Um episódio interessante…

quinta-feira, 16 de maio de 2013
"Gertrudes Ferreira Lima (Século XIX) Poetisa portuguesa; natural de Santo Antão (Cabo Verde). Estudou no Colégio das Ursulinas, de Coimbra. Colaborou no Almanaque Luso Africano (1895) e, também no Almanaque das Lembranças. Usou o pseudónimo de Humilde Camponesa – in Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis da Lello & Irmão – Editores – Porto."

"Pico da Cruz fica "em cima " do Paúl que é então um vale, mas nós ali só tivemos a "Humilde Camponesa" ou Obscura Paulense (Gertrudes Ferreira Lima) que assim assinava os seus poemas (sonetos). Era bastante independente e embora a sua produção poética tenha sido escassa era considerada uma igual por Januário Leite e José Lopes e outros poetas residentes na Ilha. Também essa minha prima era por assim dizer, uma ave rara em ilha de machistas. Conheceu pessoalmente João de Deus e gabava-se de ter sido a primeira a utilizar a sua cartilha de ensino.

Sendo uma intelectual numa altura em que as mulheres não brilhavam nas letras, isto, se atraiu a admiração dos homens da época pelo seu intelecto, pela beleza das suas declamações, também afastou os possíveis pretendentes. Na altura deviam pensar casar com mulher que sabe mais do que eu, safa! Mas ela não se deu por vencida nem se deu por humilde nem humilhada. Acabou por casar já com cerca de sessenta anos com um marido uns quinze anos mais novo. Nunca me contaram nada mas imagino o falatório e o escândalo que terá sido."

João Manuel Oliveira


Este pequeno e elucidativo trecho, chegou-me às mãos, já há muito tempo, via minha prima, Maria de Lourdes Chantre, autora da «Cozinha de Cabo Verde», a nossa querida Lourditas, com sempre foi e é tratada na família. Filha do tio Leça, um mindelense bem conhecido, Manuel Ribeiro de Almeida – contou-me a Lourditas que o pai dela se referia a Gertrudes Ferreira Lima como “prima Tudinha” – um dos donos, (juntamente com o irmão Raul Ribeiro) e Director do famoso «Notícias de Cabo Verde» (1931-1962) jornal privado, independente, que marcou a sua época, por várias razões, nomeadamente, para aqueles ligados às Letras, pelo facto de ter albergado, sem reservas o «Seló – Página dos Novíssimos» 1962, movimento percebido também como uma tentativa dos então jovens poetas, de ter voz e esta ser ouvida.

(Um aparte: Isto é mesmo típico de ilhéu cabo-verdiano, vejam as “voltas familiares” que já dei com informações suplementares para situar o leitor!...Ah! Ah! Ah! Tipicamente nosso!)

Mas voltando ao trecho acima transcrito – com a devida vénia ao seu autor e um pedido de autorização, o Historiador João Manuel Oliveira, santantonense e há muitos anos, professor/investigador em Macau – não resisto a (re) publicá-lo, pelo que do seu conteúdo se percebe, e como ilustra uma época e um contexto espacial em relação à mulher dita intelectual.

Lembro-me que entrei em “contacto,” com os textos da poetisa Gertrudes Ferreira Lima, diria que pela primeira vez, e sem correr muito risco de errar, nos idos anos finais da década de 70 de século XX, para “ferramenta” profissional, isto é, necessitei dela para preparar as minhas aulas de Literatura cabo-verdiana. E dos primeiros textos que li na altura, um foi dedicado “Ao meu intelligente compatriota Viriato Gomes da Fonseca (Distincto tenente d’artilharia…”

Abro aqui um pequeno parêntesis, para recordar que Viriato Gomes da Fonseca, ascendente ou se entronca nos muitos “Fonseca” de Santo Antão nos quais me incluo pelo lado materno, era militar que frequentava ou prestava serviço na corte portuguesa e por quem a Rainha D. Amélia, (1845-1945) viúva do rei D Carlos (regicídio de 1908), tinha muita estima e a quem ofereceu um “stradivarius,” violino que ele guardou com imenso brio e que segundo informações históricas, já promovido a general, levou-o na sua bagagem para Santo Antão, onde tocava em convívios familiares. Fecho o parêntesis.

Retomando o à-vontade da poetisa em dedicatórias de muitos dos seus poemas, aos homens do seu círculo de Letras e de amizade, há também um poema, «Bem Haja» dedicado ao “Meu digno presbítero António Manuel da Costa” e anteriormente, ainda em Lisboa, estudante do curso do magistério primário, escreve um poema muito autobiográfico e a “Pedido de Júlio Dumont” como aponta em jeito de dedicatória.

Ora bem, isto prova que a “Humilde Camponesa,” seu pseudónimo poético, não tinha qualquer melindre em fazer dedicatórias poéticas à sua contra-parte masculina. Já outro tanto não diria dos seus pares masculinos, ilustres homens da pena e com alguns deles privou ela em Santo Antão, como bem se refere o texto de João Manuel Oliveira. Pois bem, não me recordo de ter lido qualquer poema ou prosa, dos mesmos, dedicados à nossa poetisa… Se encontrar, prometo que volto atrás…

Com uma ressalva, encontra-se num dos números do antigo Almanaque de Lembranças, em 1903, um resenha crítica intitulada «Caboverdianos Illustres» assinado abreviadamente: “C. L. (Cabo Verde)” e que menciona a poetisa santantonense, entre outros nomes de escritores e de poetas, da seguinte forma: «D. Gertrudes Ferreira Lima (Humilde Camponesa) é uma mimosa e inspirada poetisa que tem colaborado n’este Almanach com o pseudonymo de Humilde Camponez. Seus versos são harmoniosos e sentimentaes. Grande admiradora de João de Deus, a Humilde Camponeza, professora distincta, foi quem primeiro ensinou pelo methodo do grande pedagogo, preenchendo assim uma enorme lacuna no ensino das primeiras letras infantis… ( …)» Fim de transcrição.

Posto isto, e em jeito de finalização, achei interessante a informação (social/mundana, mas igualmente histórica) que o meu amigo João Manuel Oliveira nos deu sobre o perfil desta cabo-verdiana ilustre, seleccionada já como um, dos muitos nomes imortais, para patrono de uma das cadeiras da futura e esperemos que efectivada brevemente, Academia cabo-verdiana de Letras.






0 comentários:

Enviar um comentário