quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
 

O meu berço flutuante...

Eis acima o vapor «Guiné», o meu local de nascimento.
Mas vamos por partes. Os meus pais, e os manos mais velhos, partiram do Porto Grande de Mindelo numa cálida noite do mês de Agosto, rumo a Lisboa. Eu seguia na mesma viagem, só que bem aconchegada no ventre da minha progenitora.
Decorria o ano de 1946. De acordo com o narrado pelos meus pais, eles só contavam comigo  em terras lusas, já  desembarcados e instalados em Lisboa.
Surprendentemente, a 17 de Agosto e  em pleno mar alto, "na latitude norte vinte graus e cinquenta e um minutos e na longitude oeste de Greenwich,vinte e dois graus e um minuto" -transcrição do assento de registo a bordo - anunciei-me.
Houve algumas peripécias ocorridas durante a viagem. A tripulação não contava com nascimentos a bordo. O Comandante, de seu nome Ambrósio Pereira Ramalheira, para remediar a situação de toda inesperada,  decidiu "fechar" o salão do barco e transformá-lo em maternidade, instalando aí, mãe e filha.  Havia médico e enfermeiro no barco.
Aconteceu que os jovens que iam de férias ou, para estudos em Portugal, é que não gostaram nada da emergência. Entenda-se: era hábito haver bailes e festas no salão do barco, ao longo dos muitos dias em que decorriam as viagens Praia/Mindelo/ Funchal/Lisboa, e naquela viagem não puderam desfrutá-los.
Na ilha da Madeira, no porto do Funchal, o meu pai foi à terra comprar um enxoval para a bébé, pois segundo a minha mãe pensava comprar tudo em Lisboa. Logo, as minhas primeiras vestes foram madeirenses.

Bem, adiante, registada a bordo como mandavam as leis na época, a Companhia Colonial da Navegação, a que pertencia o barco, entregou aos meus pais um documento que dizia ter eu a partir daí, viagens gratuitas, a bordo do paquete portugês «Guiné». Infelizmente, nunca tal aconteceu, pois em 1949, naufragou o meu berço flutuante.

  P. S. Segue uma digitalização do meu Registo de nascimento.









1 comentários:

Adriano Lima disse...

Por pouco vulgar, isto merece, de facto, ser relatado.
O que não se entende é a ausência de um local mais adequado a bordo para um acto desta natureza, mas, enfim, naquele tempo o apetrechamento dos navios da categoria do vapor Guiné (é o que havia) visava o estritamente necessário.
Assim, pode-se dizer que a autora deste blogue é uma cabo-verdiana dos sete costados, sem tirar nem pôr, na medida em que viu a luz num ponto geográfico de intermediação do nosso dilema (querer ficar e ter que partir).
Por saber que a actual ministra da agricultura portuguesa tem uma filha chamada Maria do Mar (não sei se nasceu em circunstâncias semelhantes, mas é pouco provável nos tempos actuais), alguém poderia dizer que as circunstâncias fizeram com que ganhasse natural direito ao nome de dois vocábulos: Ondina do Mar. Até é um nome bonito e faz todo o sentido semanticamente.

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