Corsino António Fortes (1933-2015) - Uma homenagem singela na passagem do quinto aniversário da sua morte -

sábado, 25 de julho de 2020


 Poeta desde os tempos de estudante do Liceu de Gil Eanes de Mindelo, ilha de São Vicente, de onde é natural, Corsino Fortes, iniciou-se no «Boletim dos Alunos do Liceu de Gil Eanes em 1959.
Publicou também poemas na revista «Claridade» e no «Cabo Verde − Boletim de Propaganda e de Informação», nos inícios dos anos 60 do século passado.
O poeta Corsino Fortes, começou a trabalhar cedo e segundo Manuel Ferreira, («Reino de Caliban I» 1975, página 203): “Fez os seus estudos liceais já numa fase adiantada da sua juventude.(...) Foi professor  eventual do Liceu da Praia”.
Mais tarde, em 1962, obteve uma bolsa de estudos e seguiu para Portugal para prosseguir estudos superiores.
Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, foi Juíz de Trabalho em Angola, onde permaneceu até ao processo (1974/1975) das independências das antigas Colónias ultramarinas portuguesas.
  Ainda em 1974, regressou a Cabo Verde, tendo, logo a seguir a independência desempenhado funções de membro do Governo e de Diplomata; tendo sido nomeadamente, Embaixador de Cabo Verde em Portugal e em Angola.
Foi Presidente da antiga Associação dos Escritores Cabo-verdianos (AEC) e mais tarde fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras e seu primeiro presidente.
Para além de um vasto acervo de poemas publicados de forma dispersa, Corsino Fortes deixou antologias poéticas, entre as quais se distinguem: «Cabeça Calva de Deus», «Pão & Fonema» e «Árvore & Tambor - Pedras de Sol e Substância».
Percorrendo a obra de Corsino Fortes, creio descortinar duas fases na sua poesia que separo em termos temporais, e em termos de causas inspiradoras.
A primeira, é a fase de lírico, cantor dos seus amores jovens e da sua cidade natal, Mindelo; é também o período em que ocorre a descoberta de uma certa mística do destino que liga o sujeito poético à terra e às divindades que a presidem.
Trata-se, no meu entender, de uma fase em que o poeta teceu os seus mais belos poemas, em que a imagética, o ritmo e o lirismo se entrosaram numa correspondência harmoniosa.  Alguns exemplos: “Mindelo”; “Girassol” “Paixão” “Pecado Original”. Estes poemas encontram-se  coligidos no volume I do «Reino de Caliban» já aqui citado.
Neste contexto inicial como poeta, Corsino Fortes, definu a sua escrita da seguinte forma. “ (...) Houve uma fase anterior, com o pseudónimo ABC- CORANTES. Corantes: Cor- Corsino; An- António; tes - Fortes (...) Durante esse período, ia já escrevendo sobre as minhas vivências, dentro de um certo lirismo idealista (...)uma vertente telúrica que vai desembocar em «Mindelo». (...) Eu escrevi imenso (...)mas havia outra vertente que era mais esotérica, com um espectro existencial sobre a própria vivência em si...escrevi poemas necessários, para serem necessariamente esquecidos.” In: Encontro com Escritores, Michel Laban  II vol.
Muito interessante e bem ilustrativa, a forma como o poeta se “autodefiniu” como iniciante nas lides da poesia.
A segunda fase, é a sua transformação metafórica de poeta lírico em poeta de intervenção.  Neste período, o poeta já se revelava versado numa poesia mais sintonizada com a época das grandes transformações no que toca ao posicionamento dos poetas e dos escritores africanos face aos problemas do Continente e muito particularmente, os do mundo da Língua portuguesa. que almejavam o fim da dominação colonial.
É assim que o vamos encontrar − o poeta − nos poemas insertos nas antologias já aqui referidas, nomeadamente, «Pão & Fonema».
E para melhor intuir a mudança operada no poeta, seguiremos os versos do poema “Vendeta.” Exactamente por ser, no meu entender, o poema que marca a viragem – da primeira para a segunda fase – da abordagem poética de Corsino Fortes. Um marco de certa forma demonstrativo do divórcio do poeta com a sua lírica até aí realizada. Doravante seguirá o verso “rebelde” que se evadiu deliberadamente do poema que ele escrevia. Este poema foi publicado, no nº 9 da revista «Claridade», em 1960.
Afinal, o tal verso “rebelde” que se evadiu “descaradamente” dos outros companheiros, sobrepôs-se e agigantou-se de tal  modo que dominou o sujeito poético e o levou a questionar a obra feita até então. O dito verso, incitou-o a mudar o rumo da sua poética. Poética essa, que necessariamente havia de sair do seu cantar alegre, embora não despreocupado, mas que agora devia emergir em “imagens feridas” da “dor” e do “sangue” das vítimas.
Parece-me ser esta uma das leituras que retirámos da análise de «Vendeta» e que, sendo plausível, ajudar-nos-á também a entender a transformação e a alteração do “modus operandi” subsequente na poesia de Corsino Fortes. Aquele que ele patenteia com à-vontade e abundância nas colectâneas já aqui referidas − «Árvore & Tambor» e as outras duas.
Uma poética futura e futurista que não se deixa captar em superfícies facilmente visualisáveis, mas antes, enreda-se em jogos metafóricos de sons, de fonemas e de aliterações que vão ao âmago da Língua, de tal sorte que esta passa a funcionar nos poemas do autor, como protagonista dos actos poéticos que ele consente e enforma. E assim foi até ao fim, o timbre e o tom dos poemas de Corsino Fortes.
Mas ainda voltando à mutação na “poesis” ou, no tecido poético de Corsino Fortes, deixo ao leitor, para melhor ilustração, os versos de «Vendeta» que marcam a ruptura e fazem o presente versus futuro deste poeta. Ei-lo:
“Um verso escapa / Descaradamente / Do poema que escrevo // Um rumor longínquo / Segreda-me / Que ele espezinha / Os companheiros / Da minha caravana / De repente / Ele projecta-se / No «écran» do meu espanto / Com garras e lábios / Manchados de sangue. // Nos seus olhos há imagens feridas. // E numa voz cortante / Blasfema // Sou a dor / O sangue / A vítima / Dos teus crimes impunes! // Vingo-te à minha maneira. // Renego-te / Renegado!...”
Finalizo, dizendo que Corsino Fortes encontra o seu lugar como poeta e situa-se na poesia cabo-verdiana, entre o telurismo e a cabo-verdianidade da escrita saída dos Claridosos dos anos 30 e a pujança intervencionista dos poetas da década de 60 do século passado.
II
Aproveito a ocasião, para também aqui transcrever o texto que enviei à Academia Cabo-verdiana de Letras, a seu pedido, para a evocação do quinto aniversário da morte do poeta:
“Um poeta fidalgo passeando pela brisa da tarde... assim apetece-me definir Corsino Fortes, aproveitando o título de um romance da Mário Carvalho, «Um Deus passeando pela brisa da tarde»
"Poeta fidalgo", assim o chamo agora. A sua fidalguia no trato, o que incluía até o beija-mão às senhoras; o seu falar pausado, procurando trazer em cada vocábulo um imenso cuidado para uma assertividade contextual mais próxima do pretendido no diálogo com outrem; o seu ser social sempre repleto de generosidade e de lhaneza.
"Poeta fidalgo" o que contrastava alegremente com seu bradar "revolucionário" numa poética em que os revoltosos afinal, eram ...”os fonemas” em metáforas transpostas para uma escrita de sons transformadores, tresloucados, em busca do "pão... De boca a barlavento, indo de rosto a Sotavento”. 
Corsino Fortes, o cantor de Mindelo, um dos seus mais aficionados e apaixonados trovadores, comparável à composição musical de B. Leza e de Jotamont, nesse louvor à cativante cidade.
E assim no-lo diz o poeta:
 "(...) Mindelo // Recanto de sonhadores / de poetas e músicos / de aves sem asas / Voando / Em busca de alvo / na neblina da noite."
E continua o poeta mergulhado no fascínio das noites de Mindelo:
"(...) Mindelo / Ò doce Mindelo morno / De lua nascente e poente / De noite debruçado / na morna dolente/ de poesia encostada / Na esquina da noite. // Mindelo de luzes / de pétalas e prantos / Ò quimera perdida / Ò berço adormecido / embalado / dentro de mim!".
Poeta das ilhas também.
A minha homenagem amiga.



terça-feira, 21 de julho de 2020

O texto que a seguir se publica é de autoria de Raquel Varela, Pesquisadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
 Trata-se de uma autora projectada em vasta obra sobre História Social, Política e Trabalho.
Porque o assunto abordado é de interesse de todos, implica-nos fortemente e faz-nos reflectir sobre os caminhos da educação e sobre o perfil do professor que os constrói, com a devida vénia à sua autora, aqui se transcreve para o nosso leitor, este excelente texto.

O Professor-robot
Por Raquel Varela
A professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem - crianças - para um mercado de trabalho desqualificado.
É de um colégio privado, esta professora, segundo percebi. Podia ser do público, dificilmente seria de um colégio privado de luxo onde não há telemóveis e os professores são intelectuais, bem pagos, em exclusividade. A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação - a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, "então eu devia ser um intelectual"? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. Em breve (já aliás em curso em Portugal), se nada fizerem, serão apenas monitores de exames também eles de cruzinhas, que o próprio computador se encarregará de corrigir. No Brasil o dito ensino à distância, e isto também no Universitário, já colocou um docente a corrigir 40 mil provas, leram bem, 40 mil. Nem ele é docente, nem a prova é prova, nem a correcção é correcção - é tudo uma enorme farsa que visa a automação, por um lado, e o défice zero por outro, ou seja o pagamento de dívidas privadas transformadas em públicas.
A questão permanece e convoca-nos a todos, o que nós professores, pais, contribuintes, estamos dispostos a fazer para inverter este declínio sistémico, quando cada vez pagamos mais e temos menos. Podemos sempre pensar, como vítimas, queixando-nos do estado das coisas, e salientando que é um caso isolado, daquela professora naquele colégio. Ou podemos agir como questão pública, que o é, com verdade - é um problema geral, é cada vez mais comum, se não mesmo maioritário, e que põe em causa todo o futuro do país, do mundo, da humanidade humanizada.

sábado, 18 de julho de 2020

A Língua portuguesa mais uma vez revista por um dos seus mais cuidadosos estudioso, Nuno Pacheco. Um proveitoso convite à leitura dos professores da Língua comum.



Ler “o que lá está” é também seguir o que lá não está, deturpando o som das palavras
Nuno Pacheco*
Ainda em época de exames, a língua portuguesa vem de novo à baila. Tanto mais que o exame do 12.º ano gerou contundentes críticas, como se vê pelos artigos de António Carlos Cortez ou de Elisa Costa Pinto, ambos no PÚBLICO. Mas não é de exames que trata esta crónica, e sim do tema levantado por uma pequena frase do leitor Alberto E. Diniz, da Figueira da Foz, que em carta ao director do jornal (publicada no dia 7) dizia serem arrepiantes, em Portugal, “as alterações na pronúncia, devido à destruição na modulação das vogais, que as nossas crianças expressam, argumentando elas que apenas estão a ler o que lá está...” Esta ideia, a de “ler o que lá está”, já motivou uma crónica anterior, velhinha de cinco anos (“Maravilhas da fonética”, 19/4/15), mas a verdade é que o tema não só se mantém actual como a situação se agravou.
Porquê? Pela escrita, precisamente. Há cinco anos citaram-se aqui as Charlas Linguísticas de Raul Machado, filólogo e primeiro presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, que iniciou em 1958 na RTP um programa dedicado à língua, compilado mais tarde em livro. Ora logo numa das primeiras emissões (a de 21/1/58) tratou precisamente do tema “Leia o que lá está!” Nesse programa, criticava professores ou pais que, em tom autoritário, diziam a crianças com dificuldade de ler uma frase num livro:
“Menino, leia o que lá está!” Como se dissessem: “O menino é parvo! O menino não sabe ler!” E dava como exemplo esta frase: “Os homens sentem e pensam.” Uma frase simples, que toda a gente lerá sem dificuldade. Toda a gente? Sim, toda a gente que já domina, mesmo que de forma inconsciente, as regras do sistema vocálico do português europeu. Se uma criança lesse mesmo “o que lá está”, com base no que aprendera no alfabeto, leria (dizia então o filólogo): Óss hóménnss sénntémm é pénnsamm. Ou, “em grafia sónica, a seguinte algaraviada: Óç hóménç çéntéme é pénçame”. Em vez disso, qualquer pessoa lerá “Uz ómãix sêntãi i pênsão”. No entanto, escrevemos “Os homens sentem e pensam”.
Raul Machado prosseguia, assim, o seu raciocínio: “O fenómeno linguístico da pronúncia do nosso idioma encerra dificuldades e complicações de tal monta, que só com intenso treino e longa aprendizagem se conseguem vencer e dominar. Por isso, o imperativo ‘Leia o que lá está!’ contém, sem dúvida, uma imposição muito difícil de cumprir…, muito difícil de cumprir, sobretudo nos bancos da escola, da escola primária [agora conhecida por ensino básico].” Mas, concluía, era nessas dificuldades que assentava a “realidade magnífica da língua nacional”.
Porém, voltando à carta do citado leitor, as crianças de hoje argumentarão “que apenas estão a ler o que lá está”. Contraditório? De modo algum, porque não se referem ao “que lá está” em sentido literal (como, de forma irónica, se lhe referia Raul Machado) mas sim ao “que lá está” proveniente da escrita e dos sinais que dela emana para a sua correcta interpretação fonética. E é aqui que surgem os equívocos actuais, derivados em grande parte da aplicação do chamado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).
Ressalve-se que o caminho para a ambiguidade foi já antes aberto pelas reformas ortográficas anteriores (com a capa de “acordo” ou sem ela). Por exemplo, este conjunto de palavras homógrafas, mas não homófonas, tinha a distinção sónica assinalada por acento gráfico na reforma de 1911, sendo depois abolida na de 1945: acôrdo e acordo (de acordar); fôrma e forma (de formar); sêca e seca (de secar); trôco e troco (de trocar); sôbre e sobre (de sobrar); côrte e corte (de cortar); refôrço e reforço (de reforçar); e até entre formas verbais distintas, mas homógrafas: pregar (de bater um prego) e prègar (dar sermões). Estas distinções gráficas caíram com a reforma de 1945, deixando a desambiguação para o contexto. Em contexto, percebia-se que eram diferentes. E fora de contexto? Ora, que adivinhássemos!
Já com o AO90 pretende-se que sejam lidas de forma diferente palavras de estrutura idêntica, mas sem indicar como. E se as distinções gráficas abolidas em 1945 geralmente ocorriam entre substantivos (corte, ô) e flexões verbais (corte, ó), aqui ocorrem amiúde entre palavras do mesmo género. Substantivos como fator (à) e favor (â); senhor (e mudo) e setor (è); doação (â) e coação (à), de coagir, existindo também coação (â), de coar; diretriz (è) e meretriz (e mudo); adjectivos como correta (è) e forreta (ê); ou até flexões verbais, como adotar (ò) e adoçar (u). Além disso, tornaram-se ambiguamente homógrafas palavras antes só homófonas, dando-lhes a mesma forma: ato (de acto) e ato (de atar) ou ótico (de óptico, da vista) e ótico (do ouvido).
O mais estranho foi o que sucedeu com palavras como infecção, direcção ou concepção, que, com a sílaba tónica claramente marcada pelo ditongo nasal ão, só se liam “infèção”, “dirèção” ou “concèção” devido à presença da consoante dita muda; sem ela, e escrevendo-se infeção, direção ou conceção, ler-se-á tendencialmente “inf’ção”, “conc’ção” e “dir’ção”. Por isso, ao lerem “o que lá está”, os alunos vão seguir o que lá não está — e assim deturpar o som das palavras. Esta “benesse”, só podemos agradecê-la aos criadores da aberração conhecida por AO90.
*Jornalista. Público de 16.07.2020 (nuno.pacheco@publico.pt)

Respeito pela História

segunda-feira, 13 de julho de 2020


Aproveitando esta maré de rememorações dos 45 anos da independência destas ilhas, gostaria de trazer ao leitor deste “Blog” alguns aspectos da recuperação das ruínas da Cidade Velha, levadas a cabo na década de 90 do séc. XX.
 Em 1991, iniciada a II República, com a mudança de regime de monopartidarismo para o pluripartidarismo, foi elaborado um programa governativo (1991-1996) em que o Sector da Cultura, de entre outros pontos importantes, destacava também a preservação e a recuperação do património histórico construído em Cabo Verde
É evidente  que o enfoque era substancialmente dirigido à Cidade Velha, a primeira urbe construída pelos portugueses (séc.XV) para a sua instalação,  ao largo da costa ocidental africana,  no Arquipélago de Cabo Verde
Ora bem, em termos gerais e fundamentais a conservação e a preservação dos vestígios históricos, com a consequente reabilitação e a recuperação (na medida do possível) dos principais monumentos existentes foram as linhas de força que nortearam a nossa acção naquele domínio.
Conviria neste contexto, recordar a enorme e a profícua cooperação, na altura, com o IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico) para os trabalhos levados a cabo na Cidade Velha, que foram sempre pautados pelo respeito histórico na aproximação à traça original de cada Igreja, do Convento e do Forte.
Igualmente eram notórias a colaboração e a cooperação entre os técnicos cabo-verdianos e os seus homólogos portugueses que para cá se deslocavam com muita frequência. Na mesma linha, os técnicos cabo-verdianos eram convidados pelo IPPAR, a deslocarem-se a Portugal, para estudos comparados.
Técnicos, arqueólogos, historiadores, restauradores, todos, com genuíno empenho em bem fazer a recuperação e a restauração históricas da antiga capital.
Com efeito houve realmente  cuidado em preservar as ruínas históricas da antiga cidade e o de reabilitar o que era possível, era tanto que há até pormenores que não resisto a contar. Os dois episódios escolhidos a seguir, são disso ilustrativos:
– O primeiro relaciona-se com a preservação das ruínas da Catedral e a almejada reconstrução de, pelo menos, sendo possível, uma parte dela que seria a sua Nave Central. Era a ambição na altura. Para isso tornava-se necessário descobrir em Portugal, o projecto original do edifício. Durante algum tempo, a parte portuguesa procurou nos arquivos históricos fotográficos, existentes nas suas cidades (Portugal e os Arquipélagos dos Açores e da Madeira) catedrais e igrejas mais parecidas com a nossa Sé da Cidade Velha.
Do espólio fotográfico e/ou projectos arquitectónicos encontrados, recordo-me que foram seleccionados, como os mais aproximados, os de duas igrejas e/ou catedrais, uma  de Beja (no Alentejo) e outra nos Açores.
 – O segundo traz de volta, a procura de azulejos (para completar as peças desaparecidas ou danificadas pelo tempo) que também deviam ser os que mais se aproximassem dos originais das paredes da Igreja de Nossa Senhora do Rosário na Cidade Velha. Os azulejos foram procurados em Portugal, de onde originariamente vieram, numa busca alargada e minuciosa que foi até a fragmentos guardados em armazéns de outros monumentos, datados da mesma época - século XV.
Essas são  as lembranças do plano de pormenor e do labor empenhado que só os verdadeiros técnicos e investigadores possuem.
Daí a minha dor de alma, e até uma certa revolta, quando veio a Cooperação Espanhola (século XXI)  na década de 2000  que aqui chegou para o mesmo efeito. Na minha opinião estragou literalmente algumas partes arquitectónicas da antiga Cidade. Refiro-me por exemplo, ao empedramento (de uma falta de gosto a toda a prova! Qual foi o critério para isso?) do átrio da igreja mais antiga de Cabo Verde, onde se encontravam à vista e para a visita de todos, as lápides tumulares dos Bispos e dos Padres falecidos em Cabo Verde, ao longo de séculos, datadas e com registo histórico epocal do respectivo ministério.  Isso atestava o uso e o costume da época de enterramentos de clérigos feitos nas Igrejas.
Outro erro crasso (obviamente, na minha opinião) aconteceu no interior da Igreja aqui referida, com o descuido nos azulejos, e no Baptistério.
Porquê tamanha ligeireza na recuperação dos vestígios do património construído, da primeira capital de Cabo Verde?  Deduzo que por desconhecimento da História da fundação da urbe quinhentista erigida pelos portugueses nestas ilhas atlânticas, por volta de 1465. 
Ou seja, os técnicos espanhóis do património, destacados para o efeito, pareciam estar possivelmente, na década de 2000 (séc.XXI) a conhecer pela primeira vez (?) a Cidade Velha. Tanto mais que parecia não se terem sequer debruçado seriamente sobre a matéria, quer através de consultas aos arquivos históricos existentes, quer ainda os trabalhos anteriormente feitos e os documentos sobre isso conservados.  
Só assim se compreende tamanhos dislates cometidos!
E actualmente, quando levo amigos meus  estrangeiros em visita a Cabo Verde para lhes mostrar a Cidade Velha, reparo com tristeza, na pobreza e na ligeireza da reparação (que não recuperação) feita pela cooperação espanhola com o aval de Cabo Verde, nos inícios da década de 2000.



SABER ESTAR, SABER SER...

domingo, 5 de julho de 2020




 Há normas e procedimentos no relacionamento institucional que não sendo escritos nem legislados são de execução obrigatória porque o bom-senso recomenda, a boa educação reclama e a ética exige.
É neste contexto que se desenrolam certas ligações entre os dirigentes de topo do Estado – membros do Governo e da Mesa da Assembleia Nacional, Deputados da Nação, entre outros de funções equiparadas – e figuras destacadas da nossa comunidade.
A propósito de figuras da comunidade, um pequeno parêntese para se referir à figura de “Ministro” em França em que ministro uma vez, ministro toda a vida, pelo menos em termos protocolares. Sem concordar com esta posição uma vez que, considero – com todo o respeito pela posição francesa – que em democracia o exercício de funções políticas no Estado é sempre transitório; compreendo, contudo, que ela sirva para “distinguir” ou “apontar” aqueles que serviram o Estado com responsabilidades acrescidas. Fecha-se o parêntesis e volta-se ao assunto.
Tem-se verificado no nosso País, amiúde, de forma reiterada, alguma confusão no estabelecimento dos níveis de intervenção dos colaboradores do Gabinete do Ministro – Director de Gabinete, Secretária do Ministro e outros quadros desse Gabinete – com o do titular do Ministério.
Aqui há alguns meses, circulou um convite que começava, note-se: “O Gabinete do...  tem o prazer de convidar…”  cujo conteúdo dizia respeito a uma homenagem a um dos nomes maiores da poesia cabo-verdiana.
Se a intenção era engrandecer a figura do poeta, não parece correcto que deva ser o Gabinete do membro do Governo a formular o convite de homenagem, mas sim o titular do Ministério em questão, directamente.
Só assim ele estaria a prestar de facto uma homenagem, simbólica, e por extensão, até em nome do Governo de Cabo Verde a essa grande referência da poética nacional.
Mas ao proceder da forma como o fez, foi redutor e rebaixou a abrangência e amplitude da homenagem, quando interpõe no convite uma unidade orgânica, obviamente, de menor hierarquia, no caso, o seu Gabinete, que para o assunto de tamanha elevação não devia ser chamado porque não substitui o Ministro.
Saindo da esfera da designação generalista – dirigentes de topo – e particularizando apenas para exemplificar (por comodidade, no singular) para membros de Governo, não é invulgar – variadíssimos casos – que um membro de Governo, desejando obter a contribuição pro bono – palestra, conferência, apreciação de documento, ou outra importante intervenção ou mesmo informação – recorra à sua Secretária não apenas para fazer o contacto, mas também para fazer o convite e transmitir o “recado” como se o convidado fosse funcionário desse membro do Governo ou lhe devesse alguma subordinação hierárquica ou funcional.
Trata-se de um convite ou de um pedido e a Secretária – sem qualquer desprimor – não pode ser, para esse efeito, nem mensageira, nem recadeira. Quando muito, para estabelecer o contacto. E isto não é só por revelar incorrecção e pouca delicadeza da parte do membro do Governo, mas também porque na maior parte das vezes a Secretária não conhece – e nem tem de conhecer – as motivações, os meandros e a natureza do convite/mensagem para explicar ao convidado.
E quando o Ministro desconsiderando o seu potencial convidado de quem carece, – é ele quem precisa – enviando-lhe recados ou mensagens como se fosse seu subordinado ou lhe devesse obediência, está a ser desrespeitoso, desatencioso, indelicado e, consciente ou inconscientemente, arrogante e egotista.
E o que se vem verificando configura, infelizmente, uma conduta delineada e concertada, que se tornou regra, uma vez que a reincidência e a reiteração já são mais que muitas... Seguramente que não há-de ser por deslumbramento pelo exercício de funções elevadas nem por qualquer outro tipo de complexo (!?).
Parece desconhecer-se que as regras de cortesia, de delicadeza na relação e na comunicação entre pessoas bem educadas, também se estendem às instituições de Estado na sua relação com determinadas personalidades da sociedade civil... “noblesse oblige”
E é assim que se torna absolutamente normal, por uma questão de dignidade e de respeito por si próprio, que a resposta seja um “não” redondo do convidado  envolvido em justificações várias dependendo do grau de indignação da recepção do convite/recado transmitido por via desatenciosa e pouco elevada porque descortês e redutora.
E o que é mais grave é que, por vezes, entre o membro do Governo e o convidado para além de existir uma relação pessoal, o convidado é também um ex-membro do Governo ou da Assembleia Nacional ou uma figura destacada da sociedade civil.
Quando um Dirigente de Topo do Estado – membro do Governo ou da Mesa da Assembleia Nacional ou outras entidades de funções equiparadas – convida, e se o convidado lhe merecer a mais pequena consideração e respeito ou se for um ex-alto Dirigente do Estado ou uma figura destacada da nossa sociedade, deve fazê-lo directamente, sem quaisquer complexos e não através do seu Gabinete – uma unidade orgânica de apoio administrativo e logístico – que apenas lhe deverá servir de suporte, para estabelecer o contacto e outras diligências afins que se vierem a mostrar necessárias para a consecução do propósito.
Os procedimentos poderão não constar especificamente em nenhum manual, e nem é preciso, porque estão associados a entidades e funções onde devem imperar o bom-senso, a educação, a ética e um profundo respeito pelas funções que, transitoriamente, exerce em nome do Estado.
Um Governante contactar directamente, um ilustre membro da sociedade civil, um ex-governante, um ex-deputado, entre outras personalidades de reconhecido mérito, para lhe pedir um trabalho ou endereçar-lhe um convite,  não se rebaixa, não se apouca e não se banaliza. Antes pelo contrário, mostra respeito e consideração pelas funções que desempenha, pelo objecto e interesse do seu assunto e, na mesma linha, pela pessoa a quem convida.






  













Confusões textuais...

sábado, 27 de junho de 2020


De vez em quando é tão bom revisitar a escola! Reviver, agora sob forma de boas recordações, as aulas de Língua portuguesa e de Literatura que ao longo de quase quatro décadas leccionei  em Lisboa, em Bissau, no Sal e na Praia.
Um dos assuntos que abordava com os alunos das classes mais adiantadas, era a distinção de textos. Falava-lhes de textos de opinião, de crónicas, de textos noticiosos/informativos, de textos criativos, de ensaios, de teses, como formas diferenciadas de abordar um tema. Lembro-me de levar para as aulas como exemplo, o tema das Viagens tratado sob vários ângulos e contextos, a saber: crónica, texto criativo, texto publicitário, ensaio, tese…
 Era o exemplo prático apresentado, exactamente para os alunos perceberem as diferenças na descrição de viagens em que entravam nuns textos a objectividade, versus a subjectividade  em outros. Na mesma linha, a extensão textual, a análise científica versus a análise emotiva/sentimental, entre outros parâmetros distintivos de cada uma das formas de escrita, já devidamente e amplamente classificadas.
Este intróito  e todo este arrazoado foi apenas um aparte e um desabafo.
 E vêm a propósito de quê? Passo a explicar:
Aconteceu aqui há algum tempo uma pessoa amiga ter-me contado que havia escutado de um comentador num programa televisivo nacional, a propósito do Crioulo e da Língua portuguesa, comparar Artigos de Opinião, com uma Tese académica, no caso, para a obtenção de um grau académico.
O interessante é que nessa comparação ilógica – insensata e algo descabida - o Comentador queria mostrar a superioridade da posição sustentada na aludida tese, face aos Artigos de Opinião, sobre o Crioulo cabo-verdiano e a Língua Portuguesa
Custou-me sinceramente, saber que um comentador da TCV nacional, com alguma responsabilidade elocutória e opinativa, não conseguisse distinguir, diferenciar níveis de abordagens tão diferentes, que não são e nem podem ser equiparados.
Por outro lado, ao fazer-se a apologia de uma tese deve-se ter sempre em conta que é apenas a assumpção de uma visão de um problema e não a verdade absoluta e irrefutável sobre ele. …
Infelizmente, por ignorância ou má-fé, não foi o resultado da conversa televisiva, uma vez que o dito Comentador, acabou por confundir no mesmo imbróglio por ele criado, “Artigo de Opinião” com “Tese Académica”.
São duas formas de escrita e de descrição bem diferentes, em que uma, pouco ou nada tem a ver com a outra. embora versando o mesmo tema.
 Ora bem, vamos por partes, o primeiro, só obriga o seu autor. O Artigo de Opinião, como o próprio título o define só carreia a opinião do seu autor e as suas principais características enquanto produto textual, é o lugar que tem nele, a subjectividade, o seu principal atributo – o pensamento, o sentir, a forma de percepção do seu autor, na abordagem de um assunto e a circunstancialidade espacio-temporal que o envolve. Trata-se normalmente de um texto relativamente sintéctico e curto em termos de sentido e de extensão.
 A segunda, a Tese direccionada para a obtenção de um grau académico. estrutura-se e fundamenta-se em citações e em comparações de vários e de diferentes autores sobre a matéria nela descrita e que se destina primeiro como trabalho universitário com vista à sua apresentação, discussão e finalmente, eventual aprovação de um Júri abalizado e versado no assunto, uma vez avaliada a Tese em discussão final do candidato ao título académico.
 Ora bem, a Tese assim feita é, em linhas muito gerais, formatada da seguinte forma: coloca-se uma hipótese sobre um determinado assunto. Reúne-se uma panóplia assisada e bem fundamentada de teses, de teorias e de ensaios já existentes sobre a matéria em que aqui já haverá escolhas, selecções e opções do próprio autor de Tese. Torna-se quase obrigatório um manancial de citações diversas para provar o trabalho de pesquisa.
Na mesma linha, numa Tese, deve ocupar lugar distinto o aspecto científico da matéria em defesa. O autor da tese também pode lançar, por vezes, inovações e abordagens originais como mais valias para a defesa do seu trabalho final de obtenção do grau académico almejado.
Quando muito, em termos de definição de textos, uma Tese estará mais próxima, comparativamente, de um Ensaio. Mas nunca de um Artigo de Opinião.
Mas é bom que fique claro que uma Tese é para justificar uma hipótese posta ab initio. É uma visão sustentada de um determinado assunto. Não são dogmas como pretendeu o comentador E é quase sempre discutível, refutável e, por vezes, ultrapassada à luz de novas evidências, de novas teorias que conduzem a novas abordagens que, muitas vezes são do desconhecimento do próprio júri...
Desculpem-me esta explicação tão primária do assunto – e se calhar inadequada para o nível do leitor deste “Blog”. – Mas é que fiquei completamente perplexa com a comparação feita por esse comentador atrás citado que devia ter algum cuidado crítico e não argumentar-se em precipitadas e descontextualizadas comparações que o acabaram por levar a conclusões nada intelectivas.
E terá sido assim que a análise televisiva foi feita sem qualquer sentido lógico textual, acrescentou a minha fonte.
Posto isto,  não resisto a recomendar , que não se confunda e muito menos se compare um “Artigo de Opinião” – que visa fins e público bem  gerais - com uma “Tese académica” orientada para público e objectivos bem específicos.
E com esta me fico, pois de confusões textuais estão os nossos meios de comunicação  cheios...

À História o que é da História...

domingo, 21 de junho de 2020


Tenho lido ultimamente alguns artigos de opinião sobre o tema agora “em moda”, trazido pelos denominados activistas sociais que é o da remoção de estátuas de chamados esclavagistas, racistas, colonialistas e outros epítetos que, com ou sem razão, diariamente nos transmitem pela comunicação social.
Ora bem, antes de iniciar ao que aqui me traz, gostaria de fazer uma questão prévia.
Como qualquer pessoa minimamente escolarizada e humanamente formada, sei e comungo  da opinião de que há muito que a escravatura é algo “consensualmente repugnante” citando o Historiador português Rui Tavares num dos seus artigos. 
Nesse mesmo artigo, o autor, tornando mais abrangente  a questão do terrível flagelo humano do tráfico de escravos e desfazendo alguns mitos no tratamento do assunto, referiu-se à rainha Jinga de Angola e ao célebre Zumbi dos Palmares no Brasil, como possuidores em larga escala, de seres humanos escravizados. No entanto, eles são apresentados historicamente, como heróis anti-escravistas, enquanto, pelos vistos, eram apenas competidores, rivais, dos Holandeses e Portugueses no mesmo negócio. Afinal o “anti-escravismo” da rainha Jinga de Angola e do Zumbi dos Palmares do Brasil, nada tinha a ver com a defesa dos escravizados, sendo tão somente uma guerra de mercadores em que aqueles consideravam uma “concorrência desleal” dos europeus  num terreno em que eles julgavam exclusivamente seus: o mercado de escravos africanos.
Ainda na questão prévia, gostaria de assinalar um outro episódio sobre escravos, este muito mais recente, séc. XXI, passado no Níger, escutei-o recentemente no programa, «Eixo do Mal» semanalmente transmitido num dos canais da televisão portuguesa.
Tratou-se de um testemunho dado por um dos jornalistas do painel desse programa, sobre a sua experiência no Níger, um dos muitos países problemáticos da África actual. Contou ele que fez parte da delegação europeia àquele país africano que vive mergulhado em problemas vários, entre os quais, conflitos com o povo nómada tuareg, entre outros.
Ora bem, o então membro/observador da delegação europeia, explicou a propósito do escravismo, de que tanto se fala agora, que ele conheceu presencialmente, no Níger do século XXI, povoados muitos, cujas populações estão completamente à mercê, escravizadas, subjugadas por outras aldeias que as vão “arrebanhar à força, adolescentes, jovens, homens e mulheres” e levam-nos para campos e aldeias do país, sujeitando-as a trabalho escravo. E são milhões de seres humanos assim tratados.
Igualmente, o Jornalista narrou nesse mesmo programa que se tornou amigo no Níger de um escravo tuareg, de nome Ibrahim que um dia decidiu por iniciativa própria deixar de ser escravo. Estava farto e quis ganhar a dignidade humana a que tinha direito. Conseguiu um lugar na missão da Comissão Europeia e estabeleceu uma relação especial com o jornalista que desconfiou sempre das eventuais repercussões da sua ousadia.
Acabado o trabalho da missão europeia, e regressado a Portugal, ele soube que Ibrahim havia sido detido pelas autoridades nigerinas com o fim de evitar que o “mau exemplo” se propagasse.
Então, o nosso Jornalista temendo o pior, colocou, já em desespero de causa, a fotografia de Ibrahim nas redes sociais, criando um quase movimento, na esperança de que o seu gesto tivesse algum efeito de denúncia e o salvassem.  Soube mais tarde, com muita tristeza e consternação que o amigo tuareg havia sido morto.
Dito isto, e feito o desabafo, descrito no ponto prévio, vamos ao que hoje aqui me trouxe.
Tal como havia dito no início, tenho lido ultimamente alguns artigos de opinião e muita informação em jornais portugueses sobre esta matéria.
Mas para melhor enquadrar o assunto terei de voltar um pouco atrás no tempo. Em 2017, num dos números do Jornal Público do mês de Outubro daquele ano, apareceu uma notícia  e lembro-me que a li meia estupefacta. É que dizia que o Presidente do “SOS Racismo de Portugal” havia feito declarações ao jornal  sugerindo o apeamento da estátua de Padre António Vieira, por ser “esclavagista ou, tal representar.”
Dialoguei logo com os meus botões, “... De onde este foi buscar tal ideia? De certeza que nunca leu a vida e a obra deste padre jesuíta e muito menos terá lido e conhecido o conteúdo das Cartas e dos Sermões de Pe. A. Vieira. Este tipo de pedido só pode ter vindo de alguém completamente ignorante sobre quem foi este religioso e os combates que travou com a sua pena e a sua voz, em Cartas e em Sermões...”
Assim pensei eu, quando li a notícia sobre a pretensão exarada no Jornal e proferida pelo Presidente da Associação SOS Racismo de Portugal.
É que Vieira foi um defensor dos índios e dos escravos negros contra a  brutalidade e a ganância dos senhores do Brasil, no século XVII.
Logo, só por isso, o que não seria pouco, merecedor de toda a nossa admiração e respeito. Não foi por acaso que os índios Ameríndios chamavam-no: “Padre Grande” na língua deles. Língua que ele aprendeu e que falava fluentemente. 
Volto a repetir, pela defesa da vida dos Índios, valeria toda a nossa admiração. Podia até não ter sido tão acutilante na defesa da vida dos escravos negros porque a escravatura era característica da sociedade brasileira da época e corrente em  outras sociedades, americana, europeia, africana e asiática. 
Padre A. Vieira foi missionário por muitos anos no Brasil, com permanência mais prolongada no Maranhão e na Baía. 
Um dos seus mais célebres Sermões, e «Sermão de Santo António aos Peixes» o santo  protagonista do sermão, insurge-se contra a violência e a brutalidade dos grandes donos de terras, (peixe graúdo, em que se destaca o tubarão) contra (os  peixes pequenos) os seus fracos e maltratados escravos. Numa belíssima alegoria fabulária, em que o Santo critica o comportamento dos Homens, representados metaforicamente em diversas espécies de peixes.
 António Vieira era mestiço, pelo lado do pai. Este era filho de uma negra, e de um alentejano. Logo, Vieira é neto de uma negra. Aliás, basta observar os retratos de Pe. A. Vieira para se lhe notar os seus traços de mestiço. O que ao caso não acrescenta rigorosamente nada. Ele podia ser caucasiano, negro, ou asiático que o que importaria para aqui era o seu comportamento face aos maus tratos infligidos a seres humanos em posição de mais fracos.
Além do mais, para nós, acresce a admiração por  António Vieira pois ele foi um profundo e fino cultor da Língua portuguesa. Em plena época  em que imperava o estilo barroco, séc. XVII, Vieira distinguiu-se nos seus escritos, pelo  uso de uma oratória individualmente trabalhada e que o singularizou de entre os seus pares escritores da época e o alcandorou como o mais acabado exemplo de um estilo rico que elevou a Língua portuguesa, a patamares até aí desconhecidos, no tocante à estilística da Língua.
Assim o estudámos no Liceu e mais tarde o aprofundámos na Universidade.
Interessante é que para nós cabo-verdianos que também estudámos a história da Cidade Velha, a primeira capital deste Arquipélago, sempre nutrimos por este simpático sacerdote, um carinho especial, pois que foi dele o primeiro grande elogio ao cabo-verdiano, quando aqui passou uma temporada, incluído o Natal de 1653, na Cidade Velha, esperando pelo regresso ao Brasil.
É que foi da ilha de Santiago,que Vieira enviou uma carta ao rei D. João IV de Portugal, em que dizia entre outras descrições elogiosas que fez dos religiosos cabo-verdianos, o seguinte: “...Vi clérigos, negros como azeviche; tão doutos, tão zelosos,(...) capazes de fazer inveja aos melhores do Reino.”
Este elogio de Pe. A. Vieira foi repetido à exaustão, ao longo do tempo aqui nas ilhas e por muitas gerações. Citado diversas vezes em discursos públicos por políticos e outros, sempre de forma positiva. Antes e depois da independência de Cabo Verde.
Outro reparo elogioso que Pe. António Vieira nos fez nessa altura e na mesma missiva dirigida ao rei foi que o cabo-verdiano tinha “particular talento para a música,” isto é, possuía dotes para a música.
Dito isto, questiono quem sabe se não terá sido o Padre António Vieira o primeiro – pelo menos dos primeiros – a chamar atenção e a registar de forma escrita (1653) esta particularidade/vocacional artística do ilhéu cabo-verdiano para a música?
Daí, não admirar o quão chocada fiquei com o que se está passar com essa gente dita activista, contra este homem religioso que desafiou o seu tempo na defesa dos mais fracos e oprimidos com as armas que possuía e que por causa disso –  como a sua voz e a sua pena incomodavam os donos de escravos negros e que queriam fazer o mesmo aos índios – o padre foi denunciado à Inquisição, pelos senhores do Brasil, como praticante  herético e foi mandado de volta  para o reino, Portugal, como prisioneiro da Inquisição, para responder perante o Tribunal da Santa Inquisição. Ainda esteve nos cárceres dessa temível organização católica de má memória – a Inquisição. Sofreu injustamente, segundo os seus biógrafos.
 Aqueles que o defenderam, o próprio  rei D. João IV, respeitavam-no pelo seu talento, saber e práticas humanistas. Daí, o terem-no considerado inocente das acusações que sobre ele penderam, que mais não eram do que vinganças ardilosas pelos maiorais do Brasil. As cartas frequentes ao rei e aos que tinham poder em Portugal, queixando-se dos desmandos dos grandes da então Colónia portuguesa, eram provas da sua constante preocupação com a vida dos oprimidos.
A história regista que o julgamento de Pe. António Vieira foi tortuoso e de provas muito dífíceis para a sentença.
Libertado, ei-lo em Roma – diz-se que a mando do rei para que Vieira, assim escapasse à ira dos Inquisidores fanáticos – como parte da Legação portuguesa da Santa Sé.
Aí permaneceu por algum tempo e ganhou a confiança e a admiração do Papa dada a sua sapiência e a excelência de algumas homilias proferidas durante a estada na Santa Sé.
E agora, em 2020 gente ignorante, vandalizou a estátua do Padre António Vieira, erigida pela Câmara Municipal de Lisboa, fazendo pichagens com acusações injustas.
É caso para recomendar a esses ditos fanáticos de derrube de estátuas, que leiam  que hoje em dia com muita facilidade, através da “net” se consultam os documentos sobre Pe. A. Vieira, indo até à Torre do Tombo em Lisboa. Que leiam alguns Sermões. Eu recomendaria como suficiente para o início, dois, a saber: o «Sermão da Sexagésima» e o já aqui referido «Sermão de Santo António aos Peixes». De caminho, leiam também algumas das muitas Cartas dirigidas ao rei D. João IV. Tenho a certeza que no fim, já formulariam outro e diferente juízo deste Homem que foi grande – humanamente e culturalmente –   não deixando de ser um homem do seu tempo falou, escreveu e defendeu o seu semelhante, sem olhar à raça, à cor ou à camada social de pertença.
De uma coisa lhes posso garantir, sairiam das leituras feitas muito mais cultos e apetrechados para analisar e julgar Vieira no seu tempo, entre os seus contemporâneos e, se calhar o considerar muito progressista.
É que a cultura, a ilustração, ajudam e muito!
 Apraz-me para o caso, citar e partilhar o que escreveu Francisco Assis num dos seus artigos, publicados no jornal «Público»: “Quando um grupo de fanáticos precariamente alfabetizados invade e confisca o campo de debate público, passa a haver sérios motivos de preocupação.”
Já agora, acrescentaria que não é por acaso que existe nos Cursos de História em Portugal, uma cadeira denominada “História das Mentalidades”. Exactamente para prevenir e evitar que o futuro Historiador fundamente e julgue o passado com os instrumentos de análise de hoje.
 Como remate deste escrito, menciono o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa que classificou o acto de vandalismo feito à estátua de Padre António Vieira, de forma inequívoca, sem margens para dúvidas: “...trata-se de uma grande imbecilidade”.
 Ousada e estribada numa ignorância atrevida, concluo eu.