Cabo Verde e São Tomé e Príncipe: Esquema de uma Evolução Conjunta & Acerca dos Arquipélagos Crioulo

domingo, 3 de março de 2024

                                 Breve Nota de Apresentação

 

«A doutrina segundo a qual o contacto das culturas negras com as europeias provoca o aparecimento de uma civilização nova baseia-se na ideia de que toda a civilização vive de empréstimos. E, daí, infere-se que a colonização, pondo em contacto duas civilizações diferentes, levará a civilização indígena a tomar elementos culturais à civilização do colonizador e que resultará desse casamento uma civilização nova, uma civilização mestiça. O erro de tal doutrina está em que ela repousa sobre a ilusão de que a colonização é um contacto de culturas como qualquer outro contacto e que nela todos os empréstimos se equivalem. A verdade é outra: o empréstimo só é válido quando ele é reequilibrado por um estado interior que o solicite e que em definitivo o integre no sujeito, o qual sujeito, assimilando esse elemento emprestado, o torna seu»

Aimé Césaire – Citado por Gabriel Mariano in “Do Funco ao Sobrado ou o Mundo que o Mulato Criou”


O artigo/ensaio que a seguir se “divulga”, retirado de “Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação” de autoria do insigne investigador Francisco Tenreiro é uma excelente introdução para o leitor interessado no conhecimento da génese, evolução e consolidação das sociedades cabo-verdiana e são-tomense desde os seus achamentos e povoamentos.

O autor começa por situar geograficamente Cabo Verde no seu espaço – oceânico – a que designa por, (transcrevemos) “grupo das Ilhas Atlântidas, [também conhecidas por Macaronésia] uma vez que com os arquipélagos dos Açores, Madeira, Selvagens e Canárias apresenta afinidades biogeográficas estreitas para logo a seguir afirmar: “Cabo Verde, limite meridional das Atlântidas, fronteiro a África, apresenta assim mais traços de semelhança com a Europa e os restantes arquipélagos do que propriamente com aquele continente [África]. (O negrito é nosso)

Francisco Tenreiro não fica por aqui na caracterização do arquipélago. Vai mais longe ao afirmar: “No arranjo dos campos, nas culturas minuciosas susceptíveis de serem cultivadas sempre que chova, no tipo de habitação e na pulverização da propriedade, vinca-se bem a expansão de um «estilo mediterrânico» que ali, no decorrer dos séculos, acabou por enraizar. (O negrito é nosso). Contudo, deixa bem claro que este estilo é um denominador comum do plano da ocupação das Ilhas Atlântidas dos inícios da expansão portuguesa e que se estendeu ao Brasil, Goa e, obviamente, a S. Tomé e Príncipe, mas com muito pouco sucesso.

Sobre S. Tomé e Príncipe diz que dado o tipo climático de carácter equatorial – vegetação densa e cursos de água permanentes – só “através de traços culturais poderão ser aparentados às ilhas Atlântidas”.

Com este pressuposto da ocupação dos dois arquipélagos em estudo que, mau grado essas ocupações terem sido feitas com uma diferença de mais de 20 anos, respeitaram a um mesmo plano de povoamento e fixação e tiveram efeitos muito semelhantes durante alguns anos. Este paralelismo da evolução das sociedades dos dois arquipélagos que se manteve até o primeiro quartel do século XIX sofre uma descontinuidade em que S. Tomé muda de paradigma de desenvolvimento dando lugar a um outro tipo de sociedade, enquanto Cabo Verde continua o seu caminho. O ponto de “divergência” ou de afastamento, é explicado com muita clareza, com uma argumentação simples, mas rigorosa e bem fundamentada. O momento histórico que separa a evolução paralela e idêntica das duas sociedades situa-o, o autor do ensaio – Dr. Francisco Tenreiro  – em 1820,  aparecimento em S. Tomé da cultura do café e 1822 da do cacau, sem contudo deixar de explicitar que “desde a segunda metade do século XVII que S. Tomé e Cabo Verde entrariam em declínio” isto é, quando o nordeste brasileiro se lançou na plantação da cana do açúcar e o algodão da ilha do Fogo, se mostrou, por si só, insuficiente para sustar a queda da economia do Arquipélago.

Para superar a longa crise que desde século XVII assolava os dois arquipélagos, S. Tomé que tinha condições climáticas excelentes para o cultivo do café e do cacau introduz a cultura destes dois produtos altamente rendosos, mas exigentes de uma mão de obra intensiva mudando deste modo a sua estrutura agrária para grandes plantações – exploração do tipo capitalista – e a sua estrutura social com “novos colonos” com outra mentalidade e outra postura e a vinda de um novo surto de escravos, mais tarde, “serviçais”. É o ponto de viragem – estagnação do processo da miscigenação, isto é, cessação da interpenetração social, de quando “as relações entre a sanzala e o sobrado dos brancos eram então mais aconchegadas” – em S. Tomé dando lugar, de acordo com o autor, a “uma sociedade «plural» vários grupos com vida cultural própria, cujos padrões dificilmente transbordam de um grupo para outro; para um lado os nativos ou crioulos (também chamados «filhos da terra»), descendentes das velhas famílias anteriores ao advento do surto capitalista; para outro, serviçais, população flutuante que de Angola, Moçambique e até de Cabo Verde ali vão trabalhar por período limitado de anos; e ainda o grupo europeu, pouco numeroso, constituído por indivíduos que ou ocupam os altos postos da burocracia ou dirigem ou possuem grandes propriedades.” E mais adiante, perante esta estrutura social, o autor diz-nos, de forma peremptória: “Estamos sim, em face de uma estrutura social complexa, de classes raciais,…”

A mestiçagem considerada por Francisco Tenreiro como resultante de um dos pontos do “Plano da ocupação e fixação das Ilhas” cedo teve início por aquilo que ele designou de “tolerância rácica” e que, ainda segundo ele, “se traduziu num processo acelerado de mestiçagem;”. Na verdade, não só se verificou a tolerância rácica como houve, no caso de Cabo Verde, orientações precisas da sua incentivação quando “são os próprios Reis que recomendam, a fim de as ilhas se povoarem, que os homens brancos e sem família «tomem de suas escravas uma»".

A abordagem do processo de desenvolvimento e mestiçagem das ilhas do Oceano Atlântico é retomada, ainda nesta brochura, como um certo complemento do ensaio que vimos apresentando com um texto do mesmo autor intituladoAcerca dos Arquipélagos Crioulos”, com uma abrangência que pretende cobrir as principais ilhas do Atlântico. Compara a população de cada uma das ilhas, a geografia e o tipo de ocupação e desenvolvimento de uma forma mais física do que cultural sem, de todo, abdicar desta particularidade. E é o próprio autor que nos alerta para a natureza da abordagem quando diz:Repare-se, porém, que se está em presença da generalização «fisionómica» que despreza os processos aculturativos a que as populações arribaram nas diferentes ilhas.”  

Acerca de S. Tomé e Cabo Verde volta a concluir: “Seja como for, o arquipélago de Cabo Verde e as ilhas de São Tomé e Príncipe são «familiares» graças a um passado de colonização que, por comum, levou à constituição de uma sociedade crioula peculiar.”

Essa “sociedade crioula” mestiçagem merece-nos uma referência, se não mais profunda, pelo menos um pouco mais clara – génese e desenvolvimento – uma vez que se trata de um tema que vem sendo objecto de alguma atenção alargada, e que, de certa forma, bole com a nossa identidade, a nossa cabo-verdianidade, merecendo, deste modo, particular cuidado a sua evolução e estabilização.

Encimamos esta nossa apresentação com uma “tese” de Aimé Césaire sobre o tema, apresentado no ensaio «Culture et Colonisation» no “Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros” em Paris (Sorbonne) em 1956. Trata-se de uma formulação generalista que não teve em consideração as particularidades de cada território e que, sendo tomada à letra significa, do ponto de vista de Gabriel Mariano que, “a colonização falhou como possível instrumento de criação em África de uma cultura mestiça” uma vez que é o próprio A. Césaire a concluir que “a colonização tem provocado não uma harmonização, mas antes uma justaposição de culturas”.

Segundo Nietzsche, «cultura é, antes de mais nada, a unidade do estilo artístico em todas as manifestações vitais de um povo». E de acordo com G. Mariano, ela é sempre uma expressão unitária e homogénea de elementos [heterogéneos] que se harmonizam e se revelam depois sem conflitos e sem desajustamentos na sua dinâmica mais íntima. Mas o fundamental, ainda segundo G. Mariano, é que esses elementos heterogéneos sejam «sentidos interiormente como uma unidade».

Debruçando com alguma atenção sobre a tese de A. Césaire verificamos que ela tem subjacente uma cultura nativa ou indígena preexistente que resistirá à do colono criando mecanismos de rejeição. É uma tese que de certa forma está impregnada de uma certa ideologia.

Não é, nos seus fundamentos, seguramente, o caso de Cabo Verde em que o colono e o colonizado se encontram, culturalmente, numa posição equivalente. Tanto mais, tendo em conta que os negros felupes, jalofos, balantas, papeis e bijagós entre outros não constituem, à partida, uma ‘comunidade cultural’, mas sim, apenas, rácica. E é isto que leva G. Mariano a afirmar que “em Cabo Verde “o processo aculturativo desabrochou no florescimento de expressões novas de cultura, mestiças «desde as suas origens mais remota»; que no arquipélago puderam o negro e o mulato apropriar-se de elementos de civilização europeia e senti-los como seus próprios, interiorizando-os e despojando-os das suas particularidades contingentes ou meramente específicas do europeu.” (o negrito é nosso) A este respeito, Alberto Carvalho no seu prefácio à obra “Cultura Caboverdeana – ensaios” de Gabriel Mariano, corroborando F. Tenreiro quando este afirma que “a forma ampla como se planeia o povoamento, cedo se desencadeia a mestiçagem, e com a troca de sangues a troca também de padrões culturais”, acrescenta:Enquanto prosseguia a miscigenação sanguínea que gerava o crioulo biológico, em crescimento progressivo e em continuado acesso à posse de bens materiais, negros e brancos todos se iam transformando em crioulos culturais. (O negrito é nosso) Por isso, G. Mariano – ainda de acordo com A. Carvalho – pôde afirmar que “o mestiço protagonizou em Cabo Verde o papel dinamizador que, nas Áfricas, pertenceu ao português e, no Brasil, ao reinol. Isto, na esteira do que F. Tenreiro já havia concluído neste seu ensaio: Porém, em nenhuma outra parcela do território português ultramarino, o homem, fruto de um caldeamento de raças e instituições, soube encontrar o «seu caminho» como em Cabo Verde.”

 Parece-nos pertinente, registar que este “caminho” não foi resultado de uma planificação, ou de actos de governação, mas de condicionalismos e circunstâncias várias, de onde se destacam, a escassez de condições agrícolas – terra e regime de chuvas – que terá desencorajado a emigração intensiva de colonos europeus bem como a instalação do sistema de monocultura com a introdução de grandes plantações exigindo mão de obra intensiva; forte mestiçagem devida à falta de mulheres brancas, a que se junta a moral sexual do português; o isolamento e a reduzida dimensão “quase familiar” das ilhas; e, para culminar, “um certo abandono administrativo a que as ilhas foram votadas durante algum tempo”. A tudo isto se deve juntar de acordo com o investigador/sociólogo João Lopes, “as secas e os ataques dos piratas, levando brancos, negros e mulatos, a embalar fraternalmente a trouxa e a procurar refúgio no interior das ilhas.” facilitando deste modo o desenvolvimento da chamada “democracia étnica e social”. (O negrito é nosso)

Mas a miscigenação e a ascensão social do negro e do mulato não foram feitas em todas as ilhas com a mesma velocidade. Em S. Tiago onde prevalecia o “latifúndio” e consequentemente o morgadio e o engenho, a mestiçagem era a mais reduzida do Arquipélago, mais precisamente, chegou a ser a única ilha onde a percentagem de mestiços não era maioritária. Em todas as outras ilhas, designadamente as de Barlavento, o mestiço era maioritário e praticava-se o minifúndio – pequenas propriedades, do tipo hortas e jardins – e o mestiço já era maioritário e as relações entre o dono da propriedade e os serviçais eram muito estreitas assumindo, por vezes, configuração “familiar”.  As propriedades eram tão pequenas que se dizia – Investigador João Lopes numa feliz imagem – que mal se podia. “abrir os braços para não atingir o vizinho.” Deve-se aqui ter em conta a “mobilidade vertical” fruto da democracia social e étnica que permite ou faculta um certo trânsito de indivíduos ou famílias na escala hierárquica social, o que faz com que qualquer indivíduo durante a sua vida possa pertencer a diversas classes (escalões) sociais independentemente da cor da sua pele ou das circunstâncias do seu nascimento.

Segundo Baltazar Lopes da Silva “esta mobilidade vertical tirou em Cabo Verde qualquer sentido ou conceito de raça. Assim a “gente branca” tão corriqueira no arquipélago, não significa gente etnicamente branca, mas sim gente que ocupa bons lugares na escala social.”

É oportuno aqui salientar que a verdadeira ascensão do negro e do mestiço fez-se pela via da actividade mercantil, económica, que se acentuava à medida que se tornava cada vez mais difícil a sustentação do regime de  “escravaria”. E, com a ascensão económica adveio a aristocratização intelectual, que se tornou num elemento muito importante da sociedade que se consolidava e se estabilizava no Arquipélago.

Sobre a aristocratização intelectual, seria bom aqui fazer referência ao papel da igreja no ensino e na educação das crianças antes do aparecimento da Escola pública e do Seminário-Liceu em 1866. A este propósito – aristocratização intelectual – temos as célebres observações já conhecidas do padre António Vieira numa carta dirigida ao padre António Fernandes, confessor do Príncipe D. Teodósio, em 1652, aquando da sua estadia em Cabo Verde – 20 a 26 de Dezembro de 1652 – mais precisamente, na então Vila da Ribeira Grande que dizia:

Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais.” (o negrito é nosso)

Esta observação é deveras importante porque já no séc. XVII – muito antes da abolição da escravatura – a aristocratização intelectual já se afirmava não só no conhecimento como também na música, como bem se referiu o padre António Vieira que também se aludiu ao Arquipélago como terreno propício à aceitação e interiorização do cristianismo através das palavras nessa já citada carta que a seguir transcrevemos:

e todas elas [Ilhas] estão em extrema necessidade espiritual; porque não há religiosos de nenhuma religião que as cultivem, e os párocos são mui poucos e mui pouco zelosos, sendo o natural da gente o mais disposto que há, entre todas as nações das novas conquistas (*), para se imprimir neles tudo o que lhes ensinarem.  São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos Europeus.  Têm grande juízo e habilidade, e toda a política que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que ensina a natureza. (O negrito é nosso). Assim crescia a nação cabo-verdiana mestiça de matriz cultural preponderantemente europeu, rumo a consolidação e estabilização.

Desta forma, quando, nos anos 50 do século passado a elite africana das colónias portuguesas vivendo em Portugal toma a consciência que desconhece a sua terra de origem, a língua dos seus ascendentes, a história e a cultura dos mesmos, lança-se à procura das suas fontes, das suas raízes, da sua identidade perdida algures no cruzamento da história que os liga aos colonizadores fazendo apelo ao que chamam reafricanização dos espíritos. A reafricanização dos espíritos outra coisa não era do que quebrar a “máscara branca”, expressão utilizada por F. Fannon para simbolizar a “alienação” provocada pelo colonialismo.

Não obstante algumas dúvidas levantadas quanto à posição de Cabo Verde sobre o assunto, parece-nos que só por solidariedade ou por calculismos ideológicos poderá constituir-se num dilema para os cabo-verdianos.

E este dilema, a nosso ver, foi resolvido com simplicidade e pragmatismo por Baltazar Lopes da Silva (Prefácio para “A Aventura Crioula” de Manuel Ferreira – Lisboa – Plátano,1985) da maneira que assim transcrevemos:

“Tenho por mim que, de forma expressa ou de maneira latente, se tem geralmente posto o “problema” de Cabo Verde (quando nele se pensa) em termos erradamente dilemáticos: há que optar, para a “definição” do “problema” por um de dois termos irredutíveis: Europa ou África.

Sim, porque nos dizem, a nós das ilhas:

Se vocês “não são de África”, o que é que são?  Europa?

Ou, inversamente, mas creio que muito mais raramente:

Se “não são Europa”, o que são?  África?

Claro que a mesa assim posta não deixa liberdade nenhuma ao conviva, que possivelmente se retrairá de anunciar a única verdade etnológica:

Nem uma coisa, nem outra, somos cabo-verdianos.

Na verdade, o cabo-verdiano nunca andou à procura das suas raízes. Elas eram evidentes: Fruto da aculturação e do renascimento de novas expressões de cultura, mestiça “desde a sua origem mais remota”, que o negro e o mulato se apropriaram da civilização europeia adaptando-as ao despojá-las das suas especificidades e particularidades europeias, interiorizando-as, passando deste modo a senti-las como suas pertenças. Não tinha saudades nem das grandes florestas africanas que nunca conheceu nem dos grandes monumentos e centros urbanos que também ignorava. Parafraseando G. Mariano, tinha a sua língua falada por todos; o seu folclore poético, musical e novelístico; a sua culinária; os seus motivos de recreio; o seu folclore das advinhas, dos provérbios; os seus festejos populares; as suas superstições, hábitos, esquemas de comportamento.

E quando as elites africanas das colónias portuguesas lançaram mão, na esteira de Aimé Césaire, Leopold Senghor e Cheik Anta Diop de afirmação de uma literatura própria através do movimento literário “Negritude”, em 1952, com o lançamento de «Os Cadernos da Poesia Negra de Expressão Portuguesa»” por Francisco Tenreiro e Mário de Andrade, já Cabo Verde «tinha fincado os pés na terra» com o lançamento – 1936 – do “Movimento Claridade” autonomizando, “nacionalizando”, a sua literatura – romance, poesia, contos, ensaio – tratando os problemas específicos de Cabo Verde não à procura das suas raízes mas, sincronizando e sintonizando com esses problemas.

Não temos, pois, de procurar as nossas raízes nem em África nem na Europa porque “Nós Somos as Nossas Raízes”.

A leitura dos Ensaios de Francisco Tenreiro é bastante elucidativa a este propósito e, por isso, parece-nos oportuna a sua divulgação.

A. Ferreira

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Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe:

esquema de uma evolução conjunta

Pelo Dr. Francisco Tenreiro

É costume ao estudar-se o arquipélago considerá-lo dentro do grupo das Ilhas Atlântidas, uma vez que que com os arquipélagos dos Açores, Madeira, Selvagens e Canárias apresenta afinidades biogeográficas estreitas1. De facto, apesar das diferenças climáticas que distinguem e dão feição particular a cada arquipélago, por todos eles é possível encontrar plantas comuns ao Mediterrâneo ou à Europa oceânica que lhes imprimem tonalidade semelhante. Cabo Verde limite meridional das Atlântidas, fronteiro a África, apresenta assim mais traços de semelhança com a Europa e os restantes arquipélagos do que propriamente com aquele continente [África]. De África recebeu Cabo Verde algumas plantas do Sul do Saará e da floresta tropical; e, em certo período do ano, também de lá vem o bafo do harmatan, que instala a aridez pelas vertentes das Ilhas já de si escalvadas. É isso, talvez, que leva o turista a julgar-se em terra tipicamente africana; isso e o tom geral, negro das suas populações. Será preciso descer ao fundo dos vales que as ilhas escondem, para que ressalte a pátina euro-atlântica que os olhos se acostumaram a notar nos arquipélagos situados mais a norte. Até mesmo as populações podem surpreender o observador desprevenido. Se a tonalidade de pele é escura, as relações que os homens mantêm com a terra fazem lembrar aquelas outras que os camponeses de Mediterrâneo estabeleceram com o solo que cultivam.

No arranjo dos campos, nas culturas minuciosas susceptíveis de serem cultivadas sempre que chova, no tipo de habitação e na pulverização da propriedade, vinca-se bem a expansão de um «estilo mediterrânico» que ali, no decorrer dos séculos, acabou por enraizar. É claro que este estilo à escala mediterrânica tem alicerces no início da expansão portuguesa. É um denominador comum de todas as ilhas Atlântidas, donde como que transbordou para algumas regiões do Brasil e para Goa, fundamentalmente.

Nas ilhas de S. Tomé e Príncipe a ocupação seguiu ritmo idêntico que só em época recente seria substituído por outro, que hoje confere a estas ilhas características originais que as individualizam. Com tipo climático e regime de chuvas quase equatorial, estas ilhas de vegetação densa e de cursos de água que nunca secam, só através dos traços culturais poderão ser aparentados às ilhas Atlântidas. Só no ritmo cultural inicial, ligado à expressão portuguesa, se podem encontrar os elementos de semelhança que importa considerar.

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A ocupação destes dois territórios faz-se com a diferença de vinte e cinco anos.2 Porém, o plano que preside ao povoamento apresenta bases comuns e que se podem sintetizar em alguns pontos: – plano de colonização que visava ao povoamento e fixação, o mais rápido possível, de moradores nas ilhas a que logo se seguiu a introdução de escravos negros; tolerância rácica que se traduziu num processo acelerado de mestiçagem; oscilação económica entre a tendência para um mercantilismo baseado em culturas rendosas e a do desenvolvimento de uma agricultura minuciosa e de subsistência à escala portuguesa; transplantação para os trópicos de sistema de trabalhar a terra e de arranjar os campos segundo os padrões portugueses; tentativa subsequente de introdução de plantas alimentares do Mediterrâneo; introdução de plantas alimentares oriundas de outras regiões do globo que permitiram o desenvolvimento de populações numerosas3; adaptação às condições do ambiente de um tipo de habitação extra-tropical (casa quadrangular); cultivo de plantas comerciais que desenvolveram ciclos económicos que se resolveram em soluções sociológicas idênticas por toda a parte – na Madeira e nos Açores, em Cabo Verde e em S. Tomé, como também no nordeste do Brasil.

Em algumas das recomendações entregues aos primeiros donatários e nas muitas mercês que os primeiros moradores recebem dos Reis de Portugal, estamos em presença de uma vontade esclarecida, norteada pela ideia de colonizar dentro das normas culturais tradicionais metropolitanas. O surto inicial do processo da colonização é do tipo «dirigido», se bem que acientífico por desconhecimento das realidades da natureza daquelas paragens. É assim que se tenta na Ilha de S. Tomé a aclimatação do trigo e da vinha, de árvores como a oliveira, o pessegueiro, e a amendoeira que embora crescendo nunca chegavam a dar fruto; também para Santiago se leva a maioria das plantas do Mediterrâneo, que dadas as condições de clima, mais favorável, chegam a frutificar. Na Ilha do Fogo, por exemplo, é possível encontrar hoje várias árvores de fruto, como a figueira, a alfarrobeira, a macieira, o marmeleiro e a romanzeira; e ainda várias hortaliças e plantas aromáticas de Portugal.4

Facto de maior transcendência social foi a introdução das culturas da cana-de-açúcar e do algodão. Aquela, traço comum a S. Tomé e a Cabo Verde, de origem exótica e que os árabes teriam possivelmente cultivado já no sul de Espanha, e que daqui ou da Sicília foi trazida para Portugal, chegou a cultivar-se no século XIV no Algarve e nos campos do Mondego. Por vontade do Infante Dom Henrique foi levada para a Madeira e daí terá irradiado para os Açores, Cabo Verde e S. Tomé. «Mestres» de açúcar madeirenses vêm estabelecer-se em Cabo Verde, onde a cana foi levada para S. Tiago, e em S. Tomé. Das margens dos ribeiros de maior caudal, não longe dos trapiches e dos alambiques, se evolaria o cheiro pesado do melaço. Tanto a cana do açúcar como o algodão, plantado especialmente na Ilha do Fogo5, exigiam uma mão de obra numerosa; por causa delas tomaria incremento a fixação de escravos.

Levados para todos os arquipélagos, deles não há hoje mais do que ténues vestígios nas ilhas da Madeira e nos Açores, ao contrário do que acontece em Cabo Verde e em S. Tomé. É esta forte cor africana, que se liga a um processo económico e sociológico, um dos elos que mais estreita estes dois arquipélagos.

Para Cabo Verde vão os negros das regiões da Guiné, felupes, jalofos, balantas, papeis, e bijagós e para S. Tomé gente do Benin, do Congo, Gabão e Angola, pontos costeiros que lhes ficavam mais próximo. Dada a escassez de moradores e a forma ampla como se planeia o povoamento, cedo se desencadeia a mestiçagem, e com a troca de sangues a troca também de padrões culturais. Por vezes até são os próprios Reis que recomendam, a fim de as ilhas se povoarem, que os homens brancos e sem família «tomem de suas escravas uma»6 A população crioula desenvolve-se assim; as mulheres negras adoçam as arestas de uma desigualdade de condições sociais, entre brancos e negros, e de um regime retintamente de escravidão se passa a um regime de servidão.7 O servo se bem que limitado, pode já participar como parte consciente, isto é, como colono, da evolução económica das ilhas. Em Cabo Verde e em S. Tomé os grupos desgarrados de africanos aceitam o catolicismo e criarão um linguajar, fluente e rico, que perdurará até os nossos dias – fenómenos complexos de «aculturação» que, no primeiro caso traduzem uma «aceitação» e no segundo como que um tipo especial de «sincretismo»8.

Nesta nova situação irá o africano estimular, ou mesmo fomentar a policultura, por oposição à tendência monocultural do açúcar e do algodão; serão eles os iniciadores nas ilhas daquelas poucas culturas de plantas africanas que hoje por lá se encontram: o milho zaburro, o fundo, o inhame e possivelmente o feijão congo e a mancarra9

As relações entre a sanzala e o sobrado dos brancos era então mais aconchegada do que é hoje a estabelecida entre a sanzala dos serviçais e a casa da administração das roças de S. Tomé.

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A história sociológica dos dois arquipélagos, embora levemente desfasada, apresenta aspectos e vicissitudes idênticas até meados do século XIX. Desde a segunda metade do século XVII que S. Tomé e Cabo Verde entrariam em declínio. A prosperidade do açúcar que ajudou a criação da sociedade crioula entrou no seu ocaso logo que o nordeste brasileiro se lançou à plantação da cana. Só por si o algodão, que da Ilha do Fogo se chegou a exportar para as Canárias, e os rudimentos episódicos da urzela10 e do sal, não foram suficientes para obstar a decadência. O mesmo não se poderá dizer do tráfico da escravatura que se continuou até meados do século XIX.

As questões de ordem particular a cada arquipélago são elementos, que embora de considerar, não são relevantes perante dois factos fundamentais: a dominação dos Felipes e o desvio dos interesses portugueses para o Brasil, com o sacrifício de todas as possessões portuguesas em África. Em contrapartida, estabelecer-se-iam relações entre os arquipélagos e aquela outra Ilha Grande, na expressão curiosa, diria mesmo sociológica, de Ribeiro Couto. De S. Tomé emigram os primeiros proprietários de canaviais, que levam consigo os alambiques e até as telhas dos engenhos. Mais tarde, as relações estreitar-se-iam e todas as famílias ilustres de S. Tomé se orgulhariam de ter filho preto ou mulato ordenado padre na Baía. Em Cabo Verde, território que já devia ao Brasil a planta base da alimentação das suas populações o milho maiz –, fenómenos semelhantes se passariam.

Entretanto, abandonadas sobre si próprias, as populações vivem quer assediadas pela pirataria desenfreada do século XVII, quer enrodilhadas em lutas internas de mando, numa anarquia de que se têm relatos muito circunstanciados se bem que enfadonhos.

Seja como for, é dessa sociedade anárquica de há pouco mais de cem anos que a pouco e pouco emerge a estrutura social de Cabo Verde de nossos dias. Sociedade que na maioria dos seus traços evidencia ainda o surto colonizador português dos séculos XV e XVI. Pela leitura de três belas páginas de H. Teixeira de Sousa publicadas na Revista Claridade, poderá verificar-se que o processo de estabilização ainda não terminou11. Porém, em nenhuma outra parcela do território português ultramarino, o homem, fruto de um caldeamento de raças e instituições, soube encontrar o «seu caminho» como em Cabo Verde. Basta para tanto só pensar no movimento literário da Claridade, nos poetas, contistas e romancistas de mérito que nos deu já… Nem mesmo as fomes grandes, que desde o século XVIII e por todo o século XIX assolaram as ilhas, conseguiram quebrantar o homem crioulo, roubando-lhe as energias para adaptação ao meio áspero das suas ilhas.

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Em S. Tomé, a resolução deste longo período de crise tomaria outro rumo, dependente da introdução das culturas do café (1820) e do cacau (1822).

Descobertas as condições climáticas excelentes para aquelas culturas, novo surto de colonos portugueses chega às ilhas do Golfo da Guiné: a mentalidade destes homens é agora outra e opõe-se à dos homens de quinhentos e seiscentos. Lançam-se as bases das grandes explorações agrícolas do tipo capitalista, retalha-se na terra o mosaico das grandes propriedades, quantas vezes usurpadas de forma menos digna aos seus legítimos proprietários: aquelas muitas famílias, mais ou menos mestiçadas, oriundas dos primeiros colonizadores brancos e negros. Novos trabalhadores são recrutados em África; entram ainda como escravos e mais tarde na condição de contratados (serviçais); e, a par de todas as perturbações e dificuldades criadas com a abolição da escravatura, as roças de S. Tomé progridem em detrimento de uma sociedade crioula e numerosa, tornada desinteressada por um trabalho que, para a sua maneira de ver, cheirava ainda ao suor dos negros do tempo da escravaria. O ritmo evolutivo, já de si periclitante, da sociedade crioula de S. Tomé como que para.

Hoje, a estrutura social da ilha é o de uma sociedade «plural» – vários grupos com vida cultural própria, cujos padrões dificilmente transbordam de um grupo para outro; para um lado os nativos ou crioulos (também chamados «filhos da terra»), descendentes das velhas famílias anteriores ao advento do surto capitalista; para outro, serviçais, população flutuante que de Angola, Moçambique e até de Cabo Verde ali vão trabalhar por período limitado de anos; e ainda o grupo europeu, pouco numeroso, constituído por indivíduos que ou ocupam os altos postos da burocracia ou dirigem ou possuem grandes propriedades12. Numericamente superiores, os filhos da terra têm uma vida marginal; só uma pequena percentagem está ainda de posse de minúsculas propriedades ou ocupa lugares de relativo relevo na burocracia local.

Eis o que a este respeito nos diz um observador meticuloso como Orlando Ribeiro: «Em Dezembro de 1951, na cidade de S. Tomé, assistimos a um desafio de foot-ball entre… brancos e pretos: estes jogavam melhor mas com timidez; numa procissão na festa do padroeiro da cidade, incorporaram-se apenas pretos e mulatos; uma senhora branca acreditava que os seus criados negros sujavam as coisas em que tocavam com uma espécie de suor que tinham nas mãos!; e lamentava que, nas numerosas festas da cidade, aparecessem, misturadas com a gente branca, senhoras de cor, naturais da ilha e casadas com europeus»:

A excepção do depoimento da senhora branca («branco fino» como dirão os naturais de S. Tomé com ironia) cujas afirmações escapam a qualquer tipo de classificação, os dois primeiros exemplos são na realidade relevantes, e ilustram bem quanto os diferentes grupos sociais se individualizam sob o ponto de vista da cultura. Não estamos aqui, porém, perante um mero e simples caso de racismo.

Estamos sim, em face de uma estrutura social complexa, de classes raciais, algo de comparável com o que se passa em certos meios rurais do Brasil13

Como é diferente esta estrutura da de Cabo Verde, mesmo quando se possam apontar casos como aquela cena de pancadaria, entre «mulatos» e «mestiços» em dia de procissão, na ilha do Fogo, vai para mais de vinte anos!14

Estas estruturas tão diferenciadas são reflexos de organizações diversas: em Cabo Verde, predomínio da policultura de subsistência sobre as culturas altamente rendosas; predomínio da pequena propriedade em oposição à propriedade gigante (a Roça) das ilhas de S. Tomé e Príncipe15. Em Cabo Verde, a estrutura contemporânea assenta em bases que evoluíram do seculo XVI até a actualidade – o campo das ilhas é uma réplica do campo português; em S. Tomé, criou-se a plantação, algo de original e artificial – nem português nem africano.

Cabo Verde é, sem dúvida, o limite sul da transplantação da cultura portuguesa nos arquipélagos. Estamos em presença de uma «adjacência» que resultou muito mais da irradiação da cultura portuguesa, em bloco, para o arquipélago, do que propriamente de um processo lento de assimilação.

Em S. Tomé, pelo contrário, vicissitudes históricas e económicas imprimiram na segunda metade do século XIX um rumo diferente ao das outras ilhas portuguesas no Atlântico. Mais do que diferenças climáticas ou de ambiente, foi a vontade dos homens que talhou o seu destino e fizeram destas ilhas um caso à parte, original, entre todas as províncias ultramarinas portuguesas.

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Ao tentar esboçar a evolução conjunta dos arquipélagos de Cabo Verde e de S. Tomé e Príncipe tive por bem sacrificar pormenores referentes a cada ilha de per si. O desenvolvimento da ocupação portuguesa nas ilhas de Cabo Verde fez-se por surtos, que aliados às condições fisiográficas e climáticas próprias a cada uma delas, lhes confere especializações e paisagens culturais diferentes. A ilha de santiago, a primeira a ser ocupada, e de certa maneira a ilha do Fogo, foram as que nos serviram de base a estas reflexões. S. Tomé e Príncipe, salvo vicissitudes históricas de pouca curiosidade para o caso, tiveram evolução conjunta. Só assim era possível, sem o perigo de desvios de mera erudição, esquematizar as vigas mestras das estruturas dos dois arquipélagos. Em trabalho futuro, de maior fôlego, deverá, no entanto, ser considerada a diversidade «fisionómica» de todas as ilhas. Para tanto, será necessário que à semelhança do que o Prof. Orlando Ribeiro acaba de fazer para a ilha do Fogo, se elaborem as monografias das restantes ilhas crioulas.

 

Dezembro de 1955

 

In “Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação” Nº 76 de 1 de Janeiro de 1956

 

A N O T A Ç Õ E S

 

1 Ilhas Atlântidas - arquipélagos que no Atlântico, e em frente ao «Velho Mundo» se estendem entre 15 e 40, de latitude norte.

2 As ilhas de Cabo Verde foram descobertas desde 1460 a 1462. Possivelmente por duas vezes. O primeiro núcleo de povoadores chegou à ilha de Santiago em 1461. A ilha de S. Tomé descoberta em 1471, recebeu os primeiros colonos depois de 1485.

3 Algumas plantas que teriam papel predominante no desenvolvimento das populações: o milho maiz e a mandioca, introduzidos do Brasil; a batata-doce e algumas espécies de feijão e favas, do Oriente.

4 Orlando Ribeiro – A Ilha do Fogo e as suas erupções. (trabalho no prelo)

5 Dada a topografia da Ilha do Fogo, os ribeiros, sem fundos largos, não se prestavam à cultura da cana sacarina. O Fogo especializa-se assim, ao contrário de Santiago, na cultura do algodão.

6 Em contrapartida, no século XVII, pretende-se extinguir a «raça dos mulatos», degredando-se para Cabo Verde, as mulheres de Portugal que se costumavam mandar para o Brasil. Em 1620 o número crescente de mestiços supunha-se ser a causa do declínio das ilhas…

7 Isto nada tem que ver com a continuação do tráfico da escravatura; é precisamente o tráfico uma das poucas fontes de receita quando a prosperidade dos arquipélagos entra em crise. Há pois, que imaginar uma sociedade complexa, onde brancos e mulatos se dedicavam ao tráfico, onde alguns dos negros excravos se transformariam em servos enquanto outros «armazenados» aguardariam o embarque para outros pontos do mundo necessitados dos seus braços.

8 Ver acerca de dialectos crioulos os excelentes artigos de Baltazar Lopes publicados na revista Claridade (Uma experiência românica nos trópicos)

9 Francisco Tenreiro: Descrição da ilha de S. Tomé no século XVI in Garcia de Horta, 1.53

10 Em 1469 inicia-se o comércio da urzela, descoberta em Santiago por dois negociantes de Sevilha.

11 Henrique Teixeira de Sousa: Estrutura social da Ilha do Fogo em 1940 in Revista Claridade

12 Francisco Tenreiro: A agricultura na Ilha de S. Tomé, etc. 1952

13 Ver Ch. Wagley  e outros: Race et Classes dans le Brésil rural. Unesco s/d

14 H. Teixeira de Sousa, ob. Cit.

15 É certo que na ilha do Fogo a cultura rica do café foi também introduzida nos primeiros anos do século XIX (parece que teria sido cultivado, pela primeira vez, na ilha de S. Nicolau nos últimos anos do século XVIII). Esta cultura vem adaptar-se a estrutura rural, já tradicional, da ilha. É ao contrário do que se passa em S. tomé, uma cultura de pequenos proprietários. Além do mais, é cultura que está hoje em franco declínio.


 

RESUMO BIOGRÁFICO

 

Francisco José de Vasques Tenreiro é, sem favor, um dos reais valores da moderna geração de estudiosos e intelectuais portugueses.

Nascido na ilha de S. Tomé em 20 de Janeiro de 1921, muito novo foi para a Metrópole, onde cursou os Liceus, frequentou a Politécnica e a Faculdade de Letras e se diplomou pela antiga Escola Superior Colonial.

Apesar de ter vivido quase sempre na Metrópole onde se fixou e constituiu família, ficou eternamente preso à sua querida África.

Com efeito, apaixonado pelos problemas do continente africano e do homem negro, tem-lhes consagrado o melhor da sua vida.

Poeta de sincera inspiração, o autor da «Ilha do Nome Santo» pode justamente considerar-se um dos que, entre nós, mais expressivamente representou a «negritude» na Literatura Portuguesa dos nossos tempos.

Foi funcionário do Quadro Administrativo do Ministério do Ultramar e presentemente é professor assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde, em substituição do grande Professor Doutor Orlando Ribeiro, está incumbido da regência de várias cadeiras, entre os quais as de Geografia Colonial e Geografia Humana (Parte prática).

Em 1950, como delegado do Ministério do Ultramar, assistiu a um curso de férias, sobre assuntos coloniais, realizado na Universidade de Cambridge e no qual tomaram parte activa o Professor V. T. Harlow, J. M. Martin, Sir Hilton Poyton, Mr. A. Gaitskell, Mr. Bouteille (Director de L’École de la France e d’Outre-Mer), Sir Ralph Forse e Mr. A. Campbell.

Em 1954 e 1955, como bolseiro do British Council e do Ministério do Ultramar, estagiou na London School of Economics and Political Science – University of London, onde, sob a direcção do distinto Professor Dr. Harrison Church, estudou Geografia Colonial, tendo também frequentado cursos de Administração Colonial Comparada. Fez, então, um curso brilhantíssimo, tendo sido muito apreciados os seus trabalhos sobre o cacau na África Ocidental, especialmente na Nigéria e na Costa do Ouro.

Muito nos honramos com a presença nas nossas páginas de Francisco Tenreiro e… esperamos que cumpra a sua promessa de não nos faltar com a sua colaboração tão desejada e tão valiosa…

In “Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação Ano VII – Nº 76 de Jan. 1956

 

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Acerca dos arquipélagos crioulos

Por Francisco Tenreiro

De comum o tom moreno, mestiçado, das gentes. Mas, mais que a tonalidade é um passado cultural que os assemelha sendo abundantes os traços que, num e outro arquipélago, se repetem não obstante natureza diversa; o fundo do quadro é em Cabo Verde o ar escalvado das linhas gerais do relevo que escondem dos olhos a verdura de algum vale por onde corre água; é, nas ilhas do Golfo da Guiné, com a insignificante excepção de Ano Bom, a loucura do verde que esmaga e ilude as obras dos homens. Factos que advêm da posição dos arquipélagos: um, limite meridional das Atlântidas, quase tão europeu como africano, e outro, enganchado no amplexo do Golfo da Guiné, nitidamente africano.

No conjunto, as ilhas foram descobertas na segunda metade do século XV embora as mais meridionais cerca de dez anos mais tarde. Achadas e povoadas pelo mesmo povo, para lá se transplantaram também negros da África Ocidental aqueles que em terra firme estavam mais próximos: guinéus num caso, gente da margem do golfo no outro, como por exemplo gabões.

Só uma ilha, certamente por mais próxima do continente, seria já povoada – a Formosa que mais tarde se chamaria de Fernando Pó. Por isso, ou por encontrar-se profundamente engolfada, Fernando Pó tardiamente mereceu a atenção dos portugueses que, aliás, logo a cederam a Espanha em troca de facilidades territoriais na América do Sul. Não obstante, muitos dos traços da estrutura social «fernandina» serem hoje semelhantes à de São Tomé, na minúcia dos padrões de cultura mostram-se muito diferentes.

O bubi como o fernandino de Santa Isabel pouco têm de comum com os «filhos da terra» de São Tomé, na sua generalidade descendentes dos povoadores brancos e pretos dos séculos XV e XVI. Sem dúvida que se regista em alguns arquipélagos atlânticos sucessão de elementos sociais que os aproxima, seja em Cabo Verde ou nas Antilhas ou ainda nas ilhas do Golfo da Guiné, que reduzem-se a dois: existência de populações crioulas nem sempre estabilizadas e uma organização de espaço em torno de culturas lucrativas de maior sucesso num ou noutro lugar conforme as vicissitudes da história e até os retoques que uma ambiência diferente pode produzir. Por todas as ilhas a cana do açúcar, o algodão, o café ou cacau, foram as alavancas propulsoras da fixação dos homens à terra e que atraindo africanos deram origem a populações mestiças. Sendo assim compreende-se que se possa falar em arquipélagos crioulos e se compare, como fez Lyall, as ilhas de Cabo Verde com as Antilhas. Por outro lado, se encontram, apesar da não existência de populações crioulas, ecos de um mesmo sistema de organização de espaço em arquipélagos extra-tropicais como os da Madeira e dos Açores.

Repare-se, porém, que se está em presença da generalização «fisionómica» que despreza os processos aculturativos a que as populações arribaram nas diferentes ilhas. Enquanto que em Cuba, como o demonstrou Fernando Ortiz, se chegou a um «mosaico cultural» e a algumas formas de «compromisso» (sincretismo religiosos, por exemplo) em Cabo Verde e em São Tomé as populações tenderam para a estabilização resultante de assimilação dos diferentes elementos culturais em jogo.

Há hoje elementos que demonstram como a expansão portuguesa consistiu essencialmente na transplantação de um estilo de vida de cerne mediterrâneo para os trópicos. Padrões que se introduzem integralmente tais como os instrumentos de farinar cereais que se especializaram em concorrência com o pilão africano, e outros que sofrem os retoques que a natureza sugere: um tipo de casa de pedra de loja e andar, com escada exterior, que na ilha de São Tomé passou a ser de madeira e de cobertura vegetal, se bem que a traça seja sensivelmente a mesma; ou ainda o catolicismo que em pouco ou nada se modificou no que se refere a sincretismos enquanto a língua ou cristaliza em torno de um vocabulário ou de expressões arcaicas de dizer, como em Cabo Verde, ou ganha certo tipo de plasticidade onde não são estranhas construções africanas e é o caso de São Tomé. Seja como for o arquipélago de Cabo Verde e as ilhas de São Tomé e Príncipe são «familiares» graças a um passado de colonização que, por comum, levou à constituição de uma sociedade crioula peculiar. Sem dúvida que na génese da fixação de europeus e africanos nestas ilhas desertas, teve um esquema de ocupação de campos à base de culturas lucrativas.

Mas, que representam hoje estas culturas para a compreensão do mundo sociológico das ilhas? Em cabo Verde a estrutura latifundiária cedo morreu e foi substituída pelo desenvolvimento de culturas de subsistência à base do milho e do feijão.

Os próprios morgadios ainda tão vivos no século passado esmaeceram perante o aparecimento de uma classe nova – a dos mulatos – que por melhor equilibrada veio a sobrepor-se às classes criadas pela diferenciação latifundiária. Hoje, a cultura do café na ilha do Fogo na passa de arremedo da estrutura pioneira que, se no século passado, foi escravocrata, não se mostrou suficientemente forte de forma a subsistir até hoje. Em S. Tomé, de início, passa-se o mesmo; depois de os engenhos de açúcar em torno dos quais se organizaram a economia e os contactos culturais entre negros e brancos o que se viu proliferar, desde o século XVII até meados do século XIX, foram as pequenas sociedades nativas de subsistência. Algo veio perturbar este destino comum e original dos dois arquipélagos. De facto, a partir de 1820 introduzem-se em S. Tomé novas plantas: o cafezeiro e o cacaueiro. As condições climáticas são propícias e novo surto de colono chega àquela ilha que retalha na terra úbere o mosaico de grandes explorações agrícolas de tipo capitalista quantas vezes usurpadas às famílias mais ou menos mestiças descendentes dos primeiros colonizadores brancos e negros. Daí, hoje a estrutura social ser francamente «pluralista» isto é, verificar-se a existência de grupos humanos com vida cultural própria; ao contrário, de uma sociedade integrada como é a de Cabo Verde, S. Tomé mais se assemelha a um mosaico onde europeus, negros serviçais das roças e «filhos da terra» vivem em conjunto estilos de vida diferenciados. São os «filhos da terra», aliás, o grupo quantitativamente superior, que teimam em demonstrar ter valido a pena o esforço português de quinhentos e seiscentos.

Black and white make Brown afirmou-o há muitos anos Lyall querendo ver em Cabo Verde fisionomia comum à das Antilhas. Tem razão Baltasar Lopes quanto a Gilberto Freyre, baseado em Lyall, a possibilidade desta comparação; mas já não teria se, lado a lado, colocasse S. Tomé e aquelas ilhas do Ocidente Atlântico…

A ilha de Ano Bom povoou-se à sombra de S. Tomé.

Quem visita o minúsculo e único povoado que existe verifica que assim é: no seu comportamento; no dialecto que falam, na actividade a que se dedicam – a pesca – as gentes lembram os pescadores nativos do Norte da ilha próxima. Pescadores que na aventura do mar ali se estabeleceram, não obstante a frustre ocupação portuguesa. Por toda a parte, no nome dos ribeiros e dos picos, a influência é evidente. Mas a ilha, dada a sua posição no hemisfério sul e as condições de relevo, recebe menos chuva do que qualquer das outras e mostrou-se sempre menos capaz para ocupação agrícola. Foi o mar que trouxe os seus povoadores e só o mar os poderá continuar a manter.

*   *   *

De comum, em todas as ilhas, o tom moreno e mestiçado das gentes em função de convívio, que em muitas remonta séculos entre brancos e pretos. De diferente, as estruturas económicas modernas e sociais que as vicissitudes da história e a saga dos homens desenvolveram; aspectos que se entrelaçam com a capacidade ou aptidão da natureza de cada ilha. Por vezes torna-se difícil saber até que ponto a natureza é responsável pela maior ou menor humanização das paisagens; mas sempre e de qualquer forma, representam estas ilhas na sua maioria desertas uma vitória dos homens sobre a natureza tropical. Traços comuns e traços diferentes que vêm da natureza que lhes é própria e das civilizações que a elas chegaram. Sem dúvida que valeria a pena estudá-los e agrupá-los segundo o predomínio de uns sobre os outros. Ressaltaria então, apesar de certas diferenças de pormenor, certa unidade de base entre o arquipélago de Cabo Verde e as ilhas de S. Tomé e Príncipe, resultante da fisionomia de um povo que para umas e outras levou igual sistema de colonização. Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe foram ainda, em pleno oceano, as poldras da experiência sociológica que levaram à radicação dos portugueses na outra «Ilha Grande» - Brasil.

 

In “Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação - Ano XII –Nº 137 de Fev.1961”

 

Nota: Este artigo de Francisco Tenreiro – “Acerca dos Arquipélagos Crioulos” foi já publicado neste blogue em 16 de Janeiro de 2018

 

O mundo está estranhamente convulso e perigoso e o país parece confuso

sexta-feira, 1 de março de 2024

 Por Adriano Miranda Lima

O ambiente social de instabilidade e conflitualidade que vem caracterizando o país desde o último governo de maioria absoluta só é equiparável aos tempos do PREC. Nesse já longínquo ano de 1975, uma alterosa onda reivindicativa envolveu o sector público e o privado, e, em meio ao desconchavo revolucionário espoletado por facções extremistas, destruiu o aparelho produtivo. Hoje, há quem pense que uma atitude mais ponderada e de teor reformista, ao invés da convulsão social, teria evitado dois anos mais tarde o recurso ao FMI, além de muitos amargos de boca.

Regressando à premissa inicial, houve duas circunstâncias fundamentais que ora concorreram para a instabilidade social que não seria previsível e menos ainda consentânea com a estabilidade política que o governo de maioria absoluta só por si devia garantir. Primeira circunstância: a ideia, partilhada pelos sindicatos em geral, de que os governos do Partido Socialista proporcionam a ocasião mais favorável para toda a sorte de reivindicações, por tratar-se de partido tolerante e programaticamente virado para a distribuição de rendimentos, fiel à sua política de justiça social e de promoção da igualdade de direitos. Segunda circunstância: a ilusão pacóvia, ou então insidiosa, de que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) seria gerador de recursos para toda a reivindicação, desde que esta orquestrada com clamor público e instrumentalizada com greves constantes e convenientemente mediatizadas pelos canais televisivos. Pouco importa se o PRR é um instrumento estratégico comunitário destinado exclusivamente a implementar um conjunto de reformas e de investimentos visando a competitividade da economia e a sua resistência a vicissitudes futuras, como foi a última pandemia e os efeitos das guerras em curso.

Nesta transição para o próximo pleito eleitoral, perduram ainda os ecos do alvoroçado rodopio reivindicativo e grevista do sector público. Uns, com alguma razão, se comparada a degradação do seu nível remuneratório com a de outras classes profissionais equivalentes em grau de formação académica e em importância institucional e social. É o caso da classe docente.

Outros sectores, como o dos servidores do Serviço Nacional de Saúde (SNS), sob a égide dos respectivos sindicatos e ordens profissionais, foram como o gato escondido com o rabo de fora, ao alardearem defender aquele serviço público quando a motivação era claramente o seu estatuto remuneratório e outras regalias. Algumas máscaras que caíram do rosto de ex-bastonários e sindicalistas mostraram que afinal há “portas giratórias” entre a oposição política e certos interesses corporativos. Excedeu a mais pura hipocrisia querer convencer a nação de que a reabilitação do SNS era o seu único móbil e não a defesa do sector privado da saúde.

Os magistrados, esses, não terão qualquer razão para reivindicar outra coisa senão a reforma da Justiça, porque são a classe a anos-luz distanciada em matéria remuneratória, sendo escandalosa a forma como, sem razão plausível, se diferenciaram de outras classes a que estiveram desde sempre equiparados. Em 1980, um magistrado auferia uma remuneração equivalente à de um coronel das Forças Armadas e hoje é mais do dobro. Basta consultar as listas dos aposentados da CGA para o comprovar. E são os únicos privilegiados com subsídio de habitação, mesmo com casa própria onde exercem as suas funções, e com a particularidade de o valor desse subsídio ser integrado na pensão de aposentação, caso único no Estado. E acresce frisar que enquanto um coronel atinge este posto em final da carreira, e após a frequência de cursos de formação sucessivos a seguir à licenciatura inicial, um magistrado ascende a esse nível remuneratório no decurso ou a meio da carreira. Como exemplo, e passe a declaração de interesse, se qualquer das minhas filhas, em vez de docentes do ensino secundário, fossem magistradas, ganhariam hoje o dobro do pai, que arriscou a vida em duas guerras do Ultramar, sujeitando-se a arruinar a saúde por submissão a agruras, intempéries e condições de vida insalubres, passando pelas vicissitudes de uma revolução, e só atingindo o último posto no fim da carreira.

Ao citar esse exemplo comparativo, vem a propósito a questão do risco profissional e desde logo a actual reivindicação do respectivo subsídio que tem sido a luta infrene das forças de segurança. Não se discute o seu legítimo direito. O incompreensível é esse subsídio ter sido consideravelmente aumentado para a PJ, sem ser equacionado no conjunto global das forças de segurança. Pode ser factor ponderoso o diferencial de qualificações profissionais e académicas entre uns e outros, mas não a problemática do risco. Pode-se também considerar que a enorme disparidade de efectivos entre uns e outros representa um encargo permanente à partida incomportável para o erário público.

E novamente por concatenação vem o estatuto remuneratório das Forças Armadas. As suas associações cívicas já anunciaram que, se houver atribuição do subsídio no montante que as forças de segurança reivindicam, os militares ponderarão ir pela mesma via de contestação maciça a que se tem assistido com milhares de polícias nas ruas, desprestigiando a instituição a que pertencem e transpondo limites que raiam a insurreição. Ora, os militares têm razão com a sua advertência, porque a atribuição do valor do subsídio de risco reivindicado colocaria um guarda da PSP ou da GNR a auferir uma remuneração semelhante se não mesmo superior à de um capitão das Forças Armadas. Mas no dia em que os meus camaradas de armas saíssem para a rua ensaiando o mesmo espectáculo ridículo e indecoroso a que se têm permitido os polícias, eu sentiria vergonha da farda que honradamente enverguei durante 40 anos servindo Portugal com risco da própria vida.

O efeito dominó da devassa reivindicativa não tem precedentes e é contagiante, a ponto de até os bombeiros se terem também manifestado a exigir carreiras profissionais e vencimentos condizentes com o risco da sua atividade. Outras mais classes profissionais estarão em lista de espera, a aguardar que o governo que abra os cordões à bolsa dê o sinal de partida para o descalabro final em que o país pode cair. Até podem reaparecer os antigos guardas nocturnos a reivindicar ao Estado o pagamento de retroactivos pelos riscos a que outrora se submeteram.

Não haja ilusão. O país parece ter ficado à deriva depois do golpe palaciano que a Procuradora-Geral e o Ministério Público engendraram e com que fizeram derrubar o governo da República e o da região Autónoma da Madeira. Entretanto, o turbilhão da campanha eleitoral que o país não desejava nem esperava segue o seu curso, e as promessas eleitorais inscrevem-se sem contenção, com cada actor político à procura do pedestal em que melhor sobressaia. O que intriga, ou talvez não, é estar arredado do discurso político estas 3 realidades basilares e incontornáveis:

− A economia nacional não gera riqueza para acudir a todas e quaisquer exigências salariais, senão com um crescimento real e sustentado que, atento ao princípio de igualdade e justiça social, possa contemplar os que têm voz reivindicativa como os que não a têm;

 − A Europa está em guerra e o tema da Defesa nacional e das Forças Armadas, desde há décadas relegado para a mais indigente das prioridades nacionais, nem assim pontifica no discurso nacional, como se fosse um tabu. É preciso consciencializar-se que o reforço do orçamento da Defesa Nacional implica sacrifícios, mas justificáveis porque nada é mais valioso que a vida e a segurança dos povos, como hoje no-lo dizem com lágrimas de sangue os ucranianos;

− A Justiça, como o demonstra os seus servidores ou ex-servidores mais experientes e credenciados, carece de uma urgente reorganização, sob pena de graves entorses no funcionamento do Estado de Direito Democrático. Também ela, a Justiça, parece um tabu; e escuso especular sobre as reais razões que o possam explicar.

As próximas eleições legislativas são uma oportunidade de escolha e de clarificação. É um momento crucial. É bom que ninguém se abstenha e que o povo abra os olhos e diga claramente o caminho que quer seguir. Se quer continuar livre e senhor do seu destino ou se quer ir na cantiga dos vendedores de banha de cobra que de um momento para outro parecem conquistar auditórios.

Nota: Escreve conforme a ortografia anterior ao AO 90.

Obs.: Texto publicado no jornal "Templário" de Tomar

Língua cabo-verdiana e Língua portuguesa: Uma ligação perene

sábado, 10 de fevereiro de 2024


Temos vindo a reflectir quase que diariamente – passe o exagero – sobre a evolução, sobre a transformação e sobre a vitalidade que o nosso idioma ilhéu tem vindo a demonstrar, tanto na oralidade como na escrita; e a sua aproximação cada vez mais audível da Língua portuguesa actual.

Antes de continuar, gostaria de aqui fazer uma espécie de comparação, entre um filho que mesmo atingida a maioridade, não deixa a casa paterna; assim a Língua cabo-verdiana, que a cada dia que passa ilustra tanto na sua expressão, sobretudo oral, como também escrita, um léxico e uma construção sintáctica, que estão cada vez mais próximos da norma actual da Língua portuguesa. Aliás, sua principal matriz. Daí que o crioulo destas ilhas seja considerado de “base portuguesa” com válidos fundamentos históricos e etimológicos.

Vale aqui repetir que, nunca a Língua cabo-verdiana, o crioulo das ilhas, esteve tão próximo e tão dependente da Língua portuguesa como o está na hora actual, fazendo daquela língua o seu “banco fornecedor” (principal) de vocábulos e de construções morfossintácticas.

 Poderão, eventualmente, dizer-me que o fenómeno apenas é observável no meio urbano. Direi que não, pois, as “fronteiras” entre o campo e a cidade, hoje mais do que nunca, estão muito esbatidas no que toca à recepção da televisão, da rádio, dos jornais, todos órgãos que circulam regular e abrangentemente no espaço nacional. E os mesmos níveis de ensino universal, obrigatório, vamos encontrá-los tanto na cidade como no campo. De destacar ainda, a aproximação urbana/rural, trazida pelo desenvolvimento imprimido pelas autarquias locais, pelo fenómeno de uma migração crescente dos nossos jovens do meio rural para a cidade, normalmente designado “êxodo rural”, e ainda por um regular trânsito de uma população flutuante para os principais centros urbanos. A confluência de todos estes factores, conjugados com a tendência mimética de seguir o modelo de fala usada na comunicação social, apresam o crioulo a revestir-se gradualmente de modos e de construção similares aos usados na Língua portuguesa.

Ora bem, a vitalidade e a evolução do nosso crioulo, tem residido também, nessa apropriação que ele vem fazendo da língua portuguesa e da maneira como a incorpora na sua fala e na sua escrita hodiernas.

Estamos cientes de que tal acontece e tem origem em vários factores, dos quais, apenas citamos os considerados mais evidentes: a filiação natural,  a contínua e ininterrupta ligação da Língua cabo-verdiana à Língua portuguesa; a escolarização alargada e universal, que leva a uma maior exposição e contacto dos aprendentes com a Língua portuguesa; uma cobertura nacional dos meios da comunicação social, com os principais programas (noticiários, debates, notícias do desporto, artigos de opinião) em Língua portuguesa; o fenómeno das telenovelas faladas em português, a já denominada globalização, entre outros factores.  E como resultado de tudo isso, temos que o falante do cabo-verdiano escolarizado, vem incorporando com uma notória visibilidade e intensidade, expressões portuguesas “ipsis verbis” com o eventual fito de enriquecer ou precisar a sua mensagem oral.  

Clamo, pois, a vossa atenção para que as escutemos quando presentes em entrevistas de rua ou/e de estúdio, nos discursos políticos; nos programas de educação e de saúde, entre outras participações, radiodifundidas e televisivas, em que ouvimos, diariamente, o falante cabo-verdiano ilustrado ou academicamente habilitado, expressando-se na sua Língua materna, através de vocábulos, de articuladores do discurso, directamente provenientes da Língua portuguesa actual. As mais das vezes, como atrás referimos, sem qualquer alteração ou, transformação (na passagem do português para o crioulo) fonética ou morfológica dos vocábulos.

O mais interessante desta fenomenologia linguística cabo-verdiana sincrónica, é que vão desaparecendo os monemas lexicais e gramaticais; a corruptela dos semantemas; os vestígios que ainda subsistem na Língua cabo-verdiana, cuja origem remonta ao português arcaico do século XV, trazido pelos portugueses; e os substractos das várias Línguas das terras e dos países da Costa africana – Felupe, Jalofo, Balanta, Papel e Bijagó - que aqui aportaram na boca dos escravos.  De facto, já se podem considerar residuais ou, pelo menos, em pouca quantidade, no falante nacional, escolarizado.  Sim, esses adstractos e substractos que conformavam de maneira notória, a Língua materna cabo-verdiana, tendem a desaparecer no modo de falar hodierno do cabo-verdiano. Repito: do falante nacional escolarizado.

Curioso é que se trata de um processo que já havia sido previsto por Baltazar Lopes da Silva, quando, em 1947 no ensaio «Uma Experiência Românica nos Trópicos» afirmava a determinada altura: “(…) um esforço generalizado de aristocratização, cada vez maior, à medida que maior for o derrame da instrução e forem maiores os contactos com a cultura europeia.”

E continuava o nosso eminente filólogo, referindo-se às senhoras e às raparigas “que fizeram o seu Liceu e que contavam em crioulo os romances e folhetins que liam (…) crioulo especial, repleto de fenómenos linguísticos reinóis.”  Fim de transcrição. Ver obra acima citada.

Abro aqui um pequeno parêntesis para ilustrar o facto interessante de Baltazar Lopes da Silva se referir à leitora (e não à contraparte masculina) dos romances recontá-los em crioulo e, deste modo, voltarmos àquela ideia que se tinha em Cabo Verde de que o português era a fala masculina e o crioulo a fala feminina, nas ilhas. Fecho o parêntesis.

O que me espanta – enquanto leitora dos escritos filológicos de Baltazar Lopes da Silva – são a sua profundidade filológica e a sua actualidade, actualidade aliás, que residiu na capacidade extraordinária de prever fenómenos linguísticos, no que ao crioulo cabo-verdiano concernem.

Para além do mais, é curioso o facto conclusivo que B. Lopes da Silva retira da fala crioula na boca do cabo-verdiano escolarizado: (…) do impulso inovador que extrai o seu vigor do profundo sentimento aristocratizante de aproximação do padrão linguístico metropolitano”.

 Nota a destacar, a similitude com o que se passa nos tempos que correm. De facto, actualmente, tornou-se muito mais fácil, para um falante de Língua portuguesa, entender o seu interlocutor cabo-verdiano que não se expresse totalmente em português, visto que a Língua cabo-verdiana se aproximou e vem se aproximando – diria que quase acelerada e quantiosamente (perdoem-me o eventual exagero) – do português. Aliás, tenho ouvido de amigos e conhecidos, falantes da Língua portuguesa que nos visitam a isso referirem-se com alguma frequência.

Pois bem, são observações que faço de forma rotineira, sem qualquer juízo de valor e de forma objectiva, tentando assim, convidar os mais interessados, linguistas ou não, simples falantes do nosso idioma materno e da Língua portuguesa, a interpretar estes sinais linguísticos e dinâmicos (todas as Línguas são corpos dinâmicos em transformação, sincrónica e diacrónica, constantes) que projectam a Língua cabo-verdiana.

Por um lado, essas apropriações, importações ou até mesmo empréstimos (?) que o nosso Crioulo faz de vocábulos, de construções sintácticas e de articuladores do discurso, da Língua  que lhe esteve na origem, só demonstram a riqueza, a  vitalidade crescente do mesmo, o seu grau de desenvolvimento, e a resolução das suas necessidades em matéria semântica ao ir à Língua portuguesa satisfazê-las de cada vez que surge uma situação elocutória em que a Língua cabo-verdiana, não possuindo recursos endógenos, vai  busca-los à Língua matriz. Até aqui tudo certo.

Por outro lado, temo que a tarefa do professor que tem a seu cargo o ensino da Língua portuguesa, seja agora mais complexa e mais difícil, – ainda que com os métodos que se usam para o ensino de uma Língua viva, de comunicação, presente entre nós – dada a mistura e a contaminação dos dois idiomas. Ainda que seja ensinada com os métodos aplicados a uma língua segunda, a uma língua estrangeira, o entranhamento e o entrosamento entre as duas línguas, a cabo-verdiana e a portuguesa, são de tal monta que as duas, na boca do aprendente, se confluem, se misturam e, naturalmente, se contaminam.

Nesta oportunidade, acrescentarei que o professor da disciplina da Língua portuguesa, deve estar bem atento a esses sinais e munido de uma didáctica específica para o ensino do português – Língua viva, Língua segunda e Língua veicular do ensino – e que desta forma, consiga levar a bom porto os objectivos esperados da disciplina. De recordar que estes objectivos, deverão estar focados na compreensão, na leitura, na interpretação de textos e no aperfeiçoamento continuado da expressão escrita e oral do aprendente.

 Para finalizar, solicitarei – apesar da minha formação – como disse alguém: “concedam-me a liberdade própria de um artigo de opinião, sem as obrigações de um ensaio. porque não é deste género de texto – ensaio – que se trata. É de apenas um texto de opinião. Não vá alguém, algum comentador nos media, confundir (como já aconteceu) “Artigo de Opinião” com “Ensaio” ou “Tese Universitária”.

 

 

 

MONTE CARA, O DOS VÁRIOS NOMES

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Por Joaquim Saial

É conhecido o gosto que quase todos temos, sobretudo quando crianças, de vermos no formato das nuvens e rochas rostos e figuras de gente, animais e objectos. Chamam os entendidos a isto pareidolia, exótico nome técnico que caracteriza o fenómeno. Muitos exemplos há dele, nomeadamente no que concerne a rochas. Podem ser provocados pelo ser humano, que na pedra quer retratar alguém ou algo, mas na maioria dos casos o efeito deve-se à erosão recebida durante séculos ou milénios por efeito da água ou dos ventos. Daqueles, temos dois espécimes significativos nos EUA: as cabeças dos presidentes George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln esculpidas numa fachada rochosa de Keystone, o monte Rushmore, Dakota do Sul (1927-1941), da autoria Gutzon Borglum, pintor e escultor descendente de dinamarqueses imigrantes nos EUA, e a mais recente, representação equestre do chefe índio sioux Crazy Horse en Black Hills, também no Dakota do Sul (iniciada em 1948 e ainda não concluída), do escultor polaco-americano Korczak Ziolkowski – que, quando finalizada, terá 195 metros de comprimento, por 172 de altura. Nos anos 30, o ditador italiano Benito Mussolini também teve "rosto de pedra" de grande impacto visual no monte Pietralata – artificial, neste caso, feito de blocos de calcário e betão armado, depois destruído por resistentes italianos. Quanto às peças "naturais", a mais famosa de Portugal será a Cabeça do Velho, afloramento granítico situado entre Gouveia e Manteigas (zona da Serra da Estrela); na localidade de Chimoio (antiga Vila Pery), Moçambique, há outra célebre, de bem maiores dimensões; na Austrália, a Split Apple Rock, com aparência de maçã rachada ao meio; e em Cabo Verde, o Monte Cara da ilha de S. Vicente – citámos apenas estes exemplos entre os muitos mais que existem mundo fora. Mas o que para o artigo interessa é obviamente a afamada formação rochosa são-vicentina.

Com os seus 490 metros de altitude máxima, o Monte Cara é uma espécie de guardião ou de figura de convite, situado à direita de quem entra no Porto Grande e motivo inspirador para os mais variados assuntos. O cantor Bana fundou em Lisboa em 1976 o restaurante e sítio de música Monte Cara, primeiro a celebrar os ritmos africanos – em particular os de Cabo Verde – onde tocaram ou cantaram para além do bom gigante nomes como Cesária Évora, Celina Pereira, os irmãos Toy e Paulino Vieira, Armando Tito ou o angolano Valdemar Bastos. No seu disco "Voz de Amor", Cesária cantou "Monte Cara", de Toy Vieira e Luís Lima. Monte Cara é nome de agência bancária no Mindelo, do banco BAI (Angola) e foi-o de editora discográfica (também de Bana) e de grupo mindelense de protesto cívico "Cordá Monte Cara". Vários poetas e escritores, de igual modo o têm inscrito nas suas obras. Por exemplo, Corsino Fortes cita-o seis vezes no livro "A Cabeça Calva de Deus" (2001) e Germano Almeida utilizou-o como título do romance de 2014, "Do Monte Cara Vê-se o Mundo". Coroando este amor dos são-vicentinos e restantes cabo-verdianos pelo seu monte mais distinto, ele tornou-se em 2013 por votação tripartida entre júri, comissão técnica e público como uma das sete maravilhas de Cabo Verde.

O Monte Cara é, pois, "figura" tutelar da ilha onde se alça. Quanto ao seu nome, tem sofrido oscilações ao longo dos tempos. Vejamos todos os que conseguimos encontrar em postais ilustrados antigos (excepto dois casos, surgidos num livro e numa revista portuguesa), diferentes ou variantes do mesmo nome, por ordem alfabética1:

• Cabeça de Washington

• Cabeça do Washington

• Cara de Nelson (revista Occidente n. 439, de 01.03.1891, pág. 51)

• Montanha da Cara (livro “África Occidental – Notícias e Considerações”, de Francisco Travassos Valdez, ed. Imprensa Nacional, Lisboa, 1864, pp. 406/407)

• Monte Cara

• Monte da Cara

• Monte da Cara de Vashinton2

• Monte da Cara de Washington

• Monte da Cara (Washington Head)

• Washington Head

O curioso designativo "Cabeça (ou cara) de D. Afonso Henriques" (neste caso, supostamente baptizado pelos primeiros navegadores chegados a S. Vicente) que o monte também terá tido é versão que por enquanto não nos merece crédito, apenas pelo facto de no ponto onde a obtivemos não se declarar a fonte consultada. Temos assim que "Montanha Cara" é a forma datada mais antiga que conhecemos, de 1864, como acima vimos. A alusão ao almirante inglês Lord Nelson, vencedor da batalha de Trafalgar, é passível de ser atribuída aos ingleses das companhias carvoeiras e de cabo submarino que se estabeleceram em S. Vicente3.  Por outro lado, diz-se comummente que nomear George Washington como "padrinho" do monte dever-se-á ao facto de este ter sido admirado por marinheiros de veleiros americanos que demandavam Cabo Verde, em particular o Porto Grande, em busca de hábeis tripulantes locais para a pesca da baleia4 e que terão achado parecenças entre a "cabeça" rochosa e a do seu primeiro presidente.

"Cabeça de/do Washington", "Monte da Cara de Vashinton" ou o já híbrido "Monte da Cara (Washington Head)" aparecem em postais ilustrados datados entre 1903 e 1953, publicados pelas casas britânicas Godfrey Hastings-Whitley Bay e Matthew Auty Ltd.- Tynemouth, por Giuseppe Frusoni, italiano com casa aberta no Mindelo e pelo igualmente mindelense Café Royal. Sem data que nos permita inseri-los numa cronologia, Giuseppe Frusoni editou postais com o "Monte da Cara de Washington'". Conhecemos um postal "Cabeça do Washington", de Frusoni, datado de 1932, e outro, o mais tardio do género, editado pelo Café Royal (tiragem de 500 exemplares com impressão a cargo da Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, em 3 de Abril de 1953), no qual ainda se identificava o monte como "Monte da Cara (Washington Head)". A hodierna e assente versão “Monte Cara” assoma episodicamente por volta de 1910 num raro postal de que só conhecemos a imagem frontal, embora não a posterior, onde se veria a editora5 – o que quer dizer que afinal “Monte Cara” conviveu desde cedo com os outros nomes bem mais frequentes.

Terminamos este memorial toponímico com divulgação do excerto do texto de Manuel Barradas da revista Occidente que descreve o monte6 e com notícias de dois jornais americanos onde é referido associado a George Washington – que provam que não era desconhecido no exterior, no início do século XX7. Comecemos então pela revista portuguesa, de 1891: “(...) É montanhosa, S. Vicente, contudo a maior elevação das suas montanhas não excede 1000 metros de altura acima do nível do mar, como por exemplo o Tope de Galã [?], o Monte Verde assim chamado pela muita vegetação que o reveste e a montanha da cara de Nelson no norte-noroeste do Porto Grande que banha a vila do Mindelo, principal povoação da ilha de S Vicente. A montanha Cara tem a exacta configuração de um rosto humano, lembrando o topete as cabeleiras de 1790. Os marinheiros chamam-lhe há mais de um século8 a cara de Nelson”. Quanto aos textos dos jornais, o primeiro, com o título "Uma Aberração da Natureza", encontramo-lo no The Morning Astorian (Astoria, Oregon), de 30 de Junho de 1906, página 6; o segundo, cópia quase exacta do primeiro, vem na página 4 do Hyannis Patriot (Barnstable, Massachusetts), de 15 de Janeiro de 1917. Segue-se um resumo da parte igual em ambos: "Entre os muitos monumentos dedicados a Washington, este é aquele que o visitante das ilhas de Cabo Verde lembrará como uma das mais colossais e maravilhosas esculturas naturais existentes. Ao longo de um dos lados do porto de São Vicente, a cidade principal9, ergue-se um ousado cume de rochas vulcânicas cinzentas-escuras, cuja crista forma uma semelhança exacta do nosso imortal George, aparentemente deitado de bruços, como se estivesse num sono tranquilo. As feições grandes e ousadas do herói, o cabelo ondulado para trás, os ombros maciços e até os folhos na frente da camisa10 são todos reproduzidos em escala gigante com exactidão maravilhosa. O estranho monumento bem delineado contra o azul profundo do céu tropical é um dos primeiros objectos que chama a atenção a quem se aproxima da ilha."

ANOTAÇÕES

Postais (datados) obtidos futuramente poderão alterar o que aqui agora afirmamos.

2 Erro ortográfico óbvio.

3 Em 1850, as carvoeiras britânicas já estavam a laborar em S. Vicente e o primeiro cabo submarino foi amarrado na zona da Matiota em 1874 (Western Telegraph Company), com administração da Brazilian Submarine Telegraph. Ver PIRES, Francisca Gomes. O Porto Grande e a Urbe Mindelense na Aurora da Contemporaneidade, Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, FCSH, UNL, 2015.

4 E também a ilha Brava.

5 Existente na James J. Lopes Cape Verdean Postcard Collection, Rhode Island College Library, Providence, RI, EUA. Este é o único exemplar em que se refere “Monte Cara”, das dezenas que conhecemos com a fotografia do monte.

6 Este texto da revista Occidente baseia-se em informações contidas no livro “Africa Occidental – Notícias e Considerações”, de Francisco Travassos Valdez, copiando algumas.

7 Tradução livre nossa.

8 Modernizámos grafia e pontuação do texto. A fazer fé na afirmação, o monte teria o nome de Nelson desde antes de 1791.

9 O mesmo erro da nota anterior.

10 No The Morning Astorian, a camisa é apresentada ao leitor como colonial.