sexta-feira, 17 de março de 2023

 

Alerta ao Leitor: este texto foi publicado em 2006 no Jornal «Expresso das Ilhas». Visto que o não havia publicado no Coral-Vermelho, decidi fazê-lo nesta data, pois creio que o assunto nele versado não prescreveu.

 

A Língua Portuguesa e a língua cabo-verdiana – Um caso de mútua aculturação?[i]

Quando se fala na caminhada, nas várias etapas, nas transformações e mesmo na evolução de uma língua viva, isto é, uma língua de comunicação permanente, que apreende e transmite o quotidiano, os sentimentos, o pensamento, e que “vê e organiza” o mundo de quem a fala, com certeza que nos acercámos da língua materna de um indivíduo.

Todo o seu processo de formação, de socialização, de transformação, de aquisição, e de permutas, quer fonéticas, quer lexicais, quer ainda morfossintácticas, semânticas, ou outro, o processo é complexo e dinâmico. E como não é possível, pelo menos, entre nós, por agora, montar um observatório linguístico em permanência, capaz de registar ao segundo, ao pormenor, com a frequência e o rigor necessários, as inúmeras e as constantes mutações  por que passam o nosso crioulo e a língua portuguesa presente nestas nossas ilhas, difícil se torna “travar” ou “imobilizar” cada instante sincrónico da(s) fala(s) cabo-verdiana e se me for permitido, melhor dito, dos falares, e/ou das variedades desses mesmos falares das ilhas, para se lhes apreender os mecanismos transcendentes da sua transformação.

Isto tudo, como pretexto para vos falar, ainda que de forma breve e muito pela rama, de fenómenos interessantes e, se calhar, imprevistos, que vêm sucedendo com a língua cabo-verdiana em determinados contextos da sua oralidade e do seu entroncamento cada vez mais visível na língua portuguesa actual.

Com efeito, o processo constante de mutações e de transformações na configuração por que passa o crioulo – há pouco mais de quatro décadas em condições autodeterminadas – fazem com que com decurso do tempo, ele se apetreche, se “aprimore” e se aproxime mais da língua portuguesa actual. As necessidades trazidas pelo processo de crescimento e de desenvolvimento social e económico de Cabo Verde potenciaram e guindaram a língua cabo-verdiana a patamares de maior exigência vocabular, de maior precisão e, por vezes, até de linguagem especializada para cada domínio de intervenção. Está hoje, sem dúvida, mais apetrechada, mais rica e, possivelmente, mais expressiva. Naturalmente que, para isso, tem ido à fonte principal e a que lhe está mais próxima e afim –  a língua portuguesa – à qual, reconhecida a paternidade, lhe pede e dela toma os vocábulos, as expressões e os articuladores para um discurso mais consentâneo e adequado para transmitir as novas exigências do desenvolvimento social, humano e tecnológico do Cabo Verde do século XXI. Agora já não basta o crioulo, o tradicional, a língua materna trazida de casa, não escolarizada. Trata-se, agora sim, de um veículo linguístico, oralmente mais elaborado, mais apurado, mais apetrechado e mais apto à comunicação da nova geração escolarizada do país. Conviria também anotar que esta variante oral do crioulo, não só pouco tem a ver com o português do século XV, XVI, trazido pelos marinheiros e pelos missionários, como também, apenas lhe sobram formas muito residuais da herança linguística africana  do século dos Descobrimentos portugueses, trazida nas diferentes oralidades dos escravos e que, na opinião abalizada de Baltazar Lopes da Silva nunca passou dos 3%.

Interessante é que se trata também de um fenómeno linguístico, se calhar, não previsto e nem esperado. Os linguistas nacionais, os estudiosos das questões do crioulo cabo-verdiano, talvez não contassem com esta trajectória da Língua cabo-verdiana. Talvez idilicamente e com alguma singeleza, conjecturassem que, com a nobilitação do crioulo, havida realmente com o advento da independência do país, e cortado o “cordão umbilical” do crioulo com o português, aquele se «fechasse» sobre si próprio, se sedimentasse, naturalmente, e depois no processo de interacção do organismo vivo que é uma língua de comunicação, ganhasse novos “apports”, talvez de outras línguas, num Cabo Verde independente. Quem sabe!?...

Mas nada disso aconteceu. A Língua cabo-verdiana e a Língua portuguesa aqui nas ilhas, estão cada vez  mais unidas e mais interdependentes uma da outra. É um facto.

Por outro lado, existem também os falantes e os estudiosos desta questão, que consideram esta nova norma oral do crioulo -  cujo léxico é directamente fornecida pela Língua portuguesa actual - uma excelente via de homogeneização das diferentes variantes islenhas do Crioulo, facilitando a sua aprendizagem aos estrangeiros, e a sua escrita ao falante nativo, num quadro  não só de cooperação para o desenvolvimento, que Cabo Verde não dispensa, mas também, mostrando um sentido para o qual caminha o crioulo à medida que aumenta a escolaridade.

Assim vejam nisso, maiores vantagens comunicativas da Língua cabo-verdiana…

Note-se que a língua veicular do ensino em Cabo Verde é e tem sido até agora, a língua portuguesa.

Logo, este, talvez seja o novo Crioulo oral das ilhas de Cabo Verde, que se vem desenvolvendo, depois do processo da independência do país. O qual, para além de revelar maior literacia, é também portador de um corpus lexical mais alargado, e está, sem dúvida, muito mais próximo da língua portuguesa actual que de outras heranças ancestrais. É falado, sobretudo, em situações de comunicação formal e mediática por falantes com alto grau de escolaridade. Digamos que é o veículo que serve ao governante, ao professor, ao intelectual, ao técnico, ao político para difundir o seu discurso sectorial específico à população-alvo.

Uma série de fenómenos em que o aumento da escolaridade no país, o acesso aos media e a rápida difusão e, nomeadamente, a expansão e a abrangência intercontinental através da rádio, da televisão, a exibição das telenovelas brasileiras, portuguesas e angolanas em quase todos os canais televisivos de língua portuguesa, o seu acesso nas principais cidades e nas sedes municipais – através de antenas parabólicas, privadas e comunitárias, estas, já com alguns anos de funcionamento – somados e conjunturalmente simultâneos, podem explicar a aceleração nessa reviravolta linguística do crioulo de Cabo Verde e podem também ser considerados agentes transformadores e agentes fornecedores de novos vocábulos, de novas expressões, de uma linguagem melhor articulada para questões de natureza técnica, política e científica.

 Aliás, como já aqui referido, já se notam no país os novos falantes deste também inovado e mais enriquecido veículo de comunicação.

Trata-se de um veículo linguístico, falado por uma elite letrada, que ocupa cargos de responsabilidade nos diversos sectores da sociedade, que vai mais vezes à comunicação social e que se encarrega naturalmente de o difundir. Porque toda a elite é uma referência e um modelo a seguir nas sociedades novas, como é o caso de Cabo Verde, é nossa convicção de que estamos a assistir ao nascimento e ao desenvolvimento de uma nova via oral de comunicação erudita e elaborada do crioulo de Cabo Verde e que muito deve, já não à língua portuguesa da era dos Descobrimentos, mas sim, à língua portuguesa actual, deste século.

Independentemente do querer e das “barafundas”, passe a expressão, dos falantes, dos gramáticos, dos linguistas, quer de uma ou de outra língua, as duas, a língua portuguesa e a língua cabo-verdiana, o crioulo, de/e em Cabo Verde, mantêm-se unidas e actualmente, cada vez mais cúmplices, mais interdependentes uma da outra, nesse processo de permutar, de alterar e de transformar vocábulos; de trocar palavras, de reter e de absorver mutuamente construções antigas e novas, recriando-se constantemente a um ritmo e numa interacção tais, só explicáveis, se calhar, por este tempo de globalização. É que também devemos falar no português de Cabo Verde, climatizado e aculturado num processo e num ambiente fortemente crioulístico.

Retomando o grande filólogo, Baltasar Lopes da Silva, este afirmava em 1956, numa soberba intervenção numa das sessões da “Mesa-Redonda sobre o Homem cabo-verdiano” a propósito daquilo que ele definiu como a constante e progressiva “aristocratização” do crioulo: «o crioulo numa situação diferente da que estiveram o português, ou qualquer língua românica com o latim. Quando certas línguas se formaram o latim já não era na realidade viva, ao passo que nós notámos um dialecto, um idioma, que evolui sob os olhos da língua matriz, sob uma influência constante da tal língua matriz. Há este princípio da aristocratização que se nota por toda a parte.»

De se notar também, o que tem sido a reacção de alguns estudiosos, entre nós hodiernamente. A respeito do fenómeno: Acham que, nomeadamente, é necessário “contrariar” essa nova tendência do crioulo em transformar-se num “criouguês”, ou num “crioulês” como já se diz humoristicamente entre nós. Para alguns, a solução é rapidamente alfabetizar e ensinar de forma distinta e correcta, o falante cabo-verdiano, tanto em língua cabo-verdiana, como em língua portuguesa.

Embora concordando de que estamos necessitados de uma boa metodologia para o ensino das línguas vivas, de comunicação oficial e materna do país, no meu entender, trata-se de um caso interessante de conluio linguístico e de mútua aculturação que se vêm processando entre a Língua cabo-verdiana e a Língua portuguesa e, ao que tudo indica, sem pressa de desfecho e, a acontecer, de difícil previsão.



[i] In “Expresso da Ilhas” de 25.10.2006

 

Será que burro velho não aprende línguas?

quinta-feira, 16 de março de 2023

É nossa opinião que o tema tratado no texto tem interesse para o Leitor do Coral -Vermelho - com a devida vénia à sua autora - tomámos a liberdade de aqui o transcrever. 

 

Margarita Correia

Na maioria das vezes, os animais referidos nos provérbios constituem personificações, i.e., representam humanos com determinados comportamentos e características, e o provérbio expressa um julgamento (moral, ético, social…) sobre eles - e.g. "cão que ladra não morde", "a curiosidade matou o gato", "a bezerrinha mansa mama a sua e a alheia", "grão a grão, enche a galinha o papo". Não compreendo, por isso, iniciativas como a de pretender modificar os provérbios populares para eliminar linguagem ofensiva para os animais - como se os animais se ofendessem e como se não representassem, precisamente, os humanos!

Um dos provérbios que mais me ocorre e sobre o qual mais perguntas me fazem é "burro velho não aprende línguas". A concepção por trás do provérbio é a de que uma pessoa (o burro) a partir de certa idade (velho) não será capaz de aprender línguas, exceptuado a materna, que adquirimos sem esforço, na infância. O provérbio expressa um facto incontestável: o de que as crianças, intuitiva e rapidamente, aprendem as línguas com as quais estiverem em contacto, sem esforço, enquanto os adultos não conseguem fazê-lo. A Psicologia, a Neurologia e a Linguística explicam-no com base no fenómeno conhecido como neuro plasticidade, plasticidade neuronal ou cerebral.

Plasticidade é sinónimo de maleabilidade e denomina a capacidade de um corpo se deformar sem romper ou quebrar, i.e. a de uma entidade se adaptar ao meio e às circunstâncias. É característica de todos os seres vivos. A plasticidade neuronal diz respeito à capacidade do sistema nervoso central, cérebro incluído, de mudar ou se adaptar, do ponto de vista estrutural e/ou funcional, ao longo desenvolvimento e sempre que o sujeito é exposto a experiências ou estímulos novos.

Aprendizagem pode ser entendida como plasticidade e o cérebro humano é o que apresenta maior capacidade de adquirir conhecimento, explícita e implicitamente, de se adaptar. A plasticidade do cérebro em desenvolvimento é muito grande (só assim se explica tudo o que uma criança aprende nos primeiros anos de vida) e vai diminuindo com a maturidade, embora não desapareça. O cérebro em desenvolvimento encontra-se mais apto a adquirir conhecimento procedimental (relativo ao "como" executar tarefas ou exercícios), mas a aquisição de conhecimento declarativo, explícito, mantém-se ao longo da vida, havendo operações cognitivas que só conseguimos realizar com a maturidade intelectual (e.g. raciocinar sobre entidades e processos abstractos).

A aquisição de uma língua por uma criança realiza-se sobretudo com base em conhecimento procedimental - ela vai intuitivamente construindo o seu conhecimento sobre como funciona a língua, a sua gramática, e aperfeiçoa-o em resposta às produções linguísticas que recebe. A grande plasticidade cerebral das crianças permite, assim, entender a sua capacidade para lidar com as línguas ou, dito proverbialmente, explica porque "burro novo aprende bem línguas."

E o que acontece com os "burros velhos"? Estes também aprendem línguas, seguramente, e até podem atingir elevados níveis de proficiência, dependendo da sua motivação, da qualidade e quantidade de input a que forem expostos e das estratégias metacognitivas (conscientes) de aprendizagem que adoptarem. Aprenderão é de forma muito diferente: com recurso a conhecimento explícito sobre como funciona a língua e com maior esforço e perseverança do que as crianças. Em suma, burro velho aprende línguas, com certeza, mas com tenacidade, como "água mole em pedra dura".


Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

 

 

segunda-feira, 13 de março de 2023

 

Com a devida vénia ao seu autor, Miguel Herdade, tomámos a liberdade de aqui transcrever o texto publicado em: «Comunidade Cultura E Arte».

O assunto, como o próprio título indica, é universal e não perde actualidade. Para Cabo Verde faz todo o sentido, porque vivemos uma crise na escola pública nacional, com ausência gritante do tal “grande professor” de que fala o texto e de que tanto necessita o aluno cabo-verdiano!

Com efeito, toda a criança merece ter um bom professor no seu processo de ensino-aprendizagem. Vejam as vantagens disso, lendo o texto que se segue:

Parte superior do formulário

Parte inferior do formulário

 

Dar a todas as crianças um grande professor, por favor!

 

por Miguel Herdade,    5 Março, 2023

 

 

Três ensaios sobre desigualdade e educação. Parte I: “os professores”.

Nada, coisa nenhuma. Absolutamente nada. Nas escolas, não há nada mais importante para o futuro das nossas crianças do que o professor que elas encontram dentro da sala de aula.

A evidência científica de que dispomos é clara, e mostra-nos que a pessoa que temos diante de nós na sala de aula vai ter um impacto que marca toda a nossa vida, influenciando o que aprendemos, as escolhas que fazemos, e até os nossos salários na idade adulta. Dar a todas as crianças um grande professor pode ser uma das melhores ferramentas para potenciar as capacidades de cada uma delas mas, também, para diminuir as desigualdades, criar um país melhor, mais rico e mais justo. Não acredita? Então leia este artigo.

É pena que, em pleno século XXI, tão poucos pais, alunos, políticos e pessoas comuns — por vezes, até os próprios professores — tenham a noção do poder verdadeiramente transformador desta profissão. Vejamos.

A escola: será mérito, ou mera sorte?

A nossa vida é marcada por imensos factores que ninguém realmente escolhe. São, digamos assim, fruto do acaso: ninguém tem a possibilidade de escolher o país em que nasce ou a quantidade de dinheiro que os seus pais têm. Estes factores aleatórios como a pobreza, a cor da nossa pele, ou a escolaridade dos nossos pais criam barreiras que nos põem em situação de desvantagem e têm um impacto enorme na nossa vida.

Esta desigualdade é evidente no nosso percurso escolar, alastrando-se para a universidade (para quem consegue lá chegar) e, depois, na vida adulta:

Se retratarmos Portugal como um grupo de 10 jovens, 5 deles andaram no ensino superior [1]. Contudo, se olharmos para 10 jovens nascidos em famílias pobres e com pais pouco qualificados, vemos que em média só 1 conseguiu lá chegar [2]. Por outro lado, se der um saltinho a uma faculdade de medicina, verá num mesmo universo de 10 alunos que 7 tinham pais licenciados. Se vier jantar comigo, descobre que todos os 10 membros do meu grupo de amigos tiveram a sorte de andar na universidade.

E não é por acaso que assim é. De facto, os maiores determinantes [3] da nossa capacidade de ter boas notas são o contexto socioeconómico em que nascemos, a escolaridade dos nossos pais e, em especial, da nossa mãe. Aliás, este último tema é tão importante, que fica já prometido para a Parte II desta trilogia sobre educação e desigualdade.

Mas, afinal, se o que importa é o contexto socioeconómico dos alunos, porque é que este é um texto sobre professores? Vamos pegar num exemplo:

Imagine uma criança nascida numa família numerosa. Estatisticamente, é provável que essa criança tenha pais pouco qualificados e tem, certamente, uma probabilidade maior de ser pobre, de passar privações alimentares, e de viver numa casa sobrelotada, dividindo um quarto que partilha com vários irmãos sem ter espaço para estudar e fazer os trabalhos de casa [4]. Na casa ao lado, os vizinhos também têm uma criança, que até é filha única, mas são um casal de emigrantes e não falam português como primeira língua. Estas duas crianças partem em situação de desvantagem e de desigualdade, mas por motivos diferentes. Todos estas barreiras que estas crianças enfrentam exigem soluções que envolvem mexer em vários problemas diferentes: o espaço e qualidade das casas, os ordenados baixos e as barreiras linguísticas, entre outros factores. Se, por um lado, os problemas em casa e na família são um verdadeiro quebra-cabeças, há um local comum na vida dessas duas crianças: a escola.

“Os professores são duas a três vezes [6] mais importantes nos resultados dos alunos do que qualquer um daqueles assuntos que estamos sempre a ver discutidos até à exaustão.”

É a escola, esse local sagrado, o sítio onde podemos dar às crianças as ferramentas para quebrar barreiras e desvantagens que a vida lhes deu. Ainda que por vezes o faça (e há professores, em Portugal, a levarem comida de casa para dar aos seus alunos), o papel principal da escola não é resolver todas as falhas do Estado Social no imediato. O papel da escola é dar a essas crianças as melhores condições para aprenderem, apesar de toda a desvantagem da sua vida. É através desse papel que as crianças podem adquirir conhecimentos, navegar até à idade adulta, conseguir salários mais altos e aspirar a uma vida melhor. Uma escola que consiga isso está a combater as injustiças da vida, um sistema de ensino que falhe nessa missão perpetua as desigualdades existentes.

Mas a escola não é uma abstracção. Pelo contrário, é um sistema complexo que tem lá dentro um elemento muito especial e, por vezes, mal compreendido, que são os professores [5].

A qualidade de um sistema de ensino nunca pode ser superior à qualidade dos seus professores

Os professores são, de longe, o factor que maior impacto tem nos resultados dos nossos alunos ao nível da escola. Os professores são duas a três vezes [6] mais importantes nos resultados dos alunos do que qualquer um daqueles assuntos que estamos sempre a ver discutidos até à exaustão. Estou a pensar em coisas como o tamanho das turmas [7], se os telhados das escolas têm amianto, se Os Maias são uma seca, ou se a cadeira de Cidadania e Desenvolvimento deve ou não existir.

Mas os professores não são todos iguais. Como em tudo na vida, há professores melhores e piores. E também há, claro, professores que têm melhores condições para trabalhar do que outros. Podem ter turmas mais complicadas, directores que os apoiam ou não, mais ou menos papelada para preencher, e um sem número de constrangimentos que, de facto, têm impacto na sua performance a ensinar.

De uma forma simplificada, podemos dizer que os professores mais eficazes conseguem ensinar em seis meses aquilo que um professor mediano demora um ano a ensinar. Já no caso dos professores menos eficazes, essa mesma aprendizagem demora dois anos a transmitir [8]. Há muitas formas de medir o impacto dos professores nos alunos, e os estudos que procuram a relação entre os professores e os alunos são extraordinariamente consistentes em vários países e contextos [9]. Ter acesso aos melhores professores tem um impacto ainda maior nos alunos de contextos mais desfavorecidos [10] apesar de, infelizmente, estes professores terem uma probabilidade menor de ensinar em escolas em zonas desfavorecidas [11].

Um estudo de 2021, feito para os alunos e professores portugueses [12], concluiu que se todos os alunos do 3.º ciclo conseguissem ter acesso a um professor altamente eficaz, a percentagem de alunos com negativas a Português diminuía de 48% para 10%. É este o poder de um grande professor.

Uma das perspectivas de que falamos menos é o impacto que um professor tem nos nossos salários quando crescemos

Sim, um bom professor ajuda-nos a ganhar mais dinheiro quando crescemos [13]. Um dos estudos mais interessantes que comprova este facto vem dos Estados Unidos, onde um grupo de académicos de Harvard e Columbia analisaram os resultados escolares de mais de um milhão de alunos [14]. Cruzando esses dados com as avaliações dos seus professores e as declarações de impostos dessas mesmas crianças, já em idade adulta, conseguiram perceber qual era a diferença entre termos acesso a um professor melhor ou pior.

As conclusões são brutais [15]. Ter acesso a um dos professores mais eficazes no sistema de ensino melhora as aprendizagens dos alunos, dá-nos uma maior probabilidade de entrar para a universidade e ter um salário mais alto ao longo da vida. De acordo com esses dados, substituir um professor de baixo-valor acrescentado por um professor mediano gera um aumento de rendimentos de 250 mil dólares por sala de aula!

 

O problema, já adivinhou, é que é muito mais fácil ser um professor eficaz quando se ensina numa escola de uma zona mais rica e onde os alunos passam menos dificuldades. Pelo contrário, os professores que ensinam em escolas que servem comunidades pobres encontram enormes dificuldades em fazer o seu trabalho em condições. Pense na diferença que é tentar ensinar uma criança com o estômago vazio.

Ser professor é mesmo difícil

No seu emprego ou local de trabalho, quantas vezes já olhou à volta e pensou: «bolas, esta gente com quem eu trabalho não ajuda nada, parecem todos umas crianças». Pois, imagine agora que essas pessoas com quem você trabalha todos os dias são de facto um grupo de 30 crianças e que, muitas vezes, estão ativamente a desajudá-lo na sua missão, fazendo birras e gerando conflitos. Pense no quão mais difícil todos estes problemas se tornam se der aulas numa escola que serve uma comunidade desfavorecida, onde os alunos vivem em pobreza, em casas degradadas, com pais que têm dois e três empregos ou, pior ainda, por vezes não têm nenhum. Crianças sem livros, cadernos e, muitas vezes, sem ter o que comer. Ser professor é verdadeiramente apaixonante, mas difícil.

Estas dificuldades passam, também, pelas condições de trabalho: gabinetes (quando existem) frios e com bolor, cargas horárias complemente colossais e com mais tempo a tratar de papelada do que a preparar aulas. Aliás, em preparação para este texto compilei uma lista de pelo menos, 25 documentos que os professores têm de preencher todos os anos, várias vezes para diferentes alunos, com siglas malucas e indecifráveis que vão do PEI («Plano Educativo Individual») ao RGHR («Relatório do Grupo de Homogeneidade Relativa»). Não é por acaso que 80% dos professores portugueses reporta a burocracia como um dos principais motivos de stress [16], o valor mais alto de todos os países da OCDE. Isto para além dos testes, exames e trabalhos de grupo para corrigir. Já percebeu onde quero chegar.

De facto, a vida de professor é estupidamente stressante e o impacto físico e psicológico desta profissão pode, até, ser superior ao dos médicos, bombeiros, ou polícias [17]. Um terço dos professores portugueses tem níveis de stress muito altos e alguma evidência sugere que Portugal é o país da Europa onde os professores têm níveis mais elevados de stress [18]. Para além disso, há em Portugal um elemento estranhíssimo na vida dos professores — que penso até ser único no mundo desenvolvido — que é o famoso «sistema de colocação de professores». Esse sistema dita que as escolas não têm autonomia para escolherem os professores que querem contratar, consoante as equipas que precisam, os alunos que têm e as circunstâncias daquela escola. Não é raro encontrarmos escolas que recebem um professor de que os alunos gostam, de que os pais gostam, de que os outros professores gostam, mas, no ano a seguir, é enviado para outro lado, pela impossibilidade de o integrar nos quadros. O sistema leva a situações completamente penosas de professores que ensinam em Bragança, num ano, e em Faro, no ano seguinte. Estes professores vivem com a casa às costas e sacrificam-se em prol das crianças do nosso país. São vítimas de um sistema que tantas vezes não lhes permite viver na mesma cidade que a mulher ou marido e, também, os seus próprios filhos que só vêem, com sorte, aos fins-de-semana. É intolerável.

Mas, também, a forma como gerimos este recurso tão importante (os professores) falha claramente na sua missão: garantir que todas crianças, independentemente do seu contexto social, tenham acesso a uma educação de excelência. Um bom exemplo disso é que, em Portugal, por alguma razão misteriosa, valorizamos características dos professores que não têm nenhum impacto nas aprendizagens e resultados dos alunos. De facto, o que conta para a colocação de um professor são a sua nota de licenciatura e há quanto tempo dá aulas: dois critérios que, obviamente, nada nos dizem sobre se um professor ensina melhor ou pior. Sem surpresas, esta conclusão foi confirmada por um estudo recente, que já mencionámos neste texto, que observou um milhão e setecentos mil alunos e 42 mil professores portugueses [19].

Perante este estado de coisas, só posso concluir que os professores portugueses fazem milagres apesar do sistema de ensino e não por causa do sistema de ensino. No fundo, o sistema, com todas as suas falhas, torna a vida dos professores mais difícil, em vez de os apoiar a fazerem aquilo que sabem fazer melhor — ensinar os seus alunos.

Não temos professores, e agora?

Perante a situação esdrúxula que descrevi acima, ninguém ficará espantado se eu lhe disser que há um problema absolutamente dramático de falta de professores em Portugal. A situação é de tal forma grave que, se nada fizermos, nos próximos três anos cerca de 250 mil alunos [20] vão ficar sem aulas a pelo menos uma disciplina. Para dar uma noção da escala do problema, esse número equivale a metade de todas as crianças entre o 7.º e o 12.º ano. Uma autêntica barbárie.

O sistema que temos está obviamente caduco. O problema com que nos deparamos acontece por dois motivos: em primeiro lugar, a população docente envelheceu e cerca de 39% dos professores vão reformar-se até 2030. Isto significa que, até ao final da década, vamos ter de contratar quase 35 mil novos professores [21]. Isto, apesar de o número de alunos também estar a cair a pique.

Em segundo lugar, os jovens não têm interesse em serem professores. Isto acontece apesar de, como se aponta muitas vezes, os professores portugueses (em média) receberem relativamente bem quando comparados com os seus congéneres de outros países europeus. Mas essas comparações reflectem a média dos professores num país com uma população docente em fim de carreira e, por isso, naturalmente com um grande número de docentes com ordenados mais altos. Por oposição, os professores mais novos e aqueles que estão fora dos quadros não recebem salários dignos e competitivos. Prova disso é que os salários não conseguem ser atractivos: em 2021, Portugal contou com apenas três novos professores de físico-química.

Como garantir que todas as crianças têm um grande professor?

O primeiro elemento essencial é a quantidade. Obviamente, temos de garantir que há professores suficientes nas salas de aulas. Para isso, vamos ter de alterar a forma como contratamos e formamos os nossos professores, tornando as vias mais atractivas e menos estritas. Depois, para resolver o problema no curto prazo, podemos pensar em trazer antigos professores de volta para a sala de aula, ou requalificar profissionais de outras áreas para aprenderem a ser professores. Outras ideias já testadas podem passar por criar incentivos financeiros [22] para atrair professores para disciplinas que estejam mais em falta ou para regiões que sejam menos atractivas. Mas uma coisa é certa: centralizar a contratação de professores não ajudou a resolver a falta de docentes em Portugal, e a evidência demonstra que sistemas centralizados prejudicam os resultados dos alunos, sobretudo em escolas com maior número de crianças e jovens desfavorecidos [23].

O segundo ponto essencial é garantir a qualidade dos professores. Este é um tema particularmente complicado [24], desde logo, porque temos de definir o que entendemos por qualidade ou eficácia[25]. Logicamente, do meu ponto de vista, a qualidade de um professor mede-se pelo impacto que ele tem nos alunos. Parece-me evidente que a eficácia não se mede pelas notas dos alunos, mas sim pela diferença que um professor pode fazer em relação ao ponto de partida dos alunos. Não me parece descabido dizer que um professor que consegue que a maioria dos seus alunos tenha positivas, numa turma de alunos desfavorecidos, é mais eficaz do que outro professor que tenha exactamente os mesmos resultados numa escola de classe-média.

Mas a resposta honesta é que, na verdade, ninguém sabe muito bem como criar professores altamente eficazes. Há algumas pistas para as quais podemos olhar. A ideia mais óbvia é tentar atrair os professores academicamente mais hábeis para o sistema de ensino, como fazem em Singapura, na Finlândia (cujo sistema de ensino já teve, enfim, melhores dias), ou na Coreia do Sul. Nestes países, a profissão é tão prestigiada socialmente que, tal como os médicos, os professores recrutados são, essencialmente, todos alunos de topo.

Acontece que alguém ter sido um bom aluno não é, necessariamente, garantia de vir a ser bom professor. Aliás, como demonstrámos acima, a nota de licenciatura dos professores, em Portugal, não tem nenhum impacto na aprendizagem dos alunos. Claro que atrair professores academicamente capazes há-de ser sempre uma boa ideia, mas talvez não seja suficiente. Ensinar exige imensa paixão, trabalho árduo e espírito de missão. Mas também exige um outro ponto fundamental — desenvolvimento constante. Já temos evidência [26] que sugere que a formação contínua de professores pode ter impactos extraordinários e verdadeiramente transformadores no nosso sistema de ensino. Ajudar os professores ao longo da sua carreira a melhorar a sua performance, aprendendo técnicas, pedagogia, e novos métodos tem um impacto importante na melhoria das aprendizagens dos alunos [27]. Por outro lado, está demonstrado que também ajuda a manter os professores motivados e a não procurarem mudar de profissão [28]. Para além disso, esta ideia da formação contínua e desenvolvimento profissional de professores pode ajudar-nos a combater a desigualdade e a pobreza. É esse o resultado de um estudo recente [29] que concluiu que um programa de 35 horas por ano de desenvolvimento profissional de alta qualidade para professores se traduziria num aumento dos salários dos alunos em idade adulta. O estudo calculou que, se este investimento fosse realizado em Inglaterra, traria um retorno de 61 mil milhões de libras, num retorno equivalente a 19 vezes o investimento!

Quo vadis?

Nas últimas décadas, o sistema de ensino português teve um dos avanços mais notáveis a nível mundial. No ano 2000, o português médio tinha a escolaridade equivalente à de um alemão em 1930 e à de um romeno em 1970[30]. Hoje, a minha geração tem um grau de escolaridade equivalente à de qualquer outro país europeu. Este feito de levar a escola a quase todas as crianças do nosso país não foi feito à custa do sacrifício da qualidade. Pelo contrário, veio acompanhado de uma melhoria enorme dos resultados dos nossos alunos nas comparações internacionais. Na minha opinião, levar a escola a (quase) todas as crianças foi a maior proeza da nossa democracia.

Mas nem tudo corre bem. Chegámos agora ao quarto ano lectivo marcado por fortes disrupções e perdas de aprendizagens causadas pela pandemia, pelas greves (justíssimas) e pela falta de professores. Damos por nós numa situação penosa: uma criança que hoje esteja no 4.º ano, nunca teve um ano normal de escola na sua vida. É provável que todo o percurso escolar dessa criança seja marcado por uma escola sem professores.

E os desafios não acabam aí. Se é verdade que conseguimos muito progresso, também é verdade que continuamos a ser um país com uma pobreza infantil demolidora e um país onde a desigualdade entre alunos ricos e pobres não diminui há cerca de 20 anos [31]. Não é aceitável.

O contexto em que nascemos não pode determinar as nossas aspirações na vida. E a profunda injustiça da desigualdade não tem de ser uma inevitabilidade:

 — Temos de dar a todas as crianças um grande professor, por favor.

Declaração de interesses: As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não reflectem os princípios ou posições das organizações às quais está associado. O autor trabalha num instituto inglês, sem fins lucrativos, especializado no apoio a professores e escolas que servem alunos desfavorecidos.

In: Comunidade Cultura E Arte


 

Regresso em Noite Mágica

domingo, 12 de março de 2023

  

O poema que se segue da autoria de Adriano Miranda Lima, chegou-nos em formato “Power-Point” com música de Bau que terá também inspirado o poeta ao ouvi-la ao vivo, como aliás, explica na Nota de rodapé.

Infelizmente, este “Blog” não está capacitado com a ferramenta adequada para passar o poema tal como veio no original.

Lamentamos!

Mesmo assim, e porque achámos bela a composição poética de A. Miranda Lima, queremos partilhá-la com o leitor.

Fica a promessa de que se viermos a conseguir publicá-la no original - com música - voltará a ser aqui colocada.

A noite é de um silêncio puro e irreal

como o prenúncio de uma tormenta.

Não sopra a mais leve brisa

e uma cálida mansidão invade os espectros

dos navios fundeados na baía do porto.

 

Até as ondas calaram o seu murmúrio

quando subitamente o vulto místico da Eurídice

liberta das grades do seu submundo

desce às ruas desertas de vida

e bate ansiosamente às portas

à procura do seu amado Orfeu.

 

Surpreso ensaio o verbo do meu espanto

e a minha voz soa como o vagido

da flor que se abre à luz da vida.

Nisto um som de violino surge do nada

e invade a noite morna derramando

a convulsão das suas cordas

ora em suave gemido de uma alma sofrida

ora em súplica de coração ardente.

 

Submissa a noite explode de emoção

e o violino ignora o meu grito:

– Ó alma virtuosa espera um instante

deixa-me subir ao terraço da infância

para regressar ao velho lençol de linho

onde me enrolei a ouvir o vento

e a namorar o rosto terno da lua!

– Quero aliviar a mágoa

pelos silêncios a que não dei voz

e pelas vozes que não me responderam!

 

Mas a serenata prossegue ininterrupta

inundando-me com o seu feitiço

e o meu ser voa silenciosamente

e entra na espessura da noite

 como um pirilampo vogando ao acaso

à descoberta do infinito.

 

Até que o violino suspende o meu devaneio

e imploro com veemência:

– Ó mágico violino, bálsamo da vida,

poupa as tuas lágrimas e as tuas penas

que a saudade é já só um eco remoto

a morrer nas tuas finas cordas!

Penitencio-me do pecado da longa ausência

e rendo-me à plangência da tua melodia!

 

Contudo o violino não me ouve

porque o seu mundo é incorpóreo

e o seu destino é apenas conquistar corações.

Entretanto raia a aurora e tudo se extingue

em misteriosa alternação de sombra e luz

com a música já em dolentes acordes de despedida.

 

Acabei de viajar à origem das coisas

encantado por uma música sublime

que me levou aos confins da memória.

Vou partir. Irei aos primeiros alvores do dia

com mágoa de não ter decifrado

o mistério da noite enfeitiçada.

 

Adriano Miranda Lima

Música “Regresso”, interpretada por Rufino Almeida (Bau)

  

Nota explicativa:

Foi em 2003 que ouvi pela primeira vez e ao vivo a composição “Regresso”, quando o seu autor, o músico Rufino Almeida, mais conhecido por Bau, actuava na esplanada de um hotel na cidade portuária do Mindelo. Tanto apreciei a melodia que ela me inspirou uma reacção poética, tocado pela graça do tema musical, de extraordinária beleza e soberba interpretação.  Ela fez-me viajar aos confins da minha memória mais longínqua, onde reside uma saudade em que se amalgamam porções de mistério, remorso e encantamento. Reduzi o tempo a uma única dimensão, prendendo-o ao momento presente e acrescentando-lhe o que permanecia incólume no meu imaginário, refúgio de sonhos e ideais. Os anacronismos sentimentais que alimentam a nossa saudade podem assumir as formas mais variadas, mas o seu fundo motivacional é o mesmo. O problema é que a própria idealização desconstrói os nossos mitos quando nos confrontamos com a realidade nua e crua. E é por isso que raramente encontramos o que idealizamos.

«Os Anos» de Annie Ernaux

sábado, 11 de março de 2023

 

Acabei recentemente a leitura do livro «Os Anos» no original, «Les Années»x1 da escritora francesa, citada no título e Prémio Nobel de Literatura, 2022.

Pois bem, Annie Ernaux, é considerada, nos dias que correm, como uma das vozes mais abalizadas no que toca à escrita literária de cariz autobiográfico, fundida numa articulação que diria, simbiótica e soberba com a História e a sociologia.

Com efeito, a autora, de «Os Anos», configura toda a narrativa num registo que é a um tempo, autobiográfico e histórico, o que permite que o leitor perceba e mesmo, que adira (neste último caso, se o leitor pertencer à mesma geração, ou à mesma década de nascimento da escritora, o que é o meu caso) tal é o modo como ela entrelaça os dois campos da sua escrita.

Escritora nascida em 1940 em Lillebonne, na Normandia, França.

Ora bem, no livro perpassa ao longo das suas páginas, uma narração movimentada e pormenorizadamente descritiva das diferentes etapas da vida da protagonista, alter ego da autora; as suas vivências na escola, em família, entre amigas  com quem partilha os segredos;  entre os grupos juvenis que se vão formando, no Liceu e, na juventude na Universidade; nos quais se debatem os anseios de mudança de paradigma social e político e, mais tarde, os dilemas da vida profissional da narradora.

O interessante também do livro é que ao lado das questões que conformam a vida da narradora, e  quase em paralelo, concomitantemente, vemos desfilar contextualizadas, as etapas históricas e sociais mais marcantes ,em França, na Europa e no Mundo.

 Como consequência, a leitura que se faz da obra, é apaixonante e apela à emoção e à memória.  E se me fosse permitida, como leitora, usaria a expressão: uma prosa que carreia uma visão holística e global de um determinado tempo.

De facto, a obra de Annie Ernaux, convida a uma fruição plena da sua literariedade narrativa, através de uma pena soberba e de um estilo único, que caracterizam a autora.  E é nesta mesma linha de escrita que lemos num outro livro dela, intitulado: «O Jovem», publicado em 2022. No original: «Le Jeune Homme» das mesmas Editoras mencionadas no rodapé deste escrito.

Assim, e voltando ao «Os Anos», temos na infância da narradora, as lembranças então recentes, da II Grande Guerra, (que ela escutava à mesa, nas palavras dos avós e dos pais) que guardou na memória. As significativas movimentações sociais e políticas em França com a subida ao poder do general de Gaulle, saído vitorioso das contendas externas e internas em que a França esteve mergulhada nos anos quarenta e cinquenta do século XX. Aliás, o livro acaba por abarcar quase todos os grandes acontecimentos do século mencionado.

 Com efeito, na puberdade e/ou na adolescência ela, a narradora, vive com intensidade, não só as transformações que se operam no seu corpo, mas também, as evoluções, por vezes, bem conflituosas  dos entendimentos e dos questionamentos do complexo Ser humano.

Pelo caminho, a narradora faz-nos conhecer os políticos/estadistas que governaram a França, para além do já mencionado De Gaulle, os nomes de Pompidou, Giscard D’Estaing, Mitterrand, de entre os mais conhecidos, que alteraram a França e influenciaram a Europa de então.

Torna-se igualmente muito interessante, reviver na escrita de Annie Ernaux, o célebre Maio de 1968 que teve o berço em Paris e que rapidamente alcançou a juventude, um pouco por todo o mundo. Em Lisboa também o vivemos nessa época, por adesão àquilo que foi detonado pelos estudantes universitários de Coimbra, ainda que sob o salazarismo e a Pide.

No mesmo passo, a autora retoma e recorda o tempo dos “hippies,” da ideologia do “make love, not war”; da liberdade do sexo, das canções revolucionárias e românticas que se ouviam com deleite, nos meados dos anos 60 do século XX, indo até à moda da mini-saia e das calças boca-de-sino.

 A autora vai passando a sua juventude no meio dos filmes ditos intelectuais e da “nouvelle vague” (para nós, em Lisboa estes filmes eram projectados nos cinema-Estúdios) -  filmes franceses, italianos e suecos que mais marcaram a sua juventude e um pouco, como contrapeso ao cinema americano que dominava as grandes salas de cinema e as bilheteiras; dos realizadores mais destacados neste género de filmes como Alain Resnais, Jean Cocteau, Jean Luc-Godard, François Truffaut,  Vittorio de Sica, Fellini, Ingmar Bergman, entre outros;  também percorre grandes actores como Michelle Morgan, Gérard Philippe; discute a filosofia existencial (Sartre)  Althusser, e as interpelações da mulher (Simone de Beauvoir) plasmadas no livro «O Segundo Sexo» da autora atrás citada; as grandes obras literárias que marcaram o tempo histórico da narradora, como as dos escritores Alain Robbe-Grillet, Roland Barthes, Camus e Nathalie Sarraut;  das canções  e das vozes de Juliette Greco, Édith Piaf, Ives Montand, Gilbért Bécaud, Jacques Brel, entre outros, sem omitir a era grandiosa dos Beatles.  

Enfim, de muitos mais e famosos, que também construíram a década fabulosa da chegada do homem americano à lua, agora transfigurada belamente, na pena não menos fabulosa de Annie Ernaux, numa espécie de grande e  movimentada tela.

Daí que recomendo vivamente a leitura deste livro, não só aos leitores que viveram a juventude nos anos 60 do século passado, mas também, aos mais novos, que assim podem conhecer as grandes convulsões e não menos significativas transformações da época, através deste relato narrativo poderoso e magnífico, da escritora francesa Annie Ernaux, Prémio Nobel, do ano transacto.

 

x Edição Livros do Brasil, da Porto Editora, 2020

x1 Éditions Gallimard, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A SAUDADE DE PASÁRGADA

segunda-feira, 6 de março de 2023

 Baltasar

 

Essa fina saudade de Pasárgada

que percorreu os teus dias

ninguém a entendeu senão tu

como algo entretecido por mão de anjo

quando o sol, a terra e a chuva fizeram as tréguas.

 

Alguns pensaram que era simples desejo de evasão,

fuga obstinada e sem rasto de remorso

trancando a porta de regresso.

Mas como poderia evadir-se

quem estava preso no ventre da sua mãe?

 

E depois, filho de coração terno,

quem poderia mais tarde acalentar a dor da sua mãe

e cuidar-lhe um dia da sua mortalha de linho?

Sim, alguns fingiram não perceber que apenas querias

o calor húmido de um Beijo.

 

Um beijo da mãe-água no seio da mãe-terra

depositado em toda a dobra do tempo

selando promessa de felicidade eterna!

Mas só tu conheceste a vertigem do teu sonho,

e ninguém faz ideia do que se fez pesadelo.

 

Este poema que roubei a uma estrela

tombada sobre as nossas dores

toma-o como remissão do meu pecado

por não ter compreendido desde cedo

que rasgaste sozinho o negrume das noites.

 

Baltasar

 

Hoje não é já a Pasárgada que nos persegue

nas nossas intermináveis noites de vigília.

É esta infinita saudade que nos deixaste.

 

Adriano Miranda Lima