sábado, 24 de julho de 2021

 

Caro Leitor, a entrevista aqui transcrita versa um tema ainda muito complexo e polémico que é a Guerra colonial.

O Historiador e politólogo António Costa Pinto, traz-nos à memória ou à reflexão actual a sua assisada e ponderada visão sobre um acontecimento  60 anos passados – que marcou e marca de forma indelével a História comum de Portugal e das suas ex-Colónias, do século XX.

 

 

António Costa Pinto entrevista ao “Público” (19.07.21) conduzida por Ana Sá Lopes

60 anos da guerra colonial (I)

Com a entrevista ao historiador António Costa Pinto, o PÚBLICO inicia uma série sobre o Fim do império português e os 60 anos do princípio da guerra colonial. O investigador explica por que é que o luso-tropicalismo está profundamente enraizado na sociedade portuguesa e nas suas elites políticas.

 Ana Sá Lopes (texto) e Daniel Rocha (fotografia)

 

António Costa Pinto investiga há longos anos os sistemas autoritários. Em o O Fim do Império Português, reflecte sobre vários aspectos da guerra colonial. Com esta entrevista, o PÚBLICO dá início a uma série evocativa dos 60 anos do início da guerra colonial, para a qual convidou 12 historiadores a escrever sobre o período traumático que só terminou com o golpe de Estado do 25 de Abril. Costa Pinto desmonta o mito do “orgulhosamente sós” enunciado por Salazar — o apoio internacional a Portugal não era insignificante — e fala sobre como o luso-tropicalismo foi adoptado pela sociedade portuguesa e por todas as instituições políticas.

Sessenta anos depois do início da Guerra Colonial, já conseguimos falar sobre todo o processo?

Já conseguimos falar, e até já há bastante tempo. Durante a transição democrática, esteve mesmo no centro, com a descolonização. Simplesmente, o tema da guerra colonial na sociedade portuguesa contemporânea diz-nos mais sobre o presente do que sobre o passado. Mais de quatro décadas passadas sobre a descolonização, há uma procura cultural de memória sobre o passado colonial. As democracias, e a portuguesa não podia faltar à regra, discutem o seu passado através daquilo a que chamamos políticas e erupções da memória, muitas vezes fenómenos de contágio a propósito de dimensões mais globais que “activam” a memória e provocam muitas vezes debates na opinião pública. Em alguns casos, mesmo acção política. Mas o tema da guerra colonial e do sistema colonial, com altos e baixos, tem sempre marcado e vai continuar a marcar Portugal, até por uma razão simples: a identidade nacional e o espaço político pós-colonial são determinantes na esfera pública em Portugal. Faça uma análise de conteúdo, por exemplo, dos meios de comunicação social: há um ataque terrorista de fundamentalistas islâmicos no Norte de Moçambique e o espaço público e as instituições integram automaticamente este acontecimento com uma proximidade simbólica impressionante. Bastava ser 40 quilómetros a norte da fronteira de Moçambique com a Tanzânia e nem uma linha existiria. Existe um espaço público pós-colonial na sociedade e uma política da sua elite que, passados quase 50 anos sobre a descolonização, está muito presente.

Em vez de uma ruptura, fizemos uma transição?

 Voltaremos sempre ao mesmo tema, que é muito importante na construção da opinião pública sobre o tema da guerra colonial e do império colonial. A democracia portuguesa ajustou contas com o passado ditatorial. De uma forma, aliás, relativamente radical, quer sob o ponto de vista simbólico, quer efectivo. A transição portuguesa utilizou quase todos os meios conhecidos na década de 1970 para tentar erradicar o passado autoritário: saneamentos, exílios da elite política, julgamentos da polícia política, alterações da toponímia, etc. E tudo isso foi acompanhado por um discurso de rejeição do passado ditatorial. A democracia portuguesa, ao contrário de muitas outras, construiu-se tendo como elemento central de legitimação a rejeição do passado ditatorial. As próprias instituições políticas criaram modelos comemorativos oficiais de rejeição do passado que, aliás, até tiveram efeitos duradouros. Mas não ajustou contas com o passado colonial por razões óbvias, pelo facto de os libertadores terem sido simultaneamente os agentes militares da guerra colonial. E ainda por cima com o trauma daqueles que regressam das colónias após a descolonização e de o próprio processo de transferência de poderes para os movimentos de libertação ter sido feito numa conjuntura de grande crise em Portugal. Quando se dá a consolidação democrática, o clima político é de reconciliação e mesmo tentativa de esquecimento, não sendo propício ao tema. Aliás, a activação política dos retornados e da nostalgia colonial à direita foi um falhanço. Acresce que a adesão à União Europeia como destino pós-colonial foi um sucesso da elite política democrática portuguesa.

Mas a guerra não foi mais traumática do que a ditadura?

A guerra colonial teve algumas características importantes. Em primeiro lugar, foi uma guerra desencadeada por um regime autoritário. Outros sistemas coloniais sofreram guerras coloniais que tiveram efeitos traumáticos: a guerra da Argélia foi traumática para França. Na Holanda, a guerra na Indonésia foi dramática. Mas eram regimes democráticos. Os regimes autoritários não só têm uma decisão política unificada como conseguem inicialmente eliminar a diversidade não apenas ideológica, mas de interesses, e há sempre interesses organizados que não apostariam numa guerra colonial. Ora, o salazarismo conseguiu alguns “feitos” muito interessantes e alguns que ainda me despertam vontade de investigar. Em primeiro lugar, a resistência da elite militar após a tentativa de golpe de Estado de Botelho Moniz representou uma vitória de Salazar, e uma enorme capacidade de mobilização da Forças Armadas Portuguesas, conseguindo controlar a elite militar e colocá-la em três frentes de combate com razoável sucesso ao longo da década de 60. Quando a vaga de emigração para a Europa ameaça a gigantesca mobilização jovem para a guerra, a “africanização” foi também um sucesso com 50% recrutados localmente. A sociedade portuguesa dos anos 60, com o crescimento económico, já tem muito mais que ver com a Europa do que com as colónias, mas aquilo a se pode chamar “modernização autoritária” marcou um real desenvolvimento das duas principais colónias em guerra: Angola e Moçambique. E aqui entramos no dilema da informação nos regimes autoritários. É natural que os milhares de brancos que vão ou ficam em África aproveitando este desenvolvimento sofressem assimetrias de informação, mas o mais interessante analiticamente é que até alguns grandes grupos económicos portugueses investissem no mesmo processo, eles que já tinham informação bem mais global. Perdendo tudo dois ou três anos depois. O trauma está longe de ser apenas o da experiência de guerra.

Nos anos 70, o regime estava a perder a guerra da Guiné…

Já lá vamos. A guerra colonial — ou as guerras coloniais, porque os contextos são diferentes — foram guerras relativamente ‘low-cost’, em que a ditadura consegue, no fundamental entre os seus aliados, material militar e tecnologia que lhe permitem resistir com uma segurança bastante razoável. A história inicial dos movimentos independentistas é complexa e a sua transformação em organizações armadas com as inerentes tensões internas e com os países que lhes servem de base também. Os movimentos de libertação lutam também com grandes dificuldades para conseguirem o apoio dos países vizinhos e obter armamento dos seus aliados. Na maior parte dos casos, os movimentos de libertação tinham uma capacidade relativamente limitada. Como é evidente, a grande opinião pública do presente e inclusivamente alguns estudiosos-activistas olham o passado com os olhos do presente. E têm a ideia de que [a derrota] era inevitável. Claro que as guerras coloniais são guerras perdidas sob o ponto de vista do colonizador. Mas o mais interessante analiticamente não é isso. Antes pelo contrário. É encontrar os factores de explicação para a resistência à descolonização da ditadura, à medida que a sua elite ia observando o fim, um após um, dos restantes impérios coloniais.

Mas a Guiné-Bissau…

A Guiné-Bissau é um caso extremamente interessante porque o início do fim do regime remete para uma alteração no âmbito da Guerra Fria que não é facilmente explicável pelo facto de o PAIGC ter obtido justamente mísseis que a tecnologia militar portuguesa não dispunha, mas que estavam à data do 25 de Abril na República Federal Alemã à espera de chegarem a Portugal. A pressão internacional mais forte para a descolonização de Angola veio da administração Kennedy e foi curta. Quando acontece a “conjuntura crítica” da chegada de Marcelo Caetano ao poder, com um poder autoritário mais vulnerável, Nixon tinha outras preocupações. As alianças secretas com a África do Sul expressam já as dificuldades do regime. Mas não vale a pena divulgar um modelo simplista a preto e branco. Quer de um lado quer do outro havia grandes limitações. A investigação já realizada aos consultores e formadores cubanos assim como os documentos que temos da URSS expressam cepticismo em relação à capacidade militar destes movimentos.

No seu livro O Fim do Império Português, desmonta o mito do “orgulhosamente sós”. Portugal tinha o apoio de vários aliados…

Na década de 60, vivemos em guerra fria. Portugal é um aliado menor do bloco ocidental, que tem uma capacidade de negociação com a principal potência, os Estados Unidos, que é a utilização da base dos Açores e vai-se aguentando bem com os europeus.

O “escudo protector”…

Os relatos da NATO são muito interessantes. É uma ditadura que tenta estender a NATO ao Atlântico Sul para incluir as colónias portuguesas e é evidente que os países da NATO não autorizam… Mas há uma célebre frase de um embaixador americano que, quando ouvia as críticas ao colonialismo português, dizia sempre: “Vamos deixar isso aos dinamarqueses!” A pressão descolonizadora dos países aliados não foi grande até ao 25 de Abril. Há dois episódios interessantes sobre a relação da resistência do colonialismo português e a principal potência. Kennedy, durante um curto período, realiza efectivamente uma pressão descolonizadora sobre a ditadura e seria muito interessante ver quais teriam sido as consequências se tivesse conseguido.

Terá sido o massacre de Wyriamu que muda alguma opinião internacional?

A dimensão internacional da guerra colonial portuguesa tem alguns pontos de condenação. No seu início, em 1961, com Angola e as condenações das Nações Unidas, mas sobretudo com o aparecimento do bloco afro-asiático. Em segundo lugar, e talvez seja o ponto mais importante, com a decisão de os novos países independentes limítrofes das colónias portuguesas oferecerem o seu território como base para os movimentos de libertação. E depois o que poderíamos chamar uma dinâmica muito importante dos anos “60 globais” que representa a emergência de uma opinião pública, da sociedade civil dos países desenvolvidos da Europa ocidental, dos Estados Unidos, de saliência do chamado “Terceiro Mundo”, das lutas de libertação e obviamente da descolonização. Muito do que vamos assistir nos países nórdicos, na Dinamarca, em França, na Inglaterra, remete para essa dinâmica. Mas não vale a pena exagerar. As guerras coloniais da ditadura em África são guerras relativamente secundárias e com escassa saliência na arena internacional dos anos 60.

Já disse que o luso-tropicalismo não foi apenas um sucesso do salazarismo e que foi transposto para a cultura política das elites e das massas da democracia. Ainda é dominante?

O tema do luso-tropicalismo é muito interessante. Está hoje na arena das “guerras culturais” em Portugal, muitas vezes associado ao voluntarismo dos estudiosos e activistas em desfazer esse mito (porque é um mito). E porque tem sido activado politicamente, associado à chegada a Portugal de dimensões mais globais sobre as políticas da memória, sobre o racismo dos sistemas coloniais, sobre o racismo estrutural das sociedades democráticas contemporâneas. Mas o luso-tropicalismo é um tema que os “guardiões da memória”, pese embora a sua importância, não vão resolver nem de longe nem de perto. Uma nova consciência democrática para Portugal em relação ao passado pede um número muito maior de actores, desde logo os principais atingidos, o que ainda não é o caso.

O luso-tropicalismo é um tema que ‘os guardiões da memória’, pese embora a sua importância, não vão resolver, nem de longe nem de perto.

Porquê?

O luso-tropicalismo é muito enraizado não apenas nas elites, mas também na sociedade. O facto de se ter uma consciência implícita na sociedade portuguesa de que o império colonial português foi algo que se tentou fazer sempre diferente porque era contra a ameaça das outras potências coloniais. Em segundo lugar, porque os grandes realizadores dos mitos coloniais portugueses foram genuínos republicanos liberais de finais do século XIX, início do século XX. Convém não esquecer que a maior parte dos críticos da chamada oposição democrática, praticamente até aos anos 60, eram colonialistas antiautoritários. Ou seja, criticavam o modelo colonial do Estado Novo, mas não eram a favor da descolonização. E, em terceiro lugar, e eu creio que é este o factor mais importante, a elite política democrática — todos os partidos políticos da direita à esquerda que governaram Portugal a seguir ao 25 de Abril — fez uma política de reconciliação com os movimentos de libertação dos novos países africanos de expressão portuguesa. Repare-se: a descolonização portuguesa comporta uma ironia espantosa. A resistência à descolonização de uma ditadura nascida na época do fascismo, que faz da questão colonial o factor mais importante da sua identidade autoritária, termina em colapso, e uma transição democrática, em plena guerra fria, transfere imediatamente os poderes para movimentos de libertação que são formalmente socialistas. Uma ditadura que se pretende legitimar pelo facto de estar a lutar contra o comunismo em África… Não houve nenhum outro sistema colonial europeu em África que, de uma assentada, transferisse o poder para novos regimes de tipo socialista, com grande identidade entre si, repare-se. De S. Tomé a Moçambique, os novos regimes são muito semelhantes em 1976.

O luso-tropicalismo está muito enraizado não apenas nas elites, mas também na sociedade (...). Se fizer uma análise dos discursos da elite política, da esquerda à direita, há uma escassa activação política do tema.

Isso tem que ver com a revolução que se declarou socialista?

A democracia portuguesa foi consolidada em 1976 e foi uma democracia de guerra fria, que se impôs contra o legado de 1975. Mas a elite política democrática conseguiu, com sucesso, estabelecer uma relação pós-colonial de colaboração com os países africanos de expressão portuguesa. Este factor é muito importante para explicar porque não é fácil, em cada guerra de memória, convencer a elite política a ajustar as contas com as dimensões do passado colonial e da guerra. Repare-se: se fazer uma análise de conteúdo aos discursos da elite política portuguesa, do Partido Comunista à direita democrática, passando pelo Partido Socialista, o que observamos é uma escassa activação política do tema. Este é espoletado politicamente por activistas, às vezes académicos, no espaço público, mas repare na resistência dos partidos políticos a abordar esse tema.

Estamos a falar tanto da guerra como do luso-tropicalismo?

Da guerra colonial e do luso-tropicalismo. O que é que a elite política, da esquerda à direita, não nos diz oficialmente, mas diz em particular? Se os portugueses acham que não são racistas e que o império colonial português não foi tão mau como os outros, sob o ponto de vista da qualidade e do funcionamento do sistema político democrático, não vamos fazer guerras de memória. Isto não é o que eles nos dizem publicamente — dizem em off the record.

Esse debate nunca se vai fazer?

 Esse debate está a fazer-se, mas tem muitos actores. A esfera pública é composta por muitas instituições e não apenas pelo activismo académico-cultural. Por exemplo, as Forças Armadas e o cultivar da memória dos antigos combatentes, com dezenas de monumentos em cada vila de Portugal. A memória familiar dos retornados e dos portugueses de origem africana e indiana que os acompanharam. A memória terá de ser sempre num regime democrático um tema de activação política de diversas memórias. Há as memórias familiares dos retornados, as memórias dos militares consagrados nos monumentos aos antigos combatentes, as memórias de vocabulário — ultramar versus colónias, e por aí adiante. Até agora, a resposta ao activismo de esquerda radical-cultural era o silêncio. Agora, com um partido de direita radical populista, a cada dinâmica de activação da memória simbólica deste sector, vamos ter a activação de uma memória pós-colonial luso-tropicalista. Aparentemente, vai ser o caso na sociedade portuguesa, mas creio que será um fenómeno minoritário e com escassa mobilização social.

António Costa Pinto “Não é fácil convencer a elite política a ajustar contas com o passado colonial”

 

Como viu o discurso do Presidente no 25 de Abril?

O discurso do Presidente cumpriu duas funções: em primeiro lugar, tentou, o que não é fácil, ocupar o espaço político dos conflitos memoriais, reconhecendo os crimes do colonialismo, mas simultaneamente, defendendo um modelo de reconciliação e superação. Marcelo é um político que provém do centro-direita e esse discurso foi muito importante. Basta comparar com os do seu antecessor. Ele abre espaço e legitima uma memória oficial efectiva, mais de acordo com os valores democráticos e do humanismo liberal.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Caro Leitor: o texto que aqui se publica da autoria do Jornalista Nuno Pacheco,  convida-o a reflectir e a tomar parte na critica que o autor faz a certos modismos linguísticos, os quais, só empobrecem a nossa Língua.

O caso mais visível, mais emblemático das questões levantadas no texto, é o caso do vocábulo "resilência". O falante de português parece ter esquecido ou, posto na prateleira do esquecimento, a palavra "resistência." Na verdade, há um uso e um abuso desmesurado do vocábulo "resilência" que já causa saturação a quem o ouve e o lê nos Média .

E a propósito de anglicismos, parece que ninguém quer fazer um mínimo de esforço para encontrar os correspondentes em português. Vejamos dois exemplos: o "Task-Force e... ultimamente até o "Drive-thru ( o que apetece dizer: directamente importado do Mac-Donald, não? comprar o produto sem sair do carro. Literalmente: "através do carro".  

safa! que já cansa tanta  falta de respeito à nossa bela Língua!

Leia o texto  de Nuno Pacheco que na minha opinião  vale a pena, pois o Leitor vai reconhecer a sua indignação, ao identificar-se com o conteúdo.




Recepcionou suporte para experienciar a sua resiliência?

Por Nuno Pacheco*

É habitual, e é verdade, dizer-se que as línguas evoluem, que vão absorvendo novos termos, ou dando significados novos a palavras antigas (como documentam, aliás, os dicionários, desde as edições mais vetustas às actuais), mesmo contra o gosto e a vontade de filólogos e linguistas. Mas há, como sempre houve, “modas” que não correspondem a qualquer evolução, antes a um retrocesso, até porque afectam a clareza do discurso. Há dias, no PÚBLICO, Manuel Monteiro (autor, revisor e formador de revisão de textos) alertava para o abuso da palavra “colocar”, em vez de, simplesmente, “pôr”. “Coloque-se na fila” em vez de “ponha-se na fila”, por exemplo.

Mas há mais palavras que têm vindo a substituir, automaticamente, outras bem mais simples, e muitas vezes sem atender ao seu real significado. Por exemplo: agora já não se recebe nada, recepciona-se (ou “receciona-se”, usando o estranho termo que o Acordo Ortográfico de 1990 inventou só para Portugal e que mais ninguém usa); e também não se percebe nada, percepciona-se; quanto a viver, começa a ser raro, hoje vivencia-se; a palavra entender vai pelo mesmo caminho, substituída pelo anglicismo realizar; gerir, então, surge cada vez mais como gerenciar; coisa rara é também experimentar, já que a moda é experienciar (outro escusado anglicismo); e se precisamos de apoio nalguma coisa (como apoio técnico), o mais certo é darem-nos suporte. Os acontecimentos vividos passam a acontecimentos “vivenciados” e as experiências de qualquer tipo hão-de ser “experienciações” ou “experienciamentos” (sabe-se lá o que o futuro nos reserva).

O que se ganha com tais trocas? Mais letras, mais sílabas, menor clareza. Imaginem estas frases, caso tais modas se tornem regra: “Já experienciou o bife da casa? É muito bom!” Ou: “Posso experienciar este par de sapatos?”; “Recepcionou o meu livro? Percepcionou o que escrevi?”; “Como vivenciou a sua semana de férias?”; “Concederam-lhe o suporte que solicitou?”; “Quem está a gerenciar esta loja?”; “Explicaram-me tudo, mas não realizei o que queriam dizer”. Ou, como ironicamente sugere Manuel Monteiro no seu texto, “Posso colocar-lhe mais vinho no copo?”, concluindo: “Só me resta desejar que o ‘pôr-do-sol’ não se transforme no ‘colocar-do-sol’. E que quem citar Camões não diga que Inês estava linda COLOCADA em sossego.”

Convém notar que, exceptuando “realizar” no sentido de “entender”, tais termos existem e os que não constam de dicionários portugueses já ganharam registo no Brasil, como “experienciar” ou “gerenciar”. A TAP, por exemplo, tem uma página em português do Brasil (e ali escreve, como deveria, “registre-se” por “registe-se” e “planejar” por “planear”) com o título “Preparar e gerenciar viagem”; e há no Brasil uma agência de turismo intitulada “Vivenciar” e frases do género “Vem vivenciar grandes momentos com a gente!”. Mas também por cá se apela a “vivenciar momentos únicos”, como se lê na página da Câmara de Vila Nova de Gaia. Será mesmo atendendo ao significado da palavra? Ou será “vivenciar” “mais giro” do que “viver”?

É porque convém sempre atender ao contexto. Não é a mesma coisa afirmar, em Portugal, “eu não apoio esse candidato” [não lhe dou aval] que “eu não suporto esse candidato” [não posso nem vê-lo]; tal como não é igual afirmar “vivi não sentindo que vivi” ou “vivenciei não sentindo que vivi”, porque “vivenciar” significa, segundo a generalidade dos dicionários, “viver algo, sentindo intensamente”. Mas será mesmo isso que querem dizer os que usam e abusam de tal palavra?

O pior não é ouvir e ler ‘resiliência’ a torto e a direito; o pior mesmo é vê-la escrita e ouvi-la onde devia estar ‘resistência’

Nesta moda entra ainda a palavra “resiliência”. Há umas décadas, os dicionários em Portugal só registavam o seu sentido na Mecânica ou na Física. A edição de 1981 do Grande Dicionário da Língua Portuguesa (de José Pedro Machado) falava apenas em “valor ou número característico da resistência ao choque de um material e que representa a energia absorvida pela rotura de uma barra de secção unitária”; e o Dicionário da Academia das Ciências até ignora a palavra (passa directamente de “resignatário” para “resina”, pág. 3217). Mas, seguindo o inglês “resilience”, outros acrescentaram-lhe um novo sentido, figurado: “Capacidade de superar, de recuperar de adversidades” (Priberam), “Capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças” (Houaiss), “Capacidade de defesa e recuperação perante fatores [sic] ou condições adversos [sic]” (Infopédia, que lhe acrescenta ainda significados na Ecologia e na Psicologia).

O pior não é ouvir e ler “resiliência” a torto e a direito; o pior mesmo é vê-la escrita e ouvi-la onde devia estar “resistência”. E são tantas vezes! Assim haja “resiliência” para suportá-las.

*Jornalista – In “Público” de 08 de Julho de 2021

segunda-feira, 7 de junho de 2021

 

Fomos desafiados para a celebração das nossas bodas de ouro, – 50º aniversário do casamento – que tentássemos escrever 50 razões que fizeram com que o nosso matrimónio perdurasse por tanto tempo. Não é fácil quando tudo se resume a pouco mais de meia dúzia de palavras – amor, amizade, respeito, liberdade, companheirismo, tolerância, compreensão, alegria, felicidade – que representam os sentimentos mútuos e as realizações partilhadas. Contudo iremos fazer uma tentativa que, ao fim e ao cabo, não é mais que enquadrar essas expressões na nossa vivência:

 

1 - Muito amor, muita amizade, muita cumplicidade e bom entendimento mútuo.

2− Fazer com que as nossas divergências sejam, ou um mal menor, ou alternativas para a procura de um consenso;

3− Saber, − de esforço para um conhecimento mútuo, − que o nosso casamento foi movido só, e tão somente, por um profundo amor que conduziu ao desejo de estarmos permanentemente juntos.

4 – E também de tudo partilharmos, sem pôr em causa a liberdade de cada um;

5 − Pensarmos e agirmos sempre no sentido de que o nosso casamento foi a melhor e a mais acertada decisão que cada um tomou na sua vida;

6 - Procurarmos conhecer de forma interessada e profunda as particularidades de cada um para melhor as respeitar;

 7 – Termos traçado previamente, sem calculismos, as nossas prioridades na vida em comum, baseadas no estabelecimento de metas e objectivos acessíveis;

8 – Termos visto nos filhos – o cumprimento de um desígnio previamente traçado e um desejo profundamente partilhado − tudo aquilo que exponencia a nossa união e melhor espelha o nosso amor;

9 – Termos tido como ponto assente que a família construída é o mais importante elo da vida desejada pelos dois. Ela paira acima de tudo.

10 – Companheirismo.

11 – Termos tido sempre presente que tudo é transitório − inclusive o nosso amor − e que a sua permanência é o resultado de uma conquista continuada;

12 – Complementarmo-nos em cada momento na prossecução permanente do cumprimento das nossas metas e objectivos – sobretudo os familiares − e esforçarmo-nos conjuntamente para os ajustar com realismo e pragmatismo às circunstâncias e conjunturas;

13 – Termos feito com que a chama da intensa amizade que nos une se mantenha sempre viva;

14 – Termos pugnado para que essa mesma chama se sobreponha a qualquer adversidade, contratempo ou acidente de percurso que se interponha nas nossas vidas;

15 – Termos tido sempre em mente que um casamento sólido não anula a individualidade única de um e de outro, antes a conclama.

16 – Termos concedido um ao outro espaço e tempo para cada um expressar na plenitude a sua individualidade e apoiá-lo na sua decisão;

17 – Fazermos com que haja sempre diálogo, diálogo e mais diálogo em todas as circunstâncias;

18 – Empenharmo-nos vivamente que nunca falte este [diálogo] tão importante elemento de uma boa ligação.

19 – Termos tido paciência, tolerância, condescendência e complacência com os erros e os defeitos – um do outro.

20 – Construirmos convergências ao longo do tempo e respeitar escrupulosamente as divergências, sobretudo as que derivem de convicções.

21 – Gostar muito de estar um com o outro.

22- Acreditarmos todos dias, e em cada dia, de que a escolha mútua que fizemos é a escolha certa;

23 – Estarmos firmemente convictos de que criar e procurar gerar laços fortes de companheirismo e de interdependência, só fortalecem a relação.

24 – Amar, amar, amar sempre!... O amor com a crença e a convicção de que é mutuamente correspondido é o mais forte cimento que aglutina um casamento.

25 – Celebrarmos sempre com muita alegria as reuniões de família – mesmo as mais pequenas;

26 – Fazermos delas [as reuniões de família] momentos de bom humor, de diálogo, de trocas de ideias, de identificação de valores e, sobretudo, de construção;

27 – Não ambicionar mais do que está ao nosso alcance, sem deixar jamais de nos esforçarmos vivamente para o bem-estar da família;

28 − Cerrarmos bem forte as fileiras, de forma subtil ou expressa, dependendo das circunstâncias, sempre que uma adversidade, um contratempo, uma ameaça ponha em causa a estabilidade do núcleo familiar mais próximo, combatendo ou prevenindo;

29 – Honrarmos sempre a aliança mutuamente edificada.

30– Cuidarmos um do outro com carinho, paciência e dedicação;

31 – Tentarmos “adivinhar” por vezes o que (o, a) companheiro (a) deseja…

32 – Termos presente que o bom humor, o fino gozo, também fazem parte de um casamento bem-sucedido.

33 – Termos a consciência de que a alegria de estarmos juntos é um culminar de uma ´solida relação.

34 – Sentirmos que, através dos laços que nos unem, cada um é do outro, o melhor Amigo;

35 – Ter presente que a confiança e o respeito mútuo, nunca se devem ausentar da aliança construída;

36 – E também que a harmonia deve ser o sentimento mais presente no dia-a-dia do casal. 

37 – A liberdade de ser de cada um, não deve, por princípio, ser anulada por nenhum dos cônjuges.

38 – Que os valores de família devem ser promovidos e consolidados entre o núcleo geracional construído.

39 – Que a alegria de ter e de conhecer os netos são dádivas imensuráveis. Eles – os netos – são uma graça divina na nossa vida.

40 – Fazermos da vinda dos netos um hino de alegria para os nossos corações e um alento para a caminhada comum;

41 – Amor e um pouco de paixão só fazem bem ao casal…ainda que velhotes.

42 – Fazer com que as memórias boas sejam sempre revividas com alegria e gargalhadas;

43 – Sentirmos em cada momento, que crescemos e amadurecemos juntos e que a cumplicidade se tornou a nossa segunda natureza;

44 – No fundo, constatarmos que um casamento de 50 anos, equivale a “levantarmo-nos” juntos, numa espécie de segunda criação, agora a dois.

45 – Não há “catálogo de receitas” e muito menos “milagres” para o sucesso de um casamento com longevidade.

46 – Caberá ao casal em cada etapa alicerçar sólida e interessadamente os pilares da vida em comum.

47 – Amar, amar sempre!... O amor com a crença e a convicção de que é mutuamente correspondido é o mais forte cimento que aglutina um casamento;

48 – 50 anos de vida em comum é uma grande e bela peça de tapeçaria, feita de vários fios, com labor, com persistência e procura permanente de aperfeiçoamento pois que, às vezes se torcem, mas que de seguida se distorcem para finalmente se convergirem numa bonita obra final!

49 – Afinal 50 anos de casamento, são 600 meses; 18.262 dias; e cerca de 438.290 horas de vida em comum!

50 – É obra! E afirmamos orgulhosamente que valeu a pena construí-la.

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

 

 

Dia de África

Hoje celebra-se mais uma efeméride.  As celebrações devem sempre levar-nos a evocar os aspectos e as realizações positivas. Mas, infelizmente, de positivos ficaram apenas a gesta das independências e as eventuais boas intenções dos chamados libertadores de África. A realidade posterior tem sido o desastre que ainda hoje se assiste.

Que contas de negregrura”? disse um dos pastores/personagens do «Auto de Mofina Mendes» do grande dramaturgo português Gil Vicente, séc. XVI, quando a protagonista, Mofina Mendes, apresentava ao amo, o resultado da não venda dos ovos na feira, pois que ela os havia deixado cair e quebrarem-se todos, durante a dança que fez na feira.

 Observação: na Língua portuguesa do século XVI, “contas de negregura” significavam: “más contas”. Esclarecido o aparente trocadilho e, teatro aparte, vamos à realidade africana actual, não sem antes questionar:

"Mutatis mutandi", serão estas as contas que os governos africanos apresentam hoje aos seus compatriotas, passados que são 58 anos sobre a criação da OUA e do Dia de África?

De acordo com as palavras do Filósofo moçambicano Severino Ngoenha sobre o Continente africano no século XXI; afirma ele que as independências não significaram desenvolvimento para os países independentes há mais de cinco décadas. E muito menos desenvolvimento e bem-estar para os seus povos. Acrescenta este pensador, que África regrediu em quase tudo. A economia não é redistributiva apenas contempla os seus governantes - logo, a corrupção grassa no meio dos governantes e de uns poucos que à volta deles gravitam – E eles constituem-se como autênticas “tribos económicas”.

Segundo, Ngoenha, “o único índice de desenvolvimento que África apresenta é na demografia”. Nesta parte, bate os recordes. Mas falta saúde e educação para este significativo “boom” demográfico africano.

 A chamada “africanidade ficou na idade infantil. Não somos respeitados, não nos fazemos respeitar. Vivemos do que nos dão os outros… até para sustentar o Orçamento do Estado! Esperamos pelas ajudas internacionais" pelas “sobras” dos outros…continua Severino Ngoenha.

Esta é a realidade da generalidade dos países de África de hoje. E a pandemia, infelizmente, pôs mais a nú as fragilidades (veja-se a espera das vacinas) deste Continente…

Eis um retrato honesto, rigoroso e severo do Continente africano, dos nossos dias, feito por uma das cabeças mais lúcidas e estudiosas do verdadeiro drama do Continente africano.

Espreitando agora um problema actualíssimo que mais não é do que uma verdadeira tragédia, interrogamo-nos:

Que dizer das centenas de jovens e de crianças que arriscam a própria vida em fuga, em barcaças ou, a nado, criando problemas complexos aos países forçados a acolher milhares de jovens africanos em busca do “eldorado” europeu? Que respostas para a maioria destes jovens que dizem sem titubear, que preferem “mendigar na Europa do que regressar e viver no país de origem”? Como explicar-lhes o sentimento de amor e de apego à terra de origem se se expressam desta maneira?...e quem lhes retira razão? Qual o futuro de África?

Infelizmente, há muito que me declarei afro-céptica. Pois, o que me é dado observar no tempo em que vivo, não me facultou oportunidade de ser outra coisa, pois que me sinto  desiludida e lograda quanto ao progresso de África.

Afinal, foram estes, os pensamentos que me ocorreram hoje, Dia de África, e que aqui deixo registados.

 

 

Por ocasião da Semana da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP 5/12 de Maio de 2021

sexta-feira, 7 de maio de 2021


  Escolhi e subordinei o meu tema, para a celebração da Lusofonia e da Cultura na CPLP,  às “inquietações” reflectidas na poesia de alguns poetas das ilhas de Cabo Verde, e, no caso em apreço, na poesia dos poetas mais emblemáticos, e que pertenceram à geração da «Claridade» movimento literário iniciado em 1936, na ilha de São Vicente, mais propriamente na cidade do Mindelo.

E foram diversas as “inquietações poéticas”. Mas as mais aprimoradas nestes poetas, foram a “inquietação marítima,” e a “inquietação social” bem definidas num pequeno/grande ensaio de Gabriel Mariano,(1928-2002) também ele, poeta  maior destas ilhas, e pertencente à geração bem posterior à da «Claridade». O ensaio é intitulado: «Osvaldo Alcântara – o Caçador de Heranças». – Ponto & Vírgula edições, 1991.

Ora bem, achei o ensaio extremamente interessante e elucidativo sobre estas duas inquietações. Daí, ter-me dele valido, para consubstanciar este meu escrito.

Mas antes ainda dos poetas da geração de «Claridade», tivemos  a  “inquietação amorosa” em que o exemplo mais acabado foi o poeta e famoso autor de belas mornas, Eugénio Tavares. Natural da mais pequena ilha habitada do Arquipélago de Cabo Verde, a ilha Brava. Eugénio Tavares, a quem muitas vezes chamámos de o Camões destas ilhas, poeta da última década do séc. XIX. Trata-se sem dúvida, do mais representativo poeta da “inquietação amorosa”.   É que Eugénio Tavares cantou o Amor de forma vocativa, clamativa, é sentimento sempre presente nas suas composições. Com grande frequência  E. T. apresentou o amor nos seus poemas, como fonte de grande sofrimento para o sujeito poético, o qual, é totalmente subjugado por este inquietante e perturbador sentimento. A sua lírica, foi disso reflexo.

Interessante é que, Eugénio Tavares considerou o amor maior do que o próprio Deus ,que é já de per se, imensurável. O exemplo mais ilustrativo disso encontra-se bem expresso na morna «Força de Cretcheu» em crioulo da Cabo Verde, Força do Amor, sendo o  vocábulo “cretcheu”, numa tradução aproximada,  de aquele ou daquela que se quer muito cre= querer tcheu= cheio, pleno, muito. Logo uma forma aglutinada do “querer muito”. Ora bem, o poeta sintetizou nesta composição, o seu entendimento sobre a grandeza do Amor, sobre os seus males, mas também sobre as delícias causadas pelo mesmo amor.

    Retomando o já referido trabalho de Gabriel Mariano, cujo título : «Osvaldo Alcântara - O Caçador de Heranças» foi buscado num poema homónimo de Osvaldo Alcântara.  Pois bem, Osvaldo Alcântara é o pseudónimo poético de Baltazar Lopes da Silva um dos mais renomados intelectuais e dos mais famosos homens das Letras cabo-verdianas do século XX. Autor do romance «Chiquinho», romance emblemático da geração do movimento literário «Claridade». No entender de Gabriel Mariano, Osvaldo Alcântara define-se como poeta «Caçador de Heranças» pois que, no seu poema homónimo, o sujeito poético justificou o facto de ter acompanhado o enterro de um capitão das ilhas, não foi por outro motivo, se não pelo facto de, ele, o sujeito poético, ser um “caçador de heranças,” ”Morreu hoje o capitão de um navio das ilhas.// Não foi porque ele era bom / e puxava afectuosamente o fumo do seu cigarro/ quando falava comigo/ que eu fui ao seu enterro. // Fui ao seu enterro porque sou caçador de heranças /e queria confessar a minha gratidão / pela riqueza que ele me deixou, / pela sua dimensão desmesurada do mundo / e pela sua incorporação no veleiro/ em que todos navegamos.” Heranças recolhidas, o poeta depois  as reelaborará e renovará  - aqui entendidas como metáfora de palavras sábias -  recebidas em vida do capitão de um navio das ilhas, e  que o poeta transformará em preocupações sociais que irão alimentar e sustentar  quase toda a sua poesia.

Assim, Osvaldo Alcântara ganhou o título de poeta da “inquietação social”, no dizer de Gabriel Mariano. Aquele  que se solidariza com o mais desprotegido dos seus semelhantes; que renuncia benesses em nome dessas «preocupações sociais»; que demonstra disponibilidade para seguir o trilho da “rebeldia e da libertação” do Homem nas suas várias e complexas dimensões. Poeta e guia disponível, Osvaldo Alcântara, reitera a disponibilidade para a luta no verso: «Tudo é estrela na minha prisão» do  poema «Deslumbramento», e através de duas figuras “prisão” e “estrela” que aqui ganham a um tempo, uma significação  antitética e uma aproximação oximora, o poeta alinha com os desprotegidos de sorte...

Ancorando-me de novo, no ensaio de Gabriel Mariano, ele definiu igualmente os poetas Jorge Barbosa (1902-1971) e Manuel Lopes,(1907-2005) como poetas de “inquietação marítima” e que a poesia destes dois autores, reflectiu as relações que o ilhéu cabo-verdiano estabeleceu com o mar. Ora o mar “a cinta que aperta” o ilhéu, ora o mar “convite para a terra-Longe”, ora ainda, o mar desassossegado e que intranquilizou o cabo-verdiano. Enfim, o mar nas suas várias expressões,  o mar dotado de sentimentos que o aproximam ou o afastam da empatia do Homem, este  que o considerou por vezes antropoformizado, como um seu semelhante. Estas seriam as características, as linhas de força dos poemas de Jorge Barbosa e de Manuel Lopes, no ensaio de Gabriel Mariano.

 E antes de finalizar este meu breve escrito em jeito de homenagem à Semana da Lusofonia e da Cultura na CPLP, direi que acredito que de algum modo, o mar destes poetas tem equivalência, embora diferente na abordagem, e naturalmente, na linha de que: “cada um é seus caminhos - pegando no belo verso do poema, “Impressão Digital” de António Gedeão (1906 -1997) mas é que encontramos equivalência no mar de que nos deu conta também o portentoso escritor português Virgílio Ferreira (1916-1996) “...da minha língua vê-se o mar, ouve-se os seus rumores(...) Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação  e que em Jorge Barbosa, essa “voz do Mar”, é assim sugerida: “(...) o Mar! / dentro de nós todos,/ no canto da Morna, / no corpo das raparigas morenas, / nas coxas ágeis das pretas / no desejo de viagens que fica em sonhos de muita gente!”

 Afinal, de forma interessante, também, outro conhecido poeta português, José Gomes Ferreira (1899-1985) ligou o mar à Língua portuguesa. Assim a expressou  na sua «Poesia VI» e nos versos seguintes:

“(...) gritei a minha descoberta (...)«o mar fala português»! // Claro que mentia/ pois já sabia / que bem lá no fundo do seu canto / onde Camões ouviu sirenas / e aves marinhas / o mar falava apenas / uma espécie de esperanto / com verbos de redes de espuma e substantivos de sardinhas //  Depois o mar transbordou da palavra (...) // (...) A palavra oceano / trazia outro rumor verde nos dentes.”

E termino com estes versos de José Gomes Ferreira, e a pensar que talvez, por via da simbologia do mar, e nas vozes dos nossos poetas e escritores, encontrámos também os caminhos que nos trouxeram à lusofonia, através das diversas e das ricas variantes da nossa Língua comum.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

 

Por achar com interesse para o Leitor do Coral Vermelho, tomei a liberdade – com a devida vénia à autora Sandra Duarte Tavares, Linguista portuguesa -  de publicar este conjunto de erros cometidos – com alguma frequência -  em português e, que como diz a autora: “ (...)mancham a nossa  imagem e podem fazer-nos perder, em poucos segundos um bom emprego (...)”

Aprende-se sempre. E isso é muito bom!

 

 

Sempre que cometemos um erro ortográfico ou gramatical, seja em contexto pessoal ou profissional, podemos ser alvo de troça ou discriminação por quem nos rodeia. Erros linguísticos como “tu fostes à reunião?”, “foi uma perca de tempo”, “houveram pessoas que faltaram”, “ninguém se absteu” não só mancham a nossa imagem, como também podem fazer-nos perder, em poucos segundos, um bom emprego, um bom negócio e até um relacionamento!

A competência linguística, associada ao domínio da comunicação oral e escrita, assume, inequivocamente, um valor sociocultural relevante, promovendo cada vez mais aceitação, credibilidade e prestígio social.

Vejamos, então, quais os 10 erros linguísticos que, do meu ponto de vista, podem manchar a nossa imagem pessoal profissional.

ERRO 1: p[ó]ssamos

Forma correta: possamos

As formas verbais da 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo são graves, ou seja, o acento tónico recai na penúltima sílaba: tenhamos, sejamos, possamos.

ERRO 2: a gente vamos

Forma correta: a gente vai

Na expressão a gente, o verbo deverá estar sempre no singular, em concordância com essa expressão.

ERRO 3: houveram pessoas

Forma correta: houve pessoas

Sempre que é verbo principal, o verbo haver só se conjuga na 3.ª pessoa do singular, porque é um verbo impessoal (há, houve, havia, haverá, haveriahaja…).

ERRO 4: ele interviu

Forma correta: ele interveio

O verbo intervir conjuga-se como o verbo que está na sua base – o verbo vir: ele veio; ele interveio.

ERRO 5: vocês ha dem

Forma correta: vocês hão de

O paradigma de conjugação do verbo haver no presente do indicativo é: eu hei de, tu hás de, ele há de, nós havemos de, vós haveis de, vocês / eles hão de.

ERRO 6: faria-o, se possível

Forma correta: fá-lo-ia, se possível

No futuro do indicativo e no condicional, os pronomes pessoais complemento (-me, -te, -o, -lhe…) colocam-se em posição mesoclítica, isto é, no meio do verbo, antes das terminações de tempo e pessoa.

ERRO 7: como deve de ser

Forma correta: como deve ser

Ao contrário do nome dever, o verbo dever não requer a presença da preposição de.

ERRO 8: à muito tempo, à 1 semana

Forma correta: há muito tempo, há uma semana

A forma verbal  (verbo haver) pode assumir um valor temporal, podendo ser substituída pela forma verbal faz: faz muito tempo, faz 1 semana. Tem um valor durativo no passado.

ERRO 9: tu fostes

Forma correta: tu foste

A forma verbal correspondente à 2.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo ir ou ser é foste. A forma verbal fostes corresponde à 2.ª pessoa do plural: vós fostes.

ERRO 10: Derivado a um vírus

Forma correta: Derivado de um vírus / devido a um vírus

A palavra derivado é acompanhada da preposição de (tal como o verbo derivar); a palavra devido é acompanhada da preposição a (tal como o verbo dever-se).

ERRO 11: Orgão 

Forma correta: órgão 

Esta palavra leva acento agudo sobre a vogal «o». As palavras graves terminadas em «ão», como sótão, órfão, bênção, são sempre escritas com acento gráfico, porque o seu acento tónico recai na penúltima sílaba. 

Importa referir que o til não é um acento gráfico, mas sim uma marca de nasalidade, indicando vogais nasais (ex. lã) ou ditongos nasais (ex. coração). Muitas vezes, este ditongo coincide com a sílaba tónica (como é o caso de paixão), porém, nalguns casos, pode não coincidir com o acento tónico, de que orégãos é exemplo.

ERRO 12: Rúbrica 

Forma correta: Rubrica 

A palavra rubrica tem o seu acento tónico na penúltima sílaba (bri) e escreve-se sem qualquer acento gráfico, seja qual for o seu significado: “assunto, apontamento, matéria”, “programa radiofónico ou televisivo” ou “assinatura abreviada”. 

Tendo a sua origem no latim rubrica, estava relacionada com o adjetivo rubrus (vermelho) e designava a terra ou argila vermelha que se usava para escrever os títulos dos livros antigos e dos manuscritos medievais. 

Deve, assim, usar-se a palavra grave rubrica para todas as aceções.

ERRO 13: Saiem 

Forma correta: Saem 

A forma verbal saem corresponde à 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo do verbo sair e grafa-se sem qualquer «i» entre a vogal «a» e a vogal «e». A inserção da vogal «i» ocorre na oralidade (e com implicação na escrita) com o objetivo de estabelecer a ligação entre as duas vogais em hiato (encontro de duas vogais que não formam ditongo). 

ERR0 14: Mau-estar

Forma correta: Mal-estar 

A palavra composta mal-estar é formada pelo advérbio mal e pelo nome estar. O seu antónimo é bem-estar. 

ERRO 15: Previlégio 

Forma correta: Privilégio 

A palavra privilégio escreve-se com «i» na primeira sílaba, pois provém do latim privilegiu. Essa vogal é frequentemente articulada como [e] devido a um processo fonológico designado dissimilação: um determinado som perde propriedades fonéticas que tem em comum com um som vizinho, diferenciando-se dele. 

ERRO 16: Alcoolémia

Forma correta: Alcoolemia 

A palavra alcoolemia pronuncia-se com «e» fechado e escreve-se sem qualquer acento gráfico. Na sua formação entra o elemento -emia, que é um radical de origem grega que 

exprime a ideia de sangue. Este elemento entra na composição de várias palavras, como anemia, leucemia, glicemia, toxicemia. Trata-se de palavras graves, cuja sílaba tónica é a penúltima (mi), pelo que não devem ser escritas com qualquer acento gráfico. 

ERRO 17: Ciclo vicioso 

Forma correta: Círculo vicioso 

O adjetivo vicioso está relacionado com o nome vício e entra na combinatória «círculo vicioso». Esta expressão designa uma sequência de acontecimentos ou situações que se repetem sucessivamente e se reiniciam, havendo um impasse na sua resolução. 

ERRO 18: Despoletar 

Forma correta: Espoletar / Desencadear 

O verbo despoletar é derivado por prefixação a partir do verbo espoletar. Provêm ambos da terminologia militar e passaram a fazer parte da linguagem corrente. O verbo espoletar, que significa originalmente “pôr a espoleta em, fazer deflagrar a granada”, passou a significar também “desencadear uma ação”. O verbo despoletar, por sua vez, tem o significado de ação contrária de espoletar (“tirar a espoleta a, travando ou impedindo o disparo de”) e passou, por força do uso linguístico, a substituir o verbo espoletar, veiculando o significado desse verbo: “deflagrar, desencadear uma ação, fazer surgir repentinamente”, com base no valor de reforço do prefixo des- (presente em palavras como desinquieto, destrocar, desandar). 

Ainda que tenha assumido esse significado, desaconselha-se o seu uso como sinónimo de desencadear em registo formal.

O que podemos fazer para eliminar de vez estes e outros erros que mancham a nossa imagem? Devemos ler muito (e bem!) para que sejamos expostos à palavra bem escrita. Tal como a leitura, a consulta de dicionários é também uma prática que deve ser regular no nosso dia a dia, sempre que tivermos alguma dúvida na grafia e significado de uma palavra.

Assim, se pretendemos projetar uma imagem pessoal e profissional credível, a nossa comunicação deve ser clara, relevante e, sobretudo, deve ter um elevado padrão de excelência linguística.

  

 erros portuguêsLíngua PortuguesaSandra Duarte Tavares