É Preciso Refrescar a Memória?...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

 
Cheguei a casa e encontrei-a mergulhada em papeis. À sua volta, ou melhor, à volta da cadeira, postada sobre uma carpetezinha, em que se encontrava sentada com uma prancheta azul à ilharga, junto a uma estante de livros, espalhavam-se jornais, revistas, livros e outros documentos não identificáveis (por mim) numa confusão indescritível. Aparentemente caótica. Mas eu sabia bem que a desordem era mesmo aparente – um caos organizado - e que depois tudo voltaria ao seu lugar. Na mão um exemplar do “Terra Nova”. Olhei para ela, não muito admirado, porque o cenário já me era familiar, – repetia-se amiúde quando ela tinha em mãos um trabalho que exigia alguma “investigação” doméstica – mirei-a interrogativamente e perguntei-lhe, de forma talvez um pouco abrupta: Que procuras desta vez?

Não respondeu à minha questão e com um olhar de clara surpresa estampada na cara – que me deixou em expectativa – os seus olhos claros muito mais abertos do que habitualmente reflectindo estupefacção, avançou-me, como se eu já estivesse contextualizado e sintonizado com ela: Chegaste a ler esta entrevista?

– Entrevista? Perguntei eu. Qual entrevista? Normalmente leio o jornal todo… acrescentei.

– Esta! A do ex-presidente da república! replicou.

– Devo ter lido, respondi de forma displicente, acrescentando: Qual é a data do jornal?

– Julho de 2013.

– Julho de 2013? Querias tu que eu me lembrasse de uma entrevista feita há dois anos e meio? Não te esqueças que já celebrei muitos aniversários. E a minha memória também. Não fez caso dos meus comentários e retrucou:

– Disto tinhas que te lembrar… São assuntos que normalmente não te escapam e ainda por cima é apresentado em grandes parangonas, disse-me enquanto apontava com o dedo a frase exibida na primeira página do jornal: ”HÁ UM PRECONCEITO* GRANDE EM RELAÇÃO AOS PARTIDOS ÚNICOS” afirmando: Isto é uma vergonha. Tira qualquer um do sério! Estou escandalizada!

Franzi a testa, levantei o sobrolho e disse-lhe:

– Tens razão, se calhar não a li… Essas nossas frequentes andanças para Lisboa, Praia, Lisboa fazem-me perder uma boa parte das informações... Outrossim, (observei a fotografia) … Ele tem um discurso passadista e uma exacerbada sede de protagonismo… Deixa-me ver o jornal! …

Sentei-me e pus-me a ler a entrevista. Procurava o enquadramento da tal frase que aparentava a lavagem da memória do passado e uma negligente justificação dos seus anos de governação, sem oposição, isto é, sem qualquer abertura para o contraditório. Na verdade não a tinha lido, a entrevista. Não era possível tê-la lido e ficado indiferente! A generosidade da jornalista em aceitar determinadas respostas sem contrapor era bem patente. Via-se ao longo da entrevista que, mau grado a organização das perguntas, se não era, parecia ser uma debutante em assuntos políticos. Parecia mais uma entrevista escrita onde não tinha havido complementação das respostas do que ao vivo como ilustram as imagens que a acompanhavam. Como aceitar a justificação das fraudes de Baluarte, Mãe Joana e Covoada comprovadas em tribunais, decisivas para a sua eleição com um simples: ”Tem de ver o meu comportamento. Eu não dei importância a isso porque não havia de estar a responder a todas as provocações. Tem de verificar o meu comportamento.” (Fim de citação e da resposta)

Era isto mesmo que a jornalista devia interpor. Sim, precisamente o seu comportamento, senhor comandante, que foi de silêncio absoluto, de acomodação às fraudes e do seu aproveitamento cúmplice. Responder a provocações? Que provocações? O que se esperava era que o senhor fizesse uma condenação pública das fraudes eleitorais e se demarcasse daqueles que as cometeram em seu nome. Toda a gente esperava que procedesse em conformidade com o que disse atrás, referindo-se ao assassínio de Amílcar Cabral, que as “assumisse” tendo em conta a quem o crime beneficiou ou interessou…

A entrevista está prenhe de fait divers e de subtil arrivismo. E também da glorificação de um passado, em muitos aspectos, de triste memória onde sobressaem a exclusão e a repressão. Com quem então preconceitos em relação aos partidos únicos?! Dizer-se isto em 2013 não é só preciso ser-se apenas um antidemocrata, é também declarar-se um convicto inimigo da democracia.   Compreendo a exclamação de “escândalo!” que me alertou para a entrevista. Partido único não combina com democracia e fazer a sua apologia, quais forem as circunstâncias é colocar-se contra a democracia o que, aliás, o entrevistado declara frontalmente na entrevista ao assumir que a prioridade não era a democracia, mas sim “pôr de pé o estado soberano e suas instituições” como se isto não fosse possível, e até desejável, em democracia. Este raciocínio de secundarização da democracia em proveito próprio e do clã define, por si só, a natureza do regime.

E na mesma linha, chega a ser confrangedora e caricata a resposta à pergunta: “Considera que houve ditadura em Cabo Verde?” Vale bem a pena reproduzi-la:

Eu acho que não. Ditadura como? Ditadura com a responsabilização das pessoas? As pessoas é que fizeram aquilo. Era Pedro Pires o grande ditador? Tem de pensar nisso. Porque a pessoa que está consigo aqui é a mesma que começou como Primeiro Ministro de Cabo Verde. Se for ver as minhas declarações, há-de chegar à conclusão de que se optou pela solução que eu acho mais eficaz, a que estava ao alcance. Mais. Há que ter em conta que fora o PAIGC, quem é que lutou mais para a independência de Cabo Verde? Eu acho que pouca gente ou ninguém. E apareceu gente? Sim. Depois de já termos a independência ou depois do processo encaminhado para a independência. Antes não passávamos de meros terroristas.” (Fim de citação, o itálico é meu)

Descodificando, era como se dissesse: “Este velhinho simpático, afável, com inquestionável bonomia que está à sua frente, poderia alguma vez ter sido um ditador? Ele é o mesmo de há 40 anos. Aliás, mesmo que tivesse havido ditadura, ela estava justificada primeiro porque eu [que sei tudo] achei que era a “solução mais eficaz” depois, porque só o PAIGC lutou para a independência, para a posse da terra e da gente, e os que vieram depois não passam de oportunistas e, por isto, sem direito a nada.”

Simplesmente patética, a resposta. Mas não ingénua nem despida de arrogância e paternalismo, pois quando a jornalista o confronta com: “Como explica, por exemplo, a lei da reforma agrária e a opressão dos opositores ao regime?” Diz umas generalidades sobre a reforma agrária apoiando-se (imagine-se!) numas hipotéticas intenções do regime colonial sem falar das consequências desastrosas e criminosas da que aplicou. E sobre a segunda parte da pergunta: “a opressão dos opositores ao regime” nem uma vírgula. Acabei de ler a entrevista, dirigi-me a minha interlocutora e disse-lhe:

– E tu, já leste a entrevista?

– Sim, dei-lhe uma passagem rápida… respondeu-me ela. E repliquei:

– Porque será que a jornalista não o “obrigou” a responder à questão dos opositores ao regime? Não compreendo a omissão a uma resposta tão clarificadora quanto aos eventuais preconceitos sobre os partidos únicos e as ditaduras que geram. Fiz uma pausa e continuei:

– Porque não lhe falou a jornalista das arbitrariedades da polícia política (DL 95/76); das perseguições aos opositores; da proibição de partidos políticos; da lei que criminaliza boatos (Dec. 37/75); da lei de prisão arbitrária apenas por suspeição; da lei (Decisão com Força de Lei nº 1/77) que estabelece a impunidade dos membros do Governo perante a lei; dos tribunais militares de génese totalmente político-partidária – combatentes da Guiné – (conjugação DL nº 121/77 e nº 8/75) para julgar todos os militares (e militarizados) e alguns civis; do juramento de fidelidade dos funcionários a um partido (binacional) – o PAIGC – e não ao Estado de Cabo Verde (Dec.4/76); da autorização de saída; do delito de opinião; das torturas; das mortes de opositores?

Se isto não configura um regime ditatorial que só pode ser gerado por um Partido Único (ou ausência de partidos), então não há ditaduras e não haverá qualquer razão para se ter preconceitos em relação a Partidos Únicos.

– Olha, o que me surpreende é como é que um homem que jurou defender uma Constituição tão democrática como a nossa e, obviamente, pluralista e defensora dos direitos, garantias e liberdade dos cidadãos, ousa falar tão apologeticamente de partidos únicos. Está visto que não bate a bota com a perdigota. Só pode ser compreendido, não justificado, no âmbito de uma estratégia de exaltação e glorificação de um regime que todo o País condenou de forma inequívoca no dia 13 de Janeiro de 1991. Parece que o regresso ao poder, dez anos depois, travestidos de democratas, fá-los pensar que o povo já se esqueceu do veridicto de 1991.

É preciso refrescar a memória!

A.   Ferreira

 

 

1 comentários:

Adriano Lima disse...

Bela e esclarecedora peça. Mais um contributo para refrescar a memória e evitar que ela prescreva em definitivo e o acerto de contas nunca mais se faça em confronto de consciências. É inacreditável essa dificuldade em pedir perdão. E isso é grave porque só as más consciências incorrem em semelhante recusa ou omissão, o que pode ser sintoma de mau carácter ou então de um sentimento de culpas consideradas inconfessáveis ou irremissíveis, tal a sua gravidade.
Bem, eu não iria por aí, recusar-me-ia vestir a pele de juiz ou algoz por entender que a criatura humana é, no fundo, muito frágil. O carrasco de ontem pode ser hoje um pobre coitado que nem sequer tem a noção exacta do que fez ontem. E depois penso que nós, cabo-verdianos, somos todos moldados por uma geografia agreste que nos amolece o coração e trava os ânimos mais exaltados. Enfim, somos pessoas cândidas e cordatas, ou então fingimos que o somos. Mas, caramba, não entenderei nunca como foi possível infligir tortura e sofrimento a criaturas singelas como o Tói de Forro, o Titino Boxeur e outras mais, por alegado delito de opinião. O poder obscureceu o discernimento daquela gente, como certamente nunca se imaginaria. Razão por que segundo o adágio popular não se deve dizer que dessa água não beberei.
Mas, transitando do coração para a razão, é espantoso ouvir da boca de quem foi o mais alto magistrado da nação essa observação de estranheza sobre “preconceito contra o partido único”. Isto é grave e merece ser escalpelizado. Pode representar um bloqueamento mental que lhes dificulta a arrumação da consciência para poderem pedir perdão aos perseguidos e maltratados pelo partido único. Será então caso de necessitarem de uma psicoterapia colectiva? Ou somos nós todos, cabo-verdianos, que precisamos urgentemente de uma autognose para podermos ir ao fundo de nós e ordenarmos os nossos juízos sobre factos, realidades e valores? E resolvermos em definitivo essa polémica questão identitária?


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