No passado dia 27 de Maio, Armindo Ferreira, deu uma entrevista ao semanário “Expresso das Ilhas” (nº 1278), sobre o seu livro “Diálogos Inquietantes” que acabara de lançar sem, contudo, fazer, como teria sido habitual, uma sessão pública de apresentação.
A Entrevista conduzida pelo director-adjunto do
semanário, jornalista António Monteiro, constituiu uma via de divulgação da
obra e, por isso, posta-se aqui a introdução por ele feita, uma vez que
constitui uma espécie de sinopse a que o entrevistador havia chegado da conversa
com o autor e da sua leitura do livro (transcrição): “Em Diálogos
Inquietantes, Armindo Ferreira revisita alguns dos episódios mais sensíveis da
história contemporânea de Cabo Verde, questionando narrativas consolidadas
sobre a independência, o PAIGC, Amílcar Cabral e os debates identitários no
arquipélago. Publicado em edição de autor, o livro reflecte a recusa do autor
em submeter a escrita a critérios editoriais e comerciais, assumindo a
publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão e prazer intelectual.
Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance
provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala
também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica,
ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento.
Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que,
entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo
António, e Pedro Cardoso, na Fazenda. (Fim da transcrição)
Ainda sobre o livro, Adriano Miranda Lima, − um bom Amigo e assíduo colaborador deste blogue − teve a simpatia e a gentileza de se debruçar sobre a obra no que intitulou “Opinião sobre o livro Diálogos Inquietantes” e no seu estilo minucioso e eloquente e com uma abalizada abordagem holística produzir uma autêntica e bem elaborada recensão crítica que a seguir se apresenta:
Opinião sobre o livro “Diálogos
Inquietantes
Acabei de ler “Diálogos
Inquietantes” e, antes de mais, para além do assinalável mérito literário,
felicito-te pela coragem cívica em exprimir publicamente, e com todas as
letras, o que muita gente pensa, mas evita dizer. Faz lembrar a expressão
"o rei vai nu", naquela situação em que a inocência infantil
desmascara alto e bom som uma realidade que só não é por todos denunciada por
cobardia, medo ou conveniência.
Não é a primeira vez que
o fazes. Em obras anteriormente publicadas – por exemplo, “Mulheres de pano
preto” − e em diversos artigos de opinião, o público leitor ficou a saber que
não silencias uma opinião esclarecida e fundamentada sobre os acontecimentos
ocorridos na Guiné e em Cabo Verde a seguir ao golpe militar de 25 de Abril. No
fundo, está em causa a entrega de bandeja do poder ao PAIGC por um MFA que
rotulas, e muito acertadamente, de cobarde e impreparado para as lides
políticas e diplomáticas em que se viu envolvido. Igualmente impreparados eram
os quadros do PAIGC para as responsabilidades que assumiram nos dois
territórios, convencidos de que a crença na ideologia marxista seria por si só
geradora de uma poção mágica para a resolução de todos os problemas, desde logo
a virtude de criar “um homem novo” mediante o “suicídio de classe” dos mais
favorecidos e a súbita transformação das populações em obreiras colectivas de
uma nova sociedade. Tudo isto sob a égide de um dogmatismo marxista-leninista
que, como já era sabido, foi fautor de falência económica e regressão social em
todo o lado onde foi experienciado. A alternativa – a liberdade e a democracia
– estava fora de questão porque era luxo burguês na opinião dos paigcistas e
dos esquerdistas do MFA que, de mãos dadas, selaram naquela conjuntura o
destino imediato do povo das ilhas.
Tudo isto explicas muito
bem no livro e só fica com dúvida quem obstinadamente recusa aceitar a verdade.
Entre os pontos fortes do livro destaca-se a
dessacralização da figura de Amílcar Cabral. Não o fazes de ânimo leve,
levianamente, ou por motivação ideológica, mas com uma argumentação profusa e
apoiada em factologia conhecida e documentada. Nisto, enfileiras com outros
autores e ensaístas que questionam a imagem imaculada de Cabral como figura
política, retirando-o do pedestal mitológico em que os seus indefectíveis
seguidores o colocaram. Com o teu livro, fiquei a conhecer factos que eu
ignorava, pelo que ele é desde já um valioso documento que guardarei e
recomendarei. Mas eu próprio já tive ocasião de, em diálogos ou comentários em
círculos restritos e espaços públicos, questionar a dimensão do estratego que
alguns atribuem a Cabral, argumentando que, se o fosse, jamais poderia conceber
a viabilidade de um projecto político de união entre os dois territórios. Este
é um aspecto que aprofundas muito bem recorrendo à história e à comparação dos
perfis culturais e psicológicos dos dois povos em causa. Sim, aprendi muito com
o teu livro, seja o que de mais relevante norteou a conduta política do líder
ou até algumas particularidades da sua vida pessoal. Por exemplo, o facto de o
seu pai, Juvenal Cabral, ter sido responsável pela paternidade de cerca de 23
filhos de mães diferentes.
Estranho é que haja
cabo-verdianos que o enaltecem como homem e figura cívica, talvez só por ter
gerado o alegado “pai da nação cabo-verdiana”, sem sequer o ter sustentado,
tanto quanto parece ter acontecido, responsabilidade que recaiu exclusivamente
sobre os ombros da sua mãe. Mas esses presunçosos panegiristas serão os últimos
abencerragens do antigo PAIGC ou estiveram na luta pela independência em
território guineense, embora a maior parte em funções mais burocráticas que
guerreiras, pois a condição de carne para canhão parece ter sido reservada aos
guineenses. De facto, a mitologia à volta de Amílcar Cabral, elevado por
algumas mentes crédulas à sacrossanta condição de “pai da nação cabo-verdiana”,
começou aos poucos a ser questionada e apontada como produto de fantasiosa
criação respaldada pela ideologia política, sem qualquer fundamentação na
história, na cultura e na ciência. Alguns autores ou analistas políticos como Maika
Lobo, Daniel dos Santos, José Leitão da Graça e José Luís Hopffer Almada
contestam essa paternidade atribuída a Amílcar Cabral. De um modo geral,
convergem contigo na argumentação de que a nacionalidade cabo-verdiana só pode
ser concebida numa perspectiva histórica e existencial de uma amplitude que
jamais pode circunscrever-se à acção de uma personagem ocorrida num tempo
limitado no século XX e menos ainda quando avaliada segundo um critério
puramente dogmático. Não creio que seja pertinente ou faça qualquer sentido
atribuir um pai à nação cabo-verdiana. Creio que quando muito se pode é
identificar individualidades que ao longo da história do território
interpretaram o sentimento colectivo do povo das ilhas, indo ao fundo da sua
alma, e o manifestaram em obras de arte. Por outro lado, vem também à tona a
responsabilidade moral de Cabral pelas mortes por fuzilamento ocorridas, creio
que várias vezes, nas suas hostes. A tendência é ilibá-lo para manter à sua
volta uma aura de virtude, moderação e tolerância compagináveis com o perfil de
alguém que procurou passar nos areópagos internacionais a imagem de um
democrata. Analisas bem essa circunstância, podendo deduzir-se que o antigo
burocrata terá aprendido aos poucos a moldar a sua estrutura mental e moral à
lógica do ambiente de violência que era indissociável da missão que se impôs.
Ele teria certamente a mesma alma pacífica da maior parte dos seus conterrâneos,
mas, como diz Ortega e Gasset, o homem é a sua circunstância. E Fernando
Pessoa, aludindo à publicidade da coca-cola, também disse: primeiro estranha,
depois entranha-se.
Quanto ao resto, bastaria
analisar as fragilidades e o estrondoso falhanço do projecto político de
Amílcar Cabral para se reconhecer que nada, mas rigorosamente nada, justifica
as narrativas excessivamente polarizadas construídas à volta da personagem. Pode-se,
sem dúvida, enaltecer a sua inteligência, a sua capacidade de organização e
liderança, bem como a sua determinação em pugnar por um ideal humano, mas a
grandeza dos seus feitos tem de ser avaliada em função dos resultados concretos
que ficaram para a posteridade. E estes, longe de serem favoráveis, podem
indiciar, pelo contrário, inversão de padrões civilizacionais na Guiné-Bissau,
cuja instabilidade política e social a coloca na condição de um estado falhado
e de futuro nebuloso. Ali não nasceu um “homem novo”, pelo contrário, a avaliar
pelas ridículas figurinhas fardadas, com o peito estrelado de medalhas, que
constantemente desestabilizam o país, conclui-se que nada de positivo se pode
esperar de mentes rasas de valores cívicos e de seres envaidecidos com a ilusão
do poder dado pelas armas que detêm.
Até mesmo em Cabo Verde,
cuja sustentabilidade só tem sido viabilizada graças às ajudas externas e à sua
criteriosa reciclagem, não se pode considerar auspicioso o curso da
independência política que foi reconhecido ao país. Ironicamente, pode dizer-se
que a boa vontade da comunidade internacional teve um contraponto negativo: ao
contemporizar-se com a solução política imposta de supetão ao território, terá
impedido que ao povo fosse facultada a possibilidade de escolher livremente o
seu destino. Foi assim que os tais “melhores filhos da nação”, os da
paternidade política do PAIGC, tiveram a via aberta e segura para, com o apoio
do MFA, inviabilizar a solução democrática que certamente seria a aspiração da
maioria do povo quando foi derrubado o regime anterior
Só por crassa ignorância
ou irresolvido complexo de colonizado é que não se reconhece que caberia a
Portugal, como aliás sempre entenderam líderes como Costa Gomes, Spínola, Mário
Soares e Almeida Santos, integrar Cabo Verde como região autónoma em moldes
semelhantes aos Açores e Madeira. Assim, em vez de receber dádivas da
comunidade internacional para poder sobreviver, Cabo Verde poderia passar a ser
contemplado, não com esmolas, mas com o que seria de direito próprio. Cheguei a
invocar a rábula “comeram-me a carne, agora roam-me os ossos” para ilustrar que
quem descobriu e povoou as ilhas jamais poderia livrar-se assim tão facilmente
das suas responsabilidades históricas. Há quem não veja o problema nessa
perspectiva, mas há dias agradou-me ler num espaço público o comentário de um
cabo-verdiano que terminava assim: “afinal, os primeiros cabo-verdianos foram
os portugueses”. Isto vinha a propósito da simpatia que os portugueses
manifestaram em espaços públicos para com o desempenho da selecção de futebol
da nossa terra no Mundial. Não foi por acaso que, há alguns anos, quando eu o
José Fortes Lopes e o Arsénio de Pina fomos à Associação de Antigos Alunos de
Cabo Verde falar sobre Regionalização, estando presente o Onésimo Silveira,
este afirmou ao usar da palavra: “foi um erro histórico não ter sido
possibilitado a Cabo Verde a auto-determinação em vez da independência política
nas circunstâncias em que ocorreu.”
Resta-me uma palavra
sobre o MFA, uma vez que ele tem graves responsabilidades no que aconteceu em
Cabo Verde. Fui um adepto consciente do 25 de Abril, mas nunca teria imaginado
que alguns oficiais do quadro permanente tão depressa se metamorfoseassem em
marxistas-leninistas. O protagonismo da ala esquerdista do Movimento contribuiu
para que a indisciplina nos quartéis, sobretudo em alguns, chegasse ao extremo
e transformasse a imagem da instituição castrense em autêntica caricatura.
Alguns militares, mesmo uns poucos profissionais, deixaram crescer cabelos,
barbas e patilhas de uma forma ridícula, como querendo imitar um qualquer Che
Guevara ou revolucionário sul-americano de pacotilha, na aparência mas também
na adopção de condutas e procedimentos em tudo contrários aos regulamentos
militares. Não se deram conta do anacronismo das suas figuras e da inadequação
da tal “sociedade socialista” que, por influência partidária, apregoavam sem
saberem o que isso significaria como modelo a encaixar de supetão no país e a
impor-se contra a vontade nacional. Até porque a condição revolucionária
surgiu, na maioria dos seus protagonistas, de geração espontânea, sem nada que
a atestasse, por conhecimento teórico ou experiência política anteriormente
adquiridos. Só a ignorância explica uma surpreendente e momentânea sedução por
modelos sociais do Leste Europeu que não levariam muitos anos a claudicar. É
como se alguns militares profissionais tivessem perdido a noção do
posicionamento do seu país no quadro geopolítico europeu e abdicado da formação
ética e disciplinar que a vida toda os norteou.
Ora, é nesse contexto que
se movimentaram as representações do MFA localizadas nas antigas colónias e
diligenciaram para que o poder fosse entregue praticamente de mão beijada aos
movimentos de libertação. Como tu bem os classificas, agiram mais por cobardia
do que com a consciência do dever que se lhes impunha. Costa Gomes foi bem
claro quando exprimiu a sua opinião sobre o que se passava em Cabo Verde,
conforme citas.
No entanto, os militares
em Cabo Verde não pertenciam todos a essa célula local do MFA, do mesmo modo
que os oficiais designados por “gonçalvistas” eram uma minoria. Foi enviado
para S. Vicente o capitão de Infantaria Macedo Marques, do quadro permanente, a
comandar uma companhia de caçadores. Ele é do meu tempo e há mais de 40 anos,
durante a frequência de um curso de estado-maior em que ambos participámos,
contou-me as atribulações por que passou, principalmente no episódio da
intitulada “libertação da Ribeira Bote”. Regressou com má impressão dos
cabo-verdianos, devido aos excessos que lá presenciou e a que foi chamado a
conter com os seus soldados. Também privei com o então capitão de Cavalaria
Velasco Martins, que foi enviado para S. Vicente a comandar uma companhia de
Polícia Militar na altura de maior instabilidade cívica. Confessou-me que não
esperava certos comportamentos porque levava a impressão de que os
cabo-verdianos eram um povo pacífico e cordato.
Também sou amigo e
correspondente de um oficial da Marinha que ao tempo era 1º tenente
(corresponde a capitão no exército) e estava colocado no Comando Naval, em S.
Vicente. Ao contrário dos dois oficiais referidos, este, sim, era dos mais
activos elementos da célula local do MFA, um esquerdista convicto. Tanto terá
pisado o risco que o Comando Naval o transferiu em Setembro (1974) para Angola.
Não se arrepende do que fez, antes orgulha-se, imagina, de ter contribuído para
o povo de Cabo Verde “escolher o seu melhor destino”. Hoje capitão de
mar-e-guerra reformado, não muda de opinião e por isso não percebe ou finge não
perceber que o povo de Cabo Verde não escolheu o seu destino, mas que este lhe
foi imposto em grande parte por acção da célula local do MFA. Tendo sido adepto
convicto do “gonçalvismo”, alinhando com os que defendiam que o MFA devia ser o
instrumento para a criação de uma “sociedade socialista”, foi um dos vencidos
em 25 de Novembro.
Para terminar, penso que
foi um recurso literário interessante o uso do alter ego Leónidas, que
considero um reflexo do inconsciente da personagem e narrador Leonardo. Imbuído
de convicções, ainda assim ele admite que exista uma ou outra ligeira réstia de
dúvida no edifício das suas certezas, porque no fundo sabe que o contrário
fá-lo-ia incorrer em dogmatismo, tal como os seus adversários ideológicos, e
que é mais seguro questionar-se ele próprio para uma maior clarificação do seu
pensamento.
Reitero o meu
agradecimento pelo livro e deixo aqui um abraço amigo.
Adriano
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