MUITO HÁ A FAZER PARA ALARGAR A ACTIVIDADE LITERÁRIA EM CABO VERDE− na opinião do ensaísta António Aurélio Gonçalves*

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Caro Leitor: aqui se transcreve um texto datado de 1962 e publicado no antigo Jornal «Diário de Lisboa». Trata-se de uma entrevista concedida pelo escritor e ensaísta cabo-verdiano, António Aurélio Gonçalves (1901-1984), dando conta  da então situação literária, criativa e cultural do Arquipélago, num primoroso e rigoroso panorama, como só o saberia fazer alguém portador de conhecimento e de  uma  vasta cultura  que o antigo professor de Filosofia nos habituou ao longo da sua vida. Por tudo isto, convido vivamente o leitor a ler a entrevista.
Deixo-o, caro leitor, com este magnífico texto sobre a Literatura  cabo-verdiana de há 55 anos, fazendo votos de um novo ano pleno de boas realizações.

No moderno movimento literário cabo-verdiano, que há uns trinta anos se revelou com frescura e espontaneidade singulares, só tardiamente veio alinhar o ensaísta e novelista António Aurélio Gonçalves. Já as personalidades de Jorge Barbosa, de Baltasar Lopes, de Manuel Lopes e alguns mais, eram largamente divulgadas nos círculos literários de Cabo Verde e da Metrópole, como escritores de alto nível prontamente conquistado – e ainda Aurélio Gonçalves prolongava em Lisboa, como estudante na Faculdade de Letras, uma aprendizagem voluntariamente prolongada de intelectual e de escritor. Espírito finíssimo, cultivando com delongas o sibaritismo superior da mais larga cultura de raízes clássicas, não houve neste cabo-verdiano intelectualmente supercivilizado nenhuma pressa de escrever. A criação literária não se lhe impôs com qualquer urgência. Antes de regressar ao arquipélago crioulo, onde tem exercido a função de professor no liceu de Mindelo, só deixou publicado na Metrópole um ensaio crítico magistral, que inseriu na revista «Seara Nova» então inspirada no admirável apostolado cultural e cívico de António Sérgio.
Nas revistas «Cabo Verde» e «Claridade» publicou António Aurélio Gonçalves, posteriormente, obras de ficção e ensaio literário. Em 1956 e 1957, foram editadas, pela Divisão de Propaganda e Informação de Cabo Verde, as suas noveletas «Pródiga» e «O Enterro de Nhâ Candinha Sena» obras de ambiente localista crioulo, em que a observação do real se combina com uma atmosfera discretamente poética, uma subtileza de psicologia de almas simples e uma elegância de forma que revelam o escritor de profunda formação humanística. As duas narrativas foram significativamente publicadas em abertura da «Antologia da Ficção Cabo-verdiana Contemporânea», que Baltasar Lopes seleccionou e para a qual escreveram uma introdução o escritor metropolitano Manuel Ferreira, e um comentário de lucidíssima interpretação o próprio Aurélio Gonçalves.
O escritor está hoje em plena disponibilidade para a germinação de uma obra literária que pode vir a ser acontecimento de relevo na cultura de raiz portuguesa – e para o acabamento e divulgação do que tem escrito nestes seus longos vinte anos de distanciamento insular. A oportunidade inesperada da vinda a Lisboa de António Aurélio Gonçalves deu-nos o ensejo de uma entrevista. Com ela fazemos a apresentação aos nossos leitores de um ensaísta e novelista ultramarino de nível singular – e de quem obtivemos a promessa de colaboração assídua neste suplemento do «Diário de Lisboa». Através de Aurélio Gonçalves vai o público literário metropolitano tomar contacto revelador com o escol intelectual e artístico de Cabo Verde, apesar de tudo, tão distanciado e ignorado – mas tão digno de admiração nos seus melhores valores.
Começamos por perguntar a António Aurélio Gonçalves a sua opinião sobre o actual florescimento da actividade literária do arquipélago, cuja evolução tem acompanhado intimamente nos últimos anos:
Um florescimento literário cabo-verdiano existe, na verdade, continuando o esforço criador iniciado mais destacadamente há três décadas. E o facto mais animador que nos permite confirmá-lo é o aparecimento de valores novos muito positivos. Quer vivam em Cabo Verde, no relativo isolamento insular, quer fora do arquipélago, esses escritores novos evidenciam um aperfeiçoamento, sobretudo na técnica da criação literária e na largueza dos seus interesses, que é a mais auspiciosa esperança. Seria difícil dizer, é certo, se existe neles um «aprofundamento». Mas foge-se cada vez mais à monotonia dos temas repetidos: a estiagem, a fome cíclica, a pobreza endémica, a estreiteza de horizontes do arquipélago. O pequeno mundo cabo-verdiano também é isso – mas não é só isso. A gente de Cabo Verde possui uma alma, alimenta reacções que não se contém apenas nos limites dessas realidades locais. E é preciso que a literatura desvende, explore as realidades mais profundas.
– E o que tem concorrido para esse alargar de horizontes? A emigração? O contacto mais intenso com o exterior através do livro e dos modernos meios de convivência humana?
– A emigração, não creio. O emigrante, por via de regra, é o homem do povo mais humilde e quase sempre inculto. Não vem até à literatura. E mesmo no que respeita ao livro, ao jornal ou à revista de cultura, o escol cabo-verdiano não tem o contacto intenso, assíduo e estimulador que seria de desejar. São raros os meus conterrâneos que convivem intelectualmente de maneira regular e constante com a literatura metropolitana e com as literaturas estrangeiras. A actividade literária actual é a que o nosso estreito meio permite. E muito haveria a fazer, certamente, para a alargar.
– Mas porque se publicam tão poucos livros de escritores de Cabo Verde, existindo no arquipélago um escol incontestavelmente rico?
– Sim. É com razão que se estranha a morosidade do aparecimento de obras várias de escritores cabo-verdianos. A verdade, porém, é que não somos tantos como se poderá julgar por certas aparências. E faltaram-nos, durante muito tempo, os incentivos, por vezes os meios materiais. Demais, vários escritores de Cabo Verde estão ainda a «aprender» um método e um ritmo de trabalho. Não existe, é claro, a profissionalização do escritor insular. Todos temos de ganhar a vida em outras coisas. No entanto, há homens de letras em actividade criadora quase constante – como é o caso de Jorge Barbosa na sua esplêndida produção poética. O seu processo de trabalho é, talvez, lento, mas seguro, e é admirável na qualidade como na continuidade.
– E os valores novos?
– Devemos confiar neles. São autênticos valores. Gabriel Mariano, que parece ter-se consagrado mais decididamente ao ensaio, nos últimos tempos; Ovídio Martins, que publicou há pouco, na Colecção Imbondeiro, de Angola, dois contos bem escritos; Terêncio Anahory, que surgiu com um belo livro de poemas, «Caminho Longe»; Corsino Fortes, que não publicou ainda nenhum livro, mas se tem revelado em colaborações valiosas; e, mais recentemente, um grupo de rapazes que criaram a página Seló, no «Notícias» de Cabo Verde – são o penhor de uma vigorosa continuidade nas letras insulares. E, como esses que mencionei, muitos mais com que teria de alongar demasiado este depoimento.
– Mas porque não ressurgiu ainda, a revista «Claridade» como órgão perene dos valores literários do arquipélago?
– A pergunta tem todas as justificações, mas há-de permitir-me que faça um pouco de história. «Claridade» teve um primeiro ciclo, como sabe, nos anos 30, com três números em que se destacaram as colaborações de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, João Lopes dos Santos e alguns mais. É o período inovador, sob forte influência brasileira e, mais designadamente, do neo-realismo então lançado com vigor por Lins do Rego e Jorge Amado. Foi nessa fase que se intentou a criação de um estilo literário mais próximo do crioulo nativo e se pretendeu traduzir, sob formas mais cruas, as dramáticas realidades cabo-verdianas. Houve, a seguir, uma interrupção de alguns anos motivada pela dispersão dos colaboradores. E, por volta de 1942, a revista apareceu com uma participação mais larga e um espírito diferente: a mitigação daquele desígnio de instaurar um novo estilo, uma nova linguagem literária e o retorno a uma forma mais tradicionalmente portuguesa comum. Baltasar Lopes passou a ser o quase exclusivo animador da revista, novos elementos surgiram, imprimindo sentido mais largo e tendência mais universalista à literatura cabo-verdiana. O folclorista Félix Monteiro, os poetas Ovídio Martins, Aguinaldo Fonseca e Corsino Fortes, o ensaísta e poeta Arnaldo França, entre outros, reavivaram a mensagem de «Claridade». Também Jorge Barbosa acompanhou esse movimento renovador – enquanto alguns, incluindo Baltasar Lopes, com o seu irreprimível inconformismo, prosseguiam fielmente a orientação nativista. Na actualidade, e depois de uma interrupção de dois anos, «Claridade» tem grandes possibilidades de reaparecer, desde que haja quem impulsione e sustente a sua ressurreição. A revista conquistou, sem dúvida, um lugar de grande prestígio no conjunto literário da língua portuguesa. Será missão de alto mérito continuá-lo.
– E que outros meios seriam necessários para que a literatura de Cabo Verde fosse mais largamente conhecida na Metrópole e até no Brasil?
– O mais importante seria, sem dúvida, que os escritores cabo-verdianos publicassem com maior assiduidade as suas produções em poesia e em prosa. Tenho sido informado de que há editores na Metrópole que se oferecem decididamente para publicar livros de homens de letras de Cabo Verde – desde que tenham qualidade, evidentemente. Quanto à crítica literária, não temos razão de queixa na constante e generosa atenção ante os escritores insulares. O interesse com que João Pedro de Andrade, Óscar Lopes e outros críticos metropolitanos se referem aos nossos escritores é o mais cativante e estimulador. E não se diga, também, que o leitor metropolitano não anima a criação literária ultramarina. A 2ª edição de «Chiquinho», de Baltasar Lopes, e de «Os Flagelados do Vento Leste», de Manuel Lopes, tiveram excelente venda nas livrarias da Metrópole.
– Diga-nos ainda, alguma coisa de si, Aurélio Gonçalves. Em que trabalha actualmente, o que pensa escrever no futuro?
– Não tenho cessado de escrever e, sobretudo de delinear ou esboçar projectos. Para já, penso reunir em volume novelas e contos inéditos ou que publiquei dispersamente nos últimos anos; vou completar o meu estudo, já extenso, sobre a ironia de Eça de Queiroz; e ambiciono escrever muitas coisas mais, tanto de ficção, como de ensaio crítico – para fixar ideias e observações que tenho acumulado longamente e, também, para corresponder aos incentivos carinhosos que vim encontrar em Lisboa, após vinte e dois anos de ausência. Levo impressões rápidas, mas reconfortantes, levo muitos livros que desejava encontrar, tive encontros intelectuais que me interessaram ou até me emocionaram profundamente. Embora nunca me tenha alheado do movimento literário metropolitano, as minhas opiniões e interpretações avivaram-se ao contacto com a atmosfera em que espiritualmente me formei. E voltarei a Cabo Verde, em breve, com o desígnio bem assente de as definir melhor, de as filtrar pela reflexão metódica e de as apresentar publicamente em ensaio e crónica. A hospitalidade do suplemento literário do «Diário de Lisboa» será mais um estímulo fundamental para a actividade interpretativa e crítica que estou agora decidido a realizar.
António Aurélio Gonçalves vai regressar a Cabo Verde – mas a ponte de comunicação com a vida intelectual metropolitana, que a distância interrompeu, vai restabelecer-se. Os leitores de hoje, muitos deles esquecidos ou desconhecedores deste alto espírito e notável escritor, vão ter em breve a oportunidade grata de descobrir e de apreciar uma relevante personalidade da cultura portuguesa.
(Do Diário de Lisboa de 27-9-1962)
* Título original da publicação

3 comentários:

Joaquim Djack disse...

Pelo que conheço das minhas pesquisas do "Diário de Lisboa", jornal que tenho vindo a consultar com regularidade, 1962 é um ano muito interessante para Cabo Verde. Nessa altura já se fazem pesquisas de culturas hidropónicas no lisboeta Jardim do Ultramar (eng. José d'Orey) tendo em vista a sua aplicação a Cabo Verde, Silvino Silvério Marques abandona Macau e é substituído por António Lopes dos Santos, ambos futuros próximos governadores de Cabo Verde e depois muito estimados no arquipélago (entretanto governado por Leão Sacramento Monteiro, comandante da Armada com ancestrais ilhéus), Amândio Cabral toca no Hotel Embaixador, em Lisboa, Arnaldo França fala sobre poesia e ficção cabo-verdiana na Casa do Império, também em Lisboa, Nuno de Miranda publica "Gente da Ilha", 1.º volume da "Colecção Unidade", da Agência Geral do Ultramar, Manuel Ferreira (um quase cabo-verdiano) é entrevistado e sai o seu romance "Hora di Bai" pela ed. Vértice, Amílcar Cabral fala na ONU e terminam-se as obras interiores do cais acostável e do cais de pesca de São Vicente.
Mas o acontecimento dominante do ano é a visita de Adriano Moreira, ministro do Ultramar, realizada entre 13 de Agosto e 6 de Setembro a todas as ilhas de Cabo Verde (foi o primeiro e talvez único governante português de sempre a desembarcar em Santa Luzia). É por sua iniciativa que vem a Portugal exibir-se na RTP o Grupo de Folclore de Cabo Verde que traz consigo a grande Titina (que por aqui fica até hoje), logo gravando para os discos Alvorada um single com uma morna e uma coladeira. E é nessa linha também que António Aurélio Gonçalves é entrevistado na capital do Império, onde se encontrava temporariamente, 22 anos depois de dela ter partido em regresso a Cabo Verde, constatando-se desde logo a sua estatura de grande homem de letras, a par dos da sua época que em Portugal produziam prosa. Completava ele então o seu estudo sobre Eça de Queirós, escritor também tão estimado por Germano Almeida, como é sabido…
Boa ideia e forte trabalho de transcrição este do "Coral Vermelho" (nunca aqui ninguém falou do jogo das iniciais deste blogue… CV) que merece salva de palmas aí por uns 10 minutos…
Braça do Pd'B

Adriano Lima disse...

Desconhecia esta entrevista do grande ícone da nossa literatura que é o António Aurélio Gonçalves. Disse “é” e não “foi” porque os altos espíritos não desaparecem enquanto soubermos cultivar a sua memória e reactivar o convívio com o seu legado. Ainda não há muito tempo, reli o conto “O enterro de nha Candinha Sena”, uma criação literária que me encanta em particular. Aliás, volta e meia releio outras produções deste inesquecível intelectual cabo-verdiano, que tive a honra e o proveito de ter como professor de História e Filosofia.
Felicito a Ondina por em boa hora ter-se lembrado de postar no blogue esta entrevista que, segundo creio, a maior parte dos cabo-verdianos desconhece ou esqueceu.

valdemar pereira disse...

Grande e feliz iniciativa essa da ventilação deste conto. Se bem me lembro, o primeiro do escritor que me entusiasmou a ponto de ler de imediato os demais.
Vejo um convite para revisões
Obrigado ao Coral

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