sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

 
 
 
Caro Leitor, perca uns minutos do seu tempo e leia este belíssimo texto de apresentação do livro de A. Ferreira, "Mulheres de Pano Preto" por Maria Odette Pinheiro no Salão Nobre da Câmara Municipal de S. Vicente.
 Fazendo jus ao livro, o texto é também um convite a uma reflexão sobre o processo da nossa independência e sobre a nossa História recente.
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APRESENTAÇÃO DO LIVRO “MULHERES DE PANO PRETO”

(ARMINDO FERREIRA, Edição do Autor, 2015)

São Vicente, 14 de Janeiro de 2016

                                                                -- por Maria Odette Pinheiro

Mulheres de Pano Preto, o livro que está a ser aqui apresentado, é uma obra que essencialmente descreve acontecimentos que na Guiné e em Cabo Verde tiveram lugar grosso modo entre pouco antes do 25 de Abril de 1974 e pouco depois do golpe de estado do chamado Movimento Reajustador que, a 14 de Novembro de 1980, pôs fim ao projecto da unidade Guiné-Cabo Verde.

É com muita habilidade que o Engenheiro Armindo Ferreira descreve esses acontecimentos, usando o género historiográfico da novela histórica, através do qual, usando a ficção, pela boca das suas personagens, com descrições e diálogos muito bem conseguidos e de agradável leitura, vai contando e interpretando os eventos, os quais tiveram consequências determinantes na vida das populações tanto da Guiné como de Cabo Verde.

Nascido na Guiné, filho de pai caboverdiano e mãe guineense, o autor fez os estudos liceais parcialmente na Guiné e parcialmente em Cabo Verde, e os superiores em Portugal. Conhecedor destes três países, viveu e trabalhou na Guiné durante grande parte dos acontecimentos descritos, mantendo com Cabo Verde um contacto mais ou menos estreito através de laços familiares.

É assim que as suas personagens ficcionais se encontram bem posicionadas para nos informar acerca do que aconteceu nesse período, descrevendo com maior ou menor vivacidade a atmosfera da época, os sonhos e as esperanças, as quase certezas; mas, também, desfazendo mitos e apontando as incoerências, lembrando os atropelos aos direitos humanos, o sofrimento de tantos nas duas nações em que o Estado esteve dominado pelo mesmo partido único; desmistificando, assim, muito do que se tem dito ou silenciado acerca desse período

O título, Mulheres de Pano Preto, tem a ver com as viúvas guineenses e as mães enlutadas que perderam os seus filhos na esperança da liberdade, durante a luta da independência; mulheres imortalizadas no poema de Armando Salvaterra, cantado pelo artista guineense José Carlos Schwarz, Mindjeres di Pano Preto.

São mulheres que, segundo as personagens do livro, sofreram duplamente: primeiro, pelos horrores da guerra que lhes levou os seus entes queridos; depois, por terem sido traídas nas promessas de dias melhores, pelas quais a independência da Guiné acabaria com a opressão; e que a liberdade longamente sonhada seria finalmente alcançada; e que da luta surgiria o tão propalado homem novo: um homem abnegado e desinteressado, que poria o interesse do seu povo acima de todos os outros interesses, para trazer à Guiné a almejada paz e o progresso na igualdade e no respeito pelos direitos de todos os seus filhos.

Na página 120 é-nos dito que quando os altos dirigentes do PAIGC chegaram a Bissau, e fizeram o primeiro comício, “a população estivera radiante e transbordante de júbilo… Houve pessoas que choraram de contentamento, outras abraçavam-se e formulavam certezas num amanhã de progresso e de desenvolvimento; e risonho para as gerações vindouras. Uma nova era e uma nova esperança acabavam de ser anunciadas e, para muitos, de nascer para todos os guineenses”.

Mas, bem ao contrário, as mulheres de pano preto, à semelhança de muitos outros homens e mulheres, despertaram abruptamente do seu sonho e viram-se privadas daquilo por que tanto haviam ansiado. Encontraram-se desencantadas, ameaçadas, sem as liberdades mais elementares, desrespeitadas, violentadas, numa atmosfera de medo, quase pavor, esperando a hora em que lhes poderiam bater à porta para levar novos entes queridos, muitas vezes ao encontro duma morte clandestina, sem direito a julgamento, funeral ou campa.

A cena desenvolve-se principalmente na Guiné, começando à volta de um grupo de alunos do liceu Honório Barreto, que viviam ainda uma adolescência descuidada e ensaiavam timidamente os primeiros namoricos.

Cabo Verde é o cenário alternativo, pois acontecimentos que cá tiveram lugar são também contados, embora de modo indirecto, através de cartas ou das visitas de familiares que viviam nestas ilhas, mantendo, a família e os amigos na Guiné a par do que por cá ia acontecendo.

Parte do enredo passa-se, também, em Portugal, já que, como era vulgar acontecer, alguns dos protagonistas foram para lá prosseguir os estudos, e lá ficaram a viver. Alice e Tomás, personagens principais, mais outros ligados a eles pela amizade dos bancos do liceu, então já formados e a trabalhar, são apanhados pelo 25 de Abril na então metrópole. E como tantos caboverdianos e guineenses fizeram no após 25 de Abril, acorreram pressurosos, com a esperança de que seriam uma mais-valia para a reconstrução da sua terra, agora em liberdade e com igualdade de todos os cidadãos.

Dizem-nos na pág. 117 que, todos os que assim faziam, “faziam-no absolutamente convencidos de que o mérito e o conhecimento prevaleceriam sobre o diploma ou estatuto de combatente. Estavam dispostos a largar tudo e voltar à terra, em atitude generosa que consideravam prioritária face aos seus projectos pessoais, para dar o seu melhor perante aquilo que achavam serem as necessidades do país em recursos humanos ante a almejada gigantesca tarefa de reconstrução nacional”. Tomás e Alice nunca imaginaram quanto se arrependeriam mais tarde, com a prisão arbitrária de Tomás e acontecimentos bem graves que puseram em risco o seu casamento!

Infelizmente, em todos os tempos a História (com H maiúsculo) é escrita e contada da perspectiva dos vencedores. Há uma verdade oficial que impera e tende a perdurar, raramente contestada. Frequentemente os vencidos são silenciados ou a sua voz perde-se no esquecimento até da geração presente, quanto mais das gerações futuras; ficam, aqui e ali, só vozes tenuemente ouvidas através de registos esparsos dos que teimaram em não se calar e em continuar a contar a verdade que viveram, ou viram viver, e que difere bastante da perspectiva linda e triunfante dos que venceram.

Este é o mérito de Mulheres de Pano Preto. Conta a outra metade da verdade, da história de todos nós, da independência, para que ela não seja monocórdica ou fique unilateral; para que apresente os diversos aspectos, muitas vezes contraditórios: uma história feita, é verdade, de sacrifício e abnegação da parte de milhares de guineenses e poucas dezenas de caboverdianos que na Guiné lutaram pela independência dessa colónia, esperando conseguir a reboque a de Cabo Verde; uma guerra em que houve glória, mas também contradições e horrores, em que muitas vezes a praxis se desviou profundamente, quase que posso dizer, opostamente, ao que era anunciado; o que talvez se possa justificar por serem assim as guerras.

Mas a guerra acabou. E os portugueses partiram. E o que se seguiu foi decididamente não glorioso, pois os combatentes escolheram cobrar dos respectivos povos um juro e um capital excessivos pelo que haviam investido na luta, coartando-lhes a liberdade, proclamando-se únicos interlocutores legítimos na decisão do seu destino e, mais pronunciadamente na Guiné, arvorando-se em senhores da vida e da morte dos seus “súbditos”, como nas monarquias absolutas da Europa dos tempos de antanho!

Somos lembrados das prisões sem culpa formada e por tempo indeterminado, dum e doutro lado do mar, em celas insalubres e conspurcadas com esterco, sem direito a advogado, a alimentação e a visitas, esperando o dia em que os algozes resolvessem soltar os presos e devolvê-los à liberdade. Aliás, liberdade, não – pois liberdade não rima com mordaça. Aprisionem o ser humano no seu corpo, mas não lhe aprisionem a alma: não lhe roubem a liberdade de pensar e de se exprimir, de ser ele próprio, de escolher o seu destino, o que talvez seja o pior dos sofrimentos!

Mas nessa época, ambos os tipos de liberdade eram bastante condicionados, e o livro reflecte isto bem: falar não se podia, pois havia delatores por todos os lados; e para alguém se deslocar para fora de Bissau, ou para sair da Guiné e de Cabo Verde, precisava de uma autorização de saída, que era negada ou dificultada a muitos, conforme estivessem ou não nas boas graças dos dominadores. Personas non gratas eram impedidas de sair, e alguns foram-no, mesmo de Cabo Verde, até para continuar os estudos; outros foram metidos num avião, sem aviso prévio, e obrigados a aportar a outras paragens: desterrados da sua própria terra.

Pelo livro, se ainda não sabíamos, somos informados dos fuzilamentos dos comandos africanos: milhares e milhares de soldados guineenses que lutaram do lado das tropas portuguesas, e que mesmo depois de desarmados voluntariamente ao abrigo de falsas garantias, foram raptados na noite para nunca mais serem vistos, caindo em valas comuns mercê das balas de pelotões de fuzilamento: eles e muitos civis. Desapareceram sem deixar rasto. Houve também fuzilamentos públicos, aos quais a população foi conclamada a assistir – até crianças! Foi então que, página 299, assistindo ao que se passava na sua Guiné, as mulheres de pano preto, as mulheres grandes da Guiné, “puseram as mãos na cabeça e gritaram bem alto a sua profunda dor e a sua angústia”.

Assim, muitos foram como que cilindrados por não cooperarem com o partido, ou por diferirem dos seus dogmas, talvez o principal tendo sido o da unidade Guiné-Cabo Verde, acerca da qual os povos dos dois Estados nada puderam dizer, e que tanto dum lado como doutro era motivo de forte contestação.

É possível que em Cabo Verde na altura não se tivesse a noção exacta do quanto os próprios guineenses eram opostos a esse projecto, o da unidade, mas os diálogos do livro são esclarecedores. Viam-no como um modo de os cabo-verdianos eternizarem a dominação dos guineenses, o que era a sua interpretação do papel que os nossos patrícios, devido à sua maior escolaridade, desempenhavam na administração colonial, sempre em posições de mando ao lado dos portugueses; além de que, outrora, a Guiné fora um distrito administrativo do Governo de Cabo Verde; e ainda outros antecedentes mais negativos, como a Guerra da Pacificação, em que soldados caboverdianos haviam sido utilizados para submeterem os guineenses; para cúmulo, na guerra da independência os caboverdianos eram a cúpula, tendo morrido pouquíssimos em combate – enquanto os guineenses seguiam para as frentes da batalha e morriam às centenas, morrendo também aos milhares a população civil, que era dizimada pelos bombardeamentos – não tendo morrido ninguém em solo caboverdiano.

Mas a questão da unidade era tabu, não podia ser discutida nem contrariada, nem sequer em Cabo Verde, onde havia argumentos contra muito válidos. Quem se opusesse à unidade era inimigo do partido. E muitos dos que sofreram prisões e perseguições várias, tanto na Guiné como em Cabo Verde, sofreram-nas porque foram veementemente contrários a esse projecto. Mas o futuro veio a dar-lhes mais que razão: era uma unidade tão artificial, que sensatos eram os que se lhe opuseram.

Quanto a Cabo Verde, onde não houvera luta armada, com a independência de todas as colónias garantida por Portugal na nova Lei Constitucional de Julho de 1974 e a nossa especificamente estipulada no acordo de Argel de 29 de Agosto do mesmo ano, a transição para a independência poderia ter-se dado com serenidade, reflexão e sem clivagens sociais. O acordo de Argel afirmava que “a delegação portuguesa, em nome do seu governo, reafirma o direito do povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência, e garante a efectivação desse direito”.

Mas a agenda do partido, como o livro torna bem claro, não era simplesmente levar Cabo Verde à independência (como também não o era para a Guiné). Para ambos os territórios o objectivo era instalar o regime totalitário que se seguiu, sobre a égide do partido único de orientação marxista-leninista, regido pelos que combateram na Guiné e mais uns poucos que concordavam com a sua orientação ideológica.

Essa agenda requeria que se instalasse um clima revolucionário que legitimasse a imediata entrega do poder, que não desse lugar a quaisquer reflexões e em que se pudesse subjugar todas as correntes contrárias. Esse clima, quase estado de sítio, é evidente nos diálogos e nas cartas trocadas pelos personagens do livro: milícias populares armadas a patrulhar as ruas, barreiras nas estradas para procurar armas imaginadas (numa terra em que sob Portugal a população nunca teve armas!), tomada das rádios para passar só a mensagem revolucionária, insultos gritados e escritos nas paredes das casas, prisões arbitrárias sob acusações nebulosas ou desprovidas de fundamento, pessoas exiladas. Todos os que poderiam ter uma voz discordante foram silenciados e amedrontados, de modo que a Assembleia Nacional Popular que declarou a independência e passou a reger o país sob a batuta do partido, tinha 100% de deputados que o apoiavam.

Implantou-se, assim, um regime opressivo e autoritário, que atrasou de muitos anos a chegada da democracia e o desenvolvimento mais acelerado dos dois Estados. E ao causar fracturas profundas, das quais ainda não conseguimos recuperar, e ao destruir a camada mais lúcida e preparada da sociedade civil, criou um estado de apatia e desmotivação e uma dependência do Estado, que Cabo Verde ainda não conseguiu sacudir.

Mulheres de Pano Preto contribui também para desmistificar duas falsidades que continuam a imperar entre nós: a primeira, que quem não estava de acordo com o partido era contra a independência, especialmente, como já vimos, quem estivesse contra a unidade Guiné-Cabo Verde, caso da UPICV, partido com maior implantação em Santiago, e que foi desmantelado pela força, pela prisão e desterro dos seus líderes.

A segunda falsidade: que aqueles que pediam alguma reflexão, e um tempo mais alargado de transição, para se poder equacionar o problema da autossuficiência de Cabo Verde e da sobrevivência do povo, até então vitimado pelas secas e pelas fomes, eram, igualmente, contra a independência. Foi o caso da UDC, tentando a sua implantação em São Vicente, que queria uma transição mais alargada e reflectida, equacionando todas as alternativas. Nunca desejaram que tudo continuasse na mesma, como tanto se faz crer. Estas duas falsidades ainda hoje são esgrimidas por alguns, para justificarem os desmandos de então.

Além dos que eu tenho mencionado, Mulheres de Pano Preto é decididamente um livro que ajuda a esclarecer muitos outros factos desse tempo determinante na nossa história, sendo portanto de leitura obrigatória para os que quiserem ser bem informados.

Se me permitem, terminarei com uma palavra pessoal, já que o lançamento do livro foi integrado nas comemorações desta semana, entre o 13 e o 20 de Janeiro, duas datas tão importantes para nós. Os meus comentários não têm o fito de reabrir feridas mal cicatrizadas ou de acirrar ódios e malquerenças meio adormecidos. Mas precisamos, sim, de encontrar um equilíbrio, em que, dando o verdadeiro valor à independência, se reconhece que ela poderia ter sido alcançada noutro clima e por outras vias que não a da clivagem social, a destruição das elites caboverdianas e do sofrimento desnecessário de tantos homens e mulheres que não se reviam na ideologia e nos dogmas do PAICV. Poderíamos ter sido livres em 1975! Poderíamos ter tido eleições multipartidárias e um regime aberto. Até porque os 15 anos de partido único nada fizeram para amadurecer o povo politicamente. Pelo contrário! O amadurecimento só pode acontecer em liberdade!

Assim, recordar o outro lado tem o mérito de ajudar a suster um certo triunfalismo dos vencedores e a excessiva cultura dos heróis, trazendo-os a um nível mais terra-a-terra, de homens corajosos, sim, mas que cometeram os seus erros, e alguns bem crassos: fizeram bem, mas à mistura houve muito mal e sofrimento desnecessário.

Bom seria que os que causaram tal sofrimento o reconhecessem, tivessem um pouco de humildade e até pedissem perdão aos que foram feridos pelo caminho, o que os elevaria moralmente e ajudaria a sarar as chagas que abriram. Na ausência disso, peçamos a Deus que, embora não esquecendo o passado, saibamos todos construir um futuro melhor: futuro que só pode ser bem construído quando nos livramos das mágoas e dos ressentimentos, quando estes já não nos afectarem a ponto de determinarem o nosso comportamento e nos fazerem desviar da construção de um País de paz e concórdia.

Mulheres de Pano Preto contribuirá, decerto, para que um dia, quando com o devido distanciamento se escrever a verdadeira história, ela não seja silenciosa quanto ao sofrimento dos vencidos, mas seja uma história equilibrada, que considera todas as perspectivas. Então, talvez, algum sábio conte aos seus netos que a bandeira custou em mais do que uma maneira.

Bem-haja a independência, mesmo com os custos que teve, e bem-haja o 13 de Janeiro, que foi a verdadeira libertação desta terra. Quanto à abertura, eu teria também algo a dizer. Mas isto seria outra história!

Por favor, leiam o livro!

                                                         

 

2 comentários:

José Marcos Soares disse...

Para nós que vivemos com alguma ingenuidade os períodos antes e pós independência, e também o 13 de Janeiro já bastante amadurecido, este livro, bem como os de outros autores com histórias semelhantes deviriam merecer por parte instituições responsáveis pela formação de gerações futuras uma maior divulgação.
Apesar de serem muito recentes, estes acontecimentos, assim como também a escravatura, fazem parte integrante da história do País e, os alunos dos liceus merecem estas informações, que devidamente trabalhadas lhes ajuda a perceber melhor a realidade em que estão a viver o dia a dia.

Joaquim Djack disse...

Livro sobre um período muito interessante e difícil da história da Guiné-Bissau e de Cabo Verde mas que felizmente acabou da melhor maneira para este último país.

Braça,
Djack

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