quarta-feira, 22 de junho de 2016

Porque estamos em período de exames; porque se trata de uma época muito particular para os alunos e para quem os tenha em casa a estudar; achei interessante e oportuno trazer ao leitor deste Blogue o presente texto  -  com a devida vénia ao autor, Henrique Magalhães, e ao Jornal «Público» de 22/06/2016 - pois que reflecte de forma verosímil, o “animus” de um aluno em provas finais. Mas afinal, são etapas necessárias na vida do estudante em processo formativo.
 

Se o exame de História tivesse rosto
 
Diário do aluno
Henrique Magalhães
 
Talvez o exame de História tenha identidade própria. Sorria quando vê a minha mão mergulhada em tinta e o meu pensamento a sufocar com a matéria como se estivesse imobilizado dentro de um oceano profundo, a segundos de se afogar. Ou talvez seja eu que estou assustadoramente cansado. Não consigo pensar em melhor metáfora para alcançar a maturidade do que esta prova.

É impossível conseguir bons resultados sem lutar e lutar contra aquela folha medieval e tenebrosa, sem suar, sem sentir uma cortante e gélida brisa na espinha ao ver as horas a acumularem-se no relógio e continuar trémulo e hesitante enquanto tento reflectir sobre três aspectos estruturantes do impacto da Grande Depressão e das prioridades económicosociais do regime nazi. A todos os redactores destes exames, um severo obrigado! Ainda ontem, olhei pela janela do meu quarto, num dos poucos segundos que tive para respirar no meio de todo aquele fumo de revoluções e contra-revoluções e tratados e conferências que suspiravam através dos milhentos livros e fichas espalhadas pela minha escrivaninha, e vi duas crianças a jogarem à bola com um carinhoso sorriso nos lábios. Desejei expulsá-las, porém, nesse momento, apercebi-me de uma melancólica verdade: eu já fui assim, despreocupado e cheio de energia. Estarei a ficar velho? Não! A culpa é da História. Penso para os meus botões: será que posso colocar no meu currículo que fiz o exame até ao fim? Independentemente da nota, será que ter sobrevivido a 15 páginas, quatro grupos e 700 anos de acontecimentos confinados em duas ou três folhas de teste é o suficiente para arranjar um bom emprego no futuro? Devia! Será que se, numa entrevista de trabalho, disser isto chamar-me-ão piegas? Provavelmente. No final da prova reparei que tinha as mãos sujas de tinta esferográfica e não consegui deixar de pensar que talvez isso tenha uma razão de ser. A cada letra que escrevi, a cada erro que cometi tracei um bocadinho mais do meu futuro, um bocadinho mais da minha pessoa. Qualquer que seja o nosso fado, enfrentaremos toda a história que está para vir com bravura. Agora descansemos, que também faz bem.

Aluno do 12.º ano, Secundária Rainha Dona Amélia, Lisboa

1 comentários:

Adriano Lima disse...

Esta crónica, que li com um misto de prazer e curiosidade, vem lembrar-nos que o talento literário é algo que nada tem a ver com os currículos escolares.
Também faz-me lembrar a minha filha mais nova (com 42 anos) que era, e é, uma apaixonada por História e pela docência mas que não conseguiu fixar-se no sistema de ensino por causa do excesso de oferta que se verificava quando terminou o curso. Licenciou-se pela Faculdade de História da Universidade Clássica, após um curso de 4 anos, mais 1 ano das pedagógicas e mais um ano de estágio. Trabalhou com muita aplicação, mas com prazer, tendo terminado com a classificação de quase 17 valores. Só que quando terminou o curso o mercado estava invadido com muitas licenciaturas em História das universidades privadas criadas a partir de certa altura. Mas universidades privadas em que grande parte dos casos os critérios de exigência eram bem menores porque no fundo o que estava em causa era o negócio (dos diplomas). Desta forma, um licenciado das privadas concorria em pé de igualdade com um das estatais, sem se ter em conta o diferencial de preparação que poderia representar a mesma classificação.
O resultado é que as primeiras colocações da minha filha foram tão incertas e precárias (ora trabalhando, ora não trabalhando), muitas vezes longe da residência, que a certa altura desistiu do ensino. Passou a trabalhar numa empresa de consultadoria mas longe do seu sonho – ensino de História.
Isto vem a propósito porque a leitura desta crónica transportou-me para o diário da minha filha, em que ela foi registando as suas frustrações com um curso que não a levou ao porto pretendido.
Espero que este talentoso jovem tenha melhor sorte.

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