Diálogos Inquietantes

segunda-feira, 27 de julho de 2026

No passado dia 27 de Maio, Armindo Ferreira, deu uma entrevista ao semanário “Expresso das Ilhas” (nº 1278), sobre o seu livro “Diálogos Inquietantes” que acabara de lançar sem, contudo, fazer, como teria sido habitual, uma sessão pública de apresentação.

A Entrevista conduzida pelo director-adjunto do semanário, jornalista António Monteiro, constituiu uma via de divulgação da obra e, por isso, posta-se aqui a introdução por ele feita, uma vez que constitui uma espécie de sinopse a que o entrevistador havia chegado da conversa com o autor e da sua leitura do livro (transcrição): “Em Diálogos Inquietantes, Armindo Ferreira revisita alguns dos episódios mais sensíveis da história contemporânea de Cabo Verde, questionando narrativas consolidadas sobre a independência, o PAIGC, Amílcar Cabral e os debates identitários no arquipélago. Publicado em edição de autor, o livro reflecte a recusa do autor em submeter a escrita a critérios editoriais e comerciais, assumindo a publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão e prazer intelectual.

Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica, ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento. Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que, entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo António, e Pedro Cardoso, na Fazenda. (Fim da transcrição)

Ainda sobre o livro, Adriano Miranda Lima, − um bom Amigo e assíduo colaborador deste blogue − teve a simpatia e a gentileza de se debruçar sobre a obra no que intitulou “Opinião sobre o livro Diálogos Inquietantes” e no seu estilo minucioso e eloquente e com uma abalizada abordagem holística produzir uma autêntica e bem elaborada recensão crítica que a seguir se apresenta:




Opinião sobre o livro “Diálogos Inquietantes

Acabei de ler “Diálogos Inquietantes” e, antes de mais, para além do assinalável mérito literário, felicito-te pela coragem cívica em exprimir publicamente, e com todas as letras, o que muita gente pensa, mas evita dizer. Faz lembrar a expressão "o rei vai nu", naquela situação em que a inocência infantil desmascara alto e bom som uma realidade que só não é por todos denunciada por cobardia, medo ou conveniência.

Não é a primeira vez que o fazes. Em obras anteriormente publicadas – por exemplo, “Mulheres de pano preto” − e em diversos artigos de opinião, o público leitor ficou a saber que não silencias uma opinião esclarecida e fundamentada sobre os acontecimentos ocorridos na Guiné e em Cabo Verde a seguir ao golpe militar de 25 de Abril. No fundo, está em causa a entrega de bandeja do poder ao PAIGC por um MFA que rotulas, e muito acertadamente, de cobarde e impreparado para as lides políticas e diplomáticas em que se viu envolvido. Igualmente impreparados eram os quadros do PAIGC para as responsabilidades que assumiram nos dois territórios, convencidos de que a crença na ideologia marxista seria por si só geradora de uma poção mágica para a resolução de todos os problemas, desde logo a virtude de criar “um homem novo” mediante o “suicídio de classe” dos mais favorecidos e a súbita transformação das populações em obreiras colectivas de uma nova sociedade. Tudo isto sob a égide de um dogmatismo marxista-leninista que, como já era sabido, foi fautor de falência económica e regressão social em todo o lado onde foi experienciado. A alternativa – a liberdade e a democracia – estava fora de questão porque era luxo burguês na opinião dos paigcistas e dos esquerdistas do MFA que, de mãos dadas, selaram naquela conjuntura o destino imediato do povo das ilhas.

Tudo isto explicas muito bem no livro e só fica com dúvida quem obstinadamente recusa aceitar a verdade.

 Entre os pontos fortes do livro destaca-se a dessacralização da figura de Amílcar Cabral. Não o fazes de ânimo leve, levianamente, ou por motivação ideológica, mas com uma argumentação profusa e apoiada em factologia conhecida e documentada. Nisto, enfileiras com outros autores e ensaístas que questionam a imagem imaculada de Cabral como figura política, retirando-o do pedestal mitológico em que os seus indefectíveis seguidores o colocaram. Com o teu livro, fiquei a conhecer factos que eu ignorava, pelo que ele é desde já um valioso documento que guardarei e recomendarei. Mas eu próprio já tive ocasião de, em diálogos ou comentários em círculos restritos e espaços públicos, questionar a dimensão do estratego que alguns atribuem a Cabral, argumentando que, se o fosse, jamais poderia conceber a viabilidade de um projecto político de união entre os dois territórios. Este é um aspecto que aprofundas muito bem recorrendo à história e à comparação dos perfis culturais e psicológicos dos dois povos em causa. Sim, aprendi muito com o teu livro, seja o que de mais relevante norteou a conduta política do líder ou até algumas particularidades da sua vida pessoal. Por exemplo, o facto de o seu pai, Juvenal Cabral, ter sido responsável pela paternidade de cerca de 23 filhos de mães diferentes.

Estranho é que haja cabo-verdianos que o enaltecem como homem e figura cívica, talvez só por ter gerado o alegado “pai da nação cabo-verdiana”, sem sequer o ter sustentado, tanto quanto parece ter acontecido, responsabilidade que recaiu exclusivamente sobre os ombros da sua mãe. Mas esses presunçosos panegiristas serão os últimos abencerragens do antigo PAIGC ou estiveram na luta pela independência em território guineense, embora a maior parte em funções mais burocráticas que guerreiras, pois a condição de carne para canhão parece ter sido reservada aos guineenses. De facto, a mitologia à volta de Amílcar Cabral, elevado por algumas mentes crédulas à sacrossanta condição de “pai da nação cabo-verdiana”, começou aos poucos a ser questionada e apontada como produto de fantasiosa criação respaldada pela ideologia política, sem qualquer fundamentação na história, na cultura e na ciência. Alguns autores ou analistas políticos como Maika Lobo, Daniel dos Santos, José Leitão da Graça e José Luís Hopffer Almada contestam essa paternidade atribuída a Amílcar Cabral. De um modo geral, convergem contigo na argumentação de que a nacionalidade cabo-verdiana só pode ser concebida numa perspectiva histórica e existencial de uma amplitude que jamais pode circunscrever-se à acção de uma personagem ocorrida num tempo limitado no século XX e menos ainda quando avaliada segundo um critério puramente dogmático. Não creio que seja pertinente ou faça qualquer sentido atribuir um pai à nação cabo-verdiana. Creio que quando muito se pode é identificar individualidades que ao longo da história do território interpretaram o sentimento colectivo do povo das ilhas, indo ao fundo da sua alma, e o manifestaram em obras de arte. Por outro lado, vem também à tona a responsabilidade moral de Cabral pelas mortes por fuzilamento ocorridas, creio que várias vezes, nas suas hostes. A tendência é ilibá-lo para manter à sua volta uma aura de virtude, moderação e tolerância compagináveis com o perfil de alguém que procurou passar nos areópagos internacionais a imagem de um democrata. Analisas bem essa circunstância, podendo deduzir-se que o antigo burocrata terá aprendido aos poucos a moldar a sua estrutura mental e moral à lógica do ambiente de violência que era indissociável da missão que se impôs. Ele teria certamente a mesma alma pacífica da maior parte dos seus conterrâneos, mas, como diz Ortega e Gasset, o homem é a sua circunstância. E Fernando Pessoa, aludindo à publicidade da coca-cola, também disse: primeiro estranha, depois entranha-se.

Quanto ao resto, bastaria analisar as fragilidades e o estrondoso falhanço do projecto político de Amílcar Cabral para se reconhecer que nada, mas rigorosamente nada, justifica as narrativas excessivamente polarizadas construídas à volta da personagem. Pode-se, sem dúvida, enaltecer a sua inteligência, a sua capacidade de organização e liderança, bem como a sua determinação em pugnar por um ideal humano, mas a grandeza dos seus feitos tem de ser avaliada em função dos resultados concretos que ficaram para a posteridade. E estes, longe de serem favoráveis, podem indiciar, pelo contrário, inversão de padrões civilizacionais na Guiné-Bissau, cuja instabilidade política e social a coloca na condição de um estado falhado e de futuro nebuloso. Ali não nasceu um “homem novo”, pelo contrário, a avaliar pelas ridículas figurinhas fardadas, com o peito estrelado de medalhas, que constantemente desestabilizam o país, conclui-se que nada de positivo se pode esperar de mentes rasas de valores cívicos e de seres envaidecidos com a ilusão do poder dado pelas armas que detêm.

Até mesmo em Cabo Verde, cuja sustentabilidade só tem sido viabilizada graças às ajudas externas e à sua criteriosa reciclagem, não se pode considerar auspicioso o curso da independência política que foi reconhecido ao país. Ironicamente, pode dizer-se que a boa vontade da comunidade internacional teve um contraponto negativo: ao contemporizar-se com a solução política imposta de supetão ao território, terá impedido que ao povo fosse facultada a possibilidade de escolher livremente o seu destino. Foi assim que os tais “melhores filhos da nação”, os da paternidade política do PAIGC, tiveram a via aberta e segura para, com o apoio do MFA, inviabilizar a solução democrática que certamente seria a aspiração da maioria do povo quando foi derrubado o regime anterior

Só por crassa ignorância ou irresolvido complexo de colonizado é que não se reconhece que caberia a Portugal, como aliás sempre entenderam líderes como Costa Gomes, Spínola, Mário Soares e Almeida Santos, integrar Cabo Verde como região autónoma em moldes semelhantes aos Açores e Madeira. Assim, em vez de receber dádivas da comunidade internacional para poder sobreviver, Cabo Verde poderia passar a ser contemplado, não com esmolas, mas com o que seria de direito próprio. Cheguei a invocar a rábula “comeram-me a carne, agora roam-me os ossos” para ilustrar que quem descobriu e povoou as ilhas jamais poderia livrar-se assim tão facilmente das suas responsabilidades históricas. Há quem não veja o problema nessa perspectiva, mas há dias agradou-me ler num espaço público o comentário de um cabo-verdiano que terminava assim: “afinal, os primeiros cabo-verdianos foram os portugueses”. Isto vinha a propósito da simpatia que os portugueses manifestaram em espaços públicos para com o desempenho da selecção de futebol da nossa terra no Mundial. Não foi por acaso que, há alguns anos, quando eu o José Fortes Lopes e o Arsénio de Pina fomos à Associação de Antigos Alunos de Cabo Verde falar sobre Regionalização, estando presente o Onésimo Silveira, este afirmou ao usar da palavra: “foi um erro histórico não ter sido possibilitado a Cabo Verde a auto-determinação em vez da independência política nas circunstâncias em que ocorreu.”

Resta-me uma palavra sobre o MFA, uma vez que ele tem graves responsabilidades no que aconteceu em Cabo Verde. Fui um adepto consciente do 25 de Abril, mas nunca teria imaginado que alguns oficiais do quadro permanente tão depressa se metamorfoseassem em marxistas-leninistas. O protagonismo da ala esquerdista do Movimento contribuiu para que a indisciplina nos quartéis, sobretudo em alguns, chegasse ao extremo e transformasse a imagem da instituição castrense em autêntica caricatura. Alguns militares, mesmo uns poucos profissionais, deixaram crescer cabelos, barbas e patilhas de uma forma ridícula, como querendo imitar um qualquer Che Guevara ou revolucionário sul-americano de pacotilha, na aparência mas também na adopção de condutas e procedimentos em tudo contrários aos regulamentos militares. Não se deram conta do anacronismo das suas figuras e da inadequação da tal “sociedade socialista” que, por influência partidária, apregoavam sem saberem o que isso significaria como modelo a encaixar de supetão no país e a impor-se contra a vontade nacional. Até porque a condição revolucionária surgiu, na maioria dos seus protagonistas, de geração espontânea, sem nada que a atestasse, por conhecimento teórico ou experiência política anteriormente adquiridos. Só a ignorância explica uma surpreendente e momentânea sedução por modelos sociais do Leste Europeu que não levariam muitos anos a claudicar. É como se alguns militares profissionais tivessem perdido a noção do posicionamento do seu país no quadro geopolítico europeu e abdicado da formação ética e disciplinar que a vida toda os norteou.

Ora, é nesse contexto que se movimentaram as representações do MFA localizadas nas antigas colónias e diligenciaram para que o poder fosse entregue praticamente de mão beijada aos movimentos de libertação. Como tu bem os classificas, agiram mais por cobardia do que com a consciência do dever que se lhes impunha. Costa Gomes foi bem claro quando exprimiu a sua opinião sobre o que se passava em Cabo Verde, conforme citas.

No entanto, os militares em Cabo Verde não pertenciam todos a essa célula local do MFA, do mesmo modo que os oficiais designados por “gonçalvistas” eram uma minoria. Foi enviado para S. Vicente o capitão de Infantaria Macedo Marques, do quadro permanente, a comandar uma companhia de caçadores. Ele é do meu tempo e há mais de 40 anos, durante a frequência de um curso de estado-maior em que ambos participámos, contou-me as atribulações por que passou, principalmente no episódio da intitulada “libertação da Ribeira Bote”. Regressou com má impressão dos cabo-verdianos, devido aos excessos que lá presenciou e a que foi chamado a conter com os seus soldados. Também privei com o então capitão de Cavalaria Velasco Martins, que foi enviado para S. Vicente a comandar uma companhia de Polícia Militar na altura de maior instabilidade cívica. Confessou-me que não esperava certos comportamentos porque levava a impressão de que os cabo-verdianos eram um povo pacífico e cordato.

Também sou amigo e correspondente de um oficial da Marinha que ao tempo era 1º tenente (corresponde a capitão no exército) e estava colocado no Comando Naval, em S. Vicente. Ao contrário dos dois oficiais referidos, este, sim, era dos mais activos elementos da célula local do MFA, um esquerdista convicto. Tanto terá pisado o risco que o Comando Naval o transferiu em Setembro (1974) para Angola. Não se arrepende do que fez, antes orgulha-se, imagina, de ter contribuído para o povo de Cabo Verde “escolher o seu melhor destino”. Hoje capitão de mar-e-guerra reformado, não muda de opinião e por isso não percebe ou finge não perceber que o povo de Cabo Verde não escolheu o seu destino, mas que este lhe foi imposto em grande parte por acção da célula local do MFA. Tendo sido adepto convicto do “gonçalvismo”, alinhando com os que defendiam que o MFA devia ser o instrumento para a criação de uma “sociedade socialista”, foi um dos vencidos em 25 de Novembro.

Para terminar, penso que foi um recurso literário interessante o uso do alter ego Leónidas, que considero um reflexo do inconsciente da personagem e narrador Leonardo. Imbuído de convicções, ainda assim ele admite que exista uma ou outra ligeira réstia de dúvida no edifício das suas certezas, porque no fundo sabe que o contrário fá-lo-ia incorrer em dogmatismo, tal como os seus adversários ideológicos, e que é mais seguro questionar-se ele próprio para uma maior clarificação do seu pensamento.

Reitero o meu agradecimento pelo livro e deixo aqui um abraço amigo.

 Adriano



terça-feira, 19 de maio de 2026

 

 

Mais um texto interessante sobre como ensinar Camões nas escolas e enquadrado no âmbito das comemorações dos quinhentos anos do nascimento do grande poeta português, renascentista do século XVI, Luís Vaz de Camões.

Aqui se publica com a devida vénia à autora, Professora Maria Regina Rocha.

 

A imaginação como porta de entrada para Camões

Por: Maria Regina Rocha

 

"[Para se ensinar Camões] é bom começar por pôr a imaginação dos meninos a funcionar. Por exemplo, lembrar-lhes que Camões escreveu no século XVI, quando se escrevia com penas de ave, de ganso ou de cisne, apenas molhadas em tinta da China. E o papel era papel que era feito com trapos, com fibras de linho, algodão ou canha. Reparem o que era a dificuldade da escrita e o que significa o mérito de se escrever uma obra que demorou 10 a 15 anos a escrever uma redação intermitente. Agora imaginem o que é que significa uma obra que tem 1102 estâncias com 8816 versos. Ou seja, ter logo uma ideia da dimensão antes de os meninos pequenos pegarem no texto. Uma porta de entrada para eles verem o que vão ver, o que vão saber, como têm o privilégio de entrar em contacto com algo que é excecional. Depois, de certo modo, trata-se de apresentar os livros como quem conta uma história, porque nós vamos ver uma obra que é uma história, que é a viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia. A primeira viagem que se fez de Lisboa ao Oriente e regresso. É esse o foco da história. Claro que não vou falar de História pura e dura, mas vou convidá-los a participar nessa viagem. Também é preciso dizer que é bom mostrar os mapas, mostrar as rotas, colocar a luz na época e dizer coisas concretas que os alunos não têm a noção. Por exemplo, nessa viagem à Índia, foram 148 homens e chegaram cá a Portugal 55. Foram quatro navios e só chegaram dois, os outros dois perderam-se. Os alunos gostam de histórias e gostam de saber, e isto é uma história que tem um fundo histórico. Saem de Portugal, vão até ao Oriente e regressam, mas, atenção, isso leva mais de dois anos. Na história de "Os Lusíadas", Camões selecionou passagens dessa viagem para que nós como que viajemos com esses que foram e voltaram. Mas há outro aspeto importante que é a literariedade, a beleza do texto, o prazer e a beleza dos versos. A questão da literariedade também é ensinada aos alunos, levando-os a ver. E isso faz com que eles se interessem [pelos "Lusíadas"]."

*Iniciativa no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

Leia mais em Camões na Escola

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

 

 

Com a devida vénia à autora, Professora Carmo Machado e à revista VISÃO, tomámos a liberdade de aqui publicar o texto que se segue, por o assunto nele tratado, ser de uma importância crucial na formação dos estudantes e que infelizmente, muitos de nós, ainda não conseguiu realizar.

 

COMO MATAR UM LEITOR

Carmo Machado

Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o "Amor de Perdição", tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra "Os Maias" de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: - Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam

É assustador, enquanto professora de Português, assistir diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento, afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano, os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.

Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.

Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.

Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.

Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?

A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?

Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?

Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?

Referências Bibliográficas:

MANGUEL, Alberto (1996). Uma Historia da Leitura. Editorial Presença, 1º edição.

MORAIS, José (1997). A Arte de Ler, Psicologia Cognitiva da Leitura, Edição Cosmos, 1º edição.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem

In: Revista VISÃO de 5 de Março de 2026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

 

Viva o 13 de Janeiro!

Salvé!

Esta data, rica de simbolismo, repleta de significação na história da nossa ainda jovem democracia (35 anos), deverá ser comungada por todos os cabo-verdianos. Digo isso, porque aqui chegados, parece estar a haver pontualmente, algum retrocesso no sentido da interiorização nacional da data.

Devemos todos recordar que o feriado foi sufragado pelos Deputados da Nação, dos Partidos políticos com representação parlamentar na altura, em 22 de Março de 1999, Lei n.º 95/V/99, que assim instituiu o 13 de Janeiro como feriado nacional. Mais tarde, a Lei n.º 106/VIII/2016 confirmou a realização de sessões especiais na Assembleia Nacional para 13 de Janeiro e 5 de Julho, solidificando-os como feriados nacionais com celebrações específicas. 

Daí que se estranhe bastante a resistência incompreensível e inexplicável, pela actual CM da Praia, instituição de grande importância nacional, por ser a Câmara Municipal da capital do país que reiteradamente vem fazendo a uma data que é de todos. Sim, de todos!

Explico-me: qual foi o ponto de partida para o 13 de Janeiro de 1991?

Ora bem, o 13 de Janeiro, resultou porque para ele concorreram a sociedade civil cabo-verdiana, os três Partidos políticos à época existentes, a saber: o PAICV, a UCID e o então, recém-fundado, MPD. Todos, todos convergiram para que existisse esta data memorável!  Terem-no feito em divergência ou em convergência, não importa, antes pelo contrário, foi assim salutar pois, já transpirava a democracia.

Na realidade, o que importa é que todos foram à sua maneira, obreiros.

Houve uma movimentação nacional que galvanizou os cidadãos de todas as ilhas e os das nossas comunidades emigradas. Sem o concurso de todas as forças vivas, sociais e políticas residentes e fora de Cabo Verde ao tempo, não seria possível esse magnífico dia em que o povo das ilhas, pela primeira vez, (aqui aplica-se bem) em completa liberdade, foi chamado às urnas para escolher através do voto secreto, quais seriam os seus representantes no Parlamento cabo-verdiano.

Como não comemorar com festiva alegria, tal momento histórico de repleta euforia nacional?  Como tentar apagar da memória colectiva, a data que marcou, esperemos que para sempre, a fundação e a instituição do modelo de governação democrático no nosso país?

Que fique claro que a data não tem pertença partidária e nem podia ter, foi obra de todos.  Consequentemente, qualquer tentativa para colocá-la partidariamente, serve apenas para diminuí-la e para beliscá-la gravemente na sua enorme grandeza.

 Por favor! Não façamos este triste serviço à nossa história democrática tão bela e bem-vinda às ilhas!!

Note-se: as eleições foram livres. Ganhou o MPD, como poderia ter ganhado o PAICV. O povo decidiu soberanamente.

Estas são as palavras que me ocorreram hoje e, com as quais, queria salvar (na significação crioula do termo) o 13 de Janeiro!

E tal como comecei, assim termino:

Salvé e Viva 13 de Janeiro!

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

 

Uma luz ao fundo da noite

 

                     Conto de Natal dos tempos em que se vivia com pouco

 

      Naquele tempo, anos quarenta do século passado, para o comum das pessoas de poucos recursos a celebração do Natal pouco mais era que um sentimento interiorizado e partilhado no seio das famílias. Numa época em que até escasseavam bens de primeira necessidade, imagine-se quão distante se estava do consumismo de hoje com as promoções e o black Friday vulgarizados na actividade comercial.

 

 

      No bairro onde vivia a Luzia a iluminação pública era escassa e nem todos os lares tinham luz eléctrica puxada para o interior das habitações. A véspera do Natal não era para ela diferente dos dias comuns. Como sempre, levantou-se aos primeiros alvores da madrugada para confeccionar os bolos e os salgados que vendia diariamente na vizinhança e nos estabelecimentos, para garantir o seu sustento. Mulher de rija têmpera, abandonada pelo marido há alguns anos, tinha da vida uma experiência agridoce, na sua maneira peculiar de sofrer as agruras do quotidiano sem hipotecar as reservas do seu ânimo. Os seus sessenta anos de idade foram-lhe ensinando desde cedo que o poder da imaginação logra por vezes autênticos milagres na busca de novos estímulos para a vida. Bastava-lhe a simples contemplação das estrelas distantes para pensar que algo mais haverá para lá do bairro onde se esgota a rotina da sua vida. Este e outros devaneios do género transformam-na, com frequência, em avatar da vida fervilhante das grandes cidades estrangeiras que uma ou outra vez viu estampadas em coloridos postais. Mas ela logo se devolve, satisfeita consigo própria e com o pouco que tem, à pobreza honrada do lugar em que exerce a soberania do seu viver.

      Este dia é véspera de Natal e seria mais um igual aos outros não fosse o sonho que ela vinha acalentando e queria ver realizado logo à noite. Foi na prateleira de uma loja de utilidades domésticas que o sonho da Luzia tinha começado a ganhar forma. Há muito que desejava ver-se livre do modesto candeeiro a petróleo que mal lhe alumiava a casa à noite. Pensava ela: − isto é coisa de fraco jeito, está mais que velho, fumega com frequência e não me dá aquela luz que entra pela alma dentro. E o que a seduziu? Um grande candeeiro de vidro, com um vistoso globo brilhante como cristal. Mulher de espírito fantasioso, seduzia-se com as figurinhas gravadas a estilete de aço no globo do candeeiro, que no seu entender só podiam ser obra de artista de outro mundo.

       E foi assim que começara desde há algum tempo a amealhar um escudo hoje, outro amanhã, e por vezes valores mais avultados quando o dia lhe corria de melhor feição no negócio do seu sustento. Arranjara um pote de barro com uma ranhura e dele fez o cofre que haveria de realizar o milagre da sua melhor prenda natalícia alguma vez recebida. 

      Quando o Sol se pôs, a Luzia já estava em casa e esfregava as mãos de contente por ter realizado um dia de venda lucrativo. Compôs a sua mesa com especial esmero e nela dispôs os ingredientes da ceia natalícia, produto da sua própria confecção. Depois, quando já escurecia, foi buscar o ambicionado candeeiro dias antes comprado. Atestou-o de petróleo, aguardou que a torcida se embebesse do combustível, nivelou-a o suficiente, riscou um fósforo e chegou-lhe a chama. O compartimento foi subitamente inundado de uma luminosidade nunca vista na salinha da sua pequena casa. Ela elevou a torcida ainda um pouco mais, na ânsia de conferir à luz o máximo de incandescência, e de repente todo o interior da habitação quase pareceu ganhar padrões caleidoscópicos, realçando-se pormenores antes ocultados pela luz modesta do anterior candeeiro. Convidou a sua amiga e vizinha, a idosa Isabel, viúva e a viver só, para a ceia de Natal. E a Isabel teve logo este espontâneo desabafo, mal entrou: − Luzia, isto hoje está outra coisa, mulher! É como se a luz deste candeeiro lavasse e renovasse tudo, incluindo os nossos corações! A Luzia não coube em si de contente com o reparo da amiga. 

      Cearam e conversaram longamente sobre o seu longínquo passado de raparigas novas, relembrando a dureza da vida, com as suas artimanhas e traições, mas também com as ilusões que se douram e se renovam com a luz do sol nascente de cada dia. A cumplicidade entre ambas tornava a Isabel a melhor confidente dos segredos do coração da amiga, cujas divagações do espírito mereciam sempre a sua concordância mesmo que muitas vezes as não entendesse. 

      Despediram-se quando lá fora o silêncio da noite era ainda quebrado pelo estalejar de um ou outro retardatário foguete de Natal. Por fim, foram-se extinguindo os ruídos da noite, sempre mais pródiga de eflúvios em dias festivos. Luzia ficou acordada mais algum tempo, sozinha com os seus pensamentos, inalando sofregamente a luz do seu novo candeeiro, sentindo um revigoramento de alma, como que banhada por outra luz, uma luz celestial.

      Nota: a redação deste texto obedeceu à ortografia anterior ao AO 90.

 

Tomar, 21 de Dezembro de 2025 

Adriano Miranda Lima

ONDE VAI PARAR O PORTUGUÊS ?

sábado, 14 de junho de 2025

Texto de Catarina Silva[i]



 Manuel e Sebastião, irmãos gémeos, dez anos acabados de fazer, estavam ainda no 2.º ano da escola quando começaram a levar para casa uma nova tendência da linguagem. "Mãe, posso água?", "mãe, posso pão?". O verbo principal a evaporar-se das frases e a mãe, Inês Lopes Gonçalves, radialista e apresentadora, a estranhar o fenómeno. "Até que comecei a perceber que não era só deles, era transversal entre os miúdos." Para uma assumida amante da língua portuguesa, que sempre abominou o erro, corrigir foi imediato. "Perguntava-lhes 'posso o quê?' E o curioso é que eles achavam que o que estava a faltar era o 'por favor'. Então eu insistia: 'posso roubar?', 'posso entornar?'. Fazia-me desentendida e dava-lhes exemplos práticos para perceberem que o que estava a faltar era o verboFui massacrando para que eles corrigissem e sinto que foi resultando."

Só que na escola os colegas também falam assim, economizar nas palavras foi-se propagando entre os mais novos e generalizou-se. "Já pensei que, se calhar, estou a ser uma velha rezingona, que talvez isto seja a língua, que é viva,  que não é estanque, a ir por outros caminhos. Também fui lendo sobre o assunto e percebi que pode ter a ver com a maior diversidade de hoje nas escolas, como facto de haver mais alunos oriundos de outros países. No crioulo de Cabo Verde a formulação faz-se muito assim e isto vai muito por contágio." A diversidade é um dado incontornável, é certo, tanto que Inês vai notando também outras influências, nomeadamente do Brasil. De quando em vez, ouve os pequenos gémeos dizerem "te amo" em vez de "amo-te", "me faz" em vez de "faz-me" ."Talvez seja normal, hoje ouvimos muita gente a falar de várias maneiras, temos acesso a conteúdos de todo o Mundo, mesmo com o inglês, usamos muitas expressões diariamente, eu própria caio  nisso."

Apesar disso, a radialista exaspera com o erro, com as calinadas no português, não consegue controlar. Sobretudo em adultos, quando assiste nas redes sociais "ao assassínio diário e massivo" da língua, cada vez mais abreviada, "sem o uso das preposições". Por um lado quer ser otimista, acreditar que a economia de verbos entre os mais novos é passageira. Por outro, ao ver os mais velhos "escreverem mal nas redes sociais", teme que com o tempo "a norma seja o erro". "Não podemos ter a pretensão de achar que controlamos uma coisa que é maior do que nós e vamos ter de nos adaptar. Mas, enquanto puder, vou corrigir os meus filhos. Quanto mais não seja para que saibam, quando usam estrangeirismos, que não pertencem à nossa língua."

uma certeza, a de que o fenómeno da economia de linguagem se enraizou entre os miúdose segue a par e passo com outras influências que entram a toda a velocidade no discurso, desde os brasileirismos aos anglicanismos. iremos. Foquemos, para já, na omissão dos verbos. Os relatos surgem de toda a parte, de pais e professores. Carla Gonçalves é docente no 1.° Ciclo e de há uns três anos para tem vindo a assistir a isto. "O discurso na oralidade está comprometido pela ocultação do verbo principal. Na realidade, eles  usam um verbo, o posso, que é auxiliar, o principal é que é completamente anulado. Isto é diário, preocupa-me que o desenvolvimento linguístico esteja a ser posto em causa. "E uma tese que Carla defende, que vai para lá das influências que temos vindo a beber do Mundo: é o imediatismo. "Vivemos numa era muito rápida, as crianças não sabem esperar, uma grande ansiedade de resposta e encurtam a mensagem, quase como se fosse um chat. "Para isso, acredita, também contribui o facto de os pequenos lerem cada vez menos. "Só leem o que veem em reels e tiktoks, onde a mensagem também é muito abreviada."

Na sala de aula, de cada vez que os alunos lhe perguntam "posso dicionário?", a resposta da professora é invariavelmente a mesma. "Queres comer o dicionário?", questiona." Se lhes perguntar o que querem fazer com o dicionário, ficam a pensar, têm dificuldade em chegar ao verbo. Perguntando se o querem comer, sendo mais objetiva, resulta melhor. "A abordagem tem trazido frutos, "hoje já fazem uma pausa quando querem fazer uma pergunta e tentam ajustar o discurso".

Ana Soares, também professora do 1° Ciclo, tem vindo a travar a mesma batalha com Isabel, a filha mais nova, de sete anos." Ela teria cinco anos e pouco quando começámos a notar esta omissão dos verbos. Já tinha notado isso na escola, mas em casa não.Ao falar com a educadora e com amigos que têm filhos da mesma idade, percebi que isto começa logo no pré-escolar. "A génese é difícil de identificar, mas há fatores que lhe parecem alimentar a nova tendência." O facto de atualmente ser tudo muito urgente, é sempre tudo à pressa, tudo muito rápido. Nós próprios , os pais, também vivemos assim e sinto que lhes transmitimos essa urgência." 


Agora, a pequena Isabel raramente omite o verbo, os pais foram insistindo e ela própria se "autocorrige" sempre que, distraída, escorrega no erro. "Vamos conseguindo contrariar. Acho que não devemos deixar escapar, estes hábitos facilmente se instalam e depois é mais difícil voltar atrás", refere a mãe, que reconhece saber que "a língua está sempre em mutação e se vai adaptando à medida que as sociedades vão evoluindo". "A questão é que sinto que os miúdos falam cada vez pior, com cada vez menos vocabulário e é preciso ter um papel interventivo."

ENTRE OS RISCOS E O OTIMISMO

O tema tem dado pano para mangas e há uma questão que se impõe: a língua estará mesmo a mudar? visões mais catastrofistas, outras otimistas, os especialistas dividem-se. Alfredo Leite, licenciado em Psicologia, percorre escolas pelo país com ações de formação  e sensibilização para pais, professores e alunos, no âmbito do projeto "Mundo Brilhante", e fez uma publicação no lnstagram, a propósito do assunto, que se tornou virai. "Isto não é um erro de aprendizagem nem preguiça .É um fenómeno linguístico real: a economia da linguagem. Quanto menos palavras disserem, mais rápido comunicam. O problema é que, quando cortamos palavras, cortamos também a forma como organizamos o pensamento. A linguagem não é só uma ferramenta para falar, ê a estrutura onde o nosso raciocínio se desenvolve", lia-se. O risco, para Alfredo Leite, é exatamente esse."Quem não fala bem, não pensa bem. Isto pode ter implicações no desenvolvimento cerebral e acho que se vai refletir no futuro,com dificuldades  em  saberem exprimir-se", aponta à "Notícias Magazine".

Na verdade, Alfredo Leite também vive o fenómeno em casa, a filha mais nova economiza nos verbos, e "muitas vezes, nem sequer percebe que o fez". "Por isso é que acho preocupante, ela não o faz para chatear, já nem se apercebe. O caminho é corrigir, corrigir, corrigir. Com paciência, sem agressividade, mas não podemos assobiar para o lado", sublinha. Porém, a dúvida paira: não poderá ser apenas uma moda? "Não acho. O 'bué' é uma moda, o 'tipo' também. Cortar no verbo reflete outras questões, mostra que as crianças articulam de forma pior o pensamento, algo que tenho vindo a sentir nos últimos anos. Não leem, escrevem pior e pensam pior."

Contudo, os linguistas parecem seguir em sentido contrário, numa visão mais esperançosa. "É um modismo como tantos outros que têm existido", resume Margarita Correia, linguista, professora universitária e investigadora. "Se algum perigo para a língua? Não. E não me parece que haja uma causa profunda que tenha a ver com a aquisição de linguagem. Parece-me até abusivo achar que é uma alteração a nível mental por estarmos todos a viver muito depressa.Se as crianças o fizessem em todas as frases que dizem, poderia estar a haver uma mudança na sintaxe. Mas surge sobretudo nas orações imperativas, quando estão a pedir alguma coisa. É uma moda, que vai desaparecer, como desapareceu o 'prontos'. Ou o 'baril' que se dizia quando eu era adolescente."

Isto não é mais, considera, do que uma gíria que os jovens criam quando estão entre pares. É sabido, sempre aspetos geracionais na língua. ''Eu não falo agora como falava quando tinha 20 anos.Vamos mudando a nossa forma de falar ao longo da vida, adaptando-o os a outros contextos. "Marco Neves, também linguista, professor de Línguas na Universidade Nova de Lisboa e autor do podcast "Português Suave", tende a concordar. "O mais prováveI é que isto seja passageiro. A língua vai borbulhando, cada geração vai experimentando coisas novas, mas no geral estabiliza. mudanças que ficam, nunca sabemos quais.E mesmo que este fenómeno se generalize, a língua encontra soluções para não se perder a comunicação. Mas estes pânicos sempre existiram."

Isso é um facto. Século após século, surgem tendências na língua que levam os mais puristas ao desespero. Já no século XVIII, a obra "Enfermidades da Língua" abordava a ideia de que a língua portuguesa estava doente, que andava pelas ruas da amargura e que já ninguém sabia falar. "E uma discussão eterna, que acontece em todas as épocas. As novas gerações têm sempre comportamentos diferentes, entre eles está a forma de falar. E de cada vez que alterações é um 'ai meu Deus, estão a corromper a língua'. A ideia ingénua que as pessoas têm é que a língua é imutável. Diz-se, muitas vezes, que falamos a língua de Camões e não falamos, ele falava uma variação diferente. Se ele cá viesse ia ter dificuldade em compreender-nos", enfatiza José Teixeira, professor de Ciências da Linguagem na Universidade do Minho e doutorado na área da Linguística Cognitiva. Ainda assim, modas, assegura, sempre houve. "Basta ir à internet e procurar modas linguísticas dos anos 1950,1960,1970. Normalmente isso não fica na língua."

Mas um ponto a que é preciso prestar atenção, é que a língua funciona sempre num equilíbrio entre o máximo de eficiência com o mínimo de esforço. "Estamos constantemente a sintetizar, a poupar, a simplificar, sobretudo na oralidade. Um exemplo é o facto de termos passado do vossemecê para o você. O economizar acontece sempre ao longo da história. Não conseguimos é prever se isto veio para ficar ou se é uma moda passageira."Sendo certo que a tendência, atualmente, é "de isolacionismo comunicacional, do egocentrismo". "Aquela ideia de 'eu falo e o outro tem de se desenrascar para me entender. O falante fica contente apenas com um esboço da frase. A manter-se assim, é natural que não nos importemos de poupar o essencial, que na língua portuguesa é o verbo." Mas isso só o futuro dirá.

DO  BRASIL  AO  INGLÊS

Olhemos, pois, para o presente. Embora a discussão sobre a doença da língua seja de sempre, nos dias de hoje um fator que é diferente, segundo o linguista Marco Neves. É que "estamos a viver a primeira época em que todas as pessoas sabem escrever, e todas escrevem efetivamente, seja um email, uma mensagem, seja nas redes sociais, quando antigamente só escrevia quem o fazia profissionalmente, jornalistas, escritores, professores". É preciso não esquecer que, no final do século passado, tínhamos uma das maiores taxas de analfabetismo da Europa. "Por escrevermos em todo o lado é que esta sensação mais aguda de que as pessoas erram muito. E,  de facto, erram." A somar a isso, estamos a beber uma série de influências, a começar, desde logopelo português do Brasil.

Carmo Oliveira, professora de Português no Ensino Secundário, atesta isso mesmo. Tem vindo a sentir-se cada vez mais desmoralizada." Os alunos de hoje têm muitas dificuldades do ponto de vista linguístico e lexical, têm um vocabulário muito reduzido. Pela primeira vez na vida, não tenho um único aluno que tenha lido 'Os Maias'. Eles não conseguem ler uma obra tão complexa." Ao mesmo tempo, começa a ouvir no discurso dos estudantes mais velhos uma série de palavras importadas do português do Brasilcomo ''engajamento" ou "liberado". "A própria estrutura das frases está em mutação. Dizem, por exemplo, 'eu telefonei a ele' em vez de 'eu telefonei-lhe’.  Na escola, tentamos preservar a integridade linguística, corrigirmas estou convencida de que é uma batalha perdida."

As  escolas estão mais multiculturais e um grande número de alunos do Brasil (em cinco anos, a imigração brasileira cresceu 369%), mas a influência também está ligada ao fenómeno de youtubers brasileiros junto de crianças e jovens."Aposto até mais nisso, o mundo digital tem muito peso. dias, fotografei o telemóvel de uma aluna que tinha 18 horas de ecrã num dia. "Carmo Oliveira não esconde a preocupação, mas sabe que não para remar contra a maré. "Estamos numa fase difícil, uma normalização do erro, estruturas a mudar, menor riqueza linguística. O mais provável é que a língua tenha características diferentes na próxima década.”

Será que isso é trágico? "O português falado vai mudar, isso claramente.E tenho a impressão de que vai mudar depressa, porque Portugal nunca recebeu tantos imigrantes. Mas não me preocupa nada, é a língua tal como ela é", salienta Margarita Correia. Vamos absorver novas palavras, expressões, a estrutura sintática vai sofrer mudanças. Mas, realça a linguista, antes da grande vaga de imigração do Brasil, ainda nos anos 1990, estavam a ocorrer alterações sintáticas que nos aproximavam do português do país do samba.

Vejamos, excluindo os emigrantes, o português europeu tem dez milhões de falantes, o do Brasil tem mais de 200 milhões, e consumimos cada vez mais conteúdos produzidos na outra margem do Atlântico, a influência parece inevitável. Mas não é por entrarem duas ou três expressões do Brasil na nossa linguagem que vamos perder a identidade", afirma José Teixeira, que vai mais longe: "Se queremos que o português seja realmente uma língua internacional, tem de ser uma língua misturada. Seria prestigiante ser uma íingua mais internacional. Todas as grandes línguas internacionais são uma mistura. O inglês que falamos hoje não é o de Londres, mistura expressões americanas, inglesas, australianas. Não me importo nada que o português seja uma língua que tenha contributos das várias zonas onde é falada, do Brasil, de Angola, de Moçambique”.  Até porque vale a pena ressalvar, o português não é dos portugueses, é de quem o fala. E o português do brasil é tão português como o meu, são variantes da mesma língua.”

Curiosamente, diz o investigador, hoje temos até mais palavras do inglês no nosso vocabulário do que do português do Brasil. "E não nos preocupamos tanto. usamos a palavra tributo sem ser no sentido de impostos, agora significa homenagem. Usamos realizar no sentido de perceber. Nem nos questionamos. Quando a palavra futebol entrou no português europeu, no princípio do século XX, houve um conjunto de escritores, os académicos da época, que achavam que se devia proibir e propuseram pedibola. Adiantou alguma coisa?Aliás, o futebol é parte da nossa identidade hoje.”

Se os falantes quiserem, as palavras entram, a língua não se impõe por decreto. E é inegável que o inglês está cada vez mais presente. A professora Carmo Oliveira relata até que, nos corredores da escola, já  há alunos do secundário a conversarem inteiramente em inglês entre eles, e irrita-se com a subserviência a uma língua que não é nossa. O professor de Ciências de linguagem, linguista Marco Neves diz mesmo que "a grande pressão na língua não é do Brasil, é do inglês, que está a ter um impacto  muito superior. Algo que não é novo, o que é novo é ser uma proporção tão grande.”Por exemplo sabemos que as taxas de leitura em Portugal não são maravilhosas, mas quem lê, lê cada vez mais em inglês.”

Marco Neves não tem medo dos estrangeirismos, a questão é que atingimos um novo patamar. "Não é impossível pensar numa situação em que o inglês começa a ter uma presença tão forte ao ponto de os próprios pais falarem em inglês com os filhos. Podemos chegar a um ponto de substituição. Parece absurdo agora, mas não é tão descabido assim. Claro que o inglês é um grande instrumento de comunicação internacional, mas não como substituição da nossa própria língua.”

O caminho, para todos os que se afligem com as influências que estamos a receber, sugere, é tentar mostrar aos mais novos mais música em português, programas de entretenimento, séries, livros. " E evitar o pânico, a ideia de que isto está tudo mal." mais de sete mil línguas no Mundo e a portuguesa está entre as dez mais faladas. Como diz José Teixeira, "uma língua só morre quando os seus falantes morrerem, pode sofrer alterações profundíssimas, mas continua sempre a funcionar'.



[i] Notícias Magazine de 08.06.2025