Quem Guarda a Cidade?...

sábado, 18 de fevereiro de 2023

 

Sim, é isso mesmo o que me pergunto: Quem Guarda a Cidade? Quando não vejo “guarda” algum, leia-se polícia na rua, no Bairro, aquele polícia que se chamava antigamente,” polícia de giro,” (de ronda pelas ruas) e, ao invés disso, o que vejo mesmo – e creio que toda a gente a vê - é a impunidade do ladrão, do assaltante que manda na cidade da Praia.

Abro aqui um pequeno parêntesis para esclarecer que o que pretendi com o título que encima o texto, foi o de parafrasear a célebre parábola de Salomão, no versículo que diz mais ou menos isto: “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” Qual a relação deste versículo com o conteúdo deste escrito? Mutatis mutandi e com o devido respeito à palavra bíblica e ao seu alcance que é outro e é religioso, diria que se fôssemos minimamente bem defendidos pela nossa Polícia, a cidade capital seria outra. Seria talvez, um pequeno paraíso para se viver…

 Mas ao contrário, o que vivenciamos nós, os residentes da cidade da Praia no dia-a-dia, denomina-se: Medo. Medo de sair à rua e ser assaltada à porta de casa ou, no virar de esquina; medo de estar em casa e os assaltantes entrarem, derrubando todas as defesas - grades, arame farpado, fechaduras, alarmes, câmaras, muros altos circundantes entre outras formas de defesa - a que fomos obrigados a acrescentar à nossa residência, estragando-lhe toda a estética – e que de segurança apenas nos dão uma ténue ilusão.

O medo habita na nossa mente. O medo tomou conta de nós e expressa-se em cada movimento que fazemos quer seja em casa, quer seja na rua.  É este, infelizmente, o quotidiano do residente da cidade.

Mas pior do que isso tudo, é a impressão com que se fica  de que o ladrão aqui na Praia, está e sente-se à-vontade nas ruas da cidade, pois que se considera “dono e senhor” delas. De facto, nós os residentes, suas vítimas, não vislumbramos polícia algum,quando somos assaltados. Aliás, só iremos ter o privilégio de os ver - os agentes - horas depois do roubo feito, de longa espera na polícia para materializar a queixa  e do bandido se ter banqueteado e rido à custa, não só da polícia que ele sabe  que nada descobre, mas também, de nós, os espoliados. E quando digo que nada descobre, falo com conhecimento de causa; a minha residência e a da minha filha juntas já foram assaltadas mais do que meia dúzia de vezes e a taxa de sucesso na procura do ladrão e dos objectos roubados, é zero. Nunca apareceu um singular objecto roubado. Reitero a afirmação, uma vez que apresento queixa formal todas as vezes, sem nunca ter falhado uma. Tenho ido à Esquadra, embora saiba de antemão de que não vai resultar em nada. A minha contribuição será apenas para a estatística. E espero que figure quando, um responsável governamental ou outrem, apresentar contas no Parlamento não diga que a criminalidade na Praia diminuiu. Não, ela não diminuiu. Bem pelo contrário a percepção que temos é que a onda de assaltos às pessoas e às casas vêm crescendo, dia após dia e com mais violência - leia-se o que sobre isso denuncia o Provedor da Praia, com uma frequência a todos os títulos indesejável. 

De facto, o que tem diminuído são as queixas (estatisticamente) uma vez que o processo policial conjugado com a expectativa de sucesso não é apenas um autêntico convite à desistência e ao silêncio, mas um forte apelo à inacção e à resignação da vítima.  Acresce-se a tudo isto o facto da vítima, a quem foram subtraídos objectos, alguns até de alto valor afectivo,  seja incomodada − o ladrão já gozou da sua “safra”, continua impune e seguro a farejar a próxima casa para assaltar - com uma intimação em termos violentos − sob ameaça de que se não comparecer na Procuradoria da Comarca, será detida, multada num valor que pode chegar a dezenas de contos −   para ser ouvida por um Procurador, no dia tal, às tantas horas. Bem sei que me dizem que se limitam a copiar os termos e a linguagem que vêm exarados no Código Penal. Mas convenhamos, tratar a vítima como um criminoso? Não haverá por aí um teor menos ameaçador e intimidante para quem já foi espoliado no seu património? …

Tudo isto em termos que mais sugerem de que o transgressor foi o queixoso e não quem violou a residência para roubar, é que cometeu um crime. Como escreveu o poeta Augusto Gil: “que quem já é pecador, sofra tormentos, enfim! //mas as crianças (neste caso, substituir “as crianças” por: vítimas dos roubos) Senhor porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim? (…)”

 E o ladrão? Será que a polícia o procurou? Onde pára ele? … os pertences a esta altura já não existem. Estarão seguramente nas mãos dos receptadores desconhecidos pela Polícia numa cidadezinha com a dimensão e a população da nossa Praia.

Ou não será isso, enviar os processos, contra desconhecidos para a Procuradoria, um estratagema para serem evitadas queixas sobre furtos e assaltos?

 Nos termos em que é feita a notificação judicial, é-se levado a assim pensar – redução estatística das queixas, iludindo e contrariando a realidade.

É neste quadro que se propala o desenvolvimento do turismo. Será mesmo que querem turistas a visitar-nos? Como? Se o cartão de visita mais visível ou o mais percepcionado que temos para lhes apresentar, são os meliantes que assolam a urbe num perfeito à-vontade?

E para terminar este pequeno desabafo de grande indignação, registar uma informação que não parece de todo, despiciente: a Procuradoria da Comarca da Praia, onde trabalham  cinco Procuradores, segundo ouvi dizer, cada um deles já tem à sua jurisdição cerca de 6 mil processos contra património, isto é, sobre roubos e assaltos a residências e outros locais da cidade. Ora, cerca de 6 mil processos neste início de ano ainda, já perfazem 30 mil. Soube também, que no ano passado, tiveram no final do ano, à volta de 43 mil processos contra património, roubos e assaltos nesta nossa urbe. Logo, tudo indica que a criminalidade não dá mostras de diminuir, pelo contrário, volto a repetir, está num crescendo desesperante para os moradores.

 

 

 

 

 

 

Uma língua também ao serviço da paz[i]

quinta-feira, 5 de maio de 2022

 Por João Ribeiro de Almeida[ii]

Festejar uma Língua, na passagem de mais um 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa (DMLP), é também refletir sobre a melhor forma de a potenciar, divulgar e ensinar e de a pôr, cada vez mais, ao serviço das comunidades, seja daquele grupo já de si com ligações ao universo da lusofonia, os portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo ou os cidadãos da CPLP, seja disponibilizando ferramentas adequadas e suficientes para todos aqueles que dela se acercam pela primeira vez ou que a queiram estudar de forma mais estruturada e profunda, nos diversos níveis e modalidades de ensino. E hoje, o português é já ensinado em 76 países, em cinco continentes.

Tendo o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua (Camões I.P.) como um dos vetores da sua missão a promoção em sentido amplo da Língua Portuguesa (LP) no plano externo, em articulação com as nossas redes diplomáticas e consulares e com o concurso ativo das diferentes estruturas do Camões I.P. no mundo, nomeadamente, das coordenações de ensino (11 em 18 países), dos centros culturais (19), dos leitorados (51), das cátedras (perfizemos no final de 2021 as 60 em todo o mundo), dos centros de LP (83) e da rede de docentes por nós apoiados em 303 universidades espalhadas pelo mundo, é com júbilo, mas também com especial responsabilidade, que vemos chegar esta data de 5 de maio, dedicada pela UNESCO (em finais de 2019) ao nosso idioma, consagrando-lhe um Dia Mundial.

Tratou-se da primeira vez, nunca será demais referi-lo, que o sistema das Nações Unidas aceitou “atribuir” um dia mundial a uma língua que não é (ainda) idioma oficial do organismo, se bem que o português já seja língua de trabalho em diversas instituições onusianas.

Por outro lado, é absolutamente necessário que multipliquemos esforços conjuntos com todos os parceiros da CPLP para melhor otimizar a nossa língua em cada canto do mundo e para melhor cooperarmos em países terceiros em prol do nosso idioma. Foi precisamente a circunstância de falarmos um idioma comum que esteve na génese da criação desta comunidade e esse deve constituir motivo para nos organizarmos para melhor a promover, fomentar e salvaguardar. Como língua pluricêntrica que é, o português está em especiais condições, até geoestratégicas, para contribuir para os consensos, para a construção de pontes e assim estar ao serviço do diálogo e da paz, sobretudo nos conturbados e preocupantes momentos por que passamos.

Se observarmos bem, não existe qualquer continuidade territorial entre cada um dos estados-membros da CPLP, ou seja, não há fronteiras terrestres entre países desta comunidade, pelo que foi o mar que levou a língua a todos e a cada um desses territórios (todos eles, por sua vez, também costeiros) e foi esse ativo comum que depois nos uniu. Esse mar que faz parte do nosso código genético e que foi absolutamente determinante na difusão e multiplicação da LP. Refiro isto a dois meses da realização em Portugal de uma importante Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, sabendo quanto os oceanos foram instrumentais para a difusão da nossa língua, como foram aliás determinantes para moldar a nossa vida coletiva em muitas outras vertentes.

E aqui chegamos a um ponto que julgo de suma importância: tornar a LP cada vez mais uma língua de ciência e de conhecimento, de investigação e de saber. Numa altura em que, por exemplo, a produção e a publicação científica estão, de sobremaneira, dominadas pela língua inglesa (e, lamentavelmente, tenho de o dizer, alguns estabelecimentos de ensino superior do universo CPLP contribuem para isso, impondo muitas vezes essa língua aos seus estudantes, graduados ou doutorandos para os seus trabalhos), cabe-nos a todos refletir sobre a melhor forma de potenciar a LP neste importante e muito competitivo universo do conhecimento. São aí importantes todos os contributos destinados a reforçar a presença da LP em publicações internacionais de referência e em revistas científicas de alcance global e acesso aberto, do mesmo modo que o são aqueles que se destinem a reforçar a presença da LP na internet (onde já é a mais falada no hemisfério sul, pelo que temos pergaminhos nessa matéria). Uma e outra constituem áreas indispensáveis, até para construirmos (ou pelo menos contribuirmos) para um mundo melhor. Formar melhores e mais bem informados cidadãos também é uma prioridade dos agentes de divulgação de qualquer língua e o português tem de estar ao serviço da cidadania e, portanto, num combate permanente contra o obscurantismo, lutando contra todos os tipos de populismos e intolerância. Infelizmente, uma língua também poderá ser instrumento de disseminação destas realidades.

A Língua Portuguesa é um ativo global. Os indicadores são conhecidos: é uma língua hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes (em 2100 serão mais de 500 milhões, segundo estimativas das próprias Nações Unidas, com um crescimento impressionante em África), o que equivale a 3,7% da população mundial.

Uma língua ao serviço dos cidadãos. Uma língua dinâmica, para aproximar povos e comunidades (hoje já é língua oficial e/ou de trabalho em 32 organizações internacionais e está num crescendo também nesta vertente, reflexo igualmente do primado do multilateralismo nas nossas relações internacionais), sem esquecer nunca a interação fundamental com as comunidades portuguesas e lusodescendentes, sobretudo na Europa, América e África.

A Língua Portuguesa é um ativo global. Os indicadores são conhecidos: é uma língua hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes (em 2100 serão mais de 500 milhões, segundo estimativas das próprias Nações Unidas, com um crescimento impressionante em África), o que equivale a 3,7% da população mundial. As nove economias da CPLP, em conjunto, valem cerca de 2,7 biliões de euros, o que faria deste grupo a sexta maior economia mundial, se se tratasse de um só país (FMI). Os países com idioma oficial português representam 3,6% da riqueza total do mundo, 5,48% do global das plataformas marítimas, 16,3% de disponibilidade global de reservas de água doce (10.8 milhões de km2) e isto são apenas alguns dados que espelham bem como a LP pode também ser um instrumento de paz em sentido amplo que inclua vertentes incontornáveis como a proteção ambiental, a árdua luta contra as alterações climáticas (somos todos, os de língua portuguesa, países costeiros e alguns insulares, portanto bem mais vulneráveis ao aumento do nível do mar, por exemplo), a favor da economia circular e cada vez mais verde, etc.

Temos, pois, como desígnio comum cuidar cada vez mais da nossa língua e da sua internacionalização. Todos somos chamados a cumpri-lo e não apenas o Camões IP e/ou a CPLP. Cada um de nós, no nosso dia a dia, pode estar ao serviço desse objetivo pelo simples facto de falar, de comunicar, de escrever, de criar e reforçar sociabilidades que nela assentem, seja nas relações interpessoais, seja no plano digital.

E é isso que importa continuar a fazer. A tornar a língua portuguesa uma grande língua de comunicação internacional, com a qual o mundo conta para se construir e se reinventar de uma forma positiva e inclusiva.

 



[i] In “Diário de Notícias” de 05.Maio.2022

[ii] Embaixador

Presidente do Conselho Diretivo do Camões IP – Instituto da Cooperação e da Língua

5 de Maio Dia Mundial Da Língua Portuguesa

 

Eu te saúdo! Minha bela e rica Língua! Por tudo o que me tens dado.

 Através de ti fui alfabetizada, cultivada e comecei a entender-me a mim, o mundo e a respeitar o outro diferente.

Contigo viajei - através de leituras – por continentes, por países e por sítios longínquos. Por culturas e por civilizações antigas e remotas.

Nunca será de mais agradecer-te minha rica e famosa Língua, pelo gosto de conhecer e de saber que me transmitiste e que me vens transmitindo.

Graças a ti disfrutei e continuo a disfrutar de livros fabulosos e de leituras maravilhosas, ao longo do tempo!

Eu te saúdo minha amada Língua portuguesa pela poesia que em ti encerras e que a dás a conhecer tão generosamente a todos que apreciam a língua e a linguagem metaforicamente transfiguradas e sonhadoras!

Contigo me trenei e aprendi a gostar da linguística, da meta-semântica, da sociolinguística, dos dialectos e dos idiolectos; dos provérbios e dos ditados.

Através de ti mergulhei no mundo maravilhoso da literatura, da para-literatura, das ciências; eu sei lá!...tantos e tão diversos e infindáveis conhecimentos, saberes e experiências, que através de ti se alcançam!

Contigo também me tornei profissional. Sobre ti, minha bela Língua, tenho tentado - aqui nas ilhas, ao longo dos anos, e com as ferramentas de que disponho - que te amem como mereces, que te considerem como pertença natural de Cabo Verde, dos cabo-verdianos, e que te façam expandir no universo da comunicação escrita e oral dos falantes destas nossas ilhas.

Por tudo isto te estou imensamente grata!

Reiteradas felicitações pela Língua global e mundial em que te tornaste!

Eu te saúdo! Minha amada Língua!

 

Uma boa Escola Pública - Uma Causa Inadiável em Cabo Verde –

sábado, 30 de abril de 2022

 


Reclamar e reiterar para Cabo Verde, uma boa escola pública, é fundamental nos tempos que correm. Até poderá soar a lugar-comum, mas nunca será de mais falar sobre isso.

Temos todos a convicção de que uma boa Escola Pública - ao lado da Saúde - deve constituir um alto desígnio da nação cabo-verdiana

Assim sendo, este escrito tentará elencar alguns pontos que pretendem justificar o pedido urgente e inadiável de um debate, de uma reforma, para que se consiga uma pertinente transformação e um consequente seguimento das instituições escolares e académicas públicas, do básico ao superior, deste país.

;1-    A escola pública em Cabo Verde funcionou desde a sua implantação nos idos do século XIX - com o extraordinário e o relevante contributo do Seminário-Liceu de São Nicolau – como um excelente e insuperável equalizador e equilibrador social, tendo em conta a significativa camada pobre e socialmente menos favorecida da nossa população;

2 - A escola pública em Cabo Verde foi e continua a ser o maior elevador social das crianças e dos jovens que pouco ou, quase nada transportam para a vida social e cidadã que seja de origem familiar. Esperam - eles e as famílias - que a escola lhes forneça dados científicos e valores para que se verifique no futuro, o salto qualitativo para um melhor enquadramento profissional e social a que aspiram;

3     - É na escola que o aluno conhece, aprende, convive, interage e se cultiva através das ciências, das humanidades, da filosofia, das línguas estrangeiras, entre outras aprendizagens e saberes que os programas curriculares e as metodologias didácticas, veiculadas pelo professor, paulatinamente lhe vão transmitindo;

4 - Para além do mais, a escola pública teve e tem a vantagem de ser interclassista. Foi assim num passado não muito longínquo. Tendo funcionado como lugar de encontro homogeneizador de todas as classes sociais das ilhas.

5- Hoje, mais do que nunca, o cidadão consciente clama por uma melhoria substancial na saída do aluno das escolas do país. A fraca preparação, a redutora sabedoria das disciplinas curriculares, a deficiente aprendizagem das matérias nelas incluídas têm feito do nosso aluno um mal sucedido cidadão, quer na sua formação superior, quer depois na sua prática técnico/profissional.

6 – Infelizmente, a continuar assim nesta mediocridade académica, Cabo Verde não progredirá, ao invés, retrocederá.

Cuidemos pois, com prioridade, de uma correcta e proficiente formação do professor para alcançarmos uma boa escola nacional e fazer disso a nossa verdadeira gala! Isto é, o nosso regozijo público!

segunda-feira, 25 de abril de 2022

 


 
Salvé 25 de Abril! Dia da Liberdade e da Fraternidade!..

.Lembrando 1974 e de como erámos jovens, generosos, amigos, cheios de sonhos e de promessas. Uns realizados e outros não…

A todos os amigos presentes e ausentes e aqueles que desta vida partiram, dedico o poema abaixo transcrito de Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa

 "Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
dos tantos risos e momentos que partilhámos.


Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...
do companheirismo vivido.


Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje já não tenho tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.


Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.

Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.


Vamo-nos perder no tempo...
 
Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
perguntarão:
Quem são aquelas pessoas?

Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!

- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
anos da minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...

 
Quando o nosso grupo estiver incompleto...
reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.

E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
daquele dia em diante.


Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
sua vida isolada do passado.

E perder-nos-emos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
deixes que a vida
passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
grandes tempestades...

 
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos
!"

                                                         Fernando Pessoa 



Salvé 23 de Abril! Dia do Professor cabo-verdiano.

sábado, 23 de abril de 2022

 

Comemoramos hoje uma data a todos os títulos importante, o Dia do Professor nacional. Digo importante a todos os títulos, porque coincidente e propositadamente, com a data de nascimento de um Professor e de um dos mais acabados intelectuais que estas ilhas conheceram, Baltazar Lopes da Silva (1907-1989).

Para além disso, esta comemoração simboliza o respeito e o preito de gratidão que nos deve merecer o perfil de professor.

De facto, queremos, desejamos que as nossas escolas, quer estejam implantadas no meio urbano, quer no meio rural, tenham nas salas de aulas um bom professor.

Um professor bem apetrechado em termos didácticos e pedagógicos; um professor que saiba com ciência e com proficiência a disciplina que lecciona; um professor que estude e que leia muito; um professor que comunique com clareza a matéria aos alunos; um professor que respeite a individualidade de cada aluno; um professor provido de ética e de bom senso; um professor capaz de discernir, e de perceber o grau de recepção do seu ensino no aluno.

 Este país, as suas crianças, os seus jovens, estão necessitados, mais do que nunca, de uma escolarização abrangente, esclarecida, científica, filosófica, capaz de os fazer dar o tal salto qualitativo que os tornará cidadãos de pleno e de consciente direito, para que o desenvolvimento da sociedade cabo-verdiana seja conseguido.

Parte significativa de tudo isto cabe e caberá ao professor que no seu mister transmitirá ao aluno as bases, não só para uma socialização respeitadora do próximo, mas também para que este mesmo aluno adquira as bases técnicas, científicas e filosóficas, no fundo, as ferramentas de que necessita para a sua vida futura, tanto no plano profissional, como no plano da cidadania.   

Daí que, Cabo Verde esteja necessitado de um perfil culto e sabedor de professor.

Por tudo isto, e tal como iniciei este escrito, reitero:

Salvé o Dia do Professor cabo-verdiano!

 

 

 

Ah! Como nos Fazem Falta Activistas de Causas Sociais!...

domingo, 10 de abril de 2022

 

É verdade! Fazem-nos muita falta, Activistas de causas sociais aqui nas ilhas.

Para exemplificar diria que necessitamos de Activistas que pleiteassem por uma melhor qualidade de ensino, por uma boa escola pública, em todos os níveis, do básico ao universitário;

De Activistas que defendessem uma melhor Saúde no nosso país, com melhores hospitais, com melhores instrumentos e aparelhos hospitalares, e com melhor atendimento dos pacientes;

Precisamos imensamente de Activistas que tomassem a defesa da diminuição da pobreza; da estruturação da família que sem isso, a sociedade não se equilibra e a desestruturação familiar deixa lacunas irreparáveis na criança;

De Activistas que debatessem a criminalidade, nomeadamente a jovem, entre outras causas sociais desestruturantes que ainda emperram e sufocam o desenvolvimento deste país!

Enfim, na realidade, faz-nos imensa falta o verdadeiro activismo social!

Isto tudo também para dizer que ultimamente temos vindo a assistir a um fenómeno que se tornou bizarro, para não dizer hilariante, que é alguns artistas ou, aqueles que como tal se julgam, se definirem à partida, e sem quaisquer provas dadas, como Activista, e até o  registam nos cartões pessoais, e  em documentos públicos, como se de uma profissão se tratasse! O activista é aquele que inserido num grupo informal luta por uma determinada causa pública. É um voluntariado na efectivação de uma convicção. É acima de tudo, um abnegado voluntário que se entrega e se dedica à defesa de causas nobres. Não uma profissão. E, eticamente, devia ser um reconhecimento público e não uma auto proclamação.

Não é invulgar ver-se e ouvir-se nos diversos meios da comunicação social, redes sociais inclusive, indivíduos que se arvoram em activistas sociais sem que se lhes conheça qualquer acção efectiva e, muito menos a dimensão do seu activismo. Que curriculum vitae apresentam sobre isso, para se arrogarem ao direito de serem considerados activistas?

Quando os vejo em programas televisivos nacionais, questiono: “mas este ou aquela, é activista de quê? O que tem feito para o bem e para a transformação da sociedade para assim se auto-intitular?”

Pensemos - para ilustrar o activismo - na conhecida e justamente célebre, Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa, que defendeu apenas por convicção e dever cívico, o direito das mulheres islâmicas do seu país frequentarem a escola e, com isso, correu sério risco de vida com os talibans da terra dela! Extraordinária! Uma luta pelos seus nobres ideais sem qualquer outra compensação do que a satisfação de os verem realizados.

Mas minha gente! O ser Activista não se resume, não se limita apenas a partilhar ou, simplesmente a aderir a determinadas ideias. Não, o activismo é muito mais do que isso; é uma práxis, é um estado permanente, sustentado numa crença que é conduzida em actividade continuada, para se alcançar determinados objectivos e pressupostos que visam transformar uma determinada situação, uma determinada comunidade, ou uma determinada sociedade.

Por outro lado, e diferentemente desta linha de activismo, vem sucedendo também e com frequência crescente, um fenómeno exótico com determinados artistas que aqui na terra de origem fizeram zero de activismo, de quem não há notícia, nenhum registo, sobre prática activista de qualquer espécie; mal se apanham em país alheio, sobretudo em Portugal, arvoram-se, transformam-se e transfiguram-se imediatamente, em exaltados e em extremados Activistas, e sob essa capa, pretendem até dar lições catedráticas de História, de estatuária pública e de monumentos, de comportamento social, em terra de outrem… Eu sei lá! De tudo e mais alguma coisa! E esta?

Enfim, dão lições aos naturais do país, como se não tivessem os mesmos problemas no seu país de origem e mais soubessem e melhor conhecessem a História, os usos e os costumes do país de acolhimento.

O interessante é que até se esquecem de que vivem e beneficiam de acolhimento amigo, para que a sua carreira se afirme e se internacionalize e para que o seu aperfeiçoamento artístico suba patamares e ganhe melhor “performance? Não será isso que procuram? Não será isso que almejam? Não foi por causa disso que deixaram Cabo Verde?

Afinal, foram à procura na antiga “Metrópole” daquilo que o país de origem não lhes possibilitou para a projecção da carreira artística, na óptica deles, e que o país de acolhimento lhes poderá proporcionar. Daí se compreender, a mudança feita. Ou não será assim?

Mas atenção, meus senhores: como “Activistas,” ponderem bem no estrangeiro, tenham sempre ligado e activado, o vosso auto “desconfiómetro” e pensem sempre assim: “será que  este mesmo problema não existia no meu  país? Será que eu fazia isso no meu país antes de partir em demanda de vida melhor?” Igualmente, por momentos, imaginem também, falando com os vossos botões, o seguinte: “Deixe-me cá ver uma coisa… e se um português ou, outro forasteiro, fosse exigir na minha terra tudo o que eu exijo cá, na terra dele? Como é que eu reagiria?”

Na minha modesta opinião, seria um bom exercício de cidadania e de independência da mente.

Mas antes de terminar gostaria de afirmar que tenho enorme admiração pelo voluntariado activista, em prol de causas sociais e em defesa de objectivos nobres.

Por último, e tal como comecei o escrito, reitero: Ah! Que falta nos faz o Activista  a sério, nestas ilhas!