A Língua é do Falante

domingo, 16 de março de 2025

 

Exactamente, como diz o título: a Língua pertence ao Falante que a pratica, que a usa no seu dia a dia, que a transforma ao longo da vida

Creio que não haverá ambiguidades e nem confusões, com relação a essa pertença.

São os falantes que  a criam, que a falam, que a escrevem, e que a inovam tanto na perspectiva sincrónica, como na diacrónica; de tal modo assim é, que o legislador quando se debruça sobre questões à volta da  Língua que o Estado encomenda, apercebe-se, percepciona  a necessidade e a importância de um Referendo, isto é, de uma consulta dita popular, junto dos falantes para se aquilatar da problemática que directamente  diz respeito aos falantes da Língua. E como escreveu alguém que me é caro: “(...) é uma matéria digna de um Referendo, para que houvesse uma vinculação séria por parte de todos os entes, presentes e futuros (…)”   Tal é a importância e a complexidade de questões que tocam a Língua.

Continuando esta espécie de cadeia de “comandos linguísticos,” os Gramáticos, surgem depois da Língua estar na boca e na pena do falante para criar ou recriar normas, regras para melhor padronizar/estandardizar a Língua viva, de comunicação, evitando assim ambiguidades, confusões, mal-entendidos e caos linguísticos entre os falantes de um mesmo idioma. O seu papel é semelhante ao de um moderador, de um regulador que ajuda a tornar clara e correcta – igual para todos – a comunicação entre os falantes.

 Na mesma linha e com funções diferentes, surgem os Linguistas.

Ora bem, os Linguistas, nas suas diversas especializações como Dialectólogos, Sociolinguistas, Psicolinguistas – resumindo, – os cientistas da Língua, estudam-na, (a sua génese, a sua história) estruturam-na em grandes famílias de línguas, exemplo: a nossa – Língua portuguesa – é neo-latina e encontra-se no grupo do francês, do italiano, do espanhol, do romeno, entre outras, que derivam do Latim, daí serem classificadas como Línguas românicas.

Igualmente, são os Linguistas que estabeleceram os diferentes níveis de uma Língua, ora culta, ora corrente e ora ainda, popular entre outras questões que se põem quando uma língua viva e de comunicação entra na elocução e na escrita de diferentes falantes. Também foram eles  que denominaram as funções da linguagem, no acto elocutório do falante. 

Aliás, grandes nomes/fundadores da ciência Linguística como: Ferdinand de Saussure, Leonard Bloomfield, Eugenio Coseriu, Noam Chomisky, para só citar alguns Linguístas e filósofos da linguagem que se destacaram através das obras e das teorias que elaboraram neste ramo – e que tive o privilégio de estudar enquanto estudante universitária – tiveram sempre em mente os falantes das línguas sobre as quais se debruçaram.

Interessante relembrar, dada a ocasião, que Baltazar Lopes da Silva, eminente filólogo e renomado estudioso da fenomenologia linguística crioula, ao descrevê-la, considerou o nosso crioulo como: “Uma experiência românica nos trópicos”. Título de um ensaio deste autor, publicado na Revista Claridade, nº 4 e 5, 1947. Clarificando: os Linguistas descrevem a Língua nos seus múltiplos aspectos, enquanto ferramenta individual, social, na oralidade e na escrita do falante. Mas atenção, estes estudiosos e especialistas da Língua não se arvoram em “donos” da mesma e de que só eles é que podem proferir questões sobre o idioma do falante. Pelo contrário, os cientistas da Língua têm a noção perfeita de que aquela é, em primeira e última instância, pertença do falante. E em tempo algum declaram qualquer critério de autoridade para reivindicar e valorizar a sua posição.

Da mesma forma, uma lei, pode ser discutida e debatida entre não juristas, uma vez que o cidadão – enquanto beneficiário e tributário da lei criada, algo que a ele diz respeito perante as autoridades, – não pode revelar o seu desconhecimento de normas pelas quais, a vida dele em sociedade se rege.

Vem isto tudo a propósito de clarificar situações que configuram entre nós, a criação de alguma inibição, de alguma pressão sobre o falante, para o impedir que ele debata o seu próprio idioma, ou, ainda mais grave, de pensar sobre o idioma que ele herdou e vem passando de geração em geração; tornando essa ferramenta de comunicação, apenas “coutada” ou propriedade privada e exclusiva de especialistas da Língua que é nossa (plural e abrangente) Não. De maneira alguma!  É como se as partes beligerantes deixassem que uma guerra entre elas fosse apenas tratada por generais.

Todos nós podemos e devemos emitir opiniões sobre a nossa Língua materna. Não importa a profissão/actividade, formação académica, (economia, engenharia, artes, medicina, entre outras) ou apenas leigo e sem qualquer diploma; todos, mas todos os falantes, devem disponibilizar-se, se assim entenderem, para se pronunciarem sobre a sua Língua.  A Língua chamada materna, funciona para o falante como se de uma preciosa herança se tratasse, legada pelos seus ascendentes e que ele por sua vez, deixará aos descendentes.

 

1 comentários:

Adriano Miranda Lima disse...

Felicito a Dr.ª Ondina Ferreira por esta valiosa reflexão sobre a problemática das nossas duas línguas maternas, o português e o crioulo. Na fase da minha vida em que aprendi a falar, a ler e a escrever, não cheguei a aperceber-me de qual das duas uma era mais materna do que a outra. É claro que sempre se poderá dizer que isso variaria com o nível de escolaridade dos respectivos ambientes familiares de origem: nalguns, o uso do crioulo conviveria rotineiramente com o de algum português; noutros, o crioulo seria a língua de comunicação exclusiva. No meu caso pessoal, o que a minha mãe falava no seu dia-a-dia era o crioulo, mas foi precisamente ela que me ensinou as primeiras letras (“Infantil” e “Infantilona”, os dois livrinhos didácticos que nesse tempo se usava) antes de eu entrar para a 1ª classe da escola primária. Nessas sessões de preparação pré-primária, e até posteriormente como minha explicadora nas classes seguintes, ela só usava o português. E noutros contextos, quando era para me dar um ralhete, fazia-o sempre em português.
Pois, sempre se poderá alegar que nos ambientes familiares em que ninguém e em circunstância alguma falava o português, dificilmente a criança poderia encontrar condições para o considerar língua materna. Só que, quando entrámos para a escola - alunos de diferentes origens sociais - não me recordo de haver diferentes níveis de aprendizagem da língua em função das respectivas origens familiares. Mais, como a professora era alguém que não falava nem percebia o crioulo (era uma jovem chamada Fernanda, "metropolitana", como então se dizia), hoje é para mim um mistério o processo que ela utilizou para comunicar com os alunos e introduzi-los na aprendizagem do português. A verdade é que ela continuou como nossa professora na segunda classe e no final dessa etapa escolar todos nós já conhecíamos o mais elementar da língua, sem assinaláveis diferenças entre uns e outros. E lembro-me de que nas minhas 3.ª e 4ª classes o melhor aluno era, sem sombra de dúvida, um rapaz de origem muito humilde, e tanto que não passou da instrução primária, porque os pais não terão tido possibilidade de o matricular no liceu ou na escola técnica. O apelido dele era Leite, e nunca o esqueci, talvez por ter ficado marcado por tão flagrante injustiça social.
A explicação que eu, um leigo na matéria, encontra é que o crioulo e o português terão laços de parentesco tão fortes e indestrutíveis, pontos de interligação tão geneticamente forjados, que mesmo um analfabeto crioulo consegue perceber o essencial quando ouve uma comunicação em português.
Voltando à questão essencial da reflexão da Dr.ª Ondina Ferreira, e focando-me agora no crioulo, concordo que será um erro deixar a língua crioula entregue apenas a "generais", ainda mais quando divergem tão claramente na "táctica e na estratégia", como se tem visto. Será mais aconselhável deixar que os "soldados" continuem a malhar nela, à vontade e como sabem, pelo campo de batalha fora. Ou seja, o melhor tratamento que se pode dar ao crioulo é deixar que ele continue livre e solto na sua vidinha de sempre. Pode ser que um dia saia um verdadeiro "general" da grande massa dos "soldados" que tenha a coragem de dizer a verdade: o futuro da identidade nacional cabo-verdiana não depende tanto do crioulo, como alguns querem fazer crer.




tanto do crioulo, como alguns querem fazer crer.

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