A propósito do texto: “O Descalabro do Ensino em Cabo Verde”

domingo, 13 de agosto de 2017


Tendo aqui partilhado recentemente, no meu modesto blogue, um estado de alma, um desabafo enquanto avó, mãe e filha destas Ilhas preocupada com o futuro do país, recebi muitas mensagens que revelavam afinal, a mesma preocupação.
Neste particular, regozijo-me, pois verifiquei à posterori, que a visão é real, e foi ao encontro de muitos pais e avós, antigos alunos dos liceus, e que também tristes com o estado a que as coisas chegaram (e estão!), fizeram-me  saber as suas inquietações e os seus desassossegos, e por isso pensei: Afinal não sou uma cavaleira solitária nesta batalha! Podemos contar ainda com uma sociedade civil  activa e preocupada com o país e  com avós e pais ainda  participantes e ávidos por um debate específico – a  Educação – que é de toda a Nação.
Um Bem-Haja a todos, (queridos amigos, colegas, antigos alunos, ilustres conhecidos) pois os vossos comentários, em todos os sentidos, enriqueceram o despretensioso e bem simples texto inicial!
No entanto, infelizmente, em Cabo Verde – nós temos um longo caminho a percorrer, e com o descalabro do ensino nem sei se lá chegaremos tão cedo − permanece a necessidade de tudo, ou de quase tudo, partidarizar (não é politizar, que é algo elevado) o que acaba por desfocar o importante do assunto a debater...
Ao ter, a certa altura do meu desabafo, escrito algo como: “Este conjunto de fenómenos, a que chamarei de derrapagem do ensino (?) cabo-verdiano, pode  ser datado, com pouca margem de erro, de há quase década e meia atrás e tem vindo a acontecer num ritmo crescente e assustador.fui de forma surpreendente confrontada com o associar deste facto a um determinado governo do meu país!
Longe de mim a relação com qualquer governo, partido politico ou algo parecido. É que tal matéria assim associada, não faz parte das minhas cogitações. Parafraseando o brasileiro: “nem tou aí” − ainda por cima tratando-se de um assunto de transcendente e de crucial importância para o desenvolvimento de gerações de cabo-verdianos, como é a Educação.

A responsabilidade é de Todos!
A Educação ou o Ensino Público é um desígnio nacional, e  a ser um desígnio ele não é partidário,  nem ideológico,  mas de toda a Nação e de  forma convergente.  É esta a minha linha de pensamento.
De facto, estou tão afastada da política, e mais ainda da política partidária que para mim a relação com qualquer governo, partido politico ou algo parecido, de forma direccionada é algo sem qualquer nexo, nesta minha etapa de vida.
Estou sim, muito próxima, para não dizer demasiado próxima, da minha condição de Avó, e este horizonte temporal − permitam-me o prosaísmo − só surge com a entrada da minha neta mais velha na 1ª classe do Ensino cabo-verdiano, há cerca de década e meia! Mas aceito, sem qualquer rebuço, que venham de mais longe, os efeitos nefastos do mau ensino público cabo-verdiano.
Ao mesmo tempo, mantenho-me fiel à minha condição de antiga professora, (tenho contactos frequentes com antigos alunos que me falam com tristeza da escola actual dos filhos) e não abdico da profissão que abracei e exerci com muita devoção nem de ser cidadã activa − enquanto Deus mo permitir − e pensar os problemas da escolarização de jovens alunos, que observo esperançosos, quando se dirigem diariamente à sua escola, no convencimento de que dela sairão mais ricos no saber e em conhecimentos.
Essas são as minhas reais e, ouso acrescentar, constantes preocupações.
Partidos? Governos?... Muito importantes, sim, mas igualmente, passageiros, transitórios e transitivos. E também, e felizmente, mutáveis! Isto não obsta que deva reconhecer que uma boa política educativa, tem de emergir de entre as principais preocupações governativas.
Por isso reitero, o bem-haja a todos. Gostaria de destacar o Jornal «Expresso das Ilhas», o Nuno Duarte Rodrigues Pires, a Solange Lisboa Ramos, o Ângelo Barbosa, pela divulgação feita nas redes sociais desse meu singelo desabafo acabando por lhe dar um estatuto e uma elevação que muito apreciei.


A Condição de Ilhéu

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

- o caso de Cabo Verde, visto através dos seus poetas -
Solicitada a escrever sobre a condição de ilhéu, questionei como abordar o assunto? Através de uma revisitação ao passado? Sim, mesmo que nascida e vivendo em ilhas e mais particularizado, numa ilha; ainda que a condição de ilhéu pudesse ser naturalmente parte estruturante do nosso ser ontológico; ainda assim, ao tentar hoje escrever sobre a condição de ilhéu, imaginei-a como algo que se havia passado há muito tempo e situei-a num tempo que já ficou muito muito atrás...algum anacronismo nisto? Talvez.
A noção de um conceito dinâmico e evolutivo ganhou ênfase, no mundo globalizado. Para mim era real a condição (de ilhéu). Tratava-se de  uma singularidade que nos distinguia do habitante continental. E mais verosímil se tornava, e se acentuava  quando reiterada na leitura e no estudo dos textos dos ensaístas, poetas e romancistas cabo-verdianos.
O que tenho agora  como certa é que a percepção da condição de ilhéu alterou-se de tal forma que mesmo a que havia em mim fixada se transformou. Daí que, em sérias dúvidas, terei de recorrer ao “baú de memórias” e dela  retirar algumas  “enferrujadas” pelo tempo.
Vale neste contexto – acompanhada também por uma desperta consciência – dizer que o assunto já não será escrito com estes traços, pela nova geração de cabo-verdianos.  Para eles – com o espectaculoso desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação quase instantâneas, à velocidade de um “clic” tanto inter-ilhas, como com o mundo – essa condição de ilhéu, assim posta como aqui vai, ser-lhes-á eventualmente estranha e arcaica. E provavelmente matéria desconhecida, sobre a qual possivelmente, pararam vez alguma para pensar. Mesmo vivendo numa ilha. Pertence ao passado dos seus ascendentes.  Configurada, pela geração actual de cabo-verdianos, funcionará eventualmente, como uma “arqueologia romântica.”
E assim me quedo nesta exigência que devia ser reflexiva de algo que afinal, apenas conheço  empiricamente.
Apesar de os tempos hoje também serem diferentes em Cabo Verde e mesmo com a globalização a acontecer também nestas pequenas ilhas atlânticas, gostaria de partilhar com o leitor e num pequeno àparte, um mini-inquérito feito meio ao acaso, em encontros de rua, com conhecidos e amigos. Andava eu à procura de pessoas que nunca tivessem saído de Cabo Verde. O que  já vem sendo uma raridade. Seriam elas  as visadas no meu propósito do improvisado inquérito e para quem ainda pudesse subsistir, alguma “réstia” da citada condição do ilhéu ainda viva e ainda palpitante de que pudessem dar testemunho.  Encontrei poucos, já na faixa etária chamada de meia-idade, a quem fiz as seguintes perguntas: “ Já sentiu alguma vez “pesar-lhe” a sua condição de ilhéu? A ilha como um cerco? Como imagina Portugal? E os Estados Unidos?”
Das respostas que considerei com interesse, embora reconheça que nem chegam a constituir-se em amostragem, registo aqui apenas duas. Uma, a de um técnico agrícola, de 59 anos de idade, nunca saiu de Cabo Verde. Sobre a condição de ilhéu, respondeu que durante os anos que viveu (a infância e a adolescência) num povoado perdido nos recessos da ilha do Fogo, de nome Queimadas, onde as novas do mundo só chegavam através da rádio, (para quem a possuía) e do “americano” torna-viagem, com ar próspero e bem vestido. “Aí sim, ali olhava muito para o mar e para a linha do horizonte.” E acrescentou que mesmo as cidades de Mindelo (ilha de S. Vicente) e a da Praia (ilha de Santiago, lhe pareciam distantes, um outro mundo; e que a imagem que tinha dos Estados Unidos da América era “de uma mesa farta cheia de iguarias para todos os paladares. E a comparação continuou: “como nos anos em que chovia bem e as ilhas produziam com abundância.” E Portugal? Como imaginava o país quando jovem? E agora? A resposta não se fez esperar: “Aqui, neste particular, trata-se de um caso sentimental. Permanece na minha imaginação da mesma maneira que antigamente. Porque sentia Portugal e continuo a senti-lo como perto/longe de nós. Tenho lá muitos familares. Sempre pensei que quando tivesse um bom pé-de-meia, haveria de ir conhecer Portugal. Para passear mesmo. Ainda não aconteceu. Mas não perdi fé.”
A segunda, de uma colega minha, professora, de 69 anos, perguntada se antes de ir a Portugal para a Universidade, se se sentiu alguma vez “ilhada.” Respondeu-me: “vivi e cresci na cidade da Praia. Nem conhecia antes de ir para Portugal sequer o interior da ilha de Santiago. Só  adulta, profissional de volta à terra, é que conheci as restantes ilhas. Logo, saí deste pequeno espaço urbano directamente para a então grande Metrópole. Mas mesmo assim nunca havia parado para pensar nisso.Tomei consciência disso, da condição de ilhéu/prisão do mar, por um insignificante episódio. Quando, nos idos 60 do século XX, em Lisboa, partilhava o quarto num Lar de estudante com uma colega moçambicana, que falava orgulhosamente do “tamanhão” do seu país e certa vez provocou-me desta maneira: “Credo! Eu, se vivesse numa ilha como a tua, eu seria uma depressiva. Acabaria por morrer...” Respondi-lhe que nunca  me havia sentido assim na minha terra. Mas, se calhar, não o tinha consciencializado ainda, antes dessa estranha chamada de atenção de que nunca mais me esqueci.” Concluiu a minha colega.
Eis pois, duas brevíssimas ilustrações das conversas havidas a propósito do tema. Mas para melhor situar os  depoimentos dos meus informantes, esclarecerei que eles tiveram lugar, na cidade da Praia, na ilha de Santiago. Tivesse eu tido por exemplo, o ensejo de entrevistar gente nas outras ilhas, e como escolha, a ilha/cidade que é S. Vicente, a qual, ainda hoje, os seus habitantes guardam nostalgicamente, recordações de um passado cosmopolita e mais virado para o mundo largo, dado que a sua cidade portuária, Mindelo, albergou no seu Porto Grande na década de 30, 40 e 50 do século XX, significativo movimento de barcos que cruzavam o atlântico. Mindelo  fora outrora centro da cultura e das artes no Arquipélago.   Era  ao tempo, uma urbe de forte influência “europeia e sul-americana.”  O país de eleição, para a emigração dos mindelenses era a Holanda. Diferentemente das ilhas de Sotavento ( sobretudo, Fogo e Brava) viradas para os Estados Unidos. Logo, as respostas seriam com outras abordagens, espelhando eventualmente uma visão cosmopolitizada que ficou na memória dos mais antigos, colhida, como observou Jorge Barbosa: “(...) nesse ar de outros climas que  trazem os passageiros / quando desembarcam para ver a pobreza da terra (...)”  (Poema do Mar. In Ambiente, 1941).
Fecho este àparte, que não correspondeu em parte maior ao que pretendia, e volto a  recentrar o caso do Arquipélago de Cabo Verde, numa perspectiva mais geral, ancorando-me desta feita, em abrigos mais seguros na ilha / mar / veleiro / falucho, plasmados nos textos/poemas dos poetas do antanho das ilhas e mesmo  em alguns ensaios deixados pelos pensadores e investigadores da fenomenologia ilhoa.
É generalizada a convicção de que foram e são os Homens de/e da cultura, que a seu modo, com os dons e os instrumentos que à época, o seu saber, e os meios que existiam lhes proporcionaram, os que mais reflexivamente anotaram e registaram o que aconteceu ao “estar” e ao “ser” do cabo-verdiano, modelados pelas pedras duras e secas destas ilhas atlânticas.
Para iniciar, apontaria um caso que faria supor, pelas razões que a seguir se explicam que disso ou, desse “mal” não “padecesse.” Trata-se do poeta luso-cabo-verdiano, Daniel Filipe. Nasceu em 1925, na ilha da Boa Vista e faleceu em Lisboa, ainda novo, aos 38 anos de idade, em 1964. Na antiga Metrópole, Daniel Filipe fez os seus estudos e foi funcionário do Minstério do Ultramar.  Mais conhecido, nos tempos do Estado Novo, pelo seu célebre e muito declamado poema, « A Invenção do Amor». Daniel Filipe, apesar da brevidade da sua vida, ainda assim, deixou uma significativa obra poética. 
De acordo com os seus biógrafos, entre os quais, destaco e cito Manuel Ferreira, (vide «No Reino de Caliban» Vol. I 1975) é quem nos informa que Daniel Filipe, de seu nome completo, Daniel Damásio da Ascenção Filipe, chegou criança ainda – “com cerca de 2 anos de idade” – a Portugal, levado pelo pai, deportado na Boavista, Coronel médico, Gonçalo Monteiro Filipe. A mãe, Rita Maria Ascensão,  natural da  ilha das dunas, ali permaneceu. Seguindo os seus biógrafos, por vontade paterna, cortada foi a ligação materna.
Relevem-me o ter alongado nestas notas biográficas do poeta. Mas isso tem um propósito. Estes dados, ajuntados ao facto de ter saído de Cabo Verde ainda bem criança; “cortado” o cordão umbilical com a terra/mãe; de ter vivido sempre na grande (para nós assim era mensurada) Metrópole, teriam feito dele, muito naturalmente, um poeta que consigo, não carreasse à partida e numa lógica de vivências outras, a “condição” de ilhéu. Mas estranhamente, ou não, o poeta Daniel Filipe, que à ilha não retornou; por conseguinte não a vivenciou; é no meu entender e nos poemas dedicados à terra-mãe ou mais exactamente, à ilha-mãe, à Boavista – um poeta sofrido na condição de ilhéu. O poeta (re)age como se tivesse “petrificada” dentro do sua “poésis” uma condição inexorável de ilhéu interiormente expatriado.
Da obra poética virada para Cabo Verde, distinguem-se as colectâneas: «Missiva» (1946); «Marinheiro em Terra» (1949); «A Ilha e a Solidão» (1957). A evocação da mãe-ilha, atravessada por uma melancolia envolta em saudade, mais um certo sentimento de orfandade por uma infância fora do “habitat” insular, surge inexpectavelmente descritos com o à-vontade de quem disso comungou teluricamente e os (re)lembra merencoriamente.  No fundo, e tal como disse Manuel Ferreira, nestes poemas, Daniel Filipe “retoma a caboverdianidade.” Pois bem, o poema Ilha, a seguir transcrito, traz-nos a lembrança/saudade, que imagina da ilha, “distante ainda que não parta!” Como que numa espécie de exercício de reminiscência, assim fala o poeta: “Ilha, no azul líquido é somente /um ponto anónimo da carta./ Ô minha fala inconsequente! / Saudade morna do ausente, / distante ainda que não parta! / O horizonte é linha de água / por estrelas-peixe enodoada. / Se me recordo em bruma e mágoa,/ à solidão da ilha trago-a /dentro de mim petrificada.”(A Ilha e a Solidão, 1957)
Atente-se nos dois últimos versos, “à solidão da ilha trago-a / dento de mim petrificada” E aqui sugerido o insular inexpugnável do seu “eu,” intimamente exilado. Mais, essa sua parte insular leva-o a descrever as aventuras e as desventuras da pesca da baleia assim, como quem as tivesse vivido a partir dos campos e da orla marítima, da pequena ilha. O poema/narrativo: Romance de Tomasinho-Cara-Feia assim no-lo assevera: “Farto de sol e de areia, / que é o mais que a terra dá, / tomasinho-cara-Feia, / vai prá pesca da baleia. // Quem sabe se tornará? // Torne ou não torne, que tem? / Vai cumprir o seu destino./ só nha Fortunata, a mãe,/ que é velha e não tem ninguém, / chora pelo seu menino. // Torne ou não torne, que importa? / Vai ser igual ao avô. / Não volta a bater-me à porta; / deixou para sempre a horta,/ que a longa seca matou. / Tomasinho-Cara-Feia, / (outro nome, quem lho dá?) / Farto de sal e de areia, / foi prá pesca da baleia. / - E nunca mais voltará.” (A Ilha e a Solidão, 1957).
Curiosamente, a faina da pesca da baleia, precisamente o acontecimento que acabou por ser a primeira grande “viagem” que “quebrou” mais generalizadamente, o tal isolamento cósmico do ilhéu cabo-verdiano. Marcou por isso e de certa forma, a ruptura, o acrisolamento ilhéu até então do “cabo-verdiano anónimo,” dentro do casulo que era a terra/mãe. E foi também através da pesca da baleia, que a primeira grande leva de emigrantes cabo-verdianos “aterrou” clandestinamente ou não, em solo americano, nos meados do século XIX.
 Posto isto, como “húmus” relevante de parte da sua poética, coloca-se a seguinte interrogação: Será que Daniel Filipe teria carregado no seu ainda incipiente «ethos» materno insular – arquétipos ilhéus – que poderão ter imbricações naquilo que se entende literariamente por reminiscências platónicas? Possivelmente.
Outro nome destacado da Literatura cabo-verdiana é Manuel Lopes (Ilha de São Vicente, 1907, Oeiras, 2005). Este sim, com uma prolongada e ampla vivência de ilhéu. Que até se alongou curiosamente, quando transferido profissionalmente, para a ilha do Faial nos Açores.
Manuel Lopes enquanto poeta e no “cerco” da ilha, ou melhor, ilhado física e psicològicamente, transpôs e interiorizou o fenómeno de forma muito clara e em textos diversos. Mas antes e em jeito de esclarecimento, vale dizer que sendo Manuel Lopes dos poetas mais representativos da condição islenha, também confessou no poema intitulado, “Poema de Quem ficou” dedicado ao “irmão” viageiro – de outros mares e de muitos mundos, o seguinte: “Eu não te quero mal / por este orgulho que tu trazes, / por este ar de triunfo iluminado/ com que voltas // O Mundo não é maior/ do que a pupila de teus olhos/ tem a grandeza/ das tuas inquietações e das tuas revoltas . // Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / (...) / que aquelas que conheceste... / Crispou as mãos à beira do mar / e teve saudades estranhas de coisas estranhas/ com bosques, com rios, com outras montanhas (...)” In «Cais de Quem ficou» Poemas de, 1936-1944.  É ainda no «Cais de Quem ficou» que se conhece o poeta-ilhéu. É disso figurativo o poema, Écran: “Para lá destas ondas que não param nunca, / atrás deste horizonte sempre igual, / no extremo deste sulco branco sobre o mar azul / (cinzento nos dias de ventania) / que as hélices deixaram, impelindo / o bojo inquieto do vapor, // (sonhos que pairam sobre abismos de ironia; / promessas dum mundo melhor / talvez caminho de algum dia...) // há gritos diferentes, / os olhos cheios de outra imagem do mundo (...) / que a distância do Atlântico dissolve antes de chegar; (...)
E como remate, ele clama e lamenta o não alcance da terra-longe promissora que afinal só existe virtualmente: “Ai este Atlântico triste / que nos deu a nostalgia / dum mundo que só existe / no sonho que ele povoou...” (in: Crioulo e Outros poemas, 1964).
Acercando-nos agora, com especial deferência, do enorme poeta das ilhas, que é para nós, Jorge Barbosa (ilha de Santiago, Cabo Verde 1905- Cova da Piedade, Portugal, 1971) terá sido o poeta que deste lado, dentro da ilha, fortemente sentiu o “cerco” da terra/mar. Igualmente terá sido o poeta que mais problematizou e sintetizou poeticamente a condição de ilhéu. E de tal modo o seu sujeito poético se sentiu apertado pela “cinta do Mar” que evoca o fenómeno em tom lamentoso, ao descrever os  malefícios do “Mar” que atormentam e castigam as gentes e a paisagem do Arquipélago. E assim os retrata e os transfigura no Poema do Mar (in: Ambiente, 1941)
Mas antes de transcrever os versos do poema citado, fazia aqui, e numa espécie de  singela curiosidade, uma pequena nota: Jorge Barbosa era funcionário aduaneiro e foi-o nomeadamente, nas ilhas do Fogo, da Brava, de S. Vicente e do Sal. O facto de ter estado a trabalhar nos edifícios das alfândegas, estes situados, regra geral, entre a terra firme e o “cais-de-ver-partir;” que influência terá tido na sua escrita, dado que é notório que o poeta imprime na feitura de muitos dos seus poemas - de forma pictórica e sinestésica - imagens captadas de um real quotidiano, em que o movimento do porto; o barulho do cais; os apitos e a partida de barcos; as falas dos passageiros, misturadas às dos curiosos que observam “suspirando,” os barcos ancorados e os que partem rumo ao mar alto que são referentes costumados na sua observação poética?
Agora segue transcrito, O Poema do Mar:  “O drama do Mar,/ o desassossego do Mar / sempre / sempre / sempre / dentro de nós! / O Mar! / cercando / prendendo as nossas Ilhas / desgastando as rochas das nossas Ilhas! / Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores, / roncando nas areias das nossas praias, / batendo a sua voz de encontro aos montes, / baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas... // O Mar! (...) deixando nos olhos dos que ficaram / a nostalgia resignada de países distantes / que chegam até nós nas estampas das ilustrações / nas fitas de cinema / e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros / quando desembarcam para ver a pobreza da terra // O Mar! / a esperança na carta de longe / que talvez não chegue mais!... // O Mar! / saudades de velhos marinheiros contando histórias de tempos passados / histórias da baleia que uma vez virou a canoa... / de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros... // O Mar! / dentro de nós todos/ (...) no desejo de viagem que ficou em sonhos de muita gente! // Este convite que de toda a hora/ que o Mar nos faz para a evasão! / Este desespero de querer partir / e ter que ficar! “ In: Ambiente, 1941.
E porque este poema relembra um episódio decorrido, provocado sobretudo, pelos últimos versos: “Este desespero de querer partir / e ter que ficar,” abria agora um parêntesis para registar que na década de 60 do séc. XX, desencadeou-se uma contenda, suscitada pelo polémico estudo «Consciencialização na Literatura caboverdiana» ( Lisboa, edição da Casa dos Estudantes do do Império, 1963) da autoria do também poeta Onésimo Silveira.  Polémica hoje felizmente ultrapassada e com efeitos – a posteriori – algo complacentes da  parte de muitos críticos. Visava o trabalho de Silveira, apoucar e/ou denegrir sobretudo, os poetas Jorge Barbosa, Baltazar Lopes da Silva /Osvaldo Alcântara e Manuel Lopes, apodando-os de “evasionistas” como se, a poesia dita evasionista não se ligasse estreitamente à condição de ilhéu ou não fosse também evasionista, a poesia muito específica do ilhéu, numa quase relação causa/efeito.
Com efeito, e poupando pormenores, sem lugar neste texto, acrescente-se que O. Silveira, ao depreciar como “evasionista,” o grande texto poético em que assomasse o desejo de terra-longe, reflectido no “desejo de querer partir e ter de ficar,” quis ou, pretendeu arredar da literatura cabo-verdiana, a condição de ilhéu, enquanto elemento estruturante da sua poesia.  Fecho aqui o parêntesis.
Ainda um nome reputado da cultura cabo-verdiana, Henrique Teixeira de Sousa (ilha do Fogo, 1919, Oeiras, Portugal, 2006) no seu ensaio «Cabo Verde e sua gente» Imprensa Nacional de Cabo Verde, 1958, situou o aparecimento da forma mais sublimada da nossa música, a morna – a tal que a voz de Cesária Évora, muitos anos mais tarde, havia de dar a conhecer ao mundo – como tendo tido por berço a ilha Brava, no que não esteve desacompanhado, e a qual ilha, nas palavras do próprio Teixeira de Sousa: “ (...) é a terra em que os homens casam com o mar, como no poema de Pierre Loti, a dulcíssima estância da saudade, mercê da vida aventureira e trágica do seu povo, a morna fixou os olhos no mar e no espaço azul, e adquiriu essa linha sentimental, essa doçura harmoniosa que caracteriza as canções bravenses. Não foi por conseguinte infundamentadamente que situei a morna no período primário da emigração para as Américas.”  O exemplo bravense de que nos fala Teixeira de Sousa pode ser alargada às outras ilhas - sem a adjectivação elogiosa e específica à Brava dirigida – pois sugere que a linha sentimental e nostálgica que a morna transporta, conflitua e bi-parte, na sua composição (letra e música) a condição de ilhéu, espartilhada numa permanente tensão, entre a terra-mãe pequena e pobre e a “nostalgia dos países distantes” a terra-longe, o mundo largo, mais propício a aspiração de uma  vida melhor. Logo, Teixeira de Sousa ancorou parcialmente, a génese e o surgimento desta expressão musical, na condição insular cabo-verdiana, isto é no binómio: “querer partir e ter de ficar” aliada ao “querer ficar e ter de partir.”
 As outras expressões de arte em que a “cabo-verdianidade dos traços” se distinguem,  a pintura é sem dúvida a mais figurativa e daí observarmos nas telas e nos lápis de Jaime Figueiredo, Pedro Gregório, Abílio Duarte, Manuel Lopes e Victor Melo - são aqui exemplos tomados ao acaso, de entre os mais antigos - representações pictóricas da condição de ilhéu.
E agora, com a boa intenção de finalizar o texto, que longo já vai, permitam-me que entre, ainda que de forma breve, no universo dito comparativo que felizmente existe para se tratarem estas matérias. Comparando o caso de Cabo Verde a outros espaços ilhéus, referirei o caso dos Açores, que tem sido  bem estudado, por nomes já consagrados  e de entre os quais, pela boa pena do conhecido cronista, filosófo, pensador e especialista nesta matéria, Professor Onésimo Almeida. Os seus diferentes ensaios colocam este tópico de forma autónoma - ou, conexamente distintos -  dos conceitos de “insularidade” e de “identidade.” A obra de Onésimo Almeida vem fazendo uma desmontagem crítica  de muitos juízos feitos e tidos por certos neste campo, por muitos de nós e, como consequência, tirou-nos com a sua reelaboração, algum “sossego pensante.” Para além disso, Onésimo Almeida trouxe um inestimável contributo conceptual e dinamicamente evolutivo sobre a condição de ilhéu, a insularidade e a identidade, fundamentado em asserções e em parâmetros outros, dentro da mundividência filosófca/analítica do assunto e mais afins  com o mundo actual, contrariando o quase tudo que - tido por adquirido – havia assentado arraiais em análises várias.
No seu ensaio «Em Busca de Clarificação do Conceito de Identidade Cultural- O caso açoriano como cobaia» o autor cita Eduardo Lourenço, grande pensador português contemporâneo, a propósito da questão da identidade dos Açores  que se “transformou em autonomismo consciente e voluntário” o que, mutatis mutandis  se pode aplicar ao caso de Cabo Verde, pois que tinhamos de há, pelo menos um século antes da independência, aquilo que o texto de Onésimo Almeida definiu para o  caso açoriano: “ Uma consciência bastante elevada de uma personalidade singular no espaço mais geral da cultura portuguesa; e não se desenvolveu por oposição a esta, mas desenvolveu-se dentro dela.”  Com as muitas diferenças entre os dois casos, Cabo Verde possuía também essa “consciência singular” que se desenvolveu não por oposição também, mas na confluência do conflito gerado pelos dois grupos (europeu e africano) que povoaram o território, na procura de um equilíbrio.   Confirmando que já eramos nação autonomizada, século antes de sermos país.
Mas o interessante é que a identidade colectiva cabo-verdiana, construída ao longo do tempo, no isolamento cósmico do meio do oceano, que acentuou drasticamente a nossa condição de ilhéu; descendendo de dois grandes grupos humanos, o africano e o europeu que aqui aportaram, em terra desabitada; muitos ou, quase todos, forçados a isso, e todos certamente com saudades da terra, do continente distantes e do lar neles deixados. Terá forjado aquilo que o ensaísta Gabriel Mariano (ilha de S. Nicolau 1928. Sintra Portugal, 2002) afirmou sobre a identidade do cabo-verdiano: “Nós somos as nossas raízes, não temos que as procurar.”  Ainda o facto de sermos ilhas um pouco abandonadas, e a nós próprios entregues, somado e bem acrescido ao facto, de os seus habitantes enfrentarem uma luta duríssima contra um imbatível adversário, uma natureza inóspita, uma terra pouco produtiva, terrivelmente seca, de chuvas raras, e/ou de negaças das mesmas, que ora vêm, ora não vêm. A quase nula riqueza produzida. As estiagens e as secas constantes, acompanhadas outrora de crises de fome e do seu cortejo de malefícios e de tragédias humanas e sociais; porém, e apesar de todos estes constrangimentos altamente limitativos e negativos, para uma construção normal de qualquer comunidade humana, e da sua  identidade cultural; a  construção delas, no nosso caso, não se caracterizou de uma maneira geral, «por oposição ou por ressentimento ao grupo maior». Salvo episódios acontecidos em algumas e poucas circunstâncias de revoltas e de ressentimentos historicamente justificados pelas crises de fome.
Se é certo que os episódios havidos e dirigidos foram ao grupo dominador de que também proviemos; também não é menos certo que, no mais e no resto, para além de uma resignação muito cristã, interiorizámos desde os alvores como nação, uma “práxis” social e cultural em relação a nós próprios e em relação a outrem, sob formas não extremadas e não exacerbadas que a condição de ilhéu potenciou..


Artigo publicado no volume: «A Condição de Ilhéu» Concepção e Coordenação de :Roberto Carneiro, Onésimo Teotónio Almeida e Artur Teodoro de Matos. Centro de Estudos e Documentos 22 Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, 2017.




A NOITE DE “SETE” OU “GUARDA-CABEÇA”

sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Publicamos a seguir dois textos sobre o mesmo tema – O “Sete” ou o “Guarda-Cabeça” – abordados de forma diferente, quiçá complementar, como o leitor poderá verificar. O primeiro é do  renomado  poeta José Lopes, bem conhecido de todos nós. O segundo é de Augusto Casimiro, português (Amarante, 1889 – Lisboa,1967) militar de carreira, poeta e escritor também conhecido pelos cabo-verdianos que se dedicam à cultura e à literatura do País, político, opositor republicano do “Estado Novo” sendo por isto exilado para Cabo Verde onde esteve preso de 1933 a 1936. Entre várias obras publicadas tem o «Portugal Crioulo» totalmente dedicado a Cabo Verde.

A «noite de sete»
(Costumes populares de Cabo Verde)
Por  José Lopes
Deve-se interpretar o título como significando a noite do sétimo dia.
O assunto é alusivo a certa prática relacionada com a Medicina e cuja origem é antiquíssima, – não se podendo averiguar como, quando e onde começou.
De mais-a-mais nela entra, ou, pelo menos, entrava no princípio, preponderante dose de superstição.
Esta era inevitável nos tempos em que as populações insulares eram ainda então muito atrasadas, tanto mais que nas mais baixas camadas preponderavam elementos étnicos provenientes da Guiné.
Afora isso está provado que, mesmo entre povos civilizados, a Instrução não influi em absoluto na superstição a ponto de a extirpar.
Os povos germânicos acreditam nas Ondinas dos Lagos e nas Fadas que habitam as montanhas. O mesmo acontece em todos os países, donde as inúmeras lendas da Escócia, Irlanda e Escandinávia, principalmente. Assuntos esses que inspiram sempre os seus bardos ou poetas.
As tradições gaélicas são pura poesia popular.
O poeta preferido de Napoleão I, o Grande, era Ossian – Ora, Napoleão era corso, e a Córsega é terra de superstições.
Aonde quer que vamos, em suma, lá iremos encontrar por toda parte a superstição e sua inevitável influência na imaginação das gentes. E tudo isso nada mais é que a pressuposição de existir o que não vemos e o ansioso desejo de o descobrir.
Disse que o caso da chamada «noite de sete» se relaciona com a Medicina em seu sentido específico de pretender curar. De resto essa insigne Ciência começou pelo Empirismo, e o próprio Bichat afirmava que trazia caminho errado. Ainda hoje abundam as práticas empíricas, e é de ter em consideração que influem nelas as crendices de carácter religioso. As mèzinhas nunca se fazem sem benzeduras e rezas. O espiritual não pode separar-se do físico. Os melhores ensalmadores possuem todos um ritual de fórmulas. A palavra mezinha é mesmo deturpação de Medicina.
O ser humano observou que muitas crianças recém-nascidas eram atacadas dentro dos primeiros sete ou oito dias de existência do mal chamado trismo ou trismus, o tétano infantil. Daí a prática de a família velar o infante durante esses dias críticos, mas principalmente no sétimo. Sabia-se que o facto se dava amiúde, mas ignorava-se a causa. Só mais tarde se soube que a origem do mal era microbiana, e ainda muito mais tarde que um ilustre sábio, Nicolaër, descobrira e separara o terrível micróbio do tétano.
Ora, é sabido pelos menos ignorantes que o micróbio de Nicolaër é do tipo telúrico (de télus = terra), isto é, que em geral vive no solo podendo encontrar se no pó vulgar, em excrementos de cavalo, etc., formam-se os chamados esporas que servem de veículo àquele temível elemento patogénico. Esses podem abundar mais em certos lugares. Parece, por exemplo, que abundam mais na Praia que em Mindelo de S. Vicente. Compete aos da especialidade averiguar se é, ou não, assim. Se é seco o pó em que se aninha o micróbio, com facilidade pode o vento transportá-lo como faz (por exemplo) ao pólen das flores.
Alguns insectos podem também servir de veículo.
Havia o costume (não sei se ainda hoje existe) de as parteiras curarem às vezes com pó de terra muito fino o umbigo dos recém-nascidos. O Doutor José António Alves Ferreira Lemos, distinto e benemérito Médico-cirurgião que outrora prestou notáveis serviços em Cabo Verde, onde deixou saudosa memória, comentou num relatório que algumas parteiras empregavam o pó fino que às vezes se forma nos beirais das casas, chegando a colhê-lo dos casulos de certo insecto grylhida, parecido no formato com o ichnêrmon, a que a gente do povo chama, em S. Nicolau, bananinha seca. Esse ou outro pó seria portador do micróbio de Nicolaër e por isso causa do tétano de que morriam muitas criancinhas recém-nascidas.
Como já ficou dito o morbo manifesta-se dentro dos primeiros oito dias, e daí veio o costume de velar na sétima noite o menino. Também lhe chamam. ainda hoje guardar a cabeça (do recém-nascido). Aí fica a explicação da chamada noite de sete.
O costume, verdadeiramente lendário, servia de pretexto, mesmo no seio de famílias cultas da terra, para uma verdadeira festa em que até se tocava e dançava pela noite fora, não faltando o famoso líquido a que o célebre Almirante Vernon deu o nome, derivado do capote de grogran (gorgorão) que habitualmente usava.
Hoje, certamente, ainda se fazem tais reuniões em certas casas como para perpetuar a tradição, mas necessariamente vão-se tornando mais raros os casos de tétano infantil, visto que a Civilização vai avançando sempre, os insulares vão-se ilustrando mais e por isso vão banindo certas práticas filhas da ignorância, mãe da superstição. Hoje qualquer parteira vai à ambulância ou farmácia e mune-se do necessário prescrito cientificamente para curar o umbigo ao recém-nascido. Apesar disso muita gente (de todas as classes) continua a acreditar em bruxas e feiticeiras e sortilégios e outras superstições. Nem a Religião o impede, porque nas práticas inerentes entram até os objectos sagrados e os santos. Isto, porém, já pertence a outra ordem de ideias.

In «Cabo Verde» – Boletim de Propaganda e Informação – Nº 146 – Novembro de 1961
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Guarda-Cabeça
Por  Augusto Casimiro

Outro costume lembra, transformado, um velho rito tribal africano – o busahama , entre os rongas  –  e decerto, espalhado em toda a África bantu. Quando o recém-nascido alcança o sétimo dia, família e amigos velam até depois da meia-noite. No leito, remediado ou pobrinho das parturientes da Brava, a mãe repousa, com o filhinho ao lado. Cercam-na as amigas. Ali mesmo, e na sala ou terreiro contíguos, os convidados falam, ou jogam. Pela noite fora servem-se bebidas, canjas, acepipes, doçuras.
Quando for meia-noite, passou o perigo para o menino… Ele entrou na vida. O sangue encontrou, no corpinho frágil, seu ritmo de força. As bruxas ou lobisomens nada poderão contra ele… Nem morte nem mau fado…
Guarda-cabeça se chama, na Brava, o amorável costume.
Na casa em festa os avós rejubilam. O pai anda inquieto de alegria e prosápia. Toda a gente, numa discreta animação, festeja a hora. Com o filho ao lado, no leito modesto ou pobrinho a mãe sorri.
As raparigas e os moços jogam, com cartas, o Sói-eu.
«Quem tem muito desejo de amar?
E a carta responde por quem a lança e diz verdade:
Sói eu!
«Quem tem um olho preto que está a matar o mundo?
E uma de olhos pretos matadores, se a carta vem a jeito, tem de dizer:
Sói eu!
Os velhos batem as cartas da sueca.
Um violino chora, os violões embalam…
Ergue-se um canto. Baila-se mansinho.
Lá dentro a Mãe escuta e sorri. Como Nossa Senhora no presépio de Belém.

In ”Portugal Crioulo” Págs. 94/95. Augusto Casimiro – Edições Cosmos – Lisboa – 1940


O descalabro do ensino em Cabo Verde

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O nosso apreciado poeta Arménio Vieira, o prémio Camões 2009, numa entrevista recentemente dada à RDP África, perguntado porque actualmente, residia em Portugal, respondeu naquela forma e naquele registo que nele reconhecemos - naturalidade e simplicidade, - explicando  assertivamente que tendo uma filha em idade escolar,  gostaria que ela tivesse a possibilidade de ter uma boa escolarização e de fazer actividades extra-curriculares de que  gosta.
Subentendidos das palavras do poeta, é que tais meios e instrumentos não existem na terra de origem.
Ora bem, dito dessa forma, ninguém em consciência retirará razão a este pai com literacia e, felizmente, com capacidade de escolha.
Nós que vivemos nestas ilhas, lamentamos diariamente a indigência da oferta escolar (pública e privada), a ignorância e a derrapagem que o nosso meio académico tem vindo a conhecer.
Os problemas são tais e tamanhos, que exemplificá-los todos daria antologias. Apenas alguns tópicos: o manual escolar, o livro de apoio e o conteúdo programático.
Comecemos pelo livro. O livro nas escolas – nos dias que correm – é objecto raro para não dizer, inexistente; e não quero entrar na incorrecção do negócio de fotocópias,  – por vezes de má qualidade –  que os professores levam para vender nas aulas aos alunos.  O ensino básico, secundário, actuais, roçam – no geral –  uma mediocridade confrangedora. 
Contextualizo apenas algumas situações concretas que ilustram o que acabo de afirmar:
Aqui há tempos contou-me um dos meus muitos sobrinhos – um, cujo filho frequenta os últimos anos do ensino secundário –  que pedira à professora da disciplina de Filosofia, que lhe indicasse os livros necessários ao estudo da matéria programada da referida disciplina para que ele os pudesse adquirir para o seu educando. Pasme-se com a resposta! A professora de Filosofia respondeu: ”Não. Não gaste dinheiro em comprar livros. Livros, não valem a pena!”  Atente-se à situação: Uma docente de Fi-lo-so-fia!!! Que nível! Uma docente que deveria ter sugerido vários livros e de diferentes autores! Assim se esperaria. Ainda por cima, sabendo que se tratava de um pai que os queria adquirir, mesmo mandando vir de Portugal... Será que não tem consciência da abrangência do programa da disciplina que ministra e que se limita a debitar os seus apontamentos? Fica esta dolorosa interrogação.
Outro caso: no início do ano lectivo acabado de findar, disponibilizei-me para comprar e oferecer ao filho mais velho da minha Empregada, os livros que fossem necessários, pois ele ia frequentar o 11º Ano de escolarização. Aguardei uns dias, para dar tempo, na suposição de que os professores lhos haviam de indicar.
Ora bem, dias se passaram e o jovem não me enviava a lista dos livros. Perguntei à progenitora a razão, ela explicou-ma: é que nenhum dos professores havia indicado qualquer livro para a respectiva disciplina.
Um terceiro caso é uma questão de conteúdos programáticos: O neto de uma amiga teve por razões pessoais de vir terminar o secundário em Cabo Verde. E, de repente, viu-se como um aluno “excepcional” a Matemática, uma disciplina que dominava sem brilhantismo. Perguntado sobre a “metamorfose” limitou-se a dizer: A matéria que dou aqui é dada dois anos antes em Portugal! Sem comentários!!!
E assim vai o ensino nas escolas cabo-verdianas – apontamentos ditados e fotocópias de extractos, obviamente redutores, de livros e programas desfasados dos potenciais países de acolhimento universitário.
Pensar que a geração dos meus filhos estudou em escolas públicas nacionais e que prosseguiu os seus estudos superiores, na altura, obrigatoriamente fora de Cabo Verde, sem outros desníveis/percalços – normalmente transitórios – que não fossem apenas os de integração...
Este conjunto de fenómenos, a que chamarei de derrapagem do ensino (?) cabo-verdiano, pode de ser datado, com pouca margem de erro, de há quase década e meia atrás e tem vindo a acontecer num ritmo crescente e  assustador.
Pois bem, sem preparação, sem o bom hábito de estudar em manuais, de consultar e de ler livros; sem capacidade de interpretação de conceitos e muito menos de argumentar, como podem os jovens cabo-verdianos de hoje aspirar a serem quadros e recursos humanos válidos e apetrechados para a sua realização profissional? Como? Só mesmo por milagre! E como tal não vai acontecer, temos o futuro do cidadão e do país, substantivamente comprometido.
Na verdade, existe um baixo nível do ensino e de aprendizagem nas escolas deste país (será que se poderá falar em excepções?). E é com muito pesar, que continuamos a presenciar a cada ano lectivo que passa, este descalabro galopante do ensino em Cabo Verde.
Trata-se também de um fenómeno que já fixou residência, isto é, instalou-se no interior das escolas cabo-verdianas, e se tornou geral: Professores que já não falam a língua portuguesa, que é  a língua veicular do ensino; Professores deficientemente apetrechados cultural e cientificamente;  professores que não incentivam os estudantes à leitura; ao desenvolvimento do raciocínio, dedutivo e lógico, e, muito menos, capacitá-los para  raciocinarem em termos literário e filosófico. Alunos que não conhecem e muito menos manuseiam livros ou manuais escolares. Alunos cujo raciocínio lógico e dedutivo (obrigação da escola em ajudar o seu desenvolvimento) encontra-se abaixo do nível etário e do patamar escolar em que estão ou, quando terminam os estudos secundários e até superiores (leiam-se textos académicos de muitos dos nossos mestrados e doutorados; escutem-nos a discorrer nos meios da comunicação social, ou outro).
Em conclusão:  são por regra, portadores de uma linguagem redutora, de um léxico titubeantemente pobre, reflexos de um raciocínio subdesenvolvido e condicionado.
Acredito, e estou absolutamente segura, que no meio desta desgraça toda, que constitui o nosso actual corpo docente  há gloriosas excepções  e ainda bem que as há para “salvar a honra do convento”!
Resultado: Estamos a enviar para estudos superiores e post secundários,tanto no país como nas instituições portuguesas e brasileiras, candidatos que pouco ou nada sabem do nível de estudos que lhes será doravante exigido.Tem havido anualmente situações, que não excepções, e que confirmam,o que aqui é dito. Não sei se as nossas estatísticas anotaram ou anotam isso.
Daí que pais com capacidade e esclarecidos, como o grande poeta Arménio Vieira, façam este tipo de deslocalização, no caso, a pensar no bem da filha, numa melhor educação, em suma, capacitá-la para o futuro.
Infelizmente, os que cá ficam e que constituem a maioria serão futuros altos quadros e futuros dirigentes do País que estudaram todo o ciclo secundário e até nos estudos superiores nas escolas nacionais, através de fotocópias, e que, se calhar, nunca leram um livro na vida... Simplesmente catastrófico.
Exagero? Caricatura? Faça-se uma pequena sondagem e teremos resultados arrepiantes.
Ah!  Como gostaria de estar enganada!
Podem crer que gostaria mesmo e ficaria imensamente feliz, se me contrariassem com dados fiáveis e confiáveis.



BOMBAS, ARMADILHAS E DEMISSÕES

sábado, 15 de julho de 2017


      Inesperadamente, sem que nada o pudesse prever, eis que o roubo de explosivos, munições e outros artefactos militares detectado nos paióis de Tancos, veio trazer mais combustível para o festim da comunicação social. O tema das Forças Armadas, ou da Defesa Nacional, nunca ou raramente é objecto de tratamento mediático sério e responsável, como se se tratasse de uma simples excrescência no organismo nacional. Mas basta algo que saia da normalidade para saltarem à ribalta opinantes de todo o tipo e perfil, com explicações e juízos os mais variados, mesmo que não saibam a diferença entre uma granada de mão ofensiva e uma granada de mão defensiva, invertendo as características da sua letalidade, como aconteceu com um jornalista ou comentador. Ou que chamem “armamento pesado” ao material roubado, como também se ouviu a vários noticiadores.
      Normalmente ficam pela espuma dos acontecimentos, porque é onde podem meter o canudo para fazer bolinhas de sabão, já que a química das matérias subjacentes não lhes interessa ou aí não funciona aquele instrumentozinho de diversão. É intrigante como ninguém traz à baila a extinção do Serviço Militar Obrigatório (SMO), aprovada num dos governos de Cavaco Silva, que não conseguiu contrariar a pertinaz militância do então presidente da JSD, Pedro Passos Coelho, em prol daquela medida. É que uma das causas, ainda que indirectamente, da ocorrência em Tancos pode ter também uma relação com a tremenda restrição de efectivos com que os comandantes das unidades militares hoje se debatem para cumprir as tarefas mais básicas da sua actividade orgânica. De igual modo, ninguém questiona os cortes orçamentais que ao longo dos anos têm reduzido sucessivamente a capacidade operativa das unidades militares. Só assim se explica que a reparação do sistema electrónico de vigilância aos paióis em causa não tenha merecido uma resposta imediata.
      Contudo, não é aceitável invocar aquelas duas condições limitadoras como justificação, já que um paiol é área crítica numa instalação militar, normalmente considerado “ponto sensível”, requerendo por isso atenção prioritária no elenco das actividades internas. Se há avaria no sistema de vigilância electrónico, cuja função é apenas adjuvante no conjunto de medidas de protecção, os meios humanos têm de ser reconvertidos ou reajustados à nova realidade, quer em número quer no modus faciendi operativo.
      Certamente por assim pensar é que o General Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME) entendeu que o problema era da estrita responsabilidade das unidades militares envolvidas no processo de segurança a esses paióis. “Exonerados temporariamente” das suas funções, esta medida é, reconheça-se, inusitada nos cânones de procedimento, mas é sobretudo indiciadora de uma violação do “Princípio da Unidade de Comando”, um dos mais determinantes na arte da guerra. O coronel reformado David Martelo explica-o bem no seu artigo O “Pentavirato” de Tancos e as Virtudes Perigosas, de 08/072017 (1). Com efeito, ao atribuir-se, em regime rotativo, a função de guarda e vigilância àqueles paióis a cinco unidades militares diferentes, uma delas fora do perímetro de Tancos (o Regimento de Infantaria 15, de Tomar), criou-se uma condição propiciadora das seguintes consequências: tendência para a diminuição da eficácia e rigor no cumprimento da missão, por não haver uma única entidade supervisora e (re)avaliadora em permanência dos actos e procedimentos da sua conduta; dificuldade de apuramento de responsabilidades objectivas no espaço e no tempo certos.   
      Pois bem, a seguir aos fogos de Pedrógão Grande rebenta esta bomba no seio da instituição militar e a oposição política, esfregando as mãos de contente, vê desferir-se por mão invisível mais uma machadada no estado de graça que muito justamente o actual governo vinha gozando. A oposição aponta mais uma “falha do Estado” e insinua, se não sentencia mesmo, uma óbvia responsabilidade do ministro da tutela, mas sem explicar à puridade os pontos de conexão, no caso em apreço, entre a responsabilidade operacional e a responsabilidade política. Sim, porque na verdade tudo o que de mal ou bem acontece no país envolve teoricamente a figura do Estado.  Temos tendência para ver o Estado como uma abstracção, incapazes de perceber e inscrever sequer as nossas responsabilidades individuais onde nos comprometam as nossas acções, as nossas omissões ou as nossas demissões. A isto ninguém está imune, nem comunicação social, nem governos, nem oposição, nem órgãos de execução, nem cidadão comum. Há um colectivo comum de responsabilidades que nos obriga a rever de alto a baixo a nossa prática cidadã, se quisermos valorizar o nosso estado de direito democrático.
      E é neste estado de confusão que o CEME decidiu desarmadilhar a bomba política, assumindo a responsabilidade institucional pelo assalto aos paióis, escudando assim o ministro mas expondo-se a estilhaços. 



Tomar, 10 de Julho de 2017

Adriano Miranda Lima (coronel do exército na reforma)



INCÊNDIOS, LABAREDAS E DEMISSÕES

terça-feira, 4 de julho de 2017
Os jornalistas e os habituais fazedores de opinião agarram o episódio do incêndio de Pedrógão Grande como gato que vai a bofe. Enquanto permitir sound bytes, o tema dá muito jeito, mesmo que não se saia da análise superficial, da conjectura ou da conclusão precipitada. 
Os dois partidos da oposição surfam a mesma onda de ocasião, regalados com a oportunidade de queimar o governo numa labareda inesperadamente oferecida de bandeja pela mãe natureza. Afinal, o tal “diabo” não veio quando invocado, ou desejado, mas numa tarde escaldante de sábado, vomitando fogo em todas as direcções, em voo picado sobre as nossas florestas de pinheiro e eucalipto. Chame-se-lhe downburst ou o que se quiser.
A jornalista Judite de Sousa apresentou-se no palco dos acontecimentos e, com pompa e circunstância, escolheu os cenários de reportagem que lhe interessavam, um deles de muito mau gosto. Encontrou no local a ministra do interior em fato de combate, envergando calças de ganga e colete do Serviço Nacional de Protecção Civil, despenteada e desmaquilhada. Talvez escandalizada com o ar descomposto da governante, ou desconfiando que ela tivesse tido um encontro secreto com Hefesto, o deus do fogo helénico, a jornalista não se conteve e disparou-lhe a pergunta ígnea: “a senhora ministra vai apresentar a sua demissão?”
Incêndios fora dos cânones normais, ira divina ou acção de Belzebu, alguns jornalistas da nossa praça e os dois partidos da oposição não vêem outra saída para aplacar a sanha maligna senão queimar a ministra no rescaldo do brasido. A deputada presidente do CDS, na última sessão parlamentar, foi das mais empolgadas a sugerir a demissão de alguém, pois claro… da ministra. Pronunciava as palavras com acentuada ênfase, esticando os lábios em canudo para deixar sair sibilina a sentença prematura: responsabilidade políiiitica! Responsabilidade políiiitica!
Sim, responsabilidade política, pressupondo incompetência, inaptidão, dolo ou incúria da titular da pasta da administração interna. Claro que a deputada do CDS tem todo o direito de o exigir alto e bom som.
Vai daí, cheio de dúvidas, fui ao Google pesquisar sobre esta ministra, saber se debaixo do seu ar angelical, da sua sensibilidade feminina e da sua frágil aparência física, se esconde alguém com o sortilégio da malignidade. Sim, ela poderia em vésperas da época de incêndios ter suprimido meios ao Serviço Nacional de Protecção Civil, cortado irresponsavelmente nos efectivos das corporações de Bombeiros e da GNR, ou mandado desaparelhar o agora posto em causa SIRESP (Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal). Ou mesmo baralhado as meninges dos “comandantes” da Protecção Civil. O Wikipédia disse-me então que ela é licenciada pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, doutorada em Direito Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade do Sarre, Alemanha, e que foi professora de Direito da Universidade Autónoma de Lisboa e do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. De 2006 a 2012, foi conselheira e coordenadora da Unidade Justiça e Assuntos Internos (JAI) da Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER). Durante seis anos chefiou a delegação portuguesa ao Comité Estratégico de migração, Fronteiras e Asilo (CEIFA) da União Europeia, e foi membro da delegação portuguesa no COSI (Comité Permanente de Segurança Interna) e Grupo de Trabalho de Alto Nível sobre Asilo e Migração, entre outras estruturas do Conselho da UE. No segundo semestre de 2007, durante a presidência portuguesa do Conselho da UE, presidiu ao CEIFA e a reuniões de Conselheiros JAI, dirigindo negociações sobre vários dossiers no seio do Conselho e com a Comissão e o Parlamento Europeu, como a Directiva de Retorno, o Regulamento do Código de Vistos, as Parcerias para a Mobilidade, os acordos de facilitação de vistos com os países dos Balcãs Ocidentais e a Ucrânia, entre outros.
De facto, vê-se que Constança Urbano de Sousa possui um invejável currículo académico e um registo de desempenhos de alto nível em funções de Estado, como poucos têm, sejam os jornalistas de pacotilha ou os políticos de verbo jactante e ridículas poses teatrais ensaiadas nos proscénios partidários. Sim, ela não é desses “boys”, ou “girls”, alçapremados a cargos políticos sem se saber como e porquê.
Ela tem um trajecto profissional que a recomenda especialmente, sem favor nenhum, para o cargo que exerce. Mas tem um handicap. Falta-lhe voz grossa e ar másculo para mandar em polícias e bombeiros. E nós, latinos, talvez tenhamos dificuldade em aceitar isso.
Quanto a responsabilidades políticas pela saga destruidora e assassina dos fogos florestais, o que existe efectivamente é um conglomerado de acções e inacções em que as nossas limitações e indecisões se dão as mãos com a imprevidência, o erro e o desleixo, com uma transversalidade e reciprocidade de efeitos em que ninguém está isento de culpas. Recuemos no tempo, décadas atrás, e cada um, político, bombeiro, polícia
ou cidadão comum, que escolha a responsabilidade que lhe cabe. Tudo o resto é show off político.
Tomar, 2 de Julho de 2017

Adriano Miranda Lima

Apresentação das colectâneas de Jorge Barbosa – «Arquipélago», «Ambiente» e «Caderno de um Ilhéu».


Ilha do Sal, Maio, 22/24/2017 – Semana do Poeta

Mais uma vez aqui convosco, neste ambiente de cultura que a Câmara Municipal organizou, a partilhar a apresentação de três importantes colectâneas de poemas de Jorge Barbosa, sob forma fac-símile, a saber:   «Arquipélago» 1935,   «Ambiente», 1941 e «Caderno de um Ilhéu», 1956,  em boa e sempre oportuna ocasião reeditadas pela Livraria editora «Pedro Cardoso», que desta forma, não só, coloca à disposição de leitores interessados, de estudiosos, obras de há muito desaparecidas no mercado livreiro nacional mas também, e sobretudo, estará a contribuir de forma enriquecidora, para que parte importante e essencial  de um dos maiores, dos mais completos e dos mais autênticos monumentos poéticos, inspirados e criados nestas ilhas atlânticas do Arquipélago de Cabo Verde, não seja votado ao esquecimento, mas bem pelo contrário, seja lido e fruído pela geração actual, sobretudo por aqueles que apreciam a boa poesia. As minhas felicitações à livraria editora, Pedro Cardoso, por mais este excelente empreendimento, nas pessoas do Dr. Mário Silva e do Dr. João Pedro Spencer.
Outrossim, torna-se extremamente interessante verificar que quando a parceria entre a administração local e a produção editorial funciona e creio que estamos perante este facto, a comunidade visada, – nesta circunstância a da ilha do Sal – ganha, e ganhará com isso. Os leitores interessados, os estudantes, os professores, dispõem de meios mais adequados e acessíveis para lerem e usufruírem estudando, a grande poesia de um dos mais importantes poetas islenhos;  de estarem mais informados; de se tornarem mais conhecedores da poética nacional e também mais sabedores, o que no fundo, complementa a vida intelectual e apoia o exercício de cidadania das pessoas, porque alicerçada numa “praxis” cultural, como expressão de um ponto alto de bem-estar e, consequentemente, de uma espiritualidade mais rica.
Hoje falamos da poesia de Jorge Barbosa e perguntamos porquê que isso está a acontecer? A resposta mais óbvia é, certamente, porque se trata de uma poesia intemporal, de uma poesia que continua viva, que continua entre nós. “Dentro de nós” diria, se calhar, algum poeta.
 A sua leitura, – da obra de Jorge Barbosa – provoca-nos ainda ondas de emoção de um certo gozo estético/lírico reflexos da sua inquietação (do poeta) pois que nela nos reconhecemos ainda, e com ela nos identificámos. Reconhecemo-nos e identificamo-nos afinal, porque o poeta soube captar e reelaborar em versos de forma, diria, acabada e sublime, a cultura partilhada, bela e mestiça, de que resultou afinal a cabo-verdianidade. E essa cabo-verdianidade como força motriz, fundadora e construtora da poética barbosiana, permite-lhe, ainda hoje, estabelecer com o leitor uma certa intimidade, uma proximidade identificativa que lhe garante alguma perenidade e actualidade.
Mas atenção, devemos sempre salvaguardar, ressalvar e perceber as marcas da temporalidade que conferiram circunstancialidade histórica, contexto social e humano, muito específicos da época vivida e vivenciada pelo poeta e que o terá inspirado, naturalmente.
Assim explicitado, o leitor entenderá – na linha do pensamento de Ortega y Gasset (1883 -1955) que o “homem, é o homem e a sua circunstância”
Acrescenta-se a este conceito, aquilo que disse o Prof. Vitorino Nemésio, “o Homem é também ele e a sua geografia”.
Ora bem, ambos os conceitos, aplicam-se ao caso de Jorge Barbosa para pudermos bem entender a temática dos seus poemas.
Não me canso de repetir para que a geração de hoje saiba, esteja informada de que Jorge Barbosa, tal como Osvaldo Alcântara, (Baltazar Lopes da Silva), Manuel Lopes, António Aurélio Gonçalves, entre outros, todos eles, cedo conheceram o respeito, a admiração das gentes das ilhas, como homens do saber – os sábios das ilhas. Constituíam a nossa aristocracia; distinguiam-se do comum dos seus conterrâneos. Eram reconhecidos nas ruas e nos sítios por onde passavam, muito estimados e quase venerados por aquilo que representavam para estas ilhas.
Nós – a minha geração – então crianças, adolescentes, ouvíamos falar, em casa e na escola, desses nomes ilustres que os adultos, pais e professores admiravam.
Mas já antes deles, nomes como Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso, poetas, escritores e compositores eram afamados e reconhecidos nas ilhas, pelo seu alto valor intelectual. E isto fazia parte de um passado de Cabo Verde, em que era considerado cidadão com valor, aquele que, para além da sua conduta moral irrepreensível, era portador de boa literacia, capaz de transcender a pequenez do meio pelo seu saber, e constituir o orgulho e a referência do seu concidadão.
Posto isto, passemos ao que aqui nos traz. Costuma-se dizer, e já o disse mais do que uma vez, que a Literatura é um lugar sagrado e a poesia um dos seus altares.
É sobre este altar sagrado de Jorge Barbosa, inserto e configurado com mestria, em «Arquipélago», em «Ambiente» e em «Caderno de Um Ilhéu» que me proponho dizer-vos, ainda que de forma pouco profunda e breve dado que o tempo me condiciona, algumas palavras.
Vamos por partes: a publicação de «Arquipélago» em 1935, está já registada na historiografia poética de Cabo Verde, como sendo o verdadeiro marco, a baliza, que separa a antiga e a moderna poesia cabo-verdiana, esta última iniciada exactamente com a publicação desta primeira colectânea de Jorge Barbosa. O que fazia a diferença afinal com a poesia anterior? É que em «Arquipélago» se inscreveu pela primeira vez, e de forma indelével, a geografia humana de Cabo Verde. Era então jovem, o poeta Jorge Barbosa, mas já com um trabalho poético assinalável e publicado, anos antes, de forma dispersa, em revistas e jornais portugueses de cariz literário e cultural. Como, para exemplo, as prestigiadas revistas: «Seara Nova». «Presença», «Jornal de Europa», «Suplemento Literário» do Jornal Diário de Notícias. Curiosamente, Jorge Barbosa teve como companheiro das ilhas, naquelas publicações, o então também jovem poeta, Osvaldo Alcântara. Tudo isto aconteceu uns anos antes de 1935. Um período que pudemos delimitar ou situar, entre 1929 e 1934.
Convém igualmente destacar que nesta colectânea de 14 poemas, encontramos três dos mais emblemáticos poemas deste autor, e são eles: “Panorama” pág. 9, “Rumores” pág. 25 e “O Mar”, pág. 34, os quais, ainda hoje são considerados como poemas “ex-libris”, de Jorge Barbosa.
Seis anos passados, em 1941 foi publicada a colectânea «Ambiente», numa configuração de 20 poemas. Se em Arquipélago» o poeta descrevera a envolvência física das ilhas em que sobressaía a perspectiva espacial – a ilha – aqui tomada como centro onde, ora em dicotomia com o mar, ora como metonímia do Arquipélago, e ora ainda como “habitat” gerador da condição de ilhéu que a poesia de Jorge Barbosa tão bem soube prefigurar.
A sua escrita, – de Jorge Barbosa – como ele próprio a definiu numa das muitas cartas trocadas com o escritor e também poeta, Manuel Lopes – é límpida e sem malabarismos retóricos. Escreveu então Jorge Barbosa, para Manuel Lopes, numa espécie de “aviso à navegação”, o seguinte: “Eu nunca fui eloquente e ia dizer-te felizmente. A eloquência, é certo, é uma importante defesa para os que tiram sonâncias e músicas das palavras, porque lhes preenche o vazio do pensamento e porque deixa no público, embora quando esse público circunscreve-se à nossa convivência, arrepios sensacionais de seguro efeito. Quando escrevo ou quando falo, sou naturalmente um reflexo da minha interioridade, procuro transcrever-me, descrever as ideias que possa ter; nunca me malabariso em verbosidades ocas e lantejouladas, tão fáceis de resto”. Fim de citação.
É através dessa escrita, assim esculpida, assim fixada pelo poeta como “reflexo da sua interioridade” que vamos continuar a ler em «Ambiente», colectânea, como já referi, composta por 20 poemas. Se em «Arquipélago» o protagonista ou o sujeito poético era a ilha/arquipélago, a origem, a representação da sua geografia quase física, embora com os elementos humanos que a povoaram e que lhe trouxeram movimentação humana; em «Ambiente», os sujeitos poéticos são em primeiro lugar, o “irmão-caboverdiano-anónimo”, na sua busca incessante de sobrevivência, devido às secas e às estiagens que o fustigam. Também o mar é elemento primordial e transversal em toda a poesia de Jorge Barbosa. O mar/grade/prisão; o mar que convida à libertação; á evasão da ilha /cerco/espaço fechado. Veja-se “Poema do Mar” pág. 29.
Como mais ilustrativo desta colectânea, convido-vos a folhearem o vosso exemplar de «Ambiente» e regressarem  à  pág. 17. Trata-se do poema-proposição de Jorge Barbosa, «Irmão». Nele exarou o que doravante seria a sua mais relevante marca poética. Uma leitura. (ler o poema)
A vez, em 1956 de «Caderno de um Ilhéu». Aqui o poeta atinge uma certa plenitude na sua escrita, uma grandeza madura na sua estética, no seu estilo. Há nitidamente uma linha evolutiva na construção e na fixação da sua poesia.  O poeta como que já se sente mais senhor do “seu destino poético” mais profundo, mais sabedor. De facto, com «Caderno de um Ilhéu, Jorge Barbosa atingiu um cume na poesia cabo-verdiana.  Trata-se de um conjunto magnificamente estruturado de 39 poemas, que enfatiza agora, os temas que lhe são mais caros com uma mestria ímpar, que definitivamente projecta o ideário da “poesis” inscrita por Jorge Barbosa, nas Letras cabo-verdianas.  
E, como sempre, com a humilde e a natural simplicidade que o caracterizam, Jorge Barbosa faz a sua apresentação no poema homónimo “Apresentação” com que inicia a Colectânea. (ler o poema)
Interessante, é que «Caderno de um Ilhéu teve desde o seu aparecimento, uma aceitação e uma crítica muito auspiciosas, tanto aqui nas ilhas, como em Portugal e com ecos no Brasil. Assim vamos ler da pena de poetas e críticos conhecidos em Portugal, como Jorge de Sena, Artur Portela Filho, Amândio César, João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira e o nosso conhecido Manuel Ferreira, entre outros, os quais, quer em Jornais quer em revistas da época, quase todos, não pouparam elogios à nova obra de Jorge Barbosa. Também no Brasil, chegam novas de como alguns poetas leram a nova colectânea do poeta-irmão, como o designou Ribeiro Couto. Lembrar que é em «Caderno de um Ilhéu» que encontrámos os poemas que simbolizam o afecto, a identificação que Jorge Barbosa estabelece entre Cabo Verde e Brasil. Leiam os poemas, «Cartas para o Brasil» e «Você Brasil».

Para finalizar, gostaria de reiterar que o poeta Jorge Barbosa inaugurou para a literatura cabo-verdiana, um autêntico tratado poético, com novos temas, nova métrica e uma tremenda e imensa poesia em versos soltos, ora curtos ora longos, numa métrica muito própria e então original, em que o silêncio, a magia encantatória dos seus versos respigaram intimismo e interioridade.