Carolino do Sacramento Monteiro

segunda-feira, 2 de maio de 2016


- Poeta foguense do século XIX -

Sobre este poeta foguense pouco sabemos. Deixo aqui ao leitor, alguns dados biográficos e notas informativas com interesse, que me foram gentilmente transmitidos, pela minha querida amiga e familiar, Gilda Marta Vasconcelos Barbosa, matemática de formação, intelectual  de grande probidade e isso reflecte-se na sua escrita. Guardiã do legado bibliográfico dos seus ilustres ascendentes. Co-fundadora - ao lado de Monique Widmer - da Casa da Memória, situada na cidade de São Filipe.

Entrando agora no tema que intitula este texto, começaremos por informar que  Carolino do Sacramento Monteiro, nasceu em S. Filipe,  na ilha do Fogo a 21 de Abril de 1866, filho de gente grada e de sobrado da cidade.

Em Lisboa, fez  os estudos superiores em Agronomia. Engenheiro Agrónomo, de profissão, trabalhou em Huíla, Angola.

Seguiu a linha anarquista. Não reconhecia instituições. Teve uma companheira de origem sul-africana, Martha Atleta Maria Akkerman, com quem teve quatro filhos.

A morte deve ter ocorrido em Lisboa, de regresso da sua estada profissional em Àfrica. Dos dados recolhidos faltou o registo do ano do seu passamento.

De acordo com Gilda Barbosa, um dos filhos do poeta, terá visitado a ilha do Fogo.

Nota interessante. O poeta Carolino do Sacramento Monteiro, partilha com Henrique Vieira de Vasconcelos, romancista, poeta e contista, o ascendente comum que veio de Lisboa para o Fogo - possivelmente no século XVII ou XVIII - Bartolomeu Vieira de Vasconcelos -  (Fidalgo? Eventualmente pertencente aos “banidos do reino”? Mandados para o Fogo,  por terem caído nas más graças de sua majestade?)  Não se sabe. O certo é ser ele o ascendente masculino, que se terá ligado com mulher do Fogo e que deixou boa descendência, sendo Carolino seu neto e Henrique seu bisneto.

Um breve parêntese para falar sobre Henrique de Vasconcelos. Este escritor Nasceu em S. Filipe, ilha do Fogo, em 1876 e faleceu em  Lisboa, Portugal em 1924. Licenciou-se em Direito, ple Universidade de Coimbra e foi Director–Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Representou Portugal em Legações e Missões diplomáticas, em vários países.

Tal como Carolino Monteiro, Henrique de Vasconcelos tem a sua origem na burguesia local, foguense, classe social que era formada por alguns altos funcionários públicos, proprietários, comerciantes e armadores locais e que esteve tradicioalmente bem assente na ilha, sobretudo na cidade de S. Filipe, como elite, terra-tenentes, e como chefia das instituições públicas da ilha, até ser intencionalmente desestruturada com a chegada dos novos senhores de Cabo Verde, em 1975.

 Retomando, Henrique de Vasconcelos. prosseguiu os estudos superiores em Portugal e aí se manteve, uma vez que fez carreira diplomática. Terá sido detentor de uma vasta biblioteca, pois foi um importante bibliófilo. Romancista, Contista e poeta. Autor de entre outras, das seguintes obras: «Flores cinzentas»  Coimbra, 1893. «Os Esotéricos» Lisboa, 1894 «A Harpa de Vanádio» poesia (Coimbra, 1894);«Amor Perfeito», poesia (Lisboa, 1895);«A mentira vital», conto (Coimbra, 1897); «Contos novos» contos (Lisboa, 1903); «Flirts» contos (Lisboa, 1905); Circe, poesia (Coimbra, 1908); e «Sangue das rosas», poesia (Lisboa, 1912) .

Fecho o parêntese e regresso ao poeta Carolino Monteiro, sujeito e protagonista do nosso texto de hoje.

Em mãos e a ser analisado, o  “4º livro” manuscrito, que o autor intitulou, na capa: «Poesias, 1887-1888-1889» Na folha de cobertura diz: “Lágrimas e Sorrisos” Lisboa, Junho de 1888. Assinado, Carolino Monteiro. São 70, o número de poemas que o volume contém.

 Constitui uma espécie de caderno, onde ele escrevia e guardava os poemas que ia publicando em diferentes periódicos, jornais e revistas., anotados em rodapé, do mesmo caderno/livro. Assim, o poeta cita, o jornal «Gazeta de Notícias»; a revista «Illustrado», «O Santareno», «Notícias do Norte» entre outros períodicos citados no livro em análise.

Ora bem, se existe um 4º livro, significa que três outros o precederam. Tanto assim é que Gilda Barbosa, me informou de que ela possui  também o 3º livro e só não mo enviou, dado o mau estado do volume e a já adiantada inelegibilidade dos textos, resultados de danos ao longo de 130 anos. Se tivermos em conta que os poemas redigidos tiveram início em1886. Por onde andarão já os dois primeiros livros?...

Atenção que todo este acervo de livros e de documentos, hoje bem conservados pela actual proprietária, a nossa Gilda Marta, só lhe chegaram às mãos como herdeira, após o passamento dos ascendentes que os possuíram originalmente.

Logo, muitos deles apresentam já os traços e as “traças” do tempo muito destruidores dos papéis.

De seguida transcrevo alguns poemas do livro 4º «Poesias» de Carolino Monteiro.

 Pois bem, o grande interesse destes textos residirá também na sua vetusta antiguidade,(perdoem-me a redundância) dentro da nossa Literatura.

  O poeta, Carolino Monteiro seguiu a linha da escola poética romântica portuguesa, naturalmente. Embora o romantismo português venha datado de cerca de 1770 (início) a 1865 (data da Questão Coimbrã, e que marca a entrada do Realismo na Litertura portuguesa) o romantismo conheceu várias fases ou períodos evolutivos ao longo do tempo. A escola romântica permaneceu muito mais tempo na poesia - para além da Questão Coimbrã, 1865 -  do que na prosa ficcionista.   

Assim, melhor colocariamos os poemas de Carolino Monteiro, como já moldados pelos cânones  ou, pela estética do Ultra-Romantismo. O «eu» lírico, destaca-se e apresenta-se na singularidade dos  seus sentimentos e das suas emoções.

Eis, pois, como o poeta se apresenta. Por sinal sob forma cómica, galhofeira e algo irónico com ele próprio. Usando trocadilhos, traça o seu auto-retrato. Mas, ao mesmo tempo, não se furta em nos dar conta dos seus sentimentos.

(...) Mas quem sou, perguntarão?

Parece-me até escusado fazer minha apresentação.

Sou conhecido no mercado

Sou o arroz, - o carolino,

Por sobrenome, Monteiro.

Sou maior, estudante e solteiro.

Não digo a minha morada

(não pensem que sou vadio)

Pois sou qual lua adorada

Que pelo espaço etéreo e frio

Vai mudando todos os meses.

Sou atacado muitas vezes

De grande bolha e mania

Faço ginástica e poesia,

e danço com toda gente.

(...) (quase ilegível, o verso, imediatamente a seguir pois que riscado.).

Tenho também geralmente por longo hábito fumar

Sou bom rapaz, não desfazendo

Alguém que me está escutando.

E oh! Que horror!

Tornando meus gargarejos

Em longas gargalhadas.

Não peço a ninguém beijos

Com receio de não mos darem...”

 

  Lisboa,Illustrado,14-3-1889.

 

A ironia e a fina graça aqui expressos neste excerto de um poema:

(...) “Eis-me aqui, pois, condenado

Ao maior sofrimento!

Disse que não me fez rogado,

pois não ouviu os meus lamentos.

V.excias. pedem que o Senhor Carolino recite

Uma poesia encantadora.

Ah! Não sei, juro minha Senhora,

Não sei recitar, acredite.

- É modéstia, ora vá, sim? –

O que há de fazer a gente

Quando os lábios carmisos

Pedem tão ardentemente?

Que força e que atrações

Não têm os nossos corações...

 

Levanto-me atrapalhado

Contrafeito e esquisito

Como um jovem namorado

Que nem sequer tem um dito

Um filão, um galanteio delicado

Para dizer à sua dama.

(...)

Vai servir pois de espantalho

De bobo e de ave (...)

Em pé no meio da sala

Ninguém fala...

Faz-se silêncio enfim.

Sei que lá por dentro

Todos se riem dos meus modos

E disfrutam-me calados.

Confesso: exponho-me aos sorrisos delicados...

Depois de fazer poesia sem graça e sem entoação

Recresce a ironia...”

1889. «Illustrado»

Para terminar o feixe irónico e trocista de que é feito também a poesia de C. Monteiro, segue  o poema, “Casamento”

Eu não caso contigo pelos teus olhos

pretos como o carvão,

nem tão pouco, pombinha idolatrada,

pelo teu santo e nobre coração.

Eu quero ser honesto e verdadeiro,

De abusar não pretendo da alma tua,

- Aí vai a verdade, nua e crua –

Caso contigo pelo teu dinheiro.”

Lisboa, Dezembro de 1887.

«Notícias do Norte»

Dos três poemas transcritos, o leitor apercebe-se - como  se de recorte dominante se tratasse nos  versos de Carolino Monteiro - desta forma de riso, de um certo gozo, e de auto-complacência irónica que o poeta faz de si próprio.   Continuamos a ter essa mesma atitude escarninha de si mesmo  e com relação por vezes a outrem, em outros poemas presentes no volume.

No meu entender, o poeta deixa subentendido com isso, um auto posicionamente inteligentemente assumido de que a sátira mais mordaz, mais contundente, ainda que dirigida a outro (s) destinatário(s), deve-se apresentar antes de mais, a retratar simbolicamente o «eu» do poeta.

 Antes de prosseguir com as transcrições dos poemas que escolhi para ilustrar o texto, faço notar ao leitor que tomei a liberdade de passar os versos, orignalmente escritos  na ortografia oitocentista, para a grafia actual (Claro, que em desacordo com o descaracterizador Acordo Ortográfico, em vigor).

Há também e com alguma intensidade, a faceta lírica propriamente dita, na poesia de Carolino Monteiro. O poema que a seguir se transcreve é disso ilustrativo.

       “ Amor romântico

 
Amo uma deusa de olhos deslumbrantes

de lábio de coral, formoso e breve

de tranças cetinosas, ondulantes

de lindos dentes, brancos como a neve.

 

Quando sorri, uma alegria amena

também me inunda o cálice da vida.

Mas se me foge esta visão serena

a minha alma anoitece constrangida.

 

É um bijou de graça e formosura

a sua boca fresca e pequenina,

quero sorver dos lábios a frescura

qual doida abelha em rosa purpurina.

 

Eu sou para ela, a noite fria, escura,

causo-lhe dó como quem pede esmola;

ela é para mim a aurora que fulgura

o bálsamo sagrado que consola!

 

Ela é qual rosa, vicejante e bela

que vive à luz e aos beijos da alvorada!

Eu, triste violeta tão singela,

apenas vivo à sombra do meu nada!

 

Se peço o aroma da mimosa crioula,

a casta luz do seu olhar bendito,

foge-me a visão casta e de granito.

……………………………………………………..

Eu sou qual planta que na sombra estiola!”

 

Lisboa, 24 de Março de 1887

In: «Santareno».

 
Caro leitor, termino este escrito, não sem antes dizer que gostaria de puder dar a conhecer mais outros poemas deste poeta pouco conhecido entre nós, e aqui afinal  deixou um bom número de poemas,  mas confesso que tenho alguma dificuldade em transcrevê-los com o rigor necessário e a certeza de que não estarei a adulterar o sentido dos versos, uma vez que estão manuscritos, com tinta antiga pela qual o tempo passou e desbotou. Uma caligrafia cuidada é certa, mas do seculo XIX e que tentei transcrever para a escrita actual. Espero que  este breve informe sobre o poeta Carolino do Sacramento Monteiro, seja aumentado e completado por outrem que disponha de mais dados.

2 comentários:

valdemar pereira disse...

Vim despraiar neste cantinho como faço sempre que possivel.
Sinto-me em completa sintonia com a Dra. Ondina e, às vezes, fico como uma criança que adora a sua professora.
(Muitas vezes o aluno é mais velho e é este o meu caso. Sucede até que nunca nos encontramos in vivo)
A bloguista fala de mais um desses foguenses que deitaram brazas mas, em vez de fazer estragos, contribuiram para que a ilha do Vulcão fosse reconhecido como um alforge de caboverdianos ilustres que ficarão para sempre na Histôria de Cabo Verde mesmo que teimem em fazer desaparecer a parte que não convém aos africanistas. Gente do Fogo nunca admitiu dezaforo e, por isso, sofreram na pele. Sempre os admirei desde que tive o privilégio de cruzar alguns no Gil Eanes (e não sô...). Por acaso, um dos meus melhores companheiros era o irmão mais velho da Dra. Gilda Barbosa - o Humberto - com quem fazia passeios a cavalo pois isso foi possivel em S.Vicente na altura (anos 1960-1970 do sec. pass.).
Espero poder ver ainda o desfilar das bandeiras do Vulcão.

Doutor Azágua disse...

Hoje aprendi muito e gostei. Muito! Mantenhas de um outro poeta foguense nos Estados Unidos
http://mosteirosfogo.blogspot.com
http://postaldofogo.blogspot.com
http://sopadepoemas.blogspot.com

Aquele abraço!
Doutor Azágua

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