"Mea Culpa" e leia a opinião de John Matos.

domingo, 5 de abril de 2020


"MEA CULPA!"

Venho aqui fazer "mea culpa" aos caros e sempre bem-vindos Leitores, Adriano Miranda Lima, John Matos, José Fortes, Pablo da Argentina e Valdemar Pereira, por não ter tempestivamente publicado os seus comentários a alguns artigos editados neste "blog." 
A culpa é inteiramente minha (Ondina) e deveu-se à minha inabilidade em aceder, em tempo útil, à caixa dos comentários. Mil pedidos de desculpas a todos e ainda ficam outros mil por pedir. 
Embora tardiamente, comunico-vos que os referidos comentários já estão nos Artigos correspondentes.
Aproveito a oportunidade para publicar sob forma de texto, a opinião de John Matos relativamente ao artigo A Ofensiva dos “Melhores Filhos” e a Cumplicidade dos “Filhos Pródigos” e “Adoptivos” editado neste blog em 28 de Fevereiro de 2019 por me parecer ser a tese que ele há muito vem defendendo, como nos diz no comentário:

"Excelente artigo! Tentei comentar o artigo no jornal online Expresso, mas por uma razão qualquer não consegui, pelo que vim à fonte original do artigo deixar um comentário. Tanto mais, que não li comentários em lado nenhum sobre este artigo o que é estranho. Dito isto, parabéns ao eng Armindo e bem-vindo à "familia" porque estou há vários anos a defender a tese do seu artigo e ainda por ocasião do que se chama Semana da República, voltei à carga escrevendo uma série de posts nas redes sociais, desde o dia 30 de janeiro noContraditorium, por exemplo. Passo a citar-me 'Mas há factos que ninguém pode escamotear! Cabral, nasceu na Guiné Bissau, e foi ele mesmo, que rejeitou a sua condição de crioulo. Cabral, disse ou não disse que não havia "caboverdianos em Cabo Verde, mas sim, africanos, levados para as Ilhas?". A. Pereira afirma na sua entrevista/memória que Amilcar via-se mais como guineense que caboverdiano. O resto é História propagandística e Manipulação mental.
Sim, isto ficou patológico. Leiam!


Falava-vos num anterior post de Inteligência Artificial, de Ciência Cognitiva, do cérebro, da Neurobiologia...

Aqui têm pois o mais recente livro do francês, L Alexandre, quentinho, já devorado, porque conheço toda a obra deste neurobiólogo (faz-me lembrar João Varela, poeta maior, e cientista de Neurobiologia e as nossas falas).

Agora eis a Guerra de Inteligências, um tema que já tratei várias vezes; o que outros e eu chamamos Guerra Cognitiva.

Quem não conhece mais ou menos o funcionamento do cérebro, bases de neurofisiologia celular, ou Inteligência artificial e robôs, não vale a pena aventurar-se nestas leituras.

Ah! não gosto nada destes marxistas que adoraram a URSS e seus génios do Mal, Lenine, Staline e Trotsky. Ainda continuam a mandar no Mundo escondidos atrás do manto do dinheiro dos poderosos de Wall Street, Globalistas da ONU e toda essa rede de comilões, que sugam o sangue dos ricos, dos burgueses, como dizia o copiador da expressão "revolucionarios profissionais" ! 

Eles ainda pensam que aquilo é coutada do guineense Amilcar Cabral, adepto da violência revolucionária leninista e duma Unidade que só existia na cabeça dele e dos fanáticos seguidores porque não conheciam e não conhecem a psicologia profunda do caboverdiano!!! 
Os portugueses negros nascidos em Portugal, filhos de caboverdianos, angolanos e guineenses, nunca serão PAIS da Nação Portuguesa ou da Nacionalidade lusa, por razões óbvias.

Porque é que então o guineense Cabral, nascido em Bafatá, tem de ser Pai da Nação ou da Nacionalidade de Cabo Verde? Para uns sim! Para outros, como eu, Não, porque eu sei pensar com a minha cabeça, frase que não é de Cabral, como continuam a repetir por ignorância e incultura!"--- Já agora sobre fake news gtem um artigo que escrevi no meu blog, onde pode encontrar igualmente, um desenvolvimento psiquiátrico sobre a temática deste seu artigo. Obrigado---

PS Como pode ver vou muito mais longe do que o Sr Eng---
https://montecarainfo.wordpress.com/2019/02/08/traumas-psiquiatricas-da-guerra/"

A Cruzada dos Novos Nacionalistas - O Crioulo -

quarta-feira, 25 de março de 2020


Parece estar a emergir uma geração de “nacionalistas” que se estriba agora na língua cabo-verdiana, no crioulo, como parâmetro identitário e de afirmação do povo cabo-verdiano para lançar uma cruzada. Fazem-no com tanta estreiteza de espírito e com alguma pompa intelectual que chegam a ser caricatos sem sequer se darem conta. Nessa cruzada nacionalista e populista não enxergam que é preciso ser mesmo muito pobre culturalmente para ter como respaldo identitário - hoje - uma vertente do crioulo de base portuguesa – o crioulo de Cabo Verde - Convém lembrar os crioulos com a mesma origem, isto é, de base portuguesa,  como o da Guiné-Bissau,  o de Casamansa, o de São Tomé e Príncipe, o papiamento de Macau, para não me alongar nos inúmeros Crioulos e Falares que se formaram no Oriente, com a passagem portuguesa quinhentista.
Nesta ordem de ideias, é mister questionar: Que seria da identidade dos brasileiros que se gabam de falar o “português”?  E dos angolanos em que o português é já língua materna de cerca de 50% da população? E dos australianos? E dos estado-unidenses? E dos argentinos? E dos cubanos? Etc. etc. etc.
Mas mais, é que na sua miopia não conseguem ver que o crioulo como língua de ensino não tem até agora - e turmas já foram criadas!! Coitados dos alunos! - NENHUM suporte documental. Leia-se: compêndios, cadernos didácticos, livros auxiliares, entre outros suportes de ensino necessários para qualquer aprendizagem escolar.
Torna-se deveras interessante escutar alguns Crioulistas impenitentes da nossa praça, na defesa do Crioulo ou Língua cabo-verdiana, feita as mais das vezes com exagerada exaltação – o que actualmente até deixou de ser necessário e chega a ser frequentemente, ridículo. Isto porque se perguntados onde estão os seus filhos ou os seus netos a estudar, de certeza que teremos como resposta, pelo menos, que nenhum foi colocado em turma em que se experimentou o crioulo como língua de ensino. Não! Até aposto que estiveram ou estão quase todos ou na escola portuguesa ou na escola francesa ou numa escola particular. Nada mau. E, sobretudo, nada contra.
Pois é! É que para os crioulistas, a Língua cabo-verdiana é boa sim, para o ensino dos filhos e dos netos dos outros. Sobretudo daqueles – pais e avós – que não tiveram acesso a muita ilustração e esperavam ser compensados pela Escola através dos descendentes... Mas esses outros, na óptica dos fundamentalistas do crioulo, não precisam da nossa Língua oficial e segunda, a portuguesa. O crioulo que eles aprenderam em casa e na rua, basta-lhes. Isto, além de hipocrisia, é um exacerbado egoísmo totalmente despido de qualquer sentido humanístico, de solidariedade social. E muito revelador de um sentido social que não integra e que exclui os outros.
Também não deixa de ser curioso verificar que se expressam [os crioulistas] quase o tempo todo em português – e note-se: vernáculo! – no abundante tempo de antena que lhes é dado na comunicação social, para quase sempre soltarem os seus “ódios linguísticos” de estimação sob a capa de um nacionalismo redutor e populista. Ou seja, “atemorizando” e “chantageando” intelectualmente a livre expressão de outros cabo-verdianos que muito necessitam, e também querem, com toda a legitimidade, igual defesa entre nós, da Língua portuguesa como veículo e instrumento de ensino, como língua para a nossa comunicação dentro e fora e sempre que dela necessitarmos. Um autêntico bilinguismo.
Aliás, este escrito não está e nem podia estar contra os estudos, as pesquisas sobre a Crioulo de Cabo Verde, os quais vêm sendo feitos ao longo de décadas. Alguns com muita seriedade e fundamentação científica. Que se continue nessa senda. Mas que se circunscreva e permaneça calmamente na investigação.
Mas é - este escrito - absolutamente contra a pressa de o empurrar à força, e com muita pressão para o domínio do ensino nas nossas escolas.
 Daí que já seja tempo de meditarmos muito seriamente, com carácter de alguma prioridade, neste populismo crescente e demagógico a que os políticos dão cobertura sem uma análise honesta e séria dos prós e contra e que vem constituindo sério entrave à formação de quadros de qualidade e ao desenvolvimento do País. A Língua não é pertença de nenhum linguista, sociolinguista, psicolinguista, entre outros especialistas da Língua, e nem é um fim em si própria, mas um preciosíssimo instrumento de comunicação, de trabalho e de desenvolvimento. E é como tal que deve ser tratada. Ela é pertença dos seus falantes e dos seus utentes.
Antes de terminar, deixo aqui um veemente pedido:
Por favor: permitam que os filhos dos cabo-verdianos de menor literacia e oriundos da camada social mais desfavorecida, tenham acesso similar – aos dos vossos filhos e netos - nas nossas escolas públicas a esses mesmos bens linguísticos. Como seja, a possibilidade de aprenderem o português – a ocasião de terem e de fazerem nas aulas a interpretação de textos e de conceitos científicos escritos em português que é também património linguístico cabo-verdiano.





O prisioneiro da “ilha” Conto de Joaquim Saial I

segunda-feira, 23 de março de 2020
Um Conto de Joaquim Saial, nome conhecido, do "Blog" «Praia de Bote» Historiador,  colaborador de revistas especializadas em história de arte. Estudioso e conhecedor da estatuária pública de Cabo Verde. Autor de Contos. Colaboração assídua no Jornal «Terra Nova».  Natural de uma bonita terra portuguesa, Vila Viçosa e, para nós, mindelense de coração e de vivência.


O prisioneiro da “ilha”
Conto de Joaquim Saial

Na zona mais alta do jardim, bem visível de longe, avistava-se a sólida mansão branca, de dois andares, gradeada em todas as janelas. Fora adquirida pelo embaixador português para sua residência particular, em circunstâncias assaz favoráveis, ao ministro do Interior em fuga de um dos executivos depostos, numa das muitas revoluções em que aquele país da América Central era fértil. O edifício oficial era acanhado, tinha poucas divisões, só dava para cumprir a burocracia da legação e o diplomata não quis perder negócio tão aliciante. Quando tivesse de regressar à pátria, havia de ganhar alguma coisa com ele – à semelhança do que acontecia com outros que ia empreendendo, de madeiras e fruta – e entretanto dispunha de uma casa como poucas outras havia na capital. Colocado naquele fim de mundo, em meados dos anos setenta, como embaixador político, por lá fora ficando, sem que nas Necessidades os sucessivos ministros se ocupassem muito mais com ele. Diga-se, em abono da verdade, que também nenhum diplomata de carreira se mostrara até aí interessado no posto, devido às consecutivas convulsões internas do país e àquelas que a cólera e outras doenças endémicas provocavam nos organismos mais fracos...
O fim de tarde de sexta-feira apresentava-se mais húmido e quente que o dos dias antecedentes. Uma chuva miudinha caía a espaços, para logo se evaporar, deixando na pele e nas coisas um leve toque pegajoso. Com as costas da mão, Martinho Fortuna, o adido cultural, limpou mais uma vez o suor que lhe escorria pela testa, cansado com o transporte dos materiais e de manobrar o bote de borracha em que os levava
1 Publicado na Revista de Cultura “Callipole” (Vila Viçosa), n. 12, 2004, com uma ilustração da pintora Emília Morais e escrito então, como agora, de acordo com o penúltimo modelo ortográfico.
para a ilha. Esta não era mais que uma balsa de madeira, ancorada ao centro do vasto lago existente no jardim, através de quatro correntes que a prendiam ao fundo. Servia de apoio a banhistas, de base para cocktails íntimos e de cenário frequente dos discursos do 10 de Junho e do 25 de Abril dirigidos à restrita mas abastada comunidade lusa, quase toda composta por gente ligada à produção de banana, café e madeira. O embaixador fora com a mulher passar alguns dias precisamente a casa de um fazendeiro português, na face do país virada ao Pacífico, e deixara o palacete entregue à sua guarda, como era habitual em circunstâncias semelhantes, embora também ali ficassem durante o dia Maruja, a cozinheira, e Pablo, o marido, jardineiro da casa, devotado casal de índios que se vestiam com trajes minhotos, sempre que havia cerimónia oficial... Como o bote era pequeno, aquela era a terceira viagem e ainda previa mais uma, para que ficasse tudo pronto. Já levara mesa, cadeiras, toalha e guardanapos, loiça e talheres, pão, aperitivos, bebidas, geladeira e outro material indispensável. A comida viria do restaurante mexicano situado num quarteirão próximo, bem como a orquestra meio manhosa de mariachis emigrados, para a serenata preparada em segredo desde a semana anterior. À noite, encontrar-se-ia ali com Carmen Sanchéz, a fim de comemorarem o trigésimo aniversário desta e combinarem os pormenores do casamento de ambos.
Carmen detinha cargo idêntico ao dele, na embaixada de Espanha. Haviam-se conhecido numa cerimónia, no feriado do dia da Independência, dois anos antes, e a simpatia mútua cresceu quando organizaram uma exposição conjunta de artesanato ibérico. Apaixonaram-se e, a partir daí, mantiveram estreito conquanto discreto relacionamento que só não era legalizado para evitar embaraços a ambas as legações. Alugaram casa num bairro periférico da capital mas passavam a maior parte do tempo nas respectivas embaixadas, no centro da cidade. Martinho estava prestes a finalizar os trabalhos de tese de doutoramento em estudos índios, na mais prestigiada universidade do país, onde também leccionava Antropologia Cultural. Numa vinda a Lisboa, o embaixador vira-o discursar na Fundação Gulbenkian sobre os problemas dos índios
brasileiros, apreciara artigos seus no "Expresso" e no "Diário de Notícias", relativos a temas folclóricos do nordeste transmontano, e acabara por convidá-lo para o posto, até aí inexistente, de adido cultural. Martinho aceitara de imediato, ávido de mudança e satisfeito com a possibilidade de estudar in loco assuntos que o vinham de há muito interessando. Mas já passara os quarenta anos e desejava constituir família. Apesar do seu amor por Carmen, começava a fartar-se das diplomacias que o obrigavam a fingir em público que nada tinha a ver com ela. Precisava de estabilidade, queria ter filhos, uma vida como a da generalidade dos outros casais. Havia que atirar às malvas os pruridos decorrentes da comum situação profissional de ambos e fazer, enfim, o casamento. Apesar da relação cordial que estabelecera com o embaixador, em cuja casa ainda mantinha quarto, quando lhe tocou no assunto, este mostrou-se pouco receptivo, dizendo: «Você sabe como são estas coisas. Não precisamos de arranjar lenha para nos queimarmos. Um casamento entre diplomatas de ambos os lados, não é coisa institucionalmente desejável. Se há qualquer fuga de informação ou trapalhada semelhante, fica sempre a ideia de que foi a parte contrária a originá-la ou a propagá-la... Espere mais algum tempo, deixe correr o marfim, o seu doutoramento está quase pronto, entretanto regressa a Portugal, retoma o lugar na universidade e então casa. A Carmen é uma mulher inteligente e com as ligações que tem, ser-lhe-á fácil obter bom emprego numa dessas empresas espanholas que agora proliferam que nem cogumelos na nossa terra. Tenha calma, homem, tenha calma.» Mas aquilo entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe pelo outro. Tão cedo, não contava ir-se embora, pois após a discussão da tese desejava fazer investigações complementares com ela relacionadas. E recusava retornar por enquanto à faculdade lisboeta na qual ensinara alguns anos e onde os assistentes se atropelavam pelos melhores cargos, cadeiras e horários, por entre cinismos e maledicências, num ambiente de intriga de cortar à faca. Quando chegasse a Lisboa, havia de estar na posse de suficientes conhecimentos e publicações, tanto em livro, como em revistas da especialidade, que não permitissem a nenhum dos colegas morder-lhe pela calada. Nessa noite, assentaria
com Carmen a boda. Se ela concordasse, seria na catedral de Nuestra Señora del Martirio, velha igreja colonial barroca, onde a Virgem chorava, trespassada por punhais, entre centenas de círios que ardiam ad aeternum, com poucos convidados, apenas um ou outro amigo do meio diplomático e da universidade.
Martinho acercou-se da balsa, saltou para o pavimento envernizado e colocou ao lado da mesa a caixa de cartão que continha um ramo de flores, castiçais e velas repelentes de insectos. Viu no relógio que eram sete horas e vinte minutos e concluiu que afinal só ali voltaria sozinho para pôr o contentor com o jantar, antes da vinda de Carmen. Olhou para a montanha e pareceu-lhe distinguir vários pequenos reflexos, como se alguém andasse a divertir-se com espelhos. Seria talvez o efeito do brilho do sol poente nos vidros dos carros ou nos cromados das motorizadas dos índios que subiam para Palma ou Villa Guzmán, no fim de mais um dia de trabalho. Todavia, mais abaixo, envolta na poeira que ia levantando na estrada de terra batida que saía da cidade, viu parada uma coluna de jipes e outros veículos da Guarda Nacional. No local, observavam-se idênticos clarões e soavam estampidos de fuzilaria. "Estes gajos passam o tempo nisto. Mais um tiroteio entre a Guarda Nacional e o Exército Índio de Libertação ou novo ataque ao pessoal da droga.", calculou Martinho. Quis entrar de novo para o bote mas então ouviu o zunido de algo que entrementes martelou no grosso suporte da antena parabólica e depois se lhe introduziu numa perna. Em seguida, a cabeça bateu na borda da mesa. Quando o corpo, caindo desamparado, se estatelou no pavimento, antes de escorregar para a água, o diplomata já estava inconsciente.
II
No momento em que recobrou os sentidos, o dia declinava e estavam acesas as luzes de presença, disseminadas pelo jardim, que um automático ligava todos os dias, pelas oito horas. Encontrava-se a flutuar, com o braço esquerdo enfiado numa das argolas de corda que pendiam da balsa, semelhantes às usadas lateralmente nas de salvamento marítimo. Fora isso, supôs, que o salvara de morrer afogado. A pouco e pouco, foi tomando consciência do que lhe acontecera. Tinha um hematoma na nuca, sangrava da perna direita e doía-lhe o braço do mesmo lado. A muito custo içou-se para a plataforma, tentando enxergar o bote de borracha que acabou por divisar numa extremidade do lago, a dez ou doze metros de distância. Pensou que estivera para além de meia hora dentro de água, facto que confirmou através do relógio luminoso de pulso. Lorenzo, o criado do restaurante, já teria tocado a campainha? Decerto que sim. Martinho tinha combinado com Don Felipe, o dono, que ele entregaria o jantar pelas sete e meia... E Carmen deveria estar prestes a chegar. Ouviria decerto a campainha tocada por ela, através dos amplificadores colocados no jardim, junto ao lago. Mas como poderia ir abrir-lhe a porta? Quanto a telefone, só havia extensões no edifício e na portaria, ao fundo da longa avenida de palmeiras. Gritar não adiantava, visto o jardim ser extenso, o muro demasiado alto naquela zona e o arvoredo frondoso em excesso. Nem sequer poderia recorrer a "Saramago", o mastim do embaixador – assim baptizado por este, quando descobriu ser "Camões" o dado pelo autor do "Memorial do Convento" ao seu –, que Maruja levara para casa, durante aquele fim-de-semana de ausência do patrão. Pareceu-lhe que a maneira de dali sair seria com a ajuda da mesa, único objecto flutuante disponível, visto as cadeiras serem de alumínio. Tentou erguer o busto do pavimento, pela primeira vez desde que se guindara da água mas a dor no braço, que conjecturou deslocado ou partido, fê-lo manter-se deitado. Concluiu que lhe seria impossível mover-se dali sem a ajuda de alguém. Encontrava-se prisioneiro da ilha.
Notou então no ar algo de contraditório: enquanto por um lado desaparecera o habitual ruído surdo de veículos – porque filtrado pelas árvores e arbustos – que costumavam passar na estrada que bordejava parte do perímetro do jardim e seguia para Palma, na montanha, por outro, julgou perceber ao longe, mas aproximando-se cada vez mais, um matraquear de armas de fogo. Martinho deduziu assim o que lhe tinha sucedido: uma bala perdida, em ricochete, acertara-lhe na perna. O inchaço na cabeça e o problema do braço só se podiam dever aos efeitos da queda. Acendeu um fósforo e viu que tinha dois pequenos orifícios acima do joelho. Felizmente, o projéctil entrara e saíra. Precisava de desinfectar as feridas. As bebidas que para ali levara eram de fraca graduação alcoólica, excepto o rum cubano. Tacteando o interior da geladeira, sentiu a garrafa, encostada a outra de vinho do porto, mais bojuda, que mão amiga lhe enviara pela mala diplomática. "Quarenta graus, quando muito. Deve chegar.", disse para consigo. Como cada vez via pior, devido ao escuro, acendeu uma das velas que pousou no parapeito circundante da abertura do porão, espécie de armário situado abaixo da linha de água, onde se guardavam bóias e cordas e onde não cabia mais que uma pessoa. Um dos buracos, porventura aquele por onde a bala saíra, tinha mau aspecto. Verteu todo o conteúdo da garrafa nos ferimentos e depois, com a ajuda de uma faca, desfez em tiras os dois guardanapos de pano que ali tinha e atou-os à volta da perna. Na casa, tocou o telefone, pela primeira vez. Mas isso, de nada lhe valia.
Lá fora, o tiroteio redobrou e os clarões dos disparos eram agora nítidos, na noite abafada, sem luar. Ouviam-se também explosões de granadas e morteiros. Sentiu uma coluna passar no exterior do jardim. Num dos carros, um altifalante ordenava: «Por razões de segurança, a população deve manter-se em casa. Até nova ordem, não é permitido transitar na via pública. A Guarda Nacional actuará com firmeza, em caso de desobediência.» Ao que aquilo levava a crer, se havia estado de sítio ou similar, não se tratava de operação contra os produtores de coca. Devia ser coisa com os índios. Martinho sorriu, pensando na ironia do destino que o amarrava, não à casa mas àquela ilha de madeira. Carmen estava impedida de
ali se deslocar e agora mais ninguém lhe acudiria. Provavelmente, o telefonema fora dela. Não havia nada a fazer, excepto esperar pelo desenrolar dos acontecimentos.
Na generalidade, os arrufos duravam apenas escassas horas, dada a superioridade das forças do governo. Os índios do EIL, que lutavam pelo reconhecimento das autoridades face à sua condição de explorados pelos madeireiros e donos das plantações de café, não tinham armamento sofisticado, ao contrário das tropas governamentais. Umas dezenas de morteiros e bazucas, entrados no país pela banda do Mar das Caraíbas, eram o melhor com que podiam contar. Tratava-se de um jogo de gato e rato, em que o rato perdia um ou dois pelos do bigode e depois se ia recompor, para daí a pouco voltar à actividade. A comunicação social, controlada pelo governo, falava de terroristas que queriam alterar a paz social e o progresso do país, utilizando os termos e os modos habituais em situações semelhantes. Martinho tinha alunos, hispânicos e índios conotados com esta luta, alguns dos quais já haviam experimentado as prisões e torturas do regime. No bar da faculdade, não era raro procurarem-no, para lhe fazerem perguntas sobre o andamento da democracia portuguesa e a história dos primeiros tempos da revolução. E ele, moderado, não só lhes falava dos dramas do período da ditadura do Estado Novo, como das alegrias e abusos surgidos nos primeiros tempos após a sua queda. Mostrava-lhes filmes que trazia da embaixada, passava discos saídos na primavera marcelista e no período revolucionário mas era forçado a manter alguma distância, dada a sua condição de diplomata. O grupo restrito de discípulos com quem convivia fora das aulas, sabia no entanto ler nas entrelinhas, percebendo que ele não podia ir mais longe, e estimava-o. E não era por acaso que as suas aulas eram das mais frequentadas de toda a universidade.
Martinho sentiu fome. Desde o almoço que jejuava. Arrastou-se até ao cesto com fatias de pão, de onde retirou uma, já endurecida pelo calor, que trincou com dificuldade. Chegou o braço à luz da vela e verificou que apresentava aspecto arroxeado. Abriu uma cerveja e massajou-o com o líquido borbulhante e fresco. Depois, encetou outra e bebeu-a, a acompanhar o pão. Ia abrir uma lata de amendoins, quando
se lembrou de que podia estar sem ver ninguém até segunda-feira de manhã. Isto, se a sorte estivesse do seu lado – ou seja, se Maruja, Pablo ou o embaixador atravessassem as barreiras montadas pela Guarda Nacional. Este poderia ser a sua salvação mas o adido continuava a acreditar que ele não voltaria senão após o término das escaramuças. De Carmen nada esperava, visto esta não poder defender perante os militares motivos válidos para ali ir. Assim, era imperioso racionar os parcos alimentos, agora resumidos à lata de amendoins, às fatias de pão e a quatro mangas. Na geladeira, havia a garrafa de porto e uma de água.
À roda da meia-noite, as armas calaram-se. Carros com militares iam e vinham, sinal de que a refrega não terminara ainda. Martinho dobrou a toalha em três, para lhe servir de modesta enxerga, apagou a vela, praticamente consumida, ajeitou-se o melhor que pôde, virado para o lado esquerdo, mas só conseguiu adormecer de madrugada, por causa das dores.

III
Na manhã seguinte, tinha febre. O braço doía-lhe menos que na noite anterior, o que parecia querer provar que não houvera fractura mas a ferida estava infectada e a perna inchara. Teve medo de contrair gangrena e deitou sobre ela golpes de porto. "O porto só tem vinte graus... Se não fizer bem, mal também não faz.", pensava, para se animar. Durante a manhã, o telefone tocou diversas vezes mas ninguém surgiu na casa. Os acessos ao bairro, de onde se podia partir com maior facilidade para a montanha, deviam estar cortados e por isso Carmen não pudera ainda passar. O embaixador, decerto que já estava ao corrente dos acontecimentos. No entanto, neste caso evitaria o regresso, porque o grosso dos seus compatriotas encontrava-se radicado na zona para onde fora e também porque episódios daqueles haviam caído na rotina política do país. "Parte dos telefonemas deve ser dele, para saber como estão as coisas por aqui ou se a casa sofreu com os combates. Nem imagina que o único a levar a dose fui eu.", cogitou o recluso da ilha.
Os combates reacenderam-se, por volta do meio-dia. Martinho viu explodir dois carros da Guarda Nacional, após o que deixou de ouvir a movimentação de veículos militares na rua. Porém, adivinhava que havia soldados nas proximidades, devido a reconhecíveis ruídos de metais arrastados, talvez armas ou caixas de munições, que a barreira das árvores, apesar de densa, deixava passar. O calor apertava. A fim de se aliviar, bebeu alguns tragos de água e pôs-se a encher a garrafa de rum com água do lago, que depois vertia por todo o corpo, procurando evitar possível desidratação e comeu duas mangas e amendoins, o que lhe iludiu por mais um tempo a fome. Em casa, tocou o telefone, pela quinta ou sexta vez.
O bote de borracha lá estava, no mesmo sítio, numa ponta do lago, à sombra da videira trazida de Portugal pela esposa do embaixador. Martinho reflectiu na maneira de o fazer retroceder. No porão havia cordas e uma fateixa. Se a lançasse de encontro ao bote, correria o risco de o furar e de este submergir antes de lhe chegar ao pé. E se a embrulhasse na
toalha, de modo a anular a agudeza dos três bicos? Assim fez, após o que tentou o arremesso. Soergueu-se, pegou no ferro com a mão esquerda e atirou-o para o bote. Como seria de esperar, falhou, em virtude da distância a que estava do alvo e das dores da perna que não lhe permitiram posição favorável. Nova tentativa redundou noutro fracasso, ficando a toalha a boiar por instantes na água, até que se afundou. Surgiu-lhe no momento uma ideia que lhe pareceu de concretização exequível, apesar de morosa: construir uma jangada com tábuas arrancadas à balsa, que ataria com cordas. Agora, era necessária uma chave de fendas para desenroscar os parafusos que as agarravam à estrutura da base. No porão não havia nenhuma mas uma faca poderia ser sofrível sucedâneo. Devido ao leve mas contínuo balanço e ao calor que dilatava a madeira, os parafusos estavam lassos. Contudo, eram compridos e a dor ainda forte no braço não ajudava Martinho. Para facilitar o trabalho, meteu a faca entre dois garfos, o que permitiu fazer maior força. Mesmo assim, a cada momento a faca fugia da fenda do parafuso. Ao fim de um bom bocado é que conseguiu tirar o primeiro. O esforço, aumentado pelo calor do Sol, agora a pique, cansara-o. Sentia guinadas no ferimento e persistia o estado febril, o que lhe fez pensar que a infecção piorara. Puxou a mesa para o local em que estava, postou-se debaixo, para ter sombra, e continuou o trabalho. A tábua estava presa com seis parafusos mas tirado o terceiro resolveu levantá-la e parti-la. O resto da tarde foi passado nesta tarefa. Quando à noite resolveu retemperar forças, juntara oito meias tábuas. Estas, amarradas ao tampo da mesa, à qual tirara as pernas, deviam poder com ele. Comeu a terceira manga e iniciou o entrelaçamento das cordas nas tábuas. Na rua, era mais nítida a movimentação de tropas. Holofotes varriam as redondezas, enquanto perto do topo da montanha, acima de Villa Guzmán, se observavam reflexos idênticos aos da noite anterior, embora só se ouvisse armamento ligeiro.
Foi então que se abriu uma porta na varanda do segundo andar do consulado norueguês. Essa era a única parte da construção, visível de onde Martinho estava retido. Mesmo assim, a casa, onde estava instalada a única delegação diplomática sediada no bairro, encontrava-se a mais de cem
metros, depois de uma azinhaga e de terrenos devolutos. De dentro irromperam uma luz forte e a música Morgenstimmung, de Peer Gynt, a inevitável suite de Grieg que a consulesa, loura, alta e enxuta figura, punha a tocar no gira-discos quando bebia um pouco mais que a conta – o que, dizia-se à boca cheia, era frequente. Logo a seguir surgiu ela, de garrafa na mão, da qual bebeu longo trago. Pessoa intratável, o seu nome era de tal modo arrevesado e difícil de pronunciar que Maruja e a embaixatriz portuguesa, quando a ela se referiam, lhe chamavam muito simplesmente La Doña Noruega. Martinho quis aproveitar a oportunidade e começou a agitar os braços e a gritar, na esperança de que a mulher desse por ele. A dado passo, pareceu que o ouvira, porque olhou na direcção do lago. Mas logo a seguir emborcou mais um pouco do conteúdo da garrafa, voltou a fixar a montanha, regressou à sala e fechou a porta, não sem antes gritar, numa pronúncia gutural: «Hijos de una vaca! Que bárbaros!» Apesar do desconsolo que sentiu, Martinho foi forçado a sorrir, tanto mais que sabia que Doña Noruega era avessa a falar castelhano. Aquelas duas frases, decerto aprendera-as custosamente de algum criado e lançava-as agora, revoltada com os incómodos a que estava momentaneamente sujeita. "Pelo menos, estás dentro de casa, meu pau de virar tripas. Raios te partam, bêbeda surda!", exclamou, em voz alta. Tinha Martinho acabado de ter este desabafo, eis senão quando dois tiros de artilharia pesada fizeram ir pelos ares parte da gradaria da varanda onde a consulesa estivera, segundos antes. A diplomata abriu outra vez a porta, ao som de Anitras Tanz, ainda da mesma suite, e, envolta na sua bandeira nacional, com a garrafa na mão esquerda mas com um revólver na direita, desatou a disparar no vazio, ao mesmo tempo que, na língua materna, lançava o que parecia serem impropérios. Esgotado o conteúdo do tambor da arma e o vocabulário contundente, voltou para a sala, atirando a porta com estrondo.
A soldadesca, que fizera bivaque na rua, movimentou-se. O estardalhaço dos rebentamentos e os tiros, ali tão próximos, assustaram os militares e a sua vozearia chegou até Martinho que, pela primeira vez desde o princípio dos acontecimentos,
temeu pela vida. Segundo balázio ou a gangrena podiam dar conta dele. E sabia que em casa havia antibióticos com os quais podia atacar o mal da perna antes que fosse demasiado tarde. Isso deu-lhe redobrada energia para continuar a montagem da jangada. Da segunda e última vela, restava um coto que enfiara num copo, e duraria, quando muito, quinze ou vinte minutos. A luz da Lua, clara nessa noite, não era suficiente. Urgia trabalhar depressa. Finalmente, chegou a hora de Martinho lançar a periclitante jangada à água. Logrou içar-se para ela, deitando-se de bruços, com esforço e cuidado, para não aleijar mais a perna. Ensaiava o afastamento da balsa, à custa de braçadas, quando lhe pareceu que no cimo do muro que dava para a casa de Doña Noruega algo se movia. Não havia dúvida: contra o luar, detectou os vultos de duas pessoas que, após perigoso salto, entraram na propriedade.
IV
Martinho, que se afastara breves metros, voltou de imediato à ilha. Evitando o mínimo ruído, alçou a jangada e alojou-se no porão, com a cabeça de fora, na certeza da impossibilidade de ser visto. Verificou que os homens tinham atravessado o parque na diagonal e estavam agachados na zona arbórea, junto à parte do muro para além da qual supunha que estavam os soldados. Um, que se empoleirou no outro com dificuldade, espreitou por instantes por cima do muro. Feito isto, dirigiram-se para a casa, passando a correr junto à borda do lago. O adido reparou que o mais alto transportava uma mochila. No escuro perdeu-os de vista mas acreditou que tinham entrado. Já era domingo. A dor na perna mantinha-se estável. Martinho queria ficar desperto, para ver se os homens voltavam. Tratar-se-ia de vulgares ladrões que aproveitavam a oportunidade para um assalto à casa do embaixador? Os telefonemas teriam sido deles, a modo de abertura de caminho, verificando se a casa estava habitada? Logo pôs de parte essa possibilidade, por achar excessivos os perigos a que os intrusos se sujeitavam na presente situação. Que quereriam? Receoso, decidiu precaver-se. Ao raiar da manhã, se calhasse olharem para ali, poderiam ficar desconfiados com a loiça e as garrafas. Não valia a pena dar nas vistas. Resolveu deitar tudo à água, excepto a manga que destinara a almoço desse dia, e desmontou em parte a jangada que uniu à entrada do porão. Cerca das duas da manhã, exausto, rendeu-se ao sono, adormecendo sobre os aprestos ali guardados.
Quando acordou, com o enorme estrondo de uma explosão, chamas irrompiam por toda a rua, bem como na copa de algumas árvores circunvizinhas, dentro e fora do parque. Na casa, na relva, na balsa e no lago, por todo o lado, caía uma miríade de chispas. Por milagre, o fogo só se transmitiu ao renque de arbustos existente entre a casa e o parque. Soltou um suspiro de alívio, quando viu que a humidade da noite não deixava progredir as chamas na copa das árvores; e um pequeno foco na balsa foi logo apagado por ele, com a camisa que molhou na água do lago. No exterior,
ouviam-se gritos de desespero, acompanhados de ordens confusas que não entendeu. Observou o relógio e concluiu que dormira mais ou menos uma hora. Que teria sido aquilo? Um contra-ataque do EIL? Um rebentamento acidental? Do lado oposto da propriedade, na azinhaga que dava para a casa de Doña Noruega, ouvia-se um tropel de botas e mais alarido. Dir-se-ia que houvera deslocação de tropas para aquele lado, cujo objectivo seria cercar todo o quarteirão. Depois, vieram carros de bombeiros. Na montanha, a fuzilaria, que alastrara a toda a encosta, intensificou-se.
Lembrou-se então dos dois intrusos e olhou para a casa, que saía da penumbra, devido aos primeiros alvores da madrugada. O seu interesse foi recompensado, pois viu abrir-se a porta das traseiras e sair um deles. O indivíduo fez o mesmo caminho de antes, embora em sentido inverso. Quando passou junto de uma das luzes de presença, transportando uma metralhadora a tiracolo, Martinho viu-lhe de relance o perfil e julgou reconhecê-lo: se não se enganava, era Emilio Vega, jovem funcionário da reprografia da faculdade e aluno de Sociologia. Hispânico, era popular entre os estudantes de origem índia, por integrar o grupo de música tradicional El Vuelo del Pájaro, juntamente com Manolo Chato, Ramón Casas e Pepito "Sonrisa", todos alunos do adido. Dizia-se que pertenciam ao EIL e afinal isso era verdade, como se confirmava. O rapaz, que trazia algo branco nas mãos, dirigiu-se até ao muro, onde Martinho descortinou o vulto deitado do companheiro. Era quase certo que estava ferido, porque Emílio lhe enrolava ligaduras em ambos os braços. O que acontecera, realmente, durante o tempo em que dormira? Emílio arrastava agora o ferido para a casa, puxando-o lentamente pelos pés. Chegados à fiada das luzes de presença, Martinho teve nova surpresa: o segundo elemento era Ramón Casas. Mestiço, filho de um lavrador falido, descendente de espanhóis, e de uma índia de Guadalupe, trabalhava num restaurante da capital, para pagar os estudos, mas isso não o impedia de pertencer ao grupo dos alunos mais brilhantes. Martinho recordava-se dos seus trabalhos sobre artefactos pré-colombianos e costumes indígenas que revelavam erudição fora do vulgar. Propusera-lhe na altura
que fosse seu assistente mas o rapaz recusara, alegando que ainda não estava preparado para assumir tarefa desse tipo e que El Vuelo precisava dele. Martinho atribuíra a negativa a exagerada modéstia e pensava repetir mais tarde o convite. Agora percebia que aquilo que o levara a declinar a proposta era estar implicado no EIL.
A aparição de Emilio e Ramon fora providencial: estava quase certo da possibilidade de conseguir a ajuda de ambos, para pôr termo à sua desconfortável situação. Mas havia que ter cautela. Se Emilio se assustasse, poderia disparar e eliminá-lo. Era necessário decidir-se. Se os deixasse passar, decerto não voltariam ali. A luz existente permitir-lhes-ia distinguirem-no e reconhecerem-no com facilidade. Arriscou. Levantou-se pausadamente, com os braços no ar e chamou os estudantes pelos seus nomes. Emilio, surpreendido com a aparição daquele homem, largou o colega, engatilhou a arma mas não atirou. No último instante, Ramón dissera-lhe que ficasse quieto. Reconhecera o "Doctor Martiño", seu professor.
V
Martinho saiu da ilha no bote de borracha tripulado por Emilio. Ficou na borda do lago, até que este colocou o companheiro na casa. Depois, foi a vez de ele ser ajudado. Amparando-se no estudante, dentro em pouco estava na cozinha do palacete. Os rapazes contaram-lhe então a sua odisseia. No início dos combates, estavam na montanha, junto do EIL. A ofensiva governamental fora uma surpresa e, a breve trecho, as munições de armas pesadas esgotaram-se – as explosões dos dois carros da Guarda Nacional que Martinho vira estourar ao fim da manhã de sábado tinham sido produzidas praticamente com as últimas. Tornava-se por isso urgente um reabastecimento. Como o principal acesso à cidade ficava no quarteirão da residência do embaixador português, área ocupada por três dezenas de homens da Guarda, Emilio e Ramón receberam ordens para ali fazerem um rebentamento de diversão, de molde a numa rua paralela poder passar a carrinha de hortaliça de Alejandro Peña com munições para os morteiros e bazucas. Pegaram nuns paus de dinamite e meteram-se a caminho. Escolheram a casa do embaixador, não só porque Ramón conhecia o parque, por ali ter ido levar trabalhos a Martinho, como também por ter acesso directo ao sítio onde os soldados estavam estacionados. O rebentamento que acordara Martinho e o consequente incêndio, devera-se à explosão da dinamite, associada a explosivos encostados ao muro. A deflagração fora tão rápida e violenta que as chamas irromperam logo, queimando, embora sem gravidade, os braços de Ramón. Aparentemente, apesar do reforço da Guarda nas ruas adjacentes, os militares não haviam percebido a origem próxima do rebentamento. Caso contrário, não se teriam inibido de pelo menos espreitar para dentro do parque...
Esclarecido, Martinho pensou no que era necessário fazer a seguir. Primeiro, foi ao armário de medicamentos e tomou uma cápsula de antibiótico e trouxe pomada para as queimaduras de Ramón, ao qual tirou as ligaduras, besuntando-o com o remédio, em toda a extensão da pele
ardida. Do frigorífico retirou leite, queijo e fruta, que dividiu com os seus salvadores. Aplacada a fome, chegou a vez de pensar na maneira de os impedir de caírem nas garras da tropa, sem se comprometer ou aos serviços portugueses. Os seus documentos estavam em ordem. Na garagem, ficara o carro da embaixatriz, de matrícula diplomática. Emilio e Ramón seguiriam com ele, escondidos na mala, de manhã. Se acaso lhe perguntassem por que motivo queria sair, diria apenas que necessitava de ir aos correios recolher correspondência urgente para a embaixada. Era altura de telefonar a Carmen e ao embaixador. Como imaginara, aquela fora confrontada com as barreiras militares e o embaixador ficara-se junto dos compatriotas. Os telefonemas de ambos e do pessoal da embaixada, para ali e para o apartamento, tinham esbarrado com as férias de Martinho na ilha.
Os combates terminaram quarta-feira mas as aulas só foram retomadas na semana seguinte. Emilio e Ramón escaparam à onda de prisões que levaram muitos dos seus colegas para os calabouços de La Intendencia, a prisão do ministério do Interior. Martinho recompôs-se da ferida mas o embaixador, a quem só foi contado o indispensável da história, ficou a julgar que ele tinha saído da balsa pelos próprios meios. No final do ano lectivo, dois meses depois, Martinho e Carmen casaram-se, na catedral de Nuestra Señora del Martirio, como planeado. Quando, após a cerimónia, voltaram para o exterior, havia umas dezenas estudantes da faculdade sentados junto ao apostolado e nos degraus da escadaria. Dentre eles, destacavam-se os rapazes de El Vuelo del Pájaro que puxaram das suas guitarras e flautas e principiaram um canto lento e suave, onde se falava de "el indio solitario de la Isla de la Libertad y sus dos pajaritos". Martinho, Carmen e os convidados passaram por entre os estudantes e todos seguiram para os automóveis que os esperavam. O escasso grupo de amigos que constituía a comitiva ficou algo surpreendido com aquela inesperada efusão académica mas os recém-casados, fingindo alheamento, entraram no carro. Porém, lá de dentro, sorriram para os estudantes...
quarta-feira, 18 de março de 2020

O texto que se segue era para para ser o da apresentação pública na Cidade da Praia do livro «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» de Adriano Miranda Lima, prevista para 18 de Março do ano em curso.
Acontece que por motivos desta terrível pandemia que tomou conta do mundo, houve que ser protelada.  Adiada para, como disse o autor da obra: “...para quando o “Gongon” do maldito vírus deixar de representar uma ameaça à nossa saúde”.
Sobre o autor-Natural da ilha de São Vicente, Coronel reformado e a residir em Tomar- colaborador deste blogue, gostaria de vos dizer que para além da excelência da sua escrita, estamos perante alguém que investiga com seriedade e com uma grande honestidade intelectual. Digo isso sem hesitar, pois que  com provas dadas nos inúmeros artigos, ensaios e livros que ele vem publicando os quais, reitero, atestam as qualidades da escrita cuidada, concisa e assertiva de Adriano Miranda Lima.


Apresentação do Livro «Forças Expedicionárias a Cabo Verde
na II Guerra Mundial» de Adriano Miranda Lima
A obra que o leitor tem ou vai ter certamente em mãos – «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» de autoria de Adriano Miranda Lima - é, na minha opinião, uma das mais interessantes narrativas sobre a historiografia da instalação e da vivência nas ilhas de Barlavento de Cabo Verde, das Forças militares expedicionárias portuguesas ao Arquipélago nos idos anos 40 do século XX.  O contingente militar foi distribuído pelas ilhas de São Vicente, Santo Antão e Sal. O livro dá conta com pormenores bem elaborados e seriamente fundamentados, dessa grande movimentação de homens em solo ilhéu e com uma missão. A missão de defender o Arquipélago de eventuais ataques e/ou invasão dos beligerantes na II Guerra Mundial.
 Ao contrário do que o leitor possa pensar, não se trata de uma descrição militar fria, antes pelo contrário, objectiva sim e colorida no melhor sentido do vocábulo. Cheia de cor local, de calor humano, de peripécias pitorescas a propósito de um ou outro acontecimento à volta do foco principal, numa retrospectiva histórica, cativante para os interessados em analisar a nossa História sob vários ângulos.
 Ora bem, as ilhas de São Vicente, Santo Antão e Sal foram os quartéis e os locais onde se instalaram repartidamente, mas de forma desigual em números, os 5.820 homens que cá chegaram com a importante missão de defesa das ilhas atlânticas, da eventual cobiça dos contendores da  Grande Guerra Mundial e isto ao mesmo tempo que  tropas eram enviadas  para os Arquipélagos dos Açores e da Madeira. Aliás, o Despacho do Ministério da Guerra, acentuava a urgência e a necessidade de defesa das ilhas atlânticas portuguesas, até como  garantia da neutralidade de Portugal face à contenda mundial.
Convém recordar que a ilha de São Vicente acordou de súbito numa manhã de Maio de 1941 com a chegada  de mais de 5 mil jovens homens, o que foi um acréscimo de cerca de 39% em termos demográficos para uma ilha que contava à época com 15 mil almas.
Imagine-se a  brusca reviravolta na vida da então pequena urbe, Mindelo, com a instalação,  a circulação e a movimentação desses jovens militares pela cidade!
 Daí que o foco da atenção narrativa do autor esteja mais fortemente virado para aquilo que sucedeu em São Vicente, onde coube o maior número (mais de 3.000) do contingente dos militares vindo da então Metrópole – naturalmente mais do que nas restantes duas (Santo Antão e Sal).
 Mas há ainda a acrescentar, outro factor motivador deste livro. O autor encarrega-se de nos explicar o facto, entre outros dois por ele mencionados que o levaram a organizar a presente obra. Ei-lo e da seguinte forma, passo a citar: “...Porém , outra circunstância particular e não menos relevante é o facto de eu ter nascido na ilha – São Vicente – onde as Forças Expedicionárias mais se projectaram, irradiando o seu mantra pela cidade do Mindelo e pela ilha como um todo..." 
 O leitor é convidado pelo autor, ao longo dos capítulos e das páginas do livro, a entrar, a partilhar e a vivenciar a atmosfera física e social de Mindelo daquela época. Tempo e vivências que curiosamente se prolongaram na memória dos mindelenses até  muito mais tarde.
A marca das influências da tropa expedicionária em São Vicente, estendeu-se ao longo do tempo e ficou impregnada de forma indelével no imaginário dos mindelenses.  Em certos usos e determinados costumes. Na  memória literária, através de um deles, à data dos acontecimentos descritos no livro, o então Furriel Manuel Ferreira, e mais tarde para nós, nome destacado na Historiografia literária cabo-verdiana que se entrosou de forma profunda na sociedade mindelense. Casou com a cabo-verdiana Orlanda Amarílis, também ela escritora. Adriano Miranda Lima, reconhecendo a importância desse vulto da cultura cabo-verdiana, dedicou-lhe um capítulo particular, demonstrativo e ilustrativo da forma como Manuel Ferreira pôde conhecer, percepcionar e entender como se de um natural fosse, a História, a Literatura e a cultura cabo-verdianas.
Do mesmo modo, o autor  destaca também a insigne figura do médico militar Dr. Baptista de Sousa, um cirurgião competente, que realizou autênticos “milagres” não só para os militares  que aí adoeceram, mas também para a população civil que a ele acorria. Lembremo-nos de que a penicilina só chegaria a São Vicente e a Cabo Verde pela primeira vez em 1945. O livro dá conta disso. Mas atenção que o foco desta narrativa, «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial» abrange fundamentalmente o período compreendido entre 1941 e 1944, ano do fim da missão militar.
Continuando com o Dr. Baptista de Sousa, convém salientar que este médico competente e honesto ousou, no estrito desempenho da sua profissão, de forma corajosa, denunciar a situação de fome que assolava as ilhas. E fê-lo de tal modo reiterado que foi vítima dessa sua coragem, pois no tempo da Ditadura era proibido dizer “que se morria de fome nas terras do Império” (cito o autor).
É que o Dr. Baptista de Sousa escrevia nas certidões de óbito, e continuou a escrever até ao fim da sua comissão de serviço em Mindelo - mesmo depois de ter sido repreendido pelas autoridades- de forma clara e legível, a expressão “fome crónica” como causa de morte do paciente. Estou a seguir o autor.
Daí que, quando partiu, que deixou a ilha, no dia da sua partida para Lisboa não causar espanto a emocionante e a espontânea despedida que o povo de São Vicente lhe prestou, acudindo em multidão ao cais de embarque, acontecimento que o livro descreve com algum pormenor.  Interessante é que nessa despedida não se incorporaram apenas populares, mas também figuras gradas da sociedade mindelense da época. Exemplificando, o Dr. Adriano Duarte Silva - deputado, cidadão benemérito, e grande defensor das causas das ilhas -  o  Juiz da Comarca, entre outras entidades de relevo de Mindelo. Aproveito para dizer que o livro está bem documentado em fotografias da época sobre este e  outros acontecimentos.
Reza a crónica, que não mais se terá repetido na urbe mindelense tão grandiosa manifestação de gratidão. Hoje, Dr. Baptista de Sousa é patrono do Hospital de Mindelo.
Uma vez regressado a Lisboa, dada a sua firmeza na denúncia da fome, enfrentando e contrariando as autoridades, foi prejudicado, penalizado nas promoções e nas colocações de forma ostensiva.
Outras duas figuras que mereceram destaque no livro foram, a primeira a do Capitão Oliveira, que é descrito como um militar de alto recorte humanitário. Ele terá instituído como uso e costume militar  e pela primeira vez em Cabo Verde, a distribuição das «sobras do rancho» ordenando à despensa militar, da Companhia que ele comandava que aumentasse os géneros alimentícios na cozinha e que as sobras fossem distribuídas aos muitos miúdos e adultos famintos que se abeiravam dos muros do Quartel. Terá com isso minorado ou mesmo salvo da fome mortal muita gente. Quando lerem o capítulo hão-de de perceber como o gesto do capitão Oliveira foi tocante e humanitário.
O interessante e de acordo com o livro, o Capitão Oliveira é que sugeriu e pediu aos comandantes dos outros aquartelamentos em São Vicente que fizessem o mesmo.
 Não esquecer que a chegada das Forças Expedicionárias a Cabo Verde coincidiu com uma época terrível, crítica, de seca e de fome e que a Mindelo acorriam famílias e pessoas famélicas das ilhas vizinhas de Santo Antão e de São Nicolau, duas ilhas, entre as que mais sofreram com a Fome. Logo, o acto do Capitão Oliveira é digno de louvor. Tudo isso vem descrito e narrado no livro.
A  segunda figura foi a do Cabo Francisco Lopes, que em Mindelo passou a ser conhecido como Chico da concertina . Este militar era presença assídua em festas, bailes e piqueniques  a convite até  dos músicos locais.
Há uma passagem no livro que não me furto a mencionar, pois que escrito na primeira pessoa evoca a integração nas noites mindelenses da época de uma forma viva. Encontra-se na  página 213 do livro. Crónica quase oral, viva, sugestiva e que diz muito dos convívios musicais e outros da época em Mindelo.
De facto, a penetração e o entrosamento das forças expedicionárias na população de São Vicente foi profunda e deixou marcas indeléveis como já aqui referi. As festas, os convívios, os piqueniques fora de portas, para os quais os militares eram convidados, os namoricos e os casamentos de sargentos e de oficiais com as moças da cidade. As ligações ocasionais ou prolongadas dos praças e soldados, com as raparigas da cidade e/ou dos arredores e de que resultaram filhos, uns reconhecidos, outros não, constituem as diversas formas e interacções sociais entre o corpo expedicionário estacionado na ilha e a população mindelense.
 Mas também aconteciam com pompa e circunstância os grandes desfiles e/ou paradas militares que deslumbravam a população que a eles assistia.
Tudo isso é descrito e narrado no livro com cuidado e com pormenor.
 Na minha opinião de leitora, é exactamente a história do impacto dos militares na sociedade local que ocupou lugar de eleição neste livro.
De facto, Adriano Miranda Lima retrata e ilustra factos e figuras com tal realismo e proximidade que o leitor se sentirá quase participante.
Por um lado, a boa convivência, e por outro lado, a ajuda material que aqueles militares prestaram à população de São Vicente, num período muito crítico de seca e de fome. São esses factos também que ocuparam atentamente o autor na sua narração.
Claro, que de caminho, o livro dá conta também das escaramuças e das querelas havidas entre os rapazes locais e os militares metropolitanos – assim se dizia à época -  regra geral, por causa das moças que estes últimos conquistavam. Não se esqueçam que estamos a falar de forasteiros jovens, muito jovens, na faixa etária dos vinte e poucos anos, a maior parte deles.
Abro aqui um pequeno parêntesis para uma curiosidade, para dizer, que não terá sido por acaso que o mindelense é quem mais adquiriu (em termos relativos e proporcionais) –minha impressão, colhida em informações em que não houve rigor estatístico, vale dizer -  que adquiriu, repito, sem grandes dificuldades a nacionalidade portuguesa, na grande procura que houve no pós-independência, uma vez que ainda haveria um bisavô, um avô ou, mesmo um pai português militar da década de 40, que remonta à estada da tropa expedicionária em São Vicente.
 Fecho a curiosidade e o parentêsis e volto ao livro; para finalizar e reiterar que a sua leitura se torna igualmente aprazível, quando lemos as cartas, os testemunhos e os depoimentos  nele contidos  que são autênticas memórias escritas na primeira pessoa pelos protagonistas, sobre a passagem por Cabo Verde em missão militar. 
Memórias guardadas e conservadas pelos descendentes a que o autor teve acesso. Factos e histórias que tanto impacto tiveram na vida daquela geração  cabo-verdiana e portuguesa que os vivenciou.
Mesmo, mesmo a terminar, dizer que Mindelo conservou em bom estado alguns aquartelamentos, muros e vedações defensivos, à época construídos, e até mesmo o talhão militar no Cemitério de Mindelo, onde repousam restos mortais dos 68 jovens militares  portugueses que aí sucumbiram por doença. O livro traz o obituário.
 Actualmente existe na cidade do Mindelo, uma espécie de roteiro, ou de visita guiada - se não estou em erro - com passagem pelos marcos deixados pelas Força Expedicionárias militares dos anos 40 do século XX.
Meus senhores e minhas senhores, caros amigos, vale a pena ler o livro «Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial»! Garanto-vos que o prazer da leitura, sempre procurado pelo leitor, estará muito presente ao longo dos capítulos da obra.
Muito obrigada.

terça-feira, 10 de março de 2020

 Com a devida vénia ao autor e ao Jornal Público, aqui se publica também o texto de Francisco Miguel Valada, artigo com interesse para se perceber o que vem sendo "O Acordo do nosso desacordo."





O acordo ortográfico e as respectivas facções
Francisco Miguel Valada*

“Está nisto desde que veio. (…) De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo.”
António Lobo Antunes, Memória de Elefante

A primeira frase de um recente despacho da Lusa, divulgado pelo Expresso, ilustra bem a farsa do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Passo a transcrever: “As fações rivais líbias convidadas pela ONU a participar em negociações políticas na quarta-feira em Genebra (Suíça) anunciaram esta segunda-feira separadamente a decisão de suspenderem a respetiva participação no diálogo, alegando motivos diferentes.” Efectivamente, esta frase está e não está de acordo com o esperado de uma frase cumpridora do estabelecido na base IV do AO90. Por um lado, temos *fações e *respetiva, porque em português europeu a oclusiva velar correspondente à letra ‘c’ nas palavras facções e respectiva não é pronunciada. Por outro lado, como em português do Brasil a oclusiva velar correspondente à letra “c” naquelas palavras é pronunciada, o resultado seria diferente se este texto, em vez de aparecer no Expresso, tivesse aparecido na Folha de S. Paulo, ou seja, haveria facções e respectiva.
Isto é, actualmente, em português do Brasil escrito, versão 1990, aquelas grafias correspondem às fabulosas formas já existentes no português europeu escrito com a ortografia de 1945, a ortografia óptima, segundo a melhor informação científica disponível. Assim sendo, em português do Brasil com AO90 e em português europeu sem AO90, temos esta deliciosa frase: “As facções rivais líbias convidadas pela ONU a participar em negociações políticas na quarta-feira em Genebra (Suíça) anunciaram esta segunda-feira separadamente a decisão de suspenderem a respectiva participação no diálogo, alegando motivos diferentes.”
Com efeito, apesar do reconhecido valor grafémico da letra “c” em facções e respectiva, os autores do AO90 decidiram aniquilá-la em português europeu. É evidente que tal decisão de supressão da letra “c” foi tomada ao arrepio de pareceres e artigos científicos, aos quais os deputados e o Governo não ligaram nenhuma, escolhendo o pouco corajoso acto da fuga para a frente. Alguns, aliás, têm preferido mesmo o recurso à provocação e à deselegância. Recentemente, um deputado do Partido Socialista (PS) aproveitou a morte de João Malaca Casteleiro para ofender quem estuda e trabalha. De facto, Ascenso Luís Simões lamentou que “quem nega a atual [sic] ortografia não entenda que a língua portuguesa não pode ficar agarrada a uma visão é [sic] um tempo marcados pelo colonialismo”. Aguarda-se uma retractação, uma vez que pedir para ler pareceres e artigos, pelos vistos, é pedir imenso. Convém, apesar de tudo, separar o trigo do joio. Por exemplo, Pedro Cegonho, também ele deputado do PS, tem disponibilidade para ouvir educadamente argumentos contra o AO90. É essa, aliás, a impressão que fica do excelente e minucioso relato feito por Rui Valente sobre o encontro de uma delegação da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico com representantes do Grupo Parlamentar do PS. Voltando ao assunto que aqui trago, a supressão da letra “c” tem, portanto, duas consequências: uma consequência interna e outra externa. Quanto à interna (do ponto de vista português europeu), temos a provável homonímia de *fação com uma localidade do concelho de Sintra chamada Fação e a potencial rima de *respetiva com discretiva. No que diz respeito à externa, cria-se um novo fosso entre as normas europeia e brasileira, afastamento provocado justamente pela principal base do AO90. Em suma, exactamente o oposto das promessas e juras de negociadores, promotores e amigos do dito cujo.
O impacto real do AO90 verifica-se em textos concretos e não em ilusões. Como vimos no início, a primeira frase de um despacho da Lusa não tem qualquer palavra afectada pelo AO90 em português do Brasil, mas tem duas palavras afectadas pelo AO90 em português europeu. Convém que o poder político deixe de insultar quem o elege e de atirar areia para os olhos ou, segundo a doutrina vigente, arena para os óculos.
*Autor de Demanda, Deriva, Desastre: Os Três Dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009)
Público de 10:03.2020

sábado, 29 de fevereiro de 2020

O texto que se segue é o Editorial do Jornal Expresso das Ilhas de 26 de Fevereiro de 2020, de autoria de Humberto Cardoso. Por se tratar de um assunto actual e de grande interesse para o falante nacional aqui se publica também.

  Derivas linguísticas

Por altura da celebração do dia internacional da língua materna que acontece anual­mente a 21 de Fevereiro mais uma vez vozes se fizeram ou­vir a clamar pela “oficializa­ção” do crioulo. De entre es­sas vozes soou mais alto a do Ministro de Cultura que no seu discurso disse que “consa­grar a oficialização da língua cabo-verdiana como língua oficial em paridade com o português é o desígnio máxi­mo do povo cabo-verdiano”. O Presidente da República na sua mensagem instou a que se acelerem os mecanismos e se apurem os instrumentos para se cumprir a Constituição. Todos os anos repetem-se os apelos à oficialização, pede-se revisão constitucional urgen­te e deixa-se entender que há “opositores de oficialização” a enfrentar. Fica-se por saber é por que vias o Estado e o go­verno têm promovido as con­dições para uma oficialização em paridade com o português como comanda a Constitui­ção. Pressionar todos anos para se rever a Constituição não é promover condições. É procurar impor “facto consu­mado” para além de passar a culpa da inacção ou de falta de acção consequente para ou­tros.
A verdade é que a partir da revisão da Constituição em 1999 com a introdução do ar­tigo 9º sob a epígrafe “línguas oficiais” passou-se a referen­ciar o crioulo como tal. Reco­nhecendo existir dificuldades no seu uso na plenitude nas funções do Estado por razões que, entre outras, advêm de não se ter uma forma estan­dardizada de escrita, ficou es­tabelecido no nº2 do mesmo artigo 9º que o Estado deveria tomar medidas para as ultra­passar. Já no nº3 consagrou­-se logo o direito de todos de conhecer e de usar as duas lín­guas. Por isso é que ninguém se sente impedido ou inibido de usar o crioulo no país. O PR faz declarações em criou­lo, debate-se no parlamento em crioulo, pode-se depor nos tribunais em crioulo e a admi­nistração pública não deixa de responder se a solicitação vem em crioulo. Também não se pode falar de estigma so­cial derivado do uso da língua, quando pessoas de todos os extractos sociais e em todas as ilhas falam variantes do criou­lo nas mais variadas circuns­tâncias.
Por tudo isso é evidente que não faz sentido estar a apon­tar pessoas como opositores da oficialização do crioulo. Em relação ao que a Constituição estabelece há consenso geral. O problema surge quando não se cumpre a parte de “promo­ver as condições” e se faz fuga em frente não só com propos­tas de alterações constitucio­nais mas também forçando a sua adopção como língua de ensino. A justificação pela sua introdução urgente nas escolas em nome da quali­dade do ensino, da melhoria do sistema de educação e dos processos de aprendizagem não convence e isso já é no­tório na forte preferência de muitos pais e alunos pela es­cola portuguesa e outras esco­las privadas. Aliás, aconteceu algo similar noutras paragens nomeadamente em Madagás­car, Haiti e Curaçau onde as elites moveram os filhos para escolas francesas e holande­sas logo que se impôs a língua malgaxe o crioulo haitiano e o papiamentu nas escolas pú­blicas. Insistir nessa via natu­ralmente que cria “opositores” em todos aqueles que aflitos e sentindo-se impotentes vêm todos os dias a degradação do ensino e aprendizagem do português e seu impacto na qualidade do ensino ministra­do no país às novas gerações.
Em Cabo Verde o crioulo ainda oficialmente não é lín­gua de ensino, mas na prática o seu uso em todos os níveis de ensino, do básico à universi­dade, à discrição do professor, já afecta negativamente todo o processo de aprendizagem. Contraposto ao português em termos identitários gera resis­tências que impedem que as horas dedicadas ao português nas escolas se traduzam num domínio da língua que seja considerado satisfatório. De alguma forma ter-se-á falhado em passar às novas gerações o papel que as duas línguas tive­ram na sedimentação de uma identidade cabo-verdiana como se pode ver, por exem­plo, no papel do português na criação de uma literatura genuinamente cabo-verdiana e do crioulo na expressão da morna. O uso das duas línguas por todos os extractos sociais também indicia que não há uma relação antagonística, nem há necessidade de exclu­são de uma para afirmação da outra.
De facto não se é mais cabo­-verdiano falando só o criou­lo e hostilizando o português. Para todos devia ser evidente que o português não é amea­ça para o crioulo. Diferente do que se passa no Brasil e cada vez mais em outros países de língua oficial portuguesa, em Cabo Verde o português não é língua materna, possivelmen­te nunca foi e certamente que no futuro não será. Há quem queira ver no crioulo cabo­-verdiano o resultado de algu­ma espécie de resistência cul­tural. O mais provável é que seja um produto peculiar do isolamento e da precariedade destas ilhas. De outra forma não se compreenderia por que em países como o Brasil, os Estados Unidos e outros países os “afrodescendentes” não tenham criado uma qual­quer língua de resistência e pelo contrário acabaram por adoptar a língua do coloniza­dor como língua materna. E o facto não o terem feito não os impede de, por exemplo, fazer do samba um fenómeno cul­tural genuíno e expressão viva de uma cultura brasileira úni­ca também toda ela expressa em português.
Semanas atrás o VPM e Mi­nistro das Finanças no parla­mento constatou que não há competência linguística em francês e inglês que seria ne­cessária para que Cabo Verde pudesse investir numa rela­ção proveitosa com a África. A essas insuficiências acres­centa-se a cada dia que passa a manifesta dificuldade dos cabo-verdianos em fazer uso do português. Tanto no país como no estrangeiro essas di­ficuldades estão a prejudicar em particular os jovens no prosseguimento dos estudos e na procura de emprego. Pe­rante uma situação dessas o país devia já estar num esta­do de alarme e especialmente proactivo e enérgico na iden­tificação da raiz deste pro­blema que ameaça confinar e limitar as suas possibilidades de desenvolvimento. Infeliz­mente o que se vê na utiliza­ção do sistema educativo e da comunicação social pública e nos discursos de políticos é o contrário. Nota-se uma con­vergência em fazer do crioulo uma questão identitária, em procurar engajar os jovens numa luta contra a sua supos­ta desvalorização ao mesmo tempo que se faz um alerta para a existência de oposito­res, nas entrelinhas mentes colonizadas. Enquanto no Ruanda de Kagame se adop­ta o inglês como língua oficial para aumentar as chances de desenvolvimento do país aqui celebra-se a vitória do paro­quialismo mais crasso.
Humberto Cardoso

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

No rescaldo do Carnaval
- Algumas incoerências bizarras -
...Sei que me vão “cair em cima” por afirmar o seguinte:
Sempre achei de uma grande falta de respeito a uma etnia, a uma comunidade humana, por sinal, nossa vizinha, o facto de existir um grupo carnavalesco denominado “Os Mandingas”. Na mesma linha, mas um pouco mais suave e irónico, a existência da um grupo carnavalesco denominado: “Vindos de África.”
Sim, se existem defensores entre nós, quase fundamentalistas de que apenas somos africanos, esquecendo esses ditos fundamentalistas rácicos, o lado europeu que conjuntamente com o negro, nos deu a  nossa bela mestiçagem; “Vindos” de África,  assim apresentado em desfile carnavalesco, até parece um grupo exogéneo, “Vindos de...” algo exótico, vindo de fora e, passível de ser gozado, no timbre e no espírito folião do Entrudo.
Faço-me entender: o Carnaval é exactamente um período, uma época de libertinagem (permitem-me a expressão no seu sentido literal) em que se pode parodiar, gozar e troçar de situações, de pessoas e de factos que  normalmente - o gozo - é interditado socialmente em festas que não sejam as presididas pelo Rei Momo.
Ora bem, assim sendo, analiso o facto de se parodiar os Mandingas, ou os Vindos de África nesta acepção. É Carnaval, vamos lá parodiá-los... Carnaval é brincadeira, picardia, gozo e caricatura. É Carnaval, ninguém leva a mal...
 Também sei que os  grupos não estão para aí virados, nessa de fazer alguma meta-semântica ou, pensar no significado mais aprofundado historicamente dos seus mascarados...
Mas sejamos minimamente coerentes, uma vez que também quem faz isso, quem organiza e toma parte nestes grupos carnavalescos, até acredito que defenda valores positivos para o Continente africano.
Para melhor contextualizar o tema a que me propus, não posso esquecer e trago-a à colação, a admiração do escritor angolano, Agualusa quando assistiu a um Carnaval no Mindelo e terá exclamado ao ver o Grupo “Os Mandingas”...”Eh! pretos mascarados de pretos!”... Que estranho!
Imaginem um grupo de europeus mascarados de...”brancos”?... ou um desfile de Carnaval num país africano com um grupo “Vindos de África?
É certo que também me podem contrapor com as figuras que entrem  normalmente no Carnaval e que são por nós tidas por bonitas e mágicas como as fadas, as princesas, entre outras figuras renovadas nessa época. Mas essas são mitológicas. São figuras do nosso imaginário. Mas os Mandingas são reais, de carne, osso e  de sentimentos. E não devem gostar de se verem  parodiados...
Ou então, é o nosso ser mestiço que brinca com à-vontade com os dois lados...no caso, e até agora, apenas com o lado africano, pois desconheço que já tenha aparecido, entre nós, um Grupo folião, carnavalesco, denominado: “Vindos de Europa”. Se sim. Sou capaz de rever e de alterar este texto.