Racismo? Xenofobia? Ignorância?...

terça-feira, 19 de novembro de 2019



Ultimamente tenho ouvido, assistido e partilhado cenas hilariantes algumas, surreais outras, e confrangedoras quase todas, ocorridas à chegada de nacionais nos aeroportos do país.
Tudo isso se tem passado nos nossos aeroportos, com a polícia de fronteira, à chegada de passageiros, sobretudo de cabo-verdianos que trabalham no estrangeiro e que vêm de visita à  terra. Diga-se em abono da verdade, que de uma maneira geral, essa mesma polícia acolhe-nos com uma sobranceria tal, que nos leva a questionar porque será? É como se estivessem a fazer um frete e nós fôssemos os culpados. Isto tudo depois de longas, desorganizadas, demoradas e penosas filas, para o carimbar dos passaportes. E para quem vem estafado e desgastado de viagem, por vezes longa, e que só almeja chegar à casa ou ao hotel para descansar, convenhamos que não é propriamente a melhor recepção. E isso tem sido bastante notório recorrentemente, nos  tempos recentes, melhor dito, ultimamente.
 A propósito disto tudo, a par de muitas histórias das quais tenho conhecimento, não resisto contar esta que se passou com uma das minhas sobrinhas, filha do meu irmão, que veio este ano de férias com os filhos a quem queria mostrar a terra natal, a sua ilha, o Sal. Chegados  à fronteira, o atendimento da agente policial não foi de modos, teimava categoricamente com a minha sobrinha que ela não poderia ser cabo-verdiana, porque era, cito: “branca, loira e de olhos azuis”. Imaginem o argumento? Nem sequer a agente teve o bom senso e o discernimento mínimo de verificar a gratuidade da sua atitude agressiva e antipática, incompatível com as funções que exerce de anfitrião – admitindo que ela não fosse cabo-verdiana – de um país que tem no turismo uma das suas grandes fontes de receita. A elegância e a simpatia não significam menor firmeza nem menor rigor no cumprimento das suas funções.
Mas vamos por partes, a minha sobrinha é cabo-verdiana dos quatro costados como sói dizer-se, a mãe é de São Nicolau e o pai do Fogo. A sua ascendência (avós e bisavós) remontam às ilhas de São Nicolau, Santo Antão, Fogo e São Vicente. Por sinal, tenho organizada a nossa àrvore genealógica.
Mas que vem a ser isso? Um acto de racismo? De xenofobia? Ou de puro desconhecimento do fenótipo diverso do mestiço?
Os tipos cabo-verdianos, e graças à nossa bela mestiçagem, podem variar do negro ao branco, passando pelo mulato, pelo mestiço de tez mais clara, ou mais escura, de olhos claros, ou não, de cabelos lisos ou crespos, já que a cor do cabelo pode ser artificial. Todos estes tipos, acontecem entre nós. As misturas dão tudo isso. Ou a senhora Agente não aprendeu isso?
Bem a troca de palavras chegou a tal ponto com a recusa da agente em considerar cabo-verdiana a minha sobrinha, que a determinada altura esta se desfez em lágrimas, porque se sentiu vexada e humilhada frente aos filhos, ao ser alvo de um acto de racismo e de discriminação totalmente gratuito.
 Terá sido pouca sorte ter sido atendida por uma desconhecedora do fenótipo cabo-verdiano? Ou são procedimentos ditados pela falta de informação/formação profissional?  É que para quem trabalha na polícia e, sobretudo, na fronteira o conhecimento do fenótipo cabo-verdiano é básico e elementar. Isto é, o aspecto visível, resultante da combinação entre os nossos traços hereditários e as condições do meio ambiente em que vivemos... E nesta conformidade o cabo-verdiano é portador de uma fenotopologia diversa. De Santo Antão à Brava passámos por todos os tipos.  Sempre tivemos e continuamos a ter, diversos tipos, as autoridades - por dever de ofício - deviam ser as primeiras a reconhecê-los.
Portanto, definir o cabo-verdiano, de forma definitiva e acabada pelo seu aspecto é um risco que só deve ser corrido com muita cautela e prudência para não ferir gratuitamente susceptibilidades.
Vou ainda contar de forma muito breve uma história que se passou com uma antiga aluna minha e boa amiga, natural da Praia; passada no aeroporto da Praia. Havia saído da sua cidade, um mês antes para férias nos Estado Unidos; regressada ao país foi também atendida por uma agente. Esta ter-lhe-ia questionado se ela era cabo-verdiana, ao que a minha jovem amiga retorquiu com humor para disfarçar a ira que queria tomar conta dela: “Senhora Agente, sou cabo-verdiana desde 1460... e acrescentou-me ela com graça: “...resta saber se ela percebeu o que eu quis dizer”. Como nota, adito que essa minha antiga aluna e amiga é uma mestiça de tez clara e cabelos lisos…
Comigo tem-se passado também algo estranho, saio e entro com frequência no aeroporto da Praia e ultimamente, invariavelmente, de cada vez que entro, apresentado o passaporte cabo-verdiano, sou perguntada há quanto tempo vivo na Praia. E a minha resposta tem sido: “há cinquenta anos e a senhora agente se calhar nem era nascida...”
Brincadeira, humor e indignação à parte, vamos instruir seriamente os nossos agentes que o cabo-verdiano é mestiço, e como tal pode-se encontrar um largo espectro de fenótipos, com diferentes tonalidades de tez, cabelos e cor de olhos. Assim feito, evitam-se situações que não só possam ferir susceptilidades na abordagem ao ser cabo-verdiano ou não, mas também configurar atitudes racistas, xenófobas ou de desconhecimento da sua própria História e da sua cultura.
Posso afirmar - da minha experiência  -  que nunca antes havia acontecido com tamanha frequência como agora, essas cenas na fronteira aeroportuária. De tal modo frequentes, que chego a questionar se será uma orientação recebida? um figurino a seguir? Não, não creio...
Ninguém está a pedir que os agentes tenham sempre um sorriso rasgado no atendimento de cada passageiro.  Não. Não se trata disso. O que  solicitamos encarecidamente, é que haja atendimento profissional - cortês, correcto, demonstrando conhecimentos  -  e não esta triste e inútil demonstração de falta de conhecimentos elementares.  
Será que a leitura do nosso documento de identificação de viagem – o passaporte – não diz nada ???...
Ora bem, há que encarar isso com espírito pedagógico. Isto é, precisamos de fornecer aos nossos agentes policiais, atendentes nos postos fronteiriços dos aeroportos nacionais, formação e informação sobre as origens e o cruzamento de raças que originaram o cabo-verdiano, mestiço na sua fenotopologia e mestiço na sua cultura. Esses são os nossos traços naturais.
Queremos e desejamos ter sempre a máxima consideração para com a nossa polícia fronteiriça para que ela possa com segurança  – possuidora de  informação e de conhecimento    desempenhar eficazmente, a nobre missão de que está imbuída.


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