Diálogos Inquietantes

segunda-feira, 27 de julho de 2026

No passado dia 27 de Maio, Armindo Ferreira, deu uma entrevista ao semanário “Expresso das Ilhas” (nº 1278), sobre o seu livro “Diálogos Inquietantes” que acabara de lançar sem, contudo, fazer, como teria sido habitual, uma sessão pública de apresentação.

A Entrevista conduzida pelo director-adjunto do semanário, jornalista António Monteiro, constituiu uma via de divulgação da obra e, por isso, posta-se aqui a introdução por ele feita, uma vez que constitui uma espécie de sinopse a que o entrevistador havia chegado da conversa com o autor e da sua leitura do livro (transcrição): “Em Diálogos Inquietantes, Armindo Ferreira revisita alguns dos episódios mais sensíveis da história contemporânea de Cabo Verde, questionando narrativas consolidadas sobre a independência, o PAIGC, Amílcar Cabral e os debates identitários no arquipélago. Publicado em edição de autor, o livro reflecte a recusa do autor em submeter a escrita a critérios editoriais e comerciais, assumindo a publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão e prazer intelectual.

Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica, ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento. Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que, entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo António, e Pedro Cardoso, na Fazenda. (Fim da transcrição)

Ainda sobre o livro, Adriano Miranda Lima, − um bom Amigo e assíduo colaborador deste blogue − teve a simpatia e a gentileza de se debruçar sobre a obra no que intitulou “Opinião sobre o livro Diálogos Inquietantes” e no seu estilo minucioso e eloquente e com uma abalizada abordagem holística produzir uma autêntica e bem elaborada recensão crítica que a seguir se apresenta:




Opinião sobre o livro “Diálogos Inquietantes

Acabei de ler “Diálogos Inquietantes” e, antes de mais, para além do assinalável mérito literário, felicito-te pela coragem cívica em exprimir publicamente, e com todas as letras, o que muita gente pensa, mas evita dizer. Faz lembrar a expressão "o rei vai nu", naquela situação em que a inocência infantil desmascara alto e bom som uma realidade que só não é por todos denunciada por cobardia, medo ou conveniência.

Não é a primeira vez que o fazes. Em obras anteriormente publicadas – por exemplo, “Mulheres de pano preto” − e em diversos artigos de opinião, o público leitor ficou a saber que não silencias uma opinião esclarecida e fundamentada sobre os acontecimentos ocorridos na Guiné e em Cabo Verde a seguir ao golpe militar de 25 de Abril. No fundo, está em causa a entrega de bandeja do poder ao PAIGC por um MFA que rotulas, e muito acertadamente, de cobarde e impreparado para as lides políticas e diplomáticas em que se viu envolvido. Igualmente impreparados eram os quadros do PAIGC para as responsabilidades que assumiram nos dois territórios, convencidos de que a crença na ideologia marxista seria por si só geradora de uma poção mágica para a resolução de todos os problemas, desde logo a virtude de criar “um homem novo” mediante o “suicídio de classe” dos mais favorecidos e a súbita transformação das populações em obreiras colectivas de uma nova sociedade. Tudo isto sob a égide de um dogmatismo marxista-leninista que, como já era sabido, foi fautor de falência económica e regressão social em todo o lado onde foi experienciado. A alternativa – a liberdade e a democracia – estava fora de questão porque era luxo burguês na opinião dos paigcistas e dos esquerdistas do MFA que, de mãos dadas, selaram naquela conjuntura o destino imediato do povo das ilhas.

Tudo isto explicas muito bem no livro e só fica com dúvida quem obstinadamente recusa aceitar a verdade.

 Entre os pontos fortes do livro destaca-se a dessacralização da figura de Amílcar Cabral. Não o fazes de ânimo leve, levianamente, ou por motivação ideológica, mas com uma argumentação profusa e apoiada em factologia conhecida e documentada. Nisto, enfileiras com outros autores e ensaístas que questionam a imagem imaculada de Cabral como figura política, retirando-o do pedestal mitológico em que os seus indefectíveis seguidores o colocaram. Com o teu livro, fiquei a conhecer factos que eu ignorava, pelo que ele é desde já um valioso documento que guardarei e recomendarei. Mas eu próprio já tive ocasião de, em diálogos ou comentários em círculos restritos e espaços públicos, questionar a dimensão do estratego que alguns atribuem a Cabral, argumentando que, se o fosse, jamais poderia conceber a viabilidade de um projecto político de união entre os dois territórios. Este é um aspecto que aprofundas muito bem recorrendo à história e à comparação dos perfis culturais e psicológicos dos dois povos em causa. Sim, aprendi muito com o teu livro, seja o que de mais relevante norteou a conduta política do líder ou até algumas particularidades da sua vida pessoal. Por exemplo, o facto de o seu pai, Juvenal Cabral, ter sido responsável pela paternidade de cerca de 23 filhos de mães diferentes.

Estranho é que haja cabo-verdianos que o enaltecem como homem e figura cívica, talvez só por ter gerado o alegado “pai da nação cabo-verdiana”, sem sequer o ter sustentado, tanto quanto parece ter acontecido, responsabilidade que recaiu exclusivamente sobre os ombros da sua mãe. Mas esses presunçosos panegiristas serão os últimos abencerragens do antigo PAIGC ou estiveram na luta pela independência em território guineense, embora a maior parte em funções mais burocráticas que guerreiras, pois a condição de carne para canhão parece ter sido reservada aos guineenses. De facto, a mitologia à volta de Amílcar Cabral, elevado por algumas mentes crédulas à sacrossanta condição de “pai da nação cabo-verdiana”, começou aos poucos a ser questionada e apontada como produto de fantasiosa criação respaldada pela ideologia política, sem qualquer fundamentação na história, na cultura e na ciência. Alguns autores ou analistas políticos como Maika Lobo, Daniel dos Santos, José Leitão da Graça e José Luís Hopffer Almada contestam essa paternidade atribuída a Amílcar Cabral. De um modo geral, convergem contigo na argumentação de que a nacionalidade cabo-verdiana só pode ser concebida numa perspectiva histórica e existencial de uma amplitude que jamais pode circunscrever-se à acção de uma personagem ocorrida num tempo limitado no século XX e menos ainda quando avaliada segundo um critério puramente dogmático. Não creio que seja pertinente ou faça qualquer sentido atribuir um pai à nação cabo-verdiana. Creio que quando muito se pode é identificar individualidades que ao longo da história do território interpretaram o sentimento colectivo do povo das ilhas, indo ao fundo da sua alma, e o manifestaram em obras de arte. Por outro lado, vem também à tona a responsabilidade moral de Cabral pelas mortes por fuzilamento ocorridas, creio que várias vezes, nas suas hostes. A tendência é ilibá-lo para manter à sua volta uma aura de virtude, moderação e tolerância compagináveis com o perfil de alguém que procurou passar nos areópagos internacionais a imagem de um democrata. Analisas bem essa circunstância, podendo deduzir-se que o antigo burocrata terá aprendido aos poucos a moldar a sua estrutura mental e moral à lógica do ambiente de violência que era indissociável da missão que se impôs. Ele teria certamente a mesma alma pacífica da maior parte dos seus conterrâneos, mas, como diz Ortega e Gasset, o homem é a sua circunstância. E Fernando Pessoa, aludindo à publicidade da coca-cola, também disse: primeiro estranha, depois entranha-se.

Quanto ao resto, bastaria analisar as fragilidades e o estrondoso falhanço do projecto político de Amílcar Cabral para se reconhecer que nada, mas rigorosamente nada, justifica as narrativas excessivamente polarizadas construídas à volta da personagem. Pode-se, sem dúvida, enaltecer a sua inteligência, a sua capacidade de organização e liderança, bem como a sua determinação em pugnar por um ideal humano, mas a grandeza dos seus feitos tem de ser avaliada em função dos resultados concretos que ficaram para a posteridade. E estes, longe de serem favoráveis, podem indiciar, pelo contrário, inversão de padrões civilizacionais na Guiné-Bissau, cuja instabilidade política e social a coloca na condição de um estado falhado e de futuro nebuloso. Ali não nasceu um “homem novo”, pelo contrário, a avaliar pelas ridículas figurinhas fardadas, com o peito estrelado de medalhas, que constantemente desestabilizam o país, conclui-se que nada de positivo se pode esperar de mentes rasas de valores cívicos e de seres envaidecidos com a ilusão do poder dado pelas armas que detêm.

Até mesmo em Cabo Verde, cuja sustentabilidade só tem sido viabilizada graças às ajudas externas e à sua criteriosa reciclagem, não se pode considerar auspicioso o curso da independência política que foi reconhecido ao país. Ironicamente, pode dizer-se que a boa vontade da comunidade internacional teve um contraponto negativo: ao contemporizar-se com a solução política imposta de supetão ao território, terá impedido que ao povo fosse facultada a possibilidade de escolher livremente o seu destino. Foi assim que os tais “melhores filhos da nação”, os da paternidade política do PAIGC, tiveram a via aberta e segura para, com o apoio do MFA, inviabilizar a solução democrática que certamente seria a aspiração da maioria do povo quando foi derrubado o regime anterior

Só por crassa ignorância ou irresolvido complexo de colonizado é que não se reconhece que caberia a Portugal, como aliás sempre entenderam líderes como Costa Gomes, Spínola, Mário Soares e Almeida Santos, integrar Cabo Verde como região autónoma em moldes semelhantes aos Açores e Madeira. Assim, em vez de receber dádivas da comunidade internacional para poder sobreviver, Cabo Verde poderia passar a ser contemplado, não com esmolas, mas com o que seria de direito próprio. Cheguei a invocar a rábula “comeram-me a carne, agora roam-me os ossos” para ilustrar que quem descobriu e povoou as ilhas jamais poderia livrar-se assim tão facilmente das suas responsabilidades históricas. Há quem não veja o problema nessa perspectiva, mas há dias agradou-me ler num espaço público o comentário de um cabo-verdiano que terminava assim: “afinal, os primeiros cabo-verdianos foram os portugueses”. Isto vinha a propósito da simpatia que os portugueses manifestaram em espaços públicos para com o desempenho da selecção de futebol da nossa terra no Mundial. Não foi por acaso que, há alguns anos, quando eu o José Fortes Lopes e o Arsénio de Pina fomos à Associação de Antigos Alunos de Cabo Verde falar sobre Regionalização, estando presente o Onésimo Silveira, este afirmou ao usar da palavra: “foi um erro histórico não ter sido possibilitado a Cabo Verde a auto-determinação em vez da independência política nas circunstâncias em que ocorreu.”

Resta-me uma palavra sobre o MFA, uma vez que ele tem graves responsabilidades no que aconteceu em Cabo Verde. Fui um adepto consciente do 25 de Abril, mas nunca teria imaginado que alguns oficiais do quadro permanente tão depressa se metamorfoseassem em marxistas-leninistas. O protagonismo da ala esquerdista do Movimento contribuiu para que a indisciplina nos quartéis, sobretudo em alguns, chegasse ao extremo e transformasse a imagem da instituição castrense em autêntica caricatura. Alguns militares, mesmo uns poucos profissionais, deixaram crescer cabelos, barbas e patilhas de uma forma ridícula, como querendo imitar um qualquer Che Guevara ou revolucionário sul-americano de pacotilha, na aparência mas também na adopção de condutas e procedimentos em tudo contrários aos regulamentos militares. Não se deram conta do anacronismo das suas figuras e da inadequação da tal “sociedade socialista” que, por influência partidária, apregoavam sem saberem o que isso significaria como modelo a encaixar de supetão no país e a impor-se contra a vontade nacional. Até porque a condição revolucionária surgiu, na maioria dos seus protagonistas, de geração espontânea, sem nada que a atestasse, por conhecimento teórico ou experiência política anteriormente adquiridos. Só a ignorância explica uma surpreendente e momentânea sedução por modelos sociais do Leste Europeu que não levariam muitos anos a claudicar. É como se alguns militares profissionais tivessem perdido a noção do posicionamento do seu país no quadro geopolítico europeu e abdicado da formação ética e disciplinar que a vida toda os norteou.

Ora, é nesse contexto que se movimentaram as representações do MFA localizadas nas antigas colónias e diligenciaram para que o poder fosse entregue praticamente de mão beijada aos movimentos de libertação. Como tu bem os classificas, agiram mais por cobardia do que com a consciência do dever que se lhes impunha. Costa Gomes foi bem claro quando exprimiu a sua opinião sobre o que se passava em Cabo Verde, conforme citas.

No entanto, os militares em Cabo Verde não pertenciam todos a essa célula local do MFA, do mesmo modo que os oficiais designados por “gonçalvistas” eram uma minoria. Foi enviado para S. Vicente o capitão de Infantaria Macedo Marques, do quadro permanente, a comandar uma companhia de caçadores. Ele é do meu tempo e há mais de 40 anos, durante a frequência de um curso de estado-maior em que ambos participámos, contou-me as atribulações por que passou, principalmente no episódio da intitulada “libertação da Ribeira Bote”. Regressou com má impressão dos cabo-verdianos, devido aos excessos que lá presenciou e a que foi chamado a conter com os seus soldados. Também privei com o então capitão de Cavalaria Velasco Martins, que foi enviado para S. Vicente a comandar uma companhia de Polícia Militar na altura de maior instabilidade cívica. Confessou-me que não esperava certos comportamentos porque levava a impressão de que os cabo-verdianos eram um povo pacífico e cordato.

Também sou amigo e correspondente de um oficial da Marinha que ao tempo era 1º tenente (corresponde a capitão no exército) e estava colocado no Comando Naval, em S. Vicente. Ao contrário dos dois oficiais referidos, este, sim, era dos mais activos elementos da célula local do MFA, um esquerdista convicto. Tanto terá pisado o risco que o Comando Naval o transferiu em Setembro (1974) para Angola. Não se arrepende do que fez, antes orgulha-se, imagina, de ter contribuído para o povo de Cabo Verde “escolher o seu melhor destino”. Hoje capitão de mar-e-guerra reformado, não muda de opinião e por isso não percebe ou finge não perceber que o povo de Cabo Verde não escolheu o seu destino, mas que este lhe foi imposto em grande parte por acção da célula local do MFA. Tendo sido adepto convicto do “gonçalvismo”, alinhando com os que defendiam que o MFA devia ser o instrumento para a criação de uma “sociedade socialista”, foi um dos vencidos em 25 de Novembro.

Para terminar, penso que foi um recurso literário interessante o uso do alter ego Leónidas, que considero um reflexo do inconsciente da personagem e narrador Leonardo. Imbuído de convicções, ainda assim ele admite que exista uma ou outra ligeira réstia de dúvida no edifício das suas certezas, porque no fundo sabe que o contrário fá-lo-ia incorrer em dogmatismo, tal como os seus adversários ideológicos, e que é mais seguro questionar-se ele próprio para uma maior clarificação do seu pensamento.

Reitero o meu agradecimento pelo livro e deixo aqui um abraço amigo.

 Adriano



terça-feira, 19 de maio de 2026

 

 

Mais um texto interessante sobre como ensinar Camões nas escolas e enquadrado no âmbito das comemorações dos quinhentos anos do nascimento do grande poeta português, renascentista do século XVI, Luís Vaz de Camões.

Aqui se publica com a devida vénia à autora, Professora Maria Regina Rocha.

 

A imaginação como porta de entrada para Camões

Por: Maria Regina Rocha

 

"[Para se ensinar Camões] é bom começar por pôr a imaginação dos meninos a funcionar. Por exemplo, lembrar-lhes que Camões escreveu no século XVI, quando se escrevia com penas de ave, de ganso ou de cisne, apenas molhadas em tinta da China. E o papel era papel que era feito com trapos, com fibras de linho, algodão ou canha. Reparem o que era a dificuldade da escrita e o que significa o mérito de se escrever uma obra que demorou 10 a 15 anos a escrever uma redação intermitente. Agora imaginem o que é que significa uma obra que tem 1102 estâncias com 8816 versos. Ou seja, ter logo uma ideia da dimensão antes de os meninos pequenos pegarem no texto. Uma porta de entrada para eles verem o que vão ver, o que vão saber, como têm o privilégio de entrar em contacto com algo que é excecional. Depois, de certo modo, trata-se de apresentar os livros como quem conta uma história, porque nós vamos ver uma obra que é uma história, que é a viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia. A primeira viagem que se fez de Lisboa ao Oriente e regresso. É esse o foco da história. Claro que não vou falar de História pura e dura, mas vou convidá-los a participar nessa viagem. Também é preciso dizer que é bom mostrar os mapas, mostrar as rotas, colocar a luz na época e dizer coisas concretas que os alunos não têm a noção. Por exemplo, nessa viagem à Índia, foram 148 homens e chegaram cá a Portugal 55. Foram quatro navios e só chegaram dois, os outros dois perderam-se. Os alunos gostam de histórias e gostam de saber, e isto é uma história que tem um fundo histórico. Saem de Portugal, vão até ao Oriente e regressam, mas, atenção, isso leva mais de dois anos. Na história de "Os Lusíadas", Camões selecionou passagens dessa viagem para que nós como que viajemos com esses que foram e voltaram. Mas há outro aspeto importante que é a literariedade, a beleza do texto, o prazer e a beleza dos versos. A questão da literariedade também é ensinada aos alunos, levando-os a ver. E isso faz com que eles se interessem [pelos "Lusíadas"]."

*Iniciativa no âmbito das comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões

Leia mais em Camões na Escola

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

 

 

Com a devida vénia à autora, Professora Carmo Machado e à revista VISÃO, tomámos a liberdade de aqui publicar o texto que se segue, por o assunto nele tratado, ser de uma importância crucial na formação dos estudantes e que infelizmente, muitos de nós, ainda não conseguiu realizar.

 

COMO MATAR UM LEITOR

Carmo Machado

Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o "Amor de Perdição", tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra "Os Maias" de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: - Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam

É assustador, enquanto professora de Português, assistir diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento, afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano, os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora, nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.

Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura. Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.

Parte superior do formulário

 

Parte inferior do formulário

Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de consequências graves.

Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e (re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações lógicas e avaliação da linguagem.

Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos, é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar, armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de competências de leitura?

A ausência de competências de leitura pode constituir uma espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes alunos virão a ser exatamente o quê?

Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler, lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade de integração no meio, escolar primeiro, social depois?

Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?

Referências Bibliográficas:

MANGUEL, Alberto (1996). Uma Historia da Leitura. Editorial Presença, 1º edição.

MORAIS, José (1997). A Arte de Ler, Psicologia Cognitiva da Leitura, Edição Cosmos, 1º edição.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem

In: Revista VISÃO de 5 de Março de 2026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

 

Viva o 13 de Janeiro!

Salvé!

Esta data, rica de simbolismo, repleta de significação na história da nossa ainda jovem democracia (35 anos), deverá ser comungada por todos os cabo-verdianos. Digo isso, porque aqui chegados, parece estar a haver pontualmente, algum retrocesso no sentido da interiorização nacional da data.

Devemos todos recordar que o feriado foi sufragado pelos Deputados da Nação, dos Partidos políticos com representação parlamentar na altura, em 22 de Março de 1999, Lei n.º 95/V/99, que assim instituiu o 13 de Janeiro como feriado nacional. Mais tarde, a Lei n.º 106/VIII/2016 confirmou a realização de sessões especiais na Assembleia Nacional para 13 de Janeiro e 5 de Julho, solidificando-os como feriados nacionais com celebrações específicas. 

Daí que se estranhe bastante a resistência incompreensível e inexplicável, pela actual CM da Praia, instituição de grande importância nacional, por ser a Câmara Municipal da capital do país que reiteradamente vem fazendo a uma data que é de todos. Sim, de todos!

Explico-me: qual foi o ponto de partida para o 13 de Janeiro de 1991?

Ora bem, o 13 de Janeiro, resultou porque para ele concorreram a sociedade civil cabo-verdiana, os três Partidos políticos à época existentes, a saber: o PAICV, a UCID e o então, recém-fundado, MPD. Todos, todos convergiram para que existisse esta data memorável!  Terem-no feito em divergência ou em convergência, não importa, antes pelo contrário, foi assim salutar pois, já transpirava a democracia.

Na realidade, o que importa é que todos foram à sua maneira, obreiros.

Houve uma movimentação nacional que galvanizou os cidadãos de todas as ilhas e os das nossas comunidades emigradas. Sem o concurso de todas as forças vivas, sociais e políticas residentes e fora de Cabo Verde ao tempo, não seria possível esse magnífico dia em que o povo das ilhas, pela primeira vez, (aqui aplica-se bem) em completa liberdade, foi chamado às urnas para escolher através do voto secreto, quais seriam os seus representantes no Parlamento cabo-verdiano.

Como não comemorar com festiva alegria, tal momento histórico de repleta euforia nacional?  Como tentar apagar da memória colectiva, a data que marcou, esperemos que para sempre, a fundação e a instituição do modelo de governação democrático no nosso país?

Que fique claro que a data não tem pertença partidária e nem podia ter, foi obra de todos.  Consequentemente, qualquer tentativa para colocá-la partidariamente, serve apenas para diminuí-la e para beliscá-la gravemente na sua enorme grandeza.

 Por favor! Não façamos este triste serviço à nossa história democrática tão bela e bem-vinda às ilhas!!

Note-se: as eleições foram livres. Ganhou o MPD, como poderia ter ganhado o PAICV. O povo decidiu soberanamente.

Estas são as palavras que me ocorreram hoje e, com as quais, queria salvar (na significação crioula do termo) o 13 de Janeiro!

E tal como comecei, assim termino:

Salvé e Viva 13 de Janeiro!