Sá da Bandeira - Um nome que a capital do País devia (re) lembrar...

domingo, 22 de abril de 2018



O Visconde de Sá da Bandeira, de seu nome completo, Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, ( Santarém 1795 - Lisboa 1876) foi Primeiro-Ministro do rei D. Luís I, o antepenúltimo rei de Portugal antes do fim da Monarquia e da implantação do regime republicano (1910) .
Foi-lhe concedido o brasão e o direito ao uso de título nobiliárquico, por alvará régio de 1872 ainda do tempo da rainha D. Maria II, mãe do futuro rei D. Luís I (1838 -1889). Titulado 1º Marquês de Sá da Bandeira e 1º Visconde de Sá da Bandeira.
Terá sido militar corajoso, homem de lei, apoiante dos liberais, defensor de causas reformistas e da monarquia constitucional e fundador do Partido Reformista Português. Não esquecer que estamos numa época em que as lutas liberais versus absolutistas, haviam conhecido violentos confrontos; em que assomos de ideais republicanos estavam a caminho, os quais, a breve trecho  conduziriam ao fim da Monarquia.

Abreviando, o também Marquês Sá da Bandeira, atravessou toda uma época conturbada e com não poucas convulsões que a História portuguesa registou e quase sempre com posições vanguardistas para o seu tempo. Para exemplo, a sua biografia, fá-lo um homem  preocupado com as questões da instrução, da colonização, entre outros problemas, que ao tempo ganhavam novas abordagens.

Pois bem, será exactamente na função de Primeiro – Ministro, tanto de Dona Maria II, como do rei D. Luís – e Sá da Bandeira exerceu o cargo por várias vezes, com intervalos - que a cidade da Praia em particular e Cabo Verde no seu todo, devem lembrar o perfil desse estadista.

Vamos aos factos, é Sá da Bandeira quem assina o decreto régio em Abril de 1858, que eleva a Vila de Santa Maria à categoria de cidade, Cidade da Praia.
É também ele, Sá da Bandeira quem assina o decreto régio de 1869, que instituiu  em todas as partes do império português, a abolição da escravatura.

Não admira pois, que a cidade da Praia, logo que erigida a tal, lhe houvesse atribuído o nome à artéria principal da urbe - rua Sá da Bandeira - que os moradores da cidade bem se recordam antes da independência. Hoje avenida Amílcar Cabral. Embora cause estranheza que a Câmara e a Assembleia Municipais da Praia nos anos noventa do século XX, - as primeiras eleitas, por votos dos munícipes -   ao recolocarem os nomes antigos das artérias da cidade da Praia, não  tivessem recolocado o nome de Sá da Bandeira, em nenhuma rua ou avenida da cidade, capital de um Arquipélago, pelo qual, ele teve um cuidado especial que adiante referirei.

Mas minha gente, nunca é tarde para uma boa reparação, a altura é propícia para que a toponímia das artérias da cidade da Praia, agora nas comemorações dos seus venerandos 160 anos como cidade, retorne a Sá da Bandeira o que merece Sá da Bandeira, isto é, o seu nome numa nova e boa artéria da urbe praiense ou, porque não, num refrescante jardim ou espaço verde, de que tanto necessita a nossa cidade?!

Creio que a cidade do Mindelo guarda um busto de Sá da Bandeira, numa das praças da cidade... terei de perguntar isso ao Historiador Joaquim Saial que é quem melhor conhece e quem mais vem estudando a estatuária pública de Cabo Verde.

Para exemplificar o que atrás disse sobre o cuidado especial que Sá da Bandeira teve com Cabo Verde, transcrevo uma nota interessante, encontrada no romance histórico «Mulheres de Pano Preto» de A. Ferreira, edição de 2015, página 172, e que diz o seguinte: “ (...) Já no século XIX, o abolicionista Sá da Bandeira, em 1836, advoga para Cabo Verde um estatuto (diferenciado) de “distrito administrativo” que fora ignorado, ao que na altura se justificou, por questões meramente financeiras (...)”.

Convém igualmente recordar que a assinatura de Sá da Bandeira esteve presente nos actos fundadores e mesmo nos diplomas das primeiras reformas da Instrução Pública nas ilhas de Cabo Verde; e até no da criação do célebre e prestigiado, Seminário-Liceu da ilha de São Nicolau, em 1865, a funcionar a partir de 1866. Isto é notável.

Ora bem, a primeira grande remodelação ou ampliação do sistema  do ensino público nas ilhas, aconteceu em 1869 - sendo Sá da Bandeira, Primeiro-Ministro do reino – com a criação do ensino secundário, cujo programa integrava o estudo do Latim, Francês, Inglês, Filosofia Racional, Matemática e Rudimentos Náuticos. É também dessa data a criação do Liceu da Praia.

Por tudo isto, a cidade da Praia agora vetusta, (160 anos) a comemorá-los e bem, com actividades, culturais e recreativas para marcar o dia da cidade, (29 de Abril) vai a tempo de reparar esta grande falta de reconhecimento a este homem, Sá da Bandeira, que tanto fez para que a então Vila de Santa Maria, alçasse à Cidade da Praia.












1 comentários:

Joaquim Djack disse...

Excelente artigo de Ondina Ferreira (mais uma vez), onde foca a figura deste grande militar liberal, a quem Cabo Verde tanto deve. Tenho nos últimos tempos lido (e divulgado) muita da legislação assinada por ele, referente às ilhas, e verifiquei que a sua acção não se desenrolou apenas no capítulo do abolicionismo mas que foi igualmente benéfica ao arquipélago em muitos outros aspectos, pelo que é justo que sem complexos a sua memória seja divulgada e respeitada em Cabo Verde, tal como o é em Portugal.

Acerca do busto do Mindelo, deixo aqui uma adaptação do texto que escrevi para a revista "Convocarte" da Faculdade de Belas Artes de Lisboa (/Setembro.2016) e para o jornal "Terra Nova" (Maio-Novembro.2017):

(…) Na mesma praça [antiga de Serpa Pinto, hoje de Amílcar Cabral, para sempre Praça Nova], provavelmente [inaugurado] em data próxima [o memorial a Luís de Camões foi-o em 10 de Junho de 1942] e talvez de idêntica autoria [desconhecida, no entanto], ergueu-se um busto também em pedra do militar abolicionista Sá da Bandeira. Foi ele quem mudou o extravagante nome da cidade de Leopoldina
para Mindelo, em memória do desembarque liberal durante a guerra civil de 1828-34. De factura semelhante e pedestal idêntico, tem na base o escudo das quinas, à semelhança do livro do vizinho Camões. Não passou o facto despercebido a Henrique Teixeira de Sousa [o apeamento destes bustos no pós 25 de Abril] que os relatou no romance "Entre duas bandeiras" (…). Recuperados e restaurados, foram anos mais tarde repostos nos mesmos locais. (…)

Por fim, segue um braça para a autora.
Joaquim Saial

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