No Lançamento de «Contra Mar e Vento» – Colectânea reeditada

sexta-feira, 23 de junho de 2017
Hoje voltamos a falar de Henrique Teixeira de Sousa, romancista, contista, activista cultural, médico, nutricionista, analista social, ensaísta, vulto de referência inquestionável na Literatura cabo-verdiana, e, sobretudo da sua prosa literária.

Henrique Teixeira de Sousa continua a ser, no entender de muitos de nós, que o lemos e o apreciamos, como   o escritor cabo-verdiano que pôde, pelo dom da vida – note-se, que me refiro à sua longevidade intelectualmente activa, que lhe permitiu com sabedoria e com intrínseca disposição, ditada por uma grande compreensão – percorrer e entender os movimentos e, ou, os momentos mais inovadores e mais transformadores da ficção e da poesia cabo-verdianas. Disso deixou testemunhos.

Saliente-se, para exemplo, o facto de ele ter presenciado o nascimento, em Março de 1936, da célebre revista Claridade na cidade do Mindelo. Testemunha privilegiada por se tratar de algo que foi, é, e continua a ser, talvez, o ponto mais alto da história literária cabo-verdiana do século XX. Era então Henrique Teixeira de Sousa aluno do antigo Liceu Infante D. Henrique. E sobre este facto conta o autor, em alguns dos seus textos, resultado da longa colaboração que deixou no Jornal «Terra Nova», a partir dos anos 80 até à sua morte, conta ele, entre outras, duas memórias deveras interessantes que no-lo situam ao tempo, jovem liceal, participante e interessado na vida cultural que se desenrolava na cidade do Mindelo e mais tarde, em Lisboa.

Ei-las, passo a citar: “ (...) foi no meu quinto ano, corresponde hoje ao nono ano de escolaridade que se deu o grande acontecimento do aparecimento da revista «Claridade». Foi precisamente o momento em que despertei para o amor às letras, e em que escrevi o meu primeiro Conto com o título em crioulo: «Chuba qu’é Nós Gobernador»(...) Fim de citação.
 O conto destinou-se a um concurso lançado na turma dele, pelo professor de Português e de Latim, Baltazar Lopes da Silva. O então aluno Henrique T. de Sousa ganhou o primeiro prémio. In: «Doutor Baltazar Lopes da Silva e o nosso relacionamento» Jornal Terra Nova, Julho/Agosto de 1889.

Outro episódio, interessante narrado, por Teixeira de Sousa, a propósito de «Claridade», foi o seguinte: No Verão de 1940, estando ele em Lisboa, no curso de medicina, num encontro com Baltazar Lopes da Silva este anuncia-lhe que ia ser brevemente, publicado o terceiro número da revista “Claridade” e que se esperava um artigo de Teixeira de Sousa, recordou o autor, então com 20 anos e, cito: “fiquei alvoroçado com a possibilidade de colaborar naquele órgão de imprensa.”  Preparou  – em poucas noites e nos intervalos diurnos que os estudos universitários lhe deixavam  –  o ensaio:  «A estrutura social da ilha do Fogo».

Só que, afinal o número 3 da revista, não foi dado a estampa nesse ano de 1940, mas apenas em 1947. E concluiu Teixeira de Sousa lamentando:
“(...) Não fora esse atraso, eu teria alcançado o título de claridoso, em 1940, isto é, apenas quatro anos após a fundação da revista” (Fim de citação). Este ensaio: A Estrutura social da ilha do Fogo, seria por ele reelaborado, melhor trabalhado e publicado em 1958, num dos números do incontornável «Boletim Cabo Verde», agora com o título «Sobrados, Lojas e Funcos».

De Lisboa ainda, Teixeira de Sousa, saúda o aparecimento do movimento «Certeza» 1941, através de um telegrama, e como resposta recebeu ele a notícia - dada por Manuel Ferreira - que, por unanimidade, ele fora aceite como membro do grupo «Certeza».

Gostaria de nesta oportunidade de vos dizer algo, muito rapidamente sobre a aprendizagem/formação/literária, neo-realista de Teixeira de Sousa e que no fundo o terá munido também ideologicamente de instrumentos e de tópicos do modernismo literário e de novos valores trazidos para a temática literária, com a II Grande Guerra Mundial - de que a escrita de Teixeira de Sousa adaptada aos problemas cabo-verdianos e com herança claridosa – é portadora e beneficiária. E é em Lisboa, a par da sua vida de estudante aplicado, de medicina, que Henrique Teixeira de Sousa participa e comunga de tertúlias e de actividades literárias, políticas e culturais, com escritores, poetas e pensadores portugueses. Isto é, com o que de mais moderno e revolucionário se vivia no meio intelectual de então, em Portugal, nos finais dos anos 30 e meados da década de 40;  e onde pontificavam grandes nomes do romance e da teorização literária neo-realista: Adolfo Casais Monteiro, Fernando Namora, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Judite de Carvalho, Maria Archer, Manuel da Fonseca, Vergílio Ferreira, entre outros nomes sonantes do romance português neo-realista, da segunda metade do século XX.

Pois bem, em contacto com as ideias europeias do tempo, e sem abdicar da sua cultura islenha Teixeira de Sousa, abraça de certa forma os temas e o estilo trazidos pelo movimento literário neo-realista. Os seus escritos ilustram-nos bem: os contos e os romances atestam o pendor e o cuidado que ele põe no traçado do enredo e no agir das personagens, quando em conflito com a sociedade em que se inserem, que para umas, se revela bem adversa e para outras, bem favorável porque ela – a sociedade – é que as instrumentalizam e as comandam. Daí o leitor se aperceber do peso da referida corrente literária –neo-realista – no grande texto do autor.

Vale também dizer, que apesar de a escrita de Teixeira de Sousa ser beneficiária, em termos de conteúdo, de um dos mais importantes movimentos literários da segunda metade do século XX, ele não deixou de ser também um lúcido crítico daquilo que considerou ser os excessos desta escola literária, mesmo reconhecendo que foi o Neo-Realismo, que tantos e extraordinários romances de língua portuguesa enformou.

Ora bem, é nesse ambiente, acrescido pela bagagem cultural que levava das ilhas, fruto da sua observada, estudada e sentida cabo-verdianidade, que se completaram, se consubstanciaram e se fundamentaram o grande contista e o emblemático romancista nosso, Teixeira de Sousa, que continuamos a celebrar.

Continuando, já em Cabo Verde – e a partir de São Filipe, na ilha do Fogo, como clínico de boa fama, director do Hospital da cidade e da ilha que nas mãos do Dr. Teixeira de Sousa conheceu melhorias substantivas – o escritor  iniciou uma colaboração regular no «Boletim Cabo Verde» e quem se der ao gosto de consultar os números, de 1949 a 1964 e foram cerca de 200 números, há-de verificar e, encontrará com toda a certeza, em quase todos eles, artigos de Teixeira de Sousa, versando diversos temas num leque de assuntos numa abrangência e numa diversidade cultural que vão da medicina, passando pela literatura, às questões de índole antropológica, etnográfica, histórica local e regional; tendo como ponto de partida e pano de fundo, a sua ilha, a do Fogo. Também versou temas outros, relacionados com os problemas que se punham para o interesse e para a sobrevivência do Arquipélago. Mais, a escrita de Teixeira de Sousa esteve quase sempre também ligada à descoberta de novos valores que despontavam para a literatura cabo-verdiana; à crítica literária (de lembrar neste ponto, a excelente análise que fez do poema: «Caminho» de Jorge Barbosa, numa desmontagem assertiva sem nunca perder de vista, a beleza poética nele contida.).

Acresce-se, que foi também ele, num artigo no Boletim Cabo Verde, quem revelou as qualidades literárias de Maria Helena Spencer segundo ele, “escondida atrás das iniciais M.H.S. com que a jornalista praiense assinava as suas crónicas também publicadas no mesmo Boletim.

Viveu o surgimento dos novos poetas do «Suplemento Cultural» publicado no «Cabo Verde» em 1958. Foram também por ele, saudados.

Como vêm, Henrique Teixeira de Sousa, prestou e dedicou uma atenção real e interessada ao que de inovador em matéria literária ia surgindo nestas ilhas.

Nascia assim, no meio e num ambiente de intensa e interessante actividade literária – pois que se movimentavam e pontuavam os homens da Claridade – um dos maiores contistas do Arquipélago.

Estariam dessa forma, germinadas as sementes para, mais tarde, se abalançar à criação desta preciosa colectânea de contos: Contra Mar e Vento, a primeira obra que publicou (Prelo Editora, 1972). Mais tarde, editada pelas publicações Europa/América a 2.ª edição; e a 3.ª e penúltima edição pela mesma editora, em Maio de 1998. Esta edição, sendo a primeira edição nacional, será em termos sequenciais a 4.ª.

Entrando agora propriamente ao que aqui me traz – a apresentação de «Contra Mar e Vento» – apenas breves palavras, para não correr o risco de me repetir, uma vez que fui eu  quem também elaborou o posfácio e a resenha biográfica para o livro; livro que, diria, de quase imensurável valor literário, pela qualidade de escrita narrativa do seu autor.

A colectânea que temos em mão contém 10 contos, qual deles o mais delicioso e o mais tocante para o leitor, em termos da história contada? Qual deles o mais verossímil nos perfis das suas personagens e na descrição terrunho/ilhéu/foguense, na sua ambiência e cenários? Não o saberíamos afirmar.  E será bom para o leitor iniciante, descobrir na leitura dos contos, a qualidade da maravilhosa ficção que terá em mãos.

O Conto literário, conheceu definição mais segura e talvez mais definitiva no dealbar do século XX como sendo um episódio vivido, relatando um caso singular, onde o autor interveio ou de que teve conhecimento, e concebido literariamente como um romance curto ou prefiguração dum romance eventual. Exemplo: o conto «Dragão e Eu» e «Encontro». Aqui inseridos.

Mais tarde estes núcleos, estes nódulos, foram trasmudados, refeitos e desenvolvidos em cenas do romance «Ilhéu de Contenda».

 Continuando a colectânea, – «Contra mar e Vento», – os contos nela inseridos são todos e sem uma única excepção, delicadas e deliciosas narrativas, autênticas filigranas da arte ficcional crioula, em que o contista aliou à mestria na arte de contar, uma profunda sensibilidade, uma enorme humanidade num grande texto de uma rara beleza poética no delinear das suas personagens, no escutar e fazer entender o leitor as motivações que as levam a agir num determinado sentido – porque não poderia ser de outro modo – e que lhes condicionaram o estar e o ser em sociedade. Sociedade essa, a mais das vezes, bem hostil, em que a negação de amor ao próximo, a recusa do pão, são partes evidenciadas de um conjunto, por vezes violento, física e psicologicamente, de um desvio perverso do próprio sentido cristão da vida.

Das histórias narradas nesta fascinante colectânea que é Contra Mar e Vento distingo “Menos Um”, “Dragão e Eu”, “A Raiva”,  “Na Corte de el-rei D. Pedro” «Encontro» apenas e tão-somente para me cingir, numa opinião de leitora, aos textos que considero dos mais belos momentos saídos da pena do autor e os mais bem construídos e conseguidos no conto nacional. Contos com um farto suporte memorialista. Histórias reportadas à infância e à juventude dos seus fabulosos narradores e das não menos fabulosas personagens num redescobrir, e num registo discretamente autobiográfico do autor, da sua ilha natal e a idiossincrasia peculiar da sua gente de então.

Em termos cronológicos, o conto «A Raiva» deve ser o mais antigo, uma vez que o autor o  publicou em primeira-mão, em 1960 num dos números do Boletim Cabo Verde;  mais tarde – aprimorado e expurgada a nota explicativa da publicação/estreia, o incluiu na colectânea de Contos, agora reeditada. Este conto para o qual peço ao leitor uma leitura também simbólica e significativa,  regista aspectos chocantes que estiveram presentes na tristemente célebre emigração dos mais pobres de entre nós, para as ilhas de S. Tomé e Príncipe. A protagonista regressa à ilha do Fogo, da sua mal sucedida emigração, alquebrada e  doente. No Patim, localidade de origem e onde viviam - o que restava de - familiares, ela é literalmente “enxotada” para a cidade de S. Filipe, pois havia fome e ninguém tinha nada para dar a ninguém. Vai para o albergue. Limpa e trabalhadora, cai nas boas graças do funcionário da administração do Concelho, responsável pelo Albergue, mas em contrapartida, ganha o ódio das companheiras. É esta tensão que persiste e anima o enredo da narrativa, até ao desfecho trágico.

O livro abre com o conto «Menos Um» narrado na primeira pessoa. O narrador é uma criança obrigada a partir da casa paterna marcada pela crise de fome que amiúde se instalava nas ilhas. o protagonista está prestes a viajar para a vizinha ilha Brava, para a casa da madrinha, esta, menos minorada pela má sorte. Toda a narrativa, é percorrida por um tom dramático e contido, que reforçam a violência da situação de saudade e de alguma “orfandade,” pré vivida e expressa de forma dorida pela voz infantil e bem emocionada do protagonista.

Dos contos seguintes, particularizava também o conto «Dragão e Eu». Trata-se de uma história igualmente contada na primeira pessoa. O narrador ainda criança teve um cão, o “Dragão” que passou a ser o seu fiel amigo e companheiro de quase uma década. Juntos cresceram. Como diz o próprio narrador “...mais ele do que eu”.

Os leitores vão-se dando conta da cumplicidade criada, da passagem e das complexas mudanças do protagonista de criança/adolescente/jovem e finalmente homem feito. Por várias vezes ao longo do conto as duas vidas (a do protagonista e a do cão) se tocam e quase se confundem, no plano ontológico. Este conto que a princípio pode parecer destinado a crianças, torna-se a determinada altura, muito adulto, nas peripécias que vai narrando e à medida que o “Eu” (protagonista) entra na vida adulta também. Chegados ao fim da longa história das duas vidas, ficámos com a nítida impressão de que o autor quis fazer de «Dragão e Eu» uma novela, ou uma narrativa mais alargada, em relação aos de mais contos da colectânea. E isto, tanto no plano cronológico, como também, através dos vários episódios que «Dragão e Eu» contém.

 «Na Corte de el-rei D. Pedro» é percorrido por um simbolismo e por uma dramaticidade singulares, pois que o autor condensou no enredo, as causas da ascensão e da queda  da personagem principal de uma forma excepcionalmente sublime e que ilustra  muito claramente o lado errático da riqueza material conseguida pelo pai do narrador Vicente Cardoso e o seu posterior esbanjamento justificado em complexos desvios, que acabam no empobrecimento dos descendentes da outrora família rica de Jerónimo Cardoso, agora apenas relembrada na voz do pobre louco Raimundo, que todas as noites gritava do alto de S. Pedro, na cidade de S. Filipe, ser ele “el-rei D. Pedro”.

No conto «Encontro» iremos revisitar, um dos temas mais caros e recorrentes na ficção de Teixeira de Sousa, o posicionamento e os conflitos de classe vivenciados pelas personagens da história. O enredo gira à volta de Miguel, personagem protagonista, aspirante dos serviços aduaneiros de São Filipe, apaixonado e correspondido por Ilda. Ilda representa o típico social de filha-família do Fogo, sobretudo da cidade de São Filipe, que ia para Portugal, estudar em colégios e disso temos notícias reais, factuais, de moças, jovens mulheres do Fogo, que frequentaram em Lisboa, o Colégio «Bom Sucesso», o das «Doroteias» em Sintra, dentre outros, à época prestigiados estabelecimentos de educação feminina. A personagem Ilda voltou à ilha natal, agora exímia pianista e comunga com Miguel o gosto pela música clássica cujos sons ele os escuta ao largo, na rua, vindos do piano que ela toca.

Contudo, o namoro de Miguel e Ilda não é benquisto e nem bem visto pela família dela sobretudo. A chamada lei de “feijão-mistura” está primorosa e humoristicamente tratada pelo autor, e isso permite ao leitor retornar à sociedade foguense de antanho.

Prestes a terminar,  gostaria de reiterar que Henrique Teixeira de Sousa foi sem margens para dúvidas, uma das mais gradas e relevantes figuras do círculo literário nacional que se iniciou com o grande escol da Claridade.  As Letras cabo-verdianas e as de Língua portuguesa, garantiram com o seu estilo de contista e de romancista, com a sua arte de narrar, com a sua sabedoria na abordagem literária, com o seu modo de transpor para a ficção, as complexas vicissitudes com que o bem e o mal desafiam o Homem; garantiram, dizia eu, um  legado literário bem fundamentado, porque Teixeira de Sousa pôs ao serviço da literatura, uma longa, experimentada, rica e generosa actividade humana, – profissional e cultural, a par de uma bem conseguida criatividade ficcionista.

Teixeira de Sousa a par de Baltazar Lopes da Silva, de Manuel Lopes, de Gabriel Mariano e de Maria Helena Spencer – trouxe seiva e vigor ao conto, o que até então não tinha; e outorgou a este género literário uma certa autonomia e grandeza literárias dentro da Literatura cabo-verdiana.

Para finalizar gostaria de felicitar a Academia Cabo-verdiana de Letras pela oportunidade da reedição desta colectânea de primorosos contos e que irá contribuir para o acesso dos estudantes, da comunidade de leitores no geral, agora, sob formato de livro, como desejado, de uma das obras mais belas e bem conseguidas do nosso universo ficcionista.



AINDA MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO (FIM)

terça-feira, 20 de junho de 2017
NA HORA DI BAI
Quarta meditação biológica
 sobre o homem de cabo verde

Quando me encarregaram de ir montar em S. Vicente um Centro de Sangue, o meu primeiro cuidado foi informar-me da patologia daquela e das outras ilhas e da natureza e frequência das doenças que a lavra de um grande porto de mar pode causar. O mesmo cuidado tive quando me mandaram fazer esse serviço em Angola, em Moçambique e na India. Sem esse conhecimento prévio não será possível calcular a quantidade e a natureza dos tratamentos que venham a ser requeridos, nem o volume de material a adquirir. Por outro lado, nunca me esqueci que um Centro de Sangue autónomo como este, que ficou instalado nas ilhas Verdes, tem que estar perfeitamente integrado nas condições da vida social e humana da sua região, como tem que estar pronto a servir em casos de emergência pública ou defesa nacional. Foi nessa altura que interroguei os meus amigos de Cabo Verde sobre a existência da tristeosa (e a sua natureza); foi nessa altura, igualmente, que alguém me insinuou haver nos cabo-verdianos um complexo de inferioridade com respeito às «doenças de negro».
Há mais de vinte anos, desde aquele em que pela primeira vez me matriculei no Instituto de Medicina Tropical, que a tristeosa ficara para mim como uma espécie de simbolismo das ilhas Verdes. Nunca pude esquecer o sortilégio que tinham as palavras de Firmino Santana ao descrever essa doença de grande miséria fisiológica, que só atacava os negros e cujo diagnóstico causal ficava indeciso entre a malária e o alcoolismo crónico. Era um estado grave, em que todos os doentes acabavam por morrer, num estado que semelhava os dos transes e, o que era mais impressionante, davam a alma voltados para a África. É claro que eu, que mal saía do meu sarampo romântico, logo deduzi que aqueles pretos realizavam a seu modo um estado lamartiniano; que mesmo que fosse malária (como falar em sezões é falar de baço) eles recriavam nas costas de S. Antão o «spleen» que Byron andou a padecer por Sintra; e que morriam voltados para o grande Continente ouvindo a chamada dos ancestrais, acolhendo no último instante, a voz cava e longínqua da terra! Era uma interpretação romântica. Era um conceito bonito. Era, sobretudo, um conceito tonto, a história irreal de uma doença irreal que, numa noite divertida, alguns médicos de Cabo Verde contaram ao crédulo professor Firmino.
Quanto às «doenças de negro» o problema requer uma pequena discussão. Deve dizer-se, em primeiro lugar, que eu nem sequer pude avaliar exactamente em que medida se manifestam no arquipélago as diferentes doenças, porque as estatísticas publica das oficialmente só merecem um crédito muito restrito, apesar dos esforços e do entusiasmo que na sua organização tem posto o activo director dos seus Serviços de Saúde. E não merecem grande confiança porque à falta de laboratórios nos hospitais e nos postos muitas rubricas nosológicas estão preenchidas por entidades diagnosticadas por simples impressões clínicas ou por um diagnóstico diferencial de simples estimativa; e porque - ao que parece - factores de ordem não científica têm influído na sua apresentação.
Seja como for, não se justificava, porém - se é que ele existia - qualquer complexo de inferioridade pela existência de «doenças de negro», ou melhor: de doenças tropicais. Até porque, não há doenças tropicais. Já em 1954 provoquei, a este propósito, um pequenino escândalo científico. Tinham-me chamado para ser redactor oficial sobre os problemas dos Serviços de Sangue em relação com as doenças tropicais, convite que eu aceitei para poder afirmar, em plena Sorbona, com o meu interno Carlos de Oliveira, que tais doenças não existem. Dada por um lado, a expansão cosmopolita da maior parte das doenças chamadas exóticas, e por outro, a destropicalização progressiva que a saúde pública vai realizando nesses territórios, tanto à escala nacional como à escala internacional.
Uma clínica puramente tropical é um mito, pois, podemos verificar em regiões não tropicais grande número das doenças outrora reconhecidas como tropicais. A actual geografia sanitária não corresponde por forma alguma às dimensões da geografia médica do princípio deste século. Até porque, com a multiplicação progressiva dos meios de transporte, deixou de haver espaços sanitários autónomos. De resto, a própria história já ensinava que doenças consideradas eminentemente tropicais, como a amebíase, tinham sido descobertas a primeira vez nas estepes russas.         
Sem dúvida que o ambiente, o clima, a presença de agentes intermediários autónomos e específicos, e determinadas condições sociais, alimentares ou até religiosas, podem dar, nos trópicos - e dão! - aspectos particulares a numerosas doenças cosmopolitas. Mas se tomarmos à letra, como definição de doenças tropicais, aquelas que só se manifestam entre os trópicos, ou seja entre 23º e 27’ ao norte e ao sul do Equador pode dizer-se que, com excepção da doença do sono, não há doenças intertropicais. E se dissermos apenas «doenças que existem ou podem existir nas regiões quentes» cabem lá todas, até as do frio, e nomeadamente aquelas que até há pouco tempo eram quási só presentes nos países temperados: como o cólera, a peste ou a varíola.
Os cabo-verdianos não tinham, pois, que sentir qualquer complexo de inferioridade por terem nascido e por viverem na área geográfica das doenças chamadas exóticas, e que nós, europeus e americanos do Norte, assim denominávamos só porque não eram frequentes nas nossas. De resto, sempre que lhes perguntei por esse complexo, responderam-me com sonoras e sadias gargalhadas.

ALMERINDO LESSA
- Diário Popular -



AINDA "MESA REDONDA SOBRE O HOMEM CABO-VERDIANO (II E III)

domingo, 18 de junho de 2017
NA HORA DI BAI
Segunda meditação biológica
 sobre o homem de cabo verde

Augusto Chevalier, de quem são as ideias expostas acima, pensa igualmente que a hipótese de que as ilhas de Cabo Verde tenham feito parte da Atlântida é tão pouco verosímil como a própria existência desse continente; que, de resto, não teria atingido tão baixa latitude.
o se conhece nelas indústria neolítica, não se encontraram nelas utensílios rupestres, e a hipótese de que tenham sido habitadas antes da chegada de Diogo Gomes e de António da Noli, em 1460, nunca pôde ser demonstrada. É possível que Aloísio de: Cadamosto tenha passado quatro anos antes, em 1456, pelas ilhas da Boavista e de Santiago, mas pela descrão que deixou, em 1507, não fica a certeza de que as tenha pisado. Quanto ás inscrições rupestres largamente referidas na tradição oral dos povos da Boavista, de Maio, de Santo Antão e de São Nicolau, ou nunca foram encontradas ou deixaram sempre grandes dúvidas quanto à sua natureza – como sucedeu com aquela que- o referido botânico francês descobriu em Santo Antão – e, nomeadamente, sobre a sua origem, visto os berberes, a quem se atribuem, o serem navegadores e a hipótese de haverem chegado às ilhas, em embarcações fenícias, nunca ter sido documentada. Também os dólmens parecem ser obra do acaso. Assim, pode admitir-se que nenhum humano, chegou a Cabo Verde antes de s, ou se chegou não pôde subsistir e desapareceu sem deixar vestígio. Só quando foi possível transportar para lá a cultura dos cereais e da cana do açúcar, pôde começar a ocupação; só quando lá criámos um novo tipo de homem, pôde dar-se inicio àquela civilização que estou procurando analisar nestes artigos.
Eu não tenho a veleidade de pensar que fui o primeiro observador a interessar-se pelos problemas de conjunto do homem cabo-verdiano. Para mim quero apenas a responsabilidade de em algumas noites de Verão ter levado a intelincia de S. Vicente a discutir comigo os seus próprios problemas. Fui apenas um agitador de ideias. Ora, uma das primeiras que levantei foi a necessidade de corrigir umas quantas opiniões erradas que sobre as gentes e as terras daquele arquipélago correm nas Universidades da Europa; e, sobretudo, as deste mesmo Augusto Chevalier, cujo livro sobre Cabo Verde, publicado tiro Paris, em 1935, é, ainda hoje, o vade-mecum de todo o viajante científico que se propõe ir até às ilhas verdes. Era aquele que o meu amigo Jacques Ruffié, professor em Toulouse e meu companheiro de pesquisas sero-antropológicas, levava consigo quando desembarcou.
Foi como botânico que Augusto Chevalier se interessou pelas nossas ilhas: como botânico, ou seja, como biologista. De ai, não ter podido abstrair-se de observar as terras onde se criavam ou desapareciam essas plantas e os homens que as comiam ou as queimavam. Correu a maior parte delas, tirou apontamentos e deixou sobre a sua geografia observações cheias de razão e de pertinência, embora profundamente contundentes para o nosso brio e a nossa posição histórica. Cabo Verde ainda era naqueles anos de 1930, em que por lá andou. um dos países mais ignorados no campo da bio-geografia. Apesar de manter o atractivo de «a mais antiga colónia tropical do Mundo», e de ser dotada de 'um «clima de paraíso terrestre», o explorador de Paris sentiu-se desolado, afirmando que séculos de exploração irracional e destrutiva, tinham transformado as terras num país de ruínas e num arquipélago de males irreparáveis. Alguns dos seus períodos têm o cheiro de um responso!
Deixarei para outro artigo o que penso dizer sobre a geografia de Cabo Verde, e onde pouco mais posso adiantar que a opinião de um amador. Nisso, cabe a palavra a um Orlando Ribeiro, e este não a tem negado. Mas não sei se de 1935 para cá, com tantos progressos feitos (e já refiro dois: as chuvas artificiais e a agronomia atómica), se de 1935 para cá não se terão modificado um pouco as perspectivas que levaram aquele botânico, como levam este geógrafo, a profetizar que o mal das terras é irreparável, por estarem em via de regressão, pela erosão, pela má agricultura e pelos maus tratos.
Não se podem negar certas verdades. S. Vicente apresenta ainda paisagens lunares e alguns aspectos faziam-me lembrar, a todo o instante, as cidades bombardeadas do centro da Europa, aí por 1943. O desconforto de viver é lá muito grande. As obras camarárias parecem difíceis, e como sucede em circunstâncias semelhantes, alguns dos seus projectos são delirantes; quem ainda hoje queira ou necessite de desembarcar sofre tormentos; e se á hora do calor maior quiser um bocado de sombra, sofre desesperos. Mas esse aspecto, que de resto, as obras portuárias, já iniciadas, irão resolver em grande parte, não é o que pretendo analisar aqui. O que quero hoje é frisar que, se Augusto Chevalier soube estudar a Natureza, o homem, esse!, não foi observado, ou se o foi, não foi compreendido, O seu pensamento pode resumir-se nas suas próprias palavras, por esta forma:
«O português julga ter marcado o negro cabo-verdiano e o mestiço com uma impressão profunda. Julga ter-lhe imposto a sua religião, ter-lhe feito perder os seus costumes africanos, seu fetichismo, seus ritos, suas danças, sua magia, seus costumes livres. Tudo isso não passa de uma aparência. O Negro cabo-verdiano continua o Negro «bon enfant», que conhecemos em África. Só se transformou à superfície. Mais: o Branco e o quase-Branco que vivem à sua volta é que foram, muitas vezes, ao encontro dos seus costumes.
«Os cabo-verdianos têm, na sua maioria, sangue português, mas não pensam em português. São mais vivos, porém menos empreendedores; a maior parte dos jovens sonha navegar e gosta da aventura, mas se se expatria facilmente, mais facilmente regressa ao país natal. Guardaram da raça negra o carácter versátil e a puerilidade. Ao contrário dos negros do Norte de África, são muitas vezes taciturnos e mornos. Esta última palavra faz até parte da língua crioula, muito diferente do português. São por vezes bastante inteligentes, mas infelizmente indolentes. Não é duvidoso que a mentalidade africana predomine.
O seu livro é, porventura, a obra sobre Cabo Verde mais conhecida nos meios científicos da Europa. Foi muito vulgarizada e é fora de dúvida que na época em que apareceu serviu muito bem os interesses económicos e comerciais da África Ocidental Francesa. Os que leram então, e os que o lêem agora, sentiram e sentem ser necessário responder-lhe, rectificando todos os juízos que estejam errados. Os homens inteligentes e responsáveis que conheci em S. Vicente juraram fazê-lo. Eu comprometi-me em levantar essa questão aqui em Lisboa e na própria Universidade de Paris, onde foi posta. E já principio a cumprir.

TERCEIRA MEDITAÇÃO

Os conceitos que sobre os cabo-verdianos foram publicados em Paris e depois postos a correr na Europa, podem resumir-se deste modo: serem pouco ou nada portugueses e pouco ou nada ocidentais; e estarem dominados por raízes africanas em cuja expressão se destacam a indolência (eufemismo com que Augusto Chevalíer quis, piedosamente, insinuar um estado de preguiça física e moral), e um complexo de inferioridade perante as doenças que têm e das quais não sofrem os brancos. Ora, todas essas ideias são francamente falsas.
Sentem-se os cabo-verdianos bem portugueses e, como já disse, toda a sua intelectualidade está voltada para o Ocidente da Europa. Certo que são portugueses da nossa comunidade e apresentam, portanto, sinais próprios e inconfundíveis. Já tenho escrito por mais de uma vez que os portugueses não são uma raça, são um grupo de homens de várias raças e de várias cores unidos por princípios morais, políticos e religiosos comuns. Eles todos, desde a orla Atlântica até á Oceânia – e neste sentido incluindo historicamente os brasileiros – é que formam aquilo que Gilberto Freire chamou «os Portugais». Neste amálgama os cabo-verdianos têm 'a sua feição própria, pois neles é possível (e quase sempre fácil) descobrir aquilo que distingue um povo de outro povo: desde a expressão poética á expressão culinária, desde o idioma aos hábitos sociais. Mas estas expressões e estes hábitos em pouco diferem dos que Keiserling ou Ortega y Gasset encontraram como diacríticos dos povos cultos do Ocidente. Basta apontar dois exemplos: a língua e a poesia.
O crioulo é uma língua românica que não realiza apenas um «falar útil»: é um idioma completo, cheio ao mesmo tempo de europeísmos e de regionalismos; rico de sons e de plasticidade. Embora seja essencialmente oral, um idioma de poupança (uma língua de economia fonética, como lhe chamou Augusto Casimiro), é maleável, fluído, e eu só não sei definir o seu valor real, primeiro porque o não entendo bem, depois 'porque não sou um especialista; quando lá estive até descobri que me era mais fácil ler uma poesia em catalão do que em crioulo. No entanto, julgo bem que ele é, como escreveu Pedro Cardoso - «Fala doce de alma escrava / [que] sabe a amor, sabe a tristeza». Nunca me causou a repugnância que Gilberto Freire disse ter sentido ao ouvi-lo.
E a essência da sua poesia é a mesma do nosso cancioneiro marítimo, ou dos cantares: de amor das nossas províncias metropolitanas.
Osório de Oliveira, que foi o escritor que primeiro e em maior grau entendeu as mornas, escreveu textualmente que elas «são o produto de uma raça, de uma terra; de um clima, e das condições de vida de um povo». «Para compreender bem a sua
sentimentalidade
acrescentou é preciso lembrarmo-nos de que os cabo-verdianos são uma raça mestiça, que a sua terra é um arquipélago, que o seu clima é o dos trópicos e que as suas condições de vida obrigam o seu povo a emigrar». Quem ler a poética de Jorge Barbosa e nela a «Carta para Manuel Bandeira», o «Emigrante» ou a «Carta para o Brasil», compreenderá logo a profunda visão com que Osório de Oliveira entendeu a alma do Arquipélago.
Como digo, eu não sei julgar cientificamente o crioulo. Deixo essa exegese aos filólogos. Mas pelo que sei e pelo que lá me ensinaram não posso aceitar os juízos depreciativos daqueles autores, nem perfilhar aquele outro em que um antropologista de Lisboa disse que ele era menos plástico do que o falar plebeu das ilhas adjacentes. Porque, ambos esses juízos são enormidades.
Que o cabo-verdiano tem, antropologicamente, raízes africanas, não há que discutir sequer; é do mais elementar conhecimento histórico. Que tais raízes são duradouras, tão pouco se pode negar. O «stock» génico dos negros é muito persistente, tão persistente que Batista Pereira o julgou poder descobrir nas civilizações de Roma e de Atenas. Mas deve ter perdido nas ilhas muito das suas possibilidades de afirmação. Como explicar de outro modo, por exemplo, que sendo a sensualidade uma das mais fortes raízes da expressão negra e sendo também uma das razões da criação artística, estejam as artes originais de Cabo Verde limitadas á poesia e ao bailado?
Já em 1854, Gobineau, o primeiro teórico da superioridade das raças arianas reconhecia que os negros possuem no mais alto grau a faculdade sensual, sem a qual nenhuma arte é possível. Muitos dos grandes críticos de arte do século dezanove, e deste século Kurt Wolff, Jean Cocteau, André Salomon e Guillaume Apollinaire assim continuaram pensando; e Daniel Kahnweile, encontra até nessa sensualidade a origem do cubismo. Ora, em Cabo Verde, a criação artística é nula ou sem significado. Não vi uma escultura, não vi uma pintura, não vi uma arte regional. Quanto ao conceito de que são indolentes, ele é tão antigo que já em 1786 o governador, José Maria Cardoso se queixava da resistência com que, por preguiça, os ilhéus abominavam inovações.
À primeira vista assim parece. Os cabo-verdianos são homens terrivelmente quietos. Eu sei que agitação não quer dizer actividade, e que um parquinsoniano pode agitar-se um dia inteiro sem sair de uma cadeira. Como é uma ilusão supor-se que os magros devam ser mais activos: dois «gordos» conheci eu Indalécio Prieto e António Ferro que foram grandes agitadores de ideias e o primeiro até de massas populares. Certo que vi homens e mulheres dançando noites inteiras. Mas também a mim me pareceu que, colectivamente, aquele povo é indolente. Mas quando sinceramente o disse ouvi um protesto geral, que não era apenas pelo preconceito de rebater uma «ofensa».
Com a sinceridade e o respeito pelo que me parecia ser a verdade, acusei de numerosas culpas a sua «indolência»: disse-lhes que ela devia ser responsabilizada pela falta de espirito associativo, pela existência de sentimentos colectivos de frustração, pelo desleixo das ruas, pelo abandono dos animais, pela sua falta de pontualidade, Sem dúvida, que muitas coisas chocam por absurdas e como aquela gente inteligente sabe que o absurdas e não se revolta contra elas nem as corrige, pode ser-se levado a pensar que o não faz por indolência. Que por indolência não haja na Biblioteca Municipal uma só obra que ajude a compreender os homens e as coisas de Cabo Verde: nem um só número da «Claridade», nem o «Chiquinho», de Baltasar Lopes, nem a poesia de Jorge Barbosa, nem os ensaios de José Osório de Oliveira, nem as reportagens de Julião Quintinha, nem o volume de Henrique Galvão. Não será também «por indolência» que na «ilha da sede», as terras escaldam, os arbustos ressecam e os hálitos queimam por falta de água, de água que existe num largo lençol duas ou três braças abaixo do solo? Não será também «por indolência» que se permite a estranha circunstância, que eu vivi, de, em batendo as trindades, o meu amigo J. Ruffié poder telegrafar para a sua mulher, que vivia em Toulouse, mas eu, da cidade portuguesa de S. Vicente, não poder telegrafar para a minha filha, que vive em Lisboa, pois o telégrafo fecha para a metrópole? Não será ainda «por indolência» que numa terra que não tem electricidade, não tem lenha, e onde deixou de haver carvão, o prato regional continue a ser a cachupa, que leva… seis horas a cozer?
Pensei assim. Em nome de todos respondeu-me Jorge Barbosa numa peça extraordinária de beleza e de emoção, deslocando para um plano económico e social o que eu queria medir por um processo psicossomático. E talvez tenha razão. Em grande parte, convenceram-me.
Quanto ao complexo de inferioridade pela existência de «doenças de negro» a questão é tão interessante e tão errada que merece toda uma meditação.

ALMERINDO LESSA

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