Nos 101 anos do nascimento de Maria Helena Spencer

quarta-feira, 16 de maio de 2012



Nunca me canso de voltar à escrita de Maria Helena Spencer. Ela é na minha opinião, uma das mais profundas e completas autoras das Letras cabo-verdianas. Aliás, tudo ou quase tudo, o que esta excelente cronista e ficcionista escreveu é de boa e de agradável leitura. Senhora de uma prosa deliciosa, foi colaboradora por uma boa dezena de anos no único periódico regular e mensal então existente e publicado na Imprensa da Praia, o Boletim «Cabo Verde» (1949-1964).

Pois bem, falar hoje de Maria Helena Spencer é já falar do seu rico e muito prestigiado legado escrito, daquilo que ela nos deixou, não só enquanto contista, como também enquanto jornalista.

Da sua obra, parte dela, até poderia acrescentar, parte significativa dos seus escritos encontra-se compilada, desde 2005. Mas manda a verdade que seja dita que faltam ainda por compilar outras peças escritas desta excelente autora, dispersas e insertas no antigo Boletim «Cabo Verde». Digo isto, porque a colectânea «Contos Crónicas e Reportagens» pretendeu ser tão-somente, uma amostragem qualitativa da escrita vária de Maria Helena Spencer e os textos seleccionados – com um timbre subjectivo, vale sempre dizê-lo – foram considerados os mais ilustrativos da tipologia da escrita diversificada desta Contista, Jornalista, que abrange a Entrevista, a Reportagem, a Crónica e ao Conto. Estou convicta de que a escrita desta autora pede outras abordagens, ou melhor, outras análises que destacassem com critérios, a diversificação dos seus escritos.

Apenas uma rápida informação biográfica de Maria Helena Spencer Santos, que assinava muitos dos textos publicados no «Cabo Verde» apenas com a as iniciais MHS. Nasceu na cidade da Praia, em 1911 e faleceu na cidade de Faro em 2006, aos 95 anos de idade. Fez os estudos primários na Praia, parte do Secundário no Colégio das Doroteias em Sintra e findou o Curso Complementar dos Liceus no antigo Liceu Infante D. Henrique em Mindelo, S. Vicente. Foi Professora primária na ilha da Brava, funcionária dos CTT na Praia aí viveu até meados dos anos 60 do século XX. Colaboradora permanente do Boletim «Cabo Verde» e, curiosamente ganhava o seu sustento também como modista – segundo me contaram alguns familiares e amigas dela – fazia belos e artísticos vestidos de noiva.

Dos meus registos, Maria Helena Spencer deve ter sido, creio eu, a primeira Jornalista em Cabo Verde, encartada, isto é, com licença para exercer a profissão. Posto assim de forma abreviada e informal, eis a biografia de Maria Helena Spencer, passo agora à sua faceta de Contista.

A estrutura das narrativas de MHS, tende para a do conto clássico, se assim me é permitido expressar, isto é, vamos encontrar em muitas delas, enformando o conteúdo: o jogo do bem e do mal, as indagações e as angústias existenciais do homem e da mulher, no caso, cabo-verdianos, as interacções respectivas com o seu meio, a sua sociedade. Vamos também encontrar nos contos desta autora, sugeridas ou explicitadas, as contradições da natureza humana, a espiritualidade cristã da autora aparece bem vincada, bem acentuada em muitos textos ficcionistas e ensaísticos desta escritora. Outra marca da autora é a intertextualidade entre a sua escrita jornalística e a sua escrita literária. Os termos, quando necessários, são pesquisados na sua semântica e contextualizados na história a narrar. O leitor apercebe-se desta contaminação, em alguns contos.

Seria igualmente bom realçar, que um dos temas bem caros à prosa ficcional da MHS é a emigração. Embora fosse um tema já consagrado na então pujante literatura do Arquipélago. Para esta autora, o fenómeno da emigração é, regra geral, problemático porque quase sempre desestruturador de laços familiares. As mais das vezes, mal sucedida e não revelada aos que ficaram nas ilhas. São os casos, para exemplificar, narrados nos contos: «O Regresso», «O Meu Irmão Branco» «O Homem do Leme», cujos enredos dão conta ao leitor, da forma como autora aborda esta temática fulcral que vem da considerada antiga literatura cabo-verdiana.

A escrita de MHS, sobretudo as suas crónicas revelam-na como alguém - embora preocupada com os problemas sociais - possivelmente optimista, crente na vida, alegre. Aliás, ela expressa isso de forma clara, quando, por exemplo, evoca elogiando num texto, a poesia e as cantigas alegres e satíricas de Jorge Pedro Barbosa, poeta e filho do grande poeta Jorge Barbosa, para as contrastar com algum melancólico pessimismo inscrito na literatura da época.

Daí que, julgo eu, que ela tivesse resistido muito tempo para escrever sobre um tema então recorrente, porque muito real e presente para os nossos escritores e poetas das ilhas desse tempo e que teve uma incontornável dimensão na produção literária de quase todos eles. Refiro-me à fome e à seca. Eis que nos anos sessenta do século passado, MHS, abalança-se e escreve sobre isso um Conto simplesmente genial: «Uma História Entre Muitas» Trata-se efectivamente duma saga densamente dramática e extraordinariamente envolvente, que não deixa ninguém que o leia indiferente. De facto, este Conto é no meu ponto de vista de leitora, um dos melhores trechos descritivos e narrativos da grande tragédia que amiúde visitava as ilhas. A narradora é uma mulher, Marina, oriunda do interior da ilha de Santiago, quem, no crescendo dramático e comovente, narra na primeira pessoa a sua história, dando realismo e verosimilhança à história da família que de bons anos de colheitas, de festas fartas e típicas do interior da ilha, passa à penúria, à miséria mais abjecta em que a morte é parte grotesca desta imensa tragédia.

É de leitura obrigatória, recomendo-vos. Quem queira conhecer a capacidade narrativa desta escritora, deve ler «Uma História Entre Muitas».

Volto a repetir, a narrativa é simplesmente genial!

Para terminar, gostaria de reafirmar que a escrita de Maria Helena Spencer não se confina à ficcional. Ela foi com igual mérito Jornalista, autora de excelentes textos ensaísticos e de opinião sobre temas sociais, históricos variados que preocupavam Cabo Verde da época.



1 comentários:

Frank disse...

Recordo-me dessa extraordinaria senhora, cujos talentos artisticos, nomeadamente na cozinha, tive oportunidade de constatar quando amiude visitava a casa que ela ocupava na Rua Serpa Pinto, na Praia, nos principios dos anos sessenta. A minha irma mais nova era amiga da Lalinha, o Mick pessoa chegada, estar com ela era um aprender constante. Vou tentar agora descobrir os seus muitos escritos que antes nao tivera a curiosidade de procurar. Obrigado, Ondas.

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