O mundo está estranhamente convulso e perigoso e o país parece confuso

sexta-feira, 1 de março de 2024

 Por Adriano Miranda Lima

O ambiente social de instabilidade e conflitualidade que vem caracterizando o país desde o último governo de maioria absoluta só é equiparável aos tempos do PREC. Nesse já longínquo ano de 1975, uma alterosa onda reivindicativa envolveu o sector público e o privado, e, em meio ao desconchavo revolucionário espoletado por facções extremistas, destruiu o aparelho produtivo. Hoje, há quem pense que uma atitude mais ponderada e de teor reformista, ao invés da convulsão social, teria evitado dois anos mais tarde o recurso ao FMI, além de muitos amargos de boca.

Regressando à premissa inicial, houve duas circunstâncias fundamentais que ora concorreram para a instabilidade social que não seria previsível e menos ainda consentânea com a estabilidade política que o governo de maioria absoluta só por si devia garantir. Primeira circunstância: a ideia, partilhada pelos sindicatos em geral, de que os governos do Partido Socialista proporcionam a ocasião mais favorável para toda a sorte de reivindicações, por tratar-se de partido tolerante e programaticamente virado para a distribuição de rendimentos, fiel à sua política de justiça social e de promoção da igualdade de direitos. Segunda circunstância: a ilusão pacóvia, ou então insidiosa, de que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) seria gerador de recursos para toda a reivindicação, desde que esta orquestrada com clamor público e instrumentalizada com greves constantes e convenientemente mediatizadas pelos canais televisivos. Pouco importa se o PRR é um instrumento estratégico comunitário destinado exclusivamente a implementar um conjunto de reformas e de investimentos visando a competitividade da economia e a sua resistência a vicissitudes futuras, como foi a última pandemia e os efeitos das guerras em curso.

Nesta transição para o próximo pleito eleitoral, perduram ainda os ecos do alvoroçado rodopio reivindicativo e grevista do sector público. Uns, com alguma razão, se comparada a degradação do seu nível remuneratório com a de outras classes profissionais equivalentes em grau de formação académica e em importância institucional e social. É o caso da classe docente.

Outros sectores, como o dos servidores do Serviço Nacional de Saúde (SNS), sob a égide dos respectivos sindicatos e ordens profissionais, foram como o gato escondido com o rabo de fora, ao alardearem defender aquele serviço público quando a motivação era claramente o seu estatuto remuneratório e outras regalias. Algumas máscaras que caíram do rosto de ex-bastonários e sindicalistas mostraram que afinal há “portas giratórias” entre a oposição política e certos interesses corporativos. Excedeu a mais pura hipocrisia querer convencer a nação de que a reabilitação do SNS era o seu único móbil e não a defesa do sector privado da saúde.

Os magistrados, esses, não terão qualquer razão para reivindicar outra coisa senão a reforma da Justiça, porque são a classe a anos-luz distanciada em matéria remuneratória, sendo escandalosa a forma como, sem razão plausível, se diferenciaram de outras classes a que estiveram desde sempre equiparados. Em 1980, um magistrado auferia uma remuneração equivalente à de um coronel das Forças Armadas e hoje é mais do dobro. Basta consultar as listas dos aposentados da CGA para o comprovar. E são os únicos privilegiados com subsídio de habitação, mesmo com casa própria onde exercem as suas funções, e com a particularidade de o valor desse subsídio ser integrado na pensão de aposentação, caso único no Estado. E acresce frisar que enquanto um coronel atinge este posto em final da carreira, e após a frequência de cursos de formação sucessivos a seguir à licenciatura inicial, um magistrado ascende a esse nível remuneratório no decurso ou a meio da carreira. Como exemplo, e passe a declaração de interesse, se qualquer das minhas filhas, em vez de docentes do ensino secundário, fossem magistradas, ganhariam hoje o dobro do pai, que arriscou a vida em duas guerras do Ultramar, sujeitando-se a arruinar a saúde por submissão a agruras, intempéries e condições de vida insalubres, passando pelas vicissitudes de uma revolução, e só atingindo o último posto no fim da carreira.

Ao citar esse exemplo comparativo, vem a propósito a questão do risco profissional e desde logo a actual reivindicação do respectivo subsídio que tem sido a luta infrene das forças de segurança. Não se discute o seu legítimo direito. O incompreensível é esse subsídio ter sido consideravelmente aumentado para a PJ, sem ser equacionado no conjunto global das forças de segurança. Pode ser factor ponderoso o diferencial de qualificações profissionais e académicas entre uns e outros, mas não a problemática do risco. Pode-se também considerar que a enorme disparidade de efectivos entre uns e outros representa um encargo permanente à partida incomportável para o erário público.

E novamente por concatenação vem o estatuto remuneratório das Forças Armadas. As suas associações cívicas já anunciaram que, se houver atribuição do subsídio no montante que as forças de segurança reivindicam, os militares ponderarão ir pela mesma via de contestação maciça a que se tem assistido com milhares de polícias nas ruas, desprestigiando a instituição a que pertencem e transpondo limites que raiam a insurreição. Ora, os militares têm razão com a sua advertência, porque a atribuição do valor do subsídio de risco reivindicado colocaria um guarda da PSP ou da GNR a auferir uma remuneração semelhante se não mesmo superior à de um capitão das Forças Armadas. Mas no dia em que os meus camaradas de armas saíssem para a rua ensaiando o mesmo espectáculo ridículo e indecoroso a que se têm permitido os polícias, eu sentiria vergonha da farda que honradamente enverguei durante 40 anos servindo Portugal com risco da própria vida.

O efeito dominó da devassa reivindicativa não tem precedentes e é contagiante, a ponto de até os bombeiros se terem também manifestado a exigir carreiras profissionais e vencimentos condizentes com o risco da sua atividade. Outras mais classes profissionais estarão em lista de espera, a aguardar que o governo que abra os cordões à bolsa dê o sinal de partida para o descalabro final em que o país pode cair. Até podem reaparecer os antigos guardas nocturnos a reivindicar ao Estado o pagamento de retroactivos pelos riscos a que outrora se submeteram.

Não haja ilusão. O país parece ter ficado à deriva depois do golpe palaciano que a Procuradora-Geral e o Ministério Público engendraram e com que fizeram derrubar o governo da República e o da região Autónoma da Madeira. Entretanto, o turbilhão da campanha eleitoral que o país não desejava nem esperava segue o seu curso, e as promessas eleitorais inscrevem-se sem contenção, com cada actor político à procura do pedestal em que melhor sobressaia. O que intriga, ou talvez não, é estar arredado do discurso político estas 3 realidades basilares e incontornáveis:

− A economia nacional não gera riqueza para acudir a todas e quaisquer exigências salariais, senão com um crescimento real e sustentado que, atento ao princípio de igualdade e justiça social, possa contemplar os que têm voz reivindicativa como os que não a têm;

 − A Europa está em guerra e o tema da Defesa nacional e das Forças Armadas, desde há décadas relegado para a mais indigente das prioridades nacionais, nem assim pontifica no discurso nacional, como se fosse um tabu. É preciso consciencializar-se que o reforço do orçamento da Defesa Nacional implica sacrifícios, mas justificáveis porque nada é mais valioso que a vida e a segurança dos povos, como hoje no-lo dizem com lágrimas de sangue os ucranianos;

− A Justiça, como o demonstra os seus servidores ou ex-servidores mais experientes e credenciados, carece de uma urgente reorganização, sob pena de graves entorses no funcionamento do Estado de Direito Democrático. Também ela, a Justiça, parece um tabu; e escuso especular sobre as reais razões que o possam explicar.

As próximas eleições legislativas são uma oportunidade de escolha e de clarificação. É um momento crucial. É bom que ninguém se abstenha e que o povo abra os olhos e diga claramente o caminho que quer seguir. Se quer continuar livre e senhor do seu destino ou se quer ir na cantiga dos vendedores de banha de cobra que de um momento para outro parecem conquistar auditórios.

Nota: Escreve conforme a ortografia anterior ao AO 90.

Obs.: Texto publicado no jornal "Templário" de Tomar

Língua cabo-verdiana e Língua portuguesa: Uma ligação perene

sábado, 10 de fevereiro de 2024


Temos vindo a reflectir quase que diariamente – passe o exagero – sobre a evolução, sobre a transformação e sobre a vitalidade que o nosso idioma ilhéu tem vindo a demonstrar, tanto na oralidade como na escrita; e a sua aproximação cada vez mais audível da Língua portuguesa actual.

Antes de continuar, gostaria de aqui fazer uma espécie de comparação, entre um filho que mesmo atingida a maioridade, não deixa a casa paterna; assim a Língua cabo-verdiana, que a cada dia que passa ilustra tanto na sua expressão, sobretudo oral, como também escrita, um léxico e uma construção sintáctica, que estão cada vez mais próximos da norma actual da Língua portuguesa. Aliás, sua principal matriz. Daí que o crioulo destas ilhas seja considerado de “base portuguesa” com válidos fundamentos históricos e etimológicos.

Vale aqui repetir que, nunca a Língua cabo-verdiana, o crioulo das ilhas, esteve tão próximo e tão dependente da Língua portuguesa como o está na hora actual, fazendo daquela língua o seu “banco fornecedor” (principal) de vocábulos e de construções morfossintácticas.

 Poderão, eventualmente, dizer-me que o fenómeno apenas é observável no meio urbano. Direi que não, pois, as “fronteiras” entre o campo e a cidade, hoje mais do que nunca, estão muito esbatidas no que toca à recepção da televisão, da rádio, dos jornais, todos órgãos que circulam regular e abrangentemente no espaço nacional. E os mesmos níveis de ensino universal, obrigatório, vamos encontrá-los tanto na cidade como no campo. De destacar ainda, a aproximação urbana/rural, trazida pelo desenvolvimento imprimido pelas autarquias locais, pelo fenómeno de uma migração crescente dos nossos jovens do meio rural para a cidade, normalmente designado “êxodo rural”, e ainda por um regular trânsito de uma população flutuante para os principais centros urbanos. A confluência de todos estes factores, conjugados com a tendência mimética de seguir o modelo de fala usada na comunicação social, apresam o crioulo a revestir-se gradualmente de modos e de construção similares aos usados na Língua portuguesa.

Ora bem, a vitalidade e a evolução do nosso crioulo, tem residido também, nessa apropriação que ele vem fazendo da língua portuguesa e da maneira como a incorpora na sua fala e na sua escrita hodiernas.

Estamos cientes de que tal acontece e tem origem em vários factores, dos quais, apenas citamos os considerados mais evidentes: a filiação natural,  a contínua e ininterrupta ligação da Língua cabo-verdiana à Língua portuguesa; a escolarização alargada e universal, que leva a uma maior exposição e contacto dos aprendentes com a Língua portuguesa; uma cobertura nacional dos meios da comunicação social, com os principais programas (noticiários, debates, notícias do desporto, artigos de opinião) em Língua portuguesa; o fenómeno das telenovelas faladas em português, a já denominada globalização, entre outros factores.  E como resultado de tudo isso, temos que o falante do cabo-verdiano escolarizado, vem incorporando com uma notória visibilidade e intensidade, expressões portuguesas “ipsis verbis” com o eventual fito de enriquecer ou precisar a sua mensagem oral.  

Clamo, pois, a vossa atenção para que as escutemos quando presentes em entrevistas de rua ou/e de estúdio, nos discursos políticos; nos programas de educação e de saúde, entre outras participações, radiodifundidas e televisivas, em que ouvimos, diariamente, o falante cabo-verdiano ilustrado ou academicamente habilitado, expressando-se na sua Língua materna, através de vocábulos, de articuladores do discurso, directamente provenientes da Língua portuguesa actual. As mais das vezes, como atrás referimos, sem qualquer alteração ou, transformação (na passagem do português para o crioulo) fonética ou morfológica dos vocábulos.

O mais interessante desta fenomenologia linguística cabo-verdiana sincrónica, é que vão desaparecendo os monemas lexicais e gramaticais; a corruptela dos semantemas; os vestígios que ainda subsistem na Língua cabo-verdiana, cuja origem remonta ao português arcaico do século XV, trazido pelos portugueses; e os substractos das várias Línguas das terras e dos países da Costa africana – Felupe, Jalofo, Balanta, Papel e Bijagó - que aqui aportaram na boca dos escravos.  De facto, já se podem considerar residuais ou, pelo menos, em pouca quantidade, no falante nacional, escolarizado.  Sim, esses adstractos e substractos que conformavam de maneira notória, a Língua materna cabo-verdiana, tendem a desaparecer no modo de falar hodierno do cabo-verdiano. Repito: do falante nacional escolarizado.

Curioso é que se trata de um processo que já havia sido previsto por Baltazar Lopes da Silva, quando, em 1947 no ensaio «Uma Experiência Românica nos Trópicos» afirmava a determinada altura: “(…) um esforço generalizado de aristocratização, cada vez maior, à medida que maior for o derrame da instrução e forem maiores os contactos com a cultura europeia.”

E continuava o nosso eminente filólogo, referindo-se às senhoras e às raparigas “que fizeram o seu Liceu e que contavam em crioulo os romances e folhetins que liam (…) crioulo especial, repleto de fenómenos linguísticos reinóis.”  Fim de transcrição. Ver obra acima citada.

Abro aqui um pequeno parêntesis para ilustrar o facto interessante de Baltazar Lopes da Silva se referir à leitora (e não à contraparte masculina) dos romances recontá-los em crioulo e, deste modo, voltarmos àquela ideia que se tinha em Cabo Verde de que o português era a fala masculina e o crioulo a fala feminina, nas ilhas. Fecho o parêntesis.

O que me espanta – enquanto leitora dos escritos filológicos de Baltazar Lopes da Silva – são a sua profundidade filológica e a sua actualidade, actualidade aliás, que residiu na capacidade extraordinária de prever fenómenos linguísticos, no que ao crioulo cabo-verdiano concernem.

Para além do mais, é curioso o facto conclusivo que B. Lopes da Silva retira da fala crioula na boca do cabo-verdiano escolarizado: (…) do impulso inovador que extrai o seu vigor do profundo sentimento aristocratizante de aproximação do padrão linguístico metropolitano”.

 Nota a destacar, a similitude com o que se passa nos tempos que correm. De facto, actualmente, tornou-se muito mais fácil, para um falante de Língua portuguesa, entender o seu interlocutor cabo-verdiano que não se expresse totalmente em português, visto que a Língua cabo-verdiana se aproximou e vem se aproximando – diria que quase acelerada e quantiosamente (perdoem-me o eventual exagero) – do português. Aliás, tenho ouvido de amigos e conhecidos, falantes da Língua portuguesa que nos visitam a isso referirem-se com alguma frequência.

Pois bem, são observações que faço de forma rotineira, sem qualquer juízo de valor e de forma objectiva, tentando assim, convidar os mais interessados, linguistas ou não, simples falantes do nosso idioma materno e da Língua portuguesa, a interpretar estes sinais linguísticos e dinâmicos (todas as Línguas são corpos dinâmicos em transformação, sincrónica e diacrónica, constantes) que projectam a Língua cabo-verdiana.

Por um lado, essas apropriações, importações ou até mesmo empréstimos (?) que o nosso Crioulo faz de vocábulos, de construções sintácticas e de articuladores do discurso, da Língua  que lhe esteve na origem, só demonstram a riqueza, a  vitalidade crescente do mesmo, o seu grau de desenvolvimento, e a resolução das suas necessidades em matéria semântica ao ir à Língua portuguesa satisfazê-las de cada vez que surge uma situação elocutória em que a Língua cabo-verdiana, não possuindo recursos endógenos, vai  busca-los à Língua matriz. Até aqui tudo certo.

Por outro lado, temo que a tarefa do professor que tem a seu cargo o ensino da Língua portuguesa, seja agora mais complexa e mais difícil, – ainda que com os métodos que se usam para o ensino de uma Língua viva, de comunicação, presente entre nós – dada a mistura e a contaminação dos dois idiomas. Ainda que seja ensinada com os métodos aplicados a uma língua segunda, a uma língua estrangeira, o entranhamento e o entrosamento entre as duas línguas, a cabo-verdiana e a portuguesa, são de tal monta que as duas, na boca do aprendente, se confluem, se misturam e, naturalmente, se contaminam.

Nesta oportunidade, acrescentarei que o professor da disciplina da Língua portuguesa, deve estar bem atento a esses sinais e munido de uma didáctica específica para o ensino do português – Língua viva, Língua segunda e Língua veicular do ensino – e que desta forma, consiga levar a bom porto os objectivos esperados da disciplina. De recordar que estes objectivos, deverão estar focados na compreensão, na leitura, na interpretação de textos e no aperfeiçoamento continuado da expressão escrita e oral do aprendente.

 Para finalizar, solicitarei – apesar da minha formação – como disse alguém: “concedam-me a liberdade própria de um artigo de opinião, sem as obrigações de um ensaio. porque não é deste género de texto – ensaio – que se trata. É de apenas um texto de opinião. Não vá alguém, algum comentador nos media, confundir (como já aconteceu) “Artigo de Opinião” com “Ensaio” ou “Tese Universitária”.

 

 

 

MONTE CARA, O DOS VÁRIOS NOMES

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Por Joaquim Saial

É conhecido o gosto que quase todos temos, sobretudo quando crianças, de vermos no formato das nuvens e rochas rostos e figuras de gente, animais e objectos. Chamam os entendidos a isto pareidolia, exótico nome técnico que caracteriza o fenómeno. Muitos exemplos há dele, nomeadamente no que concerne a rochas. Podem ser provocados pelo ser humano, que na pedra quer retratar alguém ou algo, mas na maioria dos casos o efeito deve-se à erosão recebida durante séculos ou milénios por efeito da água ou dos ventos. Daqueles, temos dois espécimes significativos nos EUA: as cabeças dos presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln esculpidas numa fachada rochosa de Keystone, o monte Rushmore, Dakota do Sul (1927-1941), da autoria Gutzon Borglum, pintor e escultor descendente de dinamarqueses imigrantes nos EUA, e a mais recente, representação equestre do chefe índio sioux Crazy Horse en Black Hills, também no Dakota do Sul (iniciada em 1948 e ainda não concluída), do escultor polaco-americano Korczak Ziolkowski – que, quando finalizada, terá 195 metros de comprimento, por 172 de altura. Nos anos 30, o ditador italiano Benito Mussolini também teve "rosto de pedra" de grande impacto visual no monte Pietralata – artificial, neste caso, feito de blocos de calcário e betão armado, depois destruído por resistentes italianos. Quanto às peças "naturais", a mais famosa de Portugal será a Cabeça do Velho, afloramento granítico situado entre Gouveia e Manteigas (zona da Serra da Estrela); na localidade de Chimoio (antiga Vila Pery), Moçambique, há outra célebre, de bem maiores dimensões; na Austrália, a Split Apple Rock, com aparência de maçã rachada ao meio; e em Cabo Verde, o Monte Cara da ilha de S. Vicente – citámos apenas estes exemplos entre os muitos mais que existem mundo fora. Mas o que para o artigo interessa é obviamente a afamada formação rochosa são-vicentina.

Com os seus 490 metros de altitude máxima, o Monte Cara é uma espécie de guardião ou de figura de convite, situado à direita de quem entra no Porto Grande e motivo inspirador para os mais variados assuntos. O cantor Bana fundou em Lisboa em 1976 o restaurante e sítio de música Monte Cara, primeiro a celebrar os ritmos africanos – em particular os de Cabo Verde – onde tocaram ou cantaram para além do bom gigante nomes como Cesária Évora, Celina Pereira, os irmãos Toy e Paulino Vieira, Armando Tito ou o angolano Valdemar Bastos. No seu disco "Voz de Amor", Cesária cantou "Monte Cara", de Toy Vieira e Luís Lima. Monte Cara é nome de agência bancária no Mindelo, do banco BAI (Angola) e foi-o de editora discográfica (também de Bana) e de grupo mindelense de protesto cívico "Cordá Monte Cara". Vários poetas e escritores, de igual modo o têm inscrito nas suas obras. Por exemplo, Corsino Fortes cita-o seis vezes no livro "A Cabeça Calva de Deus" (2001) e Germano Almeida utilizou-o como título do romance de 2014, "Do Monte Cara Vê-se o Mundo". Coroando este amor dos são-vicentinos e restantes cabo-verdianos pelo seu monte mais distinto, ele tornou-se em 2013 por votação tripartida entre júri, comissão técnica e público como uma das sete maravilhas de Cabo Verde.

O Monte Cara é, pois, "figura" tutelar da ilha onde se alça. Quanto ao seu nome, tem sofrido oscilações ao longo dos tempos. Vejamos todos os que conseguimos encontrar em postais ilustrados antigos (excepto dois casos, surgidos num livro e numa revista portuguesa), diferentes ou variantes do mesmo nome, por ordem alfabética1:

• Cabeça de Washington

• Cabeça do Washington

• Cara de Nelson (revista Occidente n. 439, de 01.03.1891, pág. 51)

• Montanha da Cara (livro “África Occidental – Notícias e Considerações”, de Francisco Travassos Valdez, ed. Imprensa Nacional, Lisboa, 1864, pp. 406/407)

• Monte Cara

• Monte da Cara

• Monte da Cara de Vashinton2

• Monte da Cara de Washington

• Monte da Cara (Washington Head)

• Washington Head

O curioso designativo "Cabeça (ou cara) de D. Afonso Henriques" (neste caso, supostamente baptizado pelos primeiros navegadores chegados a S. Vicente) que o monte também terá tido é versão que por enquanto não nos merece crédito, apenas pelo facto de no ponto onde a obtivemos não se declarar a fonte consultada. Temos assim que "Montanha Cara" é a forma datada mais antiga que conhecemos, de 1864, como acima vimos. A alusão ao almirante inglês Lord Nelson, vencedor da batalha de Trafalgar, é passível de ser atribuída aos ingleses das companhias carvoeiras e de cabo submarino que se estabeleceram em S. Vicente3.  Por outro lado, diz-se comummente que nomear George Washington como "padrinho" do monte dever-se-á ao facto de este ter sido admirado por marinheiros de veleiros americanos que demandavam Cabo Verde, em particular o Porto Grande, em busca de hábeis tripulantes locais para a pesca da baleia4 e que terão achado parecenças entre a "cabeça" rochosa e a do seu primeiro presidente.

"Cabeça de/do Washington", "Monte da Cara de Vashinton" ou o já híbrido "Monte da Cara (Washington Head)" aparecem em postais ilustrados datados entre 1903 e 1953, publicados pelas casas britânicas Godfrey Hastings-Whitley Bay e Matthew Auty Ltd.- Tynemouth, por Giuseppe Frusoni, italiano com casa aberta no Mindelo e pelo igualmente mindelense Café Royal. Sem data que nos permita inseri-los numa cronologia, Giuseppe Frusoni editou postais com o "Monte da Cara de Washington'". Conhecemos um postal "Cabeça do Washington", de Frusoni, datado de 1932, e outro, o mais tardio do género, editado pelo Café Royal (tiragem de 500 exemplares com impressão a cargo da Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, em 3 de Abril de 1953), no qual ainda se identificava o monte como "Monte da Cara (Washington Head)". A hodierna e assente versão “Monte Cara” assoma episodicamente por volta de 1910 num raro postal de que só conhecemos a imagem frontal, embora não a posterior, onde se veria a editora5 – o que quer dizer que afinal “Monte Cara” conviveu desde cedo com os outros nomes bem mais frequentes.

Terminamos este memorial toponímico com divulgação do excerto do texto de Manuel Barradas da revista Occidente que descreve o monte6 e com notícias de dois jornais americanos onde é referido associado a George Washington – que provam que não era desconhecido no exterior, no início do século XX7. Comecemos então pela revista portuguesa, de 1891: “(...) É montanhosa, S. Vicente, contudo a maior elevação das suas montanhas não excede 1000 metros de altura acima do nível do mar, como por exemplo o Tope de Galã [?], o Monte Verde assim chamado pela muita vegetação que o reveste e a montanha da cara de Nelson no norte-noroeste do Porto Grande que banha a vila do Mindelo, principal povoação da ilha de S Vicente. A montanha Cara tem a exacta configuração de um rosto humano, lembrando o topete as cabeleiras de 1790. Os marinheiros chamam-lhe há mais de um século8 a cara de Nelson”. Quanto aos textos dos jornais, o primeiro, com o título "Uma Aberração da Natureza", encontramo-lo no The Morning Astorian (Astoria, Oregon), de 30 de Junho de 1906, página 6; o segundo, cópia quase exacta do primeiro, vem na página 4 do Hyannis Patriot (Barnstable, Massachusetts), de 15 de Janeiro de 1917. Segue-se um resumo da parte igual em ambos: "Entre os muitos monumentos dedicados a Washington, este é aquele que o visitante das ilhas de Cabo Verde lembrará como uma das mais colossais e maravilhosas esculturas naturais existentes. Ao longo de um dos lados do porto de São Vicente, a cidade principal9, ergue-se um ousado cume de rochas vulcânicas cinzentas-escuras, cuja crista forma uma semelhança exacta do nosso imortal George, aparentemente deitado de bruços, como se estivesse num sono tranquilo. As feições grandes e ousadas do herói, o cabelo ondulado para trás, os ombros maciços e até os folhos na frente da camisa10 são todos reproduzidos em escala gigante com exactidão maravilhosa. O estranho monumento bem delineado contra o azul profundo do céu tropical é um dos primeiros objectos que chama a atenção a quem se aproxima da ilha."

ANOTAÇÕES

Postais (datados) obtidos futuramente poderão alterar o que aqui agora afirmamos.

2 Erro ortográfico óbvio.

3 Em 1850, as carvoeiras britânicas já estavam a laborar em S. Vicente e o primeiro cabo submarino foi amarrado na zona da Matiota em 1874 (Western Telegraph Company), com administração da Brazilian Submarine Telegraph. Ver PIRES, Francisca Gomes. O Porto Grande e a Urbe Mindelense na Aurora da Contemporaneidade, Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, FCSH, UNL, 2015.

4 E também a ilha Brava.

5 Existente na James J. Lopes Cape Verdean Postcard Collection, Rhode Island College Library, Providence, RI, EUA. Este é o único exemplar em que se refere “Monte Cara”, das dezenas que conhecemos com a fotografia do monte.

6 Este texto da revista Occidente baseia-se em informações contidas no livro “Africa Occidental – Notícias e Considerações”, de Francisco Travassos Valdez, copiando algumas.

7 Tradução livre nossa.

8 Modernizámos grafia e pontuação do texto. A fazer fé na afirmação, o monte teria o nome de Nelson desde antes de 1791.

9 O mesmo erro da nota anterior.

10 No The Morning Astorian, a camisa é apresentada ao leitor como colonial.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

 

A Terceira Lei de Newton

Por achar oportuno e bem conseguido o texto que se segue da autoria da engenheira Mônica Pinto Ribeiro do jornal Observador; com a devida vénia à autora, e ao Jornal, tomámos a liberdade de o publicar, uma vez que aborda um tema de interesse do leitor do Coral-Vermelho. E para o ilustrar aqui se transcreve a súmula do mesmo assunto explanado no texto e feita pela autora:Livros clássicos e contemporâneos arrastam-se cabisbaixos ao verem que há quem discuta seriamente reescrevê-los à medida dos fanáticos e dos ignorantes. Mas cada acção tem uma reacção - é da Física. (…) Apanhados nas teias do tribunal popular, que se alimenta do equívoco, que acusa, julga e condena à medida de interesses e ideologias, muitos são os livros que se queixam, indignados com as acusações de que são alvo.”

 

 

Por Mônica Pinto Ribeiro*

Clássicos de sempre, lidos e relidos, geração após geração, habituados ao respeito que se deve à cultura e àqueles que a ela se dedicam, repousavam tranquilos nas estantes, alheios aos ventos de mudança que o extremismo à esquerda e à direita preparava com a diligência dos fanáticos e a cegueira dos ignorantes.

Das bibliotecas e das nossas estantes chegam, agora, murmúrios de receio, pois, não se sabe exactamente como, de repente, o impensável se tornou opção, o absurdo se vestiu de normal, a intolerância perdeu pudor e já quase tudo lhe é permitido.

Alarmados, os livros marcam, ao melhor estilo das nossas empresas públicas de transportes, um plenário para discutir o problema e definir formas de luta.

Consta que a Cinderela e a Branca de Neve são perigosas influências para as crianças e suas relações com as respectivas madrastas, a que se vem juntar, no caso da Branca de Neve, o infame pecado de ser branca… como a neve.

Parece que os livros do Tintim são, afinal, colonialistas e racistas, disseminadores de estereótipos e preconceitos que desrespeitam os descendentes de milhões de oprimidos por anos de colonização.

O livro do capuchinho vermelho é acusado de normalizar o uso excessivo da força contra o lobo mau.

A colecção do Astérix, vendo-se acusada de reforçar uma visão estereotipada dos países e dos seus povos, procura em vão lembrar que o humor vive, em grande parte, da caricatura e do excesso.

Uns insurgem-se e prometem luta, outros, aturdidos, recuam envergonhados, culpados de expressar uma qualquer ideia contrária a um dos lados das barricadas erguidas por extremistas à esquerda e à direita.

Tentam explicar que, noutros livros, fala-se de regimes autoritários que, em tempos idos, na velha Europa, queimaram e censuraram livros e recordam que em muitos outros livros conta-se a História que é preciso conhecer para compreender o enquadramento social, cultural e político de cada época, exercício indispensável para se apreciar, entender e respeitar qualquer obra que se leia.

E eis que chega o dicionário, o livro que é pai das palavras. E, como todos os pais, sai em defesa dos filhos.

Começa com o exemplo da palavra ”preconceito”, injustamente maltratada, cujo significado ficou refém de uma conotação pejorativa, que impede os mais apressados de compreender o seu verdadeiro sentido.

Diz que a palavra “preconceito” está arrasada, deprimida, sente-se incompreendida, é vítima de bullying, sofre porque todos falam mal dela. Não tem amigos.

E a palavra “preconceito” não é a única a ver a sua saúde mental comprometida pois, garante o dicionário, há inúmeros casos de palavras que já ninguém respeita, como civilidade, ética, dever, coerência, honestidade, decência, responsabilidade, humildade…. Com a idade, foram trocadas por outras, como carisma, força, mediatismo, popularidade… enfrentam um sério problema de autoestima.

O dicionário refere o caso especialmente preocupante da palavra ”verdade”, abalada por uma grave crise de identidade. Já ninguém sabe o que é a verdade.

Nos jornais, televisões e redes sociais, vê-se políticos e cidadãos a faltar à verdade, a juntar, em discursos vazios, desventuradas palavras que se encolhem vexadas, quando se descobrem metidas em tão lamentáveis preparos.

Durante a pandemia, boatos e mentiras contestaram a opinião de especialistas, desvalorizaram recomendações médicas, promoveram a desconfiança contra as vacinas e acabaram por custar a vida a muitos daqueles que, enganados, trocaram o saber científico por teorias da conspiração e esqueceram o significado da palavra “verdade”.

Depois há o caso das palavras “fascismo” e “radicalismo”, que, de tão solicitadas, sentem-se exaustas, à beira de um burnout. Vulgarizadas, aplicadas em excesso e por excesso, descobrem-se, subitamente, apartadas da importância que carregam. Antes usadas com a prudência que o seu significado impõe, são, hoje, utilizadas sem o cuidado, a solenidade e o recato que costumavam merecer.

Aos adjectivos, determinantes, pronomes e artigos há quem queira retirar as letras que lhes definem o género, amputando-os dos seus vetustos “a” e “o”’ para enxertar o indiferenciado “e”, transformando-os num Frankenstein ortográfico, sugestão a que o livro de Mary Shelley reage com pesar, pois, melhor do que ninguém, sabe que os monstros acabam, inevitavelmente, por virar-se contra aqueles que cometem a imprudência de os criar.

Diz o dicionário que, entre livros, palavras e o uso que deles fazem os homens, reina o caos no mundo das humanidades e das ciências.

Os problemas alastram e, psicologicamente afectados, há inúmeros livros e palavras a aguardar consultas no SNS, mas tardam em ser chamados, dizem-lhes que estão em lista de espera…

O dicionário regressa à palavra “preconceito” para explicar que somos todos preconceituosos porque, sendo o preconceito o resultado das nossas próprias experiências e do que ouvimos e vemos ao longo da vida, todos, sem excepção, formamos, involuntariamente, ideias pré-concebidas sobre a maioria dos temas.

Mais explica o dicionário que o preconceito é uma forma de aprendizagem e uma consequência desse mesmo processo de aprendizagem e que o problema não está nos nossos preconceitos, mas no que fazemos com eles e, por isso, a palavra que interessa é “escolha”.

Mais do que depressa, o livro Harry Potter e a Câmara dos Segredos junta-se à discussão para citar um dos seus personagens, Albus Dumbledore, que, muito oportunamente, explicou ao protagonista da saga que aquilo que nos define não é o que somos, mas as nossas escolhas.

Embalado pela achega de “Harry Potter”, o dicionário explica que, vez por outra, todos somos testados pelos nossos preconceitos e que o verdadeiro desafio reside em sermos capazes de, na solidão das nossas reflexões, reconhecer a diferença entre o certo e o errado e fazer as boas escolhas, decidindo não de acordo com os nossos preconceitos, mas apesar desses preconceitos.

O dicionário esboça um sorriso triste e recorda que, outrora orgulhosos, muitos dos nossos livros, clássicos e contemporâneos, arrastam-se, hoje, cabisbaixos, perplexos por perceberem que há quem discuta, seriamente (se é que tal advérbio pode ser aqui utilizado…) a possibilidade de excluir ou reescrever determinadas obras à medida dos que renegam a ciência e dos que não enquadram, não pensam e não percebem que os livros são, sempre, um reflexo do seu tempo e um ponto de partida para compreender a evolução desse mesmo tempo.

A leitura, a educação, a ponderação justa e equilibrada de contextos e conjunturas promovem a compreensão do outro e são a base para o respeito e a sã convivência entre diferentes culturas, única forma de promover, verdadeiramente, o entendimento entre pessoas e povos e evitar derivas autoritárias e extremistas, contrárias aos valores das democracias ocidentais.

Esgotado o anacrónico discurso do proletariado contra o grande capital, a esquerda radical teve de se reinventar e fez das causas identitárias e do activismo climático radical as suas novas bandeiras, promovendo e exacerbando as suas manifestações mais extremadas.

Era apenas uma questão de tempo até que os excessos defendidos e cometidos, viessem cobrar a sua factura.

Essa factura chegou-nos da extrema-direita, através de fenómenos mais recentes, mas igualmente perigosos, como o negacionismo, o terraplanismo, o criacionismo e outros “ismos”, que ignoram o saber científico, muitas vezes a duras penas conquistado.

Hoje, muitos são os que, alheios aos conselhos daqueles que escrevem e lêem os livros, decidem contestar a importância das vacinas, negar as alterações climáticas, afirmar que a terra é plana, contrariar a teoria da evolução e declarar falsa a chegada do homem à lua…

O problema de negar o conhecimento científico é que, ao contrário do que acontece com as letras, o mundo da ciência está assente em leis que os homens não podem mudar ou interpretar ao sabor da sua vontade ou ideologia.

Com o resultado das últimas sondagens à vista de todos e com aquilo que se vai assistindo nos Estados Unidos e um pouco por toda a Europa, muitos se interrogam sobre os motivos do crescimento da extrema-direita.

A resposta a essa questão está, como não poderia deixar de ser, nos livros, mais precisamente naqueles que nos ensinam as leis da física.

Posto isto, é chegada a hora de regressar aos trabalhos do plenário para assistir à intervenção do honorável livro Philosophiae, Naturalis, Principia, Mathematica, publicado por Isaac Newton no século XVI.

O ilustre livro começa por explicar que a Terceira Lei de Newton, nele enunciada (também conhecida por Princípio da acção-reacção), estabelece que cada acção de intensidade, direcção e sentido exige uma força de sentido contrário e igual direcção e intensidade para, de seguida, concluir que, em consequência da citada Lei, o crescimento da extrema direita será tanto maior quanto maior se mantiver o extremismo à esquerda. Física pura…

O plenário já vai longo quando os livros, cansados e preocupados com este mundo em que os extremos se tocam, esmagando o centro, habitual reduto da sensatez e do bom senso, declaram-se inconformados, decidem que irão lutar e que o farão com as suas armas de sempre, o conhecimento que acolhem nas suas páginas.

Generosos, os livros disponibilizam-se para ser lidos até à exaustão. Não se importam de fazer horas extras, de adiar as férias e prescindir de fins de semana, de estar na linha da frente e de passar de um leitor para outro, sem descanso. Fá-lo-ão até que as suas páginas se soltem e se percam, até que as suas letras se esbatam, até que voltem a ser fonte privilegiada de saber, até que as pessoas reaprendam a pensar…

Os livros, remédio para as dores da alma e terapêutica segura contra a ignorância, são de venda livre, podem ser consumidos sem moderação, diariamente, a qualquer hora, em qualquer lugar, por adultos e crianças, antes ou depois das refeições e causam habituação.

Nesta contenda, estou, como sempre, ao lado das palavras e dos livros, a quem aproveito para homenagear pois, companheiros de uma vida, quando me chega a dúvida, me falta a calma ou me assolam as angústias, é neles que encontro distracção, conforto, conselho, inspiração e que recupero a fé na humanidade.

*In: Jornal Observador de 28 de Janeiro de 2024.

 

Da verdade de cada um e cada qual no debate político

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

 

Por Adriano Miranda Lima[i]

Para desgosto dos que acreditam piamente nas virtudes da democracia liberal, é cada vez mais corrente a ideia de que a política é o campo das relações humanas onde a palavra verdade sofre os mais graves tratos de polé. Claro que é fenómeno que só podia observar-se na democracia, porque nos regimes autoritários a verdade é só uma, a de quem captura e manipula o poder. Dir-se-á que aí a palavra verdade é apagada dos dicionários. O exemplo mais flagrante nos nossos dias vem da Rússia de Putin, mas não só, porque angustiosamente vamos acompanhando os sinais de recessão da democracia um pouco por todo o lado, como aconteceu recentemente na Argentina de Milei.

Mas, afinal, o que é a verdade, a questão que nos interpela? A semiótica conduz-nos a vários significados da palavra. Se é a verdade do ponto de vista judicial, trata-se da conformidade com factos apurados numa dada circunstância. Se é a verdade histórica, a questão tem a ver com hermenêutica. Se é a verdade científica, é o resultado da interpretação da realidade através da razão e dos instrumentos e técnicas disponíveis num dado momento.

Fazendo uso de uma curiosa metáfora, um amigo e correspondente afirmou-me que a verdade é “um ponto no infinito”. Inclinar-me-ia a pensar que a verdade na política é a que mais devia tentar aproximar-se desse “ponto no infinito”, já que o infinito é para onde tenderá a verdade absoluta, total e universal, quer dizer, a verdade na sua acepção metafísica. O filósofo é quem especula e teoriza sobre a verdade absoluta, enquanto para o político ela é, ou devia ser, a referência ética que lhe inspira as congeminações da retórica discursiva com que procura convencer o eleitorado e pleitear com o adversário político. Assim, o conceito de verdade que lhe interessa é de natureza epistemológica, é o que se traduz em realidades objectivas abarcando estes três mundos coexistentes: o mundo que os sentidos apreendem; o mundo das emoções; o mundo das concepções. Ora, é a inter-relação entre esses mundos que define o campo das experiências sociais onde o homem busca conhecer-se e confrontar-se com os desafios da sua existência. E é ali que ele procura conceptualizar ideias e soluções para viver em sociedade numa relação de partilha e disputa com o seu semelhante e de envolvimento com o meio natural.

Mas é a realidade política que a toda a hora nos fornece evidências da degradação a que está hoje sujeito o debate de ideias, por culpa de actores políticos que, não ignorando a verdade kantiana de que “os conceitos são transitórios e só a verdade é definitiva”, contudo pouco fazem para valorizar e dignificar as ideias que perfilham. E é desta forma que a actividade nobre que é a política se vê frequentemente emporcalhada por linguagem agressiva, ordinária e panfletária, as mais das vezes como recurso para preencher o vazio das ideias.

Basta assistir a um debate parlamentar para colher os exemplos mais diversos. A rejeição sistemática das soluções políticas do adversário é incompreensível, quando não se tem alternativas válidas e devidamente fundamentadas. Discursos ambíguos, vazios e muitas vezes contraditórios só para contrapor ao argumento do partido opositor, pode valer como espectáculo circense, mas atenta contra a dignidade do debate político. Proclamar que tudo o que fez o adversário está errado e que importa derrogá-lo em proveito da minha solução, evidencia uma visão maniqueísta da realidade, entorpece a discussão democrática e estorva a resolução dos problemas colectivos. O mais grave é quando forças políticas com representação parlamentar exponenciam no seu discurso a expressão mais odiosa e violenta da sua oposição aos valores do próprio regime democrático. Lamentavelmente, tornou-se banal chamar mentiroso, ou simplesmente insinuá-lo, a um adversário no parlamento, coisa que noutras circunstâncias teria de exigir retractação imediata. Longe vai o tempo em que injúrias desta natureza exigiam lavagem de honra com sangue, como aconteceu em 1908 entre os deputados Dr. Afonso Costa, republicano, e conde de Penha Garcia, monárquico, num duelo de espadas que, felizmente, terminou sem danos físicos para além de um ligeiro ferimento num braço do deputado republicano.

Posto isto, seria enterrar a cabeça na areia se não se reconhecesse que a verdade e a política dificilmente se conciliam quando são os próprios políticos que, com a sua prática, contribuem muitas vezes para a denegação de ambos. A solução reabilitadora da política consistirá em carrear para as suas fileiras os melhores da sociedade nas ciências, na cultura e nas artes. Mas isso não se resolve com uma varinha mágica. É preciso que toda a nação convirja nesse sentido. É preciso que quem aceite um cargo político não seja logo à partida alvo de suspeição ou vigilância judicial. E interessará que a comunicação social saiba reabilitar-se para não se confundir com as redes sociais, deixando de ser meio difusor do que pior acontece no país, enquanto silencia ou coloca em nota de rodapé o que prestigia e promove o país, com ganhos para a auto-estima nacional.



[i] Escreve conforme a ortografia anterior ao AO90

Salvé! 13 de Janeiro sempre!

sábado, 13 de janeiro de 2024

 


Dia ímpar por nós vivido no ano de 1991, em Cabo Verde.

Nunca é demais recordar aquele dia em que pela primeira vez (foi mesmo a primeira vez!) na nossa história recente, o povo de Cabo Verde se tornou eleitor livre, com verdadeira opção; e foi chamado às urnas para depositar o seu voto, que representava a sua livre escolha de Deputados, agregados a um dos dois Partidos políticos na altura, o PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde) e o MPD, Movimento para a Democracia) para o Parlamento nacional.

Sim, vivemo-lo – o 13 de Janeiro de 1991 – com intensa emoção! Com um sentimento de liberdade e com a profunda convicção no advento da democracia que percorriam com intensidade, estas ilhas atlânticas.  

Os resultados das urnas – vitória para um, e derrota para outro – foram importantes sim, porque propunham uma mudança, uma alternativa. Mas o mais importante de tudo, e que constitui a essência da celebração hoje, do 13 de Janeiro, é a liberdade de escolha eleitoral que trouxe a cada cidadão das nove ilhas do Arquipélago.

O 13 de Janeiro de 1991, foi pensado e edificado por homens e mulheres deste pequeno país insular, que sempre almejaram a sua liberdade e acreditavam nas virtudes da democracia.

O 13 de Janeiro de 1991, trouxe a cada cabo-verdiano a noção plena do Ser cidadão, dando-lhe a capacidade e o poder de escolher - sem quaisquer outros condicionalismos que não seja a sua consciência - o seu representante, para as tarefas ingentes da administração e do desenvolvimento do país. Esta é a virtude-mor do 13 de Janeiro de 1991 e razão pela qual, com um sentimento de recuperação da dignidade humana – liberdade – e de pertença à causa democrática, o celebramos anualmente, recordando-o com consideração, alegria, exaltação e muito apreço.

 Acontece que, ao receber hoje, o “bom dia” habitual dos nossos filhos, o mais novo, (que naquela altura ainda se encontrava em casa paterna, estudante liceal) acrescentou que jamais esquecerá a forma entusiástica e exultante, como vivenciou o 13 de Janeiro de 1991. Tinha ele 15 anos. Percorreu, na companhia do pai as ruas da cidade da Praia, que estavam em festa, tamanha era a alegria de todos para esse despertar de liberdade e da democracia que a partir de aí passou a ser norma e lei em Cabo Verde.

De facto, já se passaram 33 anos sobre aquele momento histórico inolvidável e a sensação de euforia inexcedível e profunda como o vivemos, permanece em nós, suas testemunhas, como um marco de suprema referência da História de Cabo Verde.

E tal como comecei este escrito, assim o vou terminar: Salvé! 13 de Janeiro, sempre!

Mas qual socialismo?[ii]

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Por Adriano Miranda Lima[i]

Com frequência, se ouviu nos últimos tempos, entre políticos de partidos da chamada direita, a exclamação tonitruante de que é preciso “acabar com o socialismo”, “mandar o socialismo para casa”, “libertar Portugal do socialismo”. Claro que o alvo dessa disparatada fraseologia é o PS, devido ao nome do partido e, sobretudo, por ser o que tem governado nos últimos anos. Para os seus críticos e detractores, o socialismo congrega todos os malefícios como ideologia política, ao passo que o capitalismo livre de amarras e contingências – ou seja, o neoliberalismo − é o redentor da felicidade humana.

O truque consiste na grosseira mistificação que é associar intencionalmente o socialismo às experiências fracassadas do socialismo/comunismo na União Soviética e outros países onde o marxismo-leninismo foi aplicado sob a égide da marca rubra do estalinismo. Só que o socialismo é uma ideologia que não é susceptível de uma visão redutora, dado que qualquer produto da idealização humana resulta de um diálogo entre a mente e as motivações morais e psicológicas que determinam o comportamento, este sempre complexo e imprevisível. O socialismo nasceu na Europa, nos finais do século XVIII, para tentar corrigir as desigualdades sociais criadas pela industrialização, na sequência da Revolução Industrial. A finalidade era transformar a sociedade capitalista em comunidades mais justas e mais igualitárias, ideal que afinal se compagina com os princípios do humanismo cristão. Não faltam classificativos para o socialismo, desde o “socialismo utópico”, concepção genérica que pressupõe os seus objectivos passíveis de serem atingidos sem a destruição do capitalismo, ao “socialismo científico”, corrente de pensamento protagonizada por Marx e Engels, para quem o socialismo só seria possível com a destruição do capitalismo, a estatização da economia e a ditadura do proletariado. A primeira corrente é reformista e mantém-se incólume na sua índole e na perseguição ao ideal de maior igualdade e justiça social. A segunda corrente é revolucionária e os seus resultados revelaram-se até hoje infrutíferos e desastrosos, podendo dizer-se que tende a pertencer ao domínio da arqueologia.

O socialismo que segue a via reformista identifica-se com o chamado socialismo democrático e a social-democracia, ambos tencionando encontrar respostas políticas e soluções económicas e sociais em oposição ao que foi ensaiado nos regimes totalitários. Preconizam que a sociedade socialista pode ser construída através da democracia pluralista e preservando a economia de mercado, desde que o Estado crie as condições essenciais que reduzam as desigualdades entre os cidadãos, como a saúde, a educação, a habitação e outras formas de apoio social. Há uma proximidade doutrinária entre o socialismo democrático e a social-democracia, mas pode dizer-se que a diferença entre um e outra pode estar mais na expressão terminológica do que no conteúdo ideológico. Dependendo necessariamente de cada realidade nacional – designadamente, ao nível da cultura e das mentalidades – o grau de intervenção do Estado na construção da economia e das estruturas de apoio social é que em concreto exprimirá uma maior ou menor propensão para uma ou outra modalidade. Porém, a dúvida surge quando se verifica que nos países – da Europa do Norte – onde o socialismo de expressão democrática mais vingou, os partidos que o realizaram têm na sua maioria a designação de “social-democrata”. Deste modo, é possível que as duas designações sejam encaradas como sinónimas uma da outra, tornando irrelevante a questão terminológica.

Reportando à integridade do ideário programático inicial dos nossos partidos, o PS se reclamava do “socialismo democrático” e o PPD/PSD da “social-democracia”, bem entendido. E em resposta às verberações dos radicais e populistas da direita contra o socialismo, o mínimo de honestidade intelectual obriga a que se reconheça que até hoje não houve qualquer forma de socialismo em Portugal, ou social-democracia. E eu, que sou adepto desta ideologia, acreditando que é a melhor solução para o nosso país, digo que infelizmente é assim. Com efeito, lembre-se que em 1978, na tomada de posse do segundo Governo Constitucional, numa coligação entre o PS e o CDS, liderado por Mário Soares e Freitas do Amaral, o primeiro o afirmou: “não se trata agora de meter o socialismo na gaveta, mas de salvar a democracia". Aludia às dificuldades da economia portuguesa agravadas com as convulsões sociais então desencadeadas e que tinham obrigado à primeira intervenção do FMI, em 1977, a pedido do mesmo Mário Soares. Desde então, não se pode dizer que o socialismo, na sua pureza programática, tenha alguma vez saído da gaveta, mesmo que ao longo dos governos que se seguiram se tenha criado o Serviço Nacional de Saúde e introduzido medidas de protecção social, como o Rendimento Mínimo Garantido e outras, sempre por iniciativa do PS, porém sem que haja equivalência com o progresso social alcançado com os modelos de social-democracia praticados nos países nórdicos.

Contudo, é lícito afirmar que, dos dois partidos do poder, o PS é o mais vocacionado para a defesa do Estado social que nenhum português de boa mente pode renegar, ao passo que o actual PSD pouco ou nenhum jus faz à sua designação de partido social-democrata. Assim, a realidade objectiva manda reconhecer que o PS é actualmente um partido social-democrata com prática liberal, enquanto o PSD é um partido do centro-direita com prática neoliberal. Se algo fez inflectir os propósitos iniciais dos dois partidos, em parte pode ser atribuído a conjunturas nacionais restritivas e também a condicionalismos externos, além das responsabilidades próprias.

Por isso, os medos e os fantasmas que alguns políticos extremistas tentam impingir ao eleitorado não fazem qualquer sentido e têm de ser vigorosamente denunciados, sob pena de deixar que se passe um atestado de menoridade mental ao nosso povo. Deixo aqui os meus votos de um bom Ano ao Templário e aos seus leitores, desejando que as nossas mentes se iluminem no momento em que avaliamos o que é o mais conveniente para o nosso futuro próximo.



[i] Escreve de acordo com a ortografia anterior ao AO90

[ii] Publicado no jornal Templário de Tomar