Guiné-Bissau: 44 anos depois, 44 partidos e a independência que ainda não aconteceu

segunda-feira, 24 de setembro de 2018




Por se tratar hoje, de uma data marcante para a Guiné-Bissau, segue  -  com a devida vénia aos seus autores e ao jornal Público - um texto alusivo a esta data. 

Por  Braima Mané e Inácio Semedo*

1.Hoje, 24 de Setembro, dia apelidado de “vitorioso” por alguns, vão-se multiplicar cerimónias oficiais com declarações solenes e festas para celebrar a independência da Guiné-Bissau — que é neste momento o país mais atrasado de África e, consequentemente, do mundo.
Temos a palmilhar o nosso chão pátrio um milhão e quinhentas mil almas, divididas entre pobres e miseráveis. São excepção uns duzentos ou trezentos iluminados que nos têm mantido na mais completa servidão, numa nova forma de colonização bastante peculiar e cínica, porque é levada a cabo por quem deveria estar na primeira linha de defesa do povo.
Em 44 anos de “independência”, o Estado não foi capaz de cumprir com as suas funções essenciais para o bem comum: prover educação, saúde, assegurar segurança e justiça. Na educação, há toda uma geração que concluiu o ensino liceal que não sabe escrever nem falar correctamente o português, em resultado de greves sistemáticas desde os anos noventa e da falta de formação adequada dos próprios professores. Na saúde, a situação é de tal ordem dramática que muitos recorrem a curandeiros por receio das condições dos hospitais! Não há justiça nos tribunais porque os juízes ou são corruptos ou são condicionados. Os crimes de sangue não são julgados nem condenados. Os de lesa-pátria não são sequer considerados crimes e a impunidade reina solitária!
As contas públicas não têm controlo orçamental efectivo, e ocorre, com regularidade, o insólito de desvios de somas avultadas (que podem atingir milhões de euros!), sem que haja uma instituição idónea para investigar. Sem referir, ainda, que alguns senhores recebem de pensão de reforma até cerca de dez vezes o seu salário na vida activa! Um caso único no mundo e financiado, em certa medida, pela denominada “ajuda ao desenvolvimento” a um país que prefere ser um eterno mendigo.
A corrupção está institucionalizada, a droga chegou e não tem vontade de partir, a pedofilia está quase normalizada, a gravidez na adolescência é frequente. Os valores de referência na sociedade estão subvertidos e criminosos e bandidos tomaram o lugar de heróis — o crime passou a compensar. Os valores da família e identidade enquanto povo estão a ser aniquilados.
Com a sua agenda de iliteracia e pobreza, os senhores de Bissau forçam grande parte do povo a acreditar que a sua pobreza é destino de Deus, que o guineense está condenado a nascer, viver e morrer pobre!
 Além disso, somos, provavelmente, o único país a ter dirigentes analfabetos, constituindo um enorme obstáculo ao progresso. Como se tem visto, a mediocridade e a incompetência têm lugar cativo no topo da hierarquia daquilo a que chamam Estado e que, sem surpresas, se tem limitado a exercer uma gestão corrente letárgica, sem visão nem estratégia, durante estes 44 anos.
2. Nós temos recursos mais do que suficientes para vivermos desafogadamente e não continuarmos nesta indignidade de Estado pedinte.
Temos recursos naturais e marinhos, fauna e flora diversas, além de muita chuva, sol e solo fértil. Mas continuamos a importar grandes quantidades de arroz que, muitas vezes, é impróprio para consumo! A manga é abundante, mas não é exportada, nem processada, apodrecendo no pico do amadurecimento! A castanha de caju é exportada como matéria-prima, mas não há indústria transformadora, geradora de emprego e de mais valor acrescentado para a economia nacional.
Circulam nas nossas estradas esburacadas e pantanosas carros topo de gama, nascem vivendas de luxo como cogumelos em torno da capital, quase todos os governantes possuem bens no estrangeiro, enquanto a população vive na miséria absoluta. Bissau de 2018 é um inferno comparado com 1974!
3. Como foi possível chegarmos a esta situação?
A luta armada contra o colonialismo estava no auge quando o líder e pai fundador, Amílcar Cabral, foi cobardemente assassinado, às mãos dos seus irmãos guineenses. Escrevia-se, assim, o primeiro capítulo do grande Manual de Ódio e Vingança que tem caracterizado o arco de governação da nossa Guiné.
O partido que reclama os louros da libertação nunca conseguiu fazer a devida separação entre um partido de guerrilha e um partido democrático. E alberga no seu seio gente sem competências, vingativa, e sem visão.
A alternativa tanto sonhada nada renovou, pois não passa da emanação do cancro político, em forma de dissidência e, muitas vezes, com pendor tribalista. Limita-se, em nome de interesses inconfessos, a deambular ao sabor de conveniências, sempre que o sistema se fragmenta, desvirtuando a vontade popular expressa nas urnas. Isto explica porque em 24 anos do que chamam democracia nenhum governo eleito conseguiu terminar o seu mandato!
A carta magna não é respeitada! Isso, a nosso ver, porque existe uma manta de retalhos chamada Estado, moribunda e corrupta, incapaz de assumir compromissos de pessoa de bem, e de garantir a dignidade do título e da população que representa.
As próximas eleições, de novo, dependentes de ajuda internacional, são mais um exercício de baralhar e ficar na mesma. São festas em que tudo e todos entram menos o debate de ideias e projectos. Só servem para os pseudopolíticos sorverem dinheiro em nome da democracia, cujos valores renegam no rescaldo do plebiscito, com a chancela (ou indiferença?) dos parceiros de desenvolvimento e da própria ONU. E mais de quatro dezenas de partidos políticos para tão diminuto eleitorado! Por isso, a haver eleições, ganhe quem ganhar, nós vamos perder sempre!
Conforme já mencionámos, temos um país rico, a começar pelas próprias pessoas, que vivem harmoniosamente no respeito mútuo das diferenças étnicas e culturais, caso único em África e, talvez, no mundo. Além da beleza natural do continente e a singularidade do arquipélago de Bijagós, uma das 200 reservas da biosfera do mundo, somos terra de artistas, escritores e desportistas talentosos. País berço do Kora, temos riqueza cultural e histórica ímpar, com o carnaval mais autêntico do mundo. E, ainda, a diáspora, sem dúvida a franja de população melhor qualificada e preparada, pode desempenhar um papel essencial no desenvolvimento do país.
Como povo, julgamos merecer gente honrada e disposta a servir com sentido de Estado uma nação erguida à custa de muito sangue, suor e lágrimas. Gente capaz de promover a democracia e o progresso, com um ideal nobre e não oportunista.
Por isso, apresentamos uma proposta, que constitui o projecto de uma nova nação, detalhada no documento “O que a Guiné fez dos seus 40 aninhos”, acessível nas redes sociais.
A solução que propomos consiste em estabelecer um Programa de Reforma Institucional e Desenvolvimento, sob a égide da ONU, pelo período de tempo necessário para a refundação do Estado e credibilização das instituições da República, promovendo o tão adiado desenvolvimento económico e social.
No âmbito deste programa, e obedecendo a critérios rigorosos de competência, experiência e idoneidade ética e moral, dever-se-á nomear um representante, guineense, para formar e dirigir o Governo de Refundação do Estado e criar um Parlamento ad hoc, com uma representatividade expressiva da sociedade civil. Dever-se-á ainda constituir uma Comissão de Verdade e Reconciliação, inspirada por Nelson Mandela, como via para sarar feridas profundas que alimentam o ódio; acabar com vinganças recorrentes e com o reino de impunidade, unindo o povo na sua caminhada em busca de paz e progresso.
4. Acreditamos que estabelecido um quadro institucional sólido, a nova nação guineense se pode lançar na empreitada de desenvolvimento, bem delineada no referido documento, podendo alcançar, em dez anos, o patamar de um país de desenvolvimento médio. Ou seja, mais do que se fez em mais de quatro décadas.
Findo o período do programa poderá ser possível lançar as sementes da alternância democrática por via de eleições verdadeiramente livres, justas e transparentes.
*Dirigentes da Associação Movimento Cantanhez
In “Público” de 24.09.2018


Uma nota de Leitura

sábado, 22 de setembro de 2018

Eis aqui uma impressão da leitura do livro “História da Escravatura” de James Walvin, edição da Tinta da China. Lisboa, 2014. Gostei. Gostei muito! Penso que o título original – A Short History of Slavery  – traduz melhor o seu conteúdo do que o português. Na verdade o livro aborda, essencialmente mas não unicamente, o tráfico negreiro transatlântico no universo britânico – Inglaterra, América do Norte e as Caraíbas. Fá-lo de forma bem documentada envolvendo os outros mundos esclavagistas, sempre que necessário melhor esclarecimento. Recolhi dados interessantes.
O que me intriga mas não me surpreende é o tratamento dado  – não me refiro ao autor – aos africanos no triângulo África, Europa, Américas: “inimputáveis”. Penso que a cadeia de responsabilidade deve ser estudada sem paternalismos; estes, – paternalismos – podem ser tolerados com alguma compreensão na análise política mas inadmissíveis na análise Histórica. É claro que isto, nada tem que ver com as ignaras pretensões analíticas de Bolsonaro. E é interessante a observação do autor – James Walvin – quando diz: ” … Em 1888, a escravatura extinguira-se no continente americano.” E continua: “Porém o mesmo não se pode dizer de África. Aliás, na altura exacta em que os americanos abandonavam o seu apetite por escravos negros, devia haver mais escravos em África do que nunca, talvez mesmo mais do que aqueles que haviam sido transportados em toda a história da escravatura do Atlântico.” E a este respeito apela para um debate. E faz ainda uma outra, de entre muitas, observação relevante: “Os africanos continuam a ser levados para Norte através do Saará ao longo das rotas de comércio tradicionais, e para Leste , da África Oriental e do Corno de África para os mercados de escravos do mundo islâmico. “ E diz ainda:”Nesta região [mundo islâmico] a escravatura antecedia o sistema de escravos do Atlântico e manter-se-ia muito depois de este acabar, tendo sobrevivido durante mais de um milénio, até ao século XX, e tendo provavelmente subjugado mais africanos do que aqueles que foram levados pelos navios negreiros europeus.” Sintomático e esclarecedor!...
Pois bem, faço esta abordagem porque se tem silenciado a intervenção árabe (islâmica) nesta vergonha universal.
Recentemente e ainda envolto em polémica, fizeram-se denúncias  da censura, da intervenção por parte do canal de televisão Aljazira que pura e simplesmente não passou, subtraiu, eliminou na apresentação, um dos documentários de uma série de quatro, no caso, o primeiro exactamente aquele que demonstrava como os  árabes foram pioneiros e senhores do comércio de escravos, muito antes dos europeus.
Uma nota que me parece de interesse, enquanto lia a «História da Escravatura», na mesma altura li um artigo, ensaio da investigadora brasileira Armanda Rossi, sobre o mesmo tema. De esclarecer que fiz apenas uma leitura cruzada. E como estava a ler "História da Escravatura" pareceu-me que alguns dados se conflituavam. Uma aparência que ainda não deslindei mas que penso fazer quando tiver vagar. Até me sugeriu a avaliação dos conceitos "escravidão" utilizada no referido artigo e "escravatura". Não a análise semântica que me parecem sinónimos. Sem me ter debruçado ainda seriamente sobre este aspecto, pensei na questão de Hitler e mesmo Staline e o seu Goulag, que tinham sob "escravidão" milhões de pessoas o que poderá vir a configurar uma "escravatura" tão cruel e mais numerosa em termos de população envolvida, que a transatlântica. E ainda nesta dicotomia "escravidão" "escravatura" lembrei-me de um dado interessante que o livro me ressaltou: um tempo, ou um lapso de tempo - o autor explica - em que os escravos (ou a comunidade) tinha um tratamento humano - para mim, ausência de escravidão - não por humanismo ou generosidade dos seus donos ou proprietários, mas para a valorização do seu produto (escravo) que nessa condição não só haveria maior rendibilidade no trabalho como a fecundidade/fertilidade seria muito maior, o que era uma preciosa mais-valia económica... Uma distinção entre a "escravidão" e a "escravatura"? Não será seguramente do domínio estrito dos dicionaristas...
 Convém referir igualmente ao começo da escravatura africana portuguesa: ela teve o seu início em 1415 (?) com a conquista de Ceuta e constituiu, praticamente, um único produto dessa conquista para além de um posto avançado de "espionagem". E os árabes (ou islamizados) já a praticavam com estruturas montadas...
Mas aproveito também para me perguntar: E então onde fica o Brasil? Este país só abole a escravatura em 1888. 50 anos depois dos britânicos e mais de 60 depois da sua independência, período em que milhões de escravos foram ainda para ali transaccionados. Depois da proibição do tráfico transatlântico em 1908, ainda foram traficados mais de 3 milhões de escravos, a maior parte para Brasil e Cuba também este já independente havia mais de 60 anos.  Seriam os europeus (portugueses) ou seriam já brasileiros e cubanos?
De quase tudo isto alvitra o livro  de James Walvin, que apela o leitor para uma visão e um entendimento mais alargados do ignóbil fenómeno da escravatura que teve agentes e intervenientes de várias origens, raças e nações.
A.   Ferreira





Recado aberto, urgente e amigo para a Escola Secundária da melhor aluna 2017/2018 de Cabo Verde

segunda-feira, 17 de setembro de 2018



Transmitida na RTC, (televisão nacional) a conversa entre a aluna do 12º- Ano que obteve a média de 19,5 valores e uma Jornalista (para o que se segue convém referir que a Jornalista reportou em português, o conteúdo da entrevista).
A aluna teve Bolsa de Mérito, naturalmente. Até aqui tudo bem. As minhas felicitações.
A Bolsa de Mérito é dada para medicina a ser feita em Portugal. Òptimo!
Agora a parte a um tempo hilariante e revoltante, a nossa menina, não se expressa em Língua portuguesa. Foi significativa a amostragem que disso ficou registado no programa televisivo em que ela foi entrevistada. Expressou-se apenas em crioulo.
Fiquei preocupada com o que vi e ouvi e coloquei a mim própria as seguintes questões:
 1 – Como é possível que a melhor aluna do ensino secundário de Cabo Verde, chegue ao final dos 12 anos de estudos, com a média de 19,5 valores e não saiba expressar-se em Língua portuguesa? (pelo menos foi isso que ficou demonstrado na entrevista da RTC,  num dos Jornais da noite de Domingo, do mês em curso). Simplesmente constrangedor!
2 – Como é possível que os responsáveis da Educação de Cabo Verde, cientes e mais do que sabidos sobre aquilo que se passa com o ensino nas escolas aqui nas ilhas, seleccionem e enviem alunos para Portugal, para cursos como medicina e outros, sabendo que eles não se expressam na língua de ensino que doravante irão enfrentar?
Assim feito, não será condená-los “ab initio” ao fracasso, à frustração, à emigração clandestina,  logo no 1º-  Ano dos estudos universitários?
3 – Será que esta candidata a médica e mais ainda, melhor aluna de Cabo Verde no ano-lectivo transacto, estará apta a escutar e a descodificar o que dirão nas aulas teóricas e práticas, os  seus professores da Faculdade de Medicina?
4 - Dito isto, não estou a culpá-la. Ela é a menos culpada de todos. É a nossa Língua oficial e de ensino, a Língua portuguesa que devia ter sido estudada e falada na escola, pelos seus professores e por ela, aqui em Cabo Verde.  
A culpa está na escola, está nos professores que ela teve e que a não expuseram  suficientemente à língua portuguesa, a qual, até sinal contrário, continua a ser a língua veicular do ensino em Cabo Verde. (consultem senhores professores, a Lei de Bases do Ensino).
Chegados a este ponto, peço-vos senhores professores que me expliquem como é que a vossa aluna, recentemente saída da escola onde ensinais, vai dialogar com os colegas? Tirar dúvidas com os professores? Será em Crioulo? Sim, como é que ela estudará em livros mais complexos conceptual e cientificamente, se não foi exposta à língua que se pratica – oral e escrita - na Faculdade de medicina portuguesa, que irá frequentar?
Deixo aqui manifesta a minha indignação veemente! Não há direito! Estar já a condenar ao fracasso, (infelizmente já vem sendo recorrente em Portugal com alunos universitários oriundos de Cabo Verde) uma jovem cheia de sonhos e de expectativas, na realização dos seus estudos universitários.
Outrossim, isto é chocante pois que daquilo se trata, diz respeito à nossa Língua também. A Língua portuguesa. Ausente e esquecida  na escola cabo-verdiana.
Pois bem, a nossa escola precisa ser denunciada publicamente. O que se está a passar e na minha opinião,  é um verdadeiro crime sem aspas, que o ensino nacional está a cometer actualmente com os nossos jovens que atingem o 12-º ano do ensino secundário, sem serem capazes de se expressarem minimamente, em Língua portuguesa, a língua segunda e oficial deste país  - e isto para não falar também dos fracos conhecimentos das cadeiras científicas com que muitos terminam o ensino secundário -  e que querem prosseguir no exterior os estudos universitários,  sobretudo em Portugal, país para o qual ganha bolsa e/ou vaga, de uma maneira geral, o aluno com melhor média atingida no 12º Ano.
Reitero o que aqui escrevi em tempos, sabemos todos que as notas estão altamente inflaccionadas, que os professores mal ensinam - excepções hão-de existir, estou certa. Mau seria se assim não fosse... -  Logo, a equação bom aluno/melhor média das notas, nem sempre corresponde à realidade do que se passa nas escolas secundárias do País. Uma verdadeira falácia!
Na hora actual, e ao ponto a que a falta de qualidade de ensino, entre nós chegou tudo isso é um autêntico logro! Uma fraude cometida  pela escola pública cabo-verdiana aos alunos.
Para terminar, desejo que a jovem que obteve a Bolsa de Mérito de Cabo Verde e que para Portugal se dirige, aprenda rapidamente e fale com à-vontade  - lendo, ouvindo, escutando rádio vendo tv; conversando com jovens portugueses, com colegas lusófonos; indo ao teatro, entre outras formas de contacto e de aprendizagem de uma  língua viva, de que ela vai necessitar com premência. Só assim conseguirá resultados positivos nos seus estudos de medicina.
  Boa sorte!

Em memória de um professor - uma singela homenagem –

segunda-feira, 3 de setembro de 2018


Falar de professor culto entre nós actualmente, soará ao mesmo que evocar uma “espécie em extinção,” uma “avis rara” aqui nas ilhas. A nossa outrora prestigiada classe sócio-laboral, anda hoje – no geral - mal afamada entre nós.
Ultimamente – reconheço - tenho dito muito mal dos meus actuais colegas de profissão no activo,  salvaguardando sempre as raríssimas excepções, que felizmente ainda restam. Mas de facto tenho sido  muito crítica e por alguns razões em que nelas distingo: a falta de leitura, de estudo porfiado, a ausência de cultura, ausência do saber científico e pedagógico que revelam quando se expressam publicamente e, sobretudo, o não dominarem a língua veicular do próprio ensino que é a Língua portuguesa.  Tudo isso somado e acumulado, tem resultado num enorme e calamitoso prejuízo para os alunos.
Sim, reconheço que tenho “batido” com alguma frequência nesta tecla lamentável para a classe docente no activo, em Cabo Verde. Mas que fazer? Infelizmente a realidade tem sido este quadro nada animador da escola pública cabo-verdiana.
Abro aqui um pequeno parêntese para lembrar o seguinte, antigamente o professor era entre nós considerado e com toda a naturalidade, um agente de cultura. Hoje, quem assim o denominará em sã consciência?... Fecho o parêntese.
Ora, bem ao contrário, o professor a quem dedico este escrito, era exactamente a antítese daquilo que foi referido nos parágrafos acima.
 Esta minha singela homenagem é dirigida à memória de Carlos Alberto Mendes Fonseca, que foi professor do Liceu da Praia. Aposentado e recentemente falecido.
Beto, assim o chamávamos carinhosamente, familiares e amigos mais chegados, pertencia ao tipo de professor sabedor e erudito na disciplina que ministrou ao longo da vida, no caso, Geografia.
Fazem unanimidade os testemunhos de antigos alunos, sobre a forma como o professor lhes explicava os conceitos geográficos de cada ponto programático da disciplina.
Contou-me uma colega e também familiar do Beto que este era muito cuidadoso nas revisões que fazia e que uma ocasião lhe pedira para rever (o português) de  um texto sobre matéria histórica que ela escrevera. Quando vai reaver o seu trabalho, ela encontrou o Beto com vários dicionários abertos, entre eles o de Latim, pois assim melhor corrigiria o escrito. Assim era este professor, cuidadoso e estudioso.
 Bom comunicador nas aulas, Beto Fonseca era tido pelos seus alunos, como rigoroso e assertivo nas suas explicações, e alguém que procurava aprofundar os conceitos explicados indo até ao étimo latino ou grego  de onde provinham os vocábulos que enformavam o conceito que ele queria transmitir à turma.
Dizia-me a minha filha, sua antiga aluna e recordando o querido professor de Geografia, dizia ela que de entre muitas outras definições e conceitos geográficos que aprendera nas aulas de Geogrfia, uma delas -recorda com graça - foi a de pronunciar Florida, sem  articular de forma esdrúxula, o nome daquele estado norte-americano, pois aprendera com o professor de que antes de os ingleses tomarem conta dos Estados Unidos, já os espanhóis haviam-no baptizado como “Florida” e não “Flórida”. Pequenas coisas embora, no entanto  reveladoras do cuidado e da minúcia histórica, geográfica  que ele punha nas suas explicações.
Comigo, sua prima, amiga e colega, tínhamos ele e eu, implicitamente (um não dito, mas sabido por ambos) uma espécie de fraterna competição e/ou desafio semântico, quando nos encontrávamos (com muito menos frequência do que aquela por nós certamente desejada) que era qual de nós se expressava  melhor, indo  ao termo mais correcto e à variante mais culta das palavras que no contexto da nossa conversa surgiam. Um jogo divertido e antigo que fazia parte de uma espécie de rememorar, um tempo antigo da nossa  convivência ainda adolescentes.
  Normalmente o Beto levava-me os pontos...
Aliás, quando com ele dialogava, sabia eu que ele estava sempre certo quanto à precisão contextual de cada vocábulo ou semantema trazido à conversa.
 Os amigos, os familiares dele ressaltam as qualidades de um ser sem artificialismos, naturalmente muito correcto, gentil, estóico e sempre calmo nas suas explanações e nos diálogos entre amigos.
  Luís Fonseca, escreveu um texto na rede social,  com o título:“Na despedida de um amigo...” Com efeito, amizade de longa data, Luís Fonseca guarda dele esta memória que é também nossa e que aqui tomo a liberdade de a transcrever:
“ ...um dos seus traços mais marcantes era a enorme bondade do seu ser, a sua calma e atenção para com as pessoas, uma capacidade fora de comum de suportar situações difíceis, a sua profunda afeição para com os amigos.”
 Na mesma linha, e bem achadas para rematar este escrito sobre Beto Fonseca, foram as palavras do nosso amigo e colega, Óscar Ribeiro. Palavras emblematicamente simples e criteriosamente definidoras do perfil de Carlos Alberto Mendes Fonseca: “...dedicação, trabalho, seriedade e honestidade, levas contigo...”
Até sempre, querido Primo! Lá iremos ter todos. Apenas uma questão de vez.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ontem, 15 de Agosto, a Cidade da Praia celebrou a sua santa padroeira, Nossa Senhora da  Graça.  O texto que se segue foi escrito há 68 anos pelo então Pároco da Praia, Francisco de Deus Duarte e nele o autor nos dá conta da fundação da Freguesia em louvor da santa.

A FUNDAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA DA CIDADE DA PRAIA
Pelo Padre Francisco de Deus Duarte
No dia 3 de Maio de 1460, as caravelas de Diogo Gomes e António da Noli, os descobridores de Cabo Verde, lançaram ferro, pela primeira vez, no pequeno porto da freguesia de Nossa Senhora da Luz desta ilha de Santiago.
Faço esta afirmação, sem receio de errar, porque os nossos antigos cronistas afirmam que os primeiros navegadores fundearam nesta ilha, num pequeno porto onde encontraram uma praia de areia branca. Se se der uma volta à ilha, se se percorrer as suas costas, não se encontra outro porto com baía de areia branca. Foi, pois, sem dúvida, na linda baía de Nossa Senhora da Luz, que os navegadores chegaram, pela primeira vez.
A caravela de António da Noli, mais veleira do que a de Diogo Gomes, avistou, primeiro, o ponto mais elevado da ilha, e os marinheiros, doidos de alegria, todos à uma, no tombadilho, gritaram: Um pico, capitão! Um pico, capitão!
Fica, assim, restabelecida a verdade dos factos. O pico chama-se «de António», em honra ao descobridor António da Noli, e não «de Antónia», como erradamente dizem os compêndios primários. O próprio vàdio, ainda hoje, sempre que se refere ao pico, diz: piqui’Intoni. Os navegadores, descobertas as ilhas de Santiago, Fogo, Brava e Maio, regressaram à Metrópole, a dar a boa nova ao grande Infante, ao Sonhador de Sagres. Dois anos depois, em 1462, e segundo outros, em 1464, voltaram a Cabo Verde e descobriram as outras ilhas. O grande Infante, como recompensa dos bons serviços prestados por António da Noli, nomeou-o primeiro donatário e capitão-mor desta ilha de Santiago, e foi ele fundador do berço da população caboverdeana. O seu túmulo jaz na actual igreja matriz da freguesia de Santíssimo Nome de Jesus, na capela-mór, do lado da epístola.
De início fundaram-se duas capitanias-móres: a do Sul, no sítio da Ribeira Grande da freguesia do Santíssimo Nome de Jesus, e a do Norte, no sítio denominado Alcatraz, freguesia de Nossa Senhora da Luz. A capitania do Sul progrediu muito civil, religiosa, militar, comercial e industrialmente sendo o seu porto muito frequentado. A capitania do Norte caiu em decadência, e os seus habitantes, em 1520, emigraram para o porto de Santa Maria, que era ao tempo, uma pequena aldeia de pescadores.
A nascente povoação progrediu tão rapidamente que 35 anos depois, isto é, em 1555, se edificou, no sítio onde, hoje, se constrói um parque infantil, uma igreja coberta de colmo, sob a invocação de Nossa Senhora da Graça, ficando assim fundada a freguesia, que foi provida de pároco.
Volvidos anos, artistas vindos da Metrópole, construíram por ordem superior, no mesmo sítio, uma igreja de pedra e cal, com dois corpos, coberta de telha, igreja que prestou serviços, durante muitos anos, mais de dois séculos, porque só em 1895 é que o ilustre Governador Serpa Pinto, sendo Director das Obras Públicas o General Torres, mandou construir a actual igreja, que serve de matriz à freguesia de Nossa Senhora da Graça da cidade da Praia. A bela e rica igreja concluída em 1900 e, no mesmo ano, exposta ao culto público, tendo celebrado nela, pela primeira vez, o ilustrado filho desta ilha, o falecido cónego António Duarte da Graça, orador, estilista e poeta.
Praia, 17 de Novembro de 1949
In Boletim Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Nº 4 – Ano I – Janeiro de 1950

O perfil actual do candidato universitário

terça-feira, 14 de agosto de 2018


Há dias escutando um debate televisivo, um dos intervenientes , o  Prof. Marçal Grilo, a propósito da Educação, dizia ele que antigamente quando se ia para a escola das primeiras coisas que o professor ensinava aos alunos era saber sentar-se e, levantar-se quando entrava uma visita na sala de aula.
Acontece é que os professores traziam isso na sua bagagem social, cultural, hoje os nossos professores, a maioria, não conhece regras, desconhece valores. Logo, não as poderá transmitir.
Aqui e agora refiro-me já à escola cabo-verdiana que infelizmente hoje está em colapso. Em quase tudo. Na transmissão científica de conhecimentos, na língua veicular do ensino, enfim em toda a edificação do saber, que é a dimensão primeira do ensino, obrigação transcendente da escola. Tudo isso  se encontra em derrocada total em Cabo Verde.
Li recentemente, num artigo no Jornal «Público» de 6/08/18 - intitulado: «Os Professores dos nossos netos» - assinado por João Cerejeira e Miguel Portela, um conceito de escola/ensino/aprendizagem sobremaneira interessante e fundamental. Dizia o seguinte: “... É reconhecido que nenhum sistema de ensino pode ser melhor do que os seus professores. (...) Quanto maior for a capacidade cognitiva do professor, melhor será a capacidade cognitiva dos alunos, nomeadamente para alunos oriundos de meios mais desfavorecidos para os quais o contexto familiar não compensa eventuais falhas obtidas na escola. É, pois, necessário planear o acesso à profissão docente, de forma a garantir a existência de muitos bons professores, porque deles depende o futuro da educação, enquanto base do desenvolvimento social e económico”. (...) O declínio do reconhecimento e da imagem social dos docentes enfraquece as aprendizagens, o ensino e a sociedade. (...) É, pois, claro que o reforço do prestígio e da cultura profissional docentes tem impacto na melhoria das aprendizagens, não só nos alunos actuais, mas também nos alunos futuros. Para ter bons professores, é preciso atrair os melhores alunos para a profissão.” Fim de transcrição.
O artigo referenciado, aludia ainda ao facto, para exemplo, de que deviam ser previstas entrevistas com os responsáveis para se aquilatar a motivação, a adequação dos candidatos à docência. A não realização deste rito, é à partida, uma falha, para se intuir de um futuro bom ou mau docente.
Pois bem, voltando ao que se passa entre nós, um dos assuntos mais controversos actualmente, andará à volta do perfil dos candidatos que Cabo Verde selecciona para  as vagas universitárias em Portugal.
Regra geral, são seleccionados os alunos com as melhores classificações - note-se: não são os melhores alunos de facto. São os que têm maior média de notas, estas por sua vez, altamente inflaccionadas, e dadas por professores, na maior parte, medíocres, tanto na formação, como na transmissão de conhecimentos. Esta é a realidade crua e dura por que passa  nos dias que correm o  ensino/escola/aprendizagem aqui nas ilhas.
Efectivamente, os alunos, candidatos com o 12º Ano do ensino secundário e com maiores classificações,  têm  preferência para as vagas  em Portugal, colocadas à disposição do Governo de Cabo Verde, nas universidades e nos institutos politécnicos. São as preferidas. As mais concorridas. Há uma grande procura. É natural, percebe-se a opção. Trata-se regra geral, de uma boa formação em país de língua e cultura muito comuns. Relativamente perto geograficamente. Quase todos, têm lá parentes e algum apoio, o que dá conforto. Tudo isso é entendível, perfeitamente compreensível para a procura competitiva de vagas para cursos superiores em Portugal. É um facto.
Só que nesta demanda, não são salvaguardados os aspectos essenciais para um razoável sucesso do aluno. A saber: se o aluno se expressa em língua portuguesa, se o aluno a fala e a escreve com o nível adequado aos anos de escolaridade, no pressuposto de a ter tido como língua veicular do ensino; se o aluno tem saber firmado do 12º ano das disciplinas científicas, e específicas para o curso para o qual se candidatou à vaga em Portugal.
Mas mais, a não salvaguarda desses factores essenciais, vem concorrendo para o enorme “desaire” dos nossos formandos em Portugal.  Um mau exemplo: narra-se que muitos dos estudantes enviados para os pólos de engenharia de uma cidade no interior de Portugal, dos melhores do país, mal-sucedidos nos primeiros anos, concorrem para bombeiros ou para empregos  bem precários. Enfim, à semelhança do que se passa nos pólos daquela cidade, o mesmo sucede noutras instituições universitárias portuguesas.
E assim temos jovens que acabam por entrar na chamada emigração clandestina.  Não regressam. Mas disso não há estatística. Resultado:  projecto inacabado. Compromete-se o futuro. Perde o formando. Perde Cabo Verde. Para além da eventualidade, do risco, de nos serem recusadas no futuro, vagas nas instituições de ensino superior no país de acolhimento.
Infelizmente, a situação que se desenha é esta: o galopante insucesso que tem havido com os estudantes cabo-verdianos nos últimos anos, pode contribuir para desaparecer também, essa boa oportunidade de formação no exterior para os nossos jovens.
Abro aqui um parêntesis para dizer o seguinte: pouco ou nada sei sobre o que se passa actualmente no Brasil, com os nossos estudantes que para lá vão. Creio - não tenho a certeza disso - correm rumores de que o Brasil resolveu  nos últimos anos, parte do problema, criando cursos, tipo “terceiro-mundo”, especificamente dirigidos aos mal preparados alunos cabo-verdianos. Será assim?? Dito isto assim, não estou a culpar o Brasil. Fecho o parêntesis, mas não a minha profunda tristeza!
Mas minha gente, recuemos um pouco no tempo. Após a independência, os nossos formandos demandaram também para estudos universitários,  países como a Espanha, a França, a Rússia, a Alemanha, entre outros, e em todos eles, aprenderam a respectiva língua veicular do ensino e formaram-se.
É imperativo que se repare que eles outrora levavam na sua bagagem académica, para além de conhecimentos científicos adequados ao curso almejado, haviam interiorizado, através da leitura e da escrita, uma sólida e rica estrutura linguística - a Língua portuguesa – para alguns casos de origens semelhantes (Latim) às línguas dos países para onde foram estudar.  O facto de saberem o português, tê-los-á na certa, ajudado na integração no meio académico estrangeiro.  Igualmente tinham do Liceu, o Francês e o Inglês.  
Para mal dos nossos pecados, tais pressupostos já não se verificam hodiernamente, com o saber e a consistência de então.
Não vá sem acrescentar a má notícia ouvida de que as ilhas Canárias, aqui ao lado, declinaram o acolhimento de estudantes cabo-verdianos, justificando-se com a incapacidade destes em aprender a Língua espanhola (?) possivelmente também ao lado da má preparação científica, que levam das escolas secundárias cabo-verdianas. Ao que isto chegou!
Com efeito, se bem ensinados estivessem na Língua portuguesa, se bem capacitados estivessem nos fundamentos científicos de cada disciplina, estudados em livros escritos em português – era o que acontecia ainda, há sensivelmente duas décadas  atrás – seriam portadores de uma boa e sólida estrutura linguística, cognitiva, capaz de fazê-los apreender com relativa facilidade a outra língua.
Tanto mais tratando-se de duas línguas próximas uma da outra. Ambas filhas do Latim em hiper - estratos etimológicos, e com outros semelhantes substratos e adstratos etimológicos vindos do grego, árabe, entre outros, que formataram tanto o espanhol como o português. Infelizmente, sejamos realistas e directos: mais uma vez, aqui se revelam a grande falta, os enormes estragos e os rombos causados e devidos ao mau ensino ou, ao não ensino de todo, da língua segunda e oficial do país, na preparação da vida futura dos estudantes cabo-verdianos.
Uma autêntica erosão cultural, uma calamidade! Um empobrecimento! E acima de tudo: um retrocesso!
Para amenizar esta tragédia, narro aqui uma situação, no mínimo caricata, vivida ainda recentemente por uma colega professora que embora já das mais antigas, ainda se encontra no activo. Contou-me ela que estando na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia, foi-lhe pedido - pela funcionária da sala de leitura - se podia ajudar um grupo de alunos em apuros para encontrar uma obra de consulta em matéria antropológica, cultural.  Encontrado o livro, ela dispôs-se a ajudá-los e, quando começou a explicar um pouco da matéria sobre a qual eles indagavam, foi abruptamente interrompida por um deles, que disse em crioulo: “Explique-nos isso em crioulo, pois em português não  a entendemos.”  Admirada, interrogou a minha colega: “...Espera aí! vocês são alunos de que ano?” Responderam: “Somos do 1º Ano do Curso, Estudos Portugueses e Cabo-verdianos da Universidade de Cabo Verde.”  Ela indignada, já ao rubro (subiu-lhe à face o “lume vulcânico” como me disse) ripostou: “Francamente! O que os vossos professores e vocês estão a precisar é de cadeia!! Imagine-se! Futuros professores de português, já em formação! Com o 12º ano feitos! E nem percebem uma explicação dada na língua veicular do ensino? ..."  Foi um momento e tanto! Desabafou a minha amiga.
 Note-se que  tudo isto vem sendo o quotidiano do ensino, a rotina instalada nas nossas escolas.
Quando é que paramos para reflectir sobre isso? O fingir que isto não está a acontecer, é escandaloso e em nada ajuda.
Assim procedendo, estamos a cavar despudoramente o nosso retrocesso em termos de quadros e de recursos humanos capazes, tanto para a realização pessoal dos próprios jovens escolarizados, como para o desenvolvimento do país.






quarta-feira, 1 de agosto de 2018

À volta dos contos de Baltazar Lopes

A colectânea de Contos intitulada «Os Trabalhos e os Dias» de Baltazar Lopes, que me serviu de apoio para este escrito, é uma edição de 1987, do extinto Instituto Cabo-verdiano do Livro, antecessor do actual Instituto da Biblioteca Nacional.
Trata-se de uma colectânea que traz uma nota biográfica sobre o autor assinada por Manuel Ferreira, que terá sido o organizador desse conjunto de contos, e prefácio do poeta Arménio Vieira que fez uma análise de pormenor bastante interessante e assertiva, de cada história.
São dez, os Contos compilados nesta edição, a saber: «A Caderneta», «Dona Mana», «Balanguinho», «Muminha Vai Pa ra a Escola», «Egídio e Job», «Nocturno de Dona Emília de Sousa», «O Construtor», «Pedacinho», «Sileno» e «Os Trabalhos e os Dias».
Pois bem, os Contos de Baltazar Lopes, conheceram publicação de estreia sob forma dispersa em revistas à época prestigiadas, tais os casos de Claridade, Vértice, Boletim Cabo Verde, Raízes, entre outros periódicos de teor literário e cultural. Daí também o mérito desta compilação de há mais de três décadas que reuniu num único volume estas peças singulares, saídas da pena maravilhosamente culta e poética de um grande vulto das Letras cabo-verdianas, que foi um “caçador de heranças”, no poema homónimo de Osvaldo Alcântara – que serviu de título a um ensaio de Gabriel Mariano – em que o sujeito poético acompanha o enterro de um capitão das ilhas, como quem enterra simbolicamente, um tesouro, uma arca de memórias, cujos eflúvios procura captar.
Entrando agora na teia das diferentes histórias narradas na Colectânea, começaria pelo conto «Muminha Vai Para a Escola», na minha opinião, o mais bem urdido e conseguido neste conjunto.
O interessante é que consigo filiá-lo na linha directa do tipo e da arte de narrar de «Chiquinho», romance emblemático do autor.
É que Baltazar Lopes da Silva, trabalha com primor as memórias infanto-juvenis, levando o leitor de volta, de certa forma, à sua própria vivência, agora sob forma de reminiscência, através de uma linguagem densamente poética e maravilhosamente tecida. O narrador deixa-nos entrar no universo da intriga ficcionada a que não faltam nem a crueldade, nem a generosidade muito próprias e peculiares nas crianças.
A narrativa prende e enleia o leitor numa leitura emotivamente solidária. O narrador condu-lo (o leitor) ao drama de “Muminha” o protagonista, aparentemente bafejado pela sorte material, motivo de alguma inveja entre os colegas pertencentes a um estrato socio-económico menos favorecido, mas o final da narrativa encarrega-se de nos esclarecer acerca da conduta introvertida e apenas defensivamente “aristocrática,” do protagonista.
Efectivamente, estamos perante um belo conto exemplar. «Muminha Vai à Escola» é dedicado a Bento Levy, Director do célebre «Boletim Cabo Verde», (1949/1964) onde o conto foi publicado pela primeira vez, num dos números daquele periódico, nos anos 50 do século XX.
Logo a seguir, nesta hierarquia classificativa e obviamente, subjectiva, vem o já considerado clássico, «A Caderneta», um primor de monólogo em que o leitor pressupõe o diálogo que subjaz entre a protagonista que recusa o apodo de prostituta, que a caderneta lhe conferiria e o advogado “senhor Doutor” que ela deseja que a defenda com aquele saber e a generosidade que ela lhe conhece do antecedente.
Abro aqui um pequeno parêntesis, para recordar a peça de teatro do Mindelact baseada na «Caderneta» e apresentada em São Nicolau, em Abril de 2007, aquando das comemorações do centenário do nascimento de Baltazar Lopes da Silva e a que tive o prazer enorme de assistir porque maravilhosamente interpretada pela actriz Mirita Veríssimo desse Grupo teatral. Fecho o parêntesis e volto aos contos.
Relativamente às duas histórias – “Dona Mana” e “Nocturno de Dona Emília de Sousa” – embora diferentes e distintas nos enredos, mantêm, no entanto, um ponto comum: ambas as protagonistas, estão em desgraça social e familiar no momento histórico narrativo e encontram-se a viver na ilha de São Vicente.
Mas do passado, da ilha de origem, São Nicolau, guardam marcas e ainda vestígios de um tempo, de uma vivência mais bonançoso, mais farto, no qual elas eram socialmente bem enquadradas.
Vicissitudes várias, e bem explicadas pelo narrador, levam-nos a entender o presente das personagens principais, reflexos de uma migração de gente de São Nicolau para Mindelo num tempo de seca e de carestia de vida. Recordo-me de que li algures (suponho que na “Mesa-Redonda sobre o Homem Cabo-verdiano,”1956) numa das excelentes  intervenções de Dr. Baltazar, de ele ter afirmado que vira pessoas em S. Vicente, pobres, mal-nutridas, com vergonha da sua penúria, e que outrora as havia conhecido,em São Nicolau, a viver com algum desafogo económico.
No fundo, a tragédia antiga das ilhas agrícolas, retratada também nestes dois contos. O final de «Nocturno de Dona Emília de Sousa é nisso claramente ilustrativo: de “Dona Emília de Sousa”, acaba em “Nha Milinha”.
O Contista transpõe para algumas das suas histórias a sua experiência de advogado, (pro bono) defensor dos mais pobres e dos mais vulneráveis. O drama exposto em «Dona Mana» desenrola-se numa sala do tribunal da cidade do Mindelo.
Uma nota também interessante da parte do autor, é que ele partilha os espaços e os cenários dos seus contos para além da sua ilha de eleição, S. Nicolau.
E é assim que vamos ter a história de «Balanguinho» e a de «Os Trabalhos e os Dias» a terem por cenários, espaços e zonas da ilha de Santo Antão. Já o conto «Sileno» desenrola-se na ilha da Boa Vista. S. Vicente constitui o cenário e o espaço em que circulam as personagens dos contos: «Dona Mana», «A Caderneta», e «Nocturno de Dona Emília de Sousa».
A terra no seu sentido cosmogónico e telúrico do qual o homem se sente parte inalienável, e unitário, está muito bem configurada em «Balanguinho», a propriedade agrícola, dos antecessores da protagonista, Mamã Marcelisa, cujo amor por essa parcela de chão, simboliza, por um lado, a profunda ruralidade que acompanhou outrora o habitante de ilha agrícola, e, por outro lado, a maternidade, a fecundidade da boa terra que não trai - pelo contrário - recompensa com grãos e com frutos, quem nela pensa e cuida com esperança e com perseverança.
E essa mesma relação que ouso denominar de “uterina,” vamos de novo encontrá-la num outro conto desta colectânea, «Pedacinho». A bela sombra, o local de acolhimento e de recolhimento do narrador/protagonista, que tem naquele chão, a paz e uma espécie de reconciliação consigo próprio e com o mundo.
Na esteira dos contos inseridos na colectânea, temos a loucura criativa, que confunde a realidade e a imaginação, e que está soberbamente contada na narrativa «O Construtor». O protagonista, o Sr. Alberto, já idoso, armou no quintal, da sua residência um verdadeiro estaleiro, onde intenta construir, dois barcos – o “Estrela da Manhã” e o “Arlequim”. Chegados ao enredo, o leitor é convidado a transpor fronteiras deslizantes e sem balizas divisórias, entre a realidade e a imaginação. Um conto excelente enquanto temática ligada ao mar e pertencente ao domínio do fantástico.
A metáfora e a paráfrase estão representadas e bem, no conto «Egídio e Job», que recria o episódio bíblico, transfigurado em cenários e personagens ilhéus.
Aproveitaria a oportunidade para aqui registar em jeito de síntese, o comentário final do prefácio de Arménio Vieira à edição de 1987, da obra em análise: “(…) o acto de escrever, quando assumido com seriedade, é uma espécie de viagem, apaixonante, por certo, mas com alguns escolhos pelo meio e tormentosos por vezes” (…) e continua:“(…) Baltasar Lopes, o contista (…) sabe dos riscos que correu ao longo dessa travessia. Mas isso já não importa, uma vez que a nave foi conduzida a bom porto.”(Fim de citação).
Não poderia estar mais sintonizada com as palavras de Arménio Vieira. Daí também o meu desafio à Editora Pedro Cardoso, que tem feito obra notável em matéria de edições, de reedições de clássicos nacionais, para que tome em mãos este encargo frutífero de trazer para as novas gerações os contos de Baltazar Lopes – memórias sociais e históricas das ilhas genialmente efabuladas – os quais, merecem ser (re)lidos por leitores dos tempos hodiernos, enquanto passagens de um testemunho, não só da condição de ilhéu, mas também de um passado que moldou a nossa idiossincrasia.
Chegados ao fim da revisitação dos contos incluídos nos «Trabalhos e os Dias», é tempo de convidar o leitor a fazer o mesmo ou, a conhecer – porque vale a pena – o lado contista do grande e multifacetado autor, poeta, romancista e filólogo que foi Baltazar Lopes da Silva.
Nota devida: este Artigo foi publicado na Revista «Leituras» nº- 2 Abril/Junho 2018 da editora Pedro Cardoso.