O terrorismo bateu à porta do Natal

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
 Quando o governo francês se debate com os tumultos provocados pelos Coletes Amarelos, eis que ocorre um atentado reclamado pelo Jihadismo, como que a não querer deixar os seus créditos por mãos alheias, ou… usurpados por mãos impuras. O problema é que a primazia do protagonismo não é aqui fácil de mensurar porque, nos dois casos, a violência se diferencia tanto na sua substância activa como nos seus objectivos, ou ausência deles. Com mais ou menos concessões, os governantes podem travar, atenuar ou adiar os tumultos sociais, negociando olhos nos olhos com sindicatos ou líderes sociais. Com o terrorismo islâmico, o mesmo não é fácil porque nenhum caderno reivindicativo se apresenta com verbo decifrável e nenhum interlocutor se senta à mesa da negociação de boa mente e rosto descoberto.
      Segundo constou, o autor do atentado, Sherif Chekatt, não estava identificado como membro de qualquer célula terrorista, assim como não está ainda suficientemente comprovado que o seu acto teve por trás uma clara motivação islâmico-terrorista. No entanto, conforme noticiou o jornal Le Parisien, Sherif Chekatt gritou "Allahu Akbar" enquanto disparava contra a multidão de pessoas inocentes, e disse ao taxista que o transportou que quis "vingar os seus irmãos mortos na Síria". Mais diz o jornal que só não matou o taxista porque este revelou-lhe ser muçulmano praticante.
      O que também tem suscitado alguma dúvida é o facto de o terrorista ter sido um cadastrado por delitos do foro comum, admitindo-se que possa ter agido por um impulso demencial semelhante ao de cristãos que pegam numa arma e desatam a ceifar vidas humanas, como frequentemente acontece nos Estados Unidos da América. E também nada demonstra o facto de o chamado Estado Islâmico ter reivindicado o acto como tendo sido cometido em seu nome, visto que essa organização sistematicamente assim procede. De igual modo, não há prova de que o terrorista se tenha querido imolar como “mártir” pela causa do Islão, pois caso contrário teria oferecido o peito às balas dos seus captores, em vez de fugir. Depois, não é crível que alguém nascido e educado em França e ainda por cima com uma conduta transgressora das regras sociais possa acreditar na patranha das 70 virgens que no céu aguardam o mártir pela fé muçulmana. Até é possível que ele soubesse que o historiador tunisino Mohamed Talbi desmistificou o sentido dessa crença ao esclarecer que tudo não passa de um equívoco, pois um lapso na tradução é que fez passar a ideia de que são 70 virgens quando se trata apenas 70 bagos de uva (1).
      Em todo o caso, se não foi uma acção puramente jihadista, o seu autor tudo fez por isso. Até porque escolher como alvo o mercado de Natal de uma cidade cristã é mais susceptível de indiciar uma intencionalidade religiosa do que um simples acto tresloucado.
      Para o académico americano Martin Kramer (2), a única forma de derrotar o terrorismo islâmico “é enfraquecer a sua lógica moral, encorajando os muçulmanos a ver a sua incompatibilidade com seus próprios valores.” Mas a dificuldade está em descortinar uma “lógica moral” no terrorismo islâmico, porque para isso a interlocução dialéctica teria de assentar em princípios epistemológicos reconhecidos pelas partes em confronto, sem o que seria um perfeito diálogo de surdos. Além disso, como pode a lógica moral estar presente em condutas irracionais e violadoras dos mais elementares valores do humanismo universal? Adolf Hitler não obedecia a qualquer lógica moral quando proferiu as seguintes palavras num discurso dirigido aos oficiais das SS em Kharkov em 19/04/1943: “A melhor arma política é a arma do terror. A crueldade gera respeito. Podem odiar-nos, se quiserem. Não queremos que nos amem. Queremos que nos temam.”
      É isto que parece acontecer com o terrorismo islâmico. Mais do que importar-se com uma arma política alicerçada em pressupostos racionais, o objectivo é o terror pelo terror, expressão de um fanatismo levado aos limites da sua exacerbação.
      Porém, o que está em causa é a perversão dos princípios e da prática do Islamismo, que na sua essência original muito tem de comum com o Judaísmo e o Cristianismo. De facto, as três religiões monoteístas possuem mais semelhanças que diferenças e estas se cingem mais à práxis que ao substrato teológico, pois que os seus princípios ético-morais foram colhidos na mesma fonte onde bebeu o profeta Abraão, que é comum aos três credos. Os seus livros sagrados −Torá, Bíblia e Alcorão – não só pregam idênticas virtudes básicas como são todos raiados de uma mesma visão radical, severa e austera sobre o homem e o mundo.

      E quando hoje se fala de fundamentalismo religioso, esquece-se que o fenómeno existiu e existe nas três religiões monoteístas, embora com manifestações diferentes, e que certas formas de fundamentalismo são mais produto da nossa era do que dos tempos medievais. Por exemplo, no Cristianismo o fundamentalismo propriamente dito surgiu nos meados do século XIX e tomou forma de letra em 1910 quando presbiterianos ligados à universidade americana de Princeton publicaram uma pequena colecção de doze panfletos intitulada “The Fundamentals”, em que se propunha um Cristianismo extremamente rigoroso, ortodoxo, dogmático, como orientação contra a modernização acelerada que ocorria na sociedade norte-americana no domínio tecnológico mas também da espiritualidade. Para esses fundamentalistas, a Bíblia é o fundamento básico da fé cristã e portanto deve ser tomada à letra: cada palavra é de inspiração divina e como Deus não pode errar, então tudo na Bíblia é verdadeiro e imutável. É por uma perversa interpretação da Bíblia que volta e meia alguns possessos de fanatismo religioso cometem assassínios que na sua tipologia pouco diferem das práticas do terrorismo islâmico.
      Só que o Cristianismo condena as práticas extremistas e odiosas que se verificam no seu seio, e mesmo quaisquer leituras radicais contemporâneas que subsistem não têm qualquer significado num mundo ocidental laico e identificado com os valores da ciência e com as metamorfoses do progresso. O mesmo não se pode dizer da região mais conturbada do mundo muçulmano, O Médio Oriente, porque nela têm voz activa religiosos obscurantistas e autocratas agarrados a uma visão tão retrógrada do Corão que rejeita liminarmente o progresso universal.   
      Ainda assim, o cientista político americano de origem indiana Fareed Zakaria (3) desmistifica alguma visão errónea que se tem do mundo islâmico ao lembrar-nos que a prática terrorista é fortemente repudiada pela maioria do mundo muçulmano. Adianta que o terror “islâmico” não é a bandeira de uma religião, cultura ou civilização, e que o radicalismo islâmico é impopular e a maioria dos muçulmanos não deseja uma teocracia. E, numa revelação mais prosaica, revela que as pessoas no mundo muçulmano preferem viajar para ver o luxo em Dubai e não as madrassas em Teerão, lembrando ainda que metade dos países muçulmanos do mundo – cerca de 600 milhões de habitantes – tem eleições e que os partidos ligados ao radicalismo islâmico raramente alcançaram mais do que 7% ou 8% de votos nos escrutínios eleitorais. 
      As ciências políticas e sociais debruçam-se sobre a origem e as causas dos problemas e não raro deparam com um conjunto intricado de factores encadeados numa relação que torna difícil isolar causas e efeitos. Creio que é o caso do fundamentalismo islâmico e do terrorismo jihadista. Analisando: o mundo ocidental não pode descartar responsabilidades em relação às suas políticas seguidas no Médio Oriente, no passado como no presente; na actualidade, ninguém ignora a hipocrisia das relações do ocidente com alguns estados árabes produtores de petróleo, em que os valores e os princípios são postergados em função da lógica do negócio do petróleo e armamento, dando azo a que se proceda com pesos e medidas diferentes para as mesmas situações; em algumas sociedades europeias, fruto de uma emigração pouco criteriosa no passado, existe uma combinação tóxica de guetos sociais, marginalização e desemprego que as transforma em viveiros do jihadismo.
      Por tudo isto, e pelo comprometimento das liberdades e da segurança colectiva, todos devem empenhar-se na análise e resolução de um problema que é comum, atacando as suas causas profundas, num diálogo intercultural que deve envolver o ocidente e o mundo islâmico. O objectivo deve ser abrir as mentalidades e modernizar o mundo islâmico, de modo a que este perceba quão utópica é a ideia de uma “ciência islâmica” diferenciada da ciência universal. Parte importante da iniciativa deve competir ao mundo muçulmano, o que tem de passar pela retirada do aparelho educativo das mãos dos religiosos, cujos efeitos não deixarão de reflectir-se numa progressiva secularização de todos os sectores da sociedade, desde a cultura à economia. Proceder de modo contrário, insistindo nas teocracias, é não fazer jus ao legado cultural muçulmano de outrora, em que pontificaram intelectuais e sábios de renome universal como Averróis, Avicena e Ibn Khaldun, entre muitos outros, que são hoje negligenciados, se não mesmo repudiados pelos fundamentalistas.
      Embora o quadro pessimista, a revelação feita por Fareed Zakaria sobre a preferência turística dos muçulmanos pode ser sinal de uma realidade social com mais peso futuro que o fundamentalismo de uns quantos seguidores de um Corão adulterado na sua versão original.
      Mas o importante é que o Espírito de Natal sobreviva a todos os atentados. Boas Festas para o Templário e seus leitores.

Tomar, Dezembro de 2018
Adriano Miranda Lima

(1) Arsénio de Pina refere-o no seu artigo “Do Islamismo Político-Terrorista”, de Setembro de 2018.
(2) Debate entre os cientistas políticos norte-americanos Martin Kramer e Robert Pape, em 08/11/ 2005, sobre o Terrorismo Islâmico.
(3) Texto da sua coluna intitulado “É preciso dividir o Islão para vencer”, publicado na revista Época, edição nº 480, Rio de Janeiro, em 30/08/2007.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018
A BATALHA DE MONTES CLAROS E O SEU SIGNIFICADO NA ESTRATÉGIA DA RECONQUISTA DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL                                                       

                                                     

      A batalha de Montes Claros, ferida em 1665 no lugar alentejano conhecido por esse nome, foi a cartada final da estratégia militar portuguesa para a defesa da independência nacional. Longo fora o percurso iniciado no Terreiro do Paço em 1 de Dezembro de 1640, mas a decisiva vitória alcançada em Montes Claros conduziria ao acordo de paz entre os beligerantes.

      A vitória obtida nesta batalha foi, assim, o corolário de toda uma estratégia geral iniciada por D. João IV que, em crescendo, e tendo mais tarde à frente o 3º conde de Castelo Melhor e o conde de Schomberg, viria a aprontar Portugal com as condições necessárias para se poder opor, decisiva e energicamente, aos desígnios unificadores da Espanha.

      No âmbito da estratégia política interna, foi decisiva a política de afirmação da autoridade do monarca restaurador, em simultâneo com a recuperação económica e financeira do país levada a cabo com o lançamento do imposto de guerra e outras medidas paralelas. Não foi fácil vencer a oposição de indecisos, oportunistas e prosélitos remanescentes do rei de Espanha, que se manifestaram nos primeiros anos da Restauração, congeminando erupções conspiratórias. Por vezes, foi preciso usar de pertinácia e ductilidade táctica na relação com os sectores sociais mais influentes, em especial com a Igreja e a Inquisição, quando as prioridades do Estado colidiam perigosamente com interesses particulares ou quando a finalidade da repressão religiosa se confundia sub-repticiamente com objectivos inconfessáveis. 

      Reorganizou-se a estrutura de direcção política do Estado, na metrópole e no ultramar, e retomou-se gradualmente o controlo militar e administrativo de todos os domínios, à excepção de Ceuta, que nunca se recuperou. Se tivermos em conta a diferença abismal entre as tecnologias do mundo de hoje (projecção de meios militares em teatros de operações distantes, comunicações, transportes, etc) e os recursos disponíveis no século XVII, a acção empreendida por Portugal foi algo de verdadeiramente colossal, o que nos impele a reflectir sobre a tibieza e a frouxidão de ânimo que às vezes parecem tolher os nossos passos nos desafios da actualidade, tanto
mais quando, ontem como hoje, éramos um país de bem menor capacidade demográfica que os seus opositores, na disputa dos mesmos interesses.

      Mas a estratégia militar é seguramente a menina bonita do esforço realizado por Portugal ao longo da trajectória da Restauração. Partindo de uma situação de manifesta vulnerabilidade e de potencialidades diminuídas, foi preciso mobilizar a nação para pegar em armas e defender a sua independência contra um dos mais poderosos, experimentados e modernos exércitos da Europa. Portugal não possuía praticamente exército em 1640, pelo que foi preciso recuperar os alicerces das antigas estruturas institucionais para obrar um aprontamento militar à altura das circunstâncias. A luta pela defesa da independência foi um continuum de esforço e de vontade que atingiu o cume quando o notável estadista, conde de Castelo Melhor, tomou nas suas mãos as rédeas do país. Uma das cartadas decisivas foi a escolha do Alentejo como o teatro de operações onde tudo se decidiria, bem como a percepção da importância fundamental dos serviços do conde de Schomberg, cujo papel foi decisivo na modernização e actualização doutrinária do exército e na condução das batalhas finais e decisivas.         É certo que a Restauração ficou decisivamente a dever-se às elites sociais que nunca sentiram estiolar o seu amor pátrio e que, junto do seu Rei, fizeram a balança pender para o lado do Portugal livre, nos momentos em que alguns quiseram lançar a dúvida e semear o descrédito. Mas o povo anónimo, tal como já acontecera na revolução de 1385, foi uma constante de patriotismo e generosidade em todas as horas críticas, desde o Terreiro do Paço em 1 de Dezembro de 1640 ao campo de batalha em Montes Claros, em 1665. O patriotismo pode, em certas conjunturas, andar aos baldões no coração de certas classes sociais, mas na alma do povo é nas horas difíceis que esse sentimento ressuscita com mais vigor e energia.

      Neste novo século, os desafios que enfrentamos são incomparavelmente menos espinhosos do que os que arrostámos naqueles tempos dramáticos de outrora, quando o preço a pagar pela nossa indiferença ou pusilanimidade seria por certo a perda da independência. Hoje, as armas que queremos utilizar são para um campo de batalha diferente, porventura benigno mas nem por isso menos exigente, pois a vitória que almejamos é sobre a pobreza, o atraso e a ignorância. Hoje, a Espanha é um país vizinho com o qual não rivalizamos senão na porfia da inovação, do querer e da determinação, para construirmos, cada um a seu modo, sociedades humanas tão dignas e tão prósperas como as mais avançadas. Contudo, nesta encruzilhada para a construção do futuro, é importante ter sempre presente que as armas podem ser diferentes, mas a alma com que as brandimos em nada pode diferir daquela que agigantou os nossos antepassados naquele dia 17 de Junho de 1665 em Montes Claros.   

                                           

Adriano Miranda Lima

Condecorada Eu??...

segunda-feira, 12 de novembro de 2018



Pergunto-me a que propósito? Por que feitos valorosos? Apetece-me ironizar.
Estas interrogações surgem  pelo facto de ter lido na “net” a notícia (já há algum tempo, que ela aí circula como parte do meu “curriculum vitae”) inventada e acrescentada por outrem que não eu, de que eu fora condecorada.
Se há coisa que me provoca indignação é o enfeitar-se com penas de pavão, como sói dizer-se e no caso, de “latão”. Não, isso não constitui o meu género e nem faz o meu timbre.
Nunca fui condecorada. Que fique bem esclarecido!
Independentemente de ser avessa a certas e determinadas condecorações - mas isto é um problema meu - nada tenho e nem devo ter contra que outros o possam ou o devam ser.  Pelo contrário, algumas medalhas e diplomas são muito bem atribuídas.
Mas isto não é para aqui chamado a intrometer-se no que venho. E eu venho protestar contra a falsa notícia que circula na rede social de que eu fora condecorada.
 Na verdade fui contactada para esse efeito. Sim, fui. Há já mais de uma década. Precisando, nos inícios de 2000... Mas agradeci e recusei polidamente.
Aliás, creio eu, que os medalhados ou os condecorados de facto, ao longo do tempo, estão todos devidamente registados no “Boletim Oficial” do País. É fácil consultar. E o meu nome, felizmente, neles não consta.
 É bom repescar (rebuscar, lembrar) que as condecorações civis (dirigidas ao cidadão, ou a não militante do PAICV) só se verificaram aqui nas ilhas após a abertura democrática de 1990. Foi o Presidente da República Mascarenhas Monteiro, quem deu início à instituição de Ordens para o reconhecimento público do mérito de alguns cidadãos (a sociedade civil em democracia tem lugar.)  O que, na altura, foi uma novidade recebida com agrado. De facto, muito boa gente e merecidamente, recebeu esse reconhecimento de Cabo Verde.

Daí que muito agradecia ao autor da “brincadeira de muito mau gosto,” que retirasse ou emendasse tal falsa notícia.
E para que conste, as grandes condecorações que recebi e venho recebendo, têm sido as homenagens feitas por meus antigos alunos. E elas têm sido muitas, maravilhosas, gratificantes e tocantes!




O ensino do português em África vai mal e procuram-se soluções

quinta-feira, 8 de novembro de 2018


Com a devida vénia ao autor e ao Jornal «Público» aqui se publica também esta matéria de muito interesse para nós, falantes do português


Nuno Pacheco - Língua portuguesa*
O número de falantes da língua nos PALOP é bem menor do que apontam os números oficiais. Hoje e amanhã, no ISCTE, um congresso procura exemplos, dados concretos e soluções.
O título do comunicado parece um alerta vermelho: “O ensino do português nos PALOP está a falhar e só parte da população o fala.” E os números avançados não diminuem tal inquietação: em Cabo Verde, só metade da população falará português fluentemente; em Moçambique, “só 10% assumem o português como língua materna”; na Guiné-Bissau, só 15% falarão português; em Timor-Leste “eventualmente 25%”; escapará Angola, onde mais de 70% falam português porque a guerra os empurrou para as cidades.
Se não fosse tal intróito, talvez poucos reparassem no IV Congresso de Cooperação e Educação, que se realiza hoje e amanhã no ISCTE, em Lisboa, com especialistas de vários países. Organizadoras do congresso, as investigadoras Clara Carvalho e Antónia Barreto, do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, são mais comedidas do que o comunicado difundido pelo instituto. Não negam que a situação é grave, mas o que as move é a procura de soluções. “O português está em crescimento no mundo, mas o que se diz não corresponde aos números nem nunca correspondeu”, diz ao PÚBLICO Clara Carvalho.
Não serão, pois, os 280 milhões da propaganda oficial, mas é impossível obter números exactos. “Há estimativas, não há um estudo.” E as mais actuais são sempre as do The World Factbook, da CIA. “Eles multiplicam, relativamente ao último censo, pela taxa de crescimento populacional expectável.” Angola teve um censo em 2014 e Moçambique em 2017, embora os números deste ainda não estejam disponíveis. As outras estimativas são calculadas a partir das “taxas de literacia declaradas, baseadas no número de pessoas que vão à escola”. Pecarão por excesso ou defeito? Não se sabe.
Sabe-se, no entanto, o que dizem a experiência e a história. “Quando se chegou ao fi m do processo colonial, não havia, à parte algumas excepções, um sistema de ensino primário estabelecido”, aponta Clara Carvalho. Num território com taxas de analfabetismo e iliteracia elevadas, Portugal incluído, a situação não era homogénea.
“Em Angola, com a guerra, e com a grande movimentação de populações e de soldados, o português foi adoptado como ponto de contacto”, acrescenta a investigadora. Mas nas cidades apenas, não nas zonas rurais. Em Moçambique a situação é mais débil, com apenas 10% da população a assumir o português como língua materna. Já em São Tomé o panorama será melhor: “Os dialectos locais são também falados, mas o português é a língua franca.”
“Provavelmente o bilinguismo será solução, porque ele é assumido na prática”, defende a investigadora Clara Carvalho
Cabo Verde é, dizem as investigadoras, um caso à parte. “Pelo menos desde o século XIX há um sistema de ensino funcional, embora o crioulo tenha sido sempre, e continuará a ser, a língua franca.” Ali perto, na Guiné-Bissau, o caso complica-se: “Sendo uma colónia de ocupação, onde não havia grande contacto [dos colonos] com a população, o PAIGC instituiu o crioulo como a língua de contacto nacional, a língua da modernidade.”
A razão para os crioulos não terem sido logo adoptados como língua oficial após as independências residirá, nota Clara Carvalho, no facto de os dirigentes dos novos países serem “elites educadas em português”, que o adoptaram “numa perspectiva geopolítica”. Os crioulos não tinham expressão escrita oficializada, nem gramática, nem difusão internacional.
Ensinar em que língua?
Neste cenário, o que pode e deve ser feito? O congresso, sob o lema Cooperação e Educação de Qualidade, procura respostas. Antónia Barreto, que sublinha a importância do “apoio, grande, do Instituto Camões” para custear as deslocações de especialistas, diz que estes dias servirão para que fiquemos a conhecer melhor “os panoramas actuais e os desafios que esperam os sistemas educativos destes países”.
O bilinguismo será a solução? “Muito provavelmente, porque ele é assumido na prática”, responde Clara Carvalho. Com ressalvas: “Em sítios onde existe uma língua franca local, é muito fácil adoptá-la. Quando não há, promover o ensino das mais impactantes é ajudar a manter essas línguas e, eventualmente, na identificação dos jovens com o sistema de ensino.” Antónia Barreto dá, como exemplo da dificuldade de tal opção, a Guiné-Bissau: “Numa sala com 50 meninos, onde estão juntos manjacos, mandingas, fulas, ensina-se em que língua?”
“Há várias soluções”, insiste Clara. “Vamos ter cá o padre Luigi Scantamburlo [pedagogo italiano], que defende há décadas que se devia ensinar o crioulo como entrada para o português, algo que tem feito, aparentemente com sucesso.” Mas há outra via, que está a ser promovida pela UNESCO: “Colocar as crianças mais cedo na escola, para não abandonarem tanto. Habituá-las desde pequenas. E essa entrada deve ser feita com um misto das línguas maternas. Na Guiné, uma criança fula entrava na escola e aprendia em fula. Mas nós vimos uma experiência fantástica, de uma ONG [indiana] que está a trabalhar em aldeias fula no Sul, com crianças que não falam crioulo. O que têm? Professores que ganham três vezes mais e dispõem de uma formação à parte, com reuniões todos os meses e novos métodos pedagógicos. Aí vimos crianças a falar e a aprender em português.”
Antónia Barreto concorda: “Quando estão reunidas as condições, a aprendizagem do português faz-se relativamente bem. [Na Guiné-Bissau] as escolas dependentes de grupos religiosos, católicos ou protestantes, ou as madrassas, estão a funcionar. Já o sistema público está sem controlo e fica muito difícil que as pessoas aprendam alguma coisa.” Clara acrescenta: “Isto é mais caro, é verdade, mas o preço a pagar por aquilo que não se faz será muitíssimo superior ao que se pagaria se se conseguisse este nível para todas as escolas. Porque serão sempre crianças com uma escolarização deficiente, seja em que língua for.” E o empenho dos professores faz a diferença. “Têm de ver o seu trabalho como algo de gratificante.”
Do congresso, as duas investigadoras esperam algo de útil. Antónia deseja que estes dias contribuam “para a consciencialização de que os países têm de ter soluções ajustadas ao seu contexto”: “Tem de haver informação a nível multinacional, e apoios, mas não se podem impor agendas, soluções, cópias.” E há outro ponto que Clara quer ressalvar, o ensino de qualidade: “Não falo do melhor ensino do mundo, mas de qualquer coisa que não seja repetir o que o professor escreve no quadro (quando tem professor!) e dê competências para avançar.”
*”Público” de 08.Nov.2018



terça-feira, 6 de novembro de 2018

“1° lugar – ACÁCIA* 
De entre as plantas e as flores consideradas venenosas, a acácia ocupa o primeiro lugar, numa listagem hierárquica de cinco plantas e flores classificadas como as mais tóxicas. Sabendo que aqui nas ilhas, existe este tipo da acácia, decidi publicar a notícia, mais a explicação recebida de um perito na matéria.

Uma assassina em massa super especializada. A acácia desenvolveu uma estratégia para matar não só um, mas um grupo inteiro! Caso seja ameaçada, por um grupo de antílopes por exemplo, as suas folhas libertam gás etileno que serve de alarme para que outras acácias nos arredores percebam que existe ameaça. Assim, todas se juntam num contra ataque devastador e começam a produzir tanino em quantidade suficiente para matar todo o grupo!
Esta planta segue à risca o velho ditado: "A união faz a força"...*
  
*Retirada de uma mensagem  enviada pela minha prima Milena Ribeiro Pinto e Neto.


Curiosos, perguntámos ao nosso compadre e amigo António Advino Sabino - conhecido engenheiro agrónomo aqui das  ilhas - o que pensava  sobre a notícia que caracterizava a acácia como a mais venenosa planta conhecida.

E a pronta resposta foi a seguinte:

  
“(...) Há em Cabo Verde vários tipos de acácia. Acácias de altitudes como a acácia molíssima, acácia picnanta, etc. e, acácias de zonas áridas costeiras em que se destaca a nossa famosa acácia americana (Prosopis juliflora).

Em Cabo Verde existe esta planta de nome oleander (de nome cientifico, Nerum oealnder, salvo erro) que é uma planta altamente venenosa. Em Santo Antao é conhecida por “flor de querela”. Está espalhada em jardins publicos  por toda a parte mas a maior concentração encontra-se nos cemitérios.
Recordo-me que quando estava em Tucson-Arizona (EUA) duas crianças terem comido folha de oleander e  acabaram por falecer a caminho do hospital.
Fartei-me de chamar atenção para terem cuidado com a sua propagação em Cabo Verde, mas nunca se importaram. É uma planta muito resistente encontrando-se em toda a parte (jardins da Praça Nova, jardins da Praça Alexandre Albuquerque (frente ao antigo Cachito) e mesmo, nos jardins de casas particulares. Se calhar, alguém deve ter morrido por ingestão do oleander em Cabo Verde, sem se ter sabido a verdadeira causa da morte. (...)
  

 Um alerta para ser seguido pelos nossos plantadores da dita acácia...



O que pode resultar da redução da qualidade de Ensino...

sábado, 27 de outubro de 2018



Um amigo enviou-me uma mensagem com os dizeres que a seguir transcrevo e que encimavam o portão de entrada de uma Universidade na África do Sul.
Trata-se de um aviso sério e grave, vazado em palavras simples e assertivas.
Ei-las:

UMA GRANDE VERDADE
 "Para destruir qualquer nação não é necessário usar bombas atómicas ou mísseis de longo alcance. Basta apenas reduzir a qualidade da educação e permitir que os estudantes 'cabulem' nos exames ."
Os resultados serão estes:
 “Os pacientes morrerão nas mãos de tais médicos.
Os edifícios desabarão nas mãos de tais engenheiros.
O dinheiro perder-se-á nas mãos de tais economistas e contabilistas.
A humanidade morrerá nas mãos de tais eruditos religiosos.
A justiça perder-se-á nas mãos de tais Juízes...
"O colapso da Educação é o colapso da nação."

Sem mais comentários.











domingo, 21 de outubro de 2018

Tão próximo e tão longe!
Vem isto a propósito da mais recente mensagem do Papa Francisco aos jovens.
O Sumo Pontífice da Igreja católica, incita os jovens a não se “desligarem” a não se alhearem daquilo que lhes é próximo e tão caro - no caso da mensagem papal, a Cristo, à Igreja, à missão que lhes foi confiada pelo criador - pelo facto de estarem permanentemente ligados ao mundo mais remoto, pela via das redes sociais.
Aproveitando as palavras do Papa, pode-se extrapolar o discursivo nelas contido, alargando semanticamente o seu alcance àquilo que se passa em casa, na familia, no quotidiano de muitos jovens.
De facto, tal situação  por vezes parece paradoxal. Há falta de diálogo em casa, em família, sobretudo da parte dos jovens, dos filhos, por causa da autêntica fixação no pequeno ecran do seu “smartphone” ou similar (perdoem-me a ignorância, neste capítulo, que vou conhecendo um pouco mais e melhor, quando os netos falam comigo sobre a matéria). O silêncio dialogal, a não conversa de viva voz, muita vezes só são cortados, à mesa, à hora da refeição conjunta em que alguns pais, (ainda bem que os há! Graças a Deus!) Proíbem terminantemente a presença perturbadora desses intrusos aparelhos na grande intimidade familiar que é a hora da mesa.
Voltando ao nosso querido Papa Francisco e à sua homilia aos jovens,  e a propósito de tudo tão aparentemente tão próximo, virtualmente, disse ele a determinada altura:
“ (...) Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato... E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter miríades de contactos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. (...).”
Mas já antes, por ocasião da celebração do Dia Mundial da Juventude, a 25 de Março, o Papa Francisco, exortara os jovens a que:"Não deixem, queridos jovens, o brilho da juventude se extinguir na escuridão de uma sala fechada, na qual a única janela para ver o mundo é o computador e o 'smartphone'"(...) - aconselhou.
E é essa “comunhão de vida”  nas palavras sempre tão oportunas e  tão sensatas de Francisco, que está alterada – quiçá! deturpada no seu sentido de maior humanidade, nos dias que correm -  também na família, entre pais e filhos,  entre irmãos, entre amigos, entre jovens que não dialogam uns com os outros, antes preferindo uma “maquineta” pelo meio a falar por eles e com eles, numa espécie de monólogo misantrópico.
 Ora bem, apesar de todo o manancial de informações positivas e também não positivas transmitidas pela facilidade de comunicação das redes sociais; infelizmente, por causa da fixação  juvenil obcecante  nisso,  estão a aparecer de forma galopante e ainda de efeitos a descodificar no porvir, sinais nefastos que se traduzem por exemplo, numa grande lacuna, numa grande falha comunicativa inter-familiar.
Aliás, falhas e lacunas comunicativas, que não se coadunam nem com a educação e nem com a comunhão, o diálogo e a solidariedade, que são traços  distintos e peculiares que devem caracterizar a família no seu todo.