quinta-feira, 22 de abril de 2021

 

Por me parecer com interesse para o leitor, aqui se transcreve o texto do Historiador português, Rui Tavares, sobre o Uruguai e a Língua portuguesa.

 

Um Facto Histórico pouco conhecido

Por Rui Tavares

Ai, Uruguai...

Passo pelo centro da cidade e vejo de repente, em plena Praça do Comércio, a bandeira da Guiné Equatorial. Lá estava ela ao lado das outras oito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Para nos lembrar como os interesses petrolíferos levaram à CPLP uma ditadura brutal onde há uma suposta moratória à pena de morte (que ninguém verifica), e onde o ditador rouba os recursos naturais do país para que o seu filho seja um colecionador de carros de luxo que não podem andar nas poucas estradas asfaltadas daquela desventurada terra.

Não que faltem razões históricas para uma relação com o povo da Guiné Equatorial, por onde os portugueses também andaram e onde há ainda quem fale um dialeto de base portuguesa na ilha de Ano Bom. Mas se essas fossem razões suficientes para entrar um país na CPLP, eu preferiria ter visto outro na frente da fila: O URUGUAI.

Antes que alguém diga: “MAS O URUGUAI tem como língua oficial o espanhol!” — interrompo para responder que não tem. O URUGUAI não tem idioma oficial. E isso não acontece por acaso, mas pela razão histórica de que a República Oriental do Uruguai, como é seu nome constitucional, foi criada como uma espécie de Bélgica da América do Sul, ou seja, para servir de tampão entre o Brasil e a Argentina, sucessores do império português e do império espanhol.

Por isso foi deixada propositadamente sem língua oficial, nem português nem espanhol, num esforço de neutralidade.

Muita gente já ouviu falar da uruguaia /Colónia do Sacramento/, que foi a mais meridional das cidades portuguesas e se situa mesmo em frente a Buenos Aires, na margem uruguaia do Rio da Prata. Esta cidade foi intermitentemente portuguesa e espanhola durante século e meio, e serviu de moeda de troca nas negociações pela posse do território das Missões, no atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul.

Mas há menos quem saiba que todo O URUGUAI foi, no início do século XIX, PARTE DO REINO UNIDO DE PORTUGAL, DO BRASIL E DOS ALGARVES, com o nome DE PROVíNCIA CISPLATINA. Após 1822, O URUGUAI passou a fazer parte do Império Brasileiro. Em 1825, O URUGUAI tornou-se independente, não – como muita gente pensa – do império espanhol, mas sim do império brasileiro.

Este é um caso único na América de língua espanhola – MAS O URUGUAI é também, embora minoritariamente, de língua portuguesa. Há cidades de fronteira com o Brasil, onde o português é língua materna. O “portunhol riverense”, também chamado de “fronteiriço”, é um dialeto de base portuguesa reconhecido pelo estado uruguaio. /E //a língua //portuguesa/ é de ensino obrigatório nas escolas do país.

Para mais, O URUGUAI é um país democrático e respeitador dos direitos humanos. A pena de morte foi abolida em 1907. Foi um dos primeiros países na América a reconhecer o casamento gay e um dos primeiros no mundo a legalizar as drogas leves. E — esta é a melhor — já pediu e repetiu o pedido para ser observador na CPLP. Se tivéssemos sido um pouco mais ativos ainda poderíamos ter tido José “Pepe” Mujica nas cimeiras da LUsoFONIA.

É por isso que, de cada vez que eu passar pelas bandeiras da CPLP e lá vir a da Guiné Equatorial terei de suspirar e pensar: mal por mal, preferia O URUGUAI...

segunda-feira, 19 de abril de 2021

 

O texto que se segue é uma interessante e abrangente análise sobre o compêndio de História e Geografia de Cabo Verde destinado ao 6º Ano de escolaridade.

Trata-se de uma  edição do Ministério da Educação, 2018. Autores: Carlos Emanuel Sousa Santos, Daniel de Brito, Francisca Pires e Marina Soares.

 José Tomaz Wahnon Carvalho Veiga, autor dos comentários, fez um aturado e crítico levantamento de erros grosseiros, de omissões e de louvações inadequadas, encontradas no dito compêndio - note-se: trata-se de um manual didáctico de História e de Geografia para crianças de 11/12 anos.

 

COMENTÁRIOS SOBRE O LIVRO DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE CABO VERDE, 6º ANO

Por José Tomaz Veiga

É impressionante a forma como o MPD se rendeu ideologicamente ao PAIGC. Primeiro, na década de noventa, apesar de estar no poder, permitiu que a ideologia paigcvista ficasse intacta, não lhe deu luta, pelo contrário, permitiu que essa mesma ideologia permeasse todo o ensino nos níveis básico e secundário. O exemplo mais paradigmático é a forma como nos livros de ciências, sim ciências, se fazia a apologia do regime ditatorial, sim ditatorial, que vingou em Cabo Verde nos 15 primeiros anos de Independência. Encontrou-se uma expressão engraçada para caracterizar esses anos de repressão e brutalidade “Construção do Estado”. Ao mesmo tempo, nesses manuais, os anos 90 desapareceram, não existiram, eram um parêntesis na maravilhosa história da ditadura paicevista, um mero acidente na marcha gloriosa do paigc/cv, que retomou o curso normal despois de 2001.

Deixámos que isso acontecesse, não tentámos minimamente desmontar as falácias e a mentira da “construção do Estado”. Entretanto, o Paigv aproveitou a deixa e investiu nas escolas, pregando a sua verdade, o angelismo dos combatentes que passaram todos a ser anjos imaculados, grandes guerreiros, mesmo os que nunca viram uma pistola. Passaram todos a ser grandes heróis e exemplos para os jovens. Todos passaram a ser grandes e imaculados heróis.

O segundo acto está a acontecer agora, sim agora. É só ver o culto dos heróis nacionais, os nossos dirigentes submissos perante os principais responsáveis da ditadura, sim DITADURA do partido único, a atribuição de nomes de avenidas e aeroportos ao primeiro presidente da ditadura do partido único (desconfio que a Guiné Conacry não terá nenhuma rua com o nome de Sekou Touré….), as consultas à Associação dos Combatentes da Liberdade da Pátria, um reduto dos paigecistas mais ferrenhos, a ponto de transformar essa associação paicevista em conselheira sobre assuntos regionais africanos…….entre outras manifestações que me parecem de subserviência e de lavagem de imagem.

O nosso sistema de ensino está a ser alvo directo da investida paicevista. E não é por acaso. Quanto mais cedo se torce o pepino…. Pois, quanto mais cedo se inculcam na cabeça das crianças em idade escolar os mitos paigcvistas, maior é a garantia da perenidade da sua superioridade, sim superioridade e hegemonia ideológica neste país, agora e para sempre…

Vejamos o livro do 6º ano de História e Geografia de Cabo Verde. Começa na capa, onde aparece uma imagem de Amílcar Cabral e as bandeiras antiga e actual de Cabo Verde. Onde é que isso já se viu? Um Manual oficial em que se apresentam duas bandeiras? Chamo a isso SUBMISSÃO. Amílcar Cabral na capa do manual de história e geografia de Cabo Verde? Porquê?  A história de Cabo Verde é várias vezes centenária, não começou com o PAIGC nem com Amílcar Cabral. Ao propor essa capa, estamos a aceitar essa tese absurda de que AC é o pai da nacionalidade. Podem dizer, se quiserem, que AC é o pai da Independência, mas a nossa nacionalidade cabo-verdiana foi construída ao longo de centenas de anos e não esperou por AC e o Paigc para se constituir e manifestar.

A capa do manual dá o tom ao conteúdo. A história de Cabo Verde começa …. Com a criação do PAIGC e a luta de libertação nacional (ou de submissão nacional, talvez), na página 34. Nas páginas anteriores, fala-se de literatura, música, cantigas, festas etc. De história de Cabo Verde, NADA. Podem dizer que no manual do ano anterior esta parte da nossa história foi tratada. Pode ser. Mas ao menos uma síntese, um enquadramento. A descolonização é apresentada praticamente como o ponto de partida da nossa história. Curiosamente o manual omite qualquer referência à inexistência do Paigc como organização em Cabo Verde antes do 25 de Abril. Algumas pessoas diziam-se do Paigc, mas sem qualquer implantação ou impacto em Cabo Verde. A única referência feita é a de que a luta armada não teve lugar em Cabo Verde devido ao aspecto geográfico de Cabo Verde (página 39). Na verdade, o Paigv até pensou enviar uma equipa para lançar a luta de guerrilha em Cabo verde, na esteira das teorias do Foco de Che Guevara, mas teve o bom senso de pôr de lado essa iniciativa. A verdade é que o Paigc não tinha peso nenhum em Cabo Verde aquando o 25 de Abril, mas isso não é dito, para poder manter a auréola dos combatentes que libertaram a Guiné e Cabo Verde.

Na página 40 procura-se dar ainda maior relevo à luta na Guiné dizendo, no capítulo Em Síntese que ..”o Paigc desencadeou a luta armada de libertação, travada durante duas décadas…. “Duas décadas, vinte anos! É só fazer as contas. Que nome se dá a isso? Desinformação, falsidade, não vejo outro.

De seguida são dedicadas 13 páginas ao PAIGC e à primeira República, seguidas de 5 páginas sobre a segunda Repúblicas. O tratamento é totalmente desequilibrado, totalmente enfeudado. E a forma como a segunda República é introduzida é um absurdo completo e sobretudo uma falsidade impressionante. As teses revisionistas do Paicv são retomadas ipsis verbis.

Pergunta-se, qual é a lógica disso? Porque razão se acha necessário descrever com todo o detalhe os símbolos da primeira república, mas não se acha minimamente necessário dizer aos jovens deste país qual foi a verdadeira natureza deste regime! Nem uma palavra sobre a ditadura, a repressão, os abusos, e a tirania do partido único. NADA! E no entanto, o manual estende-se alegremente sobre os grandes heróis que nos deram a liberdade (amordaçados, torturados, vigiados, impossibilitados de expressar opiniões livremente…etc). Nem uma palavra sobre as execuções sumárias que o grande Paigc fez na Guiné logo que tomou o poder, sob responsabilidade de Aristides Pereira, Luis Cabral e seus companheiros de liberdade. Nem as execuções sumárias de centenas de guineenses aquando do assassinato de AC. Curiosamente, quando se fala do assassinato de AC (página 36) , nem uma palavra sobre o facto dos conspiradores serem do …Paigc, a força, luz e guia do nosso povo, etc.

De facto, este manual é um desastre completo. Falsifica a história de Cabo Verde, como se a nossa história tivesse começado em 1956 com a criação do Paigc (esta data de criação do Paigc é contestada de forma fundamentada por Daniel Santos no seu livro, até aí os autores estão cegos pela sua preferência ideológica).  É como se os 15 anos de ditadura e totalitarismo paigcvista não tivessem existido em Cabo Verde. E estamos a falar de manuais produzidos pelo actual Governo de Cabo Verde. Shame on us! Falsifica a nossa história recente por omissão. Nem uma palavra sobre a criação do partido que derrubou, sim derrubou o Paicv; atribui a abertura política à boa vontade do paicv, omitindo completamente a força da movimentação popular que esteve realmente na origem deste processo, entre outras falsificações, distorções e omissões.

Vejamos alguns exemplos das distorções, falsificações e omissões que o Manual apresenta.

Na página 35, Fundação do Paigc. Há dúvidas legítimas sobre a data referida.

Página 36 – Definição de luta armada. Quantas lutas armadas foram feitas para outros fins que não a conquista da independência?

Página 36 – Assassinato de AC. Omissão dos autores do assassinato que eram membros do Paigc. Nem uma palavra sobre a repressão e o fuzilamento de centenas de guineenses que eram do Paigc. É claro que dizer isso iria esmorecer um pouco a coroa de glória do Paigc, por isso, prefere-se mentir por omissão a dizer a verdade.

 Página 37 – diz-se que a “independência de Cabo Verde foi o resultado de um processo longo, marcado pela luta armada, liderada por Amílcar Cabral e pela Revolução dos cravos…” . Para a mente de uma criança de 11 anos, a ideia que fica é que houve luta armada em Cabo Verde, o que é, evidentemente, falso. Aliás, o Paigc praticamente não existia em Cabo Verde como organização minimamente estruturada, mas isso não se pode dizer porque faz mossa ao prestígio dos combatentes.

Nas páginas 42 e 43 discorre-se sobre a LOPE, passa-se sobre brasas sobre as razões que levaram à não aprovação da Constituição em 3 meses, como previsto, aproveita-se para definir de forma errada a República (se fosse a definição indicada na página 42, então Cabo Verde não era uma República porque em 1975 não elegeu livremente e por voto secreto nenhum chefe de Estado), corre ainda mais depressa sobre o famoso artigo 4º da Constituição de 1980, e nada diz sobre a natureza do regime. Não diz que foi uma ditadura do partido único e dos seus dirigentes, não diz que não havia liberdade de imprensa, nem liberdade de criar partidos, nem liberdade de exprimir opiniões livremente, não diz que existia uma polícia política que vigiava os cidadãos, não diz que os tribunais eram dominados por juízes camaradas e que os juízes eram membros do paigc/cv e não havia independência da justiça, etc. A ideia que um jovem de 11 anos fica ao ler o manual é que estava tudo muito bem, a primeira república era uma maravilha.

Na página seguinte fala-se da União Guiné-Cabo Verde de uma forma totalmente acrítica. Nem uma única referência às críticas a este conceito, nem uma palavra sobre as dúvidas dos próprios dirigentes do Paigc (Abílio Duarte, Osvaldo Lopes da Silva, e muitos outros). A unidade Guiné Cabo Verde nunca teve qualquer suporte histórico, sanguíneo, geográfico ou demográfico. Foi um expediente político, genial, é certo, para associar Cabo Verde à luta na Guiné e garantir a presença de um punhado de quadros cabo-verdianos indispensáveis ao prosseguimento da luta armada. Se as razões apresentadas fossem de facto reais, como se explica que em 5 anos tudo tenha ido por água abaixo e com tanta facilidade? Nem uma palavra sobre as enormes tensões entre guineenses e cabo-verdianos dentro do Paigc, que culminaram com o assassinato de Cabral e que estão na origem do golpe de Estado de Nino. A forma como se fala do golpe na mesma página é como se o golpe tivesse surgido do nada. Nada se diz sobre as críticas dos guineenses ao facto de a constituição da GB prever pena de morte mas a de CV não, nem à ocupação dos principais lugares de chefia por cabo-verdianos, nem ao facto de Aristides Pereira o chefe máximo do Paigc residir na Praia como Presidente de Cabo Verde, mas supervisionar do alto a Guiné como chefe do Paigc, e do facto de o presidente da Guiné ser um Cabo-verdiano (Luis Cabral). Nada, apenas que houve golpe. A criança de 11 anos fica esclarecida.

Na página seguinte colocam-se as fotos dos três principais responsáveis do Estado da primeira República com grande destaque. Mas já quando se trata dos principais responsáveis iniciais da segunda república, as fotos não têm a mesma projecção e o Presidente da Assembleia Nacional… desaparece, não existe, não tem cara.

Toda uma página (46) é dedicada ao hino antigo. Metade da página é dedicada à explicação da bandeira.

Em contraste, apenas dois parágrafos são dedicados a explicar o significado da bandeira nacional actual (a bandeira do Estado de Cabo Verde).

Página 47 e seguintes sobre a segunda república. Ao ler esta parte não se encontra nenhuma referência ao MpD como o movimento que conduziu o processo de contestação do qual resultaram as primeiras eleições livres. Ninguém fica a conhecer os principais dirigentes do MpD, nem a importância da movimentação popular que obrigou o Paicv a ceder. Fala-se em atitude reformista do Paicv, mas isso é pura inverdade. Em Fevereiro de 1990 o Paicv, fazendo a leitura do que estava para vir e da pressão interna já existente na altura, declarou-se disponível para algumas reformas que NÃO ENVOLVIAM A ACEITAÇÃO DE PARTIDOS POLÍTICOS, mas apenas associações cívicas ou como se quisessem chamar, nem previa eleições pluripartidárias nos cinco anos seguintes. Foi a pressão do MpD e a movimentação popular que este liderou que obrigou o Paicv a aceitar a realização de eleições na data em que ocorreram. O aluno de 11 anos ficará sem saber que as coisas se passaram desta maneira, porque a cortina de fumo que se lança é demasiado espessa.

O que se passa com este manual não é mais do que a ponta do iceberg, como aliás recentemente denunciou Armindo Ferreira.

E é o Governo do MpD que produz esta magnífica peça de desinformação de crianças de 11 e 12 anos.

Estamos de parabéns.

 

A interacção da Linguagem e do QI médio da população humana

sábado, 17 de abril de 2021

 

O autor Christophe Clavé apresenta-nos neste texto, algumas das causas do empobrecimento da nossa linguagem. Uma delas, a “diminuição do conhecimento lexical” e o enfraquecimento na “formulação de pensamentos complexos”. Um curto e assertivo exercício que interpela professores que estão obrigados pelo seu ofício, a desenvolver a linguagem dos aprendentes.

Vale a pena ler o escrito.

 

 

O QI médio da população mundial  - que vinha aumentando desde o

pós II Guerra até o final dos anos 90 - diminuiu nos últimos vinte anos.

É a inversão do efeito Flynn.

Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos. Pode haver muitas causas para esse fenómeno e uma delas pode ser o empobrecimento da linguagem.

Na verdade, vários estudos mostram que a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem, não se fica apenas pela redução do vocabulário utilizado, mas também, provoca o desaparecimento das subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.

Com efeito, o desaparecimento gradual dos tempos (conjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro,do particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento, e incapaz de projeções no tempo.

Atente-se na simplificação dos tutoriais,(= acções, ferramentas, que o professor pode utilizar no ensino da Língua, da sua gramática e do seu léxico) no desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação, são exemplos de "golpes mortais" na precisão e na variedade de expressão.

Apenas um exemplo: eliminar a palavra "senhorinha" (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, é também, promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.

Quanto menos palavras utilizadas e menos verbos conjugados, significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada, decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras.

 Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.

 A história está cheia de exemplos e muitos livros (Georges Orwell - "1984"; Ray Bradbury - "Fahrenheit 451") contam como todos os regimes totalitários perturbaram sempre  o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.

Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras.

 Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional?

Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro?

Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e a sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

 Caros pais e professores: Façamos com que os nossos filhos,os nossos alunos falem, leiam e escrevam. É dever nosso ensinar e praticar o idioma nas suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Sobretudo se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.

Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, de descartar a linguagem dos seus "defeitos", de abolir  os géneros, os tempos, as nuances. Afinal, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitectos do empobrecimento da mente humana.

Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

 

Autor: Christophe Clavé 

 

https://dasculturas.com/2020/12/20/o-qi-medio-da-populacao-mundial-diminuiu-nos-ultimos-vinte-anos-christophe-clave/

 

 

 

 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

 

A pobreza vocabular...

Este escrito surgiu na sequência da leitura de um texto de Paulo Rónai, “Uma geração Sem Palavras” que me foi enviado por uma amiga, igualmente preocupada com a situação do ensino e da aprendizagem em Cabo Verde

 E a propósito dessa situação, convém frisar que grande parte das insuficiências conceptuais de que são portadores os nossos alunos, e até uma boa parte dos actuais técnicos superiores nacionais, deriva directamente da Escola, quer básica, quer secundária, quer ainda universitária nacional.

Faço-me entender, tenho escutado e ouvido, alguns dos nossos alunos dos anos terminais,  e também alguns  dos actuais Técnicos Superiores nacionais (via TV, rádio e Jornais) e reparo, com muita tristeza que, salvo raríssimas excepções, quase todos eles são portadores de um vocabulário pobre, rudimentar, diminuto em sinónimos e com demais insuficiências vocabulares, o que deixa subentender que não interiorizaram ao longo da formação, conceitos fundamentais que os ajudariam agora, a melhor transmitir a mensagem técnica ou sociológica que pretendem fazer chegar àqueles que os escutam. Exactamente porque  não entenderam os conceitos durante a formação académica, e logo, não souberam descodificar os seus significados.

 Posto isto, teremos de mencionar e de trazer para a “boca de cena,” o professor  que nas escolas secundárias e no ensino superior debita a matéria; grande parte desses docentes não possui  a competente linguagem, substantivamente rica e variada no léxico, que é norma saber-se e saber utilizá-la na sala de aula.

Só assim é que os formandos vão gradualmente tecendo a linguagem conceptualmente elaborada e, deste modo, eles atingem a linguagem dita abstracta e/ou filosófica, que é a etapa linguística a que deve ter acesso o aluno dos anos terminais da escola secundária e durante a frequência do ensino superior.

Na mesma linha, um outro assunto deveras preocupante é a falta de leitura, do conhecimento dos livros que os actuais alunos destas ilhas demonstram e já não são infelizmente,  regra geral - há-de haver excepções -  para isso ( a leitura) incentivados pelos professores.

Torna-se confrangedor - a mim causa-me uma tristeza imensa! - quando os vemos e sabemos deles a frequentar a Universidade e o Politécnico em Portugal.

 Para além da má preparação que daqui levam da língua comum e veicular do nosso sistema de ensino, o português; são também portadores de insuficiências científicas e culturais básicas, não realizadas em etapas graduais de escolarização. 

Resultado: muitos desistem do curso. E assim se desfazem projectos de vida. Uma boa parte já não regressa a Cabo Verde, fica por lá, de empregos precários a desempregado e, a engrossar a imigração, dita clandestina. E não são poucos. Trata-se de um fenómeno que nos últimos dez, quinze anos vem aumentando de ano para ano.

A propósito, abro aqui um pequeno parêntesis para narrar algo que sucedeu comigo. Aqui há tempos, solicitei – via e-mail -  ao Ministério da Educação uma  estatística sobre os alunos cabo-verdianos em Portugal e se sabiam quantos alunos permaneceram nos cursos para que foram destinados e quantos deles desistiram nos dois últimos anos. Uma Técnica gentilmente respondeu-me dizendo que iriam averiguar e que depois me dariam a resposta. Não me enviaram os dados pedidos. Acredito que até nem foi por indelicadeza de não responder, mas sim, porque não fazem ideia da quantidade de formandos nossos que desistiram de prosseguir os estudos superiores em Portugal.  Distingui Portugal pois que é o país que disponibiliza mais vagas para os estudantes cabo-verdianos. Só no ano lectivo 2020/21, a decorrer, seguiram para Portugal mais de 500 (quinhentos) estudantes nossos. Fecho o parêntesis.

Na minha opinião a grande culpa recai no professor, que não vem cuidando e não  tem zelado por uma boa e mais perfeita transmissão de conhecimentos, das matérias e da disciplina que lecciona. A escola cabo-verdiana vem empobrecendo infelizmente o saber, e o saber transmitir conhecimentos.

E se a Educação está numa espécie de derrocada no seu âmago - a escola - muito mal vai o nosso Presente e pior ainda será o nosso Futuro.

Urge reflectir sobre isso!  

quarta-feira, 31 de março de 2021

 

Afro-cepticismo

Infelizmente, e a cada dia que passa aumenta o meu afro-pessimismo.

Aconteceu recentemente, numa conversa animada entre amigos, em que se falou naturalmente da situação actual, isto é, da pandemia que assola o mundo – covid19 - Veio à baila a questão das vacinas. E um dos amigos observou que todos os grandes Continentes: América, Ásia e Europa, já produziram  vacinas, para debelar o vírus. Excepto o Continente africano, onde grande parte dos países está dependente da ajuda internacional nesta matéria.

Uma vergonha!  Foi o comentário geral.

Se pensarmos, por exemplo, que a Nigéria, um grande país, cheio de recursos, independente desde 1960 – há sessenta anos - nada produziu neste particular. Compare-se a diferença  nesta matéria com a Índia, outro grande país, e que já é produtora de uma das vacinas contra o covid. Não quero aqui colocar a Àfrica do Sul que partiu como todos sabemos, de outro patamar de desenvolvimento.

África  está constantemente nas páginas do jornais e, regra geral, sempre por más notícias Por um lado, são as roubalheiras do erário e do património público pelos seus Presidentes e os seus altos Dirigentes, os quais, mercê disso, são no geral, os homens e/ou as mulheres mais ricas do planeta merecendo, não poucas vezes, honras nas páginas da revista «Forbes» ao lado ou, mesmo à frente de multimilionários da Europa, da Ásia, ou da América.

Por outro lado, são as estatísticas que nos informam que é neste Continente que  se encontra a população mais pobre do mundo, mais famélica, mais analfabeta, mais doente, com menos esperança de vida. Logo, é também no continente africano onde se encontra o maior número de países nada recomendáveis a forasteiros por serem zonas de alta insegurança. Para além disso, são os Golpes e contra-golpes de Estado...e por aí fora, segue-se um rosário de calamidades humanas a que se juntam também catástrofes naturais.

Estas últimas - não são  culpa dos humanos -  mas quando acontecem, os governos dos países atingidos, estendem logo a mão a pedinchar, por vezes sem um pingo de dignidade, à caridade internacional ocidental.

 Lembremo-nos do que se passou recentemente na Guiné Equatorial cujo Presidente da República está na lista dos homens mais ricos de África. A sua representação diplomática na Europa, iniciou ultimamente, um peditório para acudir às vítimas das explosões de paóis no país.  Um Peditório!? ...Onde pára a dignidade desses Estados?

Outra questão que deve interpelar a todos é a questão da emigração clandestina que parte do Continente africano, em demanda da Europa, pelo mar mediterrâneo, em condições infra-humanas. Enviam sem qualquer atenção ou responsabilidade crianças não acompanhadas. Assunto a que o Governo de origem, de onde partem as barcaças, sem quaisquer condições, nem quer tomar conhecimento, não presta sequer atenção e muito menos fazer alguma coisa para que o obste.

 Uma migração que já divide a Europa em “bons” e maus” acolhedores dos migrantes; que causa profunda clivagem social e humanitária, entre os habitantes  dos países de acolhimento em termos de aceitação e de rejeição desses imigrantes, entre outras situações dramáticas...

 Segundo afirmou Kamel Daoud, argelino, combatente por um Islão iluminista - retirado do “Blog”  «Bigorna» - “(...) a pergunta que devemos colocar a nós próprios não é: porque sou mal acolhido; mas é: porque parto? Porque deixo a minha terra?” Fim de transcrição.

Com efeito, se se equacionasse nessa perspectiva, “porque parto,” porque sou sou obrigado a deixar a minha terra? Que governos são esses que não olham para o bem estar da sua população e só governam a pensar em amealhar, para si próprios, ao invés de desenvolver o país?...

Talvez se devesse fazer - entre a comunidade pensante africana - uma abordagem deste tipo e assim nas urnas se punissem aqueles altos responsáveis africanos que fazem de conta que estas tragédias humanas não estão a acontecer nos seus países. Talvez assim, gerissem e governassem melhor...

Infelizmente, o subdesenvolvimento africano já ganhou foros de endémico.

Trata-se afinal, de uma grande indignidade, de uma enorme vergonha para os seus cidadãos, ter de pertencer e de viver em países independentes há mais de cinquenta anos e alguns deles, em pior estado do que quando a potência colonial os deixou (?)... 

Voltando à questão das vacinas, ei-los, os países africanos, quase todos, que já se perfilam para quê? Para pedir ajuda dos parceiros internacionais que lhos doem as vacinas. E o que estamos a presenciar? Que os países africanos vão ficando na “cauda” dos atendidos nesta pandemia, porque os governantes ficam à espera de “sobras”  ofertadas de vacinas.

Enfim! Sem comentários alongados.  Esta é a triste situação de quase todo o Continente africano.

Daí que a chamada de atenção  do nosso amigo, para a triste particularidade de África, como sendo o único grande continente que não produziu  até esta, qualquer tratamento ou vacina, para a covid-19, faça sentido e tenha sido pertinente porque nos fez a todos pensar nesta triste realidade do Continente menos desenvolvido do globo.

quarta-feira, 24 de março de 2021

 


De novo e sempre a propósito, uma análise de Nuno Pacheco, escritor e Jornalista, sobre duas, das ricas variantes da Língua portuguesa. No caso presente do texto, a variante de Portugal e a variante do Brasil, e de como o Acordo Ortográfico baralhou e causou estragos, sobretudo, na variante europeia da Língua portuguesa.


E assim, com a devida vénia ao Autor, aqui registámos para o leitor do «Coral Vermelho»  esta interessante abordagem de um tema que ainda lança imensa polémica.




Até o Spotify passou a “falar” português europeu

Nuno Pacheco

Nem de propósito. No mesmo dia em que era publicada a minha crónica anterior, dando conta da edição em Portugal de uma colecção do Snoopy em português do Brasil, sem qualquer aviso a explicar tal opção, chegava a notícia de que a plataforma de distribuição de música Spotify ia ter 36 novos idiomas, incluindo “oficialmente o Português Europeu”. Note-se que entre os 25 antes disponíveis o Spotify incluía o “Português do Brasil (Brazilian Portuguese)” mas também duas variantes do espanhol (“Spanish” e “International Spanish”) e duas do francês (“French” e “Canadian French”), acrescentando agora ao chinês nova variante, o “Simplified Chinese”. E assim somam quatro línguas com duas variantes cada, incluindo o “Portuguese for Portugal”!

Nada disto é estranho. Estranho é que se continue a insistir numa uniformização ortográfica do português, ignorando que, mesmo que tal fosse possível (e não é), de nada adiantaria face ao resto, ou seja, às diferenças naturais que cada cultura imprimiu ao uso, oral e escrito, do idioma comum. É curioso, por exemplo, que na citada edição do Snoopy (com as tiras traduzidas em português do Brasil), os textos introdutórios tenham um lote de palavras que, mesmo aplicando o malfadado Acordo Ortográfico de 1990, continuam diferentes cá e lá. Comecemos pelas que passaram a ser iguais na escrita: diretor, ótimo ou trajetória. E agora as outras: fato, contato (facto e contacto em Portugal), tênis, bebê, polêmica, platônica, fenômeno, icônicos (aqui diferentes na acentuação), dezesseis (dezasseis, na grafia portuguesa) ou características, aspecto, perspectiva e acepção, que eram iguais nos dois países, mas que o AO90 obrigou Portugal a alterar para caraterísticas, aspeto, perspetiva e aceção. Que belo serviço à unidade do idioma!

O cinema é outro exemplo de que, mesmo com reformas ortográficas, a distinção entre o uso do idioma em Portugal e no Brasil se mantém e manterá, saudavelmente, já que só assim ganham identidade em cada um dos países as dobragens ou legendagens de filmes estrangeiros. Já aqui se falou disto, no passado, com vários exemplos. Mas podemos fazer um outro exercício, usando dois vídeos de filmes com uma característica rara: dobragem (dublagem, no Brasil) em português brasileiro e legendas no português europeu pré-AO90.

Um deles é o DVD de 6 Dias, 7 Noites, de Ivan Reitman, comédia com Harrison Ford e Anna Heche. Ainda no genérico, na cena do jantar entre Frank e Robin, ouve-se este diálogo entre ambos: Ela: Será que dá pra dizer o que está tramando? Ele: É somente parte da surpresa. Ela: Não vai terminar tudo, vai? Ele: Nós não vamos terminar. Ela: Tá legal. Ele: Sabe o que é que eu quero? O que eu quero mesmo é incrementar o romance. E nas legendas lemos isto: Ela: O que andas a tramar? Ele: Faz tudo parte da surpresa. Ela: Queres acabar comigo? Ele: Nós não estamos a acabar. Pelo contrário, eu pretendo aumentar o romantismo das nossas vidas.” Já com a edição francesa em UHD-4K de Drácula, de Francis Ford Coppola, podemos fazer idêntico exercício. A dada altura, Renfield (Tom Waits) diz, na dobragem: Eu fiz tudo o que me pediu, Mestre. Mestre, eu estou aqui! Eu idolatro o Senhor! E nas legendas lemos: Fiz tudo o que pediste, Amo. Amo, estou aqui! Tenho-te venerado! Quando Jonathan (Keanu Reeves) e Mina (Winona Ryder) se encontram no jardim, trocam estas palavras: Ela: Jonathan, eu amo você. Ele: Eu amo você, Mina. E nas legendas: Ela: Jonathan, amo-te. Ele: E eu a ti, Mina.

O cinema é um exemplo de que, mesmo com reformas ortográficas, a distinção entre o uso do idioma em Portugal e no Brasil se mantém e manterá

O mesmo sentido, a mesma língua, mas dois mundos bem distintos nas expressões da fala. Aceitar isto é essencial para que nos entendamos nas nossas diferenças.

É o que fazem, para dar dois bons exemplos, editoras como a Tinta da China ou a Companhia das Letras. A primeira edita os livros de Ruy Castro sem mexer no original brasileiro, mas escrevendo as badanas em português europeu pré-AO90; o mesmo fazem as edições portuguesas da brasileira Companhia das Letras, mantendo intacta a escrita de Chico Buarque, cuja obra tem editado em Portugal.

E há ainda outro exemplo, digno de nota: no excelente Livros Que Tomam Partido (1968-1980), do investigador brasileiro Flamarion Maués, o editor português (Parsifal) não tocou na escrita do autor, em português do Brasil, mas manteve o português europeu pré-AO90 nos excertos (citados) de obras editadas em Portugal e nas “entrevistas e depoimentos prestados por fontes portuguesas”. Se todos agissem com tais escrúpulos, o “acordês” seria já escrita morta.



 Jornalista. “Público” de 18.03.2021

Candidaturas e Candidatos

sábado, 20 de março de 2021

 

Dentro de pouco menos de um mês teremos as eleições legislativas no País e cerca de seis meses depois, as presidenciais.

Assistimos a uma corrida desenfreada para lugares nas listas dos principais partidos – o pessoal a pôr-se em bicos dos pés.

É também uma oportunidade normalmente utilizada pelos líderes partidários para se desembaraçarem dos deputados incómodos – os que não dobraram a cerviz durante a legislatura a findar ou ousaram apontar com insistência outros caminhos.

Tudo isto porque os partidos políticos deixaram de ser instituições com um bem definido projecto de sociedade, com princípios e valores, uma plataforma do exercício da liberdade e da democracia  – pelo menos interna – onde impere, designadamente, o trabalho político e a meritocracia, para se transformarem numa associação com fortes indícios de autoritarismo em que o mais importante não é o mérito, a competência, o trabalho realizado, mas a fidelidade (não a exigível lealdade) ao líder e a expressão contida ou mesmo condicionada dos militantes.

Por outro lado, há, nestas ocasiões, um movimento de activistas de bem definidas áreas sociopolíticas que não conseguindo cativar um lugar no partido da sua simpatia e sedentos de protagonismo se oferecem, por vezes, com alguma jogada chantagista de permeio, a um outro partido de diferente ideologia programática ao “vender-se” como um grande e disputado quadro e, “comprado” com o rótulo de uma grande aquisição usando o eufemismo de “conquista”, ignorando de todo o seu pensamento político – se o tiver – e fazendo tábua rasa de todo o seu comportamento e posicionamento como cidadão e como activista.

A natureza de “movimento” esteve sempre na génese e na acção dos nossos dois maiores partidos. Um saco onde cabiam todos os pensamentos e todos os projectos de sociedade.

Enquanto o mais antigo cumprindo a sua tarefa, primeiro, de movimento, depois de movimento armado – absolutamente necessário aos objectivos que perseguia – já se afirmou, em tempo de democracia, como um autêntico partido, o mais novo, passados trinta e um anos após a sua fundação, não obstante o estatuto de partido que formalmente ostenta, ainda tem no seu comportamento e na sua dinâmica todas as características de movimento, o que lhe confere uma enorme permeabilidade e aberta porosidade dando lugar a infiltrações várias, descaracterizando-o com a afirmação de tendências – uma ou outra dominante – que lhe são espúrias.

É neste quadro de descaracterização e falta de identidade própria que um candidato às presidenciais que devia ser natural e apoiado antes da sua candidatura oficial é hoje ignorado pelo partido que fundou, e em seu benefício apenas um envergonhado comentário pessoal do líder desse partido de “bom ou excelente candidato” quando se esperava algo definitivo e conciso previamente anunciado como: “se ele se candidatar é óbvio que tem o apoio inequívoco do partido”. Isto não aconteceu e reflecte a essência de um movimento sem identidade que menospreza os seus próprios militantes. Um movimento que parece não saber de onde vem nem o que é, e, por isso, não pode saber para onde vai ou quer ir.

O facto de as candidaturas presidenciais serem de cidadania e apartidárias não significa que não possam ser apoiadas por forças políticas devidamente organizadas ou partidos políticos.

Quem não se lembra de há cerca de dez anos, sendo líder do movimento um dos actuais protocandidatos, um militante com currículo, porque fora Presidente da Assembleia Nacional, ter sido preterido em favor de um não militante, ou melhor, de um “militante” de uma outra organização política, pelo próprio partido através de uma absurda e descabida encenação?

A situação de então foi bem mais vergonhosa e absurda do que a actual que sugere que “quem com ferros fere com ferros será ferido”.  Esperemos todos que isto não passe de sugestão e que nunca mais volte a acontecer!...

E que não se tenha a peregrina ideia de “inventar” mais um candidato de “peso” e submetê-los de novo a eleições internas dividindo artificialmente o eleitorado.

Ainda está bem patente na memória de todos as consequências de dois proeminentes militantes de um mesmo partido disputarem o mesmo universo de eleitores!

Aprendamos sempre com os erros – nossos e dos outros!...

AF