CRÓNICAS PARA FAZER RIR; OU TALVEZ NÃO - 2

sábado, 30 de janeiro de 2016

 

Leia só se tiver um fino sentido de humor

A NOSSA MATRIZ

Viemos de longe, mas viemos para ficar. E não ficámos estáticos mas, à semelhança das pedras que rolam nas ondas, deixámo-nos burilar pelo tempo e pelas vicissitudes por que fomos passando. Hoje somos o que somos, e não queremos ser outros que não nós mesmos!

- M. Odette Pinheiro

 

Parece que estas ilhas eram desertas. De gente, quero eu dizer, porque havia bichos. E foram descobertas por um povo lá do Norte (um povo já misturado, descendente de Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, Mouros e sabe-se lá que mais), do qual fazia parte um tal Infante D. Henrique que não tinha muito que fazer e ficava horas esquecidas a olhar para o mar e a imaginar o que havia do outro lado. Então ele resolveu embarcar alguns homens e mandá-los descobrir. Naquele tempo era assim! Os reis e os filhos dos reis mandavam e todo o mundo obedecia. Mas, claro, o Infante ficou em terra, pelo seguro (não devia saber nadar e creio que ainda não havia coletes salva-vidas)!

Os barcos vieram por aí abaixo e quando chegaram a estas ilhas e os homens viram que não havia cá ninguém, fincaram uma bandeira no chão e disseram: “São nossas! Habemos ilhas!” Tal e qual quando achamos uma coisa no chão e ficamos com ela, alegando que “é de gato e cachorro”, sem nos preocuparmos em procurar o verdadeiro dono! (Sabideza do caboverdiano!) Mas esses homens tinham desculpa, pois não havia vivalma à vista!

Tais eram os hábitos da época! Quando os exploradores (não do homem pelo homem, ainda não se tinha descoberto essa ideia) achavam uma terra deserta, fincavam-lhe logo o pau da bandeira e declaravam-na pertença da Coroa. Quem chegasse primeiro, pumba! Fincava a bandeira. Não era preciso ir ao notário fazer escritura, nem mais nada, embora por vezes o Papa tivesse de ratificar a posse. Como quando dividiu o mundo entre portugueses e espanhóis! Foi pelo tratado de Tordesilhas, lembram-se? O Papa decretou: Portugal descobre para um lado da linha imaginária, Espanha descobre para o outro lado. Brejeiro mesmo! Deste modo não andariam às turras. Foi assim que Portugal ficou com o Brasil; e a Espanha, com a América do Norte! O problema foi quando outros países resolveram entrar na brincadeira. Inventaram os piratas, como o das Caraíbas!

Feio mesmo era quando chegavam onde já havia gente. Mais do que feio, uma coisa medonha. Porque o hábito dessa gente lá do Norte, os brancos europeus (bem, branco só se for encardido, a precisar de lixívia. Mas, como gostam de ser chamados brancos, não me vou dar ao trabalho de procurar a cor certa), dizia eu, esses chamados brancos, ao chegarem a um lugar já habitado, queriam sempre fincar o pau da bandeira para chamar a terra sua; e como os donos da terra não gostavam disso, havia sempre zaragata da grossa. Infelizmente, os chineses já tinham inventado a pólvora, e os europeus traziam espingardas. Assim, quase sempre eram estes que venciam, embora tenha havido algumas boas excepções, em que levaram uma trepa. Uma vez, lá para o norte de África, os portugueses até perderam um rei, um tal de D. Sebastião, que ainda estão à espera que volte para os libertar completamente da troika.

Agora, como as pessoas que iam encontrando nas terras habitadas eram muito diferentes, e geralmente o ser humano tem a ideia de que “o que o mundo precisa é de mais gente como nós e menos como eles”, suspeitando a priori de tudo que é diferente, acharam que os “indígenas” eram inferiores. Já viram como fazem os meninos quando há um colega diferente? Troçam da sua maneira de falar, do seu cabelo, das suas roupas; e se tem um defeito físico, pior ainda! É a natureza humana no seu pior.

Foi assim nas terras habitadas no continente, aqui para o sul. Encontraram pessoas duma cor muito escura. E como eles não eram experts em cores (desculpem o inglês, mas para mostrar erudição agora é sempre necessário colocar umas palavrinhas em inglês), chamaram-lhes negros, ou seja, de cor preta. Poderiam ter-lhes chamado castanho-escuro, mas preferiram negro ou preto, talvez para ser mais curto. Ou, então, foi bullying. Sabiam a confusão que isso ia dar!

Os hábitos dos habitantes também pareciam esquisitos a essa gente que se achava branca. Por causa do calor, usavam muito pouca roupa. Até as mulheres andavam sempre de monokini, que ainda não tinha sido inventado na Europa. Só lá para a última parte do séc. XX, quando as europeias passaram a andar nas praias de maminhas ao léu. Mas como nesse tempo andavam vestidas do pescoço aos pés, incluindo os braços, acharam que eram muito feio, mesmo imoral, andar com tão pouca roupa. Imaginem, se até os fatos de banho da época cobriam todo o corpo!

Também estranharam que não falassem português; nem inglês ou francês, embora os portugueses também não entendessem estas línguas muito bem (então a pronúncia!). Mas sempre poderiam arranjar um tradutor. Pior ainda é que os africanos não sabiam escrever a sua própria língua. Na Europa já se estava a inventar a imprensa, e nessa parte da África ainda não sabiam escrever à mão, nem sequer hieróglifos como os antigos egípcios!

E a música! Em vez da harpa e outros instrumentos muito soft (erudição!) que usavam na Europa, nesse que era o tempo do canto gregoriano (parecido com os cantares alentejanos), os africanos só tinham o tambor e pouco mais! E como ainda não havia telefone nem internet, comunicavam entre si pelo rufar do tambor (uma espécie de morse mais grosseiro). E usavam também o tambor para umas danças esquisitas para os europeus, com saltos e passos estranhos que nada tinham a ver com as danças de salão europeias, uma coisa lentíssima que até dava sono enquanto se dançava.

Portanto, tudo era diferente. E os europeus, julgando-se superiores, resolveram apropriar-se dos africanos à força, para fazerem os trabalhos pesados que eles não gostavam de fazer. Era a escravatura, o pior rebaixamento do ser humano. Embora já existisse desde tempos imemoriais, adquiriu proporções ainda mais vergonhosas nesse tempo.

Tudo isto era fruto da época e do coração humano, que é o que é e ainda não mudou. Pois ao longo do século XX e neste princípio do XXI, quando há a ONU, a declaração dos direitos do homem, vários tratados internacionais, etc., ainda há escravos em muitos lugares. E sabemos como tem sido o mundo: o Holocausto, Ruanda, Síria, Kosovo, República Centro Africana, Mali, Crimeia, Iraque (incluindo a sua invasão pela América), Guiné Bissau, Somália, Burundi, etc. etc. etc., é sempre uns a maltratar os que são diferentes ou que não pensam da mesma maneira, e a querer aproveitar-se do próximo.

Mas, voltando às nossas ilhas, encontradas desertas, os descobridores resolveram torná-las habitadas, trazendo umas dezenas de portugueses e outros europeus e muitos escravos africanos para as colonizar. E como a maior parte das esposas brancas ficaram na Europa, e os homens brancos consideravam as escravas sua propriedade, não tinham qualquer problema em as violar, começando a nascer-lhes filhos mulatos.

Contudo, diz-se que nem tudo foi sexo forçado, porque as mulheres sabiam que o futuro dos filhos poderia ser diferente se fossem filhos de brancos, e elas mesmas poderiam obter favores especiais dos senhores. Não é assim ainda hoje? Não há quem arranja titio (ou faz coisa pior) para poder estudar, e quando acaba o curso dá-lhe um pontapé, para assumir namorados da sua idade? (É a instrumentalização da mulher pelo homem e do homem pela mulher!) Por isso nem todos os mulatinhos que nasceram teriam sido feitos à força, mas sim daquele modo que a Simone cantou na Eurovisão em 1969.

E assim se originou o meu povo: branco e negro misturando os seus genes, uma coisa linda se um não estivesse submetido ao outro! É que hoje sabe-se que é melhor ter genes diversificados do que ser raça pura. Há menos perigo de taras! Não é bazofaria de crioulo, não senhor! É uma provada vantagem genética.

Sucederam-se as gerações (foram 500 anos!) e foram-se misturando as características dos dois povos. Quando a escravatura foi proibida, os escravos deixaram de vir, mas os europeus continuaram, especialmente ao serviço de Portugal: militares e profissionais vários. Muitos casaram ou juntaram-se com pessoas da terra e eles ou filhos ou netos ficaram por cá. Vieram também castelhanos, italianos, ingleses, judeus. E o pool genético foi-se diversificando, ou mais ou menos, conforme as ilhas, podendo dizer-se, contudo, que todo o caboverdiano é misturado, quer o que parece branco, quer o que parece negro. É como o café com leite: mais claro ou mais escuro, mas não mais café puro ou leite como tirado da vaca.

E com a cultura aconteceu o mesmo. Os escravos não tinham uma cultura e língua uniformes, pois eram de várias etnias, embora algumas possivelmente aparentadas. É verdade que algumas coisas da cultura dos escravos foram reprimidas e por isso foram caindo em desuso: coisas que pareciam inferiores ou imorais, no conceito europeu. Mas algumas permaneceram, e o povo foi-se acomodando como pôde, ganhando características novas. É a microevolução, uma propriedade de os seres vivos se conformarem ao ambiente (não só físico, mas social e cultural), adaptando-se às circunstâncias, para que a vida seja mais fácil e maiores as probabilidades de sobrevivência.

Assim o caboverdiano criou uma cultura nova, com aspectos muito ricos e distintos das matrizes originais, a que se pode com toda a justiça chamar a cabo-verdianidade, sem se ter de pedir desculpas ou pensar que se traiu alguém: os nossos hábitos, a nossa música, incluindo os nossos instrumentos musicais, a maneira de estar, as tradições familiares, a língua, a nossa maneira tradicional de vestir, etc. etc., tudo características que definem o caboverdiano como povo e como nação.

Não precisamos de voltar para trás, para duvidarmos de ou negarmos o que somos hoje. Não precisamos de copiar quem quer que seja, porque estiveram lá longe na nossa origem. Seria de novo uma violência. Precisamos é olhar para a frente e reforçar o que somos, comparando-nos com os que já provaram que podem vencer os desafios do mundo actual, trabalhando as nossas ainda insuficiências neste mundo globalizado e sem retorno, onde temos de competir com os melhores e onde há novos perigos que nos espreitam.

É tempo de ajudar os nossos jovens a compreenderem as dinâmicas da evolução social (sem qualquer conotação negativa da palavra evolução), significando simplesmente aquilo em que nos fomos tornando. Dizer-lhes que não podemos virar a roda da vida para trás.

Os anos em que estivemos dominados trouxe-nos muitos males, mas também deu-nos algumas vantagens que não devemos nem podemos deitar fora. Precisamos ter apreço pelo que nos ficou das duas culturas, pelo que de positivo há em nós vindo dos dois lados, em vez de artificial e insensatamente tentar arrancar o que de europeu perdurou em nós, procurando forçosamente voltar às origens “africanas”, o que nunca é possível. Esta é a alienação suprema. Mas dela falaremos noutra altura.

(continua)

2 comentários:

Adriano Lima disse...

Sim, Drª Odette Pinheiro, é preciso ter sentido de humor e também perspicácia para captar a mensagem subliminar que deixa no seu magnífico texto.
Sobre este texto, disse há dias a alguém que é incompreensível que alguns percam tempo a arranjar psicodramas artificiais quando temos tantas urgências a atacar, a primeira delas arranjar forma de garantir o pão para a boca da nossa gente. Também disse que tudo isso parece ser entretenimento de quem não tem nada a fazer, ou com que se preocupar, a não ser olhar para o espelho e não gostar do que vê.
Quanto aos colonialistas portugueses (são tratados assim por alguns pseudo nacionalistas), como tratá-los dessa maneira se foram eles que nos inventaram? Como se pode rejeitar o nosso pai ou a nossa mãe? Ou preferir um a outro?
Além do mais, os tais pseudo nacionalistas e de fervor africanista, causa perplexidade constatar que eles não se importam que sejam o "brancos" a pagar os seus devaneios. Haja ao menos um pouco de coerência!

valdemar pereira disse...

Essa estória de cor foi levantada pelos complexados que se aproveitam de tudo quanto vem da Europa para se protagonizarem ou se imporem da forma mais hedionda.
Reparem bem que nunca ninguém se lembrou de se servir do que foi "brincadeira, de fazer equiparações, de vasculhar baús ou sarrões porque se contentavam com pai clarinho e mãe escurinha (ou mesmo o contrário). Isso so aparece agora que os ditos complexados querem voltar à África das tribos, do Boko Haram, dos golpes repetidos, dos países sem governo, das mutilações genitais, das mulheres tapadas e dos ladrões do erário público. E ainda invocam uma Civilização (de antes da Idade Média) que pouco ou nada inventou e que, mesmo com muitos recursos naturais, estende a mão ou foge para melhor vida em terra do detestado branco onde se aproveitam da liberdade para chacinar em nome de um deus que dizem de paz e/ou violar as mulheres em dias de festa. Tenham juízo, por amor de Deus.

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