Ecologista “avant la lettre”...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

 

Esta é uma pequena crónica muito familiar. Daí que o que a envolve poderá ser  considerado imbuído de um certo subjectivismo, embora compreensível. Peço desde já, que me relevem a eventual parcialidade afectiva.

Mas vamos por partes, o meu irmão Hugo - o mais novo dos rapazes e mais novo do que eu - desde muito cedo, ainda em juvenil idade, se revelou um amigo da natureza. Creio que nisso terá havido alguma influência do nosso irmão mais velho, o Eugénio, que à época, já lia com interesse, livros e revistas de natureza científica e ecológica

 Vivíamos na ilha do Fogo, mais precisamente na vila da Igreja, hoje sede do Concelho dos Mosteiros. Era o Hugo quem cuidava com afagos, das árvores mais antigas e não gostava que as deitassem abaixo. Pedia aos guardas das nossas propriedades que delas (as árvores mais velhas) cuidassem com empenho.

 Igualmente, se preocupava com a pesca/caça das tartarugas, frequentemente apanhadas na desova nas praias e cuja carne e os ovos eram petiscos apreciados nas mesas da terra. Mesmo as crias delas eram assim aproveitadas.

Lembro-me que o Hugo guardava e juntava todas as moedas e notas que recebia em casa ou de familiares, e com este pequeno pecúlio, se dirigia à praia dos botes para comprar aos pescadores a tartaruga caçada. De seguida dirigia-se ao alto de um pequeno recife da mesma praia e atirava a tartaruga ao mar para que regressasse ao seu meio ambiente. Fazia isso com muita naturalidade. E ao longo do tempo manteve a mesma postura de cuidados, quer em relação às tartarugas, quer em relação às árvores.

Uma certa vez, levou para casa duas tartarugas feridas – creio que com anzóis grandes, destinados ao atum - para delas cuidar e sarar as feridas que depois seriam devolvidas ao mar. Recordo-me disso porque fui sua “ajudante de enfermagem,” nos curativos prestados aos bichos, na sua alimentação e nas mudanças de água do pequeno tanque que lhes serviu de “enfermaria” provisória.

Aguardámos ansiosamente a cicatrização dos ferimentos das pequenas tartarugas. Assim aconteceu e, foi um momento de alegria, quando o Hugo as devolveu ao mar.

Mais tarde, nos finais do anos setenta e toda a década de oitenta do século passado, já adulto e a trabalhar na ilha do Sal, o meu irmão, continuou a comprar aos pescadores as tartarugas e a devolvê-las ao mar, ao seu habitat.

Isso era  nele algo natural e interiormente assumido. Algo que cresceu com ele e que eu admirava...

Longe se estava então da proibição, sob forma de lei, de se apanhar  tartarugas, uma vez que foram declaradas, espécies em risco de extinção, já o Hugo era - na minha óptica -  um ecologista, um ambientalista «avant la lettre», digo eu.

Como disse no início deste escrito, o meu irmão, também se preocupava e muito com a vida e a duração das árvores. Ele tinha por hábito datar mediante uma pequena placa, o ano de plantação, para depois seguir o crescimento do vegetal.

E, interessante, é que quando foi nomeado pelo governo nos anos noventa, para montar e organizar a autarquia, no concelho dos Mosteiros, como Presidente da Comissão para isso criada, ele continuou com a mesma preocupação de salvaguardar a longevidade das árvores.

Na pequena praça ou, jardim, frente à nossa casa, havia um árvore que vinha dos inícios dos anos sessenta ou finais dos anos cinquenta, do século XX, já não me recordo com exactidão, mas o que interessa aqui narrar é que o Hugo colocou uma placa com a data de plantação, o nome da árvore em latim, e em português como mandavam as regras. Para além disso, pedia às pessoas que não cortassem as árvores que possuíam frente às casas ou na vizinhança, pois que algumas eram vetustas em idade, e ele procurava sempre datar a idade dessas mesmas árvores..

Mas teve com isso, alguns dissabores e zangas.

Nesta linha de actuação face à natureza, continuou o Hugo a sua defesa.

Quando foi eleito o primeiro PR da Câmara municipal dos Mosteiros, em 1997, das primeiras medidas que a CM tomou foi mandar  cortar as árvores que o Hugo tão carinhosamente cuidou e datou. Foi uma acção feia e hoje considerada incorrecta, face aos cuidados a ter para a preservação da natureza.

Mas naquela altura valia - custasse o que custasse - mostrar que a novel CM, destruiria todas as marcas deixadas pelo executivo anterior. Quezílias partidárias!...

Voltando ao amigo do ambiente que tem sido e é o meu mano Hugo, dedico-lhe este escrito para memória futura...

 

 

 

 

1 comentários:

Adriano Miranda Lima disse...

O Hugo é credor de toda a consideração cívica da parte dos cabo-verdianos. A sua consciência ecológica, desperta numa altura em que isso pouco ou nada contava, merece, com efeito, que o seu nome seja citado sempre que se discutir em Cabo Verde os problemas ambientais e a protecção da natureza.
Se há um país em que o culto da árvore deve ser sacralizado, é Cabo Verde. Custa aceitar que o sucessor do Hugo na administração autárquica tenha mandado cortar as árvores que ele tratou e datou. Isto passou-se há muito tempo, mas, ontem como hoje, essa atitude repugna e leva a que se questione a mentalidade e o carácter da pessoa em causa.
Daqui envio um abraço de solidariedade ecológica ao Hugo.

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