BOMBAS, ARMADILHAS E DEMISSÕES

sábado, 15 de julho de 2017


      Inesperadamente, sem que nada o pudesse prever, eis que o roubo de explosivos, munições e outros artefactos militares detectado nos paióis de Tancos, veio trazer mais combustível para o festim da comunicação social. O tema das Forças Armadas, ou da Defesa Nacional, nunca ou raramente é objecto de tratamento mediático sério e responsável, como se se tratasse de uma simples excrescência no organismo nacional. Mas basta algo que saia da normalidade para saltarem à ribalta opinantes de todo o tipo e perfil, com explicações e juízos os mais variados, mesmo que não saibam a diferença entre uma granada de mão ofensiva e uma granada de mão defensiva, invertendo as características da sua letalidade, como aconteceu com um jornalista ou comentador. Ou que chamem “armamento pesado” ao material roubado, como também se ouviu a vários noticiadores.
      Normalmente ficam pela espuma dos acontecimentos, porque é onde podem meter o canudo para fazer bolinhas de sabão, já que a química das matérias subjacentes não lhes interessa ou aí não funciona aquele instrumentozinho de diversão. É intrigante como ninguém traz à baila a extinção do Serviço Militar Obrigatório (SMO), aprovada num dos governos de Cavaco Silva, que não conseguiu contrariar a pertinaz militância do então presidente da JSD, Pedro Passos Coelho, em prol daquela medida. É que uma das causas, ainda que indirectamente, da ocorrência em Tancos pode ter também uma relação com a tremenda restrição de efectivos com que os comandantes das unidades militares hoje se debatem para cumprir as tarefas mais básicas da sua actividade orgânica. De igual modo, ninguém questiona os cortes orçamentais que ao longo dos anos têm reduzido sucessivamente a capacidade operativa das unidades militares. Só assim se explica que a reparação do sistema electrónico de vigilância aos paióis em causa não tenha merecido uma resposta imediata.
      Contudo, não é aceitável invocar aquelas duas condições limitadoras como justificação, já que um paiol é área crítica numa instalação militar, normalmente considerado “ponto sensível”, requerendo por isso atenção prioritária no elenco das actividades internas. Se há avaria no sistema de vigilância electrónico, cuja função é apenas adjuvante no conjunto de medidas de protecção, os meios humanos têm de ser reconvertidos ou reajustados à nova realidade, quer em número quer no modus faciendi operativo.
      Certamente por assim pensar é que o General Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME) entendeu que o problema era da estrita responsabilidade das unidades militares envolvidas no processo de segurança a esses paióis. “Exonerados temporariamente” das suas funções, esta medida é, reconheça-se, inusitada nos cânones de procedimento, mas é sobretudo indiciadora de uma violação do “Princípio da Unidade de Comando”, um dos mais determinantes na arte da guerra. O coronel reformado David Martelo explica-o bem no seu artigo O “Pentavirato” de Tancos e as Virtudes Perigosas, de 08/072017 (1). Com efeito, ao atribuir-se, em regime rotativo, a função de guarda e vigilância àqueles paióis a cinco unidades militares diferentes, uma delas fora do perímetro de Tancos (o Regimento de Infantaria 15, de Tomar), criou-se uma condição propiciadora das seguintes consequências: tendência para a diminuição da eficácia e rigor no cumprimento da missão, por não haver uma única entidade supervisora e (re)avaliadora em permanência dos actos e procedimentos da sua conduta; dificuldade de apuramento de responsabilidades objectivas no espaço e no tempo certos.   
      Pois bem, a seguir aos fogos de Pedrógão Grande rebenta esta bomba no seio da instituição militar e a oposição política, esfregando as mãos de contente, vê desferir-se por mão invisível mais uma machadada no estado de graça que muito justamente o actual governo vinha gozando. A oposição aponta mais uma “falha do Estado” e insinua, se não sentencia mesmo, uma óbvia responsabilidade do ministro da tutela, mas sem explicar à puridade os pontos de conexão, no caso em apreço, entre a responsabilidade operacional e a responsabilidade política. Sim, porque na verdade tudo o que de mal ou bem acontece no país envolve teoricamente a figura do Estado.  Temos tendência para ver o Estado como uma abstracção, incapazes de perceber e inscrever sequer as nossas responsabilidades individuais onde nos comprometam as nossas acções, as nossas omissões ou as nossas demissões. A isto ninguém está imune, nem comunicação social, nem governos, nem oposição, nem órgãos de execução, nem cidadão comum. Há um colectivo comum de responsabilidades que nos obriga a rever de alto a baixo a nossa prática cidadã, se quisermos valorizar o nosso estado de direito democrático.
      E é neste estado de confusão que o CEME decidiu desarmadilhar a bomba política, assumindo a responsabilidade institucional pelo assalto aos paióis, escudando assim o ministro mas expondo-se a estilhaços. 



Tomar, 10 de Julho de 2017

Adriano Miranda Lima (coronel do exército na reforma)



INCÊNDIOS, LABAREDAS E DEMISSÕES

terça-feira, 4 de julho de 2017
Os jornalistas e os habituais fazedores de opinião agarram o episódio do incêndio de Pedrógão Grande como gato que vai a bofe. Enquanto permitir sound bytes, o tema dá muito jeito, mesmo que não se saia da análise superficial, da conjectura ou da conclusão precipitada. 
Os dois partidos da oposição surfam a mesma onda de ocasião, regalados com a oportunidade de queimar o governo numa labareda inesperadamente oferecida de bandeja pela mãe natureza. Afinal, o tal “diabo” não veio quando invocado, ou desejado, mas numa tarde escaldante de sábado, vomitando fogo em todas as direcções, em voo picado sobre as nossas florestas de pinheiro e eucalipto. Chame-se-lhe downburst ou o que se quiser.
A jornalista Judite de Sousa apresentou-se no palco dos acontecimentos e, com pompa e circunstância, escolheu os cenários de reportagem que lhe interessavam, um deles de muito mau gosto. Encontrou no local a ministra do interior em fato de combate, envergando calças de ganga e colete do Serviço Nacional de Protecção Civil, despenteada e desmaquilhada. Talvez escandalizada com o ar descomposto da governante, ou desconfiando que ela tivesse tido um encontro secreto com Hefesto, o deus do fogo helénico, a jornalista não se conteve e disparou-lhe a pergunta ígnea: “a senhora ministra vai apresentar a sua demissão?”
Incêndios fora dos cânones normais, ira divina ou acção de Belzebu, alguns jornalistas da nossa praça e os dois partidos da oposição não vêem outra saída para aplacar a sanha maligna senão queimar a ministra no rescaldo do brasido. A deputada presidente do CDS, na última sessão parlamentar, foi das mais empolgadas a sugerir a demissão de alguém, pois claro… da ministra. Pronunciava as palavras com acentuada ênfase, esticando os lábios em canudo para deixar sair sibilina a sentença prematura: responsabilidade políiiitica! Responsabilidade políiiitica!
Sim, responsabilidade política, pressupondo incompetência, inaptidão, dolo ou incúria da titular da pasta da administração interna. Claro que a deputada do CDS tem todo o direito de o exigir alto e bom som.
Vai daí, cheio de dúvidas, fui ao Google pesquisar sobre esta ministra, saber se debaixo do seu ar angelical, da sua sensibilidade feminina e da sua frágil aparência física, se esconde alguém com o sortilégio da malignidade. Sim, ela poderia em vésperas da época de incêndios ter suprimido meios ao Serviço Nacional de Protecção Civil, cortado irresponsavelmente nos efectivos das corporações de Bombeiros e da GNR, ou mandado desaparelhar o agora posto em causa SIRESP (Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal). Ou mesmo baralhado as meninges dos “comandantes” da Protecção Civil. O Wikipédia disse-me então que ela é licenciada pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, doutorada em Direito Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade do Sarre, Alemanha, e que foi professora de Direito da Universidade Autónoma de Lisboa e do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. De 2006 a 2012, foi conselheira e coordenadora da Unidade Justiça e Assuntos Internos (JAI) da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER). Durante seis anos chefiou a delegação portuguesa ao Comité Estratégico de migração, Fronteiras e Asilo (CEIFA) da União Europeia, e foi membro da delegação portuguesa no COSI (Comité Permanente de Segurança Interna) e Grupo de Trabalho de Alto Nível sobre Asilo e Migração, entre outras estruturas do Conselho da UE. No segundo semestre de 2007, durante a presidência portuguesa do Conselho da UE, presidiu ao CEIFA e a reuniões de Conselheiros JAI, dirigindo negociações sobre vários dossiers no seio do Conselho e com a Comissão e o Parlamento Europeu, como a Directiva de Retorno, o Regulamento do Código de Vistos, as Parcerias para a Mobilidade, os acordos de facilitação de vistos com os países dos Balcãs Ocidentais e a Ucrânia, entre outros.
De facto, vê-se que Constança Urbano de Sousa possui um invejável currículo académico e um registo de desempenhos de alto nível em funções de Estado, como poucos têm, sejam os jornalistas de pacotilha ou os políticos de verbo jactante e ridículas poses teatrais ensaiadas nos proscénios partidários. Sim, ela não é desses “boys”, ou “girls”, alçapremados a cargos políticos sem se saber como e porquê.
Ela tem um trajecto profissional que a recomenda especialmente, sem favor nenhum, para o cargo que exerce. Mas tem um handicap. Falta-lhe voz grossa e ar másculo para mandar em polícias e bombeiros. E nós, latinos, talvez tenhamos dificuldade em aceitar isso.
Quanto a responsabilidades políticas pela saga destruidora e assassina dos fogos florestais, o que existe efectivamente é um conglomerado de acções e inacções em que as nossas limitações e indecisões se dão as mãos com a imprevidência, o erro e o desleixo, com uma transversalidade e reciprocidade de efeitos em que ninguém está isento de culpas. Recuemos no tempo, décadas atrás, e cada um, político, bombeiro, polícia
ou cidadão comum, que escolha a responsabilidade que lhe cabe. Tudo o resto é show off político.
Tomar, 2 de Julho de 2017

Adriano Miranda Lima

Apresentação das colectâneas de Jorge Barbosa – «Arquipélago», «Ambiente» e «Caderno de um Ilhéu».


Ilha do Sal, Maio, 22/24/2017 – Semana do Poeta

Mais uma vez aqui convosco, neste ambiente de cultura que a Câmara Municipal organizou, a partilhar a apresentação de três importantes colectâneas de poemas de Jorge Barbosa, sob forma fac-símile, a saber:   «Arquipélago» 1935,   «Ambiente», 1941 e «Caderno de um Ilhéu», 1956,  em boa e sempre oportuna ocasião reeditadas pela Livraria editora «Pedro Cardoso», que desta forma, não só, coloca à disposição de leitores interessados, de estudiosos, obras de há muito desaparecidas no mercado livreiro nacional mas também, e sobretudo, estará a contribuir de forma enriquecidora, para que parte importante e essencial  de um dos maiores, dos mais completos e dos mais autênticos monumentos poéticos, inspirados e criados nestas ilhas atlânticas do Arquipélago de Cabo Verde, não seja votado ao esquecimento, mas bem pelo contrário, seja lido e fruído pela geração actual, sobretudo por aqueles que apreciam a boa poesia. As minhas felicitações à livraria editora, Pedro Cardoso, por mais este excelente empreendimento, nas pessoas do Dr. Mário Silva e do Dr. João Pedro Spencer.
Outrossim, torna-se extremamente interessante verificar que quando a parceria entre a administração local e a produção editorial funciona e creio que estamos perante este facto, a comunidade visada, – nesta circunstância a da ilha do Sal – ganha, e ganhará com isso. Os leitores interessados, os estudantes, os professores, dispõem de meios mais adequados e acessíveis para lerem e usufruírem estudando, a grande poesia de um dos mais importantes poetas islenhos;  de estarem mais informados; de se tornarem mais conhecedores da poética nacional e também mais sabedores, o que no fundo, complementa a vida intelectual e apoia o exercício de cidadania das pessoas, porque alicerçada numa “praxis” cultural, como expressão de um ponto alto de bem-estar e, consequentemente, de uma espiritualidade mais rica.
Hoje falamos da poesia de Jorge Barbosa e perguntamos porquê que isso está a acontecer? A resposta mais óbvia é, certamente, porque se trata de uma poesia intemporal, de uma poesia que continua viva, que continua entre nós. “Dentro de nós” diria, se calhar, algum poeta.
 A sua leitura, – da obra de Jorge Barbosa – provoca-nos ainda ondas de emoção de um certo gozo estético/lírico reflexos da sua inquietação (do poeta) pois que nela nos reconhecemos ainda, e com ela nos identificámos. Reconhecemo-nos e identificamo-nos afinal, porque o poeta soube captar e reelaborar em versos de forma, diria, acabada e sublime, a cultura partilhada, bela e mestiça, de que resultou afinal a cabo-verdianidade. E essa cabo-verdianidade como força motriz, fundadora e construtora da poética barbosiana, permite-lhe, ainda hoje, estabelecer com o leitor uma certa intimidade, uma proximidade identificativa que lhe garante alguma perenidade e actualidade.
Mas atenção, devemos sempre salvaguardar, ressalvar e perceber as marcas da temporalidade que conferiram circunstancialidade histórica, contexto social e humano, muito específicos da época vivida e vivenciada pelo poeta e que o terá inspirado, naturalmente.
Assim explicitado, o leitor entenderá – na linha do pensamento de Ortega y Gasset (1883 -1955) que o “homem, é o homem e a sua circunstância”
Acrescenta-se a este conceito, aquilo que disse o Prof. Vitorino Nemésio, “o Homem é também ele e a sua geografia”.
Ora bem, ambos os conceitos, aplicam-se ao caso de Jorge Barbosa para pudermos bem entender a temática dos seus poemas.
Não me canso de repetir para que a geração de hoje saiba, esteja informada de que Jorge Barbosa, tal como Osvaldo Alcântara, (Baltazar Lopes da Silva), Manuel Lopes, António Aurélio Gonçalves, entre outros, todos eles, cedo conheceram o respeito, a admiração das gentes das ilhas, como homens do saber – os sábios das ilhas. Constituíam a nossa aristocracia; distinguiam-se do comum dos seus conterrâneos. Eram reconhecidos nas ruas e nos sítios por onde passavam, muito estimados e quase venerados por aquilo que representavam para estas ilhas.
Nós – a minha geração – então crianças, adolescentes, ouvíamos falar, em casa e na escola, desses nomes ilustres que os adultos, pais e professores admiravam.
Mas já antes deles, nomes como Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, poetas, escritores e compositores eram afamados e reconhecidos nas ilhas, pelo seu alto valor intelectual. E isto fazia parte de um passado de Cabo Verde, em que era considerado cidadão com valor, aquele que, para além da sua conduta moral irrepreensível, era portador de boa literacia, capaz de transcender a pequenez do meio pelo seu saber, e constituir o orgulho e a referência do seu concidadão.
Posto isto, passemos ao que aqui nos traz. Costuma-se dizer, e já o disse mais do que uma vez, que a Literatura é um lugar sagrado e a poesia um dos seus altares.
É sobre este altar sagrado de Jorge Barbosa, inserto e configurado com mestria, em «Arquipélago», em «Ambiente» e em «Caderno de Um Ilhéu» que me proponho dizer-vos, ainda que de forma pouco profunda e breve dado que o tempo me condiciona, algumas palavras.
Vamos por partes: a publicação de «Arquipélago» em 1935, está já registada na historiografia poética de Cabo Verde, como sendo o verdadeiro marco, a baliza, que separa a antiga e a moderna poesia cabo-verdiana, esta última iniciada exactamente com a publicação desta primeira colectânea de Jorge Barbosa. O que fazia a diferença afinal com a poesia anterior? É que em «Arquipélago» se inscreveu pela primeira vez, e de forma indelével, a geografia humana de Cabo Verde. Era então jovem, o poeta Jorge Barbosa, mas já com um trabalho poético assinalável e publicado, anos antes, de forma dispersa, em revistas e jornais portugueses de cariz literário e cultural. Como, para exemplo, as prestigiadas revistas: «Seara Nova». «Presença», «Jornal de Europa», «Suplemento Literário» do Jornal Diário de Notícias. Curiosamente, Jorge Barbosa teve como companheiro das ilhas, naquelas publicações, o então também jovem poeta, Osvaldo Alcântara. Tudo isto aconteceu uns anos antes de 1935. Um período que pudemos delimitar ou situar, entre 1929 e 1934.
Convém igualmente destacar que nesta colectânea de 14 poemas, encontramos três dos mais emblemáticos poemas deste autor, e são eles: “Panorama” pág. 9, “Rumores” pág. 25 e “O Mar”, pág. 34, os quais, ainda hoje são considerados como poemas “ex-libris”, de Jorge Barbosa.
Seis anos passados, em 1941 foi publicada a colectânea «Ambiente», numa configuração de 20 poemas. Se em Arquipélago» o poeta descrevera a envolvência física das ilhas em que sobressaía a perspectiva espacial – a ilha – aqui tomada como centro onde, ora em dicotomia com o mar, ora como metonímia do Arquipélago, e ora ainda como “habitat” gerador da condição de ilhéu que a poesia de Jorge Barbosa tão bem soube prefigurar.
A sua escrita, – de Jorge Barbosa – como ele próprio a definiu numa das muitas cartas trocadas com o escritor e também poeta, Manuel Lopes – é límpida e sem malabarismos retóricos. Escreveu então Jorge Barbosa, para Manuel Lopes, numa espécie de “aviso à navegação”, o seguinte: “Eu nunca fui eloquente e ia dizer-te felizmente. A eloquência, é certo, é uma importante defesa para os que tiram sonâncias e músicas das palavras, porque lhes preenche o vazio do pensamento e porque deixa no público, embora quando esse público circunscreve-se à nossa convivência, arrepios sensacionais de seguro efeito. Quando escrevo ou quando falo, sou naturalmente um reflexo da minha interioridade, procuro transcrever-me, descrever as ideias que possa ter; nunca me malabariso em verbosidades ocas e lantejouladas, tão fáceis de resto”. Fim de citação.
É através dessa escrita, assim esculpida, assim fixada pelo poeta como “reflexo da sua interioridade” que vamos continuar a ler em «Ambiente», colectânea, como já referi, composta por 20 poemas. Se em «Arquipélago» o protagonista ou o sujeito poético era a ilha/arquipélago, a origem, a representação da sua geografia quase física, embora com os elementos humanos que a povoaram e que lhe trouxeram movimentação humana; em «Ambiente», os sujeitos poéticos são em primeiro lugar, o “irmão-caboverdiano-anónimo”, na sua busca incessante de sobrevivência, devido às secas e às estiagens que o fustigam. Também o mar é elemento primordial e transversal em toda a poesia de Jorge Barbosa. O mar/grade/prisão; o mar que convida à libertação; á evasão da ilha /cerco/espaço fechado. Veja-se “Poema do Mar” pág. 29.
Como mais ilustrativo desta colectânea, convido-vos a folhearem o vosso exemplar de «Ambiente» e regressarem  à  pág. 17. Trata-se do poema-proposição de Jorge Barbosa, «Irmão». Nele exarou o que doravante seria a sua mais relevante marca poética. Uma leitura. (ler o poema)
A vez, em 1956 de «Caderno de um Ilhéu». Aqui o poeta atinge uma certa plenitude na sua escrita, uma grandeza madura na sua estética, no seu estilo. Há nitidamente uma linha evolutiva na construção e na fixação da sua poesia.  O poeta como que já se sente mais senhor do “seu destino poético” mais profundo, mais sabedor. De facto, com «Caderno de um Ilhéu, Jorge Barbosa atingiu um cume na poesia cabo-verdiana.  Trata-se de um conjunto magnificamente estruturado de 39 poemas, que enfatiza agora, os temas que lhe são mais caros com uma mestria ímpar, que definitivamente projecta o ideário da “poesis” inscrita por Jorge Barbosa, nas Letras cabo-verdianas.  
E, como sempre, com a humilde e a natural simplicidade que o caracterizam, Jorge Barbosa faz a sua apresentação no poema homónimo “Apresentação” com que inicia a Colectânea. (ler o poema)
Interessante, é que «Caderno de um Ilhéu teve desde o seu aparecimento, uma aceitação e uma crítica muito auspiciosas, tanto aqui nas ilhas, como em Portugal e com ecos no Brasil. Assim vamos ler da pena de poetas e críticos conhecidos em Portugal, como Jorge de Sena, Artur Portela Filho, Amândio César, João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira e o nosso conhecido Manuel Ferreira, entre outros, os quais, quer em Jornais quer em revistas da época, quase todos, não pouparam elogios à nova obra de Jorge Barbosa. Também no Brasil, chegam novas de como alguns poetas leram a nova colectânea do poeta-irmão, como o designou Ribeiro Couto. Lembrar que é em «Caderno de um Ilhéu» que encontrámos os poemas que simbolizam o afecto, a identificação que Jorge Barbosa estabelece entre Cabo Verde e Brasil. Leiam os poemas, «Cartas para o Brasil» e «Você Brasil».

Para finalizar, gostaria de reiterar que o poeta Jorge Barbosa inaugurou para a literatura cabo-verdiana, um autêntico tratado poético, com novos temas, nova métrica e uma tremenda e imensa poesia em versos soltos, ora curtos ora longos, numa métrica muito própria e então original, em que o silêncio, a magia encantatória dos seus versos respigaram intimismo e interioridade.

PERSPECTIVAS DE UMA “REGIÃO NOROESTE” NO REORDENAMENTO TERRITORIAL CABO-VERDIANO (Conclusão)

domingo, 25 de junho de 2017
Pelas razões aduzidas na primeira parte deste artigo, entendo que será um erro inviabilizar, por bairrismo, irrealismo ou auréolas descabidas, a colectividade regional – Região Noroeste (S. Antão, S. Vicente e S. Nicolau) – que mais possibilidades de sucesso oferece no quadro do reordenamento territorial do país. Os que rejeitam encarar essa associação parecem ignorar que o espírito de união, de partilha e de solidariedade nunca foi uma palavra vã nas três ilhas, como a história o comprova à saciedade. Leia-se esta passagem do romance “Hora di Bai”, do escritor Manuel Ferreira, cujo centenário agora se comemora: “Naquele tempo a ilha de S. Vicente era o porto de salvamento. Empurrados do interior os povos vieram arrastando-se para o litoral, até junto do mar, na esperança de uma mandioquinha, na ânsia de um caldinho de peixe…”. O autor refere-se à fome que ceifou milhares de vidas em Cabo Verde no início da década de quarenta do século passado, e ao acolhimento que S. Vicente proporcionou às populações das ilhas vizinhas que a demandavam em busca de uma côdea de pão.
Se a concepção de uma identidade regional assenta em pressupostos de ordem geográfica, demográfica, social e económica, também não é menos relevante a função da cultura e da história como elementos catalisadores da proximidade afectiva e da construção de laços de solidariedade. É natural que o curso do tempo dissolva alguns registos da memória colectiva, mas é tempo de revitalizar e tonificar um sentimento unificador entre as três ilhas em causa, em ordem à construção da única colectividade regional com condições para suscitar inapelavelmente uma efectiva partilha de poder entre o centro e as parcelas mais significativas do território. Tanto mais que esta hipótese de região tem como polo mais importante a segunda ilha e a segunda cidade mais importantes do país. Isto não é de somenos e são os teóricos contemporâneos do fenómeno da regionalização que afirmam a importância fundamental de um centro urbano como núcleo estrutural e irradiador do desenvolvimento regional, graças às infra-estruturas económicas e sociais disponíveis e ao papel de uma sociedade civil capaz de conceber e operacionalizar os planos de desenvolvimento. É perante este requisito que se questiona como poderão as nossas ilhas materializar unidades regionais no seu verdadeiro significado.
Então, se é compreensível que um projecto de regionalização se reja por uma dada realidade concreta e à escala dos valores que integra, também é verdade que existe uma doutrina e um conjunto de princípios dominantes que descartam versões irrisórias de regionalização, sob pena de irrelevância e de distopia funcional. Por exemplo, pergunta-se se existe a mínima possibilidade de ilhas como Maio, Boavista e Brava, para não falar de todas, constituírem por si só unidades regionais. Mais, veja-se que o projecto de lei em ponderação concebe para a ilha de Santiago duas regiões. Compare-se agora a nossa maior ilha com as unidades regionais do “departamento ultramarino francês”, atentando nos respectivos dados sobre superfície e população:
        
Ilha Superfície
(Km2)
       Habitação Regiões
Santiago 991 266.161 2 (em vista)
Guadalupe 1.628 404.000                  1
Martinica  1.100 401.000                  1
Guiana 83.485 250.000                  1
Reunião 2.519 834.000                  1
                              
Atente-se agora no polo mais extremo do contraste: ilha Brava, 67 Km2 e 6.000 habitantes. Que este exemplo caricatural nos abra os olhos para a necessidade de corrigir a perspectiva, se a ideia é construir um projecto de regionalização credível e que seja via para o relançamento económico e social das ilhas e do país.
O que está em causa é a descentralização do poder e a desconcentração do aparelho do estado em função de unidades regionais que o sejam de facto e não entidades minimalistas e, por isso mesmo, exíguas nas suas capacidades endógenas e nas suas possibilidades de sucesso. Mas o que o projecto de lei em estudo preconiza e a sociedade civil parece aceitar como possível, porventura quedando-se na epiderme do problema, não terá grandes possibilidades de sucesso em Cabo Verde. Porque não é crível que Ilhas de escasso território, reduzida população, magros recursos e poucas potencialidades económicas, reúnam condições para o assentamento de alicerces minimamente confiáveis para a construção de um projecto regional. Não é por acaso que Jean Labasse e outros geógrafos conceituados afirmam que a regionalização só atingirá os objectivos por que aspiram as populações se se conjugarem duas condições basilares: adequada descentralização político-administrativa; disponibilidade de recursos financeiros necessários. Mesmo tendo capacidade de decisão e uma estrutura eficaz, a região pouco ou nada realizará se não tiver os instrumentos financeiros necessários.
Mas não se pense que é tarefa fácil reverter o sistema concentracionário e centralizador vigente no país, daí admitir-se que ele usará toda a sorte de artifícios e estratagemas políticos para se manter intocável no essencial das suas prerrogativas, sendo uma regionalização perfeitamente inócua o primeiro garante formal da sua longevidade. O centro político, densamente concentrado, instalou-se ao longo de décadas e solidificou-se de tal modo que é contra-natura esperar que seja ele próprio a reverter o que se consumou em função de: população inflacionada à custa das ilhas da periferia, clientelas políticas e de negócios instaladas, empresas e infra-estruturascriadas numa lógica de centralidade, em suma, uma realidade hiperbólica construída por via política e que hoje é o verdadeiro corpo e organismo de Cabo Verde. Nada disso vai mudar por decisão voluntária dos usufrutuários do centro, a quem pouco importa que a situação contraria flagrantemente a geografia de um país arquipelágico.
Nada mudando de verdade, a grande fatia do Orçamento do Estado vai continuar a privilegiar a cidade da Praia e a ilha de Santiago, cuja segunda urbe até já almeja ser a segunda do país. Ora, mantendo-se os alicerces e as estruturas do centro, com previsão até do seu revigoramento (estatuto especial para a Praia, integração de duas regiões e manutenção de nove municípios), pergunta-se de onde virá o acréscimo de recursos para alocar às regiões e de harmonia com o seu estatuto. Maior pertinência ganha esta interrogação se o dispositivo territorial se fragmentar em ilhas-regiões.
É sob esta óptica que se tem de olhar para o projecto de lei em “socialização”,
esperando-se que ele não seja a última palavra na matéria. Que haja uma discussão séria e alargada a todos os fóruns da cidadania. Que se perceba que uma regionalização bem concebida tem de ser precedida de uma reforma profunda em toda a dimensão estrutural do Estado, racionalizando-o e desconcentrando-o, para que as unidades regionais sejam consequência natural de uma mudança bem gizada e não uma excrescência no organismo estatal.
Tomar, Junho de 2017
Adriano Miranda Lima




 

PERSPECTIVAS DE UMA “REGIÃO NOROESTE” NO REORDENAMENTO TERRITORIAL CABO-VERDIANO

sábado, 24 de junho de 2017
Tendo em vista a reorganização administrativa do território, está em ponderação um projecto de lei sobre regionalização que, tudo o indica, elege o modelo região-ilha como a única solução aceitável ou credora de consenso nacional. Fala-se em “socialização do projecto de regionalização”, mas ignora-se em que medida foi aquele modelo objecto de suficiente estudo científico, debate e escrutínio público, de modo a poder-se concluir, com razoável fundamento, que é o mais adequado à nossa realidade.
No meu artigo intitulado “PONDERAÇÕES SOBRE O MODELO DE REGIÃO ADMINISTRATVA MAIS INDICADO PARA CABO VERDE” (1), procurei anotar as diferenças mais salientes entre os dois modelos possíveis − região-ilha e região-ilhas − demonstrando que o primeiro é reflexo do determinismo geográfico da escola germânica, traduzindo uma visão estática e condicionada pelo meio físico. De forma simplificada e minimalista, porventura inadvertida, esse modelo concebe que cada ilha, de per si, pode constituir-se em unidade regional, independentemente de possuir ou não condições objectivas e funcionais para realizar o processo de desenvolvimento que é o escopo da regionalização.
Quem alinha com essa opção não parece relevar que o determinismo geográfico na organização do espaço foi posto em causa pelo “possibilismo”, de autoria francesa, cujo percursor foi Vidal de la Blache. E desvaloriza também que uma concepção ainda mais inovadora, defendida por Paul Claval, André Cholley e Jacques May, viria a conferir maior amplitude e flexibilidade ao plano conceptual, destacando o papel do homem como agente modelador da paisagem, atento aos desafios crescentes da modernidade, com o desenvolvimento impulsionado pela dinâmica do processo de industrialização, pela acção directriz dos centros urbanos e pelo incremento dos transportes e comunicações. Os espaços passaram a interligar-se mais intimamente e a reduzir distâncias, diluindo-se as fronteiras físicas, mas sobretudo as psicológicas, num processo de aglutinação, como nunca antes o fora.
Por isso é que o modelo região-ilhas representa, em minha opinião, uma visão mais alargada e expansiva, explorando todas as variáveis que exponenciem a dimensão da unidade regional. Trata-se de um pensamento mais evoluído e respaldado numa maior interacção dos factores geográficos, demográficos, sociais, económicos e culturais. Na verdade, o desenvolvimento hodierno assenta na mobilização e coordenação das potencialidades locais, dos recursos endógenos e dos equipamentos e infra-estruturas, fomentando a solidariedade e sinergia entre os espaços contíguos, em ordem a uma maior potenciação dos factores de um desenvolvimento integrado.
Antes de mais, importa frisar que a necessidade desta reforma resultou do confronto com duas realidades conjugadas, faces da mesma moeda falsificada: a concentração de toda a estrutura do Estado na ilha de Santiago; o centralismo político. Ambos são consequência de uma mesma estratégia política que, no plano interno, se coseu cautelosamente com as linhas da ortodoxia marxista-leninista. Não fora isso, o mais certo seria não estarmos hoje pendentes de uma reforma que elimine os malefícios do centralismo e reponha o equilíbrio territorial, mercê do reforço da democracia participativa, da descentralização do poder, da redução da burocracia e da distribuição mais equilibrada e mais harmoniosa dos recursos. De pouco ou nada valerá a regionalização se não atingir esse desiderato.
Ora, o modelo região-ilha, a ser implementado, pode vir a revelar-se uma espécie de presente envenenado, caso os cabo-verdianos das ilhas da periferia não acordem a tempo de reconhecer a impossibilidade de ilhas despojadas de massa crítica, como é o caso da maioria, constituírem colectividades regionais credíveis e capazes de operar o desenvolvimento que almejam. Se não quebrarem as grades do seu isolacionismo, se não valorizarem as vantagens de uma criteriosa agregação de forças endógenas vizinhas para a constituição de um modelo regional mais abrangente, as ilhas da periferia irão, inconscientemente, passar um atestado de longevidade ao centralismo político. Reivindicações descabidas, como essa da construção de um aeroporto internacional no Porto Novo/S. Antão, praticamente colado ao de S. Vicente, mostram, entre outras exteriorizações subliminares, que o modelo região-ilha irá sucumbir por autofagia, mesmo que à partida lhe assegurem umas muletas para dar os primeiros passos.
Mais do que formatar unidades regionais e conferir-lhes um estatuto jurídico, a regionalização é sobretudo uma via para promover transformações que valorizem o território e alavanquem o progresso. Temos de inventariar soluções justas para corrigir desequilíbrios regionais com causas estruturais remotas e que não se resolveram com as políticas centralistas e concentracionárias. A metodologia do planeamento tem de olhar para a realidade concreta de cada ilha, antes de conceber a delimitação articulada do território. Independentemente da extensão de cada parcela insular, importa quantificar valores estatísticos como a população, o PIB, a infra-estruturação económica, os índices de escolaridade, de formação profissional, de inovação e criatividade local, as potencialidades nos diversos sectores da economia, os transportes e as comunicações, etc. A análise e o estudo terão de privilegiar um olhar objectivo sobre as escalas comparativas dos diversos dados em presença, em ordem a um olhar prospectivo sobre a relação entre as unidades regionais arquitectadas e a sua real capacidade para lograr os objectivos de desenvolvimento.
Por não acreditar nas virtudes do modelo região-ilha é que defendo, como sempre o fiz, que a solução mais aconselhável, por mais consistente e até mais económica, é o agrupamento de ilhas afins. Várias hipóteses de associação são possíveis, mas há uma que desde logo parece óbvia e natural. É uma Região Noroeste, integrando Santo
Antão, São Vicente, Santa Luzia e São Nicolau. Com o mesmo critério se conceberá uma Região Leste (Sal, Boavista e Maio), uma Região de Santiago e uma Região Sudoeste (Fogo e Brava).
A Região Noroeste tem condições singulares para se afirmar no contexto nacional, por dotada de potencialidades naturais e ter o seu polo mais forte na segunda ilha mais importante do país. Do ponto de vista histórico, cultural e sentimental, diria que as três ilhas são irmãs naturais. As suas populações são semelhantes na morfologia étnica, no imaginário e na idiossincrasia, e até mesmo na expressão linguística. Complementando-se, têm condições para potenciar um desenvolvimento integral e comum, reabrindo o caminho para o progresso.
Contudo, há vozes dissonantes ou simplesmente reticentes acerca desta associação, invocando o risco de São Vicente vir a ser uma réplica barlavense de uma Santiago/ Praia centralizadora e concentracionária, pela probabilidade de descurar um desenvolvimento igualitário, focalizando-se mais nos seus próprios problemas. Rejeito essa visão negativista e suspeitosa e a própria história comprova a tese contrária, se a ideia passa por admitir que o objectivo desta colectividade regional será exclusivamente a ilha de S. Vicente. Não há razão para tal receio. Poucos são os naturais de S. Vicente que não tenham uma relação parental com naturais das duas ilhas mais próximas. Na cidade do Mindelo sempre se notabilizaram ilustres intelectuais e figuras públicas que não necessitaram de nascer em S. Vicente para exercer o seu protagonismo cívico, cultural, científico ou político. Seria ocioso citar nomes. A liderança da Região Noroeste pode ser exercida por naturais de qualquer das ilhas, porque elas são a casa comum dos “noroestinos”. Existe efectivamente uma contiguidade histórica e bio-psíquica entre estas ilhas, e isso tem de funcionar como antídoto para os casos isolados de introspecção divisionista ou de nativismo ou egotismo exacerbados. São casos espúrios que não podem toldar a clarividência.
Por condicionamento de espaço, este artigo será concluído proximamente.
(1) Publicado neste jornal em Abril do corrente.
Tomar, Junho de 2017
Adriano Miranda Lima


No Lançamento de «Contra Mar e Vento» – Colectânea reeditada

sexta-feira, 23 de junho de 2017
Hoje voltamos a falar de Henrique Teixeira de Sousa, romancista, contista, activista cultural, médico, nutricionista, analista social, ensaísta, vulto de referência inquestionável na Literatura cabo-verdiana, e, sobretudo da sua prosa literária.

Henrique Teixeira de Sousa continua a ser, no entender de muitos de nós, que o lemos e o apreciamos, como   o escritor cabo-verdiano que pôde, pelo dom da vida – note-se, que me refiro à sua longevidade intelectualmente activa, que lhe permitiu com sabedoria e com intrínseca disposição, ditada por uma grande compreensão – percorrer e entender os movimentos e, ou, os momentos mais inovadores e mais transformadores da ficção e da poesia cabo-verdianas. Disso deixou testemunhos.

Saliente-se, para exemplo, o facto de ele ter presenciado o nascimento, em Março de 1936, da célebre revista Claridade na cidade do Mindelo. Testemunha privilegiada por se tratar de algo que foi, é, e continua a ser, talvez, o ponto mais alto da história literária cabo-verdiana do século XX. Era então Henrique Teixeira de Sousa aluno do antigo Liceu Infante D. Henrique. E sobre este facto conta o autor, em alguns dos seus textos, resultado da longa colaboração que deixou no Jornal «Terra Nova», a partir dos anos 80 até à sua morte, conta ele, entre outras, duas memórias deveras interessantes que no-lo situam ao tempo, jovem liceal, participante e interessado na vida cultural que se desenrolava na cidade do Mindelo e mais tarde, em Lisboa.

Ei-las, passo a citar: “ (...) foi no meu quinto ano, corresponde hoje ao nono ano de escolaridade que se deu o grande acontecimento do aparecimento da revista «Claridade». Foi precisamente o momento em que despertei para o amor às letras, e em que escrevi o meu primeiro Conto com o título em crioulo: «Chuba qu’é Nós Gobernador»(...) Fim de citação.
 O conto destinou-se a um concurso lançado na turma dele, pelo professor de Português e de Latim, Baltazar Lopes da Silva. O então aluno Henrique T. de Sousa ganhou o primeiro prémio. In: «Doutor Baltazar Lopes da Silva e o nosso relacionamento» Jornal Terra Nova, Julho/Agosto de 1889.

Outro episódio, interessante narrado, por Teixeira de Sousa, a propósito de «Claridade», foi o seguinte: No Verão de 1940, estando ele em Lisboa, no curso de medicina, num encontro com Baltazar Lopes da Silva este anuncia-lhe que ia ser brevemente, publicado o terceiro número da revista “Claridade” e que se esperava um artigo de Teixeira de Sousa, recordou o autor, então com 20 anos e, cito: “fiquei alvoroçado com a possibilidade de colaborar naquele órgão de imprensa.”  Preparou  – em poucas noites e nos intervalos diurnos que os estudos universitários lhe deixavam  –  o ensaio:  «A estrutura social da ilha do Fogo».

Só que, afinal o número 3 da revista, não foi dado a estampa nesse ano de 1940, mas apenas em 1947. E concluiu Teixeira de Sousa lamentando:
“(...) Não fora esse atraso, eu teria alcançado o título de claridoso, em 1940, isto é, apenas quatro anos após a fundação da revista” (Fim de citação). Este ensaio: A Estrutura social da ilha do Fogo, seria por ele reelaborado, melhor trabalhado e publicado em 1958, num dos números do incontornável «Boletim Cabo Verde», agora com o título «Sobrados, Lojas e Funcos».

De Lisboa ainda, Teixeira de Sousa, saúda o aparecimento do movimento «Certeza» 1941, através de um telegrama, e como resposta recebeu ele a notícia - dada por Manuel Ferreira - que, por unanimidade, ele fora aceite como membro do grupo «Certeza».

Gostaria de nesta oportunidade de vos dizer algo, muito rapidamente sobre a aprendizagem/formação/literária, neo-realista de Teixeira de Sousa e que no fundo o terá munido também ideologicamente de instrumentos e de tópicos do modernismo literário e de novos valores trazidos para a temática literária, com a II Grande Guerra Mundial - de que a escrita de Teixeira de Sousa adaptada aos problemas cabo-verdianos e com herança claridosa – é portadora e beneficiária. E é em Lisboa, a par da sua vida de estudante aplicado, de medicina, que Henrique Teixeira de Sousa participa e comunga de tertúlias e de actividades literárias, políticas e culturais, com escritores, poetas e pensadores portugueses. Isto é, com o que de mais moderno e revolucionário se vivia no meio intelectual de então, em Portugal, nos finais dos anos 30 e meados da década de 40;  e onde pontificavam grandes nomes do romance e da teorização literária neo-realista: Adolfo Casais Monteiro, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Judite de Carvalho, Maria Archer, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, entre outros nomes sonantes do romance português neo-realista, da segunda metade do século XX.

Pois bem, em contacto com as ideias europeias do tempo, e sem abdicar da sua cultura islenha Teixeira de Sousa, abraça de certa forma os temas e o estilo trazidos pelo movimento literário neo-realista. Os seus escritos ilustram-nos bem: os contos e os romances atestam o pendor e o cuidado que ele põe no traçado do enredo e no agir das personagens, quando em conflito com a sociedade em que se inserem, que para umas, se revela bem adversa e para outras, bem favorável porque ela – a sociedade – é que as instrumentalizam e as comandam. Daí o leitor se aperceber do peso da referida corrente literária –neo-realista – no grande texto do autor.

Vale também dizer, que apesar de a escrita de Teixeira de Sousa ser beneficiária, em termos de conteúdo, de um dos mais importantes movimentos literários da segunda metade do século XX, ele não deixou de ser também um lúcido crítico daquilo que considerou ser os excessos desta escola literária, mesmo reconhecendo que foi o Neo-Realismo, que tantos e extraordinários romances de língua portuguesa enformou.

Ora bem, é nesse ambiente, acrescido pela bagagem cultural que levava das ilhas, fruto da sua observada, estudada e sentida cabo-verdianidade, que se completaram, se consubstanciaram e se fundamentaram o grande contista e o emblemático romancista nosso, Teixeira de Sousa, que continuamos a celebrar.

Continuando, já em Cabo Verde – e a partir de São Filipe, na ilha do Fogo, como clínico de boa fama, director do Hospital da cidade e da ilha que nas mãos do Dr. Teixeira de Sousa conheceu melhorias substantivas – o escritor  iniciou uma colaboração regular no «Boletim Cabo Verde» e quem se der ao gosto de consultar os números, de 1949 a 1964 e foram cerca de 200 números, há-de verificar e, encontrará com toda a certeza, em quase todos eles, artigos de Teixeira de Sousa, versando diversos temas num leque de assuntos numa abrangência e numa diversidade cultural que vão da medicina, passando pela literatura, às questões de índole antropológica, etnográfica, histórica local e regional; tendo como ponto de partida e pano de fundo, a sua ilha, a do Fogo. Também versou temas outros, relacionados com os problemas que se punham para o interesse e para a sobrevivência do Arquipélago. Mais, a escrita de Teixeira de Sousa esteve quase sempre também ligada à descoberta de novos valores que despontavam para a literatura cabo-verdiana; à crítica literária (de lembrar neste ponto, a excelente análise que fez do poema: «Caminho» de Jorge Barbosa, numa desmontagem assertiva sem nunca perder de vista, a beleza poética nele contida.).

Acresce-se, que foi também ele, num artigo no Boletim Cabo Verde, quem revelou as qualidades literárias de Maria Helena Spencer segundo ele, “escondida atrás das iniciais M.H.S. com que a jornalista praiense assinava as suas crónicas também publicadas no mesmo Boletim.

Viveu o surgimento dos novos poetas do «Suplemento Cultural» publicado no «Cabo Verde» em 1958. Foram também por ele, saudados.

Como vêm, Henrique Teixeira de Sousa, prestou e dedicou uma atenção real e interessada ao que de inovador em matéria literária ia surgindo nestas ilhas.

Nascia assim, no meio e num ambiente de intensa e interessante actividade literária – pois que se movimentavam e pontuavam os homens da Claridade – um dos maiores contistas do Arquipélago.

Estariam dessa forma, germinadas as sementes para, mais tarde, se abalançar à criação desta preciosa colectânea de contos: Contra Mar e Vento, a primeira obra que publicou (Prelo Editora, 1972). Mais tarde, editada pelas publicações Europa/América a 2.ª edição; e a 3.ª e penúltima edição pela mesma editora, em Maio de 1998. Esta edição, sendo a primeira edição nacional, será em termos sequenciais a 4.ª.

Entrando agora propriamente ao que aqui me traz – a apresentação de «Contra Mar e Vento» – apenas breves palavras, para não correr o risco de me repetir, uma vez que fui eu  quem também elaborou o posfácio e a resenha biográfica para o livro; livro que, diria, de quase imensurável valor literário, pela qualidade de escrita narrativa do seu autor.

A colectânea que temos em mão contém 10 contos, qual deles o mais delicioso e o mais tocante para o leitor, em termos da história contada? Qual deles o mais verossímil nos perfis das suas personagens e na descrição terrunho/ilhéu/foguense, na sua ambiência e cenários? Não o saberíamos afirmar.  E será bom para o leitor iniciante, descobrir na leitura dos contos, a qualidade da maravilhosa ficção que terá em mãos.

O Conto literário, conheceu definição mais segura e talvez mais definitiva no dealbar do século XX como sendo um episódio vivido, relatando um caso singular, onde o autor interveio ou de que teve conhecimento, e concebido literariamente como um romance curto ou prefiguração dum romance eventual. Exemplo: o conto «Dragão e Eu» e «Encontro». Aqui inseridos.

Mais tarde estes núcleos, estes nódulos, foram trasmudados, refeitos e desenvolvidos em cenas do romance «Ilhéu de Contenda».

 Continuando a colectânea, – «Contra mar e Vento», – os contos nela inseridos são todos e sem uma única excepção, delicadas e deliciosas narrativas, autênticas filigranas da arte ficcional crioula, em que o contista aliou à mestria na arte de contar, uma profunda sensibilidade, uma enorme humanidade num grande texto de uma rara beleza poética no delinear das suas personagens, no escutar e fazer entender o leitor as motivações que as levam a agir num determinado sentido – porque não poderia ser de outro modo – e que lhes condicionaram o estar e o ser em sociedade. Sociedade essa, a mais das vezes, bem hostil, em que a negação de amor ao próximo, a recusa do pão, são partes evidenciadas de um conjunto, por vezes violento, física e psicologicamente, de um desvio perverso do próprio sentido cristão da vida.

Das histórias narradas nesta fascinante colectânea que é Contra Mar e Vento distingo “Menos Um”, “Dragão e Eu”, “A Raiva”,  “Na Corte de el-rei D. Pedro” «Encontro» apenas e tão-somente para me cingir, numa opinião de leitora, aos textos que considero dos mais belos momentos saídos da pena do autor e os mais bem construídos e conseguidos no conto nacional. Contos com um farto suporte memorialista. Histórias reportadas à infância e à juventude dos seus fabulosos narradores e das não menos fabulosas personagens num redescobrir, e num registo discretamente autobiográfico do autor, da sua ilha natal e a idiossincrasia peculiar da sua gente de então.

Em termos cronológicos, o conto «A Raiva» deve ser o mais antigo, uma vez que o autor o  publicou em primeira-mão, em 1960 num dos números do Boletim Cabo Verde;  mais tarde – aprimorado e expurgada a nota explicativa da publicação/estreia, o incluiu na colectânea de Contos, agora reeditada. Este conto para o qual peço ao leitor uma leitura também simbólica e significativa,  regista aspectos chocantes que estiveram presentes na tristemente célebre emigração dos mais pobres de entre nós, para as ilhas de S. Tomé e Príncipe. A protagonista regressa à ilha do Fogo, da sua mal sucedida emigração, alquebrada e  doente. No Patim, localidade de origem e onde viviam - o que restava de - familiares, ela é literalmente “enxotada” para a cidade de S. Filipe, pois havia fome e ninguém tinha nada para dar a ninguém. Vai para o albergue. Limpa e trabalhadora, cai nas boas graças do funcionário da administração do Concelho, responsável pelo Albergue, mas em contrapartida, ganha o ódio das companheiras. É esta tensão que persiste e anima o enredo da narrativa, até ao desfecho trágico.

O livro abre com o conto «Menos Um» narrado na primeira pessoa. O narrador é uma criança obrigada a partir da casa paterna marcada pela crise de fome que amiúde se instalava nas ilhas. o protagonista está prestes a viajar para a vizinha ilha Brava, para a casa da madrinha, esta, menos minorada pela má sorte. Toda a narrativa, é percorrida por um tom dramático e contido, que reforçam a violência da situação de saudade e de alguma “orfandade,” pré vivida e expressa de forma dorida pela voz infantil e bem emocionada do protagonista.

Dos contos seguintes, particularizava também o conto «Dragão e Eu». Trata-se de uma história igualmente contada na primeira pessoa. O narrador ainda criança teve um cão, o “Dragão” que passou a ser o seu fiel amigo e companheiro de quase uma década. Juntos cresceram. Como diz o próprio narrador “...mais ele do que eu”.

Os leitores vão-se dando conta da cumplicidade criada, da passagem e das complexas mudanças do protagonista de criança/adolescente/jovem e finalmente homem feito. Por várias vezes ao longo do conto as duas vidas (a do protagonista e a do cão) se tocam e quase se confundem, no plano ontológico. Este conto que a princípio pode parecer destinado a crianças, torna-se a determinada altura, muito adulto, nas peripécias que vai narrando e à medida que o “Eu” (protagonista) entra na vida adulta também. Chegados ao fim da longa história das duas vidas, ficámos com a nítida impressão de que o autor quis fazer de «Dragão e Eu» uma novela, ou uma narrativa mais alargada, em relação aos de mais contos da colectânea. E isto, tanto no plano cronológico, como também, através dos vários episódios que «Dragão e Eu» contém.

 «Na Corte de el-rei D. Pedro» é percorrido por um simbolismo e por uma dramaticidade singulares, pois que o autor condensou no enredo, as causas da ascensão e da queda  da personagem principal de uma forma excepcionalmente sublime e que ilustra  muito claramente o lado errático da riqueza material conseguida pelo pai do narrador Vicente Cardoso e o seu posterior esbanjamento justificado em complexos desvios, que acabam no empobrecimento dos descendentes da outrora família rica de Jerónimo Cardoso, agora apenas relembrada na voz do pobre louco Raimundo, que todas as noites gritava do alto de S. Pedro, na cidade de S. Filipe, ser ele “el-rei D. Pedro”.

No conto «Encontro» iremos revisitar, um dos temas mais caros e recorrentes na ficção de Teixeira de Sousa, o posicionamento e os conflitos de classe vivenciados pelas personagens da história. O enredo gira à volta de Miguel, personagem protagonista, aspirante dos serviços aduaneiros de São Filipe, apaixonado e correspondido por Ilda. Ilda representa o típico social de filha-família do Fogo, sobretudo da cidade de São Filipe, que ia para Portugal, estudar em colégios e disso temos notícias reais, factuais, de moças, jovens mulheres do Fogo, que frequentaram em Lisboa, o Colégio «Bom Sucesso», o das «Doroteias» em Sintra, dentre outros, à época prestigiados estabelecimentos de educação feminina. A personagem Ilda voltou à ilha natal, agora exímia pianista e comunga com Miguel o gosto pela música clássica cujos sons ele os escuta ao largo, na rua, vindos do piano que ela toca.

Contudo, o namoro de Miguel e Ilda não é benquisto e nem bem visto pela família dela sobretudo. A chamada lei de “feijão-mistura” está primorosa e humoristicamente tratada pelo autor, e isso permite ao leitor retornar à sociedade foguense de antanho.

Prestes a terminar,  gostaria de reiterar que Henrique Teixeira de Sousa foi sem margens para dúvidas, uma das mais gradas e relevantes figuras do círculo literário nacional que se iniciou com o grande escol da Claridade.  As Letras cabo-verdianas e as de Língua portuguesa, garantiram com o seu estilo de contista e de romancista, com a sua arte de narrar, com a sua sabedoria na abordagem literária, com o seu modo de transpor para a ficção, as complexas vicissitudes com que o bem e o mal desafiam o Homem; garantiram, dizia eu, um  legado literário bem fundamentado, porque Teixeira de Sousa pôs ao serviço da literatura, uma longa, experimentada, rica e generosa actividade humana, – profissional e cultural, a par de uma bem conseguida criatividade ficcionista.

Teixeira de Sousa a par de Baltazar Lopes da Silva, de Manuel Lopes, de Gabriel Mariano e de Maria Helena Spencer – trouxe seiva e vigor ao conto, o que até então não tinha; e outorgou a este género literário uma certa autonomia e grandeza literárias dentro da Literatura cabo-verdiana.

Para finalizar gostaria de felicitar a Academia Cabo-verdiana de Letras pela oportunidade da reedição desta colectânea de primorosos contos e que irá contribuir para o acesso dos estudantes, da comunidade de leitores no geral, agora, sob formato de livro, como desejado, de uma das obras mais belas e bem conseguidas do nosso universo ficcionista.



AINDA MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO (FIM)

terça-feira, 20 de junho de 2017
NA HORA DI BAI
Quarta meditação biológica
 sobre o homem de cabo verde

Quando me encarregaram de ir montar em S. Vicente um Centro de Sangue, o meu primeiro cuidado foi informar-me da patologia daquela e das outras ilhas e da natureza e frequência das doenças que a lavra de um grande porto de mar pode causar. O mesmo cuidado tive quando me mandaram fazer esse serviço em Angola, em Moçambique e na India. Sem esse conhecimento prévio não será possível calcular a quantidade e a natureza dos tratamentos que venham a ser requeridos, nem o volume de material a adquirir. Por outro lado, nunca me esqueci que um Centro de Sangue autónomo como este, que ficou instalado nas ilhas Verdes, tem que estar perfeitamente integrado nas condições da vida social e humana da sua região, como tem que estar pronto a servir em casos de emergência pública ou defesa nacional. Foi nessa altura que interroguei os meus amigos de Cabo Verde sobre a existência da tristeosa (e a sua natureza); foi nessa altura, igualmente, que alguém me insinuou haver nos cabo-verdianos um complexo de inferioridade com respeito às «doenças de negro».
Há mais de vinte anos, desde aquele em que pela primeira vez me matriculei no Instituto de Medicina Tropical, que a tristeosa ficara para mim como uma espécie de simbolismo das ilhas Verdes. Nunca pude esquecer o sortilégio que tinham as palavras de Firmino Santana ao descrever essa doença de grande miséria fisiológica, que só atacava os negros e cujo diagnóstico causal ficava indeciso entre a malária e o alcoolismo crónico. Era um estado grave, em que todos os doentes acabavam por morrer, num estado que semelhava os dos transes e, o que era mais impressionante, davam a alma voltados para a África. É claro que eu, que mal saía do meu sarampo romântico, logo deduzi que aqueles pretos realizavam a seu modo um estado lamartiniano; que mesmo que fosse malária (como falar em sezões é falar de baço) eles recriavam nas costas de S. Antão o «spleen» que Byron andou a padecer por Sintra; e que morriam voltados para o grande Continente ouvindo a chamada dos ancestrais, acolhendo no último instante, a voz cava e longínqua da terra! Era uma interpretação romântica. Era um conceito bonito. Era, sobretudo, um conceito tonto, a história irreal de uma doença irreal que, numa noite divertida, alguns médicos de Cabo Verde contaram ao crédulo professor Firmino.
Quanto às «doenças de negro» o problema requer uma pequena discussão. Deve dizer-se, em primeiro lugar, que eu nem sequer pude avaliar exactamente em que medida se manifestam no arquipélago as diferentes doenças, porque as estatísticas publica das oficialmente só merecem um crédito muito restrito, apesar dos esforços e do entusiasmo que na sua organização tem posto o activo director dos seus Serviços de Saúde. E não merecem grande confiança porque à falta de laboratórios nos hospitais e nos postos muitas rubricas nosológicas estão preenchidas por entidades diagnosticadas por simples impressões clínicas ou por um diagnóstico diferencial de simples estimativa; e porque - ao que parece - factores de ordem não científica têm influído na sua apresentação.
Seja como for, não se justificava, porém - se é que ele existia - qualquer complexo de inferioridade pela existência de «doenças de negro», ou melhor: de doenças tropicais. Até porque, não há doenças tropicais. Já em 1954 provoquei, a este propósito, um pequenino escândalo científico. Tinham-me chamado para ser redactor oficial sobre os problemas dos Serviços de Sangue em relação com as doenças tropicais, convite que eu aceitei para poder afirmar, em plena Sorbona, com o meu interno Carlos de Oliveira, que tais doenças não existem. Dada por um lado, a expansão cosmopolita da maior parte das doenças chamadas exóticas, e por outro, a destropicalização progressiva que a saúde pública vai realizando nesses territórios, tanto à escala nacional como à escala internacional.
Uma clínica puramente tropical é um mito, pois, podemos verificar em regiões não tropicais grande número das doenças outrora reconhecidas como tropicais. A actual geografia sanitária não corresponde por forma alguma às dimensões da geografia médica do princípio deste século. Até porque, com a multiplicação progressiva dos meios de transporte, deixou de haver espaços sanitários autónomos. De resto, a própria história já ensinava que doenças consideradas eminentemente tropicais, como a amebíase, tinham sido descobertas a primeira vez nas estepes russas.         
Sem dúvida que o ambiente, o clima, a presença de agentes intermediários autónomos e específicos, e determinadas condições sociais, alimentares ou até religiosas, podem dar, nos trópicos - e dão! - aspectos particulares a numerosas doenças cosmopolitas. Mas se tomarmos à letra, como definição de doenças tropicais, aquelas que só se manifestam entre os trópicos, ou seja entre 23º e 27’ ao norte e ao sul do Equador pode dizer-se que, com excepção da doença do sono, não há doenças intertropicais. E se dissermos apenas «doenças que existem ou podem existir nas regiões quentes» cabem lá todas, até as do frio, e nomeadamente aquelas que até há pouco tempo eram quási só presentes nos países temperados: como o cólera, a peste ou a varíola.
Os cabo-verdianos não tinham, pois, que sentir qualquer complexo de inferioridade por terem nascido e por viverem na área geográfica das doenças chamadas exóticas, e que nós, europeus e americanos do Norte, assim denominávamos só porque não eram frequentes nas nossas. De resto, sempre que lhes perguntei por esse complexo, responderam-me com sonoras e sadias gargalhadas.

ALMERINDO LESSA
- Diário Popular -