quinta-feira, 6 de maio de 2021

 

Por achar com interesse para o Leitor do Coral Vermelho, tomei a liberdade – com a devida vénia à autora Sandra Duarte Tavares, Linguista portuguesa -  de publicar este conjunto de erros cometidos – com alguma frequência -  em português e, que como diz a autora: “ (...)mancham a nossa  imagem e podem fazer-nos perder, em poucos segundos um bom emprego (...)”

Aprende-se sempre. E isso é muito bom!

 

 

Sempre que cometemos um erro ortográfico ou gramatical, seja em contexto pessoal ou profissional, podemos ser alvo de troça ou discriminação por quem nos rodeia. Erros linguísticos como “tu fostes à reunião?”, “foi uma perca de tempo”, “houveram pessoas que faltaram”, “ninguém se absteu” não só mancham a nossa imagem, como também podem fazer-nos perder, em poucos segundos, um bom emprego, um bom negócio e até um relacionamento!

A competência linguística, associada ao domínio da comunicação oral e escrita, assume, inequivocamente, um valor sociocultural relevante, promovendo cada vez mais aceitação, credibilidade e prestígio social.

Vejamos, então, quais os 10 erros linguísticos que, do meu ponto de vista, podem manchar a nossa imagem pessoal profissional.

ERRO 1: p[ó]ssamos

Forma correta: possamos

As formas verbais da 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo são graves, ou seja, o acento tónico recai na penúltima sílaba: tenhamos, sejamos, possamos.

ERRO 2: a gente vamos

Forma correta: a gente vai

Na expressão a gente, o verbo deverá estar sempre no singular, em concordância com essa expressão.

ERRO 3: houveram pessoas

Forma correta: houve pessoas

Sempre que é verbo principal, o verbo haver só se conjuga na 3.ª pessoa do singular, porque é um verbo impessoal (há, houve, havia, haverá, haveriahaja…).

ERRO 4: ele interviu

Forma correta: ele interveio

O verbo intervir conjuga-se como o verbo que está na sua base – o verbo vir: ele veio; ele interveio.

ERRO 5: vocês ha dem

Forma correta: vocês hão de

O paradigma de conjugação do verbo haver no presente do indicativo é: eu hei de, tu hás de, ele há de, nós havemos de, vós haveis de, vocês / eles hão de.

ERRO 6: faria-o, se possível

Forma correta: fá-lo-ia, se possível

No futuro do indicativo e no condicional, os pronomes pessoais complemento (-me, -te, -o, -lhe…) colocam-se em posição mesoclítica, isto é, no meio do verbo, antes das terminações de tempo e pessoa.

ERRO 7: como deve de ser

Forma correta: como deve ser

Ao contrário do nome dever, o verbo dever não requer a presença da preposição de.

ERRO 8: à muito tempo, à 1 semana

Forma correta: há muito tempo, há uma semana

A forma verbal  (verbo haver) pode assumir um valor temporal, podendo ser substituída pela forma verbal faz: faz muito tempo, faz 1 semana. Tem um valor durativo no passado.

ERRO 9: tu fostes

Forma correta: tu foste

A forma verbal correspondente à 2.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo ir ou ser é foste. A forma verbal fostes corresponde à 2.ª pessoa do plural: vós fostes.

ERRO 10: Derivado a um vírus

Forma correta: Derivado de um vírus / devido a um vírus

A palavra derivado é acompanhada da preposição de (tal como o verbo derivar); a palavra devido é acompanhada da preposição a (tal como o verbo dever-se).

ERRO 11: Orgão 

Forma correta: órgão 

Esta palavra leva acento agudo sobre a vogal «o». As palavras graves terminadas em «ão», como sótão, órfão, bênção, são sempre escritas com acento gráfico, porque o seu acento tónico recai na penúltima sílaba. 

Importa referir que o til não é um acento gráfico, mas sim uma marca de nasalidade, indicando vogais nasais (ex. lã) ou ditongos nasais (ex. coração). Muitas vezes, este ditongo coincide com a sílaba tónica (como é o caso de paixão), porém, nalguns casos, pode não coincidir com o acento tónico, de que orégãos é exemplo.

ERRO 12: Rúbrica 

Forma correta: Rubrica 

A palavra rubrica tem o seu acento tónico na penúltima sílaba (bri) e escreve-se sem qualquer acento gráfico, seja qual for o seu significado: “assunto, apontamento, matéria”, “programa radiofónico ou televisivo” ou “assinatura abreviada”. 

Tendo a sua origem no latim rubrica, estava relacionada com o adjetivo rubrus (vermelho) e designava a terra ou argila vermelha que se usava para escrever os títulos dos livros antigos e dos manuscritos medievais. 

Deve, assim, usar-se a palavra grave rubrica para todas as aceções.

ERRO 13: Saiem 

Forma correta: Saem 

A forma verbal saem corresponde à 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo do verbo sair e grafa-se sem qualquer «i» entre a vogal «a» e a vogal «e». A inserção da vogal «i» ocorre na oralidade (e com implicação na escrita) com o objetivo de estabelecer a ligação entre as duas vogais em hiato (encontro de duas vogais que não formam ditongo). 

ERR0 14: Mau-estar

Forma correta: Mal-estar 

A palavra composta mal-estar é formada pelo advérbio mal e pelo nome estar. O seu antónimo é bem-estar. 

ERRO 15: Previlégio 

Forma correta: Privilégio 

A palavra privilégio escreve-se com «i» na primeira sílaba, pois provém do latim privilegiu. Essa vogal é frequentemente articulada como [e] devido a um processo fonológico designado dissimilação: um determinado som perde propriedades fonéticas que tem em comum com um som vizinho, diferenciando-se dele. 

ERRO 16: Alcoolémia

Forma correta: Alcoolemia 

A palavra alcoolemia pronuncia-se com «e» fechado e escreve-se sem qualquer acento gráfico. Na sua formação entra o elemento -emia, que é um radical de origem grega que 

exprime a ideia de sangue. Este elemento entra na composição de várias palavras, como anemia, leucemia, glicemia, toxicemia. Trata-se de palavras graves, cuja sílaba tónica é a penúltima (mi), pelo que não devem ser escritas com qualquer acento gráfico. 

ERRO 17: Ciclo vicioso 

Forma correta: Círculo vicioso 

O adjetivo vicioso está relacionado com o nome vício e entra na combinatória «círculo vicioso». Esta expressão designa uma sequência de acontecimentos ou situações que se repetem sucessivamente e se reiniciam, havendo um impasse na sua resolução. 

ERRO 18: Despoletar 

Forma correta: Espoletar / Desencadear 

O verbo despoletar é derivado por prefixação a partir do verbo espoletar. Provêm ambos da terminologia militar e passaram a fazer parte da linguagem corrente. O verbo espoletar, que significa originalmente “pôr a espoleta em, fazer deflagrar a granada”, passou a significar também “desencadear uma ação”. O verbo despoletar, por sua vez, tem o significado de ação contrária de espoletar (“tirar a espoleta a, travando ou impedindo o disparo de”) e passou, por força do uso linguístico, a substituir o verbo espoletar, veiculando o significado desse verbo: “deflagrar, desencadear uma ação, fazer surgir repentinamente”, com base no valor de reforço do prefixo des- (presente em palavras como desinquieto, destrocar, desandar). 

Ainda que tenha assumido esse significado, desaconselha-se o seu uso como sinónimo de desencadear em registo formal.

O que podemos fazer para eliminar de vez estes e outros erros que mancham a nossa imagem? Devemos ler muito (e bem!) para que sejamos expostos à palavra bem escrita. Tal como a leitura, a consulta de dicionários é também uma prática que deve ser regular no nosso dia a dia, sempre que tivermos alguma dúvida na grafia e significado de uma palavra.

Assim, se pretendemos projetar uma imagem pessoal e profissional credível, a nossa comunicação deve ser clara, relevante e, sobretudo, deve ter um elevado padrão de excelência linguística.

  

 erros portuguêsLíngua PortuguesaSandra Duarte Tavares

 


 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

 

 

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

Hoje, 5 de Maio, celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A data foi criada, primeiro, como Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa a 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, decorrida na cidade da Praia, Cabo Verde. O ano passado, em 2020, a Unesco elevou a Língua Portuguesa a Língua Mundial. 

Pois bem, 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa e da Cultura, pela CPLP, já é celebrada em 44 países, em redor do mundo..

 Porém, são oito os países onde se fala se escreve e se ensina  a Língua comum. A saber: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, integrantes da CPLP. Povos que a têm como Língua materna e/ou Língua oficial.

Convém acrescentar que a Guiné –Equatorial, país cujos habitantes não se exprimem em português, é actualmente membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Terá de fazer o seu caminho na senda da  integração da Língua portuguesa nos seus currículos escolares.

Mas anos após anos, vem aumentando a difusão da Língua portuguesa, numa procura interessada e alargada, de vários países do mundo que se aperceberam da importância e do valor global da nossa Língua comum. De entre os exemplos de maior procura da Língua portuguesa, situa-se a China, país, onde a leccionação do português está inserida em várias universidades.

Cabo Verde tem-na como Língua veicular do ensino e como Língua Oficial. É um facto. A Língua portuguesa é o veículo Linguístico  que  conforma  toda a documentação nacional escrita. A de ontem e a de hoje. É a nossa Língua de conhecimentos tecnológicos, científicos e literários. É também a nossa Língua de comunicação, ao lado do Crioulo que dela descende em larga medida e em permanência alimentado pela Língua comum, o já considerado, crioulo escolarizado, que é frequentemente veiculado oralmente na Comunicação social nacional, pelos técnicos e pelos quadros de diversas áreas do país.

 Para além de a Língua Portuguesa, ter sido a primeira Língua que ouviram os pássaros e as rochas destas ilhas atlânticas, aquando da chegada dos navegadores e os dos marinheiros portugueses a 1 de Maio de 1460, conforme os registos históricos elaborados e mais coevos, da descoberta das ilhas do Arquipélago de Cabo Verde.

Daí que saudamos com alegria e com afecto o  Dia 5 de Maio!

 Dia Mundial da nossa querida Língua!

 

 

 

sábado, 1 de maio de 2021

 

 

"Quando e por quem terá sido descoberto o arquipélago de Cabo Verde?"

Assim interroga Félix Monteiro,(1907-2002) nesta notável conferência, aqui transcrita e proferida a 1 de Maio de 1960, no salão nobre da Câmara Municipal da Praia, inserida nas comemorações do Meio Milénio do achamento das ilhas de Cabo Verde.

Leia caro leitor, e delicie-se com este verdadeiro labor de pesquisador probo e de estudioso empenhado, que foi Félix Monteiro, na consulta de  documentos, de crónicas e de registos históricos da época (séc.XV) e respeitantes à descoberta destas ilhas atlânticas.

 

 

O Achamento de Cabo Verde

Por Félix Monteiro[i]

Quando e por quem terá sido descoberto o arquipélago de Cabo Verde?

As fontes conhecidas não permitem chegar a conclusões seguras, nem quanto ao nome do navegador que primeiro aportou a estas ilhas, nem quanto à data do seu descobrimento, ou simples achamento.

Os documentos oficiais mais antigos que se referem ao arquipélago, as cartas régias de 3 de Dezembro de 1460, 19 de Setembro e 29 de Outubro de 1462, todas de doação ao Infante D. Fernando, irmão do rei D. Afonso V, testemunham porém que Santiago, Fogo, Maio,  Boa Vista e Sal foram descobertas pelo navegador genovês Antonio de Noli ainda em vida do Infante D. Henrique, portanto antes de 13 de Novembro de 1460, enquanto que as restantes o foram por Diogo Afonso, antes de 19 de Setembro de 1462, mas depois da morte de D. Henrique.

Estes dois navegadores foram, sem dúvida, na sua qualidade de descobridores do arquipélago, os primeiros capitães-donatários da ilha de Santiago, a qual, para o efeito, ficou dividida em duas capitanias: a de Alcatrazes, ao Norte, e a da Ribeira Grande, ao Sul.

Não se conhecem outros documentos oficiais coevos que possam levar a conclusões diferentes. Pelo contrário: ainda em 1497 Antonio de Noli, já então falecido, continuava sendo oficialmente considerado o descobridor da ilha de Santiago. Comprova-o a carta régia, de 8 de Abril desse ano, de doação condicional da capitania da Ribeira Grande a sua filha, e sucessora, Branca de Aguiar, em que se diz expressamente, a justificar a transmissão, que «o dito António foi o primeiro que a dita ilha achou e começou de povoar».

A capitania de Alcatrazes, por sua vez, e em parte pelas mesmas razões, passou, por morte de Diogo Afonso, primeiro para seu filho João, depois para o seu sobrinho Rodrigo.

Os referidos documentos não registam a data do descobrimento ou, em certos casos, simples achamento, mas, quanto aos meses e dias respectivos, tudo leva a crer, como aliás o admitem alguns escritores, que coincidem com os consagrados pela Igreja aos santos com cujos nomes foram baptizadas as ilhas.

Assim: Santiago, S. Filipe (hoje Fogo) e Maio teriam sido achadas, mas nem todas visitadas, no primeiro dia de Maio; S. Nicolau e Santa Luzia teriam sido descobertas nos dias 6 e 13 de Dezembro, enquanto que, a Santo Antão e S. Vicente, Diogo Afonso teria chegado nos dias 17 e 22 de Janeiro, respectivamente, sendo certo que as quatro seriam avistadas, se não no mesmo dia, pelo menos no princípio de Dezembro, dada a pequena distância a que ficam umas das outras.

As ilhas da Boa Vista e do Sal primeiro chamadas de S. Cristóvam e Lhana, talvez tenham sido achadas em 24 de Julho, na viagem de regresso do Continente Africano.

A carta de 3 de Dezembro de 1460, de doação das cinco ilhas cujo descobrimento veio a ser oficialmente atribuído a Antonio de Noli na de 19 de Setembro de 1462, contém informação de que as mesmas já haviam sido doadas, com todas as rendas, direitos e jurisdições, ao Infante D. Henrique, ignorando-se contudo, se chegou a ser lavrado o competente diploma de doação.

Por outro lado, julga-se saber que D. Henrique, em carta datada da Vila do Infante em 18 de Setembro de 1460, de que só se conhece uma cópia muito antiga, é certo, mas não coeva, doara a D. Afonso V a temporalidade das ilhas de Cabo Verde.

Daí admitir-se ser pouco provável que as ilhas só tenham sido descobertas em 1460, tanto mais que, a partir de 1444, com a ultrapassagem do cabo Verde, passaram a ser frequentes as viagens nos mares vizinhos do arquipélago.

 

Aventou-se mesmo a hipótese de uma das ilhas ter sido descoberta em 1445 pelo navegador Vicente Dias, que nesse ano tomou parte na Grande Expedição às ilhas de Arguim, comandada por Lançarote.

Reforça tal hipótese, se é que a não inspirou, o facto de o cartógrafo veneziano Andrea Bianco, que em 1448 passou por Lagos, a caminho da Inglaterra, ter representado, na carta que vinha preparando e ficou concluída nesse ano, uma ilha em parte semelhante, na sua configuração, à de Santiago, situada junto do Continente Africano, talvez a 500 milhas a sudoeste do cabo Verde.

Nessa carta se diz que a ilha é autêntica, naturalmente para não ser confundida com as ilhas lendárias do Atlântico – as Afortunadas, as Hespérides ou Gorgónidas, etc.

Provou-se mais tarde que a caravela de Vicente Dias ainda se encontrava junto do Senegal quando se desgarrou das restantes, e que só esteve separada do grupo durante um dia, tempo insuficiente para se aproximar do arquipélago de Cabo Verde a ponto de avistar qualquer das suas ilhas.

Sabe-se, no entanto, que algumas das caravelas da Grande Expedição de Lançarote fizeram o reconhecimento das ilhas próximas do cabo Verde, habitadas por jalofos. Notícia que, possivelmente, levou alguns escritores a afirmarem que as nossas ilhas, que distam cerca de 500 quilómetros desse cabo, já eram habitadas por jalofos quando foram descobertas pelos portugueses.

Outra hipótese que consta estar sendo analisada com todo o rigor da historiografia moderna, mas essa referente a viagens anteriores à era henriquina, é a da descoberta de Cabo Verde pelos árabes no século XII, seguida, no século XIV, de viagens de navegadores muçulmanos às ilhas do Sal e da Boa Vista, aonde iriam buscar sal.

Na verdade, pretende-se terem sido encontrados, no estrangeiro, documentos que parece levarem a essa conclusão, mas o certo é que até hoje não foram descobertos em Cabo Verde nenhuns vestígios arqueológicos que possam comprovar qualquer ocupação anterior à promovida pelos portugueses em 1461/1462.

O naturalista francês Auguste Chevalier, no entanto, consultou e registou o parecer de um orientalista que admite serem de origem rúnica, ou azenegue, as inscrições rupestres que fotografou no Penedo da Janela, na ilha de Santo Antão, e que julga serem anteriores à ocupação portuguesa.

Por outro lado, Teodoro Monod, da equipa de cientistas do Instituto Francês da África Negra, sustenta que na costa ocidental da África não há vestígios de navegação de alto mar anteriores ao século XV. O que, de certo modo, relativamente aos azenegues, é confirmado pelo testemunho de Cadamosto, segundo o qual «quando viram as primeiras velas, ou navios sobre o mar, creram que fossem pássaros grandes com asas brancas, que voassem».

Estas e outras hipóteses são todas relativamente recentes, visto que, até há cerca de cem anos, e desde a publicação do Relato das Viagens de Cadamosto, em 1507, portanto durante mais de três séculos, foi este navegador veneziano considerado o descobridor das ilhas de Cabo Verde. É que, no seu relato, Cadamosto afirma ter aportado às ilhas de Boa Vista e de Santiago no ano de 1456, o que só em 1844 veio a ser contestado, como veremos a seu tempo.

Outro navegador que também se intitulou de descobridor de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de Santiago, foi Diogo Gomes, a julgar pelo conteúdo de um manuscrito coevo descoberto na Biblioteca de Munich em 1868.

Nesse documento Valentim Fernandes fez constar de facto que a prioridade da descoberta das ilhas teria sido reivindicada por Diogo Gomes, de quem Martinho da Boémia diz ter ouvido o relato da viagem em que, regressando da costa africana a Portugal, acompanhado de António de Noli, «viram ilhas no mar».

Segundo Martinho da Boémia, Diogo Gomes teria contado a história desta maneira:

«Eu e António da Noli deixamos o porto de Zaia e navegamos dois dias e uma noite para Portugal e vimos algumas ilhas no mar, e como a minha caravela era mais veleira do que a outra, abordei eu primeiro a uma daquelas ilhas, e vi areia branca e pareceu-me um bom porto, e ali fundeei e o mesmo fez António, disse-lhe eu que desejava ser o primeiro a desembarcar e assim fiz e não vimos rastos de homens e chamamos a ilha de Santiago por ser descoberta no dia do santo… Depois fomos à ilha da Madeira e querendo ir para Portugal por causa do vento contrário fui parar às ilhas dos Açores, António da Noli esperou na ilha da Madeira e com melhor tempo chegou antes de mim a Portugal e pediu ao rei a capitania da ilha de Santiago que eu tinha descoberto e o rei lha deu, e ele a conservou até a sua morte».

Quando se teve conhecimento da existência desse manuscrito, de que o escritor Henry Major reproduziu alguns trechos no livro que escreveu sobre o Infante D. Henrique, julgou-se resolvido o problema da descoberta destas ilhas. Para muitos, confirmava-se que o arquipélago foi descoberto no primeiro dia de Maio de 1460, como se depreende das primeiras cartas de doação das ilhas, do mesmo passo que se provava ser falso o relato de Cadamosto na parte relativa a Cabo Verde.

Vários historiadores, porém, contestam hoje a reivindicação de Diogo Gomes, alegando que lhe seria fácil provar, na altura própria, terem sido ele e António de Noli, conjuntamente, os descobridores de Cabo Verde, e não apenas este, como se fez constar nos documentos oficiais.

Bastaria, para isso, invocar o testemunho da tripulação das caravelas respectivas. Para mais, dada a sua qualidade de português, e sendo pessoa da confiança do Infante D. Henrique, de quem havia sido moço de câmara, teria conseguido fazer rectificar a doação a favor de António de Noli, se é que este, no seu relato, omitiu o nome de Diogo Gomes.

O assunto tem apaixonado os historiadores contemporâneos, sendo, porém, mais numerosa a falange que contesta a reivindicação de Diogo Gomes.

Assim, enquanto que uns apontam a sua modéstia, a sua simplicidade e sobretudo o seu desinteresse, outros alegam que as capitanias de Santiago, por certo «mais fatigantes que rendosas», ao tempo, não o teriam tentado, motivo por que teria preferido, como recompensa, o almoxarifado de Sintra.

Também há os que, pura e simplesmente, consideram o relato respectivo cheio de inexactidões e falsidades.

Compreende-se, pois, que, no pedestal do monumento a Diogo Gomes, inaugurado nesta cidade em 1957, se tenha escrito prudentemente que este navegador foi um dos que primeiro visitaram estas ilhas.

Esse monumento, por mero acaso, foi implantado num miradouro sobranceiro à Calçada de acesso à cidade, a que possivelmente se deu o nome de Diogo Gomes quando este célebre navegador passou a ser considerado o descobridor de Cabo Verde. Na placa respectiva se diz que foi ele quem descobriu esta ilha, no primeiro dia de Maio de 1460.

Temos assim representada, na toponímia local, a controvérsia ainda reinante entre historiadores portugueses.

É curioso verificar-se que a incerteza dos nossos historiadores no que concerne à descoberta de Cabo Verde não é compartilhada pelos seus colegas italianos, que não hesitam em afirmar categoricamente que as ilhas foram descobertas em 1456 pelo navegador veneziano Aloísio Cadamosto. Coerentes com o seu ponto de vista, os italianos até comemoraram em 1956 o V centenário de Cabo Verde, a julgar pela notícia da publicação, pela Biblioteca Nacional Marciana de Veneza, entre outros, de um volume da sua colecção «Navegadores Venezianos Quatrocentistas e Quinhentistas».

Referindo-se a essa obra, o ilustre Secretário-Geral da Sociedade de Geografia de Lisboa esclareceu, no número de Outubro a Dezembro de 1957, do Boletim respectivo, que «desta feita – palavras textuais – trata-se de comemorar o V Centenário da Exploração Atlântica de Alvise da Mosto (Cadamosto), ou seja, no dizer, entre nós discutido, dos historiadores italianos, da Descoberta do Arquipélago de Cabo Verde por aquele notabilíssimo navegador seu compatriota».

Cadamosto, efectivamente, reivindicou para si a glória de ser o descobridor destas ilhas, mas o relato das suas viagens não pode, de forma alguma, ser tomado a sério na parte respeitante a Cabo Verde.

Vale a pena contar a história a começar do princípio, já que Cadamosto está sendo reabilitado afanosamente.



[i] In CABO VERDE – Boletim de Propaganda e Informação – Junho de 1960

quinta-feira, 29 de abril de 2021

 

Salvé o Dia da Cidade da Praia!

- 29 de Abril -

Em boa hora se regressou à História que nos conforma enquanto comunidade, e se repôs a data comemorativa da elevação da Vila de Santa Maria à Cidade da Praia. Tudo aconteceu neste dia, 29 de Abril, mas do ano de 1858.

 Mas recuemos três anos, em 2018, quando a edilidade da Praia numa feliz iniciativa, comemorou a data de 29 de Abril, em intenção do 29 de Abril de 1858, e os 160 anos da cidade, capital do país, escrevi aqui um texto a propósito da figura do Marquês de Sá da Bandeira.

E porque vem a propósito, passo a transcrever excertos do aludido Artigo que também foi publicado num número do Jornal, «Expresso das Ilhas»

Mas antes,convinha também lembrar, que não foi só por esse acto que Sá da Bandeira ganhou merecido relevo na História de Cabo Verde. Ele foi protagonista em vários actos fundadores, ou fundantes, quer da Administração, quer da Educação destas ilhas.

Eis os excertos do texto então publicado: 

“ (...) Pois bem, será exactamente na função de Primeiro – Ministro, tanto de D. Maria II, como do rei D. Luís – e Sá da Bandeira exerceu o cargo por várias vezes, com intervalos - que a cidade da Praia em particular e Cabo Verde no seu todo, devem lembrar o perfil desse estadista.

Vamos aos factos, é Sá da Bandeira quem assina o decreto régio em Abril de 1858, que eleva a Vila de Santa Maria à categoria de cidade, Cidade da Praia.

É também ele, Sá da Bandeira quem assina o decreto régio de 1869, que instituiu  em todas as partes do império português, a abolição da escravatura.

Não admira pois, que a cidade da Praia, logo que erigida a tal, lhe houvesse atribuído o nome, à artéria principal da urbe - rua Sá da Bandeira - que os moradores da cidade bem se recordam antes da independência. Hoje avenida Amílcar Cabral. Embora cause estranheza que a Câmara e a Assembleia Municipais da Praia nos anos noventa do século XX, - as primeiras eleitas, por votos dos munícipes -  ao recolocarem os nomes antigos das artérias da cidade da Praia, não  tivessem recolocado o nome de Sá da Bandeira, em nenhuma rua ou avenida da cidade, capital de um Arquipélago,  pelo qual, ele teve um cuidado especial que adiante referirei.

Mas minha gente, nunca é tarde para uma boa reparação, a altura é propícia para que a toponímia das artérias da cidade da Praia, agora nas comemorações dos seus venerandos 160 anos como cidade, retorne a Sá da Bandeira o que merece Sá da Bandeira, isto é, o seu nome numa nova e boa artéria da urbe praense ou, porque não, num refrescante jardim ou espaço verde, de que tanto necessita a nossa cidade?!

Creio que a cidade do Mindelo guarda um busto de Sá da Bandeira, numa das praças da cidade... terei de perguntar isso ao Historiador Joaquim Saial que é quem melhor conhece e quem mais estudou a estatuária pública de Cabo Verde.

Para exemplificar o que atrás disse sobre o cuidado especial que Sá da Bandeira teve com Cabo Verde, transcrevo uma nota interessante, encontrada no romance histórico «Mulheres de Pano Preto» de A. Ferreira, edição de 2015, página 172, e que diz o seguinte: “ (...) Já no século XIX, o abolucionista Sá da Bandeira, em 1836, advoga para Cabo Verde um estatuto (diferenciado) de “distrito administrativo” que fora ignorado, ao que na altura se justificou, por questões meramente financeiras (...)”.

Convém igualmente recordar que a assinatura de Sá da Bandeira esteve presente nos actos fundantes ou fundadores e mesmo nos actos das primeiras reformas da Instrução Pública nas ilhas de Cabo Verde; e até no da criação do célebre e prestigiado, Seminário-Liceu da ilha de São Nicolau, em 1865, a funcionar a partir de 1866. Isto é notável.

Ora bem, a primeira grande remodelação ou ampliação do sistema  do ensino público nas ilhas, aconteceu em 1869 - sendo Sá da Bandeira, Primeiro-Ministro do reino – com a criação do ensino secundário, cujo programa integrava o estudo do Latim, Francês, Inglês, Filosofia Racional, Matemática e Rudimentos Naúticos. É também dessa data a criação do Liceu da Praia.

Por tudo isto, a cidade da Praia agora vetusta (160 anos) a comemorá-los e bem, com actividades, culturais e recreativas para marcar o dia da cidade, (29 de Abril) vai a tempo de reparar esta grande falta de reconhecimento a este homem, Sá da Bandeira, que tanto fez para que a então Vila de Santa Maria, alçasse à Cidade da Praia.” Fim de transcrição.

Torna-se interessante, aproveitar esta ocasião para  também aqui publicar o comentário feito na ocasião, pelo Historiador Joaquim Saial, alguém que muito estudou e quem melhor conhece, a estatuária pública das ilhas de Cabo Verde. Disse ele o seguinte:

“Excelente artigo de Ondina Ferreira (mais uma vez), onde foca a figura deste grande militar liberal, a quem Cabo Verde tanto deve. Tenho nos últimos tempos lido (e divulgado) muita da legislação assinada por ele, referente às ilhas, e verifiquei que a sua acção não se desenrolou apenas no capítulo do abolicionismo mas que foi igualmente benéfica ao arquipélago em muitos outros aspectos, pelo que é justo que sem complexos a sua memória seja divulgada e respeitada em Cabo Verde, tal como o é em Portugal.

  Acerca do busto do Mindelo, deixo aqui uma adaptação do texto que escrevi para a revista "Convocarte" da Faculdade de Belas Artes de Lisboa (/Setembro.2016) e para o jornal "Terra Nova" (Maio-Novembro.2017):

(…) Na mesma praça [antiga de Serpa Pinto, hoje de Amílcar Cabral, para sempre Praça Nova], provavelmente [inaugurado] em data próxima [o memorial a Luís de Camões foi-o em 10 de Junho de 1942] e talvez de idêntica autoria [desconhecida, no entanto], ergueu-se um busto também em pedra do militar abolicionista Sá da Bandeira. Foi ele quem mudou o extravagante nome da cidade de Leopoldina para Mindelo, em memória do desembarque liberal durante a guerra civil de 1828-34. De factura semelhante e pedestal idêntico, tem na base o escudo das quinas, à semelhança do livro do vizinho Camões. Não passou o facto despercebido a Henrique Teixeira de Sousa [o apeamento destes bustos no pós 25 de Abril] que os relatou no romance "Entre duas bandeiras" (…). Recuperados e restaurados, foram anos mais tarde repostos nos mesmos locais. (…)

Por fim, segue um braça para a autora.

Joaquim Saial”

 

Termino este escrito reiterando as saudações à cidade da Praia no seu dia comemorativo, e com a esperança também  de que o nome: Sá da Bandeira, volte a denominar uma nova e digna artéria desta urbe.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

 

Investigação e pesquisa são hoje necessárias nestas Ilhas

Creio que para Cabo Verde e sobre Cabo Verde estão registados historicamente, dois grandes momentos em que um grupo de personalidades e de especialistas, cultos e com preocupações históricas e sociais, se debruçaram sobre o Homem cabo-verdiano.

1-Mesa redonda sobre o Homem cabo-verdiano. Mindelo 1956

2- Colóquios cabo-verdianos. Lisboa 1959

O primeiro momento aconteceu em Mindelo, em 1956 - Mesa Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano - com debates no antigo Grémio recreativo do Mindelo, coordenados pelo Prof. Almerindo Lessa, que era à data, investigador da Junta de Investigação do Ultramar, sedeada em Lisboa.

Na esteira da Mesa Redonda de Mindelo, resultou um ensaio com o título «Seroantroplogia das ilhas de Cabo Verde» de autoria de Almerindo Lessa e de  Jacques Ruffié, publicado pela já citada, Junta de Investigação do Ultramar.

A Mesa redonda sobre o Homem cabo-verdiano foi dividida em 6 sessões. Coube a cada sessão um tema para discussão.

 Assim tivemos: tema 1. “Existe uma civilização cabo-verdiana?” o clima, as fomes o desemprego (...) foi o mote que deu lugar a diversas intervenções. Tema 2 – A sensualidade do Homem cabo-verdiano. Sendo a sensualidade uma das razões da criação artística (...).

Tema 3 –“A indolência cabo-verdiana, é fruto do clima e do tipo de alimentação, ou consequência de uma doença de vontade?”

 Tema 4 – “A língua crioula é um idioma de poupança e de adaptação regional, com a riqueza fonética e a plasticidade de um verdadeiro idioma ou é apenas um «falar útil», bom como instrumento de comunicação, mas incapaz para outras realizações intelectuais?” Nota interessante: neste painel, brilhou Baltazar Lopes da Silva. Ele foi o protagonista. Tendo o moderador do debate, Almerindo Lessa, afirmado, com alguma graça no final do debate, de que uma das razões que o havia  levado a escolher o tema do Crioulo, foi justamente por já ter conhecido os excelentes trabalhos a propósito e da autoria  do eminente filólogo e  Linguista cabo-verdiano, Baltazar Lopes da Silva.

Tema 5 – “As formas elementares da cultura da terra são consequència de um fatalismo, de falta de meios materiais ou da impreparação técnica dos agricultores?”

Tema 6 – “Se existe um complexo de inferioridade respeitante ás doenças de negro? Que se sabe a respeito de tristeosa?”

Com efeito, os temas debatidos, à volta do Homem cabo-verdiano, nesta Mesa redonda foram discutidos de forma substantiva, capazes de resultarem em autênticas teses. .

De realçar que os intervenientes no debate foram individualidades  prestigiadas no meio, à época, e quase todas cabo-verdianas. A saber:

Baltazar Lopes da Silva, Daniel Tavares, António Aurélio Gonçalves, Augusto Miranda, Júlio Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, Henrique Santa Rita Vieira, João Morais, Jorge Barbosa, Aníbal Lopes da Silva. Foram, entre outras, as proeminentes personalidades que intervieram directamente na discussão dos temas aqui referidos. Estamos perante uma plêiade de escritores, poetas, médicos, juristas, professores que pensavam o Arquipélago e que sobre ele pesquisavam e estudavam-no com seriedade e com profundidade.

Creio que não seria demais, sugerir aos nosso investigadores, Linguistas, Historiadores, Críticos literários e estudiosos da problemática social cabo-verdiana, que lessem estes documentos, que, na minha opinião, conservam muita actualidade e fornecem  bases sérias sobre o passado deste Arquipélago.

Nota com interesse: as sessões da Mesa redonda sobre o Homem cabo-verdiano, encontram-se publicadas na íntegra, no antigo «Boletim Cabo Verde» nos números deste periódico que se situam entre Dezembro de 1957 e Maio de 1958.

O segundo momento em que autores e estudiosos cabo-verdianos e portugueses estiveram voltados para as ilhas, aconteceu em 1959, com os «Colóquios cabo-verdianos», organizados em Lisboa. Vale dizer que os mentores daquele fórum foram os escritores: Manuel Ferreira e Nuno de Miranda, como na altura foram definidos: “o primeiro cabo-verdiano de coração, o segundo, cabo-verdiano de origem” (Prof. Jorge Dias in «Cabo Verde» Boletim de Propaganda e de Informação, nº 112, Fev. de 1959).

Neste Encontro, ouviram-se intervenções de Gabriel Mariano,”Do Funco ao sobrado, ou o mundo que o mulato criou” tese  cara ao autor, em que procurou demonstrar que o verdadeiro artífice e o real estruturador da sociedade cabo-verdiana foi o mulato e a  sua cultura mestiça. Terá sido o mulato o “verdadeiro mestre da sociedade crioula”. De Manuel Lopes, “Reflexões sobre a moderna Literatura cabo-verdiana, ou universalismo literário nos meios pequenos”; de Manuel Ferreira, “ Em torno dos instrumentos de expressão literária do cabo-verdiano”; de Nuno Miranda,”Problemas de educação e de ensino. Alguns aspectos em Cabo Verde;”  de Luís Terry “o problema da emigração cabo-verdiana” ;de Silva Teixeira “A agricultura em Cabo Verde”; entre outros oradores.

Presentes e intervenientes estiveram também o Prof. Almerindo Lessa, o Prof. Jorge Dias, o Eng. Humberto Duarte Fonseca. 

Interessante a nota registada em como estiveram a assistir, estudantes universitários cabo-verdianos que à época, (1959) prosseguiam os estudos superiores em Portugal.

Foram estes os momentos altos e mais abrangentes alguma vez  feitos, sobre a terra e a gente das ilhas.

Note-se ironicamente, que actualmente, o país, Cabo Verde conta com mais de uma centena de mestres e de doutorados e não vislumbramos nisso, infelizmente, qualquer alargamento e/ou  inovação científica e social, e nem mesmo, o aparecimento de uma comunidade que se possa chamar minimamente, de comunidade científica cabo-verdiana a debruçar-se sobre temas candentes desta comunidade.

Continuarei o tema (expresso no título) num próximo escrito. Por agora, deixo aqui registados estes momentos históricos em que houve de facto, um perscrutar atento e com cariz científico, social e literário, sobre Cabo Verde.

Afinal, tudo isto foi escrito a pensar e a desejar também que deixem de existir entre nós, as confrangedoras e as redutoras intervenções a que temos assistimos, numa espécie de aventureirismo intelectual - dotado também, à mistura, de algum oportunismo inócuo -  sobre a História  de Cabo Verde, que não começou em 1975, como alguns teimam em fazer crer.

É bom revisitar de vez em quando a nossa História. Sim, a História da nação que hoje continuamos nestas ilhas, tem já muitos séculos, e todos merecem a nossa atenção, numa leitura policromada, versátil, objectiva e situada no seu tempo..

 

 

 

domingo, 25 de abril de 2021

 


E porque hoje se comemora mais um aniversário do 25 de Abril; e também porque o «Coral Vermelho» comunga do espírito e dos propósitos que o 25 de Abril de 1974 trouxe para os cidadãos e para a comunidade falante da Língua portuguesa; fui repescar um texto que apresentei numa sessão comemorativa no Centro Cultural Português e a convite do então Embaixador de Portugal em Cabo Verde. Trata-se de um escrito que, na minha opinião, conserva alguma actualidade de sempre do 25 de Abril. 

Termino esta nota breve com o poema de Sopia de Mello Breyner Andresen, inspirado no evento de que hoje se assinala mais uma data.

"Esta é a madrugada que eu esperava

o dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo"

Sophia de Mello Breyner Andresen, 1974



“25 de Abril” Sempre!

 

Passados quarenta e (sete) anos…

Chamei o meu texto breve de: “25 de Abril” Sempre! Embora já muito dito e mantendo alguma subjectividade, reconheço que a data significa para mim um ponto de partida e que, na mesma dimensão representou também um ponto de chegada. Isto é, o 25 de Abril reflecte e carrega um sinal e um significado, histórico e simbólico estruturantes.

Igualmente, o 25 de Abril de 1974 foi para a minha geração ou, pelo menos, para parte significativa dela, a percepção de se estar a viver o futuro dentro do presente, sem limites ou barreiras que projectam a distinção entre estas duas dimensões da nossa temporalidade vital.

O processo do 25 de Abril já foi também chamado de “o regresso das naus,” numa alusão metafórica, ao desfecho do processo colonial.

Se é certo que o “25 de Abril,” aconteceu-me numa fase de vida, em que uma revolução dessa natureza e grandiosidade, a chamada revolução dos cravos tende a ser, e foi recebida com o amplexo generoso e romântico, sobretudo da juventude;

Também não é menos certo, passadas quatro décadas, poder afirmar sem qualquer hesitação que o “25 de Abril,” Valeu a pena! Com todos os seus excessos, mal-entendidos, dramas, confusões e limados os pontos mais agrestes desse momento de ruptura, poder afirmar que – repito – valeu a pena!

Tal como eu, estou certa que muita gente da minha geração continua a considerá-lo como um momento histórico único, ímpar na nossa trajectória de vida.

Por isso saudemos o “25 de Abril” pelo seu efeito epistemologicamente transformador, de reposição de direitos e de dignidade na relação entre os povos que têm em comum a língua portuguesa. Hoje, somos uma comunidade, a CPLP, mas tal não seria possível se – parafraseando o poeta – “não fossem as portas que Abril abriu” e que fizeram convergir e não apartaram os países e as comunidades que a conformam

Infelizmente, entre nós, e sem explicação racionalizada, a data não tem sido dignamente assinalada, não é evocada com a importância que devia ter, até para se entender melhor a nossa história recente.

De facto o “25 de Abril” é data que na minha opinião, teimámos em ignorar. Esquecemos a liberdade e a descompressão social e psicológica que trouxe e os enormes sacrifícios que poupou na caminhada para a Independência. Comemoramos contudo, outras datas que lhe são derivadas no contexto da luta para a Independência. Até aqui, tudo bem, só que nos esquecemos de que não seriam possíveis nos mesmos pontos de um referencial temporo-espacial, se não fosse o “25 de Abril” de 1974.

Fico por vezes com a impressão que este procedimento se assemelha ao da avestruz, isto é, metemos a cabeça na areia e fizemos de conta que o “25 de Abril” nunca existiu e que não tínhamos nada a ver com ele. Mas como podemos hoje fazer de conta da explosão de alegria, de contentamento e de esperança que ele gerou e que percorreu o Arquipélago de lés a lés permitindo o calar das armas, na Guiné, em Angola e em Moçambique, a libertação dos presos políticos do Tarrafal e de outras prisões e dando liberdade de acção para a participação massiva e entusiástica que culminou com a Independência Nacional?

Reconhecer o “25 de Abril” como um marco importante da História recente da nossa Nação não desvalorizará a penosa caminhada do povo destas Ilhas, bem pelo contrário, a dignificará e a honrará por que ele, o “25 de Abril”, é digno, é honroso, é saudavelmente libertário e é também nosso por direito próprio.

Celebrar, não é feriar. É destacar, assinalar.

Reconhecer o “25 de Abril” não diminuirá a gesta, mesmo daqueles que por atitudes e subtilezas verbais reclamam, em privado, o estatuto de únicos obreiros da Independência e vêm resistindo a esse reconhecimento, quiçá por julgá-lo concorrente? contra-argumentário?...

Com ou sem o “25 de Abril” a Independência seria um facto. Discutível, mas tomámo-lo por adquirido. Não o polemizamos. O problema é saber-se quando, e quantas vidas, dissabores, sofrimentos e sacrifícios se pouparam...

Ignorar o “25 de Abril” é ignorar a história do povo destas ilhas e não reconhecer a quebra da cadeia que nos ligava ao colonialismo por via de uma pesada ditadura, quebra essa para a qual também contribuímos.

Imaginemos por momentos como seria o nosso processo de independência, acoplada ao da Guiné – Bissau, sem os diálogos, sem as negociações, sem os acordos que o “espírito” do 25 de Abril permitiu? E que a todos tocou?

Imaginemos por uns segundos o que seria dos milhares de angolanos, de moçambicanos, posteriormente de guineenses, que se refugiaram “no Portugal do 25 de Abril,” com os complexos, dramáticos e traumatizantes problemas que isso trouxe a uns e a outros, uma vez que logo a seguir ao processo das independências, os seus países mergulharam numa guerra fratricida, sangrenta, cruel; numa guerra civil devastadora? Sim, o que seriam hoje, muitas crianças e jovens de então, dos aludidos países privados de escolas e de quase tudo se não fossem as oportunidades que Abril gerou num Portugal já sem colónias? E que o tornou tão mestiço por via disso?

A data de 25 de Abril não devia ser um número abstracto. A ela estão ligados acontecimentos importantes do passado que nos permitem reconstituir o itinerário para o presente e compreendê-lo. Deve, pois, revestir-se entre nós, de uma certa dignidade, não podendo ser malbaratada ao sabor de preconceitos, olvidada por concepções redutoras da nossa História. Deve ser bastamente explicada para que seja assumida por todos sem quaisquer complexos.

Com a vossa permissão, citaria nesta oportunidade e como forma também de evocar os “Capitães de Abril,” as hoje, quase proféticas palavras de um dos seus mais insignes homens, o Capitão Salgueiro Maia, que em vésperas de morrer terá proferido, passo a citar: “Não se preocupem com o local onde sepultar o meu corpo. Preocupem-se é com aqueles que querem sepultar o que ajudei a construir.” Fim de citação.

Pois é, o 25 de Abril, foi também e, sobretudo, um acto de edificação dos pilares que conduziram e vêm conduzindo o processo de democratização e de desenvolvimento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (neste contexto, eventualmente retiraria o Brasil se ignorasse as relações de contacto que sempre as há).

Volvidos quarenta anos, estou convicta de que a maturidade, a análise mais objectiva, mais intelectualizada da nossa gente sobre os fenómenos e os eventos históricos que nos acompanharam e nos trouxeram até ao presente e, sobretudo através de uma espécie de “descomplexização” histórica; tudo isso contribuirá para o equilíbrio desse reconhecimento, do papel e do significado que também tem o “25 de Abril” para o povo cabo-verdiano.

Para finalizar este minha singela evocação do 25 de Abril, vou transcrever alguns versos do poema “Corpo renascido” de Manuel Alegre, o poeta da liberdade e que nestes versos, e numa interessante alegoria poética, quis simbolizar a dimensão cosmogónica e solidária, do 25 Abril.

“Corpo renascido (…) Canção (…) Coração perpendicular ao tempo (…) Cantando é como se dissesse: estou aqui!

Na multidão que está dentro de mim (…)

 Canção casa do mundo

Viagem de homem para homem

 Meu pedaço de pão rosa de Maio

Criança a rir na madrugada

Cavalos correm nos teus campos, crinas ao vento

 São os cavalos indomáveis que te levam

  Aos quatro cantos do mundo 

Lá onde um homem tiver sede

 Levarás teus cântaros/

Lá onde um homem tiver fome

 Levarás teu pão

Lá onde a liberdade foi assassinada

 Os teus cavalos livres levarão

  A espada refulgente

 Levarás o teu sol canção

 Folha a folha desfolhada

 Folha a folha renascida

 Assim tu és canção:

 Viagem de homem para homem.”

Manuel Alegre – País de Abril – Antologia