Declarações de Amor - Entre o Português e o Crioulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eis uma história de amor acontecido num baile. Vamos directamente ao diálogo entre dois apaixonados que dançam num baile na cidade da Praia, no século XIX:
“ (…)
-Sente-se muito fatigada, minha senhora? – Perguntou ele um pouco perturbado.
- Nhor não – respondeu ela suspirando.
- Mas… V. Ex.ª parece estar um pouco incomodada. Se não fosse por me julgar importuno, pedir-lhe-ia um favor.
- É cusé?
- De me dizer o que sente.
- É câ nada, é só coraçon qui estan fadigado…
- Quer que lhe dê um remédio magnífico para esta fadiga que diz ter no coração?
- Paquê? A nhó é ca dotor.
- Bem sei que não sou médico, mas pode ser que os meus conselhos tenham o privilégio de curar a V. Ex.ª do mal de que talvez esteja sofrendo…
- Bé! Nhó ca capaz…
Porque é que não sou capaz?
-Pamode nada – Disse ela sorrindo.
- V. Ex.ª é caprichosa… continuou ele torcendo o bigode – Sei que sofre e sem razão por que sabe que a amo.
- Ami?
- Sim, a si minha senhora.
- Ami mé tambe gosta di nhô.
- Também gosta de mim? Não creio!
- Bi! Câ nhu fla si…si ca sim, m’tâ graba di nhó!
- Então jure.
- Pa alma di nha pai quis ta dibaxo de sete mon de tera…
- Oh! Sou feliz, dancemos minha senhora.

Neste comenos rompe a orquestra com uma polka, os dois jovens namorados desapareceram no meio do turbilhão. (…)” Fim de transcrição.

Maria Adelaide das Neves
Almanaque de Lembranças (1854-1932)

O leitor reparou certamente que este texto antigo conseguiu partilhar o afecto,a paixão, nas duas falas do cabo-verdiano: o português e o crioulo sem qualquer hesitação. Um diálogo de apaixonados. Um momento amoroso muito bem captado. Tanto uma língua, com a outra, a portuguesa e a cabo-verdiana foram muito eficazes para a finalidade pretendida entre os enamorados.
O conto de Adelaide Maria das Neves de 1889, (do qual tomei a liberdade de modernizar ligeiramente a escrita para facilitar a leitura) sugeriu-me este escrito, pois tenho escutado ditos “non sense,” como por exemplo, dizer-se que só o crioulo (com exclusividade) é que é língua que transmite afectos e sentimentos em Cabo Verde. Falso.
Cada um que fale por si e que seja menos absolutista. É o mínimo que se pede a gente com responsabilidade, naquilo que diz em público.
É que alguns tiram isso da “boca para fora” (relevem-me este prosaísmo) assumindo um ar de verdade absoluta que se tornam quase dogmáticos.
Até parece que o circuito linguístico cabo-verdiano só começou a partir deles.
Isto é muito mais complexo, e muito mais remoto do que julgam, meus senhores! Depende da literacia e da classe social a que pertence o falante cabo-verdiano quando faz a sua declaração de amor.
Conheço muitos casos de gente que me é próxima e trata-se de cabo-verdianos de quatro costados – como sói dizer-se – cuja declaração de amor foi feita em língua portuguesa. E os afectos em família são profundamente reiterados em português,por a língua portuguesa ser também, a língua doméstica, de casa.
E que me dirão estes iluminados sobre as particularidades das duas línguas de Cabo Verde, a portuguesa e a cabo-verdiana, sobre as cartas e bilhetes de amor de outrora que circulavam com enorme frequência, do amado para a amada e vice-versa? Eram escritas em português e eram um meio de comunicação, o mais difundido e utilizado entre nós, para o tempo de namoro.
Portanto, solicita-se encarecidamente a quem vá à comunicação social “botar faladura” sobre este tipo de assunto que o faça, lembrando que deve usar as conclusivas sob formato relativo. Deve ter sempre presente e recordar sim, os casos que lhe são próximos, o seu meio ambiente social e não generalizar abusivamente, tornando no todo absoluto, aquilo que é bastante relativo.
Ah! Deve também ligar sempre o seu “desconfiómetro” que é um instrumento muito útil para estes actos elocutórios e assim evitar que o desconhecimento – que prega muitas partidas! - que é muito atrevido e temerário, em “bocas incautas,” venha ao de cima. Nós outros agradecemos!


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