A propósito do Afro-pessimismo…

domingo, 12 de junho de 2016

Vem isto à baila ou ao terreiro, como popularmente se dizia, por ter ouvido, ou lido, há já algum tempo decorrido, uma entrevista, creio que do então presidente do CA do BAD, (Banco Africano do Desenvolvimento) afirmando que a instituição havia ultrapassado o já proverbial: “afro pessimismo.” Acredito que sim. Pois que se trata de uma instituição financeira com e de capital. Claro que está próspera. Não duvido.

O problema em termos de afro-pessimismo que muitos de nós reconhece e que vem aumentando na nova geração, não é tanto sobre a capacidade financeira, económica do Continente africano. Tem muito petróleo, tem muita riqueza no subsolo, etc, etc...Só que a gestão, a distribuição de riqueza, a cidadania, o respeito pelos direitos do cidadão, a educação, a saúde, o desenvolvimento e o bem-estar da população, andam na maior dos países ricos de Africa, pelas "ruas da amargura". Isto é que dói, envergonha e faz aumentar o tal afro-pessimismo.

Eu sou afro-pessimista, quando vejo que a preocupação da maior parte dos altos dirigentes dos países do Continente negro é o de se manter a todo o custo na cadeira do poder – através de guerras civis, (os Golpes de Estado, parece que vêm diminuindo de frequência) da eliminação da população, de adversários, de alteração a bel-prazer da Lei fundamental; a não acatar o veredicto das urnas, entre outras ilegalidades e barbáries, à luz do nosso entendimento.

Sou afro-pessimista quando leio que na Nigéria, o país mais rico desta banda de Àfrica, 60% da sua população vive abaixo do limiar da pobreza. O meu afro-pessimismo advém também do triste espectáculo, que se acaba por saber, do desenfreado amealhar de riqueza por parte de altos dirigentes. Algumas dessas riquezas conseguidas, com menção quase que expressa de que ninguém, num determinado país, poderá ser mais rico do que o Presidente da República. Logo, o mais alto dignitário da Nação com direitos pessoalizados sobre toda os ricos recursos do país, como se de herança paterna se tratasse. Reparem agora no povo, é vê-lo ou, grande parte dele, mal nutrido, com curta esperança de vida, com pouca escolaridade, sem acesso aos cuidados básicos de saúde e a demonstrar patamares bem grandes de retrocesso civilizacional.

O meu afro-pessimismo aumenta quando hoje vejo as mortes - de senegaleses e de muitos outros países africanos - no mar, em demanda do “eldorado” da Europa (com testemunhos, ouvidos e vistos, em documentários televisivos) e os responsáveis dos países de origem, fingem nada ter que ver com esta tremenda tragédia! Num completo desprezo (assim parece) pela vida desses seres humanos, patrícios fugidos da miséria da terra natal, à procura de sobrevivência que não chegaram a ter..

Esta é a minha dor de Africa do século XXI!

Por favor, não intentem trazer para estas ilhas, com bastos problemas estruturais, os péssimos exemplos do Continente vizinho! De forma alguma. Já nos bastam os empecilhos endógenos que nos atrasam o desenvolvimento. Também tivemos e continuamos a ter a nossa emigração, mais do que secular, em busca de vida melhor noutras paragens do mundo.

Admiro imenso os artistas que cantam a Àfrica,  louvando-a. Eu creio que os que assim procedem, louvam-na ou a pensar num futuro melhor do que o que os tempos hodiernos auguram ou, assim a cantam possuídos de alguma nostalgia sobre algo em que acreditaram anteriormente… Só desta forma, logro perceber algumas das canções e os seus poemas nos tempos actuais. Outros, cantam-na “chorando.” Escutem-se para exemplo - grande e significativa parte - as letras das canções guineenses actuais (desde a independência a esta parte).  Quando cantam a terra amada, são lamentos e mais lamentos, num autêntico choro.

Querem mais afro-pessimismo do que isto? Vindo dos seus próprios artistas, poetas e compositores? Creio que a certificação do mal assim espelhado, ratifica infelizmente, o que o meu escrito quis dizer.

2 comentários:

Adriano Lima disse...

É mesmo, Ondina, os artistas africanos são os que mais genuinamente podem falar desse pessimismo. E exprimem-no bem através da música, da literatura, do canto ou do pincel. E até da escultura. Lembro-me do surrealismo da pintura de Malangatana, com as suas figuras fantasmagóricas a retorcerem-se angustiosamente, como que sufocando-se num imenso grito de dor e… interrogação. A música e o canto são, de facto, a exteriorização mais directa e apreensível desse imenso sofrimento que perpassa toda a terra africana. Mesmo sobrando temática para o enaltecimento da mãe-natureza onde ela ainda conserva alguma da sua originalidade primeva, mesmo aí a alma do artista africano não raro resvala entre o embevecimento e a dor incontida. Talvez porque sinta que o sofrimento percorreu todas as escalas possíveis, restando apenas a fuga para o desconhecido ou para a morte. Como aliás vemos frequentemente nesse cemitério em que se tornou o Mediterrâneo.
Eu iria dizer que não há solução para os problemas do continente africano se não me ocorresse agora que na crónica da minha autoria aqui postada, insinuo que escapa ao homem a própria solução para o planeta. Portanto, se calhar, mais do que um afro-pessimista, sou um global-pessimista.

valdemar pereira disse...

Leio o que também penso com muita tristeza. Comentando alguns artigos não deixo de lembrar que o continente vai piorando cada dia. Vivi no Senegal antes e um pouco depois da independência. Da tribuna profissional onde estive, mas mais por interesse pessoal, pude observar e continuo a me interessar o suficiente para dizer que quase nada têm que nos possa servir de exemplo.

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