ACERCA DOS ARQUIPÉLAGOS CRIOULOS

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Francisco José Tenreiro (São Tomé, 1921 – Lisboa, 1963) Geógrafo, poeta e ensaísta. Foi aluno brilhante do distinto geógrafo Orlando Ribeiro quem, de acordo com os seus biógrafos, o terá estimulado a fazer a tese de doutoramento sobre São Tomé. Tenreiro foi também docente no antigo Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina.
Um dos estudiosos da mestiçagem (portuguesa e africana), para nós, a par de Gabriel Mariano, Francisco José Tenreiro, constitui uma voz e uma referência na nossa cultura, para o entendimento de um dos fenómenos mais interessante e harmonioso da humanidade. Ele próprio filho de um português e de uma angolana, trabalhadora em São Tomé.
Na sua escrita poética e literária, Tenreiro aderiu, e bem cedo, ao neo-realismo. «Ilha de Nome Santo» é a sua principal colectânea de poemas e foi publicada em Coimbra em 1942. Nela o poeta/ensaísta configura através de versos o respeito por todas as raças. No poema “Canção do Mestiço”, diz-nos o poeta:  “ Mestiço! / nasci do negro e do branco / e quem olhar para mim /  é  como  se  olhasse /  para  um  tabuleiro  de  xadrez  (...) E  tenho  no  peito  uma  alma  grande, /   uma alma feita de  adição.”  E mais adiante exalta a sua mestiçagem, dizendo: “Mestiço! /  Quando  amo  a  branca  sou branco / quando  amo a  negra  sou  negro /  Pois é...”
O artigo que se segue é de sua autoria, e nele o leitor verificará como o olhar do geógrafo, do historiador e do antropólogo, se cruzam e se interpelam para uma explanação rigorosa das origens e dos fundamentos populacionais dos dois arquipélagos – o de Cabo Verde e o de São Tomé e Príncipe.

Acerca dos arquipélagos crioulos
Por Francisco Tenreiro
De comum o tom moreno, mestiçado, das gentes. Mas, mais que a tonalidade é um passado cultural que os assemelha sendo abundantes os traços que, num e outro arquipélago, se repetem não obstante natureza diversa; o fundo do quadro é em Cabo Verde o ar escalvado das linhas gerais do relevo que escondem dos olhos a verdura de algum vale por onde corre água; é, nas ilhas do Golfo da Guiné, com a insignificante excepção de Ano Bom, a loucura do verde que esmaga e ilude as obras dos homens. Factos que advêm da posição dos arquipélagos: um, limite meridional das Atlântidas, quase tão europeu como africano, e outro, enganchado no amplexo do Golfo da Guiné, nitidamente africano.
No conjunto, as ilhas foram descobertas na segunda metade do século XV embora as mais meridionais cerca de dez anos mais tarde. Achadas e povoadas pelo mesmo povo, para lá se transplantaram também negros da África Ocidental aqueles que em terra firme estavam mais próximos: guinéus num caso, gente da margem do golfo no outro, como por exemplo gabões.
Só uma ilha, certamente, por mais próxima do continente, seria já povoada – a Formosa que mais tarde se chamaria de Fernando Pó. Por isso ou por encontrar-se profundamente engolfada, Fernando Pó tardiamente mereceu a atenção dos portugueses que, aliás, logo a cederam a Espanha em troca de facilidades territoriais na América do Sul. Não obstante, muitos dos traços da estrutura social «fernandina» serem hoje semelhantes à de São Tomé, na minúcia dos padrões de cultura mostram-se muito diferentes.
O bubi como o fernandino de Santa Isabel pouco têm de comum com os «filhos da terra» de São Tomé, na sua generalidade descendentes dos povoadores brancos e pretos dos séculos XV e XVI. Sem dúvida que se regista em alguns arquipélagos atlânticos sucessão de elementos sociais que os aproxima, seja em Cabo Verde ou nas Antilhas ou ainda nas ilhas do Golfo da Guiné, que reduzem-se a dois: existência de populações crioulas nem sempre estabilizadas e uma organização de espaço em torno de culturas lucrativas de maior sucesso num ou noutro lugar consoante as vicissitudes da história e até os retoques que uma ambiência diferente pôde produzir. Por todas as ilhas a cana do açúcar, o algodão, o café ou cacau, foram as alavancas propulsoras da fixação dos homens à terra e que atraindo africanos deram origem a populações mestiças. Sendo assim compreende-se que se possa falar em arquipélagos crioulos e se compare, como fez Lyall, as ilhas de Cabo Verde com as Antilhas. Por outro lado se encontrem, apesar da não existência de populações crioulas, ecos de um mesmo sistema de organização de espaço em arquipélagos extra-tropicais como os da Madeira e Açores.
Repare-se, porém, que se está em presença da generalização «fisionómica» que despreza os processos aculturativos a que as populações arribaram nas diferentes ilhas. Enquanto que em Cuba, como o demonstrou Fernando Ortiz, se chegou a um «mosaico cultural» e a algumas formas de «compromisso» (sincretismo religiosos, por exemplo) em Cabo Verde e em São Tomé as populações tenderam para a estabilização resultante de assimilação dos diferentes elementos culturais em jogo.
Há hoje elementos que demonstram como a expansão portuguesa consistiu essencialmente na transplantação de um estilo de vida de cerne mediterrâneo para os trópicos. Padrões que se introduzem integralmente tais como os instrumentos de farinar cereais que se especializaram em concorrência com o pilão africano, e outros que sofrem os retoques que a natureza sugere: um tipo de casa de pedra de loja e andar, com escada exterior, que na ilha de São Tomé passou a ser de madeira e de cobertura vegetal, se bem que a traça seja sensivelmente a mesma; ou ainda o catolicismo que em pouco ou nada se modificou no que se refere a sincretismos enquanto a língua ou cristaliza em torno de um vocabulário ou de expressões arcaicas de dizer, como em Cabo Verde, ou ganha certo tipo de plasticidade onde não são estranhas construções africanas e é o caso de São Tomé. Seja como for o arquipélago de Cabo Verde e as ilhas de São Tomé e Príncipe são «familiares» graças a um passado de colonização que, por comum, levou à constituição de uma sociedade crioula peculiar. Sem dúvida que na génese da fixação de europeus e africanos nestas ilhas desertas, teve um esquema de ocupação de campos à base de culturas lucrativas.
Mas, que representam hoje estas culturas para a compreensão do mundo sociológico das ilhas? Em Cabo Verde a estrutura latifundiária cedo morreu e foi substituída pelo desenvolvimento de culturas de subsistência à base do milho e do feijão.
Os próprios morgadios ainda tão vivos no século passado esmaeceram perante o aparecimento de uma classe nova – a dos mulatos – que por melhor equilibrada veio a sobrepor-se às classes criadas pela diferenciação latifundiária. Hoje, a cultura do café na ilha do Fogo na passa de arremedo da estrutura pioneira que, se no século passado, foi escravocrata, não se mostrou suficientemente forte de forma a subsistir até hoje. Em S. Tomé, de início, passa-se o mesmo; depois de os engenhos de açúcar em torno dos quais se organizaram a economia e os contactos culturais entre negros e brancos o que se viu proliferar, desde o século XVII até meados do século XIX, foram as pequenas propriedades nativas de subsistência. Algo veio perturbar este destino comum e original dos dois arquipélagos. De facto, a partir de 1820 introduzem-se em S. Tomé novas plantas: o cafezeiro e o cacaueiro. As condições climáticas são propícias e novo surto de colono chega àquela ilha que retalha na terra úbere o mosaico de grandes explorações agrícolas de tipo capitalista quantas vezes usurpadas às famílias mais ou menos mestiças descendentes dos primeiros colonizadores brancos e negros. Daí, hoje a estrutura social ser francamente «pluralista» isto é, verificar-se a existência de grupos humanos com vida cultural própria; ao contrário, de uma sociedade integrada como é a de Cabo Verde, S. Tomé mais se assemelha a um mosaico onde europeus, negros serviçais das roças e «filhos da terra» vivem em conjunto estilos de vida diferenciados. São os «filhos da terra», aliás, o grupo quantitativamente superior, que teimam em demonstrar ter valido a pena o esforço português de quinhentos e seiscentos.
Black and white make Brown afirmou-o há muitos anos Lyall querendo ver em Cabo Verde fisionomia comum à das Antilhas. Tem razão Baltasar Lopes quando nega a Gilberto Freyre, baseado em Lyall, a possibilidade desta comparação; mas já não teria se, lado a lado, colocasse S. Tomé e aquelas ilhas do Ocidente Atlântico…
A ilha de Ano Bom povoou-se à sombra de S. Tomé.
Quem visita o minúsculo e único povoado que existe verifica que assim é: no seu comportamento; no dialecto que falam, na actividade a que se dedicam – a pesca – as gentes lembram os pescadores nativos do Norte da ilha próxima. Pescadores que na aventura do mar ali se estabeleceram não obstante a frustre ocupação portuguesa. Por toda a parte, no meio dos ribeiros e dos picos, a influência portuguesa é evidente. Mas a ilha, dada a sua posição no hemisfério sul e as condições de relevo, recebe menos chuva do que qualquer das outras e mostrou-se sempre menos capaz para ocupação agrícola. Foi o mar que trouxe os seus povoadores e só o mar os poderá continuar a manter.
*   *   *
De comum, em todas as ilhas, o tom moreno e mestiçado das gentes em função de convívio, que em muitas remonta séculos, entre brancos e pretos. De diferente, as estruturas económicas modernas e sociais que as vicissitudes da história e a saga dos homens desenvolveram; aspectos que se entrelaçam com a capacidade ou aptidão da natureza de cada ilha. Por vezes torna-se difícil saber até que ponto a natureza é responsável pela maior ou menor humanização das paisagens; mas, sempre e de qualquer forma, representam estas ilhas na sua maioria desertas uma vitória dos homens sobre a natureza tropical. Traços comuns e traços diferentes que vêm da natureza que lhes é própria e das civilizações que a elas chegaram. Sem dúvida que valeria a pena estudá-los e agrupá-los segundo o predomínio de uns sobre os outros. Ressaltaria então, apesar de certas diferenças de pormenor, certa unidade de base entre o arquipélago de Cabo Verde e as ilhas de S. Tomé e Príncipe, resultante da fisionomia de um povo que para umas e outras levou igual sistema de colonização. Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe foram ainda, em pleno oceano, as poldras da experiência sociológica que levaram à radicação dos portugueses na outra «Ilha Grande» – Brasil.

In “Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação -  Ano XII –Nº 137 de Fev.1961”








A Observação de Agualusa

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Recentemente, o conhecido escritor angolano José Eduardo Agualusa, reconheceu  ̶  numa declaração transcrita no Jornal «Expresso das Ilhas», num dos números online do mês de Novembro de 2017  ̶  que afinal, Cabo Verde não continuou aquilo que já havia dado (antes da Independência) e que naturalmente se esperaria, isto é, bons escritores, bons poetas em suma, uma boa qualidade de literatura, tal como a teve no antanho destas ilhas produzida por gente culta, da  área das Letras e/ou das Ciências.
Para que o leitor fique com ideia clara sobre as palavras proferidas pelo renomado autor da «Estação das Chuvas», (entre outros muitos romances) tomei a liberdade de aqui as transcrever:
“Penso que a literatura cabo-verdiana prometia mais do que aquilo que acabou dando”, diz Agualusa que acrescenta: “Quando a gente olha para o passado da literatura cabo-verdiana, para os escritores que existiam no séc. XX, era de se presumir que tivessem surgido mais escritores após a independência. Ainda por cima, num país com grande vitalidade cultural, um país com uma democracia avançadíssima, que é lição não só para a África mas para o mundo, com uma cultura popular tão rica, que se exprime muito através da música. Eu esperava mais da literatura cabo-verdiana”.
E continuou o “Expresso das Ilhas”:
“Para o escritor angolano, que recentemente participou no Morabeza Festival, a justificação para que a literatura nacional não se ter desenvolvido tanto quanto a música está no facto de não se ter conseguido “levar o livro a todos os cabo-verdianos. Cabo Verde tem uma cultura musical forte. É fácil entrar em casa de alguém e ver que sempre tem um violão, sempre tem alguém que toca. Mas, normalmente não têm livros. Enquanto não houver livros em todas as casas de Cabo Verde, não vamos conseguir desenvolver a literatura”. E conclui:
“Eu acho que o grande desafio de Cabo Verde é levar o livro a todas as famílias”.
Afinal, ele “esperava mais da literatura cabo-verdiana... após a independência”.
Que fique claro: “ab initio,” não discordo da asserção feita por Agualusa.
Pois bem, é sobre este aspecto que me proponho debruçar, embora de forma muito breve.
Mas antes de continuar o que aqui me traz, gostaria de situar para o leitor que eventualmente ainda não conheça este já apreciado escritor angolano. Para tal, repesquei um pequeno texto que sobre José Eduardo Agualusa, escrevi em tempos, aqui neste «Blog»:
 (...) Ora bem, o escritor Agualusa, pertence à segunda geração, ou à nova geração de escritores angolanos, do post-independência, do post “utopia” e entre os já da fase de “desencanto”. 
José Eduardo Agualusa, nasceu em Huambo, Angola em 1960. Escritor e Jornalista. Autor consagrado da lusofonia, escreveu entre outros, os seguintes livros: «Nação Crioula», «Um Estranho em Goa, «O Ano em que Zumbi Tomou o Rio»
(...) Falando agora do romance «Estação das Chuvas» publicado em 1996 e entrando um pouco no universo tecido na obra, ouso dizer: (...) A narrativa da «Estação das Chuvas» está historicamente datada, ou, melhor dito, apresenta vários acontecimentos datados, que configuraram quase toda a cadeia de episódios marcantes no processo da independência de Angola, desde a preparação ideológica, passando pela luta e indo até aos primeiros tempos do governo do MPLA e do incontornável e tenebroso episódio, “nitista” que tantas vidas ceifou. A obra foca com maior ênfase, o longo período da dramática e destruidora guerra civil iniciado em 1975 e que no universo romanesco culmina com os trágicos acontecimentos de 1992, em que “desaparece” a protagonista do romance, Lídia do Carmo Ferreira. “Lídia do Carmo Ferreira, poetisa e historiadora angolana, misteriosamente desaparecida em Luanda em 1992, após o recomeço da guerra civil.” 
O romance de José Eduardo Agualusa “transporta-nos desde o início do século, até aos nossos dias através de um cenário violento e inquietante. Um jornalista (o narrador) tenta descobrir a história proibida do movimento nacionalista angolano; pouco a pouco (…) compreende que o destino de Lídia já não se distingue do seu.” (transcrito da contra-capa do livro).
O autor fornece ao leitor uma admirável descrição histórica de Angola em diversos períodos da sua história mais recente, trazendo ligado também, o seu passado colonial.
Na minha opiniâo um dos melhores livros de Agualusa.
Voltando ao assunto em foco, diria que Agualusa, chegou a montante do problema, quando afirma a sua decepção com a qualidade da produção literária, nestas e destas ilhas do post-independência. Mas teremos  ̶  para  o  enquadrar devidamente  ̶  de ir  aos fenómenos de iliteracia, de incultura e da má qualidade do ensino que se abateram sobre o país, nos últimos anos.  Se não levarmos a escola em devida conta, procurando na formação a base essencial para uma literacia robusta dos cidadãos e uma abertura na procura da cultura, do desenvolvimento e da cidadania, continuaremos a fortalecer a mediocridade que infelizmente nos é dada presenciar na hora actual, nestas ilhas.
Com efeito, um país pequeno, insular e sem recursos, como o nosso, que sobrevive graças à boa ajuda internacional ao desenvolvimento e que até a aplica com alguma correcção, devia dar prioridade aos seus recursos humanos, centrando-se em estratégias que gizem boa escola e boa formação. São bases e pilares, fundamentais e indispensáveis, sobretudo numa sociedade como a nossa em que a maior parte dos jovens estudantes é proveniente de família desestruturada, monoparental e pobre. Logo, a escola é um complemento/suplemento deveras importante, repito: deveras importante, para suprir com alguma eficácia, lacunas e etapas não preenchidas em tempo adequado  ̶  em casa e em família.
Uma outra afirmação, na minha opinião, bem interessante feita pelo escritor angolano, foi a de que “o grande desafio que se põe a Cabo Verde é conseguir fazer chegar o livro a todas as famílias”.
Pese a carga simbólica da frase, o seu autor está pleno de razão. Na verdade, o livro, e a sua utilização adequada e tempestiva para o conhecimento e o desenvolvimento pessoal e colectivo, muita falta tem feito à escola, aos professores, aos alunos e aos cidadãos em geral para a criação do bom hábito e do bom gosto pela leitura e pelo saber!
E que dizer sobre a falta que tem feito ao aluno cabo-verdiano, para o seu desenvolvimento intelectual e científico, a prática e o uso da Língua portuguesa tal como era feita nas escolas nacionais?!
Reparem no modo e no conteúdo como alunos e formandos universitários, e mesmo alguns professores se expressam hoje, quer por via oral, quer por via escrita. De forma, tolhida, incipiente e redutora como que querendo contornar a insuficiência cognitiva e a impreparação linguística.
Os professores ainda não se deram conta deste facto? Mas vão a tempo de arrepiar caminho e erradicar esta grave lacuna que tanto mal vem provocando no aluno cabo-verdiano...
Para além de concordar com o que disse Agualusa deduzo que, possivelmente, ele teve oportunidade de aqui e fora daqui, interagir com alguns dos nossos ditos letrados ou quase isso, e pôde assim aquilatar da leveza e da fraqueza de raciocínio criativo e dedutivo de muitos deles. Infelizmente é essa, actualmente, (salvem-se as excepções) a nossa realidade dita cultural.
 E quando, no início deste ano lectivo, ouvi (na comunicação social) um candidato a professor, que saía de um teste realizado pelo Ministério da Educação, responder à questão posta pelo Jornalista, “como lhe correra o teste?” e para espanto meu, o questionado respondeu: ”Corrê fixe!” (O candidato queria dizer que o teste lhe havia corrido bem). Fiz, a mim própria, a seguinte interrogação: Mas que é isto? Que linguajar é este? Sim, esta não é linguagem de alguém que se candidata a ensinar! Que nível! Não deve transmitir muito saber!... Pobres alunos que, terão na sala de aula um indivíduo com esse perfil...  
E por favor! A bem de toda a nação cabo-verdiana,  ̶ residente e emigrada  ̶  não enviem para qualquer tipo de cooperação   ̶  para formação, sim  ̶  professores com um tal perfil! Seria uma grande vergonha para aqueles que tanto pugnaram e vêm pugnando em defesa de um ensino nacional decente.
Retomando o caso literário nacional, diria que, com efeito, existe uma certa pressa em publicar, nos dias que correm (mesmo entre alguns mais velhos da geração post-independência) aquilo que devia ser considerado a “primeira versão” do poema, do conto, do ensaio ou do romance. Refazê-lo mil vezes, se preciso for, até se atingir alguma qualidade digna de publicação, não é connosco. Daí, uma certa ”fraqueza” conceptual e criativa dos escritos actuais, que transmitem ao leitor uma sensação de incompletude e de insatisfação, por aquilo que esperavam... 
Estamos todos bem necessitados  ̶  agora falo para os mais novos   ̶  de muitas e de boas leituras, de dialogar com lógica, de permutar ideias, de estudar e de adquirir conhecimento e lograr assim algum saber, antes de nos abalançarmos à nobre tarefa da escrita, criativa e/ou ensaística.
Não vale a pena chamar para aqui qualquer tipo de “chauvinismo” ou de nacionalismo patético. Afinal, e infelizmente  ̶  embora todos nós, sem excepção, gostássemos que assim não fosse   ̶  José Eduardo Agualusa não esteve longe da verdade a nosso respeito.
Quantidade não é necessariamente qualidade! 






















MUITO HÁ A FAZER PARA ALARGAR A ACTIVIDADE LITERÁRIA EM CABO VERDE− na opinião do ensaísta António Aurélio Gonçalves*

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Caro Leitor: aqui se transcreve um texto datado de 1962 e publicado no antigo Jornal «Diário de Lisboa». Trata-se de uma entrevista concedida pelo escritor e ensaísta cabo-verdiano, António Aurélio Gonçalves (1901-1984), dando conta  da então situação literária, criativa e cultural do Arquipélago, num primoroso e rigoroso panorama, como só o saberia fazer alguém portador de conhecimento e de  uma  vasta cultura  que o antigo professor de Filosofia nos habituou ao longo da sua vida. Por tudo isto, convido vivamente o leitor a ler a entrevista.
Deixo-o, caro leitor, com este magnífico texto sobre a Literatura  cabo-verdiana de há 55 anos, fazendo votos de um novo ano pleno de boas realizações.

No moderno movimento literário cabo-verdiano, que há uns trinta anos se revelou com frescura e espontaneidade singulares, só tardiamente veio alinhar o ensaísta e novelista António Aurélio Gonçalves. Já as personalidades de Jorge Barbosa, de Baltasar Lopes, de Manuel Lopes e alguns mais, eram largamente divulgadas nos círculos literários de Cabo Verde e da Metrópole, como escritores de alto nível prontamente conquistado – e ainda Aurélio Gonçalves prolongava em Lisboa, como estudante na Faculdade de Letras, uma aprendizagem voluntariamente prolongada de intelectual e de escritor. Espírito finíssimo, cultivando com delongas o sibaritismo superior da mais larga cultura de raízes clássicas, não houve neste cabo-verdiano intelectualmente supercivilizado nenhuma pressa de escrever. A criação literária não se lhe impôs com qualquer urgência. Antes de regressar ao arquipélago crioulo, onde tem exercido a função de professor no liceu de Mindelo, só deixou publicado na Metrópole um ensaio crítico magistral, que inseriu na revista «Seara Nova» então inspirada no admirável apostolado cultural e cívico de António Sérgio.
Nas revistas «Cabo Verde» e «Claridade» publicou António Aurélio Gonçalves, posteriormente, obras de ficção e ensaio literário. Em 1956 e 1957, foram editadas, pela Divisão de Propaganda e Informação de Cabo Verde, as suas noveletas «Pródiga» e «O Enterro de Nhâ Candinha Sena» obras de ambiente localista crioulo, em que a observação do real se combina com uma atmosfera discretamente poética, uma subtileza de psicologia de almas simples e uma elegância de forma que revelam o escritor de profunda formação humanística. As duas narrativas foram significativamente publicadas em abertura da «Antologia da Ficção Cabo-verdiana Contemporânea», que Baltasar Lopes seleccionou e para a qual escreveram uma introdução o escritor metropolitano Manuel Ferreira, e um comentário de lucidíssima interpretação o próprio Aurélio Gonçalves.
O escritor está hoje em plena disponibilidade para a germinação de uma obra literária que pode vir a ser acontecimento de relevo na cultura de raiz portuguesa – e para o acabamento e divulgação do que tem escrito nestes seus longos vinte anos de distanciamento insular. A oportunidade inesperada da vinda a Lisboa de António Aurélio Gonçalves deu-nos o ensejo de uma entrevista. Com ela fazemos a apresentação aos nossos leitores de um ensaísta e novelista ultramarino de nível singular – e de quem obtivemos a promessa de colaboração assídua neste suplemento do «Diário de Lisboa». Através de Aurélio Gonçalves vai o público literário metropolitano tomar contacto revelador com o escol intelectual e artístico de Cabo Verde, apesar de tudo, tão distanciado e ignorado – mas tão digno de admiração nos seus melhores valores.
Começamos por perguntar a António Aurélio Gonçalves a sua opinião sobre o actual florescimento da actividade literária do arquipélago, cuja evolução tem acompanhado intimamente nos últimos anos:
Um florescimento literário cabo-verdiano existe, na verdade, continuando o esforço criador iniciado mais destacadamente há três décadas. E o facto mais animador que nos permite confirmá-lo é o aparecimento de valores novos muito positivos. Quer vivam em Cabo Verde, no relativo isolamento insular, quer fora do arquipélago, esses escritores novos evidenciam um aperfeiçoamento, sobretudo na técnica da criação literária e na largueza dos seus interesses, que é a mais auspiciosa esperança. Seria difícil dizer, é certo, se existe neles um «aprofundamento». Mas foge-se cada vez mais à monotonia dos temas repetidos: a estiagem, a fome cíclica, a pobreza endémica, a estreiteza de horizontes do arquipélago. O pequeno mundo cabo-verdiano também é isso – mas não é só isso. A gente de Cabo Verde possui uma alma, alimenta reacções que não se contém apenas nos limites dessas realidades locais. E é preciso que a literatura desvende, explore as realidades mais profundas.
– E o que tem concorrido para esse alargar de horizontes? A emigração? O contacto mais intenso com o exterior através do livro e dos modernos meios de convivência humana?
– A emigração, não creio. O emigrante, por via de regra, é o homem do povo mais humilde e quase sempre inculto. Não vem até à literatura. E mesmo no que respeita ao livro, ao jornal ou à revista de cultura, o escol cabo-verdiano não tem o contacto intenso, assíduo e estimulador que seria de desejar. São raros os meus conterrâneos que convivem intelectualmente de maneira regular e constante com a literatura metropolitana e com as literaturas estrangeiras. A actividade literária actual é a que o nosso estreito meio permite. E muito haveria a fazer, certamente, para a alargar.
– Mas porque se publicam tão poucos livros de escritores de Cabo Verde, existindo no arquipélago um escol incontestavelmente rico?
– Sim. É com razão que se estranha a morosidade do aparecimento de obras várias de escritores cabo-verdianos. A verdade, porém, é que não somos tantos como se poderá julgar por certas aparências. E faltaram-nos, durante muito tempo, os incentivos, por vezes os meios materiais. Demais, vários escritores de Cabo Verde estão ainda a «aprender» um método e um ritmo de trabalho. Não existe, é claro, a profissionalização do escritor insular. Todos temos de ganhar a vida em outras coisas. No entanto, há homens de letras em actividade criadora quase constante – como é o caso de Jorge Barbosa na sua esplêndida produção poética. O seu processo de trabalho é, talvez, lento, mas seguro, e é admirável na qualidade como na continuidade.
– E os valores novos?
– Devemos confiar neles. São autênticos valores. Gabriel Mariano, que parece ter-se consagrado mais decididamente ao ensaio, nos últimos tempos; Ovídio Martins, que publicou há pouco, na Colecção Imbondeiro, de Angola, dois contos bem escritos; Terêncio Anahory, que surgiu com um belo livro de poemas, «Caminho Longe»; Corsino Fortes, que não publicou ainda nenhum livro, mas se tem revelado em colaborações valiosas; e, mais recentemente, um grupo de rapazes que criaram a página Seló, no «Notícias» de Cabo Verde – são o penhor de uma vigorosa continuidade nas letras insulares. E, como esses que mencionei, muitos mais com que teria de alongar demasiado este depoimento.
– Mas porque não ressurgiu ainda, a revista «Claridade» como órgão perene dos valores literários do arquipélago?
– A pergunta tem todas as justificações, mas há-de permitir-me que faça um pouco de história. «Claridade» teve um primeiro ciclo, como sabe, nos anos 30, com três números em que se destacaram as colaborações de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, João Lopes dos Santos e alguns mais. É o período inovador, sob forte influência brasileira e, mais designadamente, do neo-realismo então lançado com vigor por Lins do Rego e Jorge Amado. Foi nessa fase que se intentou a criação de um estilo literário mais próximo do crioulo nativo e se pretendeu traduzir, sob formas mais cruas, as dramáticas realidades cabo-verdianas. Houve, a seguir, uma interrupção de alguns anos motivada pela dispersão dos colaboradores. E, por volta de 1942, a revista apareceu com uma participação mais larga e um espírito diferente: a mitigação daquele desígnio de instaurar um novo estilo, uma nova linguagem literária e o retorno a uma forma mais tradicionalmente portuguesa comum. Baltasar Lopes passou a ser o quase exclusivo animador da revista, novos elementos surgiram, imprimindo sentido mais largo e tendência mais universalista à literatura cabo-verdiana. O folclorista Félix Monteiro, os poetas Ovídio Martins, Aguinaldo Fonseca e Corsino Fortes, o ensaísta e poeta Arnaldo França, entre outros, reavivaram a mensagem de «Claridade». Também Jorge Barbosa acompanhou esse movimento renovador – enquanto alguns, incluindo Baltasar Lopes, com o seu irreprimível inconformismo, prosseguiam fielmente a orientação nativista. Na actualidade, e depois de uma interrupção de dois anos, «Claridade» tem grandes possibilidades de reaparecer, desde que haja quem impulsione e sustente a sua ressurreição. A revista conquistou, sem dúvida, um lugar de grande prestígio no conjunto literário da língua portuguesa. Será missão de alto mérito continuá-lo.
– E que outros meios seriam necessários para que a literatura de Cabo Verde fosse mais largamente conhecida na Metrópole e até no Brasil?
– O mais importante seria, sem dúvida, que os escritores cabo-verdianos publicassem com maior assiduidade as suas produções em poesia e em prosa. Tenho sido informado de que há editores na Metrópole que se oferecem decididamente para publicar livros de homens de letras de Cabo Verde – desde que tenham qualidade, evidentemente. Quanto à crítica literária, não temos razão de queixa na constante e generosa atenção ante os escritores insulares. O interesse com que João Pedro de Andrade, Óscar Lopes e outros críticos metropolitanos se referem aos nossos escritores é o mais cativante e estimulador. E não se diga, também, que o leitor metropolitano não anima a criação literária ultramarina. A 2ª edição de «Chiquinho», de Baltasar Lopes, e de «Os Flagelados do Vento Leste», de Manuel Lopes, tiveram excelente venda nas livrarias da Metrópole.
– Diga-nos ainda, alguma coisa de si, Aurélio Gonçalves. Em que trabalha actualmente, o que pensa escrever no futuro?
– Não tenho cessado de escrever e, sobretudo de delinear ou esboçar projectos. Para já, penso reunir em volume novelas e contos inéditos ou que publiquei dispersamente nos últimos anos; vou completar o meu estudo, já extenso, sobre a ironia de Eça de Queiroz; e ambiciono escrever muitas coisas mais, tanto de ficção, como de ensaio crítico – para fixar ideias e observações que tenho acumulado longamente e, também, para corresponder aos incentivos carinhosos que vim encontrar em Lisboa, após vinte e dois anos de ausência. Levo impressões rápidas, mas reconfortantes, levo muitos livros que desejava encontrar, tive encontros intelectuais que me interessaram ou até me emocionaram profundamente. Embora nunca me tenha alheado do movimento literário metropolitano, as minhas opiniões e interpretações avivaram-se ao contacto com a atmosfera em que espiritualmente me formei. E voltarei a Cabo Verde, em breve, com o desígnio bem assente de as definir melhor, de as filtrar pela reflexão metódica e de as apresentar publicamente em ensaio e crónica. A hospitalidade do suplemento literário do «Diário de Lisboa» será mais um estímulo fundamental para a actividade interpretativa e crítica que estou agora decidido a realizar.
António Aurélio Gonçalves vai regressar a Cabo Verde – mas a ponte de comunicação com a vida intelectual metropolitana, que a distância interrompeu, vai restabelecer-se. Os leitores de hoje, muitos deles esquecidos ou desconhecedores deste alto espírito e notável escritor, vão ter em breve a oportunidade grata de descobrir e de apreciar uma relevante personalidade da cultura portuguesa.
(Do Diário de Lisboa de 27-9-1962)
* Título original da publicação