Jorge Pedro Barbosa e a alegria em poesia

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Jorge Pedro Pereira Barbosa que assina os seus poemas como: Jorge Pedro Barbosa nasceu na ilha do Sal, Cabo Verde, em 1933. Os estudos secundários fê-los no Liceu de Gil Eanes, na cidade do Mindelo. Trabalhou nas ilhas de S. Vicente, Santiago e Fogo. Mais tarde fixou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou na companhia aérea brasileira a Varig. Hoje aposentado, vive em Nova Iorque.
De recordar que Jorge Pedro entrou bem cedo para o mundo da poesia. Estreou-se na publicação dos seus poemas, aos 17 anos de idade, em 1950, com o poema, “Homo – Deus”:

O Mundo é vosso,
Porque é vosso também
O chilrear das aves
E o perfume das flores,
O murmúrio dos arvoredos
E das águas nascentes…

O Mundo é vosso,
Porque a terra que pisastes
Floresceu.
E agora
Tudo o que vos rodeia
Sorri…
Canta…
Vive…
O Mundo é vosso,
Porque podeis levantá-lo com uma só mão
E com a outra vos livrardes dos obstáculos
Oferecidos pelo caminho
Que conduz ao vosso Destino.

O Mundo é vosso,
Porque vencestes a veloz corrida
Da vida,
Porque os outros ouviram os vossos clamores
Que os ecos das montanhas
Repetiram…
In: «B. Cabo Verde» nº. 14, 1950.

Creio poder aventar sem muita margem de erro, que antes disso, Jorge Pedro havia já feito – mera conjectura minha embora plausível – alguns poemas publicados no (s) jornal (is) do Liceu de Gil Eanes e/ou também lidos em saraus e sessões de poesia, do mesmo liceu, o que era relativamente frequente nessa altura e de que ele seria um activo participante.
Portanto, Jorge Pedro Barbosa, para além de ter convivido precocemente com a “poesis” em casa, estudou-a na escola, de forma activa, criativa e transformadora, mas criou-a também e muito cedo, pelo dom “da” e “à” poesia.
Possivelmente, ou por causa disso, por ser filho de um dos maiores poetas destas ilhas – já reconhecido e aclamado à época – Jorge Barbosa, e que coevamente com ele publicou, o então jovem poeta, Jorge Pedro, terá permanecido numa relativa “sombra”, dada a enorme e merecida projecção de que gozava o progenitor.
No entanto, e a propósito, gostaria de trazer nesta oportunidade, as palavras do próprio Jorge Barbosa, quando numa entrevista concedida a Maria Helena Spencer, no número 57 do «Boletim Cabo Verde» esta lhe havia posto a seguinte pergunta que transcrevo: “- Tem um filho poeta também: Jorge Pedro. Como explica o caso poético do seu filho? Hereditariedade? Terá você exercido alguma influência na poesia dele?”
Ao que o grande poeta sénior, com a enorme modéstia que o caracterizava, apanágio aliás, de mentes sábias, respondeu: “- Não sei explicar e seria difícil explicar o caso poético do meu filho. Há coisas que acontecem mesmo sem hereditariedade, mesmo sem atavismo. Quanto à influência, creio ter exercido alguma, nele e em outros poetas novos de Cabo Verde (…) Influência entretanto perigosa porque a minha poesia com a sua embora novidade aliciadora por falta de certas virtudes poéticas, não chegou a ser nem uma obra, nem um marco itinerário. Talvez fosse um que anúncio de transição na poesia cabo-verdiana (mas há poesia cabo-verdiana?), um como que prefácio da nossa verdadeira e ainda inédita poesia, que eu apenas antevi um pouco e que é preciso escrever quanto antes, já que ela existe em potência na trágica vida das ilhas e na alma sofredora e estóica do povo mais cantador do mundo.” (Fim de transcrição) Jorge Barbosa, in: «Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação», nº 57, 1954.
Voltando ao filho poeta, (re) visitado por nós, vamos trazer ao leitor menos familiarizado com poemas de Jorge Pedro Barbosa, alguns deles, (transcrevendo-os aqui). Possivelmente os mais emblemáticos da arte deste autor, que versejou com muito à-vontade nas duas línguas a “paterna e a materna” do seu ser cultural e estruturante cabo-verdiano, isto é, tanto em língua portuguesa, como em crioulo.
De um lado, tem o leitor, poemas de alguma intervenção social e protestativa na esperança de um “futuro melhor que há-de chegar”; e num outro registo, os poemas de cariz humorístico, em que entre a ironia, a jocosidade e a crítica satírica; o poeta “brinca” com algumas personagens por ele (re) criados, o caso de “Djom Pó-Di-Pilom” ou no poema: “Mudjer di Hoji.”
Numa fase assumidamente imperativa, porque jovem, generosa e cheia de força, clama o poeta: “Vou ser Senhor do Mundo!” para que tal aconteça, o sujeito poético socorre-se da ajuda, da cumplicidade de alguns seres da nossa mitologia, incluídas em histórias orais infantis, a saber: o “Pássaro-Rei”a “Capotona-Preta” e ainda da cabalística, “sete penas brancas.” Munido dessas forças sobrenaturais a quem pede e com correcção “se faz favor” e a quem oferece o melhor que possui: “Um punhado de milho;” condições básicas para a satisfação do pedido; o sujeito poético parte à aventura de querer poisar no “tecto do Mundo.” Temos aqui, em simbologia envolta em códigos do nosso imaginário infantil, dois dos tópicos mais caros aos poetas das ilhas – porque ilhéus e “presos” pelo mar – a saída para o mundo e a procura de vida melhor.

Vou ser Senhor do Mundo

Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
Para eu voar
e ir poisar no tecto do Mundo.
Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro
em senhor da terra,
senhor das águas, senhor dos céus…
Senhor do Mundo.

Mas se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no tecto do mundo.

E porquê ele não me faz o favorzinho,
e lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: … Por favor?
(1951)
No poema que a seguir se transcreve, o sujeito poético, dialoga com a terra, com as ilhas, e pergunta-lhes sobre o “seu Destino” afirma que o quer ver, dialogar com ele e até aconselhá-lo. Procurou o “Destino” (aqui antropomorfizado) em todos os cantos do Arquipélago. Mas foi uma procura vã. Não o tendo encontrado, o sujeito poético promete à “mãe-terra”, que um dia (num futuro!? …) ela terá o “Destino” hoje, perdido.

O Teu Destino
Eu quero ver o teu destino,
Quero falar-lhe,
Quero dar-lhe conselhos.

Procurei-o pelos teus campos,
Atrás dos teus montes,
No fundo das tuas ribeiras,
Mandei-lhe mil recados,
Chamei,
gritei por ele!

Mas ninguém o viu,
Ninguém o achou…

Se o encontrar,
Juro,
Dou-te a minha palavra
Que vos farei as pazes,
Vos tornarei novamente amigos
!

Terra!
O teu destino voltará!
(1951)

Afinal, “Zé-Buli-Mundo,” a personagem do poema que se segue, imbuído das melhores intenções, foi tentar “endireitar o mundo” e acabou por piorar a situação.
De novo, Jorge Pedro Barbosa, a presentear-nos com a sua poesia musical e jocosa:
Zé-Buli-Mundo
Zé-Buli-Mundo foi bulir o mundo
para ver se o punha direito.
Zé-Buli-Mundo foi sacudir o mundo,
como um chocalho de lata,
para ver se o punha na linha.

E tanto mexeu o mundo,
que, em vez de o concertar,
o estragou mais ainda
.
(1952)
Nos versos seguintes, o poeta põe a lírica a cantar o ser amado, e sobre aquilo que o poeta “vê” de mais belo e de mais harmonioso no corpo e no espírito deste “ser-mulher”, e ao qual, nada de mal lhe poderá tocar. Há como que um “cosmos” de paz, de beleza e de simplicidade a enformar este ser, afinal, a terra-mãe, aqui transfigurada em mulher amada, a quem o poeta entoa louvores.
Poema
Ninguém de ti dirá,
A lua ilumina mais que o brilho dos teus olhos,
A noite é mais silenciosa que os teus lábios,
As folhas e os ramos dos arvoredos
Têm movimentos mais harmoniosos que o teu andar
Porque tu és filha do sol e da brisa da tarde.

Ninguém de ti dirá mal,
Ninguém te deitará maus olhares
Ninguém te atirará contra o rosto
Palavras de ódio,
Com esse instinto de mal-querer
Porque todos te estimam,
porque tu és simples nas tuas coisas.

Ninguém deixará de ouvir
nem de seguir os teus conselhos
de te confessar os segredos mais íntimos
- os momentos de alegria,
- os momentos de tristeza,
- os momentos de arrependimento.

Ninguém voltará as costas às tuas palavras,
Em sinal de pouca importância,
Tudo o que disseres é escutado por todos!
Porque da tua boca
Só saem coisas que vêm de longe
E que, sem querer,
Entram no coração dos homens.
(1953)


Abundam nos versos deste poeta, o lado alegre da vida, a soltura irreverente, satírica e trasbordante da juventude. São os casos dos poemas a seguir transcritos. Interessante é que já anteriormente, Maria Helena Spencer numa apreciação crítica, havia assinalado a novidade da alegria trazida na poesia deste poeta, afirmara ela que Jorge Pedro Barbosa trouxera na época, como que uma “lufada de ar fresco e de alegria” – que também faz muita falta à lírica – contrariamente à generalidade da poética cabo-verdiana de então, naturalmente triste, porque preocupada com os imensos e complexos problemas sociais e humanos do nosso quotidiano nas ilhas, e aos poetas era exigido que sobre eles falassem.
Em Jorge Pedro Barbosa, encontrámos também o lado lúdico, prazenteiro e pleno de um certo riso. O poeta “brinca” com as figuras castiças e as coisas típicas da terra. Os dois poemas a seguir transcritos e publicados em 1958, na revista “Claridade” ilustram bem essa “hilaridade gozona” acompanhada da musicalidade que o poeta empresta ao seu ritmo poético, bem peculiar:

Djom Pó-Di-Pilom
(João Pau-de-Pilão)

Mi própi qu’ê Djom
Djom Pó-di-Pilom
Qu’ê dono di tchom,
Tamanho, largom,
Co midjo, rolom,
Mandioca, fijom,
Batata, mamom,
Barnela, cimbrom
Co pé di polom!

Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado, roscom!
Casa, quintalom,
Co pato, pintom,
Galinha, frangom,
Tchiquero, litom
Co roda fogom,
Co tcheu calderom
Ê Nhor Deus qui pô!

Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Qui djunta tistom
Contado na mom,
Tó qu’intchi cerom,
Saco, garrafom,
Caxa papelom
Co três balaiom,
Pa mi co nh’irmom!

Mi própi qu’ê Djom,
Djom Pó-di-Pilom,
Fadjado roscom,
Qu’ê dono tchom,
Qui tem tcheu tistom
Má qui ca ladrom!
(in: Claridade, 1958)

Outra sátira que convida ao riso:

Mudjer Di Hoji
(Mulher de Hoje)
Mudjer di hoji
Ca ‘ta di cunfiá!
É gosta purfiâ
Cuma tudi homi
Ta gosta d’el!

Mudjer di hoji
Ê linguarêra,
Ê subejadêra
Djê ‘squecê lada
Rosto na rubêra,
Dj’ê ‘squecê Cuma
Tem fiticêra!

Mudjer di hoji
Cuma dj’ê laba
Moda gato
Cuma d’jê calça
Si sapato,
Cuma d’jê basunta
Rosto fépo,
Cuma d’jê
‘nrola
Na citim
Dja ca falta-‘l
Nês mundo más!

Mudjer di hoji
Ta subi cama,
Sunha, papiá,
Ri na sono,
Labanta cedo,
Abri janela,
cuda própi m’ê si mé!

Dj’ê ‘squecê fitcha
Labada-l horta,
D’jê squecê durmi
na cancaran!

É ca podê mora
Na funco-l padja,
Baxo coquêro,
Ê ca podê
Coba-l midjo,
Ê ca podê cume
Papa co lêti!

Mudjer di hoji
Ta ‘nrola língua,
Raganha boca,
Papiâ língua-l Xuxo
Qui ca di Guiné!

Dj’ê ‘squecê conta
Mocinhos, di noti,
‘storia-l bodeco

Nha Teodora,
D’jê ‘squecê cênde
Si lupeta
Dj’ê ‘squecê bira
Loro cãcã!

Mudjer di hoji
Ca podê obi
Cantiga-l tabanca,
Ca podê obi
Tóqui cimboa,
Ca podê obi
Pito-l cariz!
(In: Claridade, nº 8, 1958)

N. B. - Para o leitor que pretender uma leitura traduzida para o português destes dois últimos poemas transcritos, poderá consultar o volume I «No Reino de Caliban» de Manuel Ferreira, Lisboa, 1975. Edição Seara Nova.

Retomando, eis as palavras já acima aludidas, de Maria Helena Spencer, e exaradas à época (1954) numa apreciação, a propósito de um espectáculo realizado na Praia, em que Jorge Pedro Barbosa, representou, cantou e declamou. O texto de MHS intitula-se: “Também sabemos sorrir…” publicado no «Boletim Cabo Verde» do mesmo ano. “ (…) Com Jorge Pedro, Cabo Verde, não é só lágrimas e saudade…é também alegria e fartura, juventude e prazer (…) maravilhosa réplica ao fatalismo doentio (…)” (Fim de transcrição)
Em jeito de finalização do meu escrito, gostaria de fixar esta nótula – não estou a par de obra mais recente deste autor – dentro da poética cabo-verdiana, os versos de Jorge Pedro Barbosa, como que ficaram suspensos no tempo; como que ficaram ancorados “numa eterna juventude,” o que faz com que o leitor actual, ao descobri-los lhes perceba a frescura e a alegria que neles percorre e permanece.
Para terminar esta minha lembrança avivada da riqueza poética crioula, de que são depositários os versos de Jorge Pedro Barbosa, enquanto peças integrantes e mesmo estruturantes, do nosso ideário literário e cultural; faço minhas as palavras de alguém – li isso há algum tempo, algures … – que ao analisar um bom poeta, esclareceu: “tudo o que sobre ele dissermos há-de esquecer e o que ele escreveu há-de ficar.” Assim também é e será sempre, com a poesia de Jorge Pedro Barbosa.


1 comentários:

Joaquim Djack disse...

Ou seja, quem sai aos seus, não degenera...

Braça,
Djack

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