Com a devida vénia à
autora, Professora Carmo Machado e à revista VISÃO, tomámos a liberdade de aqui
publicar o texto que se segue, por o assunto nele tratado, ser de uma importância
crucial na formação dos estudantes e que infelizmente, muitos de nós, ainda não
conseguiu realizar.
COMO
MATAR UM LEITOR
Carmo Machado
Ainda conseguimos fazer pequenos milagres com o "Amor
de Perdição", tendo em conta o enredo e a juventude dos protagonistas mas
as mais de setecentas páginas da obra "Os Maias" de imediato afastam
qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: - Stora, nem pense que eu vou ler
isso. E, na verdade, nem tentam
É assustador, enquanto professora de Português, assistir
diariamente à aversão da maioria dos alunos pela leitura. Por mais que
tentemos, por mais que nos esforcemos, conseguir que um aluno leia um livro
verdadeiro, à moda antiga, em papel, tornou-se uma verdadeira aventura. Quantos
aos outros, os digitais, parece ser ainda pior (enchem-me a memória do
telemóvel, stora, ou ainda, adormeço sempre que tento,
afirmam). Os livros de leitura obrigatória do Ensino Secundário em nada nos
facilitam a vida. Pode ser o imperador da língua portuguesa, como lhe chamava
Fernando Pessoa, mas os sermões de Padre António Vieira afastam, ano após ano,
os alunos da literatura portuguesa. Pode ter sido o grande impulsionador do
teatro em Portugal, depois de Gil Vicente, mas o drama romântico da Almeida
Garrett, Frei Luís de Sousa, em pouco contribui para despertar o
prazer da leitura nos adolescentes. Ainda conseguimos fazer pequenos milagres
com o Amor de Perdição, tendo em conta o enredo e a juventude dos
protagonistas mas as mais de setecentas páginas da obra Os Maias de
imediato afastam qualquer jovem leitor. E assumem, sem medos: – Stora,
nem pense que eu vou ler isso. E, na verdade, nem tentam.
Como preparar para a leitura, então? Se deixarmos de lado
alguns conteúdos programáticos, talvez consigamos tempo para, de forma
sistemática e consistente, criar momentos específicos, variados e frequentes
para os livros, permitindo aos alunos a (re)descoberta do prazer da leitura.
Mas se o fizermos, lá se vai o tempo para os restantes domínios que exigem ser
trabalhados. Assim, em que ficamos? Como criar nos nossos alunos o gosto pela
leitura é o grande desafio de um professor de Português nos tempos que correm.
Neste mundo em que vivemos, atolado em tecnologia, onde o
avanço científico galga a olhos vistos e a comunicação se torna de tal forma
global que quase nos perdemos no meio dela, ler e saber ler torna-se uma
ferramenta chave para o contacto com o mundo, com os outros. É do conhecimento
generalizado a dificuldade ao nível da capacidade de ler em grande parte da
população mundial. Esta crise da competência de leitura tem vindo num crescendo
na maioria das sociedades, colocando em cima da mesa um problema estrutural de
consequências graves.
Esta generalizada crise da capacidade de leitura leva-nos a
tomar consciência dos verdadeiros processos de aquisição para melhor instruir e
(re)educar os indivíduos no sentido de uma leitura funcional numa sociedade de
exigências crescentes de formação e de informação constantes. Dados recentes da
OCDE (2025) sobre as competências de leitura em Portugal mostram desafios
significativos na medida em que quase metade dos adultos (46%) com idades entre
os 25-64 anos conseguem compreender apenas textos curtos e simples. Há factos
preocupantes nesta matéria: cerca de 30% dos jovens de 15 anos apresentam
apenas níveis elementares de competências de leitura, verificando-se um
declínio na leitura por prazer. Por outro lado, os alunos portugueses
demonstram dificuldades específicas em extrair informação implícita, relações
lógicas e avaliação da linguagem.
Vários estudos têm comprovado que o hábito de leitura dos
pais se reflete na competência de leitura dos filhos e, por outro lado, que
raparigas e rapazes de contextos socioeconómicos mais elevados demonstram
melhores desempenho de leitura. Na verdade, no atual contexto de mudança quase
permanente em que vivemos, a leitura ganha cada vez mais uma função social e
económica, tornando-se indispensável no dia a dia do cidadão comum. É verdade
que a leitura se faz cada vez mais no ecrã e, neste contexto de informatização
generalizada, em que quilos e quilos de informação correm para vários destinos,
é fundamental dotar os alunos de ferramentas que lhe permitam selecionar,
armazenar e manipular a informação. Como conseguir isto sem o domínio de
competências de leitura?
A ausência de competências de leitura pode constituir uma
espécie de amputação mental no plano cognitivo mas, em boa verdade, estende-se
muito para além do cognitivo. Como afirma Morais (1997), “a leitura constitui
uma importante via de acesso às ideologias, aos sistemas éticos, a certas
formas de expressão emocional”, sem referir essa capacidade imperdível de
usufruir da arte em geral e da literatura em particular. A acreditar na frase
de Alberto Manguel (1996), de que “nós somos aquilo que lemos”, então estes
alunos virão a ser exatamente o quê?
Como fazer dos nossos alunos, leitores hábeis? Como
incentivá-los à leitura? Como mostrar-lhes que ler, saber ler, gostar de ler,
lhes desenvolve o vocabulário, a autoconfiança, a segurança e a sua capacidade
de integração no meio, escolar primeiro, social depois?
Quem souber responder, pode, por favor, ajudar-nos?
Referências Bibliográficas:
MANGUEL, Alberto (1996). Uma Historia da Leitura.
Editorial Presença, 1º edição.
MORAIS, José (1997). A Arte de Ler, Psicologia
Cognitiva da Leitura, Edição Cosmos, 1º edição.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos
autores. Não representam a VISÃO nem
In: Revista VISÃO de 5
de Março de 2026
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