O texto que se
segue é um comentário do Leitor José E. Cunha, reflexões feitas a propósito do
texto: “Crioulo versus português”,
aqui publicado em Fevereiro de 2010. Dado que não perdeu actualidade, uma vez
que se trata de assunto cada vez mais candente na sociedade actual cabo-verdiana, assim publicado, ganhará maior
visibilidade.
Começo por discordar do papel que sugere
para o Crioulo/Lingua Caboverdiana, mesmo se entendo os receios que estão na base
dos argumentos. Não devemos temer a paridade entre as duas línguas (nem que
seja para satisfazer os mais ortodoxos, que pretendem fazer desta questão uma
espécie de hooliganismo linguístico, transformados em talibans do crioulo),
desde que feita no tempo certo, da forma correcta, com a tranquilidade
necessária, mas sobretudo com base em experiencias no terreno (e não apenas por
smell teórico), estudos mais aprofundados, e instrumentos técnicos e teóricos
absolutamente necessários e indispensáveis. Precipitar esta matéria da forma
como se pretende, é um erro que só gerações futuras pagarão a factura, mesmo
que sinais de emergência apontem para a catástrofe linguística que se perfila
já no horizonte. O seu post aponta nesse sentido, com a delicadeza e a elegância
que lhe são peculiares, por isso que trago aqui este modestíssimo contributo.
Há alguns meses realizou-se na Associação Caboverdeana de Lisboa (ACV) um
debate sobre a questão da oficialização da Língua Caboverdiana, e aí foram
ditas algumas coisas importantes para este debate, algumas delas já repetidas
em outros fóruns, mas que não vejo refutadas, nem analisadas com a profundidade
que se impõe, tendo em conta a pertinência do assunto em causa. Para algumas
coisas mais incómodas parece que Lisboa ainda fica longe demais. O que
significa também, que apesar de tanta conversa, discussão, debates (uns mais
democráticos e abertos do que outros) não estamos a aprender nada, como se cada
fórum não passasse de uma espécie de válvula de escape das emoções em presença,
como se as posições estivessem tão extremadas que nenhuma aprendizagem seja já
possível, como se ninguém tivesse nada a prender com ninguém, numa total falta
de generosidade, numa irredutibilidade irracional de ‘tudo ou nada’, de ‘ou vai
ou racha’, de ‘é assim ou não é nada’, como se os caboverdianos tivessem
finalmente descoberto, e aberto, a sua Caixa de Pandora. Eis em 3 pontos do
que então se disse na ACV:
1- O reconhecimento unânime de que o Estado de Cabo Verde, ao contrário do que está plasmado na Constituição sobre a questão da língua, nada fez até agora do que a si próprio impôs como passos necessários para a oficialização. Atentemos: não temos um Dicionário Geral da Língua Caboverdiana; não temos um Dicionário Etimológico da Língua Caboverdiana; não temos um Dicionário de Sinónimos da Língua Caboverdiana; não temos uma Enciclopédia (de natureza Etno-Antropológica) da Cultura Caboverdiana; não temos um Instituto da Língua Caboverdiana; não temos técnicos, linguistas, sociolinguistas, historiadores da língua (nacionais e/ou estrangeiros, talvez porque não interessa), a produzirem trabalhos científicos e técnicos, de carácter prático e pedagógico, sobre os diferentes instrumentos possíveis ao nosso alcance, suas vantagens e desvantagens, que não se resumam ao ALUPEC, para que possa haver uma VERDADEIRA ESCOLHA, e não ficarmos por esta envergonhada imposição de um único modelo. Esta omissão do Estado Caboverdiano, para além de grave, criou uma falsa ideia de consentimento tácito, por alguns entendida por explícita, numa determinada direcção, com os equívocos que se conhecem, e com os resultados que saltam à vista.
1- O reconhecimento unânime de que o Estado de Cabo Verde, ao contrário do que está plasmado na Constituição sobre a questão da língua, nada fez até agora do que a si próprio impôs como passos necessários para a oficialização. Atentemos: não temos um Dicionário Geral da Língua Caboverdiana; não temos um Dicionário Etimológico da Língua Caboverdiana; não temos um Dicionário de Sinónimos da Língua Caboverdiana; não temos uma Enciclopédia (de natureza Etno-Antropológica) da Cultura Caboverdiana; não temos um Instituto da Língua Caboverdiana; não temos técnicos, linguistas, sociolinguistas, historiadores da língua (nacionais e/ou estrangeiros, talvez porque não interessa), a produzirem trabalhos científicos e técnicos, de carácter prático e pedagógico, sobre os diferentes instrumentos possíveis ao nosso alcance, suas vantagens e desvantagens, que não se resumam ao ALUPEC, para que possa haver uma VERDADEIRA ESCOLHA, e não ficarmos por esta envergonhada imposição de um único modelo. Esta omissão do Estado Caboverdiano, para além de grave, criou uma falsa ideia de consentimento tácito, por alguns entendida por explícita, numa determinada direcção, com os equívocos que se conhecem, e com os resultados que saltam à vista.
2-
Nesse encontro foi afirmado por duas professoras universitárias presentes, o
seguinte: uma jovem caboverdiana que esteve em Cabo Verde a leccionar
Sociologia até 2009 numa das nossas universidades, afirmou que a principal
dificuldade que sentiu junto dos alunos (a grande maioria) foi ao nível da
expressão escrita. Não entendia o que lia nos trabalhos e nos testes, tantos
eram os erros, de vocabulário, de expressão escrita, e de argumentação; no
mesmo sentido argumentou a académica portuguesa, creio que da Universidade
Clássica de Lisboa, que afirmou nunca ter encontrado alunos tão mal preparados
em Português como ultimamente, a ponto de, pela primeira vez, ter chumbado
alunos pelas mesmas razões apresentadas pela colega caboverdiana. Fiquei
envergonhado? Não! Nem surpreendido. Ouvira já a amigos, um deles um conhecido
intelectual caboverdiano, que assegurava, sem assombro, que ajudava
regularmente a corrigir teses, monografias, e trabalhos de fim de curso a
alunos universitários. Este estado de coisas não seria preocupante se não
estivéssemos a falar de alunos de “nível” académico superior. Se estes não são
sinais de alarme, o que é que são? Ou seja, a análise à qualidade do nosso
ensino, em particular ao ensino da Língua Portuguesa, como diz e bem V. Exa.
também é a nossa língua, é uma tarefa urgente. Se alguém pensar que este tema é
lateral à questão da oficialização da Língua Caboverdiana, não é. A não ser que
queiramos uma oficialização a brincar, sem tirar daí todas as consequências
práticas, ou seja, avançamos para a oficialização e depois logo se verá o que
acontece, logo se verá o que fazer com ela. Desenganem-se aqueles que pensam
que sou contra a oficialização do caboverdiano (tema risível, já que não
conheço nada mais democrático, generalizado, e ‘oficializado’ que a língua
caboverdiana a todos os níveis da nossa sociedade), nem contra o ALUPEC, de que
sou utilizador crítico. Sou sim contra todas as formas de dogmatismo, contra
atitudes precipitadas, contra medidas mal estudadas e mal analisadas, contra o
aventureirismo em matéria tão fundamental, contra o deficit de informação sobre
alternativas credíveis, e contra a irresponsabilidade de gente que não estará
cá no futuro para assumir as responsabilidades dos seus actos presentes.
3- O que então afirmei nesse dia na ACV em tom de síntese, e aqui reafirmo, é que há sinais preocupantes de que JÁ ESTAMOS A PERDER O PORTUGUÊS, ANTES MESMO DE GANHARMOS A LÍNGUA CABOVERDIANA. Os argumentos apresentados naquela reunião, outros aqui por si, outros ainda de forma avulsa em diversos jornais, são por demais evidentes, e concorrem para o que chamei, e chamo, de catástrofe linguística em curso, a curto prazo. A matéria desta discussão está ainda por fazer, e este é um assunto que exige, com urgência, estudos concretos no terreno (a análise às competências de alunos e professores, no domínio da Língua Portuguesa ao longo da cadeia escolar), que não fiquem pelas enganosas estatísticas quantitativas que conhecemos. O seu texto-testemunho, como membro da comunidade educativa, tem o fundamento técnico e a autoridade moral de quem sabe, e conhece, do que fala. Esta é uma realidade que a alguns preocupa sobremaneira, e que é perigoso ignorar, pelos efeitos devastadores de longo prazo, e pelo desastre intelectual e educacional que arrasta gerações. Gostaria de estar tranquilo. Mas não estou. Há demasiada cegueira e intolerância intelectual nesta questão da fixação de um alfabeto para a Língua Caboverdiana, transformada por estes dias numa ridícula feira de vaidades. Por isso reclamo que é urgente uma “autoridade” para a questão da Língua Caboverdiana, instituição que nos forneça, com distanciamento e objectividade, os instrumentos que necessitamos para o desejado salto qualitativo, e a aspirada evolução nesta matéria. um alfabeto aberto, que sirva a língua, que sirva os caboverdianos, que sirva Cabo Verde, que traduza com verdade e sirva com eficácia a cultura caboverdiana.
3- O que então afirmei nesse dia na ACV em tom de síntese, e aqui reafirmo, é que há sinais preocupantes de que JÁ ESTAMOS A PERDER O PORTUGUÊS, ANTES MESMO DE GANHARMOS A LÍNGUA CABOVERDIANA. Os argumentos apresentados naquela reunião, outros aqui por si, outros ainda de forma avulsa em diversos jornais, são por demais evidentes, e concorrem para o que chamei, e chamo, de catástrofe linguística em curso, a curto prazo. A matéria desta discussão está ainda por fazer, e este é um assunto que exige, com urgência, estudos concretos no terreno (a análise às competências de alunos e professores, no domínio da Língua Portuguesa ao longo da cadeia escolar), que não fiquem pelas enganosas estatísticas quantitativas que conhecemos. O seu texto-testemunho, como membro da comunidade educativa, tem o fundamento técnico e a autoridade moral de quem sabe, e conhece, do que fala. Esta é uma realidade que a alguns preocupa sobremaneira, e que é perigoso ignorar, pelos efeitos devastadores de longo prazo, e pelo desastre intelectual e educacional que arrasta gerações. Gostaria de estar tranquilo. Mas não estou. Há demasiada cegueira e intolerância intelectual nesta questão da fixação de um alfabeto para a Língua Caboverdiana, transformada por estes dias numa ridícula feira de vaidades. Por isso reclamo que é urgente uma “autoridade” para a questão da Língua Caboverdiana, instituição que nos forneça, com distanciamento e objectividade, os instrumentos que necessitamos para o desejado salto qualitativo, e a aspirada evolução nesta matéria. um alfabeto aberto, que sirva a língua, que sirva os caboverdianos, que sirva Cabo Verde, que traduza com verdade e sirva com eficácia a cultura caboverdiana.
Melhores cumprimentos.
José
E. Cunha