Bandalheira – a ponta do iceberg

segunda-feira, 16 de maio de 2016
O Governo cessante deixou um rasto de bandalheira com efeitos sem precedentes na história recente de Cabo Verde. Os trágicos acontecimentos que abalaram o País – embora resultado de uma acção hedionda levada a cabo por uma mente tresloucada – infelizmente puseram a nú a desordem e a desorganização do Estado a um preço muito elevado (vidas humanas) e triste não são mais do que a irresponsabilidade que grassa nas nossas instituições.  Refiro-me não só aos militares assassinados, mas sobretudo, aos civis…

A bandalheira prossegue o seu caminho também na polícia que para desviar a atenção sobre a sua inépcia publicamente denunciada na captura do confesso assassino (cerca de 30 minutos para percorrer escassas centenas de metros) anunciou (televisão) com pompa e circunstância uma montra de produtos receptados como se isto encobrisse a vergonha da sua ineficiência. Exposição que “nunca” (digo-o com pleno conhecimento de causa) existiu constituindo uma ingénua manobra de diversão utilizando os media cuja finalidade parecia apenas, camuflar a péssima imagem que sobre ela tem o grande público da sua ineficácia e incapacidade endógenas. Até os burocratas da polícia fazem esperar (eventualmente para provocar a desistência) horas – fala a experiência – para registar uma queixa que, seguramente, outra consequência não terá (e nem se espera – ao que chegamos!...) do que meramente estatística.

Um amigo meu dizia-me: Livra-te de ter um acidente com um táxi ou com um “Hiace”… E, “ingenuamente”, ripostei-lhe: Porquê? Porque a probabilidade da viatura pertencer a um polícia ou um seu familiar muitíssimo próximo é enorme e com ela, a probabilidade, vem também a possibilidade na mesma proporção de funcionar o corporativismo, respondeu-me ele. E acrescentou: Para um bom entendedor meia palavra basta!... Apenas sorri… Que mais podia fazer?

Mas a bandalheira não fica por aí. Muita gente conhecida minha fala-me da ineficiência total dos serviços de urgência da HAN da Praia, e muito recentemente uma pessoa bem identificada, disse-me que “entrou” na Urgência do Hospital “Agostinho Neto” às 13 horas e só foi atendida às 3 horas da manhã. Como não acredito na negligência do pessoal de serviço, terei que obviamente responsabilizar a organização, a gestão do Hospital e as políticas de saúde.

E quando os media anunciam que a IFH – uma instituição de sucesso nos governos do MpD – está tecnicamente falida e que a dívida do seu Projecto “Casa para Todos” – um autêntico elefante branco – perante as empreiteiras, só na imobilização dos equipamentos e os juros acumulados está calculada em 22 milhões de euros, fica-se apavorado com o desvario que tomou conta do Governo anterior.

Em termos gerais refira-se que não é nada invulgar, aliás, é mesmo muito frequente nas repartições sermos atendidos por alguém a comer um pastel, a mastigar qualquer coisa, a digitalizar o aparelho que tem na mão sem sequer dar conta da nossa presença, ou a dar prioridade a uma chamada privadíssima que somos obrigados a seguir, deixando-nos especados à espera; e depois, muito cândida e displicentemente e com a maior normalidade nos diz que o fulano que trata destes assuntos não está!... É melhor vir mais tarde, ou amanhã! O que nos leva a pensar: E se o homem (ou mulher) não vier nem amanhã, nem depois…

Mas que dizer da bagunça que grassa lá pelos TACV, cujo passivo ultrapassa os 11 milhões de contos (cerca de 100 milhões de euros); e pelos desalojados da Chã das Caldeiras; e pelas obras públicas em construção; e pelo aeroporto da Praia, sobretudo nos dias de voo para os EUA?

Os sinais desta bandalheira não são de hoje e não são pontuais. Que esperar de um governo que se reúne com marginais? Quem se atreve a andar por aí (na Praia) depois das 8 horas da noite?

Qual é a taxa de sucesso dos frequentes assaltos, furtos, roubos e outras ocorrências criminais enfrentados pela polícia, inclusive judiciária? O único sector eficiente é a de caça de multas por estacionamento ou por falta de “documentos” que parece orientada para (apenas) o cidadão comum, aquele que normalmente cumpre. Em 10 – 15 minutos está um reboque pronto a remover uma viatura mal estacionada. Nisto está todo o zelo de toda a corporação. Não cede um milímetro que seja. E ainda bem! Sempre serve para alguma coisa

Falo da Praia – uma cidadezinha de cerca de 120 mil habitantes, situada no extremo sul de uma ilha e consequentemente com fronteiras (zonas de fuga) extremamente fáceis de controlar.

Se calhar, como acontece com as multas de estacionamento ou outras “rodoviárias”, teremos que estabelecer um prémio chorudo para cada vez que um polícia apanha um assaltante, um ladrão ou um delinquente qualquer, desde que não seja o “indefeso” pé-descalço de uma rixa que é quem normalmente serve de cortina para inglês ver. Ou seja, sempre que haja sucesso na solução de um problema, isto é, que o polícia cumpra o seu dever.

Mas toda esta bandalheira que está à vista, e se sente, não deve passar da ponta do iceberg… O grosso está por vir, está imerso, escondido debaixo do tapete. Aguardemos pelas auditorias, que se impõem, do Governo.

Torna-se, pois, absolutamente necessário que o actual Governo tome consciência desta situação para não se edificar sobre ela. Estamos à deriva, sem governo, ou, o que é pior, desgovernados há, pelo menos, cinco anos.

As expectativas que impendem sobre este novo Governo são enormes embora todos saibamos que o caminho não seja fácil. A satisfação dessas expectativas vai exigir dele muita coragem e muita determinação para liquidar o enorme polvo com os tentáculos espalhados por todos os lados e desarticular a teia montada. Não poderá o Governo deixar-se intimidar, retrair-se, com ameaças de revanchismo, de perseguição bem ao gosto do PAICV para sustar a mudança.

Votamos, de forma inequívoca, muito nítida e transparente, na mudança! Queremos MUDANÇA! Mudança significa não só novas abordagens, novos comportamentos, como novas equipas, novos protagonistas. Portanto, mudança de paradigmas, de políticas, de postura, mas também de PESSOAS. Tudo a bem de Cabo Verde e dos cabo-verdianos.

Mas cuidado: O exercício do poder em democracia respeita uma certa liturgia que é o seu espelho, a sua imagem, e que, se não deve confundir-se nem com a arrogância, nem com o autoritarismo, não deve igualmente representar o populismo demagógico.

 A.Ferreira

3 comentários:

valdemar pereira disse...

Plenamente de acordo. Subscrevo. O que me satisfaz mais ainda não é a confirmação do que se passa mas a coragem de aparecer, de se dar a cara e dizer a verdade. Ê que, em Cabo Verde, estamos desabituados de tal gesto porque vivemos como que em uma conferência de depressivos.
Força !!!

Adriano Lima disse...

Este retrato pintalgado de riscos. manchas e amolgadelas é também o que penso da actual situação na nossa terra. Realmente, é preciso mudar muita coisa, mas também de mentalidade, e nisso a acção terá de ser transversal. Mas será mesmo possível mudar aí alguma coisa? Tenho muitas dúvidas.

joão silva disse...

Estou completamente de acordo com estas afirmações,depois das 20 horas,depois de um sol quente e abrasador,uma brisa fresca de passear ao ar livre com familiares e amigos,ir a um local público,mas também a hora dos thugs saírem das tocas para assaltos em via pública ,hora também dos estabelecimentos fecharem as portas e mandarem pessoal para desemprego

Enviar um comentário