domingo, 5 de março de 2023

 Com a devida vénia ao seu autor, tomei a liberdade de aqui transcrever um Artigo interessante sobre «Língua materna» e o caso da Língua portuguesa em Angola.

Português, uma das línguas maternas de Angola

28 Fevereiro 2023 — 

João Melo

Na passada terça-feira, 21 de fevereiro, foi assinalado o Dia Internacional da Língua Materna. A ideia de comemorar essa data foi iniciativa do Bangladesh, onde o 21 de fevereiro é o aniversário do dia em que o povo desse país (então Paquistão Ocidental) lutou pelo reconhecimento da língua bangla. Anunciado pela primeira vez pela Unesco em 1999, foi reconhecido formalmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2002. Cinco anos mais tarde, o mesmo órgão esclareceu que a instituição do Dia Internacional da Língua Materna faz parte de uma iniciativa mais ampla "para promover a preservação e proteção de todas as línguas usadas pelos povos do mundo". Em suma, trata-se de promover a diversidade linguística e cultural da humanidade.

A definição técnica de "língua materna" é que é o primeiro idioma falado por um indivíduo. À primeira vista, isso pode querer dizer que se trata da língua falada e transmitida pela mãe de cada um e que, além disso, a mesma corresponde à língua dominante na região onde cada um cresce. Trata-se, contudo, de duas falsas coincidências.

É um facto que, em princípio, a maioria de nós começa a falar em casa e que, além disso, a primeira pessoa com quem os recém-nascidos e as crianças se comunicam é com a mãe. Porém, nem sempre esta lhes transmite a sua própria língua materna. Na verdade, os pais podem, por razões variadas, usar outra língua que não a sua língua materna para se começarem a comunicar com os seus filhos em casa.

Por outro lado, mesmo quando os pais usam a sua língua materna para começarem a falar com os seus filhos, essa língua pode não coincidir com a língua dominante no país ou na região onde a família viva (pode ser de outra região ou mesmo de outro país), devido, por exemplo, ao fenómeno das migrações, internas ou externas.

Em Angola, vivemos as duas situações. A mais conhecida e comentada é a expansão da língua portuguesa como língua materna de muitos angolanos, o que é explicado pela História: em determinadas regiões do país, mais expostas secularmente à colonização portuguesa, as nossas avós não transmitiram as respetivas línguas maternas aos nossos pais, os quais, por conseguinte, não as aprenderam nem puderam transmiti-las aos seus filhos (isto é, as pessoas da minha geração), o que acaba por influenciar também as gerações mais novas. Entretanto, também podem ser encontrados exemplos da outra situação a que me referi, isto é, a língua materna, mesmo sendo uma língua originariamente africana, não coincidir com a língua principal da região onde os indivíduos e as famílias vivam.

Só para dar um exemplo pouco referenciado: a política de umbundização promovida pela UNITA durante a guerra civil ou o fenómeno de umbundização de certas áreas do interior de Angola, fruto das migrações internas, podem ser interessantes casos de estudo.

O censo levado a cabo em Angola em 2014 assinala que o português é a primeira língua falada em casa por mais de 60% dos inquiridos, taxa que coincide, sensivelmente, com o índice de urbanização do país. Os especialistas talvez tenham de dizer-nos se "primeira língua falada em casa" (por qualquer razão) é sinónimo ou não de "língua materna". Certamente para esclarecer essa dúvida (?), a Academia Angolana de Letras e Ciências Sociais quer introduzir no próximo censo, previsto para breve, uma questão específica sobre o uso das línguas maternas.

Números à parte, a constatação é mais do que óbvia: há várias línguas maternas em Angola - e o português é uma delas. Parece, pois, igualmente óbvio que são necessárias políticas consistentes de articulação e cooperação entre as diferentes línguas faladas no país. Contudo, o debate sobre o assunto continua prisioneiro de paixões, ausência de definições constitucionais mais ousadas ("fora da caixa"), critérios de duvidosa cientificidade, falsas autenticidades e espírito belicoso, que apenas reforçarão o caos linguístico existente. Isso pode ser bom para nós, escritores, mas não o é para a educação, a administração e a comunicação.

Escritor e jornalista angolano

In: «Diário de Notícias»

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

 

Por ter achado oportuna e bem fundamentada - neste Editorial de Humberto Cardoso do Jornal «Expresso das Ilhas» - a temática sobre as Línguas de Cabo Verde, aqui se publica para o Leitor , na parte que interessa.

 

 

Desafiar mitos para se chegar a um futuro democrático[i]

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Sem conhecimento integral da real história do país, recursos que podiam ser capitalizados para o desenvolvimento não são reconhecidos, alertas quanto aos percalços de desenvolvimento num país pequeno e arquipelágico não são escutados e conflitos artificiais podem ser criados. Neste particular, o conflito que se instalou entre o crioulo e a língua portuguesa é o exemplo de como às enormes dificuldades de um país como Cabo Verde se pode somar artificialmente mais um entrave ao seu desenvolvimento. Todos os cabo-verdianos falam o crioulo e pelo seu uso em cerimónias oficiais e momentos solenes pelo presidente da república, pelo governo e pelos deputados vê-se que não é ameaçada nem ostracizada.

A cabo-verdianidade, porém, não é expressa somente em crioulo como comprova todo o espólio literário que foi instrumental para a emergência da consciência da nação e que na sua quase totalidade resulta do uso criativo do português. Se conflito existencial entre as duas línguas não se verificava antes, não se compreende que quase cinquenta anos depois e com toda a gente a falar crioulo o presidente da república se sinta na necessidade de declarar que “N ta ben sta na linha di frénti di konbáti pa ofsializason plénu di nos Kriolu”. O posicionamento do PR levanta uma série de questões. Para começar no sistema constitucional cabo-verdiano só os deputados têm iniciativa em matéria de revisão constitucional. Sendo representante da unidade da nação e guardião da Constituição vigente não se vê como é que o PR vai ser parte no debate público e proceder para influenciar deputados que também representam os partidos no parlamento. Por outro lado, se houver revisão constitucional e qualquer que for a direcção tomada pelo legislador constituinte o PR não pode recusar a promulgação das leis de revisão (Artº 291 da CRCV).

De facto, nas circunstâncias e nos termos em que se referiu, o posicionamento do PR foi desnecessário: o crioulo só ainda não é oficial porque não se consensualizou uma versão estandardizada e escrita e desde de 1999 que há um comando constitucional a obrigar o Estado a criar as condições nesse sentido. Também foi pernicioso porque, pela linguagem utilizada, alimenta-se a conflitualidade linguística com consequência para disposição dos alunos em aprender o português e serem proficientes na língua oficial do país enquanto cidadãos plenos. Uma conflitualidade que não se pode negar considerando a hostilidade dirigida por certos sectores contra a Escola Portuguesa de Cabo Verde porque procura fazer o óbvio que é criar um meio imersivo para mais rápida aprendizagem da língua e suprir o facto que praticamente fora da escola só se fala o crioulo.

Neste início do segundo ano da guerra na Ucrânia, em que incertezas e imprevistos toldam a imagem do que pode vir à frente, o foco devia estar em conduzir o país com base segura, sem realidades ficcionadas, e pôr a democracia a funcionar de forma a encontrar soluções duradoiras para os problemas de desenvolvimento. Humildade, competência e procura da verdade deviam caracterizar a actuação dos actores de forma a se diminuir os conflitos e, com confiança e solidariedade se enfrentar os grandes desafios que o país tem para frente.



[i] Humberto Cardoso in “Expresso das Ilhas” Nº 1109 de 1 de Março de 2023 (Editorial)

 

Proibição do Crioulo ou Recomendação do Português?

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Tenho seguido em conversa rigorosamente de café, no caso no “Nhô Eugénio” que frequento regularmente, – felizmente que há muito que deixei de ler artigos sobre o assunto – uma polémica à volta de uma eventual “proibição” de falar outra língua que não o português, na circunstância o crioulo, entre os alunos da Escola Portuguesa de Cabo Verde, pelo menos no espaço restrito da Escola. Não descortinei qualquer problema no assunto e fiquei deveras surpreendido com a dimensão da polémica. Daí, ou melhor, daqui a minha surpresa; e esta apoia-se nos pressupostos seguintes:

1.  1.Será que a medida tomada vai ao arrepio dos objectivos pedagógicos da Escola e, consequentemente, prejudicial aos alunos? Esta seria a minha preocupação primeira: Se os alunos são, de algum modo, prejudicados com a medida. Nessas discussões, alguém com conhecimentos nesta matéria, lembrou que o método que possivelmente usa a Escola Portuguesa no ensino do português, é o método vulgarmente chamado de “banho imersivo” dos alunos na aprendizagem de uma língua viva, segunda ou estrangeira, isto é, elimina-se à volta dela qualquer interferência de outra língua, ainda que seja a Língua nacional, para que o aprendente  possa interiorizar e automatizar no fim da aprendizagem a língua ensinada, no caso  em  foco,  a Língua portuguesa.

2.  2.Ter em conta que a Escola Portuguesa é, para Cabo Verde, um estabelecimento de ensino privado, com o seu programa e com objectivos bem definidos entre os quais, – não sei se expressos nos Estatutos, – o fomento e a promoção da Língua portuguesa. Deste modo só a frequenta quem quer, e aquele que o fizer terá de se cingir aos seus objectivos e métodos desde que os mesmos não sejam inconstitucionais ou contrários às leis do País. 

3. 3. Outrossim, a recomendação – trata-se de uma recomendação pedagógica e não de uma proibição, – há anos que vem sendo praticada pelos estudantes do “Les Alizés” com o francês e, neste caso, mais me parece que tenha havido uma ufania, uma vanglória, na apresentação deste procedimento da parte dos pais e encarregados de educação dos estudantes que frequentam esse estabelecimento de ensino francês do que uma condenação ou repúdio como agora acontece com o português. 

4.   4. Que indivíduos da geração pós-independência – são eles os pais ou encarregados de educação dos alunos – a geração mais escolarizada e qualificada que Cabo Verde alguma vez já teve, sejam ainda, na era da globalização, reféns de um nacionalismo serôdio e em muitos aspectos retrógrado, que eu pensava ter ficado pela minha geração… 

5.  5. Pensar, depois de quase 50 anos de independência que se trata, ou poderia tratar-se, de uma retoma de práticas “coloniais” de um Portugal inquestionavelmente de Liberdade e Democracia, só pode resultar de uma ignorância total do Portugal de hoje, de um exercício de má-fé ou de falta de um mínimo de conhecimento do ensino de língua (segunda ou estrangeira) não materna ou de algum problema mais profundo muito mal resolvido.

6. 6. Isto quando muitos dos nossos mais acérrimos “nacionalistas” já têm duas ou três nacionalidades – uma delas, seguramente, portuguesa – que tanto negaram aos seus concidadãos que viviam na emigração.

7.  7. Ter sempre presente que se trata de uma Escola Portuguesa!!! Não uma Escola Pública cabo-verdiana. Uma Escola orientada prioritariamente para os portugueses que vivem na emigração e para a promoção da Língua portuguesa. A sua escolha, por parte de cabo-verdianos não é obrigatória nem imperativa. Ou não seria assim, se a Escola fosse na Arábia Saudita, no Quénia ou no Senegal?

Não se compreende a polémica e a sanha que sucedem com o ensino da língua portuguesa em Cabo Verde. Se calhar, é por este acantonamento, que no Brasil, um país de língua portuguesa, se exige ao estudante cabo-verdiano a prova do domínio da língua portuguesa e que em Portugal muitos conterrâneos são preteridos na procura de empregos em relação a outros da CPLP. Conheço vários casos confessos. 

Mas, o mais interessante de tudo isto é que os mais exacerbados polemistas são todos indivíduos que bem dominam – e, muitos vivem, ou já viveram, quase que exclusivamente desse domínio, – a língua portuguesa.  Pode não ser intencional, mas resulta seguramente num método muito eficaz para reduzir drasticamente ou mesmo extinguir uma virtual (ou real) ameaça da concorrência.

O Governo bate palmas. A polémica vem mesmo a calhar: Enquanto se dissipam energias na discussão deste (não) assunto, esquecem-se os sérios e importantes problemas que o país enfrenta com a má qualidade do nosso ensino e com a oferta indigente da Escola pública nacional cuja contínua decadência constituiu uma das principais razões da instalação da Escola Portuguesa decorridos mais de 40 anos da Independência Nacional.

E, não há dúvidas que o êxito, o sucesso declarado e reconhecido da Escola Portuguesa de Cabo Verde - Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPCV-CELP) vem seguramente incomodando muita gente!...

É claro que não defendo que aqueles que não consideram a recomendação (ou mesmo “proibição” pedagógica) pertinente e benéfica que retirem os seus filhos ou educandos dessa Escola, mas sim, que promovam uma reflexão pedagógica sobre o assunto de onde resultem propostas alternativas, pelo menos, de igual eficácia. Seria uma reforma e, presumivelmente, a Escola agradeceria!!!

A.     Ferreira


Foi a brincar… o Carnaval?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

 



Na Quarta-feira de Cinzas, recebi uma mensagem da minha irmã mais nova, que me perguntava: “quando é que vestir de Mandinga no Carnaval, vai virar politicamente incorrecto?” (sic)

Por sinal, este assunto já mereceu um pequeno texto neste blog há já algum tempo.  Além disso, o escritor angolano Eduardo Agualusa já havia revelado também o seu espanto (leia-se: a sua indignação pelo facto).

Porém, podem trazer as justificações que quiserem, e acharem por bem, mas que não é correcto, já não é! Até, atendendo aos valores que mais tarde abraçámos e que dizem respeito à forma como hoje encaramos o Continente africano. Estamos em pleno século XXI os valores serão outros e o convívio com culturas e com povos diferentes deverão basear-se no respeito mútuo.

Na minha opinião, ao se proceder assim pelo Carnaval, poderá revelar e significar uma grande falta de respeito por uma etnia populosa, um grupo humano, transnacional que vive na Guiné-Bissau, na Guiné-Conacri, no Níger, no Senegal, no Mali, no Burkina Fasso, entre outras regiões do Continente africano. E mais, alguns imigraram para Cabo Verde. Estão cá, vivem entre nós, em número assinalável, vêem e possivelmente, sentir-se-ão magoados por um grupo carnavalesco os caricaturar. Acham bem? Que gozemos connosco mesmos, com os das ilhas, até é bom, é salutar, e revela inteligência! Façam isso. Agora, coisa outra e bem diferente é “gozar” com uma comunidade estrangeira e que está ainda por cima, entre nós a viver imigrada nas ilhas.

Daí ter sido pertinente, a pergunta da minha irmã:  “Quando é que vestir de Mandinga no Carnaval, vai virar politicamente incorrecto?”

 Uma situação que também foi igualmente criticada - como já aqui referi - na frase bem achada de Agualusa que terá dito, algo aproximado, quando assistiu ao desfile dos blocos de Carnaval no Mindelo: “Negros, pintados de preto" e a troçar do mandinga? Já não me recordo exactamente das palavras proferidas pelo escritor, (Li-as num livro de Crónicas do escritor, intitulado «Paraíso e Outros Infernos» há já algum tempo) mas terá sido com esse sentido, a imagem por ele definido.

Bem sei que o não fazem conscientemente, por mal. Na realidade, em São Vicente, houve um facto, que levou ao aparecimento deste bloco carnavalesco.

Conta-se que na década de 40 do século XX, terá passado por Mindelo, a bordo de um dos barcos que à época fazia a carreira – Bissau – Praia – Mindelo – Funchal e Lisboa, um grupo de guineenses da etnia mandinga que viajava para Portugal, com a finalidade de ser apresentado naquela que foi a grande Exposição do “Mundo Português” em 1940 e que decorreu em Lisboa.

Ora bem, - vamos imaginar o que terá acontecido - os integrantes do grupo desembarcaram com a sua vestimenta tradicional e terão percorrido a cidade do Mindelo, alguém, um local, tê-los-á observado e terá tido a ideia de gozar com eles, naquele jeito que era bem mindelense de tudo, ou quase tudo caricaturar, mascarando pelo Carnaval um grupo. Acredito que na altura  deve ter tido muita piada.

Deste facto terá ficado a tradição de, anualmente, e durante os festejos carnavalescos, desfilar o bloco dos “Mandingas”, mas já é mais do que tempo de se atinar no significado disso, à luz da actualidade, ou seja, de se pensar que fazendo isso se pode estar a ofender uma comunidade viva.

Pois bem, todos sabemos que o Carnaval é uma festa para brincar, para se satirizar, troçando de factos do quotidiano, de assuntos sociais na moda, e de fazer galhofa com figuras políticas ou históricas, antigas e actuais e Mindelo sabe fazê-lo, para além dos belíssimos desfiles de foliões e das alegorias  a que já nos habituou  entre outras formas de brincar ao Rei Momo que é o Deus da sátira e do riso. Bem-haja o Carnaval!

 Mas passados 83 anos, e tendo em conta que Cabo Verde comunga hoje de outros valores e que possui um outro olhar sobre o Continente africano, não devia caricaturar - ainda que seja naquela toada de que “é Carnaval não se leva a mal” - uma comunidade, da qual, parte dela encontra-se imigrada neste Arquipélago.

Sei que é uma opinião, e que vale exactamente apenas isso. Outros, analisarão e abordarão o facto de maneira diferente.

 

 

 


Quem Guarda a Cidade?...

sábado, 18 de fevereiro de 2023

 

Sim, é isso mesmo o que me pergunto: Quem Guarda a Cidade? Quando não vejo “guarda” algum, leia-se polícia na rua, no Bairro, aquele polícia que se chamava antigamente,” polícia de giro,” (de ronda pelas ruas) e, ao invés disso, o que vejo mesmo – e creio que toda a gente a vê - é a impunidade do ladrão, do assaltante que manda na cidade da Praia.

Abro aqui um pequeno parêntesis para esclarecer que o que pretendi com o título que encima o texto, foi o de parafrasear a célebre parábola de Salomão, no versículo que diz mais ou menos isto: “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” Qual a relação deste versículo com o conteúdo deste escrito? Mutatis mutandi e com o devido respeito à palavra bíblica e ao seu alcance que é outro e é religioso, diria que se fôssemos minimamente bem defendidos pela nossa Polícia, a cidade capital seria outra. Seria talvez, um pequeno paraíso para se viver…

 Mas ao contrário, o que vivenciamos nós, os residentes da cidade da Praia no dia-a-dia, denomina-se: Medo. Medo de sair à rua e ser assaltada à porta de casa ou, no virar de esquina; medo de estar em casa e os assaltantes entrarem, derrubando todas as defesas - grades, arame farpado, fechaduras, alarmes, câmaras, muros altos circundantes entre outras formas de defesa - a que fomos obrigados a acrescentar à nossa residência, estragando-lhe toda a estética – e que de segurança apenas nos dão uma ténue ilusão.

O medo habita na nossa mente. O medo tomou conta de nós e expressa-se em cada movimento que fazemos quer seja em casa, quer seja na rua.  É este, infelizmente, o quotidiano do residente da cidade.

Mas pior do que isso tudo, é a impressão com que se fica  de que o ladrão aqui na Praia, está e sente-se à-vontade nas ruas da cidade, pois que se considera “dono e senhor” delas. De facto, nós os residentes, suas vítimas, não vislumbramos polícia algum,quando somos assaltados. Aliás, só iremos ter o privilégio de os ver - os agentes - horas depois do roubo feito, de longa espera na polícia para materializar a queixa  e do bandido se ter banqueteado e rido à custa, não só da polícia que ele sabe  que nada descobre, mas também, de nós, os espoliados. E quando digo que nada descobre, falo com conhecimento de causa; a minha residência e a da minha filha juntas já foram assaltadas mais do que meia dúzia de vezes e a taxa de sucesso na procura do ladrão e dos objectos roubados, é zero. Nunca apareceu um singular objecto roubado. Reitero a afirmação, uma vez que apresento queixa formal todas as vezes, sem nunca ter falhado uma. Tenho ido à Esquadra, embora saiba de antemão de que não vai resultar em nada. A minha contribuição será apenas para a estatística. E espero que figure quando, um responsável governamental ou outrem, apresentar contas no Parlamento não diga que a criminalidade na Praia diminuiu. Não, ela não diminuiu. Bem pelo contrário a percepção que temos é que a onda de assaltos às pessoas e às casas vêm crescendo, dia após dia e com mais violência - leia-se o que sobre isso denuncia o Provedor da Praia, com uma frequência a todos os títulos indesejável. 

De facto, o que tem diminuído são as queixas (estatisticamente) uma vez que o processo policial conjugado com a expectativa de sucesso não é apenas um autêntico convite à desistência e ao silêncio, mas um forte apelo à inacção e à resignação da vítima.  Acresce-se a tudo isto o facto da vítima, a quem foram subtraídos objectos, alguns até de alto valor afectivo,  seja incomodada − o ladrão já gozou da sua “safra”, continua impune e seguro a farejar a próxima casa para assaltar - com uma intimação em termos violentos − sob ameaça de que se não comparecer na Procuradoria da Comarca, será detida, multada num valor que pode chegar a dezenas de contos −   para ser ouvida por um Procurador, no dia tal, às tantas horas. Bem sei que me dizem que se limitam a copiar os termos e a linguagem que vêm exarados no Código Penal. Mas convenhamos, tratar a vítima como um criminoso? Não haverá por aí um teor menos ameaçador e intimidante para quem já foi espoliado no seu património? …

Tudo isto em termos que mais sugerem de que o transgressor foi o queixoso e não quem violou a residência para roubar, é que cometeu um crime. Como escreveu o poeta Augusto Gil: “que quem já é pecador, sofra tormentos, enfim! //mas as crianças (neste caso, substituir “as crianças” por: vítimas dos roubos) Senhor porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim? (…)”

 E o ladrão? Será que a polícia o procurou? Onde pára ele? … os pertences a esta altura já não existem. Estarão seguramente nas mãos dos receptadores desconhecidos pela Polícia numa cidadezinha com a dimensão e a população da nossa Praia.

Ou não será isso, enviar os processos, contra desconhecidos para a Procuradoria, um estratagema para serem evitadas queixas sobre furtos e assaltos?

 Nos termos em que é feita a notificação judicial, é-se levado a assim pensar – redução estatística das queixas, iludindo e contrariando a realidade.

É neste quadro que se propala o desenvolvimento do turismo. Será mesmo que querem turistas a visitar-nos? Como? Se o cartão de visita mais visível ou o mais percepcionado que temos para lhes apresentar, são os meliantes que assolam a urbe num perfeito à-vontade?

E para terminar este pequeno desabafo de grande indignação, registar uma informação que não parece de todo, despiciente: a Procuradoria da Comarca da Praia, onde trabalham  cinco Procuradores, segundo ouvi dizer, cada um deles já tem à sua jurisdição cerca de 6 mil processos contra património, isto é, sobre roubos e assaltos a residências e outros locais da cidade. Ora, cerca de 6 mil processos neste início de ano ainda, já perfazem 30 mil. Soube também, que no ano passado, tiveram no final do ano, à volta de 43 mil processos contra património, roubos e assaltos nesta nossa urbe. Logo, tudo indica que a criminalidade não dá mostras de diminuir, pelo contrário, volto a repetir, está num crescendo desesperante para os moradores.

 

 

 

 

 

 

Uma língua também ao serviço da paz[i]

quinta-feira, 5 de maio de 2022

 Por João Ribeiro de Almeida[ii]

Festejar uma Língua, na passagem de mais um 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa (DMLP), é também refletir sobre a melhor forma de a potenciar, divulgar e ensinar e de a pôr, cada vez mais, ao serviço das comunidades, seja daquele grupo já de si com ligações ao universo da lusofonia, os portugueses e lusodescendentes espalhados pelo mundo ou os cidadãos da CPLP, seja disponibilizando ferramentas adequadas e suficientes para todos aqueles que dela se acercam pela primeira vez ou que a queiram estudar de forma mais estruturada e profunda, nos diversos níveis e modalidades de ensino. E hoje, o português é já ensinado em 76 países, em cinco continentes.

Tendo o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua (Camões I.P.) como um dos vetores da sua missão a promoção em sentido amplo da Língua Portuguesa (LP) no plano externo, em articulação com as nossas redes diplomáticas e consulares e com o concurso ativo das diferentes estruturas do Camões I.P. no mundo, nomeadamente, das coordenações de ensino (11 em 18 países), dos centros culturais (19), dos leitorados (51), das cátedras (perfizemos no final de 2021 as 60 em todo o mundo), dos centros de LP (83) e da rede de docentes por nós apoiados em 303 universidades espalhadas pelo mundo, é com júbilo, mas também com especial responsabilidade, que vemos chegar esta data de 5 de maio, dedicada pela UNESCO (em finais de 2019) ao nosso idioma, consagrando-lhe um Dia Mundial.

Tratou-se da primeira vez, nunca será demais referi-lo, que o sistema das Nações Unidas aceitou “atribuir” um dia mundial a uma língua que não é (ainda) idioma oficial do organismo, se bem que o português já seja língua de trabalho em diversas instituições onusianas.

Por outro lado, é absolutamente necessário que multipliquemos esforços conjuntos com todos os parceiros da CPLP para melhor otimizar a nossa língua em cada canto do mundo e para melhor cooperarmos em países terceiros em prol do nosso idioma. Foi precisamente a circunstância de falarmos um idioma comum que esteve na génese da criação desta comunidade e esse deve constituir motivo para nos organizarmos para melhor a promover, fomentar e salvaguardar. Como língua pluricêntrica que é, o português está em especiais condições, até geoestratégicas, para contribuir para os consensos, para a construção de pontes e assim estar ao serviço do diálogo e da paz, sobretudo nos conturbados e preocupantes momentos por que passamos.

Se observarmos bem, não existe qualquer continuidade territorial entre cada um dos estados-membros da CPLP, ou seja, não há fronteiras terrestres entre países desta comunidade, pelo que foi o mar que levou a língua a todos e a cada um desses territórios (todos eles, por sua vez, também costeiros) e foi esse ativo comum que depois nos uniu. Esse mar que faz parte do nosso código genético e que foi absolutamente determinante na difusão e multiplicação da LP. Refiro isto a dois meses da realização em Portugal de uma importante Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, sabendo quanto os oceanos foram instrumentais para a difusão da nossa língua, como foram aliás determinantes para moldar a nossa vida coletiva em muitas outras vertentes.

E aqui chegamos a um ponto que julgo de suma importância: tornar a LP cada vez mais uma língua de ciência e de conhecimento, de investigação e de saber. Numa altura em que, por exemplo, a produção e a publicação científica estão, de sobremaneira, dominadas pela língua inglesa (e, lamentavelmente, tenho de o dizer, alguns estabelecimentos de ensino superior do universo CPLP contribuem para isso, impondo muitas vezes essa língua aos seus estudantes, graduados ou doutorandos para os seus trabalhos), cabe-nos a todos refletir sobre a melhor forma de potenciar a LP neste importante e muito competitivo universo do conhecimento. São aí importantes todos os contributos destinados a reforçar a presença da LP em publicações internacionais de referência e em revistas científicas de alcance global e acesso aberto, do mesmo modo que o são aqueles que se destinem a reforçar a presença da LP na internet (onde já é a mais falada no hemisfério sul, pelo que temos pergaminhos nessa matéria). Uma e outra constituem áreas indispensáveis, até para construirmos (ou pelo menos contribuirmos) para um mundo melhor. Formar melhores e mais bem informados cidadãos também é uma prioridade dos agentes de divulgação de qualquer língua e o português tem de estar ao serviço da cidadania e, portanto, num combate permanente contra o obscurantismo, lutando contra todos os tipos de populismos e intolerância. Infelizmente, uma língua também poderá ser instrumento de disseminação destas realidades.

A Língua Portuguesa é um ativo global. Os indicadores são conhecidos: é uma língua hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes (em 2100 serão mais de 500 milhões, segundo estimativas das próprias Nações Unidas, com um crescimento impressionante em África), o que equivale a 3,7% da população mundial.

Uma língua ao serviço dos cidadãos. Uma língua dinâmica, para aproximar povos e comunidades (hoje já é língua oficial e/ou de trabalho em 32 organizações internacionais e está num crescendo também nesta vertente, reflexo igualmente do primado do multilateralismo nas nossas relações internacionais), sem esquecer nunca a interação fundamental com as comunidades portuguesas e lusodescendentes, sobretudo na Europa, América e África.

A Língua Portuguesa é um ativo global. Os indicadores são conhecidos: é uma língua hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes (em 2100 serão mais de 500 milhões, segundo estimativas das próprias Nações Unidas, com um crescimento impressionante em África), o que equivale a 3,7% da população mundial. As nove economias da CPLP, em conjunto, valem cerca de 2,7 biliões de euros, o que faria deste grupo a sexta maior economia mundial, se se tratasse de um só país (FMI). Os países com idioma oficial português representam 3,6% da riqueza total do mundo, 5,48% do global das plataformas marítimas, 16,3% de disponibilidade global de reservas de água doce (10.8 milhões de km2) e isto são apenas alguns dados que espelham bem como a LP pode também ser um instrumento de paz em sentido amplo que inclua vertentes incontornáveis como a proteção ambiental, a árdua luta contra as alterações climáticas (somos todos, os de língua portuguesa, países costeiros e alguns insulares, portanto bem mais vulneráveis ao aumento do nível do mar, por exemplo), a favor da economia circular e cada vez mais verde, etc.

Temos, pois, como desígnio comum cuidar cada vez mais da nossa língua e da sua internacionalização. Todos somos chamados a cumpri-lo e não apenas o Camões IP e/ou a CPLP. Cada um de nós, no nosso dia a dia, pode estar ao serviço desse objetivo pelo simples facto de falar, de comunicar, de escrever, de criar e reforçar sociabilidades que nela assentem, seja nas relações interpessoais, seja no plano digital.

E é isso que importa continuar a fazer. A tornar a língua portuguesa uma grande língua de comunicação internacional, com a qual o mundo conta para se construir e se reinventar de uma forma positiva e inclusiva.

 



[i] In “Diário de Notícias” de 05.Maio.2022

[ii] Embaixador

Presidente do Conselho Diretivo do Camões IP – Instituto da Cooperação e da Língua

5 de Maio Dia Mundial Da Língua Portuguesa

 

Eu te saúdo! Minha bela e rica Língua! Por tudo o que me tens dado.

 Através de ti fui alfabetizada, cultivada e comecei a entender-me a mim, o mundo e a respeitar o outro diferente.

Contigo viajei - através de leituras – por continentes, por países e por sítios longínquos. Por culturas e por civilizações antigas e remotas.

Nunca será de mais agradecer-te minha rica e famosa Língua, pelo gosto de conhecer e de saber que me transmitiste e que me vens transmitindo.

Graças a ti disfrutei e continuo a disfrutar de livros fabulosos e de leituras maravilhosas, ao longo do tempo!

Eu te saúdo minha amada Língua portuguesa pela poesia que em ti encerras e que a dás a conhecer tão generosamente a todos que apreciam a língua e a linguagem metaforicamente transfiguradas e sonhadoras!

Contigo me trenei e aprendi a gostar da linguística, da meta-semântica, da sociolinguística, dos dialectos e dos idiolectos; dos provérbios e dos ditados.

Através de ti mergulhei no mundo maravilhoso da literatura, da para-literatura, das ciências; eu sei lá!...tantos e tão diversos e infindáveis conhecimentos, saberes e experiências, que através de ti se alcançam!

Contigo também me tornei profissional. Sobre ti, minha bela Língua, tenho tentado - aqui nas ilhas, ao longo dos anos, e com as ferramentas de que disponho - que te amem como mereces, que te considerem como pertença natural de Cabo Verde, dos cabo-verdianos, e que te façam expandir no universo da comunicação escrita e oral dos falantes destas nossas ilhas.

Por tudo isto te estou imensamente grata!

Reiteradas felicitações pela Língua global e mundial em que te tornaste!

Eu te saúdo! Minha amada Língua!