreja concluída em 1900 e, no mesmo ano, exposta ao culto público, tendo celebrado nela, pela primeira vez, o ilustrado filho desta ilha, o falecido cónego António Duarte da Graça, orador, estilista e poeta.
Praia, 17 de Novembro de 1949
In Boletim Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 4 – Ano I – Janeiro de 1950

O perfil actual do candidato universitário

terça-feira, 14 de agosto de 2018


Há dias escutando um debate televisivo, um dos intervenientes , o  Prof. Marçal Grilo, a propósito da Educação, dizia ele que antigamente quando se ia para a escola das primeiras coisas que o professor ensinava aos alunos era saber sentar-se e, levantar-se quando entrava uma visita na sala de aula.
Acontece é que os professores traziam isso na sua bagagem social, cultural, hoje os nossos professores, a maioria, não conhece regras, desconhece valores. Logo, não as poderá transmitir.
Aqui e agora refiro-me já à escola cabo-verdiana que infelizmente hoje está em colapso. Em quase tudo. Na transmissão científica de conhecimentos, na língua veicular do ensino, enfim em toda a edificação do saber, que é a dimensão primeira do ensino, obrigação transcendente da escola. Tudo isso  se encontra em derrocada total em Cabo Verde.
Li recentemente, num artigo no Jornal «Público» de 6/08/18 - intitulado: «Os Professores dos nossos netos» - assinado por João Cerejeira e Miguel Portela, um conceito de escola/ensino/aprendizagem sobremaneira interessante e fundamental. Dizia o seguinte: “... É reconhecido que nenhum sistema de ensino pode ser melhor do que os seus professores. (...) Quanto maior for a capacidade cognitiva do professor, melhor será a capacidade cognitiva dos alunos, nomeadamente para alunos oriundos de meios mais desfavorecidos para os quais o contexto familiar não compensa eventuais falhas obtidas na escola. É, pois, necessário planear o acesso à profissão docente, de forma a garantir a existência de muitos bons professores, porque deles depende o futuro da educação, enquanto base do desenvolvimento social e económico”. (...) O declínio do reconhecimento e da imagem social dos docentes enfraquece as aprendizagens, o ensino e a sociedade. (...) É, pois, claro que o reforço do prestígio e da cultura profissional docentes tem impacto na melhoria das aprendizagens, não só nos alunos actuais, mas também nos alunos futuros. Para ter bons professores, é preciso atrair os melhores alunos para a profissão.” Fim de transcrição.
O artigo referenciado, aludia ainda ao facto, para exemplo, de que deviam ser previstas entrevistas com os responsáveis para se aquilatar a motivação, a adequação dos candidatos à docência. A não realização deste rito, é à partida, uma falha, para se intuir de um futuro bom ou mau docente.
Pois bem, voltando ao que se passa entre nós, um dos assuntos mais controversos actualmente, andará à volta do perfil dos candidatos que Cabo Verde selecciona para  as vagas universitárias em Portugal.
Regra geral, são seleccionados os alunos com as melhores classificações - note-se: não são os melhores alunos de facto. São os que têm maior média de notas, estas por sua vez, altamente inflaccionadas, e dadas por professores, na maior parte, medíocres, tanto na formação, como na transmissão de conhecimentos. Esta é a realidade crua e dura por que passa  nos dias que correm o  ensino/escola/aprendizagem aqui nas ilhas.
Efectivamente, os alunos, candidatos com o 12º Ano do ensino secundário e com maiores classificações,  têm  preferência para as vagas  em Portugal, colocadas à disposição do Governo de Cabo Verde, nas universidades e nos institutos politécnicos. São as preferidas. As mais concorridas. Há uma grande procura. É natural, percebe-se a opção. Trata-se regra geral, de uma boa formação em país de língua e cultura muito comuns. Relativamente perto geograficamente. Quase todos, têm lá parentes e algum apoio, o que dá conforto. Tudo isso é entendível, perfeitamente compreensível para a procura competitiva de vagas para cursos superiores em Portugal. É um facto.
Só que nesta demanda, não são salvaguardados os aspectos essenciais para um razoável sucesso do aluno. A saber: se o aluno se expressa em língua portuguesa, se o aluno a fala e a escreve com o nível adequado aos anos de escolaridade, no pressuposto de a ter tido como língua veicular do ensino; se o aluno tem saber firmado do 12º ano das disciplinas científicas, e específicas para o curso para o qual se candidatou à vaga em Portugal.
Mas mais, a não salvaguarda desses factores essenciais, vem concorrendo para o enorme “desaire” dos nossos formandos em Portugal.  Um mau exemplo: narra-se que muitos dos estudantes enviados para os pólos de engenharia de uma cidade no interior de Portugal, dos melhores do país, mal-sucedidos nos primeiros anos, concorrem para bombeiros ou para empregos  bem precários. Enfim, à semelhança do que se passa nos pólos daquela cidade, o mesmo sucede noutras instituições universitárias portuguesas.
E assim temos jovens que acabam por entrar na chamada emigração clandestina.  Não regressam. Mas disso não há estatística. Resultado:  projecto inacabado. Compromete-se o futuro. Perde o formando. Perde Cabo Verde. Para além da eventualidade, do risco, de nos serem recusadas no futuro, vagas nas instituições de ensino superior no país de acolhimento.
Infelizmente, a situação que se desenha é esta: o galopante insucesso que tem havido com os estudantes cabo-verdianos nos últimos anos, pode contribuir para desaparecer também, essa boa oportunidade de formação no exterior para os nossos jovens.
Abro aqui um parêntesis para dizer o seguinte: pouco ou nada sei sobre o que se passa actualmente no Brasil, com os nossos estudantes que para lá vão. Creio - não tenho a certeza disso - correm rumores de que o Brasil resolveu  nos últimos anos, parte do problema, criando cursos, tipo “terceiro-mundo”, especificamente dirigidos aos mal preparados alunos cabo-verdianos. Será assim?? Dito isto assim, não estou a culpar o Brasil. Fecho o parêntesis, mas não a minha profunda tristeza!
Mas minha gente, recuemos um pouco no tempo. Após a independência, os nossos formandos demandaram também para estudos universitários,  países como a Espanha, a França, a Rússia, a Alemanha, entre outros, e em todos eles, aprenderam a respectiva língua veicular do ensino e formaram-se.
É imperativo que se repare que eles outrora levavam na sua bagagem académica, para além de conhecimentos científicos adequados ao curso almejado, haviam interiorizado, através da leitura e da escrita, uma sólida e rica estrutura linguística - a Língua portuguesa – para alguns casos de origens semelhantes (Latim) às línguas dos países para onde foram estudar.  O facto de saberem o português, tê-los-á na certa, ajudado na integração no meio académico estrangeiro.  Igualmente tinham do Liceu, o Francês e o Inglês.  
Para mal dos nossos pecados, tais pressupostos já não se verificam hodiernamente, com o saber e a consistência de então.
Não vá sem acrescentar a má notícia ouvida de que as ilhas Canárias, aqui ao lado, declinaram o acolhimento de estudantes cabo-verdianos, justificando-se com a incapacidade destes em aprender a Língua espanhola (?) possivelmente também ao lado da má preparação científica, que levam das escolas secundárias cabo-verdianas. Ao que isto chegou!
Com efeito, se bem ensinados estivessem na Língua portuguesa, se bem capacitados estivessem nos fundamentos científicos de cada disciplina, estudados em livros escritos em português – era o que acontecia ainda, há sensivelmente duas décadas  atrás – seriam portadores de uma boa e sólida estrutura linguística, cognitiva, capaz de fazê-los apreender com relativa facilidade a outra língua.
Tanto mais tratando-se de duas línguas próximas uma da outra. Ambas filhas do Latim em hiper - estratos etimológicos, e com outros semelhantes substratos e adstratos etimológicos vindos do grego, árabe, entre outros, que formataram tanto o espanhol como o português. Infelizmente, sejamos realistas e directos: mais uma vez, aqui se revelam a grande falta, os enormes estragos e os rombos causados e devidos ao mau ensino ou, ao não ensino de todo, da língua segunda e oficial do país, na preparação da vida futura dos estudantes cabo-verdianos.
Uma autêntica erosão cultural, uma calamidade! Um empobrecimento! E acima de tudo: um retrocesso!
Para amenizar esta tragédia, narro aqui uma situação, no mínimo caricata, vivida ainda recentemente por uma colega professora que embora já das mais antigas, ainda se encontra no activo. Contou-me ela que estando na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, foi-lhe pedido - pela funcionária da sala de leitura - se podia ajudar um grupo de alunos em apuros para encontrar uma obra de consulta em matéria antropológica, cultural.  Encontrado o livro, ela dispôs-se a ajudá-los e, quando começou a explicar um pouco da matéria sobre a qual eles indagavam, foi abruptamente interrompida por um deles, que disse em crioulo: “Explique-nos isso em crioulo, pois em português não  a entendemos.”  Admirada, interrogou a minha colega: “...Espera aí! vocês são alunos de que ano?” Responderam: “Somos do 1º Ano do Curso, Estudos Portugueses e Cabo-verdianos da Universidade de Cabo Verde.”  Ela indignada, já ao rubro (subiu-lhe à face o “lume vulcânico” como me disse) ripostou: “Francamente! O que os vossos professores e vocês estão a precisar é de cadeia!! Imagine-se! Futuros professores de português, já em formação! Com o 12º ano feitos! E nem percebem uma explicação dada na língua veicular do ensino? ..."  Foi um momento e tanto! Desabafou a minha amiga.
 Note-se que  tudo isto vem sendo o quotidiano do ensino, a rotina instalada nas nossas escolas.
Quando é que paramos para reflectir sobre isso? O fingir que isto não está a acontecer, é escandaloso e em nada ajuda.
Assim procedendo, estamos a cavar despudoramente o nosso retrocesso em termos de quadros e de recursos humanos capazes, tanto para a realização pessoal dos próprios jovens escolarizados, como para o desenvolvimento do país.






quarta-feira, 1 de agosto de 2018

À volta dos contos de Baltazar Lopes

A colectânea de Contos intitulada «Os Trabalhos e os Dias» de Baltazar Lopes, que me serviu de apoio para este escrito, é uma edição de 1987, do extinto Instituto Cabo-verdiano do Livro, antecessor do actual Instituto da Biblioteca Nacional.
Trata-se de uma colectânea que traz uma nota biográfica sobre o autor assinada por Manuel Ferreira, que terá sido o organizador desse conjunto de contos, e prefácio do poeta Arménio Vieira que fez uma análise de pormenor bastante interessante e assertiva, de cada história.
São dez, os Contos compilados nesta edição, a saber: «A Caderneta», «Dona Mana», «Balanguinho», «Muminha Vai Pa ra a Escola», «Egídio e Job», «Nocturno de Dona Emília de Sousa», «O Construtor», «Pedacinho», «Sileno» e «Os Trabalhos e os Dias».
Pois bem, os Contos de Baltazar Lopes, conheceram publicação de estreia sob forma dispersa em revistas à época prestigiadas, tais os casos de Claridade, Vértice, Boletim Cabo Verde, Raízes, entre outros periódicos de teor literário e cultural. Daí também o mérito desta compilação de há mais de três décadas que reuniu num único volume estas peças singulares, saídas da pena maravilhosamente culta e poética de um grande vulto das Letras cabo-verdianas, que foi um “caçador de heranças”, no poema homónimo de Osvaldo Alcântara – que serviu de título a um ensaio de Gabriel Mariano – em que o sujeito poético acompanha o enterro de um capitão das ilhas, como quem enterra simbolicamente, um tesouro, uma arca de memórias, cujos eflúvios procura captar.
Entrando agora na teia das diferentes histórias narradas na Colectânea, começaria pelo conto «Muminha Vai Para a Escola», na minha opinião, o mais bem urdido e conseguido neste conjunto.
O interessante é que consigo filiá-lo na linha directa do tipo e da arte de narrar de «Chiquinho», romance emblemático do autor.
É que Baltazar Lopes da Silva, trabalha com primor as memórias infanto-juvenis, levando o leitor de volta, de certa forma, à sua própria vivência, agora sob forma de reminiscência, através de uma linguagem densamente poética e maravilhosamente tecida. O narrador deixa-nos entrar no universo da intriga ficcionada a que não faltam nem a crueldade, nem a generosidade muito próprias e peculiares nas crianças.
A narrativa prende e enleia o leitor numa leitura emotivamente solidária. O narrador condu-lo (o leitor) ao drama de “Muminha” o protagonista, aparentemente bafejado pela sorte material, motivo de alguma inveja entre os colegas pertencentes a um estrato socio-económico menos favorecido, mas o final da narrativa encarrega-se de nos esclarecer acerca da conduta introvertida e apenas defensivamente “aristocrática,” do protagonista.
Efectivamente, estamos perante um belo conto exemplar. «Muminha Vai à Escola» é dedicado a Bento Levy, Director do célebre «Boletim Cabo Verde», (1949/1964) onde o conto foi publicado pela primeira vez, num dos números daquele periódico, nos anos 50 do século XX.
Logo a seguir, nesta hierarquia classificativa e obviamente, subjectiva, vem o já considerado clássico, «A Caderneta», um primor de monólogo em que o leitor pressupõe o diálogo que subjaz entre a protagonista que recusa o apodo de prostituta, que a caderneta lhe conferiria e o advogado “senhor Doutor” que ela deseja que a defenda com aquele saber e a generosidade que ela lhe conhece do antecedente.
Abro aqui um pequeno parêntesis, para recordar a peça de teatro do Mindelact baseada na «Caderneta» e apresentada em São Nicolau, em Abril de 2007, aquando das comemorações do centenário do nascimento de Baltazar Lopes da Silva e a que tive o prazer enorme de assistir porque maravilhosamente interpretada pela actriz Mirita Veríssimo desse Grupo teatral. Fecho o parêntesis e volto aos contos.
Relativamente às duas histórias – “Dona Mana” e “Nocturno de Dona Emília de Sousa” – embora diferentes e distintas nos enredos, mantêm, no entanto, um ponto comum: ambas as protagonistas, estão em desgraça social e familiar no momento histórico narrativo e encontram-se a viver na ilha de São Vicente.
Mas do passado, da ilha de origem, São Nicolau, guardam marcas e ainda vestígios de um tempo, de uma vivência mais bonançoso, mais farto, no qual elas eram socialmente bem enquadradas.
Vicissitudes várias, e bem explicadas pelo narrador, levam-nos a entender o presente das personagens principais, reflexos de uma migração de gente de São Nicolau para Mindelo num tempo de seca e de carestia de vida. Recordo-me de que li algures (suponho que na “Mesa-Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano,”1956) numa das excelentes  intervenções de Dr. Baltazar, de ele ter afirmado que vira pessoas em S. Vicente, pobres, mal-nutridas, com vergonha da sua penúria, e que outrora as havia conhecido,em São Nicolau, a viver com algum desafogo económico.
No fundo, a tragédia antiga das ilhas agrícolas, retratada também nestes dois contos. O final de «Nocturno de Dona Emília de Sousa é nisso claramente ilustrativo: de “Dona Emília de Sousa”, acaba em “Nha Milinha”.
O Contista transpõe para algumas das suas histórias a sua experiência de advogado, (pro bono) defensor dos mais pobres e dos mais vulneráveis. O drama exposto em «Dona Mana» desenrola-se numa sala do tribunal da cidade do Mindelo.
Uma nota também interessante da parte do autor, é que ele partilha os espaços e os cenários dos seus contos para além da sua ilha de eleição, S. Nicolau.
E é assim que vamos ter a história de «Balanguinho» e a de «Os Trabalhos e os Dias» a terem por cenários, espaços e zonas da ilha de Santo Antão. Já o conto «Sileno» desenrola-se na ilha da Boa Vista. S. Vicente constitui o cenário e o espaço em que circulam as personagens dos contos: «Dona Mana», «A Caderneta», e «Nocturno de Dona Emília de Sousa».
A terra no seu sentido cosmogónico e telúrico do qual o homem se sente parte inalienável, e unitário, está muito bem configurada em «Balanguinho», a propriedade agrícola, dos antecessores da protagonista, Mamã Marcelisa, cujo amor por essa parcela de chão, simboliza, por um lado, a profunda ruralidade que acompanhou outrora o habitante de ilha agrícola, e, por outro lado, a maternidade, a fecundidade da boa terra que não trai - pelo contrário - recompensa com grãos e com frutos, quem nela pensa e cuida com esperança e com perseverança.
E essa mesma relação que ouso denominar de “uterina,” vamos de novo encontrá-la num outro conto desta colectânea, «Pedacinho». A bela sombra, o local de acolhimento e de recolhimento do narrador/protagonista, que tem naquele chão, a paz e uma espécie de reconciliação consigo próprio e com o mundo.
Na esteira dos contos inseridos na colectânea, temos a loucura criativa, que confunde a realidade e a imaginação, e que está soberbamente contada na narrativa «O Construtor». O protagonista, o Sr. Alberto, já idoso, armou no quintal, da sua residência um verdadeiro estaleiro, onde intenta construir, dois barcos – o “Estrela da Manhã” e o “Arlequim”. Chegados ao enredo, o leitor é convidado a transpor fronteiras deslizantes e sem balizas divisórias, entre a realidade e a imaginação. Um conto excelente enquanto temática ligada ao mar e pertencente ao domínio do fantástico.
A metáfora e a paráfrase estão representadas e bem, no conto «Egídio e Job», que recria o episódio bíblico, transfigurado em cenários e personagens ilhéus.
Aproveitaria a oportunidade para aqui registar em jeito de síntese, o comentário final do prefácio de Arménio Vieira à edição de 1987, da obra em análise: “(…) o acto de escrever, quando assumido com seriedade, é uma espécie de viagem, apaixonante, por certo, mas com alguns escolhos pelo meio e tormentosos por vezes” (…) e continua:“(…) Baltasar Lopes, o contista (…) sabe dos riscos que correu ao longo dessa travessia. Mas isso já não importa, uma vez que a nave foi conduzida a bom porto.”(Fim de citação).
Não poderia estar mais sintonizada com as palavras de Arménio Vieira. Daí também o meu desafio à Editora Pedro Cardoso, que tem feito obra notável em matéria de edições, de reedições de clássicos nacionais, para que tome em mãos este encargo frutífero de trazer para as novas gerações os contos de Baltazar Lopes – memórias sociais e históricas das ilhas genialmente efabuladas – os quais, merecem ser (re)lidos por leitores dos tempos hodiernos, enquanto passagens de um testemunho, não só da condição de ilhéu, mas também de um passado que moldou a nossa idiossincrasia.
Chegados ao fim da revisitação dos contos incluídos nos «Trabalhos e os Dias», é tempo de convidar o leitor a fazer o mesmo ou, a conhecer – porque vale a pena – o lado contista do grande e multifacetado autor, poeta, romancista e filólogo que foi Baltazar Lopes da Silva.
Nota devida: este Artigo foi publicado na Revista «Leituras» nº- 2 Abril/Junho 2018 da editora Pedro Cardoso.

O “Pacto” e a Metamorfose do MpD

sexta-feira, 27 de julho de 2018

"O que preocupa não é o grito dos maus.
É o silêncio dos bons." (dispensa autoria)


Não posso verdadeiramente dizer que fui enganado quando votei em Março de 2016 no MpD. Não faltaram sinais que me aconselhavam a não acreditar que algo de novo e de bom ia realmente suceder. Ao falar destes sinais a um amigo, este esboçou um cínico sorriso e disse-me: Na nossa idade, meu caro Armindo, os únicos avisos verdadeiramente preocupantes são os que vêm do coração, do cólon, dos rins ou da próstata. Estes é que são importantes. Esbocei igualmente um sorriso de compreensão a mostrar-lhe que ainda estava vivo, e bem vivo e, displicentemente e em surdina, acrescentei: da sociedade e da comunidade política, também. E mesmo assim, não fiz caso e acreditei numa alternativa que tanto ansiava.
Na verdade, os sinais vinham de muito longe. Alguns, exigiam muita atenção e alguma reflexão para os identificar. É um processo demorado de “vingança”, pensado e planeado. Com algum exagero e subjectividade poderei datá-lo a partir da célebre noite de 13 de Janeiro de 1991 – gloriosa e triunfal para uns e humilhante e vergonhosa para outros. O povo tinha-se vingado de 15 anos de opressão e ditadura e na sua manifestação de rua tinha humilhado, com algum mau gosto e, por vezes, de forma grotesca, os seus protagonistas. Não me vou aqui e agora ater a uma reflexão prolongada que, seguramente daria elementos suficientes para um livro… para os politólogos e analistas políticos entre outros. Darei um grande salto e partirei dos indicadores mais próximos, i. e. aqueles que reacenderam a chama e deram forma à “vingança” – as presidenciais de 2001.
Quando os tribunais disseram, de forma clara e inequívoca, que o então inquilino do Palácio Presidencial era um “usurpador”, toda a gente esperava que da parte dele houvesse um gesto de dignidade e de elevação, renunciando de imediato ao mandato. Em vez disso, – estamos todos bem lembrados – depois de um longo silêncio, que possivelmente, teria sido de reflexão que o levara a pensar que essa atitude embora digna e elevada ditaria, a curto prazo, o fracasso total do seu plano e, eventualmente, o seu suicídio político, inverteu o ónus da lógica, dizendo – só o seu adversário estava em situação de o dizer – como única conhecida reacção, e feita no estrangeiro, que “não valia a pena chorar sobre o leite derramado”.
É certo que se esperava, depois do conhecimento desta usurpação “legal”, mas antidemocrática e indigna, que os partidos democráticos, designadamente o MpD e a UCID, desencadeassem uma campanha política de boicote aos actos de um presidente que se encontrava ilegitimamente no poder, de modo a forçá-lo a renunciar.
“A necessidade aguça o engenho!” costuma-se dizer.
Assim, ciente da situação incómoda em que se encontrava, e com a habilidade política que se lhe reconhece, o “inquilino” do Palácio Presidencial, engendra uma manobra de conquistar o partido mais forte da oposição por dentro, através da instalação paulatina de uma quinta-coluna enquanto por fora a artimanha tomava outra configuração: a de seduzir alguns dos mais importantes correligionários do MpD – precisamente aqueles que desprezou, maltratou e vilipendiou durante os 15 anos da sua governação – concedendo-lhes condecorações e outras distinções, obtendo deste modo, no mínimo, por parte deles, a sua legitimação no Palácio e o seu indispensável silêncio bem como uma plataforma para a sua recandidatura. E fê-lo de forma abrangente e indistinta com o firme propósito de diluir e confundir, na sua amálgama, algum eventual mérito que pudesse existir e ser individualizado, mantendo-se fiel às suas convicções de quem são, para ele, “os verdadeiros heróis nacionais”. É bom distinguir que houve gente – muito pouca, mas boa! – que se recusasse a entrar neste beija-mão, o que não obstou – porque insuficiente – que nos tornássemos todos cúmplices do maior embuste político verificado no nosso País, em tempo de democracia.
Não vou aqui referir da evidência desta quinta-coluna na direcção, grosso modo, e na bancada parlamentar do MpD. Um pequeno – não é preciso muito – exercício de memória, leva-nos também a inúmeras cumplicidades entre o então inquilino do Palácio do “Plateau” e alguns dos dirigentes do MpD criando um clima propício a um “conluio”, uma conspiração ou uma espécie de pacto.
Assim, pouco a pouco a cumplicidade entre o presidente do MpD e o inquilino do Palácio de “Plateau” ganhava forma travestida de “convivência institucional”, “cafés da manhã”, “passeios idílicos” na pedonal do Plateau, entre outras ocorrências celebratórias, bem apoiados por uma “entourage” de iluminados cristãos-novos e de alguns “velhos” que viam na aliança a elevação e a consolidação do seu estatuto económico-financeiro.
Embora esteja a saltar episódios e situações importantes para abreviar a análise, e sem querer debruçar sobre os assuntos em pormenor, é bom frisar que o “prémio” Mo Ibraim e a cisão provocada pelas candidaturas às eleições presidenciais no seio do PAICV “aparecem” de forma oportuna para dar continuidade e uma importante achega a estratégia.
O “pacto” celebrou-se, ao que parece na Cidade Velha, com o alarido contido – perdoem-me o oximoro – de alguns próceres da então oposição. A eleição de 2016 estava garantida! – gabavam-se eles. Os termos do suposto “pacto” eram discretamente divulgados: De um lado o apoio e a garantia de delfinato e do outro, como contrapartida, o silêncio e a impunidade política dos anos da ditadura e da usurpação e a promoção em figura pública de consenso nacional.
Com o tal “pacto”, a ser verdade, – e tudo leva a crer que é – o MpD revelava uma estranhíssima concepção da História e punha de lado a importância social do passado. Estranha, porque num momento em que os quilombos da história, os colonialismos, as ditaduras e outras excrescências do passado são lembrados e hiperbolizados para que não se repitam mais, o MpD promove o seu silêncio, com os seus protagonistas ainda vivos, e ignora a sua relevância social e política.
O MpD institucional passou a ter um chefe espiritual, na sombra, uma espécie de chairman que dita as políticas e a estratégia e um CEO – um executivo, que o preside formalmente, concretiza as directivas e serve de guardião fiel e resguardo a qualquer “ataque” às responsabilidades passadas do seu mentor.
Contudo, para dar forma e espírito ao “pacto” era preciso descolar com alguma subtileza do Partido. Daqui surge o célebre slogan: “O meu Partido é Cabo Verde!”. Poderia parecer uma metáfora. Mas não era. Era sim o seu distanciamento da própria organização política que presidia, numa atitude do mais primário populismo; o gesto de negar a sua condição de político partidário, de se despir de qualquer carga ideológica e se centrar no limbo da democracia política querendo assumir-se como aquele que não tem partido; que está acima deles. Era também, de certa forma, a negação de partidos políticos, na linha directa do seu mentor que em entrevista relativamente recente (Jornal Terra Nova – Julho de 2013) insinuara que o regime que liderou nunca fora uma ditadura e que “partido único era um preconceito”, num quadro que nos poderá conduzir à excelência de ausência de partidos, à moda da União Nacional do Estado Novo.
Chegaram as eleições e as expectativas confirmaram-se. O MpD é poder.
Aqui em Cabo Verde, como em quase todos os países democráticos, as eleições não se ganham. Perdem-se. É de La Palisse! Não foi este o diagnóstico que se fez. E sem uma profunda análise – paramétrica e global – sobre as causas da derrota do PAICV, proclamou-se triunfalmente um homem e não um partido como vencedor das eleições legislativas. Este, convencido intimamente ou por conveniência, faz crer aos seus correligionários de que o mérito não era dele mas fruto do “pacto” que havia feito, e trata de imediato de metamorfosear o seu partido à imagem e semelhança do seu mentor, do qual mimetiza o comportamento e absorve a ideologia, e tenta transformá-lo, no escrupuloso cumprimento do plano já referido,  em uma figura consensual – que nunca o foi (vide os resultados das eleições em que entrou) – alcandorando-o numa espécie de “pai da nação” através de um verdadeiro – ou artificioso – culto da personalidade. E tudo isto, mais o já referido estatuto de “pai da nação” concedido (imagine-se!) por este MpD ao “galardoado” do prémio Mo Ibraim, faz do MpD  uma espécie de outra facção do PAICV: proibido de falar dos 15 anos de ditadura – da falta de liberdade, da tortura, do delito de opinião, das prisões arbitrárias, da autorização de saída, da penalização do boato, da perda de nacionalidade e consequente direito de voto do emigrante, da reforma agrária, da propriedade privada, do monopartidarismo, dos símbolos e rituais não constitucionais tornados de Estado, etc. etc. – e, sobretudo, de “tocar” na figura do seu suposto mentor e guia.
Estou plenamente de acordo que tudo isto não deva ser uma arma de arremesso político, mas do mesmo modo que o seu debate e reconhecimento sejam absolutamente necessários e inadiáveis. Não estou a sugerir, à imagem da que existiu na África do Sul de Mandela, nenhuma “Comissão de Verdade e Reconciliação” que, parafraseando uma personagem do célebre livro de Lara Pawson – “Em Nome do Povo – O Massacre que Angola Silenciou” (Tinta da China, 2014) – só se poderá aplicar aos países de cultura protestante, pois só eles cultivam a confissão pública.
Diz, Rafael Chirbes no seu famoso livro “Na Margem” (Assírio & Alvim - 2015) que ”O dinheiro tem, entre outras incontáveis virtudes, uma qualidade detergente. [do verbo “detergir”] E múltiplas qualidades nutricionais.” Estará nisto a “metamorfose” do MpD? Ou foi a essência do “Pacto”? Que fez afastar dos centros de decisão os mais importantes militantes do Partido? Que faz mover uma acção tremendamente vingativa e persecutória a todos os militantes que pensem de maneira diferente? Ou é apenas a ganância pelo poder?
O que é evidente é o desvio gritante deste MpD, dos princípios, valores e fundamentos que sempre o nortearam e que estão na base da sua criação e da sua razão de existir.
Nunca fui militante, e tenho pelos políticos sérios e honestos, com espírito de missão, sentido de Estado e do interesse público o maior respeito e consideração pelo trabalho insubstituível que desempenham, por mim e para mim, ou pela minha indisponibilidade ou por falta de conhecimentos e competência para os fazer. Mesmo quando deles discordo. Mas, torna-se óbvio, sente-se no ar – não sou saudosista e acredito na juventude (com carácter!) – que “Um Novo 13 de Janeiro Precisa-se!


A. Ferreira

O INSUCESSO UNIVERSITÁRIO HOJE DA GRANDE MAIORIA DOS ALUNOS CABO-VERDIANOS EM PORTUGAL

quarta-feira, 25 de julho de 2018


Mas antes de entrar no assunto inscrito no título, vamos um pouco, ao para-texto, neste caso, do assunto em contexto.
Aqui há tempos fui visitar duas boas amigas recém-chegadas do Fogo e que se encontravam hospedadas numa residencial da cidade. Nisto, junta-se a nós um velho amigo delas - antigo Faroleiro, ou antigo responsável do farol do istmo, ou da ponta, onde se encontra o Seminário de São José, na cidade da Praia - há muito reformado, quem também as havia ido cumprimentar.
 Durante o agradável encontro, o que atraiu a minha atenção auditiva foi o facto daquele senhor, faroleiro, se expressar num correcto e escorreito português ao falar connosco. Afinal, ele possuía apenas a antiga 4ª classe da instrução primária. E com ufania a alardeava! No entanto, mantinha com naturalidade fluente e sem titubear, a conversação em língua portuguesa.
Dias passados, uma cunhada minha arquitecta, que está a trabalhar num projecto de novo cemitério para a ilha do Sal, contou-me que procurou para troca de impressões, o antigo responsável do cemitério de Santa Maria, ou melhor dito, também antigo coveiro. Surpreendida com o que escutou, disse-me ela: “Ondina, o senhor falou comigo num português correctíssimo! Que eu fiquei boquiaberta!”
 Reparem os dois casos ilustrados. Trata-se de antigos agentes da base, ou do escalão mais baixo da administração pública  cabo-verdiana, portadores da antiga 4ª Classe da Instrução Primária – Faroleiro e Coveiro .
Comparativamente, expressam-se muito melhor em língua portuguesa do que muitos dos actualíssimos alunos do 12º Ano do secundário.
Alguns, para exemplo, recentemente se me dirigiram na rua - a propósito de um peditório para actividades dos finalistas de determinada escola secundária urbana -  em crioulo, porque não sabiam expressar-se em português, mesmo eu falando com eles na língua portuguesa e dizendo-lhes que fora antiga professora e que ao menos comigo se expressassem em português; motivei-os para tal, até a propósito, de um deles com boa média, querer tentar, segundo ele, uma vaga para prosseguir estudos superiores em Portugal. 
Mas mesmo assim verifiquei que de entre eles, ainda que o tivesse tentado, não conseguiram, tiveram enorme dificuldade em manter o diálogo comigo em  português...
E são estes perfis de alunos que demandam os Politécnicos e as Universidades portuguesas! 
Depois não se admirem de os ir encontrar infelizmente, mais tarde em Portugal. Numa espécie de emigração clandestina, com vergonha de retornar ao país.
Ou então, a trabalhar como ajudantes de mecânicos, sem garantias, em  pequenas oficinas (encontrei nestas condições dois jovens, que tinham ido – com altas médias - para seguir curso de engenharia.  Mas por não terem nível capaz, nem de língua portuguesa, nem das cadeiras científicas específicas para prosseguir o curso que gostariam de fazer e, para o qual lhes fora concedidas vagas ou bolsas de mérito, acabaram assim... Triste! Não é?
Estamos a falar de alunos com o 12º ano do ensino e com altas classificações locais...
Que ninguém se admire da entrevista dada (recomendo a leitura) no Jornal Expresso das Ilhas das Ilhas, de 18 Julho de 2018, pelo Professor e Investigador Filipe Themudo Barata da Universidade de Évora, que sintetiza numa frase que nos devia interpelar, pais, professores e responsáveis da Educação: “os alunos que só sabem crioulo, o resultado é o isolamento” referia-se ele a uma das causa para os mal sucedidos alunos cabo-verdianos (o que já se tornou regra nos últimos anos e não excepções) que demandam formação superior em Portugal?

Infelizmente esta situação vem piorando e deteriorando-se a cada ano que passa, sem que sem veja qualquer medida para inverter esta autêntica catástrofe nacional que é a de permitir que alunos cabo-verdianos partam - sem estarem capacitados a escrever e a falar na nossa Língua oficial, a língua veicular do ensino - para as instituições académicas portuguesas que doravante passarão a frequentar com a finalidade de  preparar técnica e academicamente, o futuro deles e o de Cabo Verde.
Creio que no caso presente, podemos falar de um autêntico abandono escolar no nível universitário de muitos alunos cabo-verdianos; de uma autêntica e caótica situação vivida pelos estudantes, nas trocas constantes de cursos sem sucesso, porque sem bases na Língua portuguesa e agora também sem bases capazes, nas disciplinas científicas.

Atenção: estes factores e estas causas, com estragos profundos, não estão sendo  devidamente avaliados, contabilizados, nem económica, nem socialmente para os jovens e para estas pobres ilhas.

Afinal, só são “bem sucedidos” aqueles estudantes que prosseguem cursos post-secundários na Praia ou no Mindelo, e que curiosamente, são os que têm a média mínima, entenda-se: a mais baixa do 12º para o prosseguimento de estudos universitários. Desta leva, sairão os mestres e os doutores que vamos tendo no país. 
Imagine-se o nível científico e cultural!

Acontece que hoje em dia, e escolarmente falando, estamos cada vez mais mal preparados. 
Contava-me há dias escandalizada, uma antiga colega e amiga, avó, que se dirigiu à escola que a neta frequentou para obter informações sobre a educanda, qual não foi o seu espanto quando se apercebeu de que o professor de geografia não se expressava capazmente em português, o mesmo sucedia - espantem-se! - com a Directora pedagógica da dita escola. E ela que se apanhou a pensar: “coitada da minha neta a levar com professores destes!
Sucede também  que a neta da minha amiga, como a minha e como a de outros com  alguma literacia, se escutam na escola “mau português,” terão a possibilidade  de reverter a situação linguística, sem grandes prejuízos futuros, pois que ouvirão em casa, a língua veicular do ensino bem expressa. Conseguem arrepiar caminho atempadamente...
Agora, imaginem as centenas de alunos, sim, centenas de alunos, oriundos de famílias que não usam a língua portuguesa, só falam crioulo, e que mandam os filhos à escola, para também contactarem e aprenderem o português, para fazer o salto qualitativo social; o que será deles? Sim, meus senhores, qual o resultado que eles terão no processo ensino/aprendizagem? O que adquirirão em termos de entendimento científico, da leitura e da interpretação de livros, de aquisição de conceitos sociais, tecnológicos e outros sem o suporte da língua veicular, na sala de aula? 
Porque a “partida” de mau gosto que estão a fazer aos indefesos alunos – para estes, a escola é ainda fundamental e o principal meio de aquisição do saber -  é que os professores no activo (excepções salvaguardadas, mas que, infelizmente, não deixam de ser excepções) explicam-se e expressam-se muito mal em Língua portuguesa, ou não se expressam de todo, com graves reflexos no processo escolar, na transmissão dos conteúdos programáticos das disciplinas curiculares! Os livros, os manuais escolares, as perguntas nos testes de avaliação, estão escritos em língua portuguesa e ainda bem que assim é! Se os professores não os interpretarem com correcção, que conhecimentos transmitirão aos alunos?

Para nós, este fenómeno era impensável há três ou duas décadas e meia atrás. Ainda que aqui e ali existissem casos. Aliás, casos, sempre os houve, mas nunca com carácter tão generalizado e tão alarmante como actualmente.
Portanto, pi-o-ra-mos! Chamemos as coisas pelos nomes que merecem, sem adornos e sem subterfúgios eufemísticos.

O que estará a acontecer nas escolas destas ilhas, algumas delas, tão brilhantes que foram outrora? E até num passado relativamente recente?

Tenho pena sincera; causa-me uma dor real, verificar que centenas de adolescentes e de jovens cabo-verdianos – sobretudo os provenientes da larga faixa populacional mais vulnerável e cujos pais e família  ainda acreditam na escola - que terminam a etapa de 12 anos de escolarização (o mais longo ciclo de aprendizagem para muitos) demonstrarem uma chocante ignorância científica, uma terrível ignorância literária, pois que desprovidos  de capacidade de entendimento lógico e dedutivo, sem hábitos de leitura, sem exercitar a análise, entre outras insuficiências e incompetências que são - dever e obrigação - tarefas da escola colmatar, reverter e facultar-lhes pistas e instrumentos - ao longo do processo e das etapas de escolarização.

E finalizo, questionando: o que significa hoje - na segunda década do século XXI -  ter o 12º ano de escolaridade das escolas secundárias cabo-verdianas, nestas condições?...  semi-alfabetizados? É isso que o país está a produzir?! É isso que a família e a sociedade gostariam de ver e de ter?

Simplesmente chocante e revoltante!