O perfil actual do candidato universitário

terça-feira, 14 de agosto de 2018


Há dias escutando um debate televisivo, um dos intervenientes , o  Prof. Marçal Grilo, a propósito da Educação, dizia ele que antigamente quando se ia para a escola das primeiras coisas que o professor ensinava aos alunos era saber sentar-se e, levantar-se quando entrava uma visita na sala de aula.
Acontece é que os professores traziam isso na sua bagagem social, cultural, hoje os nossos professores, a maioria, não conhece regras, desconhece valores. Logo, não as poderá transmitir.
Aqui e agora refiro-me já à escola cabo-verdiana que infelizmente hoje está em colapso. Em quase tudo. Na transmissão científica de conhecimentos, na língua veicular do ensino, enfim em toda a edificação do saber, que é a dimensão primeira do ensino, obrigação transcendente da escola. Tudo isso  se encontra em derrocada total em Cabo Verde.
Li recentemente, num artigo no Jornal «Público» de 6/08/18 - intitulado: «Os Professores dos nossos netos» - assinado por João Cerejeira e Miguel Portela, um conceito de escola/ensino/aprendizagem sobremaneira interessante e fundamental. Dizia o seguinte: “... É reconhecido que nenhum sistema de ensino pode ser melhor do que os seus professores. (...) Quanto maior for a capacidade cognitiva do professor, melhor será a capacidade cognitiva dos alunos, nomeadamente para alunos oriundos de meios mais desfavorecidos para os quais o contexto familiar não compensa eventuais falhas obtidas na escola. É, pois, necessário planear o acesso à profissão docente, de forma a garantir a existência de muitos bons professores, porque deles depende o futuro da educação, enquanto base do desenvolvimento social e económico”. (...) O declínio do reconhecimento e da imagem social dos docentes enfraquece as aprendizagens, o ensino e a sociedade. (...) É, pois, claro que o reforço do prestígio e da cultura profissional docentes tem impacto na melhoria das aprendizagens, não só nos alunos actuais, mas também nos alunos futuros. Para ter bons professores, é preciso atrair os melhores alunos para a profissão.” Fim de transcrição.
O artigo referenciado, aludia ainda ao facto, para exemplo, de que deviam ser previstas entrevistas com os responsáveis para se aquilatar a motivação, a adequação dos candidatos à docência. A não realização deste rito, é à partida, uma falha, para se intuir de um futuro bom ou mau docente.
Pois bem, voltando ao que se passa entre nós, um dos assuntos mais controversos actualmente, andará à volta do perfil dos candidatos que Cabo Verde selecciona para  as vagas universitárias em Portugal.
Regra geral, são seleccionados os alunos com as melhores classificações - note-se: não são os melhores alunos de facto. São os que têm maior média de notas, estas por sua vez, altamente inflaccionadas, e dadas por professores, na maior parte, medíocres, tanto na formação, como na transmissão de conhecimentos. Esta é a realidade crua e dura por que passa  nos dias que correm o  ensino/escola/aprendizagem aqui nas ilhas.
Efectivamente, os alunos, candidatos com o 12º Ano do ensino secundário e com maiores classificações,  têm  preferência para as vagas  em Portugal, colocadas à disposição do Governo de Cabo Verde, nas universidades e nos institutos politécnicos. São as preferidas. As mais concorridas. Há uma grande procura. É natural, percebe-se a opção. Trata-se regra geral, de uma boa formação em país de língua e cultura muito comuns. Relativamente perto geograficamente. Quase todos, têm lá parentes e algum apoio, o que dá conforto. Tudo isso é entendível, perfeitamente compreensível para a procura competitiva de vagas para cursos superiores em Portugal. É um facto.
Só que nesta demanda, não são salvaguardados os aspectos essenciais para um razoável sucesso do aluno. A saber: se o aluno se expressa em língua portuguesa, se o aluno a fala e a escreve com o nível adequado aos anos de escolaridade, no pressuposto de a ter tido como língua veicular do ensino; se o aluno tem saber firmado do 12º ano das disciplinas científicas, e específicas para o curso para o qual se candidatou à vaga em Portugal.
Mas mais, a não salvaguarda desses factores essenciais, vem concorrendo para o enorme “desaire” dos nossos formandos em Portugal.  Um mau exemplo: narra-se que muitos dos estudantes enviados para os pólos de engenharia de uma cidade no interior de Portugal, dos melhores do país, mal-sucedidos nos primeiros anos, concorrem para bombeiros ou para empregos  bem precários. Enfim, à semelhança do que se passa nos pólos daquela cidade, o mesmo sucede noutras instituições universitárias portuguesas.
E assim temos jovens que acabam por entrar na chamada emigração clandestina.  Não regressam. Mas disso não há estatística. Resultado:  projecto inacabado. Compromete-se o futuro. Perde o formando. Perde Cabo Verde. Para além da eventualidade, do risco, de nos serem recusadas no futuro, vagas nas instituições de ensino superior no país de acolhimento.
Infelizmente, a situação que se desenha é esta: o galopante insucesso que tem havido com os estudantes cabo-verdianos nos últimos anos, pode contribuir para desaparecer também, essa boa oportunidade de formação no exterior para os nossos jovens.
Abro aqui um parêntesis para dizer o seguinte: pouco ou nada sei sobre o que se passa actualmente no Brasil, com os nossos estudantes que para lá vão. Creio - não tenho a certeza disso - correm rumores de que o Brasil resolveu  nos últimos anos, parte do problema, criando cursos, tipo “terceiro-mundo”, especificamente dirigidos aos mal preparados alunos cabo-verdianos. Será assim?? Dito isto assim, não estou a culpar o Brasil. Fecho o parêntesis, mas não a minha profunda tristeza!
Mas minha gente, recuemos um pouco no tempo. Após a independência, os nossos formandos demandaram também para estudos universitários,  países como a Espanha, a França, a Rússia, a Alemanha, entre outros, e em todos eles, aprenderam a respectiva língua veicular do ensino e formaram-se.
É imperativo que se repare que eles outrora levavam na sua bagagem académica, para além de conhecimentos científicos adequados ao curso almejado, haviam interiorizado, através da leitura e da escrita, uma sólida e rica estrutura linguística - a Língua portuguesa – para alguns casos de origens semelhantes (Latim) às línguas dos países para onde foram estudar.  O facto de saberem o português, tê-los-á na certa, ajudado na integração no meio académico estrangeiro.  Igualmente tinham do Liceu, o Francês e o Inglês.  
Para mal dos nossos pecados, tais pressupostos já não se verificam hodiernamente, com o saber e a consistência de então.
Não vá sem acrescentar a má notícia ouvida de que as ilhas Canárias, aqui ao lado, declinaram o acolhimento de estudantes cabo-verdianos, justificando-se com a incapacidade destes em aprender a Língua espanhola (?) possivelmente também ao lado da má preparação científica, que levam das escolas secundárias cabo-verdianas. Ao que isto chegou!
Com efeito, se bem ensinados estivessem na Língua portuguesa, se bem capacitados estivessem nos fundamentos científicos de cada disciplina, estudados em livros escritos em português – era o que acontecia ainda, há sensivelmente duas décadas  atrás – seriam portadores de uma boa e sólida estrutura linguística, cognitiva, capaz de fazê-los apreender com relativa facilidade a outra língua.
Tanto mais tratando-se de duas línguas próximas uma da outra. Ambas filhas do Latim em hiper - estratos etimológicos, e com outros semelhantes substratos e adstratos etimológicos vindos do grego, árabe, entre outros, que formataram tanto o espanhol como o português. Infelizmente, sejamos realistas e directos: mais uma vez, aqui se revelam a grande falta, os enormes estragos e os rombos causados e devidos ao mau ensino ou, ao não ensino de todo, da língua segunda e oficial do país, na preparação da vida futura dos estudantes cabo-verdianos.
Uma autêntica erosão cultural, uma calamidade! Um empobrecimento! E acima de tudo: um retrocesso!
Para amenizar esta tragédia, narro aqui uma situação, no mínimo caricata, vivida ainda recentemente por uma colega professora que embora já das mais antigas, ainda se encontra no activo. Contou-me ela que estando na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, foi-lhe pedido - pela funcionária da sala de leitura - se podia ajudar um grupo de alunos em apuros para encontrar uma obra de consulta em matéria antropológica, cultural.  Encontrado o livro, ela dispôs-se a ajudá-los e, quando começou a explicar um pouco da matéria sobre a qual eles indagavam, foi abruptamente interrompida por um deles, que disse em crioulo: “Explique-nos isso em crioulo, pois em português não  a entendemos.”  Admirada, interrogou a minha colega: “...Espera aí! vocês são alunos de que ano?” Responderam: “Somos do 1º Ano do Curso, Estudos Portugueses e Cabo-verdianos da Universidade de Cabo Verde.”  Ela indignada, já ao rubro (subiu-lhe à face o “lume vulcânico” como me disse) ripostou: “Francamente! O que os vossos professores e vocês estão a precisar é de cadeia!! Imagine-se! Futuros professores de português, já em formação! Com o 12º ano feitos! E nem percebem uma explicação dada na língua veicular do ensino? ..."  Foi um momento e tanto! Desabafou a minha amiga.
 Note-se que  tudo isto vem sendo o quotidiano do ensino, a rotina instalada nas nossas escolas.
Quando é que paramos para reflectir sobre isso? O fingir que isto não está a acontecer, é escandaloso e em nada ajuda.
Assim procedendo, estamos a cavar despudoramente o nosso retrocesso em termos de quadros e de recursos humanos capazes, tanto para a realização pessoal dos próprios jovens escolarizados, como para o desenvolvimento do país.






quarta-feira, 1 de agosto de 2018

À volta dos contos de Baltazar Lopes

A colectânea de Contos intitulada «Os Trabalhos e os Dias» de Baltazar Lopes, que me serviu de apoio para este escrito, é uma edição de 1987, do extinto Instituto Cabo-verdiano do Livro, antecessor do actual Instituto da Biblioteca Nacional.
Trata-se de uma colectânea que traz uma nota biográfica sobre o autor assinada por Manuel Ferreira, que terá sido o organizador desse conjunto de contos, e prefácio do poeta Arménio Vieira que fez uma análise de pormenor bastante interessante e assertiva, de cada história.
São dez, os Contos compilados nesta edição, a saber: «A Caderneta», «Dona Mana», «Balanguinho», «Muminha Vai Pa ra a Escola», «Egídio e Job», «Nocturno de Dona Emília de Sousa», «O Construtor», «Pedacinho», «Sileno» e «Os Trabalhos e os Dias».
Pois bem, os Contos de Baltazar Lopes, conheceram publicação de estreia sob forma dispersa em revistas à época prestigiadas, tais os casos de Claridade, Vértice, Boletim Cabo Verde, Raízes, entre outros periódicos de teor literário e cultural. Daí também o mérito desta compilação de há mais de três décadas que reuniu num único volume estas peças singulares, saídas da pena maravilhosamente culta e poética de um grande vulto das Letras cabo-verdianas, que foi um “caçador de heranças”, no poema homónimo de Osvaldo Alcântara – que serviu de título a um ensaio de Gabriel Mariano – em que o sujeito poético acompanha o enterro de um capitão das ilhas, como quem enterra simbolicamente, um tesouro, uma arca de memórias, cujos eflúvios procura captar.
Entrando agora na teia das diferentes histórias narradas na Colectânea, começaria pelo conto «Muminha Vai Para a Escola», na minha opinião, o mais bem urdido e conseguido neste conjunto.
O interessante é que consigo filiá-lo na linha directa do tipo e da arte de narrar de «Chiquinho», romance emblemático do autor.
É que Baltazar Lopes da Silva, trabalha com primor as memórias infanto-juvenis, levando o leitor de volta, de certa forma, à sua própria vivência, agora sob forma de reminiscência, através de uma linguagem densamente poética e maravilhosamente tecida. O narrador deixa-nos entrar no universo da intriga ficcionada a que não faltam nem a crueldade, nem a generosidade muito próprias e peculiares nas crianças.
A narrativa prende e enleia o leitor numa leitura emotivamente solidária. O narrador condu-lo (o leitor) ao drama de “Muminha” o protagonista, aparentemente bafejado pela sorte material, motivo de alguma inveja entre os colegas pertencentes a um estrato socio-económico menos favorecido, mas o final da narrativa encarrega-se de nos esclarecer acerca da conduta introvertida e apenas defensivamente “aristocrática,” do protagonista.
Efectivamente, estamos perante um belo conto exemplar. «Muminha Vai à Escola» é dedicado a Bento Levy, Director do célebre «Boletim Cabo Verde», (1949/1964) onde o conto foi publicado pela primeira vez, num dos números daquele periódico, nos anos 50 do século XX.
Logo a seguir, nesta hierarquia classificativa e obviamente, subjectiva, vem o já considerado clássico, «A Caderneta», um primor de monólogo em que o leitor pressupõe o diálogo que subjaz entre a protagonista que recusa o apodo de prostituta, que a caderneta lhe conferiria e o advogado “senhor Doutor” que ela deseja que a defenda com aquele saber e a generosidade que ela lhe conhece do antecedente.
Abro aqui um pequeno parêntesis, para recordar a peça de teatro do Mindelact baseada na «Caderneta» e apresentada em São Nicolau, em Abril de 2007, aquando das comemorações do centenário do nascimento de Baltazar Lopes da Silva e a que tive o prazer enorme de assistir porque maravilhosamente interpretada pela actriz Mirita Veríssimo desse Grupo teatral. Fecho o parêntesis e volto aos contos.
Relativamente às duas histórias – “Dona Mana” e “Nocturno de Dona Emília de Sousa” – embora diferentes e distintas nos enredos, mantêm, no entanto, um ponto comum: ambas as protagonistas, estão em desgraça social e familiar no momento histórico narrativo e encontram-se a viver na ilha de São Vicente.
Mas do passado, da ilha de origem, São Nicolau, guardam marcas e ainda vestígios de um tempo, de uma vivência mais bonançoso, mais farto, no qual elas eram socialmente bem enquadradas.
Vicissitudes várias, e bem explicadas pelo narrador, levam-nos a entender o presente das personagens principais, reflexos de uma migração de gente de São Nicolau para Mindelo num tempo de seca e de carestia de vida. Recordo-me de que li algures (suponho que na “Mesa-Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano,”1956) numa das excelentes  intervenções de Dr. Baltazar, de ele ter afirmado que vira pessoas em S. Vicente, pobres, mal-nutridas, com vergonha da sua penúria, e que outrora as havia conhecido,em São Nicolau, a viver com algum desafogo económico.
No fundo, a tragédia antiga das ilhas agrícolas, retratada também nestes dois contos. O final de «Nocturno de Dona Emília de Sousa é nisso claramente ilustrativo: de “Dona Emília de Sousa”, acaba em “Nha Milinha”.
O Contista transpõe para algumas das suas histórias a sua experiência de advogado, (pro bono) defensor dos mais pobres e dos mais vulneráveis. O drama exposto em «Dona Mana» desenrola-se numa sala do tribunal da cidade do Mindelo.
Uma nota também interessante da parte do autor, é que ele partilha os espaços e os cenários dos seus contos para além da sua ilha de eleição, S. Nicolau.
E é assim que vamos ter a história de «Balanguinho» e a de «Os Trabalhos e os Dias» a terem por cenários, espaços e zonas da ilha de Santo Antão. Já o conto «Sileno» desenrola-se na ilha da Boa Vista. S. Vicente constitui o cenário e o espaço em que circulam as personagens dos contos: «Dona Mana», «A Caderneta», e «Nocturno de Dona Emília de Sousa».
A terra no seu sentido cosmogónico e telúrico do qual o homem se sente parte inalienável, e unitário, está muito bem configurada em «Balanguinho», a propriedade agrícola, dos antecessores da protagonista, Mamã Marcelisa, cujo amor por essa parcela de chão, simboliza, por um lado, a profunda ruralidade que acompanhou outrora o habitante de ilha agrícola, e, por outro lado, a maternidade, a fecundidade da boa terra que não trai - pelo contrário - recompensa com grãos e com frutos, quem nela pensa e cuida com esperança e com perseverança.
E essa mesma relação que ouso denominar de “uterina,” vamos de novo encontrá-la num outro conto desta colectânea, «Pedacinho». A bela sombra, o local de acolhimento e de recolhimento do narrador/protagonista, que tem naquele chão, a paz e uma espécie de reconciliação consigo próprio e com o mundo.
Na esteira dos contos inseridos na colectânea, temos a loucura criativa, que confunde a realidade e a imaginação, e que está soberbamente contada na narrativa «O Construtor». O protagonista, o Sr. Alberto, já idoso, armou no quintal, da sua residência um verdadeiro estaleiro, onde intenta construir, dois barcos – o “Estrela da Manhã” e o “Arlequim”. Chegados ao enredo, o leitor é convidado a transpor fronteiras deslizantes e sem balizas divisórias, entre a realidade e a imaginação. Um conto excelente enquanto temática ligada ao mar e pertencente ao domínio do fantástico.
A metáfora e a paráfrase estão representadas e bem, no conto «Egídio e Job», que recria o episódio bíblico, transfigurado em cenários e personagens ilhéus.
Aproveitaria a oportunidade para aqui registar em jeito de síntese, o comentário final do prefácio de Arménio Vieira à edição de 1987, da obra em análise: “(…) o acto de escrever, quando assumido com seriedade, é uma espécie de viagem, apaixonante, por certo, mas com alguns escolhos pelo meio e tormentosos por vezes” (…) e continua:“(…) Baltasar Lopes, o contista (…) sabe dos riscos que correu ao longo dessa travessia. Mas isso já não importa, uma vez que a nave foi conduzida a bom porto.”(Fim de citação).
Não poderia estar mais sintonizada com as palavras de Arménio Vieira. Daí também o meu desafio à Editora Pedro Cardoso, que tem feito obra notável em matéria de edições, de reedições de clássicos nacionais, para que tome em mãos este encargo frutífero de trazer para as novas gerações os contos de Baltazar Lopes – memórias sociais e históricas das ilhas genialmente efabuladas – os quais, merecem ser (re)lidos por leitores dos tempos hodiernos, enquanto passagens de um testemunho, não só da condição de ilhéu, mas também de um passado que moldou a nossa idiossincrasia.
Chegados ao fim da revisitação dos contos incluídos nos «Trabalhos e os Dias», é tempo de convidar o leitor a fazer o mesmo ou, a conhecer – porque vale a pena – o lado contista do grande e multifacetado autor, poeta, romancista e filólogo que foi Baltazar Lopes da Silva.
Nota devida: este Artigo foi publicado na Revista «Leituras» nº- 2 Abril/Junho 2018 da editora Pedro Cardoso.

O “Pacto” e a Metamorfose do MpD

sexta-feira, 27 de julho de 2018

"O que preocupa não é o grito dos maus.
É o silêncio dos bons." (dispensa autoria)


Não posso verdadeiramente dizer que fui enganado quando votei em Março de 2016 no MpD. Não faltaram sinais que me aconselhavam a não acreditar que algo de novo e de bom ia realmente suceder. Ao falar destes sinais a um amigo, este esboçou um cínico sorriso e disse-me: Na nossa idade, meu caro Armindo, os únicos avisos verdadeiramente preocupantes são os que vêm do coração, do cólon, dos rins ou da próstata. Estes é que são importantes. Esbocei igualmente um sorriso de compreensão a mostrar-lhe que ainda estava vivo, e bem vivo e, displicentemente e em surdina, acrescentei: da sociedade e da comunidade política, também. E mesmo assim, não fiz caso e acreditei numa alternativa que tanto ansiava.
Na verdade, os sinais vinham de muito longe. Alguns, exigiam muita atenção e alguma reflexão para os identificar. É um processo demorado de “vingança”, pensado e planeado. Com algum exagero e subjectividade poderei datá-lo a partir da célebre noite de 13 de Janeiro de 1991 – gloriosa e triunfal para uns e humilhante e vergonhosa para outros. O povo tinha-se vingado de 15 anos de opressão e ditadura e na sua manifestação de rua tinha humilhado, com algum mau gosto e, por vezes, de forma grotesca, os seus protagonistas. Não me vou aqui e agora ater a uma reflexão prolongada que, seguramente daria elementos suficientes para um livro… para os politólogos e analistas políticos entre outros. Darei um grande salto e partirei dos indicadores mais próximos, i. e. aqueles que reacenderam a chama e deram forma à “vingança” – as presidenciais de 2001.
Quando os tribunais disseram, de forma clara e inequívoca, que o então inquilino do Palácio Presidencial era um “usurpador”, toda a gente esperava que da parte dele houvesse um gesto de dignidade e de elevação, renunciando de imediato ao mandato. Em vez disso, – estamos todos bem lembrados – depois de um longo silêncio, que possivelmente, teria sido de reflexão que o levara a pensar que essa atitude embora digna e elevada ditaria, a curto prazo, o fracasso total do seu plano e, eventualmente, o seu suicídio político, inverteu o ónus da lógica, dizendo – só o seu adversário estava em situação de o dizer – como única conhecida reacção, e feita no estrangeiro, que “não valia a pena chorar sobre o leite derramado”.
É certo que se esperava, depois do conhecimento desta usurpação “legal”, mas antidemocrática e indigna, que os partidos democráticos, designadamente o MpD e a UCID, desencadeassem uma campanha política de boicote aos actos de um presidente que se encontrava ilegitimamente no poder, de modo a forçá-lo a renunciar.
“A necessidade aguça o engenho!” costuma-se dizer.
Assim, ciente da situação incómoda em que se encontrava, e com a habilidade política que se lhe reconhece, o “inquilino” do Palácio Presidencial, engendra uma manobra de conquistar o partido mais forte da oposição por dentro, através da instalação paulatina de uma quinta-coluna enquanto por fora a artimanha tomava outra configuração: a de seduzir alguns dos mais importantes correligionários do MpD – precisamente aqueles que desprezou, maltratou e vilipendiou durante os 15 anos da sua governação – concedendo-lhes condecorações e outras distinções, obtendo deste modo, no mínimo, por parte deles, a sua legitimação no Palácio e o seu indispensável silêncio bem como uma plataforma para a sua recandidatura. E fê-lo de forma abrangente e indistinta com o firme propósito de diluir e confundir, na sua amálgama, algum eventual mérito que pudesse existir e ser individualizado, mantendo-se fiel às suas convicções de quem são, para ele, “os verdadeiros heróis nacionais”. É bom distinguir que houve gente – muito pouca, mas boa! – que se recusasse a entrar neste beija-mão, o que não obstou – porque insuficiente – que nos tornássemos todos cúmplices do maior embuste político verificado no nosso País, em tempo de democracia.
Não vou aqui referir da evidência desta quinta-coluna na direcção, grosso modo, e na bancada parlamentar do MpD. Um pequeno – não é preciso muito – exercício de memória, leva-nos também a inúmeras cumplicidades entre o então inquilino do Palácio do “Plateau” e alguns dos dirigentes do MpD criando um clima propício a um “conluio”, uma conspiração ou uma espécie de pacto.
Assim, pouco a pouco a cumplicidade entre o presidente do MpD e o inquilino do Palácio de “Plateau” ganhava forma travestida de “convivência institucional”, “cafés da manhã”, “passeios idílicos” na pedonal do Plateau, entre outras ocorrências celebratórias, bem apoiados por uma “entourage” de iluminados cristãos-novos e de alguns “velhos” que viam na aliança a elevação e a consolidação do seu estatuto económico-financeiro.
Embora esteja a saltar episódios e situações importantes para abreviar a análise, e sem querer debruçar sobre os assuntos em pormenor, é bom frisar que o “prémio” Mo Ibraim e a cisão provocada pelas candidaturas às eleições presidenciais no seio do PAICV “aparecem” de forma oportuna para dar continuidade e uma importante achega a estratégia.
O “pacto” celebrou-se, ao que parece na Cidade Velha, com o alarido contido – perdoem-me o oximoro – de alguns próceres da então oposição. A eleição de 2016 estava garantida! – gabavam-se eles. Os termos do suposto “pacto” eram discretamente divulgados: De um lado o apoio e a garantia de delfinato e do outro, como contrapartida, o silêncio e a impunidade política dos anos da ditadura e da usurpação e a promoção em figura pública de consenso nacional.
Com o tal “pacto”, a ser verdade, – e tudo leva a crer que é – o MpD revelava uma estranhíssima concepção da História e punha de lado a importância social do passado. Estranha, porque num momento em que os quilombos da história, os colonialismos, as ditaduras e outras excrescências do passado são lembrados e hiperbolizados para que não se repitam mais, o MpD promove o seu silêncio, com os seus protagonistas ainda vivos, e ignora a sua relevância social e política.
O MpD institucional passou a ter um chefe espiritual, na sombra, uma espécie de chairman que dita as políticas e a estratégia e um CEO – um executivo, que o preside formalmente, concretiza as directivas e serve de guardião fiel e resguardo a qualquer “ataque” às responsabilidades passadas do seu mentor.
Contudo, para dar forma e espírito ao “pacto” era preciso descolar com alguma subtileza do Partido. Daqui surge o célebre slogan: “O meu Partido é Cabo Verde!”. Poderia parecer uma metáfora. Mas não era. Era sim o seu distanciamento da própria organização política que presidia, numa atitude do mais primário populismo; o gesto de negar a sua condição de político partidário, de se despir de qualquer carga ideológica e se centrar no limbo da democracia política querendo assumir-se como aquele que não tem partido; que está acima deles. Era também, de certa forma, a negação de partidos políticos, na linha directa do seu mentor que em entrevista relativamente recente (Jornal Terra Nova – Julho de 2013) insinuara que o regime que liderou nunca fora uma ditadura e que “partido único era um preconceito”, num quadro que nos poderá conduzir à excelência de ausência de partidos, à moda da União Nacional do Estado Novo.
Chegaram as eleições e as expectativas confirmaram-se. O MpD é poder.
Aqui em Cabo Verde, como em quase todos os países democráticos, as eleições não se ganham. Perdem-se. É de La Palisse! Não foi este o diagnóstico que se fez. E sem uma profunda análise – paramétrica e global – sobre as causas da derrota do PAICV, proclamou-se triunfalmente um homem e não um partido como vencedor das eleições legislativas. Este, convencido intimamente ou por conveniência, faz crer aos seus correligionários de que o mérito não era dele mas fruto do “pacto” que havia feito, e trata de imediato de metamorfosear o seu partido à imagem e semelhança do seu mentor, do qual mimetiza o comportamento e absorve a ideologia, e tenta transformá-lo, no escrupuloso cumprimento do plano já referido,  em uma figura consensual – que nunca o foi (vide os resultados das eleições em que entrou) – alcandorando-o numa espécie de “pai da nação” através de um verdadeiro – ou artificioso – culto da personalidade. E tudo isto, mais o já referido estatuto de “pai da nação” concedido (imagine-se!) por este MpD ao “galardoado” do prémio Mo Ibraim, faz do MpD  uma espécie de outra facção do PAICV: proibido de falar dos 15 anos de ditadura – da falta de liberdade, da tortura, do delito de opinião, das prisões arbitrárias, da autorização de saída, da penalização do boato, da perda de nacionalidade e consequente direito de voto do emigrante, da reforma agrária, da propriedade privada, do monopartidarismo, dos símbolos e rituais não constitucionais tornados de Estado, etc. etc. – e, sobretudo, de “tocar” na figura do seu suposto mentor e guia.
Estou plenamente de acordo que tudo isto não deva ser uma arma de arremesso político, mas do mesmo modo que o seu debate e reconhecimento sejam absolutamente necessários e inadiáveis. Não estou a sugerir, à imagem da que existiu na África do Sul de Mandela, nenhuma “Comissão de Verdade e Reconciliação” que, parafraseando uma personagem do célebre livro de Lara Pawson – “Em Nome do Povo – O Massacre que Angola Silenciou” (Tinta da China, 2014) – só se poderá aplicar aos países de cultura protestante, pois só eles cultivam a confissão pública.
Diz, Rafael Chirbes no seu famoso livro “Na Margem” (Assírio & Alvim - 2015) que ”O dinheiro tem, entre outras incontáveis virtudes, uma qualidade detergente. [do verbo “detergir”] E múltiplas qualidades nutricionais.” Estará nisto a “metamorfose” do MpD? Ou foi a essência do “Pacto”? Que fez afastar dos centros de decisão os mais importantes militantes do Partido? Que faz mover uma acção tremendamente vingativa e persecutória a todos os militantes que pensem de maneira diferente? Ou é apenas a ganância pelo poder?
O que é evidente é o desvio gritante deste MpD, dos princípios, valores e fundamentos que sempre o nortearam e que estão na base da sua criação e da sua razão de existir.
Nunca fui militante, e tenho pelos políticos sérios e honestos, com espírito de missão, sentido de Estado e do interesse público o maior respeito e consideração pelo trabalho insubstituível que desempenham, por mim e para mim, ou pela minha indisponibilidade ou por falta de conhecimentos e competência para os fazer. Mesmo quando deles discordo. Mas, torna-se óbvio, sente-se no ar – não sou saudosista e acredito na juventude (com carácter!) – que “Um Novo 13 de Janeiro Precisa-se!


A. Ferreira

O INSUCESSO UNIVERSITÁRIO HOJE DA GRANDE MAIORIA DOS ALUNOS CABO-VERDIANOS EM PORTUGAL

quarta-feira, 25 de julho de 2018


Mas antes de entrar no assunto inscrito no título, vamos um pouco, ao para-texto, neste caso, do assunto em contexto.
Aqui há tempos fui visitar duas boas amigas recém-chegadas do Fogo e que se encontravam hospedadas numa residencial da cidade. Nisto, junta-se a nós um velho amigo delas - antigo Faroleiro, ou antigo responsável do farol do istmo, ou da ponta, onde se encontra o Seminário de São José, na cidade da Praia - há muito reformado, quem também as havia ido cumprimentar.
 Durante o agradável encontro, o que atraiu a minha atenção auditiva foi o facto daquele senhor, faroleiro, se expressar num correcto e escorreito português ao falar connosco. Afinal, ele possuía apenas a antiga 4ª classe da instrução primária. E com ufania a alardeava! No entanto, mantinha com naturalidade fluente e sem titubear, a conversação em língua portuguesa.
Dias passados, uma cunhada minha arquitecta, que está a trabalhar num projecto de novo cemitério para a ilha do Sal, contou-me que procurou para troca de impressões, o antigo responsável do cemitério de Santa Maria, ou melhor dito, também antigo coveiro. Surpreendida com o que escutou, disse-me ela: “Ondina, o senhor falou comigo num português correctíssimo! Que eu fiquei boquiaberta!”
 Reparem os dois casos ilustrados. Trata-se de antigos agentes da base, ou do escalão mais baixo da administração pública  cabo-verdiana, portadores da antiga 4ª Classe da Instrução Primária – Faroleiro e Coveiro .
Comparativamente, expressam-se muito melhor em língua portuguesa do que muitos dos actualíssimos alunos do 12º Ano do secundário.
Alguns, para exemplo, recentemente se me dirigiram na rua - a propósito de um peditório para actividades dos finalistas de determinada escola secundária urbana -  em crioulo, porque não sabiam expressar-se em português, mesmo eu falando com eles na língua portuguesa e dizendo-lhes que fora antiga professora e que ao menos comigo se expressassem em português; motivei-os para tal, até a propósito, de um deles com boa média, querer tentar, segundo ele, uma vaga para prosseguir estudos superiores em Portugal. 
Mas mesmo assim verifiquei que de entre eles, ainda que o tivesse tentado, não conseguiram, tiveram enorme dificuldade em manter o diálogo comigo em  português...
E são estes perfis de alunos que demandam os Politécnicos e as Universidades portuguesas! 
Depois não se admirem de os ir encontrar infelizmente, mais tarde em Portugal. Numa espécie de emigração clandestina, com vergonha de retornar ao país.
Ou então, a trabalhar como ajudantes de mecânicos, sem garantias, em  pequenas oficinas (encontrei nestas condições dois jovens, que tinham ido – com altas médias - para seguir curso de engenharia.  Mas por não terem nível capaz, nem de língua portuguesa, nem das cadeiras científicas específicas para prosseguir o curso que gostariam de fazer e, para o qual lhes fora concedidas vagas ou bolsas de mérito, acabaram assim... Triste! Não é?
Estamos a falar de alunos com o 12º ano do ensino e com altas classificações locais...
Que ninguém se admire da entrevista dada (recomendo a leitura) no Jornal Expresso das Ilhas das Ilhas, de 18 Julho de 2018, pelo Professor e Investigador Filipe Themudo Barata da Universidade de Évora, que sintetiza numa frase que nos devia interpelar, pais, professores e responsáveis da Educação: “os alunos que só sabem crioulo, o resultado é o isolamento” referia-se ele a uma das causa para os mal sucedidos alunos cabo-verdianos (o que já se tornou regra nos últimos anos e não excepções) que demandam formação superior em Portugal?

Infelizmente esta situação vem piorando e deteriorando-se a cada ano que passa, sem que sem veja qualquer medida para inverter esta autêntica catástrofe nacional que é a de permitir que alunos cabo-verdianos partam - sem estarem capacitados a escrever e a falar na nossa Língua oficial, a língua veicular do ensino - para as instituições académicas portuguesas que doravante passarão a frequentar com a finalidade de  preparar técnica e academicamente, o futuro deles e o de Cabo Verde.
Creio que no caso presente, podemos falar de um autêntico abandono escolar no nível universitário de muitos alunos cabo-verdianos; de uma autêntica e caótica situação vivida pelos estudantes, nas trocas constantes de cursos sem sucesso, porque sem bases na Língua portuguesa e agora também sem bases capazes, nas disciplinas científicas.

Atenção: estes factores e estas causas, com estragos profundos, não estão sendo  devidamente avaliados, contabilizados, nem económica, nem socialmente para os jovens e para estas pobres ilhas.

Afinal, só são “bem sucedidos” aqueles estudantes que prosseguem cursos post-secundários na Praia ou no Mindelo, e que curiosamente, são os que têm a média mínima, entenda-se: a mais baixa do 12º para o prosseguimento de estudos universitários. Desta leva, sairão os mestres e os doutores que vamos tendo no país. 
Imagine-se o nível científico e cultural!

Acontece que hoje em dia, e escolarmente falando, estamos cada vez mais mal preparados. 
Contava-me há dias escandalizada, uma antiga colega e amiga, avó, que se dirigiu à escola que a neta frequentou para obter informações sobre a educanda, qual não foi o seu espanto quando se apercebeu de que o professor de geografia não se expressava capazmente em português, o mesmo sucedia - espantem-se! - com a Directora pedagógica da dita escola. E ela que se apanhou a pensar: “coitada da minha neta a levar com professores destes!
Sucede também  que a neta da minha amiga, como a minha e como a de outros com  alguma literacia, se escutam na escola “mau português,” terão a possibilidade  de reverter a situação linguística, sem grandes prejuízos futuros, pois que ouvirão em casa, a língua veicular do ensino bem expressa. Conseguem arrepiar caminho atempadamente...
Agora, imaginem as centenas de alunos, sim, centenas de alunos, oriundos de famílias que não usam a língua portuguesa, só falam crioulo, e que mandam os filhos à escola, para também contactarem e aprenderem o português, para fazer o salto qualitativo social; o que será deles? Sim, meus senhores, qual o resultado que eles terão no processo ensino/aprendizagem? O que adquirirão em termos de entendimento científico, da leitura e da interpretação de livros, de aquisição de conceitos sociais, tecnológicos e outros sem o suporte da língua veicular, na sala de aula? 
Porque a “partida” de mau gosto que estão a fazer aos indefesos alunos – para estes, a escola é ainda fundamental e o principal meio de aquisição do saber -  é que os professores no activo (excepções salvaguardadas, mas que, infelizmente, não deixam de ser excepções) explicam-se e expressam-se muito mal em Língua portuguesa, ou não se expressam de todo, com graves reflexos no processo escolar, na transmissão dos conteúdos programáticos das disciplinas curiculares! Os livros, os manuais escolares, as perguntas nos testes de avaliação, estão escritos em língua portuguesa e ainda bem que assim é! Se os professores não os interpretarem com correcção, que conhecimentos transmitirão aos alunos?

Para nós, este fenómeno era impensável há três ou duas décadas e meia atrás. Ainda que aqui e ali existissem casos. Aliás, casos, sempre os houve, mas nunca com carácter tão generalizado e tão alarmante como actualmente.
Portanto, pi-o-ra-mos! Chamemos as coisas pelos nomes que merecem, sem adornos e sem subterfúgios eufemísticos.

O que estará a acontecer nas escolas destas ilhas, algumas delas, tão brilhantes que foram outrora? E até num passado relativamente recente?

Tenho pena sincera; causa-me uma dor real, verificar que centenas de adolescentes e de jovens cabo-verdianos – sobretudo os provenientes da larga faixa populacional mais vulnerável e cujos pais e família  ainda acreditam na escola - que terminam a etapa de 12 anos de escolarização (o mais longo ciclo de aprendizagem para muitos) demonstrarem uma chocante ignorância científica, uma terrível ignorância literária, pois que desprovidos  de capacidade de entendimento lógico e dedutivo, sem hábitos de leitura, sem exercitar a análise, entre outras insuficiências e incompetências que são - dever e obrigação - tarefas da escola colmatar, reverter e facultar-lhes pistas e instrumentos - ao longo do processo e das etapas de escolarização.

E finalizo, questionando: o que significa hoje - na segunda década do século XXI -  ter o 12º ano de escolaridade das escolas secundárias cabo-verdianas, nestas condições?...  semi-alfabetizados? É isso que o país está a produzir?! É isso que a família e a sociedade gostariam de ver e de ter?

Simplesmente chocante e revoltante!

Câmara Municipal da Praia: A Escola-Piloto da Governação

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Em 2013, mais precisamente a 6 de Julho, publiquei no “coral-vermelho.blgspot.com” um artigo intitulado “Para quê facilitar se pode complicar?”. Referia-me à mediocridade e à “perversidade” da nossa administração. Era um texto relativamente extenso em que, de entre outras ocorrências, contava a minha odisseia nos labirintos administrativos da Câmara Municipal da Praia.
Passados estes cinco anos, pensei que, com a crescente informatização dos Serviços, os melhoramentos seriam exponenciais e verifico, com algum desapontamento e muita, mas muita pena, que apenas são logarítmicos (o inverso do exponencial). Mal se sentem!  Mas não em tudo, felizmente, porque nos balcões, o tratamento é agora simpático e cordial e o Gabinete Técnico mais acessível, mas nem por isso com suficientes eficiências.
É só isso, que, convenhamos, é muito pouco! Algumas diligências tornaram-se absurdas e surrealistas!!! A lógica e a sensatez desapareceram para darem lugar às mal disfarçadas mesquinhez e ganância ou à manifesta incompetência.
É preciso ter-se sempre presente que a Administração Pública visa única e simplesmente trabalhar em defesa do interesse público bem como da salvaguarda dos direitos e interesses dos indivíduos que estão sob a sua tutela. E para isto os cidadãos contribuem, para além do cumprimento de outros deveres inerentes à cidadania, com os seus impostos e taxas.
Na defesa do interesse público está, obviamente, a defesa da natureza, do ambiente. E neste capítulo a administração da Câmara da Praia é completamente negligente e incapaz. Ou indiferente?! E não me estou a referir à polémica “calcetamento ou betão – betuminoso ou hidráulico – na pavimentação do espaço público urbano”. Um capítulo em que é balançado, sopesado, quando o é, o ambiente e o conforto, havendo, querendo, espaço para as duas situações, o que na CMP só tem um sentido. Não sou um fundamentalista do “ambiente”, mas estou, seguramente, muito longe de ser o seu inimigo como parece serem os Serviços Administrativos da Câmara Municipal da Praia com a sua utilização perdulária de papel.
Usei, neste texto, alguns adjectivos que poderão parecer desadequados para qualificar os procedimentos administrativos da CMP. Procurarei, em breves linhas, justificá-los. De entre muitas situações que podia apontar, escolhi apenas uma e sua decorrência, a que me é mais próxima e recente:
Ao submeter para apreciação e aprovação um projecto de remodelação de um rés-do-chão, a funcionária que simpaticamente me atendeu deu-me um formulário para preencher onde constava vários itens relativos ao projecto e à identificação do dono da obra e, no meu caso, do procurador. Preenchido o formulário, juntei-lhe a procuração e o Projecto e entreguei. A funcionária analisa o “dossier” e diz-me:
 Falta a Planta de Localização. Tem de entregar a Planta de Localização.
Tem uma, a que serviu de base para a elaboração do Projecto, na primeira página do Caderno que tem em mãos, disse-lhe de imediato. Olha para a cópia a cores e diz-me: Tem de ser original. E olhando mais demoradamente acrescenta: E actualizada. Perguntei: mas não são vocês que passam e actualizam a Planta de Localização?
− Sim. E prestimosamente se oferece para ajudar: O Senhor dê-me os seus dados, e eu dou-lhe um número para pagar na Tesouraria. Mas também vai precisar da certidão matricial para poder ter a Planta de Localização. É fácil! E depois “levanta-as” aqui.
Mas não era assim tão fácil… O pagamento permitia apenas o agendamento de uma visita técnica para efeitos de “elaboração” (nada tinha mudado!) da Planta de Localização cuja validade é de um ano, ignorando eu, o critério da aplicação deste parâmetro: Porquê um ano e não seis meses ou três anos?
Mas então retorqui: Isto é absurdo! Os Senhores pedirem-me um documento – um não, dois - que são vocês mesmo a passar? Não faz qualquer sentido! A actualização é uma responsabilidade totalmente vossa! Não é que não deva pagar os serviços… Mas os vossos arquivos devem estar sempre actualizados. E não por “encomenda” dos cidadãos.
− Mas tem que ser assim! respondeu-me a funcionária enquanto exibia um cândido sorriso.
Deu-me, num pedaço de papel, um número, que apresentei na Caixa que me passou um recibo (em papel) para permitir o tal agendamento do qual me escuso a comentar por respeito e consideração aos técnicos. Da certidão matricial também não falo porque seria repetir-me.
Com os documentos exigidos (tudo em papel − ignoram que o uso dele – o papel – consta dos itens do combate para a preservação da natureza, do ambiente) em meu poder, juntei-os ao Projecto e entreguei o processo.
A funcionária inventariando os documentos do processo, diz-me: Ainda falta a fotocópia do Bilhete de Identidade.
Aqui passei-me com tanto descabimento e com tanta inutilidade e repliquei: Fotocópia do Bilhete de Identidade não é documento! E ela, vendo o meu estado de indignação, como se para me aplacar a ira e se demarcar da aberração, respondeu-me esboçando um sorriso: Mas, é necessária!
– Para quê, perguntei eu. A sua exigência é uma prepotência da Câmara. Já tem os dados todos registados no formulário que preenchi e confirmados por si através do BI. O processo não vai para o Gabinete Técnico? Para que querem os técnicos a fotocópia do BI.? A confirmação dos dados pessoais por si, não é válida? Não confiam em si?... Ou terão que ver a cara do requerente para saber como hão-de avaliar o Projecto?
– Não sei… é exigida!
– O que deve ser exigido, avancei eu – é o pedido de autorização para fotocopiar o meu documento (pessoal e intransmissível) de identificação. É assim nas sociedades respeitadoras dos dados pessoais… E acrescentei: Se são vocês que precisam da fotocópia porque não a fazem vocês; aliás, não é assim que procedem as instituições bancárias? Eu autorizaria – mais calmo, achei espaço para brincar. E não a fazem aqui? Eu pago, concluí.
– Não, não fazemos aqui fotocópias. Tem que ser o senhor, lá fora. É perto. Aí a uns 500 metros encontra uma reprografia, disse-me querendo ser simpática.
Lá fui eu, mais uma vez, à procura de uma reprografia para gastar o meu precioso tempo e trazer mais um papel inútil porque dispensável.
Agora sim! – diz-me ela, com um sorriso triunfal nos lábios enquanto conferia, em voz alta, os documentos do processo: Certidão matricial; Planta de Localização (passadas pela própria Câmara!!!), fotocópia do BI e o Projecto. Está tudo!
– Então, quando é que eu terei uma resposta?
– Normalmente, se estiver tudo correcto, é uma semana. Venha daqui a uma semana!
Lá fui várias vezes, durante quase três semanas, depois de passada a primeira semana de prazo. E foi preciso a intervenção de um amigo meu – mesmo estando tudo em conformidade – que lá conhece gente, para que o assunto fosse resolvido.
E agora pergunto: Não é absurdo ou mesmo surrealista que uma instituição exija para a elaboração de um processo que lhe será entregue os documentos que ela própria produz? Será ganância, irracionalidade, desorganização ou incompetência?
Ainda uma outra pergunta: Não é, por mesquinhez, indolência ou vontade expressa de complicar, que uma instituição não faz uma fotocópia, – que diz precisar, não se sabe bem para quê – de um documento do qual tem (ou pode ter) todos os dados? e que não lhe custaria, caso a fizesse, mais do que uns escassíssimos 10 escudos?
A questão não pode ser apenas dinheiro, em que uma taxa única onde todos os serviços são incorporados numa estrutura única de custo seria uma solução simples e eficaz que evitaria o vergonhoso chico-espertismo ou a esperteza saloia que se apoia em absurdas e irracionais pedidos de documentos que a própria instituição passa. É também indolência, vontade expressa de complicar, algum sado-masoquismo à mistura, numa manifestação de indiferença perante o ambiente e de sadismo em relação ao munícipe obrigando-o a expedientes dispensáveis e sacrificando a natureza, o ambiente, com papéis desnecessários e inúteis. Os documentos internos, repito, devem estar disponíveis, pelo menos, na rede interna, no sistema… O que se passa é simplesmente ridículo! Não se informatiza para continuar com o espírito de FAIMO!
Mas que ninguém se admire ou estranhe! É assim que vai o País! A CMP é a escola-piloto da nossa governação. Em tudo…
Daí que a administração e a gestão da CMP são, de certa forma, a imagem canónica da governação do País. Um País que vem sendo administrado e governado por gente sem qualquer sentido de Estado e do interesse público. Gente que em vez de servir, serve-se… tentando fazer confundir o jurídico com o político; o amiguismo com a competência; o legal com o legítimo; o verdadeiro interesse público, com o interesse meramente pessoal no desempenho de funções públicas; a negociação com negociatas; o acordo com a cedência humilhante e suspeitosa; o servilismo e a subserviência com o respeito e a admiração; o silêncio com o consentimento e o conformismo; o útil com o fútil.
Desenganem-se!... Se a oposição faz de conta e abstém-se em assuntos cruciais e importantes tornando-se cúmplice; e esfrega as mãos de contente por ver as suas políticas mais polémicas realizadas, para depois fingir-se contra, fora dos órgãos do Estado e na Comunicação Social, ou então calar-se; nós estamos todos bem atentos e não embarcamos nessas viagens fantasiosas e deslumbrantes… Conhecemos-lhes os custos e mesmo os seus mais esconsos objectivos.

A.   Ferreira

O Dia da Língua Portuguesa na ONU

segunda-feira, 14 de maio de 2018



Onésimo Teotónio Almeida
in “Jornal de Letras nº 1242 (Maio de 2018)
Ser cronista de um evento em que se é participante não é um acto curial nos códigos jornalísticos, a não ser num registo diarístico, que não é o caso. Por isso faço questão de abrir estas linhas deixando claro: este meu usar do chapéu de jornalista acontece apenas em resposta a um pedido específico de José Carlos de Vasconcelos. Por isso teclo em contra-relógio, quase na hora do fecho deste nº do JL, um apressado relato do que foi a bela festa do Dia da Língua Portuguesa, evento anual ocorrido este ano nos jardins das Nações Unidas, em Nova Iorque. Um programa rico, variado, mas longo para ser reproduzido em pormenor. Sintetizarei: a parte da manhã abriu com uma intervenção do presidente do Instituto Camões, Luís Faro Ramos, mais as actuações em série de alunos de oito escolas portuguesas dos tri-states (Estados de New York, Connecticut e New Jersey) – apresentações diversas, desde a recitação de poemas de autores lusófonos (Jorge Barbosa, João Cabral de Melo e Neto, A. Ramos Rosa e Alda espírito Santo) a breves interpretações teatrais e testemunhos sobre as razões de estudar português. Seguiram-se contos tradicionais dos países da CPLP, por Ana Sofia Paiva.
O programa da tarde abriu com uma actuação da banda portuguesa Octa Push, seguida de um conjunto de intervenções institucionais de: Mauro Vieira, representante permanente do Brasil junto das Nações Unidas; Teresa Ribeiro, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Portugal; Maria do Carmo Silveira, a santomense secretária-executiva da CPLP. A culminar, a alocução de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, que acabado de chegar da Europa fez questão de aparecer. Acentuou o carácter multi-étnico, multi-cultural e multi-religioso do espaço lusófono, apontando a convivialidade reinante como exemplo para outras parcelas do globo. E sublinhou a importância da CPLP como ponte entre essa diversidade que nos une e o resto do mundo. Esta presença, pela primeira vez, do português nas Nações Unidas pretendeu frisar o multilinguismo que aquela instituição personifica contra o mundo uniformizado.
Houve ainda uma evocação, feita pela escritora  cabo-verdiana Vera Duarte, de José Saramago, no 20º aniversário de atribuição do Nobel. E veio depois uma mesa-redonda (sem mesa) sobre a língua portuguesa, com o Ricardo Araújo Pereira (RAP) e comigo, moderada pela brasileira Mônica Grayley. RAP, com o seu brilhante humor, brincou com algumas facetas da língua portuguesa inexistentes noutras línguas, como por exemplo a diferença entre ser e estar. “Estás bonita não é a mesma coisa de És bonita – pois isso dá uma confiança que não estou preparado para conceder”, disse, com o seu mais sisudo ar irónico. Impossível resumir as divertidas tiradas com que nos brindou. Várias delas incidiram sobre o abuso dos termos e expressões inglesas pelos media (gozou com os que preferem dizer mídia à inglesa). Referiu, por exemplo, o brunch, refeição de que diz emergir todas as vezes sem saber se comeu de mais para um pequeno almoço ou se ficou com fome depois de um almoço; e no qual se consomem combinações de alimentos que deviam ser ilegais, como a pescada com Camembert.
Uma série de outras piadas incidiu sobre a cultura portuguesa e a comida (receio citar mal pois não tomei apontamentos): sobre a moderna culinária portuguesa confessou que as descrições na ementa são muito melhores do que a própria comida. “Eu por vezes sinto que não tenho habilitações literárias para comer aqueles pratos.” – disse ele, a provocar fartas gargalhadas na assistência. E no palco, porque eu ri também de boca rasgada, como um pobre – o Ricardo chamou a atenção para o modo como os ricos riem de modo controlado e boca quase fechada. Abro um parêntesis para registar a tremenda popularidade de RAP, o que não é surpresa nem novidade. A razão deste meu registo tem a ver com o facto de ele ter sido assaltado pela pequenada das escolas, o que significa que também o conhecem, pois vêem-no na televisão portuguesa.
Pela minha parte, contei sobretudo histórias reais da minha colecção sobre a língua portuguesa no mundo lusófono, incluindo o luso-americano. Num registo sério, porém, fiz questão de acentuar a diferença entre o que era estar ali naquele espaço cheio de gente a falar português e a lembrança de, em 1970, na minha primeira visita aos EUA, um dia, em conversa com alguém no passeio de uma rua de Fall River, Massachusetts, ser aconselhado pelo meu interlocutor a falar mais baixinho para que quem passasse por nós não se apercebesse de que éramos portugueses. Fiquei menente, como se diz em S. Miguel, minha ilha natal, onde se fala com um sotaque muito diferente da norma portuguesa.
Na mesma cidade, dois anos mais tarde, quando decidi ficar-me pelos EUA a estudar, um advogado luso-americano de nome Freitas avisou-me: ”Com um sobrenome terminado em vogal, nunca poderás ir longe neste país.” Se esse senhor, filho de portugueses de nome Freitas (portanto terminado em s, o que o terá ajudado a convencer-se de escapar à sentença de morte de um sobrenome terminado em vogal), fosse hoje vivo, eu bem gostaria de lhe perguntar se sabia como se escreve Obama. Ao ver ali a garotada livre e divertida, ouvi-la expressar-se gostosamente num bonito português, era deveras reconfortante. Por isso lembrei-me aos jovens presentes: ”Eram outros os tempos e ainda bem que vocês hoje, habitantes desta América incomparavelmente mais aberta a outras línguas do que a que conheci há quase meio século, têm oportunidade de se expressar na língua que quiserem.”
Fiz questão de contar estórias reais tocando os vários espaços lusófonos. A propósito, lembrei a frase de Mia Couto parafraseando e alterando a estafada citação de Pessoa/Bernardo Soares – “a minha pátria é a língua portuguesa”, o que me serviu para lembrar que cada país lusófono tem a sua e, dentro deles, cada região usa natural e legitimamente o seu sotaque (“o sotaque é a cor da minha língua” – escreveu o escritor luso-americano José Francisco Costa, autor do livro Estórias do Tempo, que fui apresentar em Hudson, Massachusetts, no dia seguinte). Contei, por exemplo, a do Francisco garoto de quatro anos, sobrinho-neto do falecido escritor micaelense Daniel de Sá. Todo contente, foi dizer à avó: “Vovó, estou a aprender brasileiro. Já sei uma palavra: Você quer dizer tu.” Outra foi a do casal emigrante português no Brasil. A mulher chegou primeiro, e só passados três anos se lhe juntou o marido. No final do primeiro dia de contactos fora de casa, ele chegou a casa desesperado e queixou-se: “Não entendo nada do falar destes brasileiros!” Então a mulher consolou-o: ”Ah! ‘Cê tá-se queixando e chegou àgora?! Hàvia di ter vindo como eu há dois anos p’ra vê com’ é que eles fàlavam!”
Mas basta que o espaço é curto, restando apenas acrescentar que a festa terminou com a banda Choro Livre e a peça By Heart, de Tiago Rodrigues. Durante o evento esteve aberta uma mini-feira do livro. Fiquei – ficámos, eu e muitos dos presentes com quem conversei, incluindo os responsáveis Francisco Duarte Lopes, embaixador de Portugal junto das Nações Unidas, e Pedro Oliveira, cônsul em Newark – convencido de aquela convivência, entre jovens portugueses e luso-americanos das mais variadas escolas ter sido um momento de robusta alegria e de reforço da ideia de que falar português é giro e útil (cito adjectivos ouvidos aos alunos). Isso ajuda-os a crescerem falando português descomplexadamente. Mas senti até que os professores que lá estavam reforçaram alianças e estímulos. Respirava-se satisfação por todos os lados e tenho isso confirmado nos registos de rostos que fixei em fotos.
Uma curta nota final: o evento teve lugar no relvado adjacente ao edifício das Nações Unidas. Ao que parece, é proibido circular sobre a relva. Perante a estranheza de um circunstante ao interrogar-se sobre a excepção, um segurança comentou: ”Pois! O secretário-geral é português…

A AUTONOMIA DA MULHER PARA A REDUÇÂO DA POBREZA NO SEIO FAMILIAR

quarta-feira, 25 de abril de 2018


 Maria Odette Pinheiro
Mulher cabo-verdiana, mulher santantonense!
Enquanto eu crescia, numa infância e adolescência passadas parcialmente nesta ilha, vi-a muitas vezes calcorreando os caminhos escarpados e pedregosos de Santo Antão com cargas à cabeça, pés descalços e um filho às costas, procurando sobreviver através dos parcos escudos que lhe pagavam. A mulher era o principal “meio de transporte” de cargas de uma localidade para outra e mesmo até aos portos, para escoamento da produção agrícola. Isso quando em todo o Santo Antão as viaturas podiam ser contadas nos dedos de uma só mão, e as estradas quase não existiam. Eram só caminhos.
Via-a trabalhando como “criada”, sete dias na semana, mais que de sol a sol, sem horário, sem dias de folga, sem direito a férias, disponível aos patrões desde o raiar do dia até tarde de noite, quando eles já não precisassem e se fossem deitar; e até durante a noite, se surgisse algum incómodo ou necessidade: sempre submissa, sempre disponível, sempre serviçal.
Vi-a, também, na faina agrícola, por exemplo na apanha do café, depois batendo os grãos no pilão para lhes tirar a casca, e em todas as outras etapas da limpeza do produto, que, acabado, era ensacado e colocado à sua cabeça a caminho dos portos de exportação da ilha: contribuindo, assim, para o desafogo dos senhores, enquanto ela continuava sempre no parco nível da simples sobrevivência.
Vi-a dona de casa, sem capacitação, sem competências senão as de fazedora do lar, criando os filhos de quem era mais que marido, autêntico senhor; por vezes tendo de sujeitar-se a situações degradantes por não ter modo de escape nem de sobreviver sozinha. Até porque o abandono do lar era uma desonra, quaisquer que fossem as situações degradantes de que ela fugia. A própria lei funcionava contra ela. Não era que até para viajar precisava da autorização expressa do marido?
Não vi, mas sei que em tempos de carestia ou fome, muitas delas tiveram de se vender e algumas até viram a sua virgindade vendida pelos próprios progenitores aos senhores da ilha, a troco de umas quartas de milho ou para pagamento de uma dívida, para salvarem a família da desnutrição e da morte. Até não há muito tempo não se chamava violação ao acto de um homem adulto se aproveitar de uma mulher ainda criança, violentando-lhe o corpo e a alma.
Mas a tudo isto a mulher santantonense (e posso dizer a mulher cabo-verdiana) sobreviveu, pelo menos a maior parte. E continuou a alimentar os filhos com o seu suor, muitas vezes sozinha, a ser a cola da família, a procurar pôr os meninos na escola, talvez na esperança de lhes dar um futuro melhor que o seu presente, uma oportunidade de evasão, talvez de ir para uma terra longe onde não houvesse gente gentio e donde pudessem voltar com anel de ouro no dedo e, muito provavelmente, ajudar a mamã-velha.
Sim, porque a sua única esperança eram os filhos, por isso não se importava de os ter, mesmo que fosse de um pai atrás do outro. Destino, dizia ela! E que esses pais sucessivos a deixassem sozinha a criar os meninos, mercê dessa poligamia não oficial que grassou sempre e ainda está presente na nossa terra, com contornos degradantes: filhos, privados de modelos masculinos de valor, crescendo disfuncionais por terem na alma a marca duma pseudo-orfandade, com um pai vivo algures mas incógnito ou simplesmente desaparecido das suas vidas; e, no mínimo, a circular por aí, mas não contribuindo para o seu sustento e educação.
É verdade que havia excepções. Mulheres que mercê da sua condição social conseguiram escapar a estes padrões. Mulheres privilegiadas, mas eram poucas.
* * * * *
Nalguns aspectos, já percorremos um longo caminho. Muita coisa já mudou nestas décadas em que Cabo Verde tomou o seu destino nas mãos. Mas sofremos ainda uma herança pesada determinada por séculos de estratos culturais negativos que estigmatizaram a mulher e a reduziram a quase escrava, por vezes quase a animalizaram, roubando-lhe a dignidade e fazendo-a sempre subserviente, obrigando-a a pensar-se sempre em função de mais alguém, especialmente do homem e das suas necessidades. Situação muitas vezes reforçada por conceitos religiosos derivados de interpretações erróneas das Escrituras Cristãs, conceitos baseados em pronunciamentos práticos ligados à cultura da época em que foram escritos, mas que por certo na mente do Eterno não se destinavam a ser universais e permanentes; de modo que nem na igreja ela encontrou defensora, limitando-se essa a incitá-la à submissão, à resignação, a baixar os braços e a aceitar ser minimizada, fazedora do lar e fazedora de filhos.  
* * * * *
Como reverter completamente os padrões sedimentados na consciência colectiva da mulher por tantos séculos de rebaixamento e de se pensar em relação ao outro, ao homem e aos filhos? Como sacudir o espírito de coitada, especialmente da mulher rural e ajudá-la a ganhar autonomia?
Hoje, em que já temos a lei a nosso favor, em que a igualdade é um dado teoricamente adquirido, em que há o acesso universal a oito anos de escolaridade, o que resta fazer para que a mulher tenha autonomia e assim se possa alcançar uma redução significativa da pobreza? Considerando, como dizia o meu marido, que todo o escudo ganho por uma mulher vai para a família, enquanto não se pode dizer o mesmo de muitos homens, que os gastam no botequim da esquina ainda antes de chegarem a casa.
Creio que precisamos trabalhar em dois polos.
Primeiramente, precisamos trabalhar mais afincadamente no sentido de uma mudança de mentalidade, e isto nos dois géneros, mas incumbe-me falar da mulher. Precisamos começar na criança ainda pequena, para que a menina se veja como igual; e, mais tarde, quando crescer, não se veja como objecto, mas como sujeito: não precisando entrar em jogos de sedução, em cuidar do exterior mais do que do interior, em procurar atrair, em contentar-se com ser escolhida; mas a saber, ela própria, escolher, recusar o que não lhe serve e determinar o seu destino. Destino não é o que nos acontece, é o que escolhemos, consciente ou inconscientemente; é resultado das nossas escolhas e acções. Precisamos ser pró-activas.
Devemos ensinar as nossas meninas a valorizar-se através do conhecimento e da competência, a quererem o melhor para as suas vidas e a aprenderem a não deixar que vontades alheias as distraiam e desviem dos objectivos que propuserem para as suas vidas.
Claro que a maternidade estará sempre no horizonte da quase totalidade do género feminino. Mas, contrapondo à paternidade responsável, de que tanto se fala, e bem, precisamos enfatizar a maternidade responsável, para que a mulher tome sobre si a responsabilidade de não deixar que lhe façam um filho extemporânea ou precocemente. Precisamos dar-lhe as ferramentas (e falo aqui de lhe elevar o nível de consciência) que lhe permitirão desmontar os estratagemas que a coberto da palavra amor (pseudo-amor, pois amor verdadeiro é querer o bem do outro) vão-lhe fazer ceder e desviar o rumo da sua vida, perdendo o controlo de si mesma e do seu corpo, passando esse controlo a mais alguém.
Antes de começarem a actividade sexual (e bom seria que conseguíssemos reverter a tendência da cultura actual, a fim de retardar esse começo, agora cada vez mais precoce), antes de começarem, todas as meninas já deviam estar empoderadas no sentido de que lhes cabe a elas regular a sua natalidade e não deixarem ao homem a responsabilidade de o fazer. Esse é um empoderamento que deve ser feito desde muito cedo. A camisinha continua a ser uma salvaguarda razoável contra as doenças sexualmente transmitidas, e por isso a ênfase nesse programa deve continuar, mas depende da vontade do homem e por isso não funciona se a mulher não for firme e exigir o seu uso; e na questão da natalidade não é suficiente, pois passa a responsabilidade toda para o homem, quando, em vez disso, essa responsabilidade, esse empoderamento, deve residir na mulher, que deve saber defender-se e proteger-se, pois é ela que, uma vez grávida, sofrerá todas as consequências. 
Um trabalho mais aturado precisa ser feito para diminuir ou evitar a gravidez precoce, e aplico este termo à falta de idade ou de maturidade para se ser mãe, e a todas as situações quando ainda não estão reunidas as condições para se criar um filho.
Porque, o que hoje ainda vemos é que muitas jovens ficam com as asas cortadas por se deixarem enredar em promessas vazias pelas quais acabam sozinhas, com um filho nos braços, cenário que pode ser repetido uma, duas, três vezes, perpetuando um ciclo de pobreza, de sofrimento e de disfuncionalidade familiar e social. E o aborto decididamente não devia ser usado como simples meio de controlo da natalidade.
A maternidade responsável significa a mulher escolher não ter filhos sem que estejam reunidas as condições para os poder criar e preparar para a vida, com ou sem ajuda paterna, ainda mais quando à partida o potencial pai do filho por vezes nem sequer tem com que se sustentar a si mesmo, quanto mais para sustentar um filho! E, se tiver, a nossa justiça ainda é fraca em o obrigar a contribuir.
Há um trabalho que deveria ser feito com os pais e mães actualmente já a criar filhos, no sentido de os educar nestes conceitos. Mas é difícil obter a sua audiência e atenção. Os meios de comunicação poderiam ajudar um pouco mais, mas os programas de TV com maior audiência são as novelas, que intoxicam e não ajudam.
A escola é o único lugar de acesso a todas as meninas; e talvez se deva procurar um modo de conseguir um maior acesso aos pais e mães através da própria escola dos filhos. Pesa, por isso, sobre a escola a responsabilidade de desmontar todos os conceitos culturais perniciosos, já que muitas famílias estão agarradas à cultura tradicional, sob o efeito de todos esses estratos culturais adversos, não sendo capazes de remar contra a maré. A mãe que criou os filhos sozinha e de maneira precária dá-se por satisfeita em se tornar avó de netos que vão ser criados por ela e pela filha, por vezes coabitando três e até quatro gerações num espaço exíguo, vivendo ainda mais precariamente.
O outro requisito para se avançar rumo à autonomia da mulher é a sua capacitação profissional. E, aqui, também, a responsabilidade principal reside na escola. E o que vou dizer aplica-se tanto a rapazes como a meninas.
Infelizmente, há algum tempo que Cabo Verde tomou a decisão, quanto a mim errada, de apostar mais fortemente no ensino científico-humanístico (realmente mais humanístico que científico), sem o equilibrar com o ensino técnico-profissional.
Temos centenas e centenas de alunos saindo anualmente dos liceus com uma formação espantosamente inferior à de antigamente, em que com o 5º ano antigo se entrava para a administração pública, para os bancos, para as Alfândegas, com ferramentas adequadas para se ter sucesso: a matemática, o português, uma cultura geral básica razoável, sabendo ler e escrever correctamente, o que hoje é difícil para muitos alunos que saem com o 12º sem saberem redigir correctamente uma simples nota, o que parece estender-se até a muitos licenciados.
E há as centenas de licenciados que saem todos os anos das nossas múltiplas “universidades” sem possibilidade de encontrarem trabalho no nosso reduzido mercado: ou porque escolheram cursos humanísticos que já chegaram à saturação, ou porque só têm conhecimentos teóricos e estão mal preparados, enquanto nos faltam bons técnicos e profissionais de nível médio, que, bem capacitados e apetrechados, poderiam ganhar a vida aqui ou em qualquer outro lugar do mundo: daqueles que antigamente a Escola Comercial e Industrial do Mindelo e a Escola Salesiana formavam com grande sucesso.
Em Cabo Verde sempre houve um certo desprezo pelo trabalho manual mas precisamos perder esse desprezo e apostar na formação média, ao mesmo tempo que devemos procurar diminuir o desnível monstruoso que existe entre a remuneração do trabalho considerado intelectual e o manual, para conseguirmos reduzir a pobreza.
Precisamos de nos consciencializar que com os níveis do preço da electricidade e da água, e com escassez de matérias-primas para a grande indústria, Cabo Verde nunca poderá ser industrializado a um nível competitivo do produto final, senão à custa de baixíssimos salários que perpetuarão o ciclo de pobreza. E esses salários na maior parte são de mulheres. Melhor que nada, pois estão a contribuir para a sua sobrevivência e pelo menos não estão completamente desempregadas, mas nada mais.
A ideia da grande industrialização para exportação parece uma utopia! Será que vamos poder competir com a China, que está a invadir o mundo inteiro com todo o tipo de produtos? Ou com colossos como a Nigéria e outros países da nossa África, também apostados na industrialização? O que poderemos fabricar em grande escala para mandar para fora a um nível competitivo? Muito pouca coisa, se alguma. Os outros também estão nesta corrida e têm tudo em maior escala! Sejamos realistas, pois o nosso produto final será sempre mais caro, se tivermos salários adequados; ainda mais se tivermos de importar matéria-prima para lhe acrescentar valor e reexportar!
O nosso caminho é procurar satisfazer as nossas necessidades circulando os nossos produtos entre as ilhas, e para isso precisamos estradas no mar (dizem que é para breve, veremos!); apostar na industrialização de produtos específicos e culturais, usando as matérias-primas que temos e que consigam iludir a concorrência: os nossos queijos, a nossa doçaria, o grogue, a secagem de frutas e legumes, as conservas de pescado (das melhores do mundo), incluindo secagem e fumagem, etc., etc.
Mas uma aposta maior deve ser em serviços, que não exigem água nem energia nem matérias-primas vindas de fora. E por isso devemos procurar direccionar as meninas para a tecnologia e para as ciências (a que elas ainda parecem um pouco refractárias), para poderem ter o seu quinhão no desenvolvimento desse sector.  
Contudo, a maior de todas as apostas deve ser num turismo de qualidade que torne Cabo Verde um destino apetecível, mas que beneficie a população e não só as grandes cadeias com um dinheiro que fica lá fora. O turismo ecológico, para ilhas como Santo Antão, é uma escolha de eleição. Mas precisa ter muita qualidade, já que a qualidade é o melhor marketing: quem encontrou qualidade torna a vir e diz aos amigos para virem; quem não encontrou qualidade não volta e diz aos outros para não virem.
Nisto as Câmaras e o Governo têm uma grande responsabilidade, devendo ajudar a desenvolver e a regular a qualidade de todos esses produtos, quer os industriais quer os turísticos, para que se imponham por si mesmos. Contribuirá para a autonomia tanto das mulheres como dos homens da nossa terra.
Precisamos duma aposta na excelência de tudo que fazemos. Isto também interpela a escola. Não é baixando as fasquias, como se vem fazendo, tanto a fasquia do aproveitamento escolar como da disciplina pessoal e colectiva, que lá chegaremos. As sociedades mais progressivas e os países emergentes da actualidade são aqueles que apostam no rigor, na disciplina, na exigência, em suma, na excelência, enquanto parecemos por vezes apostados no “deixar passar”, no “fechar os olhos”, no “não fazer ondas”, traindo a nossa juventude e o seu futuro.
Sim, a autonomia e o bem-estar da mulher dependem de vários aspectos que precisam ser trabalhados. Mas ajudará a diminuir a pobreza no meio familiar e, por isso, contribuirá, também, para o bem-estar do homem.
Que o futuro seja diferente e muito mais auspicioso!
Obrigada!

Maria Odette Pinheiro
Porto Novo, 20 de Março de 2018
1º Fórum do Desenvolvimento Social do Município do Porto Novo