VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Cidade da Praia. Fevereiro 2016.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

 Antes de entrar propiamente ao que aqui me traz, e uma vez que é sobre “Arménio Vieira, o cultor da Língua de Camões” chamava aqui as palavras do escritor Germano Almeida, quando reitera e afirma a sua ligação à Língua portuguesa, ao retratar bem o seu ambiente linguístico/cultural: (…) eu cresci alimentado por ambas (a língua portuguesa e a cabo-verdiana) sem nunca diferenciar qual das duas era mais suculenta pois que as usava indiferentemente, e por isso ambas fazem parte do que eu sou, razão por que não quero viver sem nenhuma delas, sei que perder uma me amputaria em metade. (…)”.

Creio que a geração a que pertenço se revê  se não na totalidade, em parte significativa, nesta afirmação em que ouso incluir também o poeta Arménio Vieira.

E porque também a linguagem poética de Arménio Vieira é construída substantivamente através deste seu ser cultor da Língua portuguesa, evoco a propósito, as palavras do conhecido poeta Manuel Alegre, que chama à Língua portuguesa, «a música secreta» e a determinada altura escreve: “Há na minha língua uma página chamada Atlântico, onde há sempre uma viagem que não acaba até outros mares e outros poemas. (…) Nas suas harmonias, nas suas dissonâncias, nas suas vogais azuis e verdes e nas suas consoantes sibilantes. Tem a cor do mar e o assobio do vento. Amo essa cor, esse assobio, esse murmúrio. E o cheiro a alga e sal (…)” (Fim de citação)

Posto isto passo ao tema.

Sobre Arménio Vieira

Falar sobre Arménio Vieira é sempre um prazer. Acrescido do facto de ser uma grande honra  trazer para aqui tão grande poeta! O nosso prémio Camões!

Arménio Vieira, Poeta, escritor, jornalista, professor, crítico de cinema.

Ora bem, a sua poesia e a sua ficção de há muito que ultrapassaram as nossas fronteiras geográficas e, hoje, são pertença não só da cultura cabo-verdiana, como da literatura lida, estudada e analisada em Língua portuguesa, no espaço da lusofonia, como ainda traduzidas para outras línguas e culturas.

Costumo dizer que o poeta,  nasceu na cidade da Praia, cabo-verdiano de origem e de vivência e, (aqui também caberia um “mas”) de pena universalista.

Sim, os textos de Arménio Vieira, quer sejam em poemas ou em prosa e esta última é quase sempre poética, fazem jus a este “universal” que existe e que caracteriza o seu ser poeta.

Com efeito, a sua formação poética, cultural e histórica – na minha opinião, opinião aliás, de uma leitora aficionada dos textos – poemas de Arménio Vieira – revela-se quase toda ela “bebida” fundada na cultura dita europeia ocidental. Ele parte da clássica greco-latina, passa e passeia-se (o poeta) pela história e pela literatura europeia, a mais erudita, com ênfase na portuguesa, na francesa russa, inglesa, alemã, entre outras, indo até à americana e, algumas vezes, num jogo simbólico muito peculiar deste poeta, consegue prefigurá-las, transferi-las e contextualizá-las para as ilhas desta “macaronésia” atlântica sempre indecisa e adiada.

Senhor de uma erudição e cultura portentosas, Arménio Vieira dá-se ao luxo de “jogar” de “brincar” de construir e de desconstruir também, através de “trocadilhos” poéticos com essa cultura imensa que possui, e que reelabora numa constância e em profundidade, como aliás, prova tudo o que vem escrevendo. No fundo, e à boa maneira dos eleitos, aos quais ele pertence, intelectualmente falando. Os seus textos como que extraem a essência filosófica, desse lastro cultural que o sustenta, como também reflectem a mundividência experimentada e teorizada por um observador de todo especial. Para além de aliar a isso tudo, a poesia que parece que lhe é inata.

Ora é o próprio poeta que dita o «Ser Poeta» (pág. 91 de «O Brumário», edição da Biblioteca Nacional de Cabo Verde e Publicom, 2013)."Sem cuidar do tempo / que os ponteiros gastam / Entre a débil consoante / (Pela qual o navio Se faz ao mar) E a exausta vogal / Com que termina / A viagem / Me dou ao ofício / De escrever poesia.”

 Pois é, entre o “tempo” ou a ausência dele, no início e no final da “viagem”; com a habilidade tecedeira de uma “aranha”; a beleza da “rosa;” e a (im) precisão de um “número”, simbólicos e alegóricos, assim o poeta cria e escreve o seu poema. 

 Mas igualmente num poema inserto num dos seus últimos livros da trilogia do Brumário, e em jeito de situar o leitor, o autor prevê  e justifica o destino dos seus versos. A poesia é o “baralho do poeta” com que “…os loucos tentam o póquer que os salve”. ( pág. 18 de «O Brumário») “ Estes versos acerca dos livros / e da gente terão o destino / com que os deuses selaram as criaturas, / incluindo quem, pelo melhor / de todos os poemas, / previu o fim da tabacaria em frente / mais a tabuleta e o dono dos cigarros, / e de quantos loucos, dos quais, / pelo mágico baralho do poeta, / tentam o póquer que os salve.”                                                                                                                                                                                                                                                
O poeta munido com estas preciosas “ferramentas” chamemo-las assim, mais a estilística que ele auto-recria em estética própria e original; com isto tudo interligado e interdependente, o poeta configura os seus poemas – textos prodigiosamente melódicos e poéticos, que nos deliciam.
Na escrita de A. Vieira há também questões de sempre, inquietantes e existenciais com que o poeta nos interpela. A morte, por exemplo.

 Por outro lado, e do que mais gosto e aprecio na poesia de Arménio Vieira  é a sua assombrosa capacidade de, através da comicidade da linguagem, parodiar, em tom jocoso, irónico, por vezes mordaz, temas vários, personagens e personalidades reconhecidas no mundo das artes, do cinema e da Literatura e utilizar amiúde a chamada linguagem de carnaval, da paródia ou a menipeia que ele tão bem desenvolve e aplica na sua linguagem criativa literária. Esta linguagem sobre a qual teorizou e bem Júlia Kristeva, aliás autora curiosamente  conclamada pelo poeta e trazida à cena poética num dos textos incluídos no Brumário.

  De facto e retomando, há um riso paródico e uma finíssima ironia em muitos textos de Arménio Vieira cujos sentidos porque plurissignificativos residem no tornar comum ou no chamado “destronamento” de quase tudo que é tido por elevado, dogmático ou sério. Repito que fortes influências desta discursividade carnavalesca são visíveis, em muitos dos textos de A. Vieira.

O poeta por vezes, brinca e/ou ironiza com a chamada poesia épica, laudatória que narra em versos, heróis, os seus feitos ou cometimentos bélicos.

 Em sentido oposto, aquilo que há de elevado e humanamente comovedor nas pessoas, nas criaturas, temo-lo bem descrito e sentido, pelo poeta em muitos dos seus poemas narrativos e/ou, dialogados. Apenas uma ilustração disso. O exemplo que achei muito terno, muito afectivo e solidário foi aquele com que Arménio Vieira brindou os mais velhos da literatura e da cultura cabo-verdiana, se quisermos, e generalizada numa frase: os Homens da Claridade. Vamos encontrá-lo exactamente no texto “Bisca Tropical”  (página 31 das «Derivações do Brumário» . Edição da Biblioteca Nacional de Cabo Verde e Publicom, 2013)

  “Imaginem este quadro, surreal e jocoso: Praça Nova (1936). Jaim Figueiredo jogando a bisca versus Rendall Leite, o douto germanista.

Subitamente, Figueiredo joga o ás sobre um duque. Nhô Djunga Fotógrafo, fingindo-se irritado, exclama: Homessa! Será que o Pavão de Lata foi quem o mandou jogar o ás?

Manuel Lopes diz: Não respondo à pergunta, que eu não vi nada.

Baltasar Lopes solta uma estrondosa gargalhada. “Vá lá que o Jaime nunca soube o que é um jogo a doer”, pensou mas não disse.

Jorge Barbosa diz: Figueiredo precisa de óculos, é só ir ao João Lopes.

Aurélio Gonçalves conclui indulgente e filosoficamente: Figueiredo distraiu-se, acontece aos melhores.

Para terminar, falou Jaime Figueiredo: Alucinação alcoólic, sou um barco ébrio.

Rendall Leite de pé: - game is over, adieu sweet Prince.

Manuel Ferreira, o cronista, chegaria ao Jardim de Epicuro, ou seja, à referida praça quando rebentou a guerra de todas as guerras, razão por que de tal bisca a céu aberto não fez menção nem registo. Em tempo: faço-o eu, nascido Cinco Anos Depois, por coincidência a única fita que Marlon Brando assinou.

P.S. – O Pavão de Lata, um hipotético romance de J. Figueiredo, continua a ser um mistério. João Cleofas Martins (Nhô Djunga), à semelhança de Juan Rulfo, era prosador e fotógrafo. O restante, excepto as pessoas nomeadas, é pura ficção.

Nota final à guisa de epitáfio: à data eram personagens em busca de um palco. Quem nos dera tê-los de novo, ainda que seja para a bisca do adeus.”

 Ora bem, com o estilo a que nos habituou, o poeta inscreve nos seus textos, em larga medida, duas das suas múltiplas dimensões: uma, a de jogador de xadrez, o qual, no seu ambiente, na cidade da Praia, já tem lugar cativo. E a outra, a de crítico de cinema que Arménio Vieira fora outrora. É assim que nos traz à ribalta (através de memórias inscritas em alguns poemas,  grandes clássicos e eternas fitas cinematográficas que nos ficaram inesquecíveis, com os nomes dos seus realizadores e dos actores celebrizados pela memória fílmica. Há um trecho muito interessante que é um pequeno documentário ou mesmo, um “take” qual realizador de filme que A. Vieira nos dá em: “Post Scriptum”. (página 93, de «O Brumário»):

“ Imaginemos a seguinte bizarrice: Quelha de Londres, cerca de 1918. Em vez de Jack o Estripador matando senhoras, vêem-se três terríveis tigres – Adolf Hitler, Benito Mussolini e Vladimir Lenine, de cassetete e apitos à Gestapo, correndo atrás de Charlot, o Judeu vagabundo, o qual, tremendo, tal um coelho entre a parede e o pau, é salvo por Fernando Pessoa, da guarda-chuva em riste e de cigarro na boca.

Coincidências: os cinco, sem exclusão usam brilhantina e cuecas de nylon made in England. Pessoa, porém, é o único que perfuma as cartas de amor e fuma tabaco.

Filme de quinze minutos, mudo é claro, dirigido por Charles Spencer Chaplin, segundo uma ideia do Conde Silvenius.”

Do mesmo modo, o tal jogador exímio de xadrez, que é A. Vieira quando simbolicamente transplantado para a escrita poética, e poeta, ele faz-nos perceber, de forma subtil, através de peças colocadas num tabuleiro quase cósmico, que nos está a transportar para um xadrez mais complicado, que é afinal, a própria vida.

Arménio Vieira ao longo dos seus poemas, como que desafia o leitor para uma revisitação, de que ele dá o exemplo; ou mesmo para uma leitura inaugural das obras dos grandes nomes da literatura e de vultos da História universal e neste ponto, sou tentada a dizer, que o poeta emerge aqui neste particular, com uma dimensão pedagógica. Ele faz isso, não só  citando-os  mas também fazendo-os interagir em imaginados diálogos,  entre  personagens  e, entre os entes históricos (escritores) que as criaram e que o poeta constantemente convoca nos seus textos-poemas.

 Não obstante toda essa abrangência e esse todo panorâmico no modo de ver, no olhar, e no fazer poético que Arménio Vieira possui, mesmo assim,  e de forma diferenciada, Arménio Vieira faz-se acompanhar no seu caminhar poético, de alguns distintos companheiros  que ouso dizer, mais presentes, mais constantes, mais próximos da sua senda poética, os quais, ele ora cita, alegoriza, os metaforiza, ora os recorda num real quase vivenciado. E isto, em vários textos. Apenas para exemplificar, mencionarei, distinguindo, Camões, Borges e Fernando Pessoa, e a propósito deste último, no dizer de Luís Carlos Patraquim (Mitografias, Poemas na Vertical) e cito: “ Percebemos que o homem e a obra, mais o formidável desdobramento heteronímico...é uma presença na poesia de Arménio Vieira. Não uma influência angustiante... com ele A. Vieira, dialoga, glosa, recombina, sacoleja em mordaz ou empático novo lançamento de dados” (Fim da citação).

De facto, encontramos em muitos textos de A. Vieira, esta intertextualidade pessoana transfigurada.

Outros poetas há também, que foram seus  compagnons de route”) os quais, de forma real e vivida são  recordados, em alguns poemas. Um deles é  sem dúvida, Mário Fonseca.

Com este último, vale também dizer que são ou foram – uma vez que M. Fonseca nos deixou – poetas de uma mesma geração e que de certa forma, juntos iniciaram a que depois seria uma  longa e profícua caminhada poética, que teve os seus inícios no antigo «Boletim Cabo Verde», no «Seló». Juntos participaram em colaborações dispersas em várias revistas literárias, apenas para citar «Imbondeiro» «Vértice» entre outros periódicos.

 O Mar e as Rosas” é o poema dedicado exactamente à memória do saudoso poeta Mário Fonseca. Tratou-se de um facto. Passou-se na vida real. M. Fonseca perdera os manuscritos do livro e andou um ror de anos em busca deles. Creio que assim Arménio Vieira o celebriza e o imortaliza neste quase soneto e através do título homónimo da obra perdida. Outro poema em que Mário Fonseca é evocado ao lado de um grande nome da poesia portuguesa, Fernando Assis Pacheco também já desaparecido do mundo dos vivos; é o poema “Epitáfio,” na página 30 das «Derivações do Brumário».

 Pois bem,  a poesia de A. Vieira corporiza-se numa tal subtileza imagística, que a plurissignificação das palavras  escolhidas, a linguagem metafórica, culta, multifacetada, a beleza rítmica, a musicalidade versatória, entre outros atributos, que distinguem os bons textos poéticos, são tidos em plena valorização, nos poemas de Arménio Vieira.

Mesmo para terminar e perceber o “estar” e o “sentir do poeta, temos o poema “o estar só entre muita gente.”  (pág. 14 «O Brumário»):

“Estar só entre as gentes / magnífica antítese, / nada melhor do que isto. / Quem o disse e na pedra  o gravou/ foi um Camões errante e amoroso. / Venha agora a nave que me leve / a uma ilha (...)  ...Alternância e não antítese / é quanto pude achar, / já que, das muitas rosas / que eu vi em nove ilhas e no resto / nunca fui a metade.” 

Pois bem, usando o mote camoniano, o poeta expressa  as suas emoções, ora doces, ora amargas,  o seu isolamento interno, o seu sentir-se incompleto.

O poeta afinal, - numa espécie de fio condutor dos seus poemas - releva com ironia e com alguma complacência, as partidas pregadas por algo que pode ser nomeado  de  Destino. Assim, Arménio Vieira nos conduz ao seu mundo interior,  à consciência da sua solidão, às suas ilusões e decepções e à maneira como ele percepciona e vê o mundo.

 
Praia, 3 de Fevereiro de 2016.

1 comentários:

Adriano Lima disse...

Na parte que me cabe, agradeço à Ondina Ferreira o ter-nos dado o privilégio de conhecer a sua intervenção no VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. O objecto da sua intervenção é o poeta Arménio Vieira, que para mim é dos mais destacados de entre os nossos poetas de todos os tempos.
Se o poeta nos deslumbra com a riqueza imagística da sua poesia, seduz igualmente a solução encontrada para abordar a figura complexa e original do poeta e a sua obra. É uma síntese perfeita e ao mesmo tempo suculenta e atractiva, porque, digamos assim, vai à essência de tudo e decompõe-na e associa magistralmente o que mais ilustra e desvenda sobre o homem, o poeta e a sua obra.
Parabéns à autora deste blogue.

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